A Odisseia do Príncipe Perdido Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 2

Capítulo 133 TODOS MORREM

A intenção assassina de Sorrateiro era como a imensa sensação de saber que estava em perigo.

Como se uma fera tivesse sido solta, e nada nem ninguém pudesse contê-la.

Como se o mundo estivesse se curvando perante aquela vontade avassaladora de querer tomar a vida do outro.

E o pior de tudo era que…

…Lâmina Tardia sentia vontade de rir. Era algo inexplicável também.

Promessa Silenciosa virou levemente a cabeça, nunca tirando os olhos da criatura diante deles.

— Do que está rindo… tolo?

“Oh!” Lâmina exalou.

— Nada… — balançou a cabeça. — É só… engraçado demais.

O rosto de Sorrateiro se curvou num sorriso doentio. Seus dentes negros eram nojentos, e sua língua como serpentes vivas ainda mais.

— O quê é engraçado, desgraçado? — repetiu.

Lâmina soltou uma risada seca. Seus ombros tremeram.

— Eu só… me sinto realmente motivado, sabe?

— Huh! Eu também! — Sorrateiro curvou os joelhos e inclinou a cabeça. — Somos loucos?

Promessa deu de ombros.

— São!

Sorrateiro não esperou para responder.

Num segundo, os três estavam se movendo.

Lâmina Tardia apertou o cabo de Vento Noturno, e permitiu que um pouco de sua intenção vazasse pela lâmina.

Promessa veio logo atrás, esperando que o primeiro contato fosse dado por um dos malucos.

Quando as duas cimitarras de Sorrateiro cruzaram-se com a espada afiada de Lâmina , o mundo foi abalado. Uma profusão de gritos fez com que tudo perdesse os sentidos.

E duas vontades aniquiladoras finalmente se enfrentaram.

Era esperado que o mundo sentisse essa disputa acirrada, mas não tanto.

Lâmina e Sorrateiro cruzaram as lâminas apenas duas vezes, e o resquício de suas intenções se tornou algo concreto, vazou como água na peneira.

Na verdade… era como se uma forte tempestade despontasse, e trovões partissem os céus.

O ar foi cortado, e o som de suas lâminas foi alto o bastante para fazer com que a multidão ousasse se calar, extasiados.

Uma… duas… três vezes… 

O choque causado pelas suas investidas devastou os pedaços de pedra ao redor e triturou mais ainda as rachaduras nas paredes distantes e no chão.

Os corpos foram varridos para longe. Suas intenções eram tão profundas que nada que pudesse firmar raízes podia se manter.

Exceto aqueles tão fortes quanto.

Promessa Silenciosa aguardou, como um figurante de uma peça muito maior.

Mas algo parecia errado…

Lâmina Tardia não parecia bem… ou não estava em sua totalidade.

Ou…

“Ele… não luta com tudo de si?!”

Promessa Silenciosa observava à uma distância moderada.

Os golpes eram brutais, em contrapartida.

Eles se engalfinhavam e se debatiam entre si com uma brutalidade sem precedentes.

O mundo era apenas um fundo distante nessa pintura lancinantes desenhada em turbilhões rodopiantes e aterrorizantes.

Lâmina Tardia — Kai — e Sorrateiro se entrelaçavam na dança mortal de uma batalha inimaginável e terrível.

Cortes, aparos, interceptações, respirações, horror, fúria. Mudança de ritmo, estocadas, desvios. E muita, mas muita barbaridade.

Sorrateiro era mais semelhante à um conglomerado de cortes e ataques rápidos sem direção e precisão, parecendo atacar para todo lado, pronto para acertar qualquer um.

Lâmina Tardia era moderado, contido, estudioso. Era a parte que defendia com antecipação, mas tinha seus próprios pontos de ataque, sendo tão mortal quanto o desordeiro ensandecido.

Enquanto progrediram nessa arte inviável de lâmina e sangue, Lâmina Tardia repeliu uma das espadas de Sorrateiro para baixo, desviando a ponta por pouco. Aproveitou o impulso e bateu com o pomo de Vento Noturno no queixo do adversário.


O ardiloso campeão deu um passo para trás em um momento de dispersão, e Lâmina trouxe sua espada num golpe ascendente.

Vento Noturno silvou quando sua lâmina rasgou a carne do inseto.

Sorrateiro foi gravemente ferido no peito, onde um longo corte surgiu diagonalmente. Ele urrou e cuspiu sangue. Acabou por tropeçar e cair sobre um joelho, enquanto muito sangue jorrava de sua ferida aberta.

Lâmina Tardia, por sua vez, deu alguns passos para trás e respirou fundo. Num movimento fluido, embainhou a espada com calma.

Promessa Silenciosa observou a cena com curiosidade mista. 


“Ele… é estranho.”

Lâmina Tardia enrijeceu os ombros e soltou um longo e último suspiro pesado.

— Pensei que fosse entrar na brincadeira — disse, sarcástico.

Promessa deu de ombros.

— Seria melhor se vocês se matassem e eu não sofresse qualquer dano.

Lâmina  balançou a cabeça em tom ponderativo.

— Uma maneira muito otimista de pensar.

— O que posso dizer? — inclinou levemente a cabeça. —  Sou alguém que tem otimismo velado.

— Tsc.

Sorrateiro colocou as mãos no chão e mais sangue caiu.

Promessa deu um passo de lado.

— Nossa… mas foi muito rápido, não acha?

Lâmina suspirou e olhou para o colega.

— Você precisava dizer isso?

Promessa ergueu levemente as mãos.

— Não…

Promessa lançou um olhar para a barata se contorcendo no chão e voltou-se para Lâmina. Então completou:

— Até porque eu não disse… eu perguntei…

Lâmina Tardia inclinou a cabeça.

— Hã?!

“Ah…”

— Brincadeiras a essa hora?

Promessa virou a cabeça pro outro lado, culpado.

— Eu não fiz nada!

Mas Lâmina conseguiu ouvir sua risadinha diabólica por baixo da máscara. 

“Idiota!”

Em contrapartida, Sorrateiro parou de se mexer… mas seus ombros começaram a tremer.

Depois sua voz surgiu como profusor de águas. Pois o maldito começou a se mexer novamente. E sua intenção… estava mais maligna.

Lâmina Tardia notou isso no momento em que seus pelos se eriçaram e aquilo dentro dele se remexeu.

Estava respondendo ao… toque. Por precaução, ele ativou a ampulheta. E tudo tornou-se silencioso outra vez.

Exceto pela arena, que borbulhou novamente… e por Sorrateiro, que se recompôs lentamente…

Lâmina inclinou a cabeça.

— Não achou realmente que tudo estava terminado, achou? — Indagou Promessa, de repente com uma urgência discreta na voz. 

Lâmina balançou a cabeça.

— Nem um pouco.

O campeão dos Vaelrys se calou um pouco.

— E você não queria acabar tudo naquele momento, não é?

Ã-Ã!

Humpf! E o que descobriu?

Lâmina se virou para ele.

— Não seja sonso. Você já percebeu.

— É… então prepare-se.

Lâmina apenas se virou e desembainhou Vento Noturno. Pouco a pouco, sua intenção vazou — não tão maligna quanto a de Sorrateiro, nem em grandes quantidades, por tudo que poderia representar.

Entrementes, Sorrateiro estava de pé outra vez. A ferida em seu peito não existia mais… e ele parecia mais… ensandecido. 


— Ah… Cada vez que me cortam, me ferem e me rasgam — sua voz saiu abafada pela multidão, que sequer entendia o que estava acontecendo. — A maldição cobra o preço. E é bom… é gostoso pra caralho quando eu pago. Sabe por quê, ô Lâmina?!

Lâmina Tardia negou e deu de ombros.

— Ah… é porque eu não sinto nada. Apenas… a vontade de estar do outro lado. De sentir como é, ao menos uma vez… morrer. Mas quando eu morro… fico tão apavorado. Sinto tanta vontade de voltar e cortar tudo e todos… de dilacerar, de mastigar seus corações. E vou te dizer, Lâmina — e seu pau no cu dos Vaelrys… ninguém vai escapar daqui hoje. Porque eu vou matar todos. Todos!

Com isso, Sorrateiro sorriu e sua intenção assassina escapou por completo.

O mundo se tornou errático. Como alguém era capaz de ter tanta vontade por morte? Desejar de verdade tirar a vida de outra pessoa?

Talvez isso o tornasse tão poderoso… tão perigoso… tão astuto.

Ele se moveu como uma lâmina de luz. Em segundos cruzou o caminho todo.

Arremessou uma das cimitarras em Lâmina Tardia, que foi rápido o bastante para desviar dela com um movimento de sua espada. Mas quando parou para olhar direito, Sorrateiro havia sumido de sua visão.

Seus instintos gritavam de perigo. Lâmina Tardia virou a cabeça e Sorrateiro estava lá, pronto para empalá-lo pelo esterno.

“Que rápido…”

Mas seus instintos foram mais rápidos ainda.

Lâmina deu um passo para o lado e evitou que a cimitarra o perfurasse até seu coração. Em vez disso, a lâmina curva entrou pelo músculo abaixo do braço entre as costelas e o músculo das costas.

O mundo se tornou turvo, e a risada de Sorrateiro soou.

Muita coisa aconteceu depois disso.

Sorrateiro removeu a arma. Lâmina tombou. A multidão gritou por Sangue. Promessa gritou seu nome. Espadas colidiram.

E o pior de tudo: a voz da Voragem retornou.

— Coitadinho. Tão acabado. Que tal descansar um pouco?

Sem perder muito tempo, Kai ativou a Pulseira, a Ampulheta e o Capuz ao mesmo tempo. Ficou tentado a pegar o Caco de Vidro…, mas sua voz interior — consciente — foi contra isso.

E tudo se tornou nublado. Havia muita confusão, indiferença e… solidão.

O mundo ao redor prosseguiu sua vida nos segundos incontáveis em que Lâmina lutou contra o seu demônio interior, que fora devidamente afastado para o fundo do baú.

Ele respirou fundo, e conseguiu conter o sangramento. Quando ergueu o rosto, estava de bruços, Promessa parado à sua frente, seus ombros tremiam em intervalos constantes.

“Está tendo… dificuldades”

Do outro lado… Sorrateiro sorria maliciosamente, gargalhando aos quatro ventos. Então Promessa o havia protegido durante esses segundos. Curioso.

— Tudo bem… aí? — Promessa soou.

“O quê…? Isso é preocupação?”

— Per…feito… — conseguiu responder.

— Me pareceu que você foi bastante danificado ali.

Lâmina Tardia suspirou.

— Foi… coisa da sua cabeça.

Lâmina se apoiou no próprio joelho e se levantou. Vento Noturno ainda repousava em sua mão, pulsando levemente.

Ele deu alguns passos e ficou ao lado de Promessa Silenciosa.

O campeão Vaelrys estava… um caco.

Partes de sua roupa delicada estavam fatiadas ou reduzidas a trapos. Sua capa não esvoaçava mais tão majestosamente…

— Poxa… você não conseguiu conter o cara nem por alguns segundos? Que fiasco…

Promessa olhou para ele de supetão. Se Kai pudesse dizer… ele estava profundamente ofendido.

— Pelo menos… tem senso de humor para alguém que estava morto.

Lâmina inclinou a cabeça.

— Foram apenas alguns…

Pseudocks… — Atalhou Promessa. — Dez, até onde contei. Depois… não sei. Você ficou caído por um bom tempo.

Kai balançou a cabeça, em negação. Então era assim…

— Sinto muito.

Promessa suspirou fundo.

— Não sinta… se algo, deveria pelo menos ter levado o desgraçado junto. Eu não estaria nessa merda de situação.

Ficaram em silêncio contemplativo enquanto Sorrateiro permitia esse descanso teatral. Promessa completou:

— Pareceu-me melhor lhe dar uma chance de retornar e me ajudar a aniquilar esse pária… É justo dizer que sozinhos não temos chance alguma.

Kai suspeitava que o engomadinho tivesse razão… mas só um pouco.

Sem tempo a perder, ele apertou o cabo de Vento Noturno, permitindo que mais de sua intenção… e chi vazasse para a lâmina. Ela chiou, e Promessa olhou para ele, estranho. Mas nada disse.

Tinham um assunto que lidar, agora.

— No três?

Kai suspirou e assentiu.

— Um…

— Dois…

— Três! — Gritaram os dois juntos, se movendo.

Quando se encontraram, suas espadas cantaram e Sorrateiro repeliu a de Promessa com um golpe para cima. O campeão Vaelrys tombou, e Lâmina Tardia investiu com uma série de chutes giratórios.

Os golpes acertaram o quadril, peito e cabeça de Sorrateiro, fazendo-o ser lançado vários metros para trás.

Lâmina pousou com um giro seco e se impulsionou para frente. Ergueu Vento Noturno, que sibilou ao cortar o ar.

As lâminas chiaram quando se encontraram e mais intenção vazou.

Eles trocaram vários golpes, um sendo mais acintoso que o outro. Sorrateiro era superior pois atacava com duas espadas de forma maravilhosa.

Mas Lâmina compensou com rapidez e solidez. Conseguiu desviar e atacar, e eles se enroscaram por um longo tempo antes de Promessa entrar novamente na batalha, que se tornou caótica.

Ninguém conseguia acertar um golpe realmente mortal…

Na verdade, Sorrateiro não conseguia.

Pois Lâmina Tardia e Promessa Silenciosa cobriam as brechas e ataques um do outro, agindo como uma unidade simples e compacta. Quem visse de longe diria que os dois eram perfeitos juntos.

Lâmina atacava, desviava e bloqueava com força, e quando Sorrateiro achava que tinha encontrado seu ponto fraco, Promessa surgia e mostrava que era a vez dele.

Assim, rounds e mais rounds aconteciam dentro dessa longa e frenética batalha pela vida. Qualquer um que errasse o mínimo, estaria apostando na própria morte e na do companheiro.

Por um tempo, Lâmina e Promessa até conseguiram machucar Sorrateiro, mas àquela altura já estava claro que nada que fizessem infrigia dano ao maldito…

O tempo se tornou seu inimigo, pois estavam ficando cansados, e Sorrateiro somente mais ardiloso.

Então acontecia um round entre Lâmina e ele. Sorrateiro golpeou fortemente três vezes em seguida, dando a entender que tentaria uma quarta vez.

Lâmina Tardia esperou por isso. Seria aqui que Promessa entraria e puxaria a atenção do ardiloso para que seu companheiro pudesse respirar e criar algum plano de contingência.

Só que o quarto golpe nunca chegou. Ao invés disso, Sorrateiro repetiu os chutes circulares de Lâmina, pegando a ele e Promessa de surpresa. Rapidamente, o maldito mudou sua direção e cruzou as espadas na sua frente. Ele se virou para Promessa, que estava próximo demais para erguer a espada em defesa, e abriu os braços.

As lâminas rasparam contra o dorso de Promessa, dilacerando seu peito. Ao mesmo tempo, Sorrateiro deu uma forte cabeçada em sua testa.

Rachaduras se formaram na máscara, que se partiu enquanto o campeão Vaelrys caía, ferido, e longas cascatas douradas esvoaçavam por trás da máscara entre sangue e dor.

Houve silêncio da multidão, que de repente podia ver o rosto por trás do mistério. 




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