Volume 2

Capítulo 130: LAMENTAÇÕES SILENCIOSAS

Quando o clima finalmente se acalmou, Kai respirou fundo.

‘Estúpido.’

Promessa Silenciosa virou-se para ele. As viseiras profundas permaneceram imóveis, insondáveis. O simples fato de estar ali — ao lado de Lâmina Tardia — já dizia mais do que qualquer palavra. Para os outros, não havia dúvida: Kai fora salvo pelo campeão de Vaelrys.

De outra perspectiva, Kai não gostava nem um pouco de como as coisas estavam se desenrolando. Promessa Silenciosa havia interferido em um embate entre dois campeões — o tipo de gesto que criava dívidas silenciosas, mesmo quando não eram pedidas. Isso tornava Lâmina Tardia visível de um jeito que ele não queria.

Também havia Vaelrys. Um nome grande demais para estar ali. Alguém com privilégios antigos demais para precisar provar algo no Rasgo da Vida — uma competição feita para campeões de liberdade duvidosa, não para herdeiros de portas sempre abertas. Aquilo não fazia sentido.

Mas nenhuma dessas coisas o incomodava tanto quanto o resto. Promessa Silenciosa parecia inclinado a ajudá-lo. Não por acaso. Não por impulso.

Kai afastou a pergunta antes que ela criasse raízes.

O silêncio se estendeu. Nenhum dos dois parecia disposto a rompê-lo. E, ainda assim, aquilo não era confortável.

Promessa Silenciosa falou primeiro.

— É um homem astuto.

Lâmina Tardia virou a cabeça devagar. Mais silêncio. 

— Lorde Vaelrys — corrigiu Promessa, como se o nome fosse importante demais para ser ignorado. — Uma jogada bem articulada. Pintar um alvo nas suas costas… produziu exatamente o efeito desejado.

— Já estou acostumado — respondeu Lâmina, sem pressa. — Mas pela sua intervenção, parece que você não aprova os métodos do seu… parente.

Promessa enrijeceu os ombros.

— Não me entenda mal. Apenas penso que outros meios poderiam ser mais… eficazes.

— E foi por isso que entrou no Rasgo da Vida? — Lâmina perguntou. — Para garantir que esses meios funcionassem?

Um som curto escapou de Promessa. Não foi exatamente uma risada — mas também não foi silêncio.

— É assim que me vê? — Ele inclinou levemente a cabeça. — Alguém cumprindo ordens?

Lâmina Tardia devolveu o gesto, quase imperceptível.

— Vejo alguém que faz demais por um completo desconhecido.

Promessa não contestou. O silêncio bastou como resposta.

Lâmina então levou a mão às vestes e retirou a adaga. O símbolo da casa Vaelrys estava cravado no cabo. Ele a girou entre os dedos uma vez antes de estendê-la, tocando sua lâmina.

— Isto é seu.

Promessa fitou a arma. Depois, ergueu o rosto para a máscara branca.

— Você a guardou — observou. — Posso perguntar por quê?

Lâmina assentiu.

— Porque eu quis.

Promessa pigarreou.

— Curioso. Você me acusa de intenções ocultas… mas age como se não tivesse nenhuma.

— Eu não acusei — respondeu Lâmina. — Apenas comparei minhas dúvidas.

— Dúvidas ocasionais? — Promessa inclinou a cabeça, quase divertido.

Lâmina Tardia virou o rosto lentamente.

‘Ocasionais… Ho! Ho o quê, cretino estranho?’

— Você sabe que isso não ficou só na sua cabeça, não sabe? — disse Promessa, baixo demais para ser casual.

Lâmina sentiu o atraso da própria reação. Não lembrava de ter dito nada — e ainda assim, a garganta ardia… como se o som tivesse escapado sem permissão.

— Não sei do que está falando — respondeu, dando meio passo para o lado. Estavam próximos demais. — Mas já que está tão bem informado… talvez possa me dizer qual é a próxima etapa.

Promessa virou-se bruscamente para ele.

— O que o faz pensar que eu saberia?

Lâmina deu de ombros, pousando a mão no cabo de Tirise.

— Pela mesma razão de ter me ajudado. E por mais duas — continuou, erguendo dois dedos. — Ou você cumpre ordens do seu lorde… ou está aqui pagando por algo. Em ambos os casos, Kaedor está envolvido.

Promessa assentiu lentamente.

— É mesmo? Então continue.

— Não — disse Lâmina.

— Como assim?

Lâmina Tardia deu de ombros.

— Eu não quero.

Promessa riu, desta vez de verdade. Mas conteve a risada antes que ela se tornasse um erro.

Balançou a cabeça, incrédulo — não pelas palavras de Kai, mas pelo cuidado excessivo nelas.

— Você é louco.

— Obrigado. — assentiu. 

— Não foi um elogio.

Lâmina assentiu de novo.

— Mesmo assim.

Promessa Tardia balançou a cabeça, rindo bem baixinho.

Por trás da máscara branca, Kai lançou um olhar estranho para o colega campeão.

 ‘Esquisito.’

Enquanto todos se preparavam para a próxima etapa, dois dos campeões mais fortes pareciam trocar gentilezas.

Um grupo próximo observava a situação com olhares inquietos.

— Você viu aquilo?

— Vi. Não quero entender.

— Acha que estão juntos?

— Pior. Parecem à vontade.

— É… vamos sair perdendo.

Em outro ponto da câmara, vozes baixas se acumulavam.

— O que Promessa Silenciosa faz aqui?

— Um legatário não entra em algo assim sem motivo.

— Ele está tramando algo. Com toda certeza.

“Ele”…? Até onde sabemos, pode ser ela.

— Como se alguém já tivesse visto aquele rosto.

Ao redor da sala, os murmúrios se mesclavam, tensos demais para serem ignorados. Ninguém ousava falar alto, mas os olhares diziam o suficiente.

De volta aos dois renegados, Lâmina Tardia pigarrou.

‘Quando esse desgraçado vai sair de perto…’

Promessa Silenciosa virou lentamente a cabeça.

— Que acha dele?

Lâmina inclinou a cabeça.

Promessa tocou a própria máscara, na altura do nariz.

— Peço perdão. Maneirismo.

— Compreendo.

Promessa apontou com a cabeça na direção de Sorrateiro. 

— E então?

Lâmina deu de ombros.

— Excêntrico.

— Hm. E?

— Cacóstomo.

— …Certo.

— Profundamente obsceno.

Promessa soltou uma breve risada.

— Entendi, Sr. Fala-Rebuscada.

Lâmina virou o rosto.

— Está zombando de mim?

— Eu? De modo algum. Mas você é bem estranho.

— Falou a pessoa que soa como metal sendo serrado.

— Isso é apenas rouquidão.

Lâmina riu.

— Rouquidão? Me parece que você inala fumaça por esporte. Trata isso.

— Agora quem está zombando de quem?

— Ei, eu disse apenas a verdade.

Promessa inclinou levemente a cabeça.

— Verdade? Então que tal esta: pelo menos eu não falo comigo mesmo.

Lâmina levou a mão ao peito.

— Eu não falo sozinho.

— Ah, fala sim. Acha que todos esses olhares são o quê? Te acharam bonitinho? Te prometo que não dá pra ver nada além dessa máscara aterrorizante.

Lâmina Tardia inclinou levemente a cabeça.

— A máscara?

— Horrível — respondeu Promessa Silenciosa, sem hesitar. — Absolutamente horrível.

— É bem… bonita.

— Bonita? Isso é um crime visual.

Kai deu um passo para trás.

Ele gostava muito de sua máscara.

Quem em sã consciência falaria mal dela?

Olhou ao redor.

Rostos pálidos, que antes apenas observavam, desviaram imediatamente. Parede. Chão. Teto. Qualquer lugar — menos ele.

‘Aterrorizante…? Essa máscara inofensiva?!’

Uma pausa.

‘Loucos.’

Promessa Silenciosa deu um passo para trás e apontou discretamente com o queixo.

— Aí está. É exatamente disso que estou falando.

Lâmina Tardia franziu o cenho.

— Do quê?

— Disso.

Um silêncio.

Lâmina piscou.

— Espera… eu disse isso em voz alta?

— É claro — disse Promessa. — Como várias outras coisas perturbadoras.

Kai engoliu em seco.

Droga.

O que mais ele havia dito?

Desde quando aquilo estava acontecendo?

Céus.

Que constrangimento.

Ele desviou o rosto para o outro lado. Qualquer lugar era melhor do que encarar Promessa Silenciosa.

Entrementes, o rosto de Kaedor surgiu novamente no mesmo lugar. 

— Muito bem… confio que estejam devidamente preparados. A próxima etapa terá início em instantes.

Um caminho surgiu na parede atrás do rosto do Legatário.

— Sigam por este corredor. Ao seu término, aguarda-vos a derradeira etapa.

O corredor não se revelou hostil à primeira vista. Não havia lâminas ocultas, mecanismos visíveis ou qualquer ameaça que justificasse cautela excessiva. Era longo, amplo e quase solene em sua construção, talhado na mesma pedra negra das arenas anteriores, com paredes lisas demais para serem naturais. Cristais opacos percorriam o teto em intervalos regulares, emitindo uma luz pálida e uniforme. Seguro demais. Silencioso demais. E, justamente por isso, profundamente desconfortável.

Os primeiros passos ecoaram como em qualquer outro recinto fechado — múltiplos, sobrepostos, desorganizados. Sete dezenas de sobreviventes avançaram sem formação, alguns ainda feridos, outros embriagados pelo alívio indevido de terem superado o obelisco. 

— Então não sabe como é a próxima etapa? — perguntou Lâmina Tardia, caminhando ao lado de Promessa Silenciosa, a voz baixa o bastante para não perturbar o ar ao redor.

A máscara branca voltou-se apenas o necessário.

— Não. — A resposta veio sem hesitação, limpa, desprovida de qualquer inflexão. — E desconfio que essa ignorância não seja um descuido da organização.

Lâmina soltou um ruído curto, quase um sopro.

— Kaedor aprecia surpresas.

— Kaedor aprecia controle — corrigiu Promessa, serena. — Surpresas são apenas o nome elegante que ele concede àquilo que já foi meticulosamente decidido.

Por um breve instante, caminharam em silêncio. À frente, os competidores se espalhavam pelo corredor como um fluxo nervoso, passos irregulares, pressa mal contida. A luz pálida dos cristais tornava todos estranhamente iguais — vultos cinzentos movendo-se em uma direção incerta.

— Estranho — murmurou Lâmina.

— O quê?

— Nenhuma instrução. Nenhuma regra. Nenhum espetáculo.

Promessa inclinou levemente a cabeça, como quem escuta algo que ainda não existe.

— Isso, por si só, já é uma regra.

— Odeio lugares assim — murmurou Lâmina.

— Algo sempre acontece — assentiu Promessa. — É o Rasgo. 

Alguns passos adiante, um competidor riu, alto demais para o ambiente.

— Talvez seja só um maldito corredor — disse a outro, ajustando a própria arma. — Nem tudo precisa ser um enigma.

— Aqui, precisa — respondeu o companheiro, inquieto. — Tudo aqui precisa.

O ruído do avanço era irregular, composto por metal, tecido e respirações tensas.

Então algo mudou. Não no corredor, mas no retorno acústico. Os ecos começaram a regressar… errados.

Passos não voltavam de trás, mas dos lados. Rangidos surgiam à frente antes mesmo de existirem. Houve um atraso mínimo, quase imperceptível — porém suficiente para corroer o senso de espaço. Um competidor hesitou, virando o rosto. Outro acelerou, irritado com a própria apreensão. Foi o bastante.

— …Vocês perceberam isso também, não perceberam? — murmurou alguém, a voz comprimida pela incerteza.

— Perceber o quê? — respondeu outro, tenso, girando sobre os próprios calcanhares. — Não há nada aqui.

— Exatamente — veio um terceiro, mais distante. — Não há nada… e ainda assim…

Como se o cérebro coletivo se recusasse a aceitar o que os olhos haviam testemunhado.

— …O que… — a frase morreu na garganta de alguém.

Então o primeiro homem simplesmente sumiu.

Não houve ruído, mecanismo ou transição visível. Ele simplesmente deixou de existir no espaço que ocupava, como se a realidade tivesse recusado sua presença. Um instante estava ali — no seguinte, nada. Nem grito. Nem queda. Apenas ausência.

O silêncio que se seguiu foi mais violento que qualquer explosão.

Mas ninguém notou sua falta…

… Então assim, caminharam.

Sete dezenas de sobreviventes avançando como um fluxo nervoso, passos contidos, respirações pesadas, olhares atentos demais para um espaço que não oferecia nada para ser observado. 

Então outro homem desapareceu.

O espaço que ocupava permaneceu vazio, indecentemente vazio, como se jamais houvesse sido preenchido.

E dessa vez… foi percebido.

Os passos morreram em desordem.

— …Vocês viram isso?

Ninguém respondeu.

Porque todos viram.

Outro passo. Outra ausência.

Não houve sangue.

Não houve vestígio.

Não houve sequer a dignidade de uma morte compreensível.

Outro competidor deu meio passo para trás.

E deixou de existir.

O silêncio que se seguiu não foi ausência de som — foi compressão. Algo pesado e invisível pressionando tímpanos, pulmões, pensamentos. Um terror diferente, mais insidioso, porque não oferecia causa visível.

— Que porra foi essa… — alguém sussurrou.

— Armadilha — disse outro, rápido demais. — Tem que ser.

— Onde?

Ninguém soube apontar. 

Um homem avançou, cauteloso, os olhos saltando entre chão, teto, paredes. Nada aconteceu. Ele deu outro passo. Seguro.

Um terceiro.

Seguro.

O alívio coletivo foi quase audível.

— Viram? — disse, com um riso nervoso. — É só não fazer—

Ele hesitou.

Foi mínimo.

Uma pausa microscópica, como se tivesse lembrado, tarde demais, de que não sabia de fato o que estava fazendo. O corredor o apagou. Não houve explosão. Não houve colapso. Apenas o desaparecimento limpo, absoluto, como uma frase interrompida antes do verbo final.

Algo mudou nos sobreviventes.

E então o terror deixou o corredor.

Passou a habitá-los.

— Isso… isso não é uma armadilha comum…

— O corredor não reage ao movimento…

— Então ao quê?

Ninguém queria formular a hipótese. Intuí-la já era perigoso demais.

Lâmina permanecia imóvel. A cabeça levemente inclinada. Observando. Escutando algo que não era som.

À direita, um competidor respirava rápido demais. À esquerda, outro murmurava para si mesmo, repetindo palavras sem perceber. Convencer-se. Agarrar-se a certezas artificiais.

— Não faz sentido… — sussurrou alguém.

E desapareceu no meio da frase.

O pânico não explodiu.

Ele se infiltrou.

Frio. Paralisante.

— …Ele está escolhendo…

— O quê?

— O corredor…

Mais deles desapareciam a cada segundo. Não por erro visível. Não por imprudência clara. Algo muito pior. Algo interno. Invisível. Irrecusável.

Alguns, estranhamente serenos, simplesmente avançavam. Passos firmes. Olhos estáveis. E o corredor… nada lhes fazia.

Kai inclinou levemente a cabeça, acompanhando-os com o olhar.

Endireitou a postura.

Respirou fundo.

Ao seu lado, Promessa Silenciosa observava o mesmo fenômeno. Os ombros tensos. A quietude forçada de quem começava a compreender.

Um ruído irritado escapou de sua máscara.

— Maldito… — murmurou. Então virou-se para Kai. — Você sabe o que fazer, não sabe?

Lâmina Tardia assentiu.

Uma risada curta, sombria, vibrou por trás da máscara branca.

— Claro que sabe… — disse Promessa. — E então?

Kai virou a cabeça.

— Você confia?

— Em você? — A resposta veio imediatamente, carregada de zombaria. — É claro que não.

— Em si mesmo.

Promessa Silenciosa hesitou.

Inclinou levemente a cabeça.

— Em mim mesmo? — Um sopro de desdém. — É claro que confio. Que tipo de pergunta é—

A frase morreu.

Seu rosto percorreu o corredor. Depois voltou para Kai. Que assentiu uma única vez.

Um acordo tácito passou entre ambos — silencioso, inevitável. Endireitaram-se. E caminharam.

Ao redor, súplicas, hesitações, tentativas desesperadas de fabricar coragem. Cada fissura interna, cada dúvida microscópica, era recebida pelo corredor com a mesma resposta impiedosa:

Ausência.

Mas Lâmina Tardia e Promessa Silenciosa avançavam. Assim como Sorrateiro. 

E, ao contrário de todos os outros, ele parecia… radiante.

O competidor desbocado gargalhava enquanto caminhava, a voz ecoando alta demais para um lugar que havia devorado dezenas de vidas.

— Kaedor, seu grande filho da puta manipulador! HAHAHAHA! Que maravilha… que coisa hedionda! Que lindo!

Alguns o olharam com horror.

Outros nem ousaram.

Porque até o riso, ali, parecia perigoso.

Ainda assim, Sorrateiro avançava sem hesitar — passos soltos, postura relaxada, como se passeasse por uma feira ensolarada, não por um corredor que apagava existências.

Ao final, restaram apenas dezoito.

Nenhum deles compreendia plenamente o que ocorrera.

Mas todos, em algum nível, sabiam.

O corredor jamais fora uma travessia.

Fora um crivo.

Não de força.

Não de habilidade.

Mas de algo muito mais raro — e muito mais perigoso de se possuir.

E aquela fora apenas a antecâmara do fim.

 

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