Volume 2
Capítulo 126: LÂMINA TARDIA
Enquanto as carcaças dos monstros eram reduzidas a pó, e labaredas de fogo dançavam entre carne pútrida trazendo lamentos aos ouvidos de Kai…
Ele deu dois passos… e caiu de joelhos.
A lâmina de Tirise afundou no chão, e Kai se apoiou nela para não tombar de vez. O mundo voltou devagar: o peso da armadura, dor chegando atrasada, gritos horrendos escapando e sendo silenciados pela carne queimando.
Kai respirou fundo uma vez, e ergueu levemente sua máscara, ciente de que, de algum modo, eles tinham um método de assistir cada um dos campeões em tempo instantâneo.
Mostrar seu rosto não era algo que ele queria agora. Mas conseguiu cuspir um punhado de sangue pela fresta erguida.
Ainda estava vivo, naquele lugar, não sabia como.
Mas já sobrevivera a coisas piores.
Um brilho surgiu na parede diretamente à sua frente e um rosto coberto por uma máscara lisa de marfim apareceu.
Era Kaedor Vaelrys, Legatário da Lâmina Aberta.
Palmas soaram daquele lado, levemente abafadas por sons de risos orgulhosos.
— Magnífico… verdadeiramente magnífico. Caríssimos campeões, não imaginais o quanto me é grato contemplar tamanha competência já nesta primeira etapa do Rasgo da Vida. Foi-nos concedida — a nós e aos espectadores — uma demonstração rara de indulgência célere e de bravura quase cerimonial. Sim, admito: doses severas de brutalidade, ainda que amargas, elevaram nossos olhos e aguçaram nossos sentidos — mesmo que, para alguns, a voracidade da maldade tenha ultrapassado os limites do suportável. E não nos é possível deixar de inclinar o espírito àqueles que tombaram sob tão lamentável destino.
“Contudo — e felizmente — houve entre vós um campeão que se ergueu acima do comum. Um espírito notável que resistiu por longos vinte pseudocks e permaneceu de pé mesmo após o apagar das runas. Recordemos: a prova não se media pela quantidade de Kmares abatidos, mas pela duração da resistência. E eis que, com sobriedade e excesso de mérito, este campeão não apenas quebrou o recorde de pseudocks… como também extinguiu a existência de mais de cinquenta Kmares."
Uma risada suave ecoou, seguida de aplausos, quando o rosto de Kaedor cedeu lugar à imagem de um jovem de vestes negras, portando uma máscara branca de traços femininos, neutros, inexpressivos, cercado por dezenas de monstros mortos e dilacerados. Sua figura causava arrepios não pela violência, mas pela indiferença — coberto de sangue, e ainda assim alheio a ele.
Kai, que observava inexpressivo sob o peso da armadura, se arrepiou diante daquilo que suspeitara. De fato, eles haviam visto toda sua labuta. Foi uma escolha assertiva, portanto, não usar chi e, tampouco, deixar que a máscara escapasse.
Mas um pensamento brotou nele. Kaedor havia dito que ele tinha quebrado o recorde…
Pseudocks deveria ser algo em relação aos minutos, mas quanto? Não sabia, e essa nem era a questão, aqui.
A questão era…
‘Eles estenderam minha contagem de tempo em relação aos demais, não é?’
Kai voltou a encarar a tela.
— Ele — ou ela —, que se recusa a conceder-nos o privilégio de ver-lhe o rosto, é — sem dúvida — um verdadeiro campeão. Compreendeu o ritmo da prova: sobreviver até o fim dos pseudocks era a verdadeira vitória desta etapa. Recebei, pois, com a dignidade que merece… o Campeão da Lâmina Tardia.
Uma série de imagens se movendo substituiu a imagem dele, para o momento em que ele dilacerava os primeiros duelistas que enfrentou, antes de encarar as bestas.
Seus golpes eram únicos e precisos, e toda a batalha não durou mais do que um minuto. Um som tenso havia sido colocado de fundo durante toda a cena.
Nada foi removido, e Lâmina Tardia aparecia como um presságio de morte e euforia. Logo, essas imagens foram substituídas por ele enfrentando as bestas, sendo consumido por elas num instante e, no outro, escapando das garras delas como uma besta em si.
Era feito uma força da natureza, e rasgava suas carnes sem piedade, feito um furacão indomável. Lâmina Tardia não poupou ninguém, e as imagens onde ele se movia — que, por si só, se tratava de uma espécie de sistema muito avançado — eram um caos total.
Não se sabia como escapara ileso, nem mesmo ele. Só espacara.
Era, também, muito mais bonito vendo do que estando em sua pele. Agora mesmo ele mal conseguia respirar sem os ossos doerem. Seu braço urrava, rangendo.
Mas ele conseguia entender o que estava acontecendo aqui. Esse exibicionismo forçado, o intento de continuar, vez e outra, engrandecendo Kai… era um aviso breve e claro. Pintava um alvo em suas costas.
Significava unicamente que, caso ele continuasse a prosseguir e, caso alguma das etapas fosse um duelo entre campeões, Kai era aquele a ser batido. Qualquer um dos outros campeões só teria chance se o tirasse da jogada. Kai sorriu sombriamente.
Ele não duvidava que houvesse outros campeões tão bons quanto ele, mas das duas uma: ou Kaedor era sublimemente um lunático desvairado ou sabia que o propósito único de Kai era causar um conflito naquela arena.
Ainda não sabia qual, mas tudo isso era estranho e suspeito. Mas, como se servisse de resposta, a voz de Kaedor soou novamente.
— Oh, mas não nos seria lícito permitir que dois desempenhos tão notáveis permaneçam à margem, não é mesmo?
A imagem de Kai foi substituída por um sujeito alto, coberto dos pés à cabeça por roupas esfarrapadas e várias camadas de tecidos cobrindo-lhe a cabeça. O sujeito usava duas lâminas curvas sem protetor de mãos, e era tão selvagem quanto Kai, cortando vários Kmares em uma fração de segundos. Seu jogo de pés era ágil e sem preâmbulos.
A imagem mudou para uma pessoa de postura reta, usando um conjunto de roupas nobres; o uniforme era quase todo branco — não um branco puro, mas um tom de marfim queimado pelo sol, como ossos antigos polidos pelo vento. A base lembrava vagamente o corte rígido de um comandante naval: um casaco longo até os joelhos, estruturado nos ombros, com ombreiras discretas mas firmes, que davam à silhueta um ar de domínio silencioso.
A própria figura era esguia demais para erguer uma lâmina tão grande, mas de alguma forma conseguiu, usando seus golpes lentos e de longo alcance como estratégia. Quase nunca era atingida, e terminou a tarefa com uma bela pose arrogante.
A voz de Kaedor surgiu:
— Sorrateiro, como prefere ser chamado… e a Estrela Dalva da Casa Vaelrys da Lâmina Aberta: Promessa Sinuosa.
Três figuras surgiram, uma do lado da outra, com Sorrateiro na esquerda, Lâmina Tardia no meio e Promessa Sinuosa na direita.
— Campeões e vencedores, eis o ápice desta primeira etapa, conquistado com garra e admirável perspicácia. Contudo, que tal feito não sirva para desanimar os demais competidores. Tomai-o, antes, como farol e cume: algo a ser alcançado. Ide, entregai vosso melhor, e aguardai a próxima etapa, que há de ser tão vibrante quanto esta. Os jogos apenas começaram — não os esqueçais.
Ao lado de Kai surgiu uma abertura no chão, quando um estrado redondo se elevou meio metro acima do solo, trazendo um pote com alguns frascos escuros.
Entrementes, uma sutil e leve mudança aconteceu na tela onde o rosto de Kaedor pairava. Ele já não parecia mais tão feliz, e sua voz soou mais grave, mais séria.
— Àqueles que escaparam por um triz, oferecemos, de bom grado, um singelo auxílio: uma nova oportunidade de permanecer na disputa. Sabei, contudo, que tais pílulas não operam milagres; não fecham feridas por encanto. Apenas fortalecem a resistência e elevam, por breve tempo, os níveis de histamina e dopamina que sustentam o corpo. Ao fim, é possível que os demasiadamente feridos não suportem o rebote.
Um silêncio fulcral se instalou, e a voz de Kaedor tornou-se moderada, quase imóvel.
— E aos que desejarem desistir… estaremos mais do que dispostos a conceder-lhes uma derrota limpa e definitiva. A escolha, como sempre, é vossa.
Kai suspirou.
‘Esse tom… deve ser um formato disponível apenas para os participantes.’
Ele refletiu sobre as palavras do homem. Não lhe parecia que simplesmente aceitariam desistentes.
Enquanto Kai negava tomar alguma pílula — já tinha feito escolhas ruins demais envolvendo remédios dados por estranhos — Kaedor balançou a cabeça.
— Muito bem, a escolha está feita. — As portas que antes se abriam aos Kmares cerraram-se, e blocos de paralelepípedos selaram as aberturas com precisão quase cerimonial. Entrementes, cinco novos arcos ergueram-se entre os vãos anteriores e, deles, cerca de dez figuras atravessaram o limiar. — Aos campeões que optaram por permanecer na disputa, ofereço minhas mais sinceras congratulações. Cabe-vos, agora, ser o fio da lâmina que cruzará, pela última vez, as existências daqueles que renunciaram ao próprio caminho. Concedei-lhes um fim digno, e segui, como vencedores honrados do Rasgo, para a próxima etapa.
Os sujeitos que emergiram dos arcos eram todos desistentes da competição — alguns comprimindo feridas abertas, outros caminhando com esforço, mas ainda inteiros.
— É ele… o chamado Lâmina Tardia…
— Lorde Kaedor, isso não foi o que nos foi prometido…
— Nós apenas escolhemos parar… não falhar…
— Suplicamos: permita-nos partir.
— Isto não constava em acordo algum…
— Não nos deixeis a sós com ele…
As vozes erguiam-se trêmulas, mais próximas de súplica do que de revolta, espalhando-se pelo espaço como se ainda houvesse alguém capaz de ouvir.
Kai observava tudo com o rosto imóvel, mas sob a máscara rangia os dentes. Era como ele previra: desistir não era permitido. Aquela era a punição — não pela derrota, mas pela escolha de recuar.
Kai se apoiou em seu joelho e apertou o cabo de Vento Noturno, se forçando a se erguer. Chi fluia lento — tendo sido capaz de lidar com a Voragem em partes, ele já era capaz, também, de usar sua energia para pequenas tarefas. Aos poucos, seria capaz de mais.
O Chi lavou seus canais e veias, e expeliu qualquer resquício de cansaço para fora. Levemente, a aura de energia fraca — não muito potente para não chamar muito a atenção — fez um bom trabalho nas suas feridas. Isso era melhor do que tomar algum opióide.
Ele ficou reto, não se movendo, observando sob a máscara suja de sangue verde enquanto os desistentes continuavam a exigir um destino menos cruel.
Todos haviam visto o que Kai fizera. Todos sabiam do que ele era capaz.
E para ele, que mesmo levado ao limite, aqueles sujeitos não eram nada mais do que uma pedra no sapato.
Mas não era assim que Kai se sentia, de fato.
Uma dúvida moral e cruel surgia em seu peito. O que fazer… o que fazer…
Ele deveria matá-los? Ele deveria jogar tudo para o alto e servir o seu propósito?
Estes pobres coitados em nada tinham a ver com o que ele buscava fazer ali. Ou tinham?
Bem… essa moralidade nunca o perturbou tanto. Mas vendo o que fez antes… era realmente um problema.
Não tivera piedade antes, então porque teria agora? Era realmente necessário? Para salvar alguns, ele precisava matar outros?
Dilemas, dilemas e mais dilemas.
Kai apertou Tirise, em controvérsia consigo mesmo. E, naquele momento, como em resposta, a espada reagiu levemente ao seu toque. Sua aura gentil o acalentou, dando uma clara mensagem.
Está tudo bem.
Ele sorriu por baixo da máscara. Não estava. Kai apertou mais ainda o cabo. Mas ia ficar.
— Precisamos apenas abatê-lo — murmurou um dos desistentes, a voz trêmula, mas decidida.
— Mas ele é o… — começou outro, hesitante.
— Pouco importa quem ele seja. Deseja viver? Então te aproximas e me ajuda.
— Você viu do que ele é capaz.
— E, ainda assim, ele está aqui, como nós. Também enfrentamos os mesmos monstros. Também sobrevivemos.
Enquanto discutiam entre si, Kai inclinou a cabeça para frente, triste. Havia decidido, no fim.
Distante dali, numa sala redonda e opulenta, cinco guardas rodeavam um sujeito sentado em uma cadeira estofada, observando um grande telão enquanto bebericava uma bebida vermelha através de uma abertura em sua máscara anatômica de marfim envelhecido, antes sem boca aparente. Fendas escuras observavam onde deveriam estar seus olhos.
Usava uma armadura leve e precisa. Em seu peitoral claro havia um símbolo perfeito — um círculo aberto por uma lâmina vertical, gravado em baixo relevo. Estava sentado sobre sua capa cinza-azulada, que caía feito cascata de seus ombros.
O telão mostrava várias imagens que se moviam ao mesmo tempo. Uma carnificina acontecia nas câmaras da primeira etapa. Os desistentes — cerca de trinta deles, eram brutalmente assassinados por parte dos campeões que permaneceram.
Alguns — como Promessa Sinuosa — foram claramente favorecidos e poupados desse trabalho. Outros foram incubidos de lidar com dois ou três oponentes.
E havia um jovem espadachim com uma máscara branca de traços femininos e neutros — única diferença no traje negro e pastel escuro — que ficara incutido de lidar com dez deles.
Dez ex-campeões desistentes, mas campeões, ainda, que sobreviveram também, assim como ele.
Lâmina Tardia havia lidado com outros oito antes mesmo da etapa começar. Kaedor queria ver até onde ele iria.
A tela do campeão misterioso se expandiu, mostrando os dez campeões desistentes prontos para atacá-lo. Kaedor permaneceu parado, sem mover um músculo.
O que viu não foi uma luta, mas um colapso.
Lâmina Tardia avançou com cada passo encerrando uma escolha, cada golpe apagando um nome.
O primeiro homem tentou erguer a lâmina e caiu antes que o metal encontrasse ar; o segundo correu e tropeçou na própria pressa, e a lâmina tardia o alcançou como uma resposta inevitável; dois avançaram juntos, como se a proximidade pudesse salvá-los, e foram separados por um único arco de aço que decidiu destinos distintos. Não havia bravatas, nem fúria visível — apenas eficiência.
Alguns suplicaram, outros xingaram, outros congelaram; todos foram tratados da mesma forma — não como inimigos, mas como etapas.
Sua lâmina foi precisa, rápida e horrenda, cortando não somente súplicas, mas lampejos de uma odiosa raiva permanente. Seus golpes cessaram desejos. Minaram suas ganâncias. Dilaceraram até mesmo o eco de suas vozes.
Kaedor percebeu, com um frio que não vinha do medo, que ali não havia prazer nem ódio: havia resolução. Quando o último caiu, o silêncio não pareceu um intervalo, mas uma consequência.
Lâmina Tardia permaneceu de pé entre os vencidos, imóvel, como se aguardasse que o mundo lhe dissesse o que fazer depois de cumprir aquilo que ele próprio decidira.
E assim, no intervalo de cinco batimentos cardíacos, o misterioso espadachim executou dez poderosos campeões com um golpe cada.
O recinto se tornou escuro, mas na abertura da máscara de Kaedor, um súbito som surgiu.
A risada fez alguns guardas saltarem.
Afinal, o Legatário realmente gostou do que viu.
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