Volume 2

Capítulo 127: EM BUSCA DO SILÊNCIO

Kai sentia um remorso inconfundível dentro de seu peito, latejando brevemente como as labaredas de uma fogueira prestes a se apagar. 

A decisão de seus atos reverberava em sua mente. Será que havia feito o certo? Era cedo demais para dizer. 

Essas implicações nunca foram algo que tiraram seu sono. Kai sempre foi convicto do que fazia, e tratava de nunca se arrepender por isso. 

Mas… era inegável dizer que uma ponta de dúvida deveria ser legitimada aqui. 

Esses homens mortos estavam no lugar errado, na hora errada. Todos estavam aqui buscando o prêmio para a competição. Todos estavam sujeitos à morte. Era assim que funcionavam os grandes coliseus. 

Mas depois de ver o estado de Lyvas… a dúvida era pertinente. 

Ele seguiu com pensamentos extras lhe bombardeando. Um tardio sentimento de culpa. 

Isso abria brechas… E Kai tratou de ativar a ampulheta, seu objeto anti-Voragem mais útil e contundente. 

Kai caminhou por corredores mal iluminados, ciente de que fedia a sangue. Seu traje, agora seco, exalava a catinga de sangue daquelas criaturas vis. E de Atonianos mortos por sua lâmina. 

Um arco se abriu para ele, que o cruzou. 

A iluminação na nova câmara era pior do que no corredor, mas lentamente sua visão foi se acostumando. 

Kai cruzou um limiar sem perceber que o fez. Não houve anúncio, nem fechamento de portas — apenas o instante exato em que o som de seus próprios passos pareceu alto demais. 

Ele parou. 

O rangido mínimo da armadura ainda dançava no ar quando retornou, multiplicado, como se dezenas de versões suas caminhassem ao redor. Instintivamente, ajustou a postura, relaxando o peso, distribuindo-o com cuidado quase ritualístico. Cada respiração foi medida, cada movimento pensado antes de existir. Sob a máscara, seus dentes se cerraram — esse lugar exigia descuido. 

Esta arena não se erguia, mas se afundava. Um vasto anfiteatro subterrâneo talhado em pedra negra, polida pelo tempo e por algo mais antigo que o toque humano. As paredes curvas não apresentavam arquibancadas nem marcas de público; eram lisas demais, como se tivessem sido raspadas até apagar qualquer memória de aplauso. Fendas estreitas percorriam o teto distante em arcos concêntricos, e delas pendiam cristais translúcidos, suspensos como estalactites artificiais. Cada cristal vibrava levemente, mesmo em repouso, como se respirasse.

Pendiam dele, também, anéis suspensos, lâminas imóveis, sinos ocos, placas flutuantes e diversos outros adereços esquecidos pelo tempo. 

No centro da câmara, suspenso por correntes finíssimas quase invisíveis, algo começou a brilhar. Um obelisco estreito, feito do mesmo material negro da arena, mas atravessado por veios luminosos que pulsavam em tons azulados e violetas, como nervos expostos.

Com cuidado, Kai não deu um passo sequer, mas se inclinou para frente. O chão era irregular e fundo, coberto por placas de rocha encaixadas com precisão desconfortável, separadas por frestas finas demais para tropeços— largas o suficiente, porém; mas Kai não conseguia decifrar sua função. 

Ele prendeu a respiração, olhando para a direita e esquerda. Havia diversas pontes como a dele, talhadas para fora da parede. Todas vazias. 

Exceto uma. 

Há uns três lances de sacada para a direita, uma pessoa de postura ereta encarava Kai. Era alta, usava um traje quase todo branco, com um tom de marfim queimado pelo sol. 

Kai observou bem sua postura e sua roupa. A base lembrava vagamente o corte rígido de um comandante naval: um casaco longo até os joelhos, estruturado nos ombros, com ombreiras discretas, mas firmes, dando-lhe um ar de domínio silencioso. Seu colarinho era alto, fechado até o queixo, com uma gola dupla que se abria levemente para trás, como a crista de uma ave. 

Faixas douradas atravessavam seu peito em diagonal. Havia grandes botões, redondos, de ouro fosco, marcados com um símbolo estranho: um círculo aberto por uma lâmina vertical ao centro. 

Sua máscara cobria todo o rosto. Era feita de um material branco opaco, semelhante à porcelana antiga, mas sem brilho excessivo. Não era lisa: tinha sulcos suaves, como se tivesse sido moldada pelo vento ao longo de anos. 

Os olhos eram dois rasgos estreitos e alongados, levemente inclinados para cima nas extremidades, como fendas feitas por lâminas finas.

Pendendo de sua cintura, havia uma longa espada. Visto de perto, parecia mais pesada ainda para essa figura esguia. Sua lâmina era larga na base e afinava de forma gradual até uma ponta longa e cruel. A bainha era branca, reforçada com chapas douradas nas extremidades.

“Promessa Silenciosa…”

O campeão de Vaelrys pareceu enrijecer mais sob o olhar de Kai — neutro devido à máscara —, e moveu lentamente sua mão enluvada na direção do cabo revestido de couro branco, com fios dourados entrelaçados formando padrões espiralados. 

Havia uma clara mensagem aqui. 

Eu. Vou. Cortá-lo. 

O rosto de Kai endureceu, resistindo ao desejo de tocar ele próprio em Tirise. 

Essa troca ambígua de hostilidade durou pouco, como várias coisas no mundo. 

O silêncio também não durou. Um a um, novos arcos se abriram ao longo da circunferência da arena, como feridas geométricas rasgando a pedra. Não houve anúncio, nem voz, nem clarim — apenas o som seco de mecanismos antigos cedendo. De cada passagem começaram a surgir figuras: primeiro poucas, depois várias. Sete dezenas, talvez mais. 

Alguns avançavam com cautela quase reverente, outros deixavam escapar murmúrios nervosos, o roçar impaciente de botas, o tilintar inconsciente de armas mal presas. A arena respondeu de imediato.

O som não ecoou de forma simples — fragmentou-se, voltou em camadas, atrasado, torto, como se cada ruído carregasse uma intenção própria ao retornar. Kai percebeu corpos enrijecendo, cabeças se erguendo em alerta tardio. Muitos não compreenderam que o erro já havia sido cometido no instante em que respiraram alto demais.

Mas como poderiam saber? Eram todos inexperientes nisso. 

Foi um passo apressado que condenou o primeiro deles. Um homem robusto, ferido na coxa, avançou dois metros além do limiar do arco de onde viera, apoiando-se no peso do próprio corpo para não cair. A sola de sua bota tocou uma placa diferente — não cedeu, não afundou, não fez barulho algum. 

O erro foi o grunhido de dor que escapou de sua garganta logo depois. O som subiu. Kai sentiu, mais do que ouviu, os cristais acima vibrarem em resposta. 

Um único sino oco, pendendo à esquerda da arena, começou a ressoar sem ter sido tocado. O tom era baixo, profundo, errado. Em seguida, outro. E outro. As frequências se encontraram no ar como lâminas invisíveis se cruzando.

O homem sequer teve tempo de gritar. Seus ouvidos sangraram primeiro, fios escuros escorrendo pelo pescoço. Depois, o interior de seu corpo cedeu. Kai viu o tórax vibrar de forma antinatural, como se algo dentro dele estivesse tentando escapar. Ossos estalaram. O sangue não jorrou — explodiu de dentro para fora, rompendo nariz, olhos e boca num instante grotescamente silencioso. 

Quando o corpo caiu, foi com cuidado demais, como se a arena tivesse decidido poupá-lo do impacto. O eco cessou. Restou apenas o peso sufocante do entendimento.

Foi só então que um minuto inteiro de silêncio alcançou o lugar, todos encarando o corpo imóvel do defunto. 

Lâmina Tardia e Promessa Silenciosa trocaram olhares. 

O campeão de Vaelrys parecia ter certo nervosismo, mas conseguia esconder bem… exceto para Kai, que estava irremediavelmente atento.

É claro que o pânico veio como sempre vem quando a compreensão chega tarde demais — abrupto, coletivo, irreversível. O primeiro corpo ainda não havia terminado de se acomodar no chão quando alguém correu. Depois outro. Depois vários. O silêncio, que até então parecia uma regra tácita, foi rompido por respirações aceleradas, passos desordenados, um grito curto demais para ser contido e longo demais para ser perdoado. 

A arena reagiu como um organismo acordado à força. Cristais começaram a vibrar em sequências irregulares; placas suspensas giraram lentamente, rangendo num atrito seco; sinos antes imóveis passaram a oscilar sozinhos, como se fossem puxados por mãos invisíveis.

Cada som gerava outro, e outro, numa cascata cruel. Um grupo tentou atravessar uma das pontes laterais em corrida cega — o primeiro perdeu o equilíbrio quando o chão começou a emitir um zumbido grave, o segundo trombou nele, o terceiro gritou ao cair.

O eco resultante foi suficiente para despedaçar os três: um teve o crânio esmagado por dentro, outro teve os pulmões colapsados como folhas queimadas, o último simplesmente se partiu ao meio, a coluna cedendo com um estalo seco que nunca chegou a ecoar.

O obelisco intensificou suas pulsações. Cada pulso parecia reorganizar o som ao redor dele, sugando frequências, distorcendo ecos, impondo uma ordem artificial ao caos acústico. Alguns competidores perceberam — tarde demais, mas perceberam — que ali havia propósito. Um ponto de convergência.

“... Um Núcleo Acústico”

Eles passaram a se mover na direção dele, não em silêncio, mas em desespero calculado, tentando controlar a respiração, abafando passos com as mãos, rastejando como animais feridos. Nem todos conseguiram.

Um homem tropeçou ao tentar ajudar outro e bateu o cotovelo contra uma placa metálica suspensa: o som agudo foi capturado por uma fenda no teto, amplificado, devolvido em três tempos diferentes. Seu corpo inchou antes de estourar; olhos saltaram, língua rasgou, e o que restou caiu em pedaços irregulares, como se tivesse sido desmontado por dentro.

Kai observava tudo à distância, imóvel, enquanto o número diminuía rápido demais. Sob a máscara, sua expressão permaneceu neutra — mas agora ele sabia, com clareza cruel: ali, o inimigo não era quem empunhava a lâmina… era quem ousava existir em voz alta.

A arena exigia controle, e punia qualquer excesso com uma criatividade quase sádica. Entre os sobreviventes, já não havia gritos, apenas olhares arregalados, sinais feitos com as mãos, passos lentos demais para parecerem humanos. O obelisco pulsava outra vez, mais forte, como se registrasse cada morte, cada erro, cada som desperdiçado. Não era apenas um objetivo. Era um juiz silencioso, um coração suspenso no vazio, esperando que alguém aprendesse, finalmente, a atravessar o inferno sem anunciar a própria existência. 

Kai virou a cabeça lentamente, observando o restante dos campeões. Havia menos da metade agora, e Promessa Silenciosa o encarava fundo. Havia dado um passo para trás, como se sentisse temor pelo que acabara de ver. 

O ar ali dentro possuía peso. Não pela umidade, mas pela expectativa. Qualquer ruído — um passo mal calculado, o atrito de metal, uma respiração mais funda — não apenas ecoava, como viajava, ricocheteando pelas paredes curvas e pelos cristais suspensos, retornando em múltiplas camadas, atrasadas e distorcidas. Algumas dessas reverberações não soavam iguais à origem: tornavam-se mais graves, mais agudas, ou simplesmente erradas, como se a arena escolhesse reinterpretar o som.

O rosto de Kaedor surgiu projetado entre as sacadas que ainda abrigavam competidores vivos. Ele permanecia sereno, quase contemplativo, como quem aguardara pacientemente que o tumulto inicial se resolvesse por conta própria.

— Muito bem — disse, com uma urbanidade irrepreensível, a voz clara e medida. — Confesso que não era exatamente assim que concebíamos o início desta etapa… Ainda assim, devo reconhecer que a circunstância mostrou-se notavelmente eficiente. Economizou-nos um tempo precioso.

Fez uma breve pausa — seus olhos claramente deslizando pela arena como quem avalia uma obra recém-inaugurada.

— Como podem observar, não se trata aqui de uma prova que exija o manejo de lâminas ou demonstrações de força bruta. Desejo-lhes, portanto, um desempenho à altura… e até breve.

A imagem se desfez sem urgência, como se Kaedor já tivesse voltado sua atenção para algo mais digno. Kai estalou a língua sob a máscara, um som mínimo — rápido demais para provocar a resposta da arena, mas carregado de desprezo contido.

Kaedor não pensava em dar detalhes sobre o trabalho. Ele queria que eles analisassem profundamente a situação, com calma e consciência. Sem emoção. 

Não ter interferido no suicídio coletivo era a prova viva, juntamente com suas palavras — Economizou-nos um tempo precioso — de que queriam que isso acontecesse. Afinal, não iam dar dicas ou respostas gratuitas. Era trabalho dos competidores descobrir isso. 

Enquanto pensava em diversas situações, um erro mínimo, quase elegante em sua discrição, marcou o destino de um dos competidores.

Em algum momento, ele havia descido para a arena, avançando lentamente, pés nus sobre a pedra fria. 

Mas ele acabou se desequilibrando, e sua mão se estendeu para uma parede em busca de equilíbrio. 

Seus dedos tocaram uma placa suspensa, e um zumbido concentrado percorreu seu braço estendido, cristalizando seus músculos. 

Todos prenderam a respiração quase que em conjunto. Ninguém se moveu. Ninguém respirou. O obelisco pulsou uma única vez, lento e profundo. 

A arena respondeu em atraso, com uma vibração concentrada que não explodiu, não rasgou — apenas colapsou algo essencial por dentro.

 


NT: Olá, aqui é o Leonardo falando. Nessa semana só publicarei um capítulo --- esse. Volto na segunda feira (02/02). Boa semana e um ótimo fim de semana a todos. 

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