Volume 2

Capítulo 132: BANQUETE DOS MORTOS

Sorrateiro lutava com duas cimitarras.

Não havia método, técnica ou forma — apenas movimento. Ele avançava como algo solto, descontrolado, rindo enquanto atacava. Mais do que lutar, parecia brincar. Como uma criança em um jogo cruel onde ninguém jamais o tocava.

Flechas de metal cortaram o ar.

Um dos campeões manejava uma besta de reposição automática. Cinco disparos por segundo. O som seco dos impactos ecoou pela arena de pedra. Mas logo foi abafado pelo frenesi ensurdecedor. 

Todas erraram.

E Sorrateiro gargalhou.

A cada disparo desperdiçado, a risada dele crescia — aguda, doentia, quase feliz. Risada que só podia ser ouvida pelos seus adversários. Risada que causava arrepios.

Quando o atirador precisou recarregar, Sorrateiro já havia se movido.

Rápido. Leve. Próximo.

As lâminas curvas desceram.

O campeão mal teve tempo de reagir antes que um escudo surgisse entre eles. A cimitarra deslizou pela superfície circular com um ruído áspero.

O sorriso de Sorrateiro se alargou.

— Ah… como é lindo o poder da amizade… — A língua bifurcada passou lentamente pelos dentes escurecidos. — Até me faz querer ter amigos, sabe?

Por um instante, seu rosto mudou.

— Bem… se eu não tivesse matado os meus… bem que poderia estar com eles aqui agora.

O adversário empalideceu.

— Nojento!

O escudo avançou com violência. A borda atingiu o queixo de Sorrateiro, lançando-o para trás. Ele tombou, cuspindo sangue.

Uma veia saltou em sua testa.

— Desgraça—

A palavra morreu em sua garganta.

Uma lança atravessou seu peito pelas costas.

O corpo arqueou e sangue jorrou de seus lábios junto de um urro rouco. O atirador, já recomposto, ergueu novamente a besta.

Outro campeão avançou.

A espada afundou em seu estômago.

Sorrateiro gritou, o corpo se contorcia enquanto era perfurado.

— Desgraçado… pffft…!

Sangue escorreu por seu queixo.

Então ele riu.

— Hahaha… filho da puta…

Uma flecha rasgou sua jugular.

Depois outra atingiu seu peito.

E mais três.

Em seguida, a lança foi retirada com um puxão brutal. Sorrateiro caiu de joelhos, engasgando, o corpo tremia em espasmos irregulares.

Os quatro campeões se aproximaram.

Observaram em silêncio enquanto ele se afogava no próprio sangue.

— Demônio feio… — murmurou um deles. — Como alguém consegue viver sem enxergar… e respirar?

— Não sei — respondeu o do escudo, dando de ombros.

— Vamos. Essa criatura já está morta.

Eles começaram a se afastar.

KICK…

UCK…

Os quatro pararam.

Viraram-se lentamente.

O peito de Sorrateiro subia e descia…

…devagar.

Mas então antes que ele erguesse sua cabeça…

Uma última flecha atravessou-a com um som oco.

— Arrombado. — cuspiu o atirador.

E os quatro viraram as costas para o morto.


*** 


Promessa Silenciosa era… simples.

Seus movimentos não chamavam atenção — deslizavam. Suaves, econômicos, inevitáveis. Lutava como algo que não precisava se afirmar.

Como um rio.

Não… ele não seguia o rio.

Era o próprio rio.

E tudo que tentava resistir era destruído.

Dois adversários já estavam fora — um inviabilizado, outro inconsciente. Restavam apenas dois. A espada longa demais contrastava com seu corpo esguio, mas não parecia pesar. Promessa a erguia como se fosse leve.

Os campeões avançaram.

Cada passo correto.

Cada decisão precisa.

Cada tentativa, punida.

Promessa não recuava, não hesitava. Apenas respondia — força, técnica, precisão. Três choques de lâmina. Secos. Controlados. No último, um dos atacantes foi lançado para trás.

Promessa já se movia.

A lâmina mudou de direção no meio do gesto.

Um corte ascendente.

O braço do outro campeão caiu antes mesmo que ele entendesse.

Não fora um golpe novo — apenas um ajuste. Um desvio mínimo que, por pouco, não lhe tirara a vida.

O homem tombou, segurando o toco, o rosto branco, sangue escorrendo entre os dedos.

— Você…

Promessa inclinou levemente a cabeça.

— Lutou bem, campeão.

Então se virou para o último.

— Então somos apenas nós.

E ergueu a espada.


***

Um pouco distante dali, quatro sujeitos se enfrentavam, rodeados por sete corpos contorcidos e destruídos.

O ar estava pesado, impregnado de suor, sangue e o cheiro metálico da luta recente. Kai recuou um passo, sentindo a panturrilha arder e o pulso latejar. 

Seus oponentes restantes — agora apenas três — tentavam recompor a postura, respirando com dificuldade, olhos arregalados e corpos bambos. Ele estudou cada detalhe: a posição do ombro, o ângulo da espada e a inclinação do quadril. Tudo isso poderia significar a diferença entre a vida e a morte.

Com um movimento quase imperceptível, Kai lançou-se em ação. Ele aproveitou a ligeira inclinação de um dos adversários para empurrar o próprio corpo para trás, desviando de um golpe que vinha cortando como uma foice, e redirecionou a força do ataque contra o que avançava por trás — dois inimigos caíram com o impacto um no outro, enquanto Kai deslizou para o lado, a lâmina de Vento Noturno cantou, raspou e cortou apenas o ar onde precisava. Cada movimento era calculado e preciso, mas exigia atenção absoluta.

Restava apenas um. 

O terceiro adversário, mais cauteloso, começou a cercá-lo. Kai percebeu a intenção antes mesmo do corpo se mover: ele girou, golpeou no ponto cego da perna do inimigo, e imediatamente recuou, forçando o adversário a perder o equilíbrio e se curvar sobre a própria lâmina — uma manobra que misturava pressão física e leitura do espaço, quase como um xadrez mortal em velocidade máxima. O corpo caiu, mas Kai mal teve tempo de celebrar.

O silêncio momentâneo caiu sobre a arena. A multidão urrava, mas parecia distante, abafada pelo foco absoluto de Kai. Ele ficou imóvel por uma fração de segundo, respirando pela boca, os olhos percorrendo os últimos movimentos de seu adversário restante. 

Cada um de seus ossos parecia gritar de cansaço, cada reflexo estava no limite. Mas ele ainda estava vivo. E, pela primeira vez naquela batalha infernal, podia sentir que o fim se aproximava — não com certeza, mas com a frágil possibilidade que apenas os que dominam a morte conseguem perceber.

Kai ergueu o rosto, observou a multidão por trás da máscara branca.

Memórias sombrias ameaçaram se apossar do seu consciente, mas ele ergueu o capuz da Lembrança Silenciosa. Havia sido feita por Mizrah, e ajudava a afastar os pensamentos e evitar que a Voragem tivesse acesso.

E foi exatamente isso que fez.

De repente suas memórias ficaram nebulosas.

Kai caminhou entre os corpos de seus dez oponentes sem direção, o olhar perdido, mal ligava para o fedor de morte.

A multidão gritava por Sangue, mas ele só se concentrava no caminho a frente.

Finalmente, Kai chegou próximo de uma pessoa em pé, cuja capa esvoaçava e sua máscara escondia suas emoções.

Ao redor de Promessa Silenciosa, havia corpos…, mas nenhum morto.

— Vejo que sobreviveu — disse o campeão Vaelrys.

Kai inclinou levemente a cabeça.

— Sobreviver é uma palavra generosa.

Uma risada curta, sem alegria, escapou sob a máscara do colega campeão.

— Ao menos conserva o bom humor.

Kai virou a cabeça devagar. 

— Humor exige esforço.

Promessa Silenciosa desviou o olhar por um instante.

— Acredita que o maldito ainda esteja vivo?

Kai deu de ombros, indiferente.

— Vivo, morto… aqui dentro a diferença raramente importa.

— E o que gostaria de fazer? — indagou Promessa.

— Isso realmente importa? — Kai respondeu, sem pressa. — Vamos nos matar, de qualquer maneira.

Promessa soltou um estalo contido com a língua.

— É verdade… — admitiu. — Ainda assim, seria mais prudente verificar se o desbocado permanece vivo. Unir forças, talvez.

Kai soltou um suspiro entrecortado. Talvez o único gesto humano que conseguira interpretar. 

— Está com medo dele, Sr. “Unir forças, talvez”?

Promessa pigarreou, sem se ofender.

— Sim. Não tenho interesse algum em enfrentá-lo sozinho. E duvido que esteja morto.

Kai permaneceu em silêncio por um breve instante.

— …Eu também duvido.

— Então…?

Kai começou a caminhar.

— Vamos.

Promessa o acompanhou.

— Então vamos.

Eles caminharam em silêncio, mas o clima era esquisito. Havia algo de errado.

O maior erro era, talvez, o grito desenfreado da multidão que exigia mais recompensa. Mais sangue. 

Isso, de fato, pouco importava. Algo mudara aqui, hoje.

Kai era o mais afetado. Após inúmeras batalhas em que tirou inúmeras vidas… ele achou que poderia ficar sossegado quanto a isso.

Mas nunca achou que poderia simplesmente… não ligar. Não havia humanidade nisso. Ele nunca fora um assassino a sangue frio.

Só que agora… Esse lugar o mudara. Tudo aqui era caótico, imprevisível, e dissonante.

Kai não se sentia em casa… e provavelmente essas pessoas também não. Era tudo como um circo… só que sem ser.

O mestre era Abeeku, que torturava, matava e destruía cidades milenares. E o povo era só… o público. Que aplaudia. Se saciava. Deleitava a lúgubre apresentação.

O show de horrores sem fim.

Kai não disse uma palavra durante sua curta caminhada, e Promessa tampouco pareceu disposto a dizer, também.

Era para ele, talvez, o mesmo que era para Kai? Quem saberia?

Havia mais mistério aqui do que jamais houve. E Kai não estava nem um pouco inclinado a descobrir qualquer drama que envolvesse Promessa Silenciosa, o clã Vaelrys, seus motivos e a loucura neste coliseu.

Porque Kai queria o quanto antes descobrir seu papel nisso tudo, ir embora… e esquecer tudo isso.

E também porque… haviam chegado numa ala distante de onde estiveram esse tempo todo.

Havia sangue por toda parte. A multidão ali era mais comedida, como se assistissem à um espetáculo lancinante.

E, de fato, era o que acontecia.

A partir de determinado ponto, todo o chão da arena estava repleto de sangue. Promessa Silenciosa virou um pouco a cabeça para Kai.

— Tenho um péssimo pressentimento.

Kai assentiu, mas não disse nada.

Ambos apertaram bem o cabo de suas armas, prontos para ver uma cena de horror…

E foi isso que viram.

Mais perto deles, havia uma lança enterrada no chão… e no topo dela, a cabeça de um campeão fitava o além com a boca aberta, sem língua, e… flechas nos lugares dos olhos.

De repente, o cheiro mudou totalmente.

A meio metro dali, havia um corpo ajoelhado e desmembrado. Um escudo fora enterrado, também, e a cabeça do pobre coitado fora batida na borda do escudo até que sua mandíbula se separasse e só sobrasse a língua pendurada sobre o ombro direito.

Seu rosto estava cinzento, como se…

— Está decomposto… — Kai suspirou. — Mas como?

Promessa Silenciosa deu um passo para trás.

— Tenho uma péssima noção.

Kai assentiu. Ele sabia o que Promessa estava pensando… e compartilhava disso.

Eles prosseguiram, e chegaram na margem de uma poça de sangue. 

Um homem fora estripado e… cortado ao meio. A parte de baixo do corpo não estava à vista. Apenas seus órgãos e um buraco medonho. Uma espada fora enfiada em sua jugular, e seus olhos saltavam das órbitas.

Eles finalmente chegaram ao que parecia ser o fim.

Havia outro corpo. Seu rosto estava impossível de ser reconhecido, pois mais de vinte flechas foram atiradas nele. Não havia sequer uma parte à vista.

…E ajoelhado sobre ele, havia uma coisa feia, horrorosa, se deliciando de sua carne e o estripando com unhas afiadas e dentes pontudos.

Suas costas estavam cravejadas de flechas, havia furos por todo seu dorso…, mas de alguma maneira, Sorrateiro estava vivo, e esse era seu jantar.

Ele ergueu o rosto. Havia sangue ao redor do rosto todo — onde deveria ser os olhos, o nariz, e as bochechas. Mas havia carne sobre carne, como se ele tivesse tomado banho no fogo todos os dias durante vinte anos.

Sua língua bifurcada se movia como duas serpentes vivas, e seus dentes eram negros — feito algo que Kai nunca soube distinguir.

Ele inclinou a cabeça. 

…E sorriu.

— Acho que sei de onde tiraram seu nome — comentou Kai, nem um pouco amistoso. — Parece justo.

Sorrateiro limpou a boca com o antebraço. Ou tentou…

— Ah… então estão vivos é… — ele ergueu a mão, oferecendo o coração do morto. — Querem? Tem gosto de Lmurk das profundezas. É bom pra cacete… hahaha!

Promessa Silenciosa negou. Ele ficou de lado e apertou a mão em sua espada.

— Melhor não…

Sorrateiro inclinou a cabeça, desapontado. Então se virou para Kai e ofereceu para ele.

— Tô com ele. — disse, indicando Promessa com a cabeça.

O outro fez cara feia, trazendo o coração para si. Deu uma enorme mordida e mastigou enquanto bolhas se formavam no canto de sua boca. Então ele esmagou o coração e se levantou.

— É assim, então? Vocês não entendem, né? Pode vir é a porra de um exército que vocês não entendem… vamos lá, então, vou adorar comer o coração de vocês, seus otários.

E tirou suas cimitarras das costas, pronto para mais.

Kai suspirou fundo e apertou o cabo de Vento Noturno. Era possível que somente suas habilidades com a espada não fossem necessárias aqui. E isso era um problema.

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