Volume 2
Capítulo 131: MILHARES DE TENTAÇÕES
A luz repentina cegou os competidores, e a cacofonia brutal quase lhes rasgou os sentidos. Vozes exaltadas e emocionadas rugiam acima e ao redor, formando um ritmo beligerante, hipnótico, que aos poucos tornou-se inteligível.
Quando os olhos finalmente se ajustaram ao brilho agressivo, os competidores perceberam onde estavam.
Uma arena circular.
Imensa.
Perfeitamente simétrica.
Seis níveis de arquibancadas erguiam-se ao redor, repletos de cadeiras, fileiras, flâmulas e bandeiras ondulando ao vento e ao delírio coletivo. A multidão saltava, urrava, vibrava em uma excitação quase febril — extasiada, provocadora, viva demais.
Então os ouvidos de Kai se ajustaram.
E ele compreendeu. Não eram vozes dispersas. Não eram gritos desordenados. Eram vozes contínuas. Em uníssono.
Repetindo uma única coisa:
GUERRA, MORTE E VITÓRIA!
Um frio percorreu-lhe a espinha.
Fora do coliseu, Kai jamais conseguira distinguir o que milhares de vozes diziam. Ali dentro, contudo, a experiência era outra — mais clara, mais opressiva, mais perturbadora. Porque a ideia de Abeeku funcionava.
E o povo, obediente, cumpria seu papel com devoção aterradora.
Kai lançou um olhar aos demais competidores, espaçados pela borda da arena, tão absorvidos naquela definição distorcida de glória quanto podiam.
Ao lado, Promessa Silenciosa abaixou levemente a cabeça.
Soltou um pigarro.
— Droga… — quase inaudível.
Acima deles, próximo ao centro do anfiteatro, uma sacada destacava-se entre as demais. Algumas cadeiras estavam ocupadas.
Um único sujeito permanecia em pé.
Braços abertos. Mãos estendidas.
Quase apaziguadoras.
A cabeça de Kai pareceu subitamente dormente, e um lampejo de compreensão o atravessou.
Kaedor Vaelrys era completamente diferente daquilo que se esforçava para aparentar.
Havia algo ali.
Algo profundamente dissonante.
E, pouco a pouco, as vozes começaram a diminuir.
— Sorriam… e alegrem-se, filhos divinos da guerra. Oh, como foi extraordinário acompanhar vossas trajetórias… algumas, devo admitir, mais memoráveis que outras.
A multidão rugiu. Um clamor avassalador que perdurou por quase um minuto inteiro antes de cessar, como se obedecesse a uma regência invisível.
Kaedor riu.
— Cada etapa revelou-se um estímulo, um fulcro de força enxertado diretamente em vossos corações pelo Pai-Guerra… por Abeeku-Khan. Louvado seja o Khan.
A resposta foi imediata. Uníssona. Vibrante.
— LOUVADO SEJA O KHAN!
Ecoando como uma entidade única.
Kai contou. Doze repetições exatas. Nem uma a mais. Nem uma a menos.
Quando o coro finalmente se dissolveu, Kaedor prosseguiu, a voz carregada de uma satisfação quase indulgente:
— E esta última etapa… Ah… que espectáculo magnífico. Foi verdadeiramente belo observar como a certeza não vacilou em alguns de vós. A confiança permaneceu inabalável.
Como convinha, uma breve pausa. Calculada.
— Naturalmente, ficaram para trás aqueles destituídos da vontade necessária. Aqueles maculados pelo mais ínfimo vestígio de dúvida… morreram.
A arena explodiu em êxtase.
Kai, contudo, observava os competidores.
Alguns imóveis. Outros vazios. Sorrateiro gargalhava como uma criança diante de um espetáculo festivo. Promessa Silenciosa mantinha a cabeça baixa, uma figura estranhamente deslocada naquele delírio coletivo.
Mas Kai sentia algo diferente. Algo mais profundo. As raízes da loucura pareciam pulsar na própria fundação daquele lugar.
O povo não apenas aceitava Abeeku. O povo o venerava.
E Kaedor… Parecia carregar uma extensão viva dessa devoção.
— …E finalmente vos encontrais aqui. Ah, meus campeões. Como me deleitaram. Como proporcionaram a mim — e ao vosso povo — uma competição verdadeiramente acirrada. Este derradeiro labor, entretanto, será singelo. Um enfrentamento único. Aquele que permanecer em pé… e vivo… por último… Será o vencedor.
“Juntem forças. Aliem-se. Traiam-se. Destruam o mais forte, se assim desejarem. Pouco me importa o método. Tragam-nos apenas…”
Kaedor silenciou lentamente, cedendo o desfecho ao anfiteatro.
E a multidão, em um urro quase religioso, completou…
SANGUE! SANGUE! SANGUE! SANGUE!
Kai engoliu em seco. Sorrateiro havia levado a mão ao rosto — e então começou a gargalhar, alto demais, como se a noção tivesse finalmente quebrado dentro dele.
… E quatro adversários o cercaram.
— Ah… — ele respirou fundo, ainda rindo. — Ah… filho da puta vagabundo do caralho… muito obrigado, seu puto. Muito, muito obrigado mesmo.
Então ele puxou o saco de couro da cabeça, revelando um rosto queimado, com carne revirada sobre si mesma. Não tinha olhos nem nariz… apenas boca. Nem mesmo um fio de cabelo na cabeça.
Os campeões deram passos para trás.
Sorrateiro cuspiu no chão.
— Então vai ser assim, é? Tudo bem. Tudo ótimo.
Ele ergueu a cabeça, limpando o lugar onde deveria estar os olhos.
— Ô, Lâmina — disse, animado demais para a situação — Vamo ter que adiar nossa briga, belê?
Entrementes, Promessa Silenciosa parecia deslocado. Embora ele mesmo tivesse sua cota de problemas para lidar, outros quatro competidores o haviam cercado, e ele mantinha uma pose bem… elegante. Sua capa esvoaçava ao vento, acompanhando o rugido extasiado da multidão.
— Não vai nos revelar seu lindo rosto também, Estrela Dalva? — perguntou um dos que o cercavam.
Promessa negou.
— Melhor não.
— Então teremos que tirar essa sua máscara nós mesmos.
Promessa deu de ombros.
Kai, por sua vez, não deu atenção para o embate de Promessa ou para o show de Sorrateiro; ele também tinha seus próprios problemas.
Parado, de cabeça baixa, a mão enluvada repousava sobre o cabo de Vento Noturno.
Tocou na ampulheta, mais por precaução. A Voragem permanecia silenciosa há muito tempo, e ele não queria vozes agora…
Afinal, se quatro se uniram para deter Sorrateiro e outros quatro para tentar o clã Vaelrys, não seria nenhuma surpresa que os dez restantes decidissem que duas duplas não bastavam para matar Lâmina Tardia.
Ele pigarrou. Não era necessário dizer que a situação era totalmente diferente de antes. Porque naquela época, Kai enfrentara apenas os competidores mais fracos. E se estes sujeitos eram fortes o suficiente para atravessar a última etapa ardilosa de Kaedor…
— Qual é, pessoal — disse, fingindo gentileza. — Tenho certeza de que apenas um de vocês é mais do que o necessário.
Um deles desdenhou.
— Também temos certeza… mas, por via das dúvidas…
Kai deu de ombros.
— Então, que tal? Um de cada vez, hã? Estou cansado, sabe?
— Não… isso não vai rolar. Melhor deixar como está.
— Droga, dá um desconto aí — resmungou.
— Cala a boca, vadio. — Um segundo se juntou à discussão. — E você, não dê ouvidos a ele. Vamos apenas matá-lo logo, certo?
O primeiro se virou para o segundo, igualmente irritado.
— Não me dê ordens. Nos unimos apenas para evitar esse mal — disse, apontando para Lâmina Tardia. — Mas não me dê ordens.
— E o que vai fazer sobre isso, desgraçado?
— Vamos lá, seus burros, deixem isso para depois.
— É — atalhou Kai. — Deixem para depois e… hã, o que faço com essa cabeça?
Os três campeões que discutiam se voltaram para Lâmina Tardia. Seu grupo de dez havia sido reduzido a oito. O próprio Lâmina estava parado próximo a um corpo decapitado, uma cabeça repousando em sua mão. Sangue escorria entre os dedos, e atrás dele, outro competidor se afogava no próprio sangue.
Os oito deram um passo para trás enquanto a multidão rugia, os outros grupos lutavam ao longe, e um dos oponentes ainda debatia-se contra o próprio sangue. Lâmina Tardia balançou a espada para retirar o excesso de sangue, e uma intenção assassina escapou levemente dele. Mas, curiosamente, parecia amistoso.
— Que nojo! O desgraçado não para de sangrar. Aqui…
Lâmina jogou a cabeça para um dos competidores, que se assustou e deixou-a cair ao chão entre suas pernas, recuando. Quando ergueu a cabeça novamente, Lâmina já havia diminuído o espaço. Com um único manejar da espada, cortou o homem ao meio sem hesitar.
— …papai mandou lembranças, Júnior.
Vento Noturno deslizou frio e silencioso, preciso como lâmina na manteiga.
Kai respirou fundo, com o cabo de Vento Noturno firme em suas mãos. Os oito adversários se dispersaram em círculo, aproximando-se com passos medidos, olhos fixos nele e pálidos.
Não havia espaço para hesitar. Cada movimento errado seria fatal. Mesmo observando-os, ele sentia a diferença de força: eram mais rápidos, mais precisos e, acima de tudo, mais impiedosos que qualquer grupo anterior. Um golpe mal calculado e ele não teria chance.
O primeiro ataque veio quase simultaneamente de dois lados. Kai se abaixou, rolou para o lado, e sentiu a lâmina cortar o ar onde estava há um instante. Ele devolveu um golpe curto, apenas para desviar, não para ferir, e foi atingido com um chute que o lançou contra uma coluna de pedra.
O impacto ressoou em seus ossos, e por um instante sua visão ficou turva. Cada adversário parecia cobrir o espaço do outro, bloqueando rotas de fuga, antecipando suas reações com precisão quase cruel.
Kai recuou e respirou rápido, a mente a calcular mil cenários por segundo. Um deles atacou por cima, girou a lâmina em arco; outro tentou perfurá-lo pelo flanco. Ele girou o corpo no último segundo. O zunido das lâminas cortou o ar tão perto que o tecido da sua capa estalou com a rajada.
Ele girou novamente, seu movimento atingiu o braço de um deles, não para matar, mas para desestabilizar, e aproveitou o pequeno desarranjo para escapar.
O combate continuou como um balé cruel, golpes sendo trocados a cada instante, cada erro sendo punido. A fadiga se acumulava, a respiração pesava, os músculos tremiam sob a pressão constante.
Um instante de descuido quase custou-lhe a vida quando uma lâmina raspou seu ombro, cortou a carne e queimou como fogo. Mesmo assim, ele encontrou pequenos intervalos, pequenas fraquezas — um olhar, um passo fora de compasso — para se reorganizar, reaparecer, contra-atacar com precisão cirúrgica.
Era uma dança de morte, mas também de pura resistência mental. Ele não podia vencer apenas com força; cada passo era uma sentença, cada gesto, um cálculo de vida ou morte.
Kai desfilou em meio ao círculo de aço e carne, esquivou-se de uma lâmina que zunia sobre sua cabeça e, no mesmo instante, empurrou o oponente oposto contra a parede com um movimento mínimo do pulso.
O corpo do adversário bateu com força, e outro caiu instintivamente, tropeçou sobre ele e criou uma cadeia de desequilíbrios que Kai mal teve tempo de registrar.
Quatro ainda avançavam. Dois já haviam sido derrubados, incapazes de se recuperar. Kai sabia que qualquer erro agora seria fatal.
“Mais do que antes…”
Cada passo seu foi milimétrico: ele empurrou, desviou, rolou, recuou; usou o próprio peso de seus atacantes contra eles e transformou a força bruta deles em ferramenta de sobrevivência.
Foi então que ele aproveitou uma abertura mínima: dois oponentes avançaram juntos, e ele se abaixou, desviou de um e segurou o braço do outro com a lâmina, girou seu peso e projetou-o para frente contra o terceiro.
O impacto foi seco, e por um instante todos pararam, a cambalear. Ele mal teve tempo de reagir: uma lança cruzou seu caminho, um chute ameaçou derrubá-lo, mas ele deslizou pelo lado, raspou o cotovelo do atacante em uma colisão calculada que deixou outro desequilibrado. Sua lâmina precisava de segundos para executar um plano que durava minutos.
Agora restavam apenas seis.
O suor cegava seus olhos, a respiração ardia, mas a mente de Kai era um relógio, cada segundo cronometrado, cada movimento uma sentença executada com precisão letal. A arena ao redor parecia comprimir-se, estreitar-se com cada ataque, como se os próprios limites do espaço conspirassem contra ele, e ainda assim, Kai usava cada centímetro contra seus perseguidores.
Cada golpe deles era agora uma arma contra si mesmos, cada impulso, um aliado involuntário. Ele mal teve tempo de perceber a dor; sua única consciência era o ritmo frenético da morte dançando ao redor dele.
Os oponentes perceberam que não bastava atacar juntos; a força combinada era agora um risco.
O clímax veio num instante em que quatro se lançaram contra ele ao mesmo tempo. Kai girou, esquivou-se, derrubou dois, desviou de outro e fez o último tropeçar, enquanto cada movimento criava um efeito dominó. O ar vibrava, pesado, carregado de metal, sangue e tensão. Ele respirava com dificuldade, a mente afiada no limite, cada segundo pendurado no fio de lâmina da própria sobrevivência.
Cada golpe, cada impacto, cada corpo lançado, era agora uma coreografia mortal, e ainda assim Kai não parava. Ele comandava o ritmo da morte, transformava o caos em uma dança cruel, onde cada adversário era instrumento e vítima ao mesmo tempo.
Quando finalmente uma pausa surgiu, ele mal se moveu. Ao redor, um corpo jazia contorcido, dois incapacitados, e o último, segurando o braço quebrado, proibido de continuar. Kai ficou imóvel, o peito subia e descia rapidamente, o suor escorria pela máscara, o ar pesado queimava sua garganta.
Ele respirou fundo e olhou para os sobreviventes restantes.
Eram quatro agora. Não havia arrogância em seus olhos, apenas a consciência amarga de que cada movimento havia sido uma batalha contra o próprio tempo e contra a morte que rondava a cada passo. A arena, impassível, parecia absorver a tensão, aguardando o próximo instante, o próximo desafio.
Kai cambaleou levemente, mas manteve a postura firme. O suor escorria pela máscara, pingando no chão como pequenas gotas de ferro líquido. Ele mal tinha fôlego para respirar direito, e cada passo exigia concentração absoluta — um deslize, um instante de distração, e poderia ser o último.
Os olhos percorreram rapidamente os oponentes restantes: alguns tentavam se erguer, outros estavam trêmulos, incapazes de reagir com a mesma rapidez. Cada movimento deles era previsível para quem dominava a leitura do espaço, mas isso não diminuía o esforço.
A multidão explodiu em gritos, a voz de Kaedor cortou o ar como uma lâmina invisível. Kai mal registrou o som; ele estava em sintonia com o compasso da arena, sabia de cada vibração, cada respiração de seus adversários.
Respirou fundo, engoliu o gosto de ferro e pó, e percebeu que havia chegado a um ponto em que cada decisão era crucial. O ar ao redor estava mais denso, pesado, comprimido pela tensão coletiva. Ele não sentia medo — apenas a consciência afiada da mortalidade, do limite de seus próprios reflexos, do equilíbrio precário entre vida e morte.
Por fim, a arena pareceu hesitar. O silêncio momentâneo — não mais do que um segundo — fez o sangue gelar. Kai respirou fundo, tremia levemente, mas ainda de pé. Seus adversários restantes estavam exaustos, atônitos, e até mesmo o mais feroz deles tremia diante da eficiência impiedosa do Lâmina Tardia.
Ele mal podia se mover, cada passo exigiu esforço quase sobre-humano, mas sabia que ainda não estava seguro. Kaedor observava de sua sacada, o sorriso contido sob a máscara como se saboreasse a exaustão do último campeão sobrevivente.
Promessa Silenciosa e Sorrateiro pareciam, pelo menos, se saírem melhor em seus embates.
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