Volume 2

Capítulo 129: HISTERIA

Apesar de não ter notado qualquer marca física visível ou poder transbordando, algo havia mudado, sim. 

Era como se uma pressão tivesse se desfeito. Como se a leitura do obelisco permitisse uma aceitação contínua e concreta.  

Certamente, Kai não era o único a sentir isso. 

Havia uma paz aterradora aqui. Algo real. E ele não gostava disso. Porque sabia que isso era errado. Onde havia paz demais, havia erro. E este lugar… era todo errado. 

Mas, por mais incrível que fosse, sua passagem até a próxima câmara foi tranquila, sem armadilhas, instruções ou ecos. No fim, o lugar era liso e confortável. 

Antes, devia ter, no máximo, uma centena de competidores após a etapa dos desistentes. Mais da metade pereceu para o obelisco. 

Agora, esta pequena câmara confortável deveria estar abrigando quatro dezenas de competidores. 

Apesar de ser iluminada e acolhedora, o clima era o contrário disso. Muitos concorrentes estavam esparramados no chão, respirando pesado e com dificuldade. Nenhum deles ousava dizer um A, ou sequer respirar pesado. 

Kai entendia perfeitamente, mas duvidava que qualquer um deles fosse ser punido pelo obelisco, não quando ele os aceitaram pacificamente. 

O medo, oontudo, era algo difícil de superar. Ele apostaria duas moedas de ouro como qualquer um destes bem aqui não deveria ter mais do que o necessário em combates assim. 

Ele mesmo nunca participou de competições como esta. Os torneios de Viriacevada — competições interestaduais que ocorriam nos domínios das Dez Casas de Algüros a cada seis anos valendo um ano de produtos agrícolas cedidos pelo anfitrião daquele ano ao vencedor, nunca renderam mais do que apenas luxações aos campeões de suas casas. 

Isto — o Rasgo da Vida — era algo diferente. Macabro. E Kai se sentia amplamente desconfortável. 

Havia medo, angústia, terror e pavor. Cada um destes competidores estava longe de casa, sonhando com um prêmio que seria cedido apenas à um deles ali. Um este que, provavelmente, seria o único sobrevivente da competição. 

Kai se virou lentamente, encarando Promessa Silenciosa. Assim como ele, o campeão de Vaelrys tinha uma ampla área vazia ao redor, afastando qualquer um competidor desejoso de iniciar uma conversa. 

Só que diferente de Promessa Silenciosa, o motivo do afastamento dos competidores de Kai— ainda mais aqueles que preferiam ficar amontoados uns sobre os outros do que próximos a ele — era puramente por ódio ou repulsa. 

A propaganda de Kaedor pareceu surtir efeito. Na verdade, pareceu até ultrapassar as expectativas. 

Todos viam Kai como um inimigo a ser batido o mais cedo possível. Todos sabiam que no um contra um, nenhum deles teria chance… talvez Sorrateiro ou Promessa Silenciosa — que o próprio Kaedor fez questão de manter num mesmo pedestal. 

E, em decorrência disso, muitos olhos alarmados, cheios de raiva, medo e ansiedade estavam voltados para Kai, que estava tranquilamente encostado numa parede distante, de braços cruzados. 

Ele também gostava da distância. Era melhor ficar sozinho. Fazer amizade com pessoas que iria matar nunca era bom. 

‘Desgraçado…’

Kai sorriu um pouco sob a máscara. 

Alguns olharam arregalados para ele, só para desviar o olhar rapidamente. 

E como se tivesse aceitado a deixa, uma tela surgiu na parede oposta, com o rosto de Kaedor pairando. 

— Ah… hahaha! Muito bem. Devo dizer: verdadeiramente admirável. Vejo que alguns já se permitem repousar — como é justo. Muito justo. Foram bravos, esplêndidos. Competiram com afinco e merecem, sem dúvida, um momento de descanso.

Ao mesmo tempo, uma porta se abriu, e várias figuras encapuzadas surgiram em silêncio, trazendo bandejas com potes, cilindros e outros comestíveis cuidadosamente dispostos.

— Aproveitem este intervalo para recompor o corpo — e, se possível, o espírito. Após tantas horas, um aperitivo é mais do que apropriado. Hahaha.

Kai recusou quando um dos servidores passou oferecendo, o que lhe rendeu alguns olhares curiosos. De soslaio, notou Promessa Silenciosa aceitar apenas um cilindro. Em contraste, Sorrateiro acolhia tudo o que lhe era entregue, despejando os conteúdos por um tubo espesso que conduzia até sua cabeça.

— Alimentem-se, recuperem as forças e estejam preparados — pois a última etapa se aproxima. E, antes que me esqueça… concedo-lhes também o privilégio de testemunhar o abatimento dos desistentes. Confesso: há algo de estranhamente reconfortante nessa constância. Céus… nunca me canso de vê-la se repetir. Hahaha.

Enquanto os competidores se alimentavam, os servidores voltavam por seus caminhos e Kai se recostava na parede, o rosto de Kaedor foi substituído pelo repeteco de um ocorrido não muito distante. 

Um sorriso arrepiante surgiu sob a máscara de Kai. 

Ali, nas imagens que se moviam, um jovem em vestes escuras e uma máscara branca trucidava dez competidores sem o menor remorso. Foi preciso apenas um golpe de sua lâmina para cada um. 

E foi preciso apenas meio segundo entre cada desistentes para que a lâmina de Lâmina Tardia trouxesse dor e anseio ao mundo. 

Em minutos, ele dizimou uma dezena de competidores como se não fosse nada, sem sequer sofrer um arranhão. 

No fim, quatro dezenas de competidores o olhavam, um misto de susto, medo e horror em seus olhos. Algo mais intensificado do que antes. 

Não havia conversas, ou barulho de pessoas mastigando. Estavam todos, sem exceção, encarando Kai. 

De repente o som de palmas surgiu, seguido de risadas beligerantes.

— Porra… muito bom! HAHAHAHAHA! Que bagulho foda, cara, pelo Imperador! — Sorrateiro se virou, apontando para Lâmina Tardia com o dedo torto. — Ô Lâmina! Tu não é nem um pouco pé de chumbo, tá ligado? Caralho… tu sabe mesmo como botar fogo nessa merda, sacou?!

Ele se ergueu de repente, interrompendo as próprias risadas, puxando as lâminas. 

— Então bora, filho da puta. Quero ver tu usar essa lâmina pra valer comigo, Lâmina. Vamo, filhão… meu braço tá coçando pra te abrir no meio, ô vagabundo.

Aqueles próximos ao Sorrateiro se afastaram aos trambiques, cientes de que não sobreviveriam ao embate cruel. 

— Ei, nem me envolve nisso — gritou um oponente, se afastando o mais rápido possível.

— Porra… esse desgraçado não tá de brincadeira — resmungou outro, recuando com a lâmina ainda em riste.

— Não pisa na zona dele, sério… — murmurou, mordendo o lábio, os olhos fixos no corpo agressivo à frente.

— Caralho… e se ele mirar na gente? — um mais baixo espiou por entre os ombros alheios.

— Eu tô fora dessa merda — jogou um, girando a capa nos ombros, já procurando a fuga.

— Vai dar merda… só espero que não seja agora — cochichou uma voz trêmula, os dedos arranhando a pedra do chão.

Kai, por outro lado, permaneceu ereto, a postura calma e firme como pedra esculpida. Um silêncio pesado caiu sobre a arena; ninguém ousava respirar alto. Todos os olhares se fixaram em Sorrateiro, lâminas em riste, e no Lâmina Tardia, de braços cruzados e cabeça baixa.

— Ele… dormiu…? — murmurou uma voz trêmula, quase inaudível.

— Dormir agora? Tá de sacanagem, né? — resmungou outro, recuando um passo, os dedos apertando a bainha.

— Eu não tô entendendo nada… — sussurrou uma terceira, os olhos arregalados, corpo inclinado para trás.

— Mano, cês tão vendo isso? — um quarto fungou, meio incrédulo, meio excitado, sem coragem de mover um músculo.

O contraste era absoluto: enquanto o caos se espalhava entre os outros, Kai era um ponto fixo, silencioso, que irradiava uma autoridade que nenhum grito ou lâmina podia abalar.

Então ele ergueu a cabeça, arrancando suspiros secos. Ninguém ousou sequer piscar. 

— É melhor… — a voz de Lâmina Tardia saiu serrilhada, diferente de antes. — Baixar essas armas… ou alguém pode se machucar. 

Sorrateiro explodiu em risadas mais uma vez. 

— Ah é, é? — ele apontou para a própria testa, fingindo reflexão. — Então me fala, seu pau no cu, quem é que vai se machucar aqui? Eu, tu, a vaca lá do corredor?

Lâmina Tardia inclinou a cabeça, e o som de seus dedos apertando fez eco. Aqueles que não queriam ser envolvidos se moveram mais ainda para trás. Se pudessem, estariam subindo as paredes agora. 

— Mas é claro… — Lâmina Tardia sibilou. — Que sou eu. 

— Hahaha, ah tá… — Sorrateiro bateu com a palma na própria coxa, rindo feito idiota. — Que fofo! Eu tava achando que tu ia me atacar de verdade, mas não… tu só vai me olhar estranho e pronto! Que gracinha, hein!

Sorrateiro se inclinou, dobrando os joelhos e firmando os pés. Seus punhos apertaram ao redor do cabo de suas lâminas. 

— Mas não fica achando que vai se livrar, otário — Ele deu um passo à frente. — Tu vai brigar comigo sim, e eu vou te mandar todo embaladinho e bonitinho diretamente pro Imperador, vagabundo. Todo fatiado. 

Kai suspirou sob a máscara. Não achou que teria de lutar contra ele aqui, mas não podia fazer nada. Podia negar…, mas seria um saco, também. 

‘Esse cretino…’

— É o que? — Gritou Sorrateiro. 

Kai ergueu o rosto, franzindo a testa. Estava pronto para dizer algo, mas alguém estava caminhando em direção a eles. 

Esta pessoa caminhou lentamente até ficar próximo o bastante de Kai, e parou no caminho entre os dois — Sorrateiro e Lâmina Tardia. 

Promessa Silenciosa tinha uma postura rija, e segurava calmamente o cabo de sua espada pendendo em sua cintura, como quem não quer nada. 

Sussurros surgiram, mas logo cessaram, porque Promessa Silenciosa, a Estrela Dalva e campeão dos Vaelrys, tinha se oposto ao duelo unilateral. 

— Ninguém vai duelar aqui, Sr. Rhok-Vand — disse, a voz rouca e saindo em ecos. 

Sussurros surgiram quando Promessa Silenciosa se calou. 

— Ei, você ouviu? O nome dele é Rhok-Vand… 

— Sim… aquele maldito da Corte das Pelejas. Isso me dá arrepios. 

— Foi ele que devastou a Vila dos Cortejos, certo? Será que ele está cumprindo uma pena? 

— Xiiii… ele ainda pode ouvir, desgraçado. Sabe como ele é um lunático? 

Enquanto sussurros — não tão baixos assim — despontavam aqui e ali, Rhok-Vand sibilou. 

— Sorrateiro pra tu, seu vendido de merda. Nem sei teu nome e já não gostei. — ele apontou com a cabeça. — E presta atenção: meu papo não é contigo, não, ô filho da puta. É com aquele filho da puta ali, o caladão de máscara.

Promessa Silenciosa apertou a bainha de sua espada e se preparou para desembainhá-la. 

— Ah, mas é comigo sim, pois o código exige que um Vaelrys cumpra o pacto da casa em qualquer instância. 

— Código, pacto, instância? — ele fez um gesto vago com a mão, como se espantasse moscas. — Meu amigo, eu cago pra isso tudo com uma tranquilidade absurda. Cago sentado, cago sorrindo, cago pensando em vocês. 

Ele bateu com a lâmina no ombro. 

— Quer saber? Pega esse pacto bonitinho, esse código limpinho e essa tal instância aí e enfia tudo junto na xereca daquela velha doida que vocês chamam de mãe. Se der pra empurrar com força, melhor ainda.

Sorrateiro se inclinou e deu uma risada descontrolada. 

— Não, pensando bem… — ele soltou outra gargalhada. — Enfia tudo no cu do Legatário. Aquele otário tem cara de quem gosta, vai saber.

Um silêncio torto se espalhou pela câmara, daqueles que não pertencem à tensão, mas ao embaraço puro. Alguns competidores desviaram o olhar, outros fingiram ajustar cintos, capas ou feridas que claramente não precisavam de atenção. 

Mas todos, sem exceção, estavam incrédulos com as palavras descabidas de Sorrateiro. 

Um sujeito pigarrou, alto demais, como se pudesse expulsar as palavras de Sorrateiro do ar. Outro fez o sinal dos Três Selos, murmurando algo que soava mais como um pedido de desculpas ao universo do que uma prece.

— Ei… ei, calma aí… — tentou um dos competidores, erguendo a mão com hesitação, a voz fina demais para o momento. — Não precisa… não precisa ir tão longe assim, né? A gente ainda tá… conversando…

O rosto de Sorrateiro deslizou até ele com uma lentidão perigosa.

— Conversando? — repetiu, soltando uma risada seca. — Irmão, se isso aqui é conversa pra tu, eu fico imaginando como deve ser tua briga. — Ele deu um passo na direção do sujeito. — Quer entrar no papo também, campeão? Tem espaço, eu improviso xingamento pra todo mundo.

O competidor recuou tão rápido que tropeçou no próprio pé, quase caindo de costas. Ninguém riu. Ninguém ajudou. O silêncio voltou a se fechar como uma tampa.

Então, no meio daquele caos verbal, Lâmina Tardia permaneceu imóvel. Braços cruzados. Cabeça baixa. Nenhuma reação visível.

Enquanto Sorrateiro ainda resfolegava, esperando resposta, o Lâmina Tardia apenas ergueu dois dedos e ajustou, com precisão quase cerimonial, a posição da própria máscara. 

O gesto foi lento. Deliberado. Não havia pressa, nem raiva aparente — apenas controle absoluto. O contraste foi tão violento quanto um golpe: enquanto um cuspia palavrões como granadas, o outro parecia decidir, em silêncio, quantas delas seriam necessárias.

E foi aí que alguns competidores entenderam, tarde demais, que a piada não era o Sorrateiro. Era o fato de ele ainda estar falando…

— Bom… Se você insiste… — Promessa Silenciosa apertou o cabo de sua espada que estava pronta para sibilar quando uma presença firme se fez notar. 

O rosto de Kaedor surgiu na tela, impecável como sempre, com a postura de um lorde que caminha por salões de mármore antigo. A voz dele ecoou, calma, clara e cortante:

— Rhok-Vand… basta. Cesse imediatamente esses ultrajes à honra da minha família. Não tolerarei tamanho desrespeito, ainda que revestido de bravata ou humor.

Sorrateiro se virou para a tela, arqueando os ombros e respondeu naturalmente:

— Ah, Kaedor, eu sei, eu sei… mas, poxa, tava só me aquecendo! Relaxa, irmão, foi tudo brincadeira.

Kaedor fixou o olhar, sem alterar um milímetro da postura. A voz permaneceu serena, mas carregada de autoridade incontestável:

— Não se trata de brincadeira, e o respeito não é opcional. Obedeça.

Sorrateiro bufou, fez um gesto exagerado com as mãos, mas acabou recuando, baixando a cabeça e guardando a língua afiada, ainda murmurando de canto de boca:

— Beleza, beleza… sem problemas, lorde. Mas vou rir disso mais tarde, hein…

O contraste entre o silêncio majestoso de Kaedor e a irreverência malandra de Sorrateiro tornou o momento ao mesmo tempo tenso, cômico e memorável. Os demais competidores soltaram respirações presas, aliviados, mas incapazes de desviar os olhos daquilo: o equilíbrio entre caos e ordem estava perfeitamente exposto.

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