Volume 2

Capítulo 128: ECOS DO OBELISCO

Este homem acreditava que estava indo bem. Não era dos mais fortes, tampouco dos mais temidos, mas sobrevivera até ali por disciplina e contenção. Cada passo era medido, cada respiração contida no fundo do peito, como se temesse que o próprio ar pudesse denunciá-lo. 

Era o único a se mover. Avançava de lado, acompanhando a curvatura da arena, mantendo distância dos outros competidores que permaneceram de pé nela, e das armadilhas visíveis.

Ele havia entendido a regra geral: não correr, não falar, não chocar metal. O erro veio no reflexo. Um fragmento de osso, resto de alguém menos atento, rolou sob seu calcanhar; o corpo reagiu antes da razão, e a mão se estendeu para uma parede em busca de equilíbrio. 

Os dedos tocaram a placa suspensa, leve demais para resistir. O til foi baixo, quase tímido — mas suficiente. O som não o matou. Foi pior. A arena respondeu com um zumbido concentrado que percorreu apenas o braço estendido, cristalizando músculos, rompendo os nervos num silêncio absoluto.

O homem caiu de joelhos, sem um grito, olhando em horror contido para o próprio membro agora inútil, pendendo num ângulo impossível. A arena respondeu em atraso, com uma vibração concentrada que não explodiu, não rasgou — apenas colapsou algo essencial por dentro.

Ele não morreu. Isso era o pior. O eco cessou rápido demais, como se a arena tivesse decidido que o castigo estava completo. O competidor permaneceu ali, vivo, mas nunca mais empunharia uma arma. Nunca mais pisaria ali como competidor inteiro. A arena aceitara sua vida… e confiscara o resto.

É claro que ninguém parou muito tempo para olhá-lo. Aqueles na arena estavam preocupados demais para produzir qualquer ruído. 

Respirar poderia significar morte, afinal. 

Enquanto isso, Kai permaneceu sobre sua sacada, observando abaixo e, de vez em quando, dando olhares tenebrosos em cada um dos competidores que permaneceram na mesma posição que ele. 

Essa cautela era necessária, afinal. Não era uma busca por pódio. Era sobrevivência. 

O entendimento não veio como revelação súbita, mas como um ajuste fino — um deslocamento interno quase imperceptível, semelhante ao instante em que uma lâmina encontra o ângulo exato para cortar sem resistência.

Kai parou de ouvir os sons em si e passou a ouvir o que vinha depois deles. O atraso mínimo. A deformação. O modo como o eco retornava mais fraco em certos pontos e mais denso em outros, como se o ar tivesse espessuras distintas. Ele percebeu que a arena não reagia à origem do ruído, mas à sua intenção cinética: não punia o passo, mas o peso; não o som, mas a pressa contida nele. 

O espaço era um instrumento, e cada competidor, um executante desastrado. Kai fechou os olhos por um breve instante e deixou que a memória de batalhas passadas — o ritmo dos próprios golpes, o intervalo entre respiração e movimento — se ajustasse àquele novo idioma invisível.

Então testou. Com uma precisão quase reverente, arrastou a ponta da bota sobre a pedra, lento demais para ser um passo, rápido demais para ser um ruído acidental. O som nasceu baixo, rasteiro, e morreu antes de encontrar resposta agressiva. Seguro.

Ele repetiu, alterando a pressão, variando o tempo. Um eco retornou torto, indeciso — a arena hesitou. Kai inclinou levemente o corpo, redistribuindo o peso, e avançou um palmo. Nada aconteceu. Sob a máscara, um sorriso contido se formou, não de vitória, mas de reconhecimento mútuo.

Ele não estava mais sendo avaliado; estava dialogando. Cada movimento seguinte tornou-se um enunciado calculado, cada silêncio, uma resposta aceita. Pela primeira vez desde que pisara naquele lugar, Kai não atravessava a arena — ele a lia, linha por linha, como quem decifra um texto antigo escrito para matar apenas os que não sabem escutá-lo.

Kai suspirou, pronto para dar o próximo passo. Então começou a se mover. Não rápido, nem direto. Apenas… inevitável. 

Ele pulou de sua sacada, e pôde ouvir um ruído agudo, como gritos surpresos que foram suprimidos quase imediatamente.  

Kai girou no ar, pousando logo depois a passos calmos, clínicos e silenciosos, já se movendo. Cada passo era um acordo silencioso com o espaço, cada pausa um cálculo que só ele parecia enxergar. 

O obelisco pulsava mais forte a cada vez que ele se distanciava da sacada, e isso não passou despercebido. Um dos competidores notou primeiro — um homem de ombros largos, olhar afiado demais para alguém que ainda respirava ali. Ele entendeu o suficiente para saber que Kai não estava apenas avançando: estava conquistando sua aceitação. 

O medo se transformou em urgência. O homem ergueu a mão num gesto brusco, tentando sinalizar para os outros, e o simples deslocamento de ar já foi demais. O eco reagiu, ferindo-o com uma vibração seca que o lançou contra o chão, vivo, mas imóvel.

Outros não foram tão cuidadosos. Dois competidores avançaram em direção a Kai, buscando cruzar seu caminho, obrigá-lo a parar, a errar e a produzir som. Um deles tentou falar. O nome morreu na garganta. A arena respondeu como um chicote invisível: o homem caiu arquejando, os dentes batendo sem produzir som algum, como se a própria voz tivesse sido arrancada dele. 

O segundo tentou empurrar Kai, desesperado. Kai girou o corpo o mínimo necessário, deixando o impulso passar — e o erro foi todo do outro. O choque de pés contra pedra gerou um eco violento demais para ser devolvido inteiro. O competidor caiu em espasmos, ossos vibrando sob a pele, enquanto Kai seguia adiante sem olhar para trás. 

Mais competidores desviaram de suas posições para a direção de Kai… E naquele instante, ficou claro para todos que ainda conseguiam observar em silêncio: impedir Kai não exigia força — exigia entendimento. E isso… já era tarde demais para aprender.

Ele prosseguiu como uma força da natureza, enquanto outros falhavam. 

Mas isso não duraria muito, pois os competidores tinham um jeito próprio de burlar o som eles mesmos. 

Dois sujeitos muito sincronizados se aproximaram de Kai enquanto ele pulava uma elevação no chão, pousando em seus pés ocultos… só para escorregar em algo. 

Ele se desequilibrou para trás, enquanto uma lâmina que não produziu qualquer sibilo traçou uma linha em sua jugular. 

Kai deixou o corpo cair mais alguns centímetros, lutando para impedir os músculos de travarem sozinhos — algo natural do corpo humano quando em queda. 

A lâmina fina desenhou um arranhão sobre os lábios brancos da máscara de Kai, e o sujeito deu um salto para trás quando o rapaz completou um arco impossível. 

O segundo sujeito não esperou que Kai se ajeitasse e se aproximou com um sorriso sutil em seu rosto quadrado e uma adaga escondido na palma. 

Era o fim para Kai… ele teria que produzir som de alguma forma, e fazer com que o som fosse produzido pelo sujeito, também, afinal, não se era pego na área de impacto se não tivesse feito barulho. 

Pelo menos era o que Kai achava. 

E antes que ele fosse empalado pela adaga, o sujeito parou no meio do caminho, o braço estendido, e arqueou para trás, gotas de sangue sendo cuspidas por sua boca. 

Ele soltou um grito agudo, que foi ouvido pelo obelisco. Menos de um segundo depois, o sujeito foi cortado ao meio por uma lâmina invisível em diagonal. 

Suas partes caíram no chão com um baque surdo, comprovando a teoria de Kai. Ele não fora atingido pelo ricochete do golpe. 

O colega do homem morto estava parado a meio metro de distância, pálido e inconformado. Ele engoliu em seco e virou-se, olhando para o outro lado da arena. 

Kai seguiu o olhar e, parado ali, Promessa Silenciosa estava imóvel, o corpo alinhado como se fizesse parte da própria arquitetura. 

A máscara branca refletia a luz dos cristais de forma difusa, sem revelar emoção alguma, mas havia intenção ali, concentrada nos mínimos gestos. 

Promessa Silenciosa levou dois dedos à lateral do elmo, tocando-o com cuidado ritualístico, e depois os afastou lentamente, abrindo a mão vazia no ar — um gesto mínimo, quase cerimonial. Kai inclinou a cabeça, confuso. 

Ele olhou para o corpo do sujeito morto e, em suas costas, cravado estava uma adaga longa de lâmina fina, com o símbolo da casa Vaelrys. 

Kai tornou a encará-lo. Ele continuava parado, a capa esvoaçando levemente. Parecia tão… cheio de si. 

Lâmina Tardia sorriu por trás da máscara. Será que Kaedor havia ordenado que ele o ajudasse? Se sim, quais seriam suas intenções? Se não… quais seriam suas intenções? 

O outro sujeito se virou, pálido ainda, e pareceu desistir de tentar impedir Kai de sua caminhada. 

Enquanto isso, Promessa Silenciosa e Lâmina Tardia pareciam ter chegado num acordo tácito. Mudo. 

Não uma aliança explícita, mas uma coexistência consciente: não interferiram no aprendizado um do outro, nem romperiam o silêncio por vaidade. Predadores, sim, mas lúcidos demais para desperdiçar energia competindo onde o erro era não entender, e não morrer. 

Concomitantemente, o obelisco pulsou ao centro, indiferente. Kai e Promessa Silenciosa se viraram ao mesmo tempo para observar quando um dos competidores mais jovens, ainda inteiro demais para ter aprendido a conter o corpo, avançou em direção ao obelisco como quem persegue salvação, não compreensão. 

O medo o tornara elétrico: cada músculo vibrava antes do movimento, cada respiração vinha curta, carregada de urgência. Ao cruzar o raio do Núcleo Acústico, o erro não foi um passo em falso, mas o excesso de intenção. O obelisco respondeu de imediato. Os veios luminosos se acenderam com violência, emitindo uma frequência aguda que não se espalhou — concentrou-se nele. O ar ao redor se contraiu. 

O corpo do jovem arqueou, suspenso por um instante que pareceu longo demais, como se estivesse sendo afinado à força. Não houve explosão, nem sangue. Apenas colapso. Quando caiu, seus membros tremiam em espasmos incoordenados, olhos abertos demais, vazios. Ele respirava, sim, mas cada inspiração vinha acompanhada de um ruído interno, um chiado seco que denunciava um corpo condenado a nunca mais se mover em harmonia. O obelisco silenciou em seguida, indiferente ao fracasso.

Enquanto esse jovem tentava e falhava, Kai, Promessa Silenciosa, Sorrateiro e vários outros competidores astutos, perigosos e com sua própria vontade de vencer diminuíram espaço. 

Nesta altura, todos sabiam que não se tratava de uma corrida com linha de chegada. 

Kai foi o terceiro a chegar no obelisco, e chegou diferente. Não houve corrida, nem pressa, nem súplica. Ao adentrar o campo de ressonância, o espaço ao redor pareceu reconhecê-lo, como se ajustasse o próprio ritmo para acomodar sua presença. Os veios do obelisco pulsaram em cadência estável, ecoando o compasso exato de seus passos e de sua respiração. 

Ele parou a poucos palmos da estrutura e permaneceu ali, imóvel, permitindo que o núcleo o lesse por completo. O som não o atacou — o atravessou. Por um breve instante, ele sentiu cada cicatriz interna, cada memória de violência, cada tensão acumulada ser medida e registrada, como dado. 

Quando o pulso cessou, algo havia mudado. Não havia marca visível, nem sensação de poder recém-adquirido. 

Mas Kai tinha passado de etapa.

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