Volume 2
Capítulo 125: O FÔLEGO DO ÚLTIMO
O primeiro som que Kai ouviu não foi o rugido das bestas. Foi o tempo.
Não um relógio — mas algo mais antigo: um estalo seco de runas se acendendo no teto abobadado, uma a uma, como veias de fogo abrindo acima de sua cabeça. Cada símbolo pulsava num ritmo próprio, irregular, como um coração que não batia para salvá-lo, mas para contá-lo.
‘Um contador…’
Ele inspirou. O ar entrou pesado, quente, fedendo a ferrugem, fezes e couro queimado. A arena era pequena demais para ser chamada de campo. Era uma jaula sem teto, cercada por grades grossas, cravadas na pedra como dentes de um animal enterrado.
Do outro lado das grades, sombras se moviam.
Não atacaram. Esperaram. E isso era pior.
Kai sentiu o peso de Tirise na mão, mas não como antes. Ela não parecia uma arma — parecia testemunha. Ele sabia: não podia usar chi. Isso o entregaria mais rápido do que deveria. Não podia, também, invocar nada além do que ainda era carne, osso, fôlego e instinto.
O primeiro monstro saiu da sombra arrastando as patas.
Tinha quatro membros, mas nenhum igual ao outro. Um braço era grosso como tronco, o outro fino demais, quase quebrado. A cabeça pendia torta, com olhos que não piscavam. Saliva caía em fios longos, espessos, que batiam no chão de pedra bruta como cordas molhadas.
Kai não atacou. Firmou os joelhos e prostrou-se de maneira confiante, calma. Deu dois passos para trás, apertando o toque em Vento Noturno.
O monstro avançou.
Kai girou o corpo no último instante, sentindo o vento do golpe passar onde sua cabeça estivera um segundo antes. A garra rasgou o ar — e o ar respondeu com um som agudo, como se tivesse sido ferido.
Ele contra-atacou baixo. Tirise cortou a perna torta. O corte não foi bonito. Não foi limpo. Foi profundo — e lento. O monstro ainda andou dois passos antes de cair, gritando como algo que nunca aprendera a gritar.
Kai agitou Vento Noturno mais uma vez, para trás, decepando — com um corte limpo — a cabeça deformada da criatura. Voltou-se para frente e suspirou pesado.
O segundo veio logo depois. E o terceiro.
Não havia mais tempo para medir.
Kai recuou, escorregou no sangue do primeiro e quase caiu. O chão já não era chão — era lama quente, grudenta, que puxava seus pés como se quisesse deitá-lo junto dos mortos.
— Não pensa — sussurrou algo dentro dele, rindo, — Ou você morre.
Kai não respondeu. Porque isso exigia pensar.
Ele atacou em linha reta, ombro contra peito, derrubando uma das bestas sem usar a lâmina. Usou o peso, o impacto, o corpo inteiro. Caiu junto, rolou, sentiu dentes passarem perto demais do pescoço.
Levantou cuspindo por baixo da máscara.
Tudo isso não durara mais do que apenas alguns batimentos cardíacos.
As mãos já ardiam.
Ele percebeu, um pouco tarde, que estava cercado.
Quatro.
Cinco.
Talvez seis.
Não importava o número, mas a distância.
Kai se moveu antes que a ideia de medo se formasse. Saltou contra a grade, usou o metal como apoio, girou no ar e caiu sobre uma das criaturas com o joelho, quebrando algo que estalou alto demais para ser só osso.
Outra mordeu seu braço. A dor veio junto, imediata. Clara.
Ele não gritou.
Enterrou Tirise pela lateral da boca da criatura até sentir a lâmina raspar em algo duro lá dentro. Puxou de volta com violência. O sangue jorrou como se tivesse sido guardado sob pressão, sujando toda sua imaculada máscara esbranquiçada. Estava pintada de um verde doentio, agora.
Kai respirou curto. Cada fôlego era uma faca entrando pelo peito. Não usar chi dificultava muitas coisas aqui.
Mas ele se concentrou na tarefa. Algo estava mudando lentamente. Os sons ficaram distantes. As cores, sujas. Os rostos… irrelevantes.
Só existiam… distância, tempo, peso, impacto.
O resto era ruído. Quando a próxima besta avançou, Kai não recuou.
E o impacto não foi bonito. O ombro dele bateu contra o peito da criatura e, por um instante curto demais para virar memória, ele sentiu o coração do monstro bater contra o seu. Dois ritmos diferentes, dois mundos colidindo.
O corpo da besta cedeu com um som surdo, mas Kai também cedeu. O choque subiu pelo braço, estourou no ombro, desceu pela espinha como um trovão contido. Seus dentes bateram. Ele sentiu o gosto do ferro.
Rolou novamente com ela. O mundo virou um borrão de cor suja e calor. A criatura se debateu, pesada demais, quente demais. Ele sentiu o hálito dela no pescoço — podre, ácido, vivo. Dentes rasparam sua pele, abriram um sulco ardente logo abaixo da orelha.
A não veio em grito, mas como aviso.
Kai cravou o cotovelo na garganta da criatura. Uma vez. Duas. Três. Cada golpe fazia o corpo dele inteiro vibrar. O monstro gorgolejou, tentou morder de novo, mas o ar já não entrava direito. Kai puxou Tirise do chão — nem lembrava de tê-la largado — e enfiou a lâmina pela lateral do pescoço, onde a carne parecia mais macia.
O corte não foi limpo. Nunca era. O fio encontrou resistência, deslizou, travou por um segundo que pareceu uma eternidade, depois rompeu algo interno. O sangue saiu quente demais, espesso demais, batendo no rosto dele como chuva pesada.
Kai se afastou cambaleando, escorregando no próprio passo. O chão já não era chão — era um corpo aberto, vivo, que se movia sob seus pés. Cada passo afundava um pouco, fazia um som molhado que grudava na mente.
Ele respirava como se tivesse corrido por dias. O ar entrava curto, rasgando a garganta. Cada inspiração ardia. Cada expiração vinha trêmula, como se não quisesse mais sair.
Ele tentou endireitar as costas. Não conseguiu totalmente. O corpo já começava a decidir por ele.
As outras criaturas não tinham parado.
Elas aprendiam.
Uma veio pela frente, baixa, rápida, arrastando as garras no chão como lâminas sendo afiadas. Outra veio pela lateral, mais lenta, mas pesada, cada passo fazendo a arena tremer.
Kai girou para a esquerda. A primeira passou raspando por onde ele estivera. Ele sentiu o vento do ataque puxar sua capa. Sem pensar, estendeu a perna e chutou o joelho torto da criatura. O osso cedeu com um estalo seco. O monstro caiu, mas ainda tentou morder. Kai desceu a lâmina de cima para baixo, cortando o rosto em diagonal. Não matou. Apenas cegou.
Isso o irritou.
Não com raiva. Com urgência.
Ele deu dois passos largos e enfiou Tirise no topo do crânio da criatura caída, usando o peso do corpo inteiro. O impacto subiu pelos braços como um raio contido. Seus dedos quase se abriram. Ele sentiu a lâmina vibrar, como se algo nela estivesse satisfeito.
O parasita riu, lá no fundo.
— Vê? — murmurou. — Seu corpo lembra mais rápido do que sua mente.
Kai não respondeu. Ele já não tinha palavras dentro de si. Só movimentos. Inconscientemente, ele ativou a ampulheta, fazendo a Voragem ficar distante e silenciosa.
A criatura pesada veio de frente agora. Não correu. Avançou sabendo que venceria pelo peso. Kai tentou desviar, mas o pé escorregou. Ele caiu de lado, rolando, sentindo algo estalar no flanco. Não sabia se era dele ou do chão.
Kai levantou usando a grade como apoio. O metal estava quente. Quente demais para ser só metal. Ele sentiu a palma da mão arder, mas não soltou. Usou a grade para se impulsionar novamente, girando o corpo e descendo a lâmina num arco largo.
O corte abriu o abdômen da criatura pesada. Algo escuro e quente escorreu, lento demais.
A besta olhou para o próprio corpo e não entendia o que via. Depois rugiu, um som tão grave que fez os ossos de Kai vibrarem.
Ela o acertou.
O golpe não foi direto. Pegou de raspão, mas ainda assim o lançou alguns passos para trás. Kai caiu de joelhos, o ar saindo dos pulmões de uma vez. Por um segundo, não conseguiu respirar. Abriu a boca como um peixe fora d’água. O mundo ficou preto nas bordas.
Se pensasse agora, morreria.
Ele se esforçou para inspirar. O ar entrou como fogo líquido. Ardeu do peito até a cabeça. Ele gemeu baixo, sem perceber.
Mas Kai não recuou.
Ele avançou.
Entrou sob o golpe de uma besta, sentindo a garra raspar suas costas e abrir linhas quentes de dor. Usou o ombro para se chocar contra o tronco da besta, sentiu as costelas dela cederem sob o impacto. Enfiou Tirise por baixo, num ângulo estranho, onde nem sabia que existia espaço. A lâmina saiu do outro lado, suja de algo que não queria nome.
A criatura tombou sobre ele.
Kai caiu junto, esmagado pelo peso morto. O ar saiu de novo. Ele ficou preso sob aquele corpo quente, sentindo o sangue escorrer por cima de si, entrar pelos ouvidos, pelo nariz, pela boca.
Por um instante, pensou que morreria ali. Não por ferida. Mas por sufocamento.
Ele empurrou. Nada.
Empurrou de novo, com tudo que restava. Os músculos queimaram. Algo no ombro gritou. Mas o corpo cedeu um pouco. O suficiente.
Kai se arrastou para fora, cuspindo sangue e areia. Rolou de costas, olhando para o teto invisível da arena.
O som da multidão era distante, como se viesse debaixo d’água.
Ele tentou se levantar.
Caiu de novo.
Tentou outra vez. As pernas tremiam como varas finas segurando um prédio em ruínas. Ele se apoiou em Tirise como quem usa uma muleta feita de morte.
Ainda havia criaturas vivas.
Ele as viu se moverem nas bordas do campo, cautelosas agora. Tinham aprendido o preço.
Kai deu um passo. Depois outro. Cada passo era uma decisão sem palavras.
Ele já não era alguém lutando. Era apenas um corpo que ainda não tinha aceitado cair.
O teto da arena pulsou. As runas, que antes eram de um vermelho profundo, agora queimavam em laranja gasto, como brasas velhas. Algumas já tinham recolhido, afinado os traços, como se estivessem sendo comidas pelo próprio tempo que contavam.
Kai ergueu os olhos por um segundo a mais do que devia.
‘Está… andando’
Sim, o tempo estava andando. E ele precisava ir junto.
A próxima criatura avançou num salto torto, usando só três patas. O movimento era feio, mas rápido. Kai não mediu. Não pensou em ângulo, tampouco em técnica. Apenas deixou o corpo ir.
Havia momentos em que ele ficava assim, onde o corpo e sua memória muscular faziam o trabalho. Um estado frenesi de fúria, de ausência. Um estado lânguido de guerra bruta. Kai entrava numa concentração tão minuciosa que seu corpo agia antes do pensar.
E assim, o mundo perdeu profundidade. Não havia mais “longe” ou “perto". Só havia agora e impacto. Ele girou o tronco, sentiu os músculos puxarem até doer, e cortou em diagonal. A lâmina entrou no ombro da criatura, mas não saiu.
Havia algo duro dentro dessas coisas, que travavam sua lâmina. O que…
‘Não! Sem pensamentos desnecessários.’
Kai avançou junto com o corte, colando o corpo no corpo da besta, sentindo o calor dela misturar com o seu. Ele empurrou. Empurrou até sentir algo ceder lá dentro.
A criatura caiu para trás, puxando a lâmina junto. Kai quase foi com ela, mas soltou o cabo no último instante. Quando a besta bateu no chão, ele já estava em cima, arrancando Tirise do corpo dela ainda quente e descendo a lâmina outra vez, e outra, e outra — seu corpo mandava continuar.
Quando parou, não sabia por quê.
Outra veio pela direita. Ele não virou a cabeça. O corpo virou sozinho. O braço se estendeu. A lâmina entrou na carne. O impacto subiu pelos ossos como um choque seco. A criatura ainda tentou morder, mas Kai já tinha dado um passo para dentro do alcance dela, colado demais para ser atingido. Cravou o joelho no abdômen mole, sentiu algo estourar sob a perna, e empurrou a cabeça dela para trás com a mão livre, até ouvir o pescoço reclamar.
Quebrou.
O som foi pequeno. Mas o corpo caiu grande.
Kai respirava como um fole rasgado. O ar entrava e saía sem ritmo. Ele sentia o sangue escorrer por baixo da armadura, quente, lento, quase confortável de tão presente.
Olhou para cima de novo.
As runas agora eram amarelas. Algumas já pareciam falhas, como símbolos esquecidos pela própria luz. Uma delas piscou… e apagou.
Era um pouco impossível para ele não pensar na natureza dessas runas. Calculando melhor, elas só podiam indicar uma coisa, e se ele aguentasse até o fim, poderia ser que conseguisse sobreviver.
Algo dentro dele respondeu a isso. Não alegria. Urgência.
Porque… duas bestas vieram juntas. E mais… mais…
Ele correu, parecendo um maluco indo para a própria morte. E Kai era maluco, de fato.
Kai se moveu como um borrão, dilacerando pernas, braços, carnes, mesmo quando sua lâmina travava, ele não perdia o ímpeto, empurrando até o braço tremer.
Criaturas caiam ao seu redor enquanto ele passava por elas como um flash negro, sua lâmina reinvidicando essas vidas, assobiando e rasgando o ar, que uivava em desalento, sentindo o fio afiado.
Kai não diminuiu o passo mesmo que seu peito protestasse.
Ele cortou, chutou, esmurrou, sempre a um passo de ser dilacerado, sempre a um passo de sentir sua própria pele ser consumida.
Mas Kai continuou. Era como uma fúria diminuta, uma tempestade de lâminas cortantes, um furacão ambulante que não temia nada.
Restavam poucas, ele sabia. Mas olhando a arena como um todo…
… Apenas alguns minutos se passaram, e ele estava desgastado, com dezenas dessas criaturas horrendas poluindo o chão com seus corpos decepados, afogando-se na mácula sangrenta e odiosa de seu ser.
E mais brotavam das aberturas. Mais cercavam-no. Mais temiam-no. Mais morriam para seu fio.
Ele não contava. O teto, sim.
As runas agora eram pálidas, quase brancas. Finas. Fracas. Como marcas feitas com giz prestes a serem apagadas pela chuva. Cada vez que uma se apagava, ele sentia o corpo tremer de um jeito estranho — não de cansaço, mas de aviso.
Kai caminhou até mais delas. Cada passo dele fazia o chão chapinhar um som de carne sendo pisada. Uma criatura tentou atacar. Lento demais.
Ele desviou sem saber que desviava. O corpo simplesmente não estava mais onde o golpe veio. Ele cortou de baixo para cima, abrindo o ventre. A criatura caiu de joelhos — ainda maior do que ele — olhando para si mesma, confusa com o que estava faltando.
Kai passou por ela.
A última vez gritando. Um som feio, cheio de medo.
Kai correu.
O impacto dos dois corpos foi seco e brutal. Ele sentiu algo quebrar no próprio braço, mas não parou. Usou a testa para bater na cabeça da criatura, sentiu o mundo piscar, e depois enfiou Tirise pelo olho aberto.
A lâmina atravessou.
Quando ele puxou, a criatura já estava caindo.
Kai ficou de pé no meio da arena.
Sozinho.
Ele suspirou, pesado. A arena inteira e suas mediações estavam cheias de corpos, uns sobre os outros. Dezenas delas.
Kai estava mortalmente cansado, exausto, ferido. Mas não podia perder o ritmo.
Afinal… mais criaturas lutavam para escapar das aberturas nas paredes, dilacerando a si mesmas pela oportunidade de consumir esse humano cansado e fraco.
Ele apertou o cabo de Tirise, sentindo seus ossos ranger em protesto. Respirou fundo, um milhão de facas invisíveis rasgando seus pulmões.
As primeiras bestas conseguiram escapar e correram para ele, um frenesi ambulante. Kai ergueu a cabeça e olhou para cima.
‘Talvez… agora?’
O teto, por sua vez, piscou uma última vez. As últimas runas encolheram até virarem pontos de luz… e se apagaram.
Por um segundo, não aconteceu nada.
Exceto que… as criaturas que estavam quase em cima dele pararam, como congeladas no exato momento entre erguer as unhas e dilacerar a pele de Kai.
Um brilho ardeu de dentro da pele cinzenta das criaturas. Um verde doentio. Fraco no início. Depois forte.
O fogo não vinha de fora, mas brotava de dentro: da boca, dos olhos. As carcaças ao redor também começaram a brilhar, fogo subindo de suas feridas abertas, como se algo estivesse queimando a alma daquelas coisas.
Os corpos se contorceram uma última vez, sem vida, enquanto o fogo verde os comia de dentro para fora.
Kai deu um passo para trás quando labaredas de fogo vivo escaparam das fendas das criatura mais próxima, erguendo um braço para tampar o rosto neutro de sua máscara suja de sangue.
O fogo enviava labaredas de um ar quente, agitando a capa de Kai para trás.
Carne virou cinza. Osso virou pó. Garras viraram fumaça.
Kai observou sem reação.
Quando o último corpo virou nada, o silêncio caiu pesado.
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