Volume 2
Capítulo 134: VENENOSO
Enquanto Promessa Silenciosa caía lentamente, uma cascata de fios dourados surgiu por trás de sua máscara rachada, revelando algo que fez o coração de Kai palpitar.
A pele perolada de seu rosto tinha traços… femininos. E chamativos.
Ela, na verdade, era muito bonita. Uma boca muito bem delineada, de olhos grandes, mas atraentes, com cílios grossos.
Seu traje branco-marfim fora maculado pelo seu sangue vermelho vivo, e seu rosto compreendia uma confusão de dor e desespero.
Mas ela não deixava de ser… linda.
Suas sobrancelhas apertadas e lábios comprimidos, Promessa Silenciosa abriu levemente seus olhos verde-mar e encarou Sorrateiro. Depois olhou para Lâmina Tardia.
Por trás de sua máscara neutra, não podia ser visto que expressão ele tinha agora.
Seu olhar era recriminador, mas também… cansado. E um tanto culpado. Talvez pensasse que Lâmina Tardia estivesse irritado por ter sido enganado.
Talvez estivesse pensando que Kaedor estava irritado por ter sido descoberta — seja lá qual fosse a relação deles.
Mas algo dizia a Kai que não. Pelo menos para esse último.
Promessa cuspiu um punhado de sangue e franziu o nariz. Sorrateiro gargalhou.
— Ah! Tão linda — disse, passando a língua bifurcada sobre os dentes negros. — Tão delicada. Confesso que passei bastante tempo imaginando o que tinha ali. E vou te dizer… não decepcionou nem um pouco.
A multidão ficou quieta por um minuto, mas logo entrou no seu frenesi habitual. Lâmina Tardia não se moveu nem um único centímetro, mas seu rosto estava pálido, e ele estava um tanto letárgico.
Seus olhos percorreram toda a extensão da arena, e pousaram na varanda a leste — à qual Kaedor e seus associados estavam. O legatário estava apoiado na mureta, observando tudo calmamente.
— …Huh! E quem diria — continuou Sorrateiro. — Que teríamos essa beldade bem aqui, hein?
Sorrateiro deu um passo na direção de Promessa — que acabara de desmaiar —, mas Lâmina Tardia deu um passo involuntário na direção dos dois, desembainhando Vento Noturno parcialmente.
— Nem mais um passo! — sua voz saiu entrecortada, mas firme.
O campeão se virou para ele e inclinou a cabeça.
— Huh? Tu é bem sagaz, Lâmina. Mas eu não te julgo, viu? Com uma lindeza dessas… eu também não consigo resistir, cara.
Uma veia saltou da testa de Kai. Por fora não havia nada que indicasse seu humor. Nem tremia, nem respirava pesado. Estava calmo, como se estivesse tomando chá com um amigo muito próximo.
Mas por dentro ele fervilhava. Não sabia ao certo a razão, mas tinha feito besteira. Primeiro ao se deixar ser ferido, depois passado um longo tempo desacordado.
Ao pensar melhor, tudo que fizera em Atom fora uma longa e extensa profusão de erros que acarretaram consequências desmedidas.
A voragem, a morte do mestre, a Sibila… isso.
As coisas estavam fugindo do controle. Isso era sua responsabilidade.
Claro, Promessa Silenciosa havia escolhido estar aqui, mas uma parte dele — aquela parte cultivada para ser honesta e sincera — não conseguia não sentir culpa, remorso e nojo.
Não era sua culpa diretamente, ainda assim… esse senso de dever era maior do que qualquer coisa que ele pudesse temperar com o tempo.
Porque mesmo que Kai tivesse feito trabalhos onerosos — ou não — para os Murphy. Que tenha matado, destruído e roubado, seu verdadeiro eu nunca poderia ser mudado. Ele nunca poderia ir contra aquilo que sempre sentiu independente das escolhas colocadas diante dele pelas mãos de terceiros.
Kai sempre foi altruísta. E fiel. E justo.
Não havia justiça aqui, no império de Abeeku. Nem nesse torneio. Ou em Kaedor Vaelrys, que por mais que tivesse laços com essa jovem à sua frente, não parara a competição por nada. Isso dizia muito sobre ele.
Dizia muito sobre todos neste lugar. E Kai sentia repulsa por essas pessoas.
Ele se manteve parado no mesmo canto enquanto Sorrateiro tagarelava coisas sem sentido.
Sua mente só apontava para uma única coisa. Matar Sorrateiro.
Infelizmente, seu corpo dizia outra coisa. Aquela ferida fora intensa e profunda. E mesmo que ele houvesse conseguido estancar parcialmente — dádivas do uso do chi — não conseguiria evitar que se abrisse novamente.
Ele deu um passo adiante e correu na direção de Sorrateiro, que tropeçou nas palavras e nos próprios pés.
Lâmina Tardia retirou toda sua espada da bainha, e Vento Noturno sibilou contra o ar. Sorrateiro ergueu sua própria espada e ambas se chocaram uma vez, levantando faíscas.
As espadas traçaram seu curso outra vez e se encontraram uma, duas, três vezes.
Lâmina e Sorrateiro então entraram numa contenda muito mais visceral e profunda. O primeiro não controlava mais a força e a rapidez de seus golpes — mesmo que tivesse forçando seu corpo ao máximo.
O segundo, porém, estava quieto e calado. Era diferente de antes, Lâmina notou.
Ele parecia… concentrado. Ou então pensava em algo que Kai não tinha o menor interesse em saber.
Eles entraram num turbilhão de lâminas, chutes e socos. Tudo que ficava à sua frente era devastado, exceto uma coisa: Promessa Silenciosa.
E não era por falta de tentativas de Sorrateiro, que tentou a todo custo levar a batalha para perto dela. Mas Lâmina Tardia tinha um controle absurdo da batalha, e mudava o lugar para mais longe o possível.
A intenção deles não vazava tanto, e Lâmina conseguia infligir mais danos em Sorrateiro do que o contrário. Mas à exemplo de antes, isso não parecia preocupar o campeão insidioso.
Ele parecia preocupado com outra coisa. Aqui e ali conseguia acertar Lâmina com sua cimitarra, mas eram cortes superficiais. Nesses momentos sua carranca se aprofundava mais…
Trocaram uma série de golpes e se afastaram para respirar.
Lâmina Tardia respirou pesado. De repente notou que, inconscientemente, fora parar ao lado do corpo de Promessa Silenciosa.
Ela estava estirada de costas, seus cabelos dourados sobre o rosto pálido perolado. Seus olhos se reviravam por baixo das pálpebras, e Kai notou o quão aliviado estava por saber que ela não havia morrido.
Não havia uma explicação prática para isso. Era só que ele tinha a impressão de que ela não fora um personagem – pelo menos não o tempo todo.
Se ajoelhou e encarou seu pescoço. Por baixo da gola, veios negros surgiam, doentes e infecciosos. Ele encarou o peito dela, cuja roupa fora aberta em um corte cruzado. Não havia tanto sangue.
Por baixo da blusa havia uma cota de malha, com um pequeno rasgo no centro.
“Apenas a força do golpe a fez sangrar e apagar…”
Mas havia algo de estranho nisso tudo. Esses veios negros não eram comuns. E se alastravam numa velocidade anormal. Ela ficava pálida a cada vez que um novo caminho surgia.
Kai franziu o cenho, tentou decifrar o que isso significava.
Se virou lentamente para Sorrateiro, que o encarava com uma cara feia — se é que era possível. Ele caminhava lentamente até Lâmina. E então sua mente fez um estalo.
Se lembrou do caminho até ali, com Promessa. Corpos decompostos…
“É claro. Isso explica o mau humor…”
Lâmina Tardia inclinou a cabeça.
— Não parece muito feliz, não é?
Sorrateiro estalou a língua.
— Você não é divertido, Lâmina.
Lâmina deu de ombros.
— Acho que não.
— Por que é que tu ainda não tá morto, hein? Acho que te fatiei legal, ali.
— É como dizem. Vaso ruim não quebra.
— Tsc! No teu caso deveria.
Lâmina se levantou.
— E por quê?
— Não banque o cínico, otário. Nós dois sabemos o motivo. Com o tanto de veneno que corre nas tuas veias, tu já deveria ser um esqueleto.
— Ah. — Kai suspirou. — Então veneno, hein? Quanto tempo ela tem?
Sorrateiro sorriu.
— O quê? Tá preocupado com ela? É sério, Lâmina? HAHAHA! Nunca imaginei. Que cara gente fina, mano! Sério mesmo?
Um gosto metálico permeou a língua de Kai. De repente, se sentiu nostálgico.
Sorrateiro gargalhou e mudou seu caminho para o lado. Se abaixou e catou sua outra cimitarra.
— A vadia é resistente, sabe? Esses nobres têm sempre um truque na manga. Mas quem diria que eles teriam uma maneira de lidar comigo? Bem legal. Ela deve ter uns vinte pseudocks, no mínimo. A vadia vai viver. Mas, como percebeu, só vão cuidar dela quando essa briguinha acabar… e parece que você é bem resistente aos meus… encantos.
Lâmina pigarrou.
— É…, mas acho que consigo te matar antes disso.
Sorrateiro jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— O quê? Você? Ainda não entendeu, né? Vocês não podem me matar. Nunca vão poder.
Lâmina estalou a língua.
— Você se acha.
— É porque eu meio que sou, cuzão.
Ambos cruzaram seus caminhos num piscar de olhos.
A multidão uivou quando o segundo embate começou antes mesmo de ser percebido — como um estalo invisível que partiu o ar entre eles.
Lâmina Tardia avançou primeiro, não por impulso, mas por necessidade; cada passo seu era pesado de intenção contida, como se lutasse não apenas contra Sorrateiro, mas contra algo dentro de si que insistia em permanecer adormecido.
As cimitarras vieram em resposta, rápidas demais, curvas demais, impossíveis de ler — e ainda assim ele leu. Metal encontrou metal em um choque seco, depois outro, e outro, até que o som deixou de ser som e passou a ser pressão, vibrando nos ossos, nos dentes, no próprio chão da arena.
Sorrateiro não lutava — ele invadia, se infiltrava nos espaços mínimos, nos intervalos entre respiração e pensamento, rasgando cada tentativa de controle com aquela fome distorcida que não cessava nunca.
Um corte passou perto demais, outro encontrou carne — superficial, mas suficiente para lembrar Kai de que aquilo não era uma dança que poderia sustentar por muito tempo. Ele recuou meio passo, e Sorrateiro avançou dois, rindo, sempre rindo, como se cada troca o alimentasse, como se a dor fosse combustível e não limite.
Não parecia mais irritado. Era como uma criança, se divertindo em seu dia livre.
Só que Sorrateiro era um carniceiro. E Lâmina era a carne a ser abatida.
Lâmina Tardia respondeu com precisão, desviando, redirecionando, punindo — mas já não bastava.
Não contra algo que não desacelerava, que não sangrava como deveria, que não cedia. A diferença começou a se tornar evidente nos pequenos detalhes: o atraso de um único instante, o peso crescente nos braços, o fôlego que já não voltava no mesmo ritmo.
E Sorrateiro percebeu. Sempre percebia. As lâminas vieram mais rápidas, mais pesadas, mais próximas — até que, em um único avanço brutal, ele rompeu a guarda de Kai por um fio e deixou o aço sussurrar morte junto ao seu ouvido.
Um corte fino surgiu horizontalmente na máscara branca de Lâmina, revelando parte de sua bochecha, e um pequeno filete de sangue brotou. Logo, um veio surgiu na superfície da pele.
Foi ali, naquele quase, naquele erro mínimo que não podia se repetir, que Kai entendeu com uma clareza fria e inevitável: apenas técnica não seria suficiente. Não contra aquilo. Não contra ele.
E, pela primeira vez desde que empunhara Vento Noturno naquela arena, sua mão apertou o cabo não para conter… mas para liberar.
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