Volume 2
Capítulo 135: SILÊNCIO DOS INOCENTES
Kai sabia que a sua luta contra Sorrateiro seria árdua e perigosa.
Mas não imaginou que teria de usar seu último recurso para sair dali com vida.
Ashvai fora firme em dizer que ele deveria apenas causar pânico. Nada de chi. Nada de energias incomuns.
E aqui estava ele, quebrando uma promessa que fez a si mesmo.
Porque o chi não somente entregaria sua identidade — presumindo que Abeeku sabia sobre ele — como também daria motivo para a Voragem. Porque ela usava esse poder como uma âncora.
E mesmo que os Esquecidos tenham-no ajudado a lidar com isso… ainda estava cabreiro. Usava apenas o necessário.
Mas o necessário para ele não se mostrou útil contra Sorrateiro.
Porque o sujeito era imortal. E vil. E insidioso. E venenoso.
Então, onde quer que Ashvai estivesse, não parecia perto de vir em sua ajuda.
O que significava que Kai estava sozinho. E ele não queria pagar para ver.
Respirou fundo, e permitiu que o chi permeasse por seu corpo. Era… bom.
Fazia tempo que não usava a energia nem o toque da Voragem. E era bom.
O chi invadiu seus canais e veias. Lhe deu mais vitalidade. Encheu seus pulmões e um vórtice girou abaixo do seu umbigo. Essa energia percorreu seu braço e tocou o cabo de Tirise, passando por sua guarda e lambendo sua lâmina.
Ela chiou. O céu ficou escuro. A multidão se calou.
Sorrateiro inclinou a cabeça, confuso. Kaedor deu um tapa no batente da mureta e soltou uma gargalhada.
Uma criança chorou ao longe. Um animal uivou. Um velho tossiu.
E Kai estava de olhos fechados, suspirando fundo.
Sua percepção havia envolvido boa parte da arena, e ele sabia mais do que deveria. Isso provavelmente delatara sua identidade. Mas não estava nem aí.
Vento Noturno começou a tremer em sua mão. Ele olhou para ela e sorriu.
“Eu sei, amiga… está com sede, não é? Eu também.”
— O que tá cochichando aí, vadio?
Lâmina ergueu o rosto. Deslizou para uma nova postura — pés leves, base fluida, o corpo nunca rígido, sempre em trânsito — como se cada músculo obedecesse ao fluxo de uma corrente invisível.
Vento Noturno descreveu um arco baixo e contínuo, a lâmina ondulando como maré prestes a engolir a praia, e então veio o primeiro golpe.
— Mizugiri.
Um corte que não buscava força — insistia. Uma vez. Duas. Quatro. Sorrateiro reagiu com um riso torto, cruzando as cimitarras num contra-ataque em espiral.
— Dança do Carniçal.
Suas lâminas giraram em ângulos imprevisíveis, tentando quebrar o ritmo de Lâmina pela violência.
Mas ele não quebrou. Ele cedeu. Girou junto. Absorveu. Cada golpe que vinha era redirecionado, diluído, devolvido. Um passo à frente — dois cortes rasantes. Um recuo mínimo — lâmina ascendente.
Então o chi respondeu. Vibrou. E Kai afundou ainda mais no fluxo, liberando outro golpe profundo.
— Kamaitachi: Nagare.
Chi ondulou pela lâmina, se estendendo centímetros além dela, criando uma borda invisível no ar.
Quando Lâmina desferiu o golpe, uma sequência contínua surgiu antes da lâmina chegar, criando cortes invisíveis que empurravam Sorrateiro para trás como se o próprio espaço o rejeitasse.
Quem visse de fora, mal via a sequência de golpes completar a última.
Mas Lâmina via. E Sorrateiro sentia.
Cada golpe era rápido e transigente o bastante, sempre puxando o próximo.
O sorriso doentio de Sorrateiro vacilou por um instante. Só um. O suficiente para ele rosnar e avançar com tudo, cravando uma das cimitarras no chão e usando o impulso para girar o corpo em um chute descendente mirando a clavícula de Lâmina.
Mas Lâmina já não estava lá. Ele havia fluído para o lado, surgindo na linha morta do ataque, Vento Noturno agora baixa, tremendo… faminta. E naquele instante, no coração do segundo round, Sorrateiro entendeu — não com lógica, mas com instinto — que algo havia mudado.
A luta deixara de ser uma troca. Tornara-se uma maré. E ele… estava começando a afundar.
Os cortes de Lâmina haviam mudado, e ele sabia disso. Por isso se lançou à frente.
Mas… essa postura de Lâmina Tardia era calma demais… tranquila demais. Ele cruzou as cimitarras e golpeou para frente em um golpe devastador.
— Dor Ancestral — disse Sorrateiro, gargalhando.
Lâminas escuras e curvas surgiram no lugar onde Sorrateiro rasgou o ar. Elas pululavam o ambiente, tornando-o mais tóxico do que já eram.
Esse golpe era muito diferente das lâminas invisíveis de Kai, que cortava o próprio ar.
Era mais… uma lâmina criada com alguma habilidade insidiosa, feito uma extensão das próprias lâminas da criatura.
Apenas de olhar, sabia-se que carregavam doenças. Morte.
Ela rapidamente cruzou o pequeno trecho entre eles, pronta para dilacerar Lâmina Tardia em mil pedaços.
Mas ele… sequer parecia inquieto.
Lâmina Tardia deu um passo forte à frente, e sua intenção vazou desenfreada. Aqueles da multidão mais perto chegaram a desmaiar de tamanha a vontade de Lâmina.
Estava irritado.
Ergueu sua espada acima da cabeça e, antes que o golpe pudesse sequer terminar de se formar, ele golpeou de volta.
As lâminas doentias de Sorrateiros rebateram na espada e voltaram pelo mesmo caminho. Pôde-se ouvir um Oh! das arquibancadas.
Sorrateiro abriu a boca, sobressaltado. Tinha questão de segundos antes de escapar das lâminas que rasparam um pouco no chão, deixando rastros de destruição.
O insidioso campeão pulou para o lado a tempo, enquanto suas lâminas — que acabaram mudando um pouco de direção — cavaram fundo no chão da arena. Eram deveras muito perigosas.
Sorrateiro bolou por sobre o ombro, saltou para suas pernas e já estava pronto para retalhar, mas algo diferente aconteceu.
A meio metro dele estava Lâmina Tardia.
Estava parado com suas duas mãos sobre a espada, enquanto uma energia azul escura permeava a lâmina. Sua capa esvoaçava furiosamente devido à força dessa energia.
Essa luz azul iluminava o rosto de Lâmina Tardia, que ainda usava a máscara branca de um rosto neutro. A imagem era… assustadora.
Sorrateiro foi pego de surpresa, e algo sobre esse golpe dizia que ele devia desviar a todo custo. Mas o espaço era curto… e o tempo, mínimo.
Tudo o que pôde fazer foi dar um salto para trás e erguer suas cimitarras em defesa de si.
Entrementes, uma camada roxa de energia cobriu a camada azul que fluia lentamente, e um choque de intenção vazou dela, ameaçadora. Era como uma imensa onda.
O vento uivou, diferente de como uivava.
Tudo ficou tremendamente quieto. Ninguém disse nada. Nem na arquibancada, nem fora dela.
Era como se o mundo parasse para ouvir a vontade e os desejos de Lâmina Tardia, que parecia pronto para pronunciar alguma coisa.
Em vez disto, ele deu um único passo curto para frente, e cortou o ar de forma horizontal. E pronunciou palavras quase um barítono.
— Kama’i…
Nada aconteceu. Um pássaro grasnou, muito longe, e a energia cessou lentamente da espada de Lâmina Tardia.
Suando frio, Sorrateiro ergueu um sorriso nervoso.
“O que raios foi isso? Um blefe mortal? Maldito, vai ver s—”
Antes que Sorrateiro completasse seu pensamento, uma rajada rasgou o ar à sua frente, e logo essa rajada o atingiu no centro de sua defesa.
Primeiro, suas espadas foram reduzidas à milhares de pedaços minúsculos. Em seguida, mais destes milhares surgiram em Sorrateiro, em forma de corte, dilacerando sua carne, sua roupa, seu corpo, dos pés à cabeça.
Ele gritava, sentindo uma dor que nunca sentira antes.
E não parava por aí. Esses cortes não paravam de surgir em seu corpo, puxando a carne que acabava de surgir por baixo da dilacerada. Os cortes eram mais rápidos do que a habilidade dele de se curar.
E esses cortes eram alimentados por chi. Lâmina Tardia estava de joelhos, a espada ainda em riste, como se estivesse no meio de um corte.
Sangue jorrou, e Sorrateiro urrou.
— AH! AH! AH!
Ele gritava, se afogando em seu sangue enquanto a carne falhava em se curar. Quase dois minutos depois, a carne já não se curava mais, e seus tendões e músculos prendiam, sangue jorrando e mais cortes surgindo.
— KAEDOR — urrou Sorrateiro. — ME AJUDE! ELE IRÁ ME MATAR. ME AJUDE! SINTO QUE—
Mas Kaedor Vaelrys nada fez além de acenar com a mão.
A multidão agora estava de pé, observando enquanto Sorrateiro era reduzido à mil pedaços.
— ISSO NÃO VAI ME IMPEDIR, MALDITO! FILHO DA PUTA! EU VOU VOLTAR, OUVIU? EU VOU—
Mas algo o impediu. Os cortes…
“O maldito… o maldito… está cortando até mesmo minha alma… meu ser… a minha…’’
Mas nada que Sorrateiro dissesse ou pensasse, mudaria seu destino.
No quinto minuto de retalho, gritos, sangue e carne se refazendo, sobrara apenas uma bússola sobre a carcaça de Sorrateiro.
Então Lâmina Tardia finalmente trouxe sua espada num movimento fluído e pôs sua ponta na bainha, guardando-a lentamente, um punhado de energia escapando como água.
— …Desmembramento… Secular.
Kai imediatamente sentiu o rebote. Ele cambaleou, mas se manteve de pé.
Por baixo da máscara, estava pálido, e sabia que logo logo a voragem viria cobrar seu preço.
Ele tocou a ampulheta com um pensamento — já era natural para ele, agora. A areia ondulou fracamente, e sua luz piscou por um breve momento. Mas sequer respondeu ao seu toque.
Dos quatro objetos dos Esquecidos, a ampulheta era o mais confiável, por cobrar uma taxa que Kai estava disposto a pagar.
Kai ponderou entre o Capuz e a Pulseira. O primeiro o deixava muito apático, e só poderia usar um vez a cada dia. Ele já havia usado neste dia de hoje. A pulseira o deixava confuso, e era tudo o que ele não precisava agora.
O que restava…
“Porcaria.”
Yegar fora cético quando disse — na verdade quem disse foi Liorah — que este último objeto só deveria ser usado em caso de vida ou morte. Kai não tinha escolha.
“E ela disse que não usasse muitas vezes. Espero não ter que usá-lo outra vez… provavelmente nunca mais.”
Sob os gritos da multidão ao redor Kai se ajoelhou e fingiu respirar pesado. Não era bem um fingimento, mas…
Ele fechou os olhos e buscou não o objeto, mas o vazio que ele havia deixado. Tocou a ausência — e a dor veio junto. Seus dedos se contraíram no ar, puxando a lembrança como quem arranca um fio do próprio peito.
O espaço diante da sua mão se fissurou em silêncio, uma rachadura fina, instável… até ceder. Com um estalo seco, a realidade se costurou ao contrário, e o objeto foi arrancado de volta para sua palma, ainda tremendo, como se também resistisse a existir outra vez.
“O Caco de Espelho de Zaraan.”
Kai havia visto apenas uma única vez. Mas era claro que tinha uma presença imponente.
Tratava-se de um pequeno pedaço triangular de cristal esfumaçado e barro endurecido. As bordas eram irregulares e afiadas, envoltas em barbante vermelho vivo. Sua superfície refletia um brilho pálido, sem acompanhar uma luz real.
Kai segurou o objeto ergueu brevemente a máscara e… o observou. Então uma Sombra se tornou visível por alguns segundos, ficando vulnerável.
Formas foram refletidas. Rostos antigos… de pessoas que ele não havia visto há muito tempo.
Ele viu alguns criminosos que há muito esquecera os rostos. Viu mercenários da noite em que perdeu seu núcleo. Viu aquele mago que matou o menino Vitanti. Viu Shimon…
Não sabia o que isso queria dizer, mas ao encarar demais, soube que estava fazendo um péssimo negócio.
O Caco estava mais do que silenciando a Voragem. Estava sugando parte de sua alma. E ele não queria isso. Então rapidamente reverteu o processo que trouxe o objeto à sua mão e ajustou sua máscara.
Seu cansaço não havia diminuído nem um pouco, mas pelo menos podia ficar despreocupado quanto à Voragem.
Estava pálido. Seu corpo pulsava junto dos cânticos da multidão.
Pronunciavam sua alcunha seguida de SANGUE e VITÓRIA. Parecia ter se tornado aquilo que eles queriam.
Era seu vencedor.
Mas não se sentia nem um pouco assim.
Caminhou lentamente até a pilha que era o corpo de Sorrateiro.
Não havia mais carne à vista. Apenas uma pilha de ossos marcados por manchas escuras.
A bússola descansava sobre uma pilha de roupas. Ele moveu o pé sobre ela e reduziu-a à estilhaços.
Ela piscou com uma luz fraca, mas logo se apagou. Nesse momento, os ossos tremeram, mas acompanharam o ritmo do objeto.
“Descanse, barata.”
Kai suspirou e se virou para Promessa Silenciosa, cujos alguns curandeiros já cuidavam dela. Ele deu um passo até ela, mas notou uma breve mudança no ar.
A multidão acompanhou essa mudança, e Kai olhou para uma varanda à oeste. Estava vazia.
Ele franziu a sobrancelha. Kaedor já deveria estar fazendo o pronunciamento do vencedor. Mas…
— Então… Tecedura Amida, não é?
Um frio percorreu a espinha de Kai, e ele se virou para o lado oposto da varanda.
Parado diante dele, estava Kaedor Vaelrys, de braços abertos.
— É muito interessante que você sabia usar algo tão antigo assim. — Disse, dando uma risada. — Eu precisava ver com meus próprios olhos, mas, bem como Abeeku-Khan disse, muita coisa a seu respeito é interessante, não é?
Kaedor deu um passo à frente, sua capa esvoaçando ao seu redor. Ele inclinou a cabeça.
— Deve estar se perguntando por que não anunciei o vencedor. É simples: a batalha final começa só agora. Então o que me diz, Lâmina Tardia? Ou deveria dizer… Kai Stone?
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