Volume 2

Capítulo 124: O PREÇO DA PASSAGEM

Ashvai tinha, ele mesmo, sua parte do plano a seguir, e ela seria tão importante quanto a de Kai.

Após deixar o jovem no anfiteatro, ele e Yegar — como, supostamente, seu guarda-costas — seguiram para uma parte distante e estreita de Lyvas.

Antigamente, esta era uma cidade repleta de rios, plantações e casas de veraneio. Ocorria a extração de minérios, mas estes eram subterrâneos, algo que sequer conflitava com a parte mais bonita da cidade.

Mas após sua queda, os rios secaram, muros foram construídos e a prole vil de Abeeku se instalou ali, fazendo do povo que não fora pego pela doença de um dos Reis, escravos.

Ashvai sentia seu humor mudar drasticamente pensando na derradeira queda de Lyvas.

Atravessando a cidade com passos largos e ouvindo a multidão distante no anfiteatro, Ashvai suspirou.

— Sinto, repentinamente, meus ombros pesados e minhas costas arderem.

Ele rodou levemente o pescoço, soltando um bufo lento e olhando de soslaio para Yegar.

O homem caminhava ao seu lado, mantendo um rosto impassível, encarando suas costas. Ashvai conhecia o Mudo de Barro tempo o bastante para saber que algo o incomodava. E sabia o que era esse algo.

Suspirando pesadamente, ele olhou ao redor.

— É necessário que ele saiba como as coisas são difíceis, Mudo. Não posso facilitar. Assim, ele fica mais temperado.

Yegar o olhou mais firme. Por fim, soltou um bufo pelo nariz, e nenhum som saiu de sua boca. Afinal… ele era mudo.

Ashvai balançou a cabeça.

— Não exagere, também. Assim fica parecendo que eu pego no pé do garoto.

Yegar ergueu uma sobrancelha. Ashvai revirou os olhos.

— Pela guardiã! Fiz apenas o necessário, não sou tão cruel quanto pensa. Quando ficou tão chato?

O Mudo olhou para frente, ficando sério. Ashvai suspirou.

— Certo… talvez eu tenha sido somente um pouco intragável. Mas precisa entender meu lado, também. O sujeito parece que não entende a gravidade da situação. Aceita tudo muito rapidamente e simplesmente. Parece até com bravata… tolo corajoso.

Yegar ergueu o pesado punho e tocou duas vezes com seus dedos no ombro de Ashvai. O Jovem sem Fim ergueu o rosto, um pouco surpreso.

— Não precisa ser grosso! Se ele ligasse, teria dito. No fim, o garoto parece que gosta de ser destratado.

Yegar franziu o cenho e olhou para frente.

— É o que você acha? — Ashvai inclinou a cabeça, pensando pela perspectiva de Yegar. — Bem, quando você coloca as coisas assim…

Claro, apenas os Esquecidos compreendiam o que Yegar queria dizer, quem olhasse pensaria que Ashvai era louco, conversando sozinho. Mas o Mudo de Barro lhe deu uma nova visão da coisa.

Ashvai tampou a boca e soltou um riso contido.

— Já vi tudo o que passou e, mesmo assim, você sempre me mostra um jeito diferente das coisas, Mudo. Obrigado.

Com isso, dobraram uma esquina e chegaram numa rua escura, cujas construções se elevavam dos dois lados, ligados por pontes elevadas.

As ruas fediam, e havia menos Kawa Kale aqui. Mas muito mais sujeitos escondidos em becos e vielas, olhando sob máscaras de compressão, evitando serem tocados ou de respirar esse ar.

Haviam comerciantes aqui e ali, estalagens e ambientes com finalidade de comércio.

Os Esquecidos dobraram em um beco sem saída. No fim dele, uma escadinha construída na pedra bruta descia para uma porta de basalto.

Ashvai deu três batidas e uma fenda se revelou na altura de seus olhos. Havia um visor escuro encarando-o.

Uma voz rouca surgiu do lado de lá.

— Seus motivos.

Ashvai limpou a garganta.

— Testemunhar e transcrever.

A fenda se fechou com um baque e, dali a pouco, a porta se abriu para dentro. Uma lufada de ar entrou para a câmara, ao passo que logo retornou como um arroto.

Ashvai entrou e Yegar teve de se curvar para passar pelo batente.

Dentro, era como uma espécie de bar… ou taverna. Haviam mesas dispostas onde vários indivíduos — encapuzados e escondidos — jogavam, bebiam e conversavam em tons distantes.

Alguns olhos o encararam, mas ele os ignorou todos. Saindo brevemente do salão e passando por uma bancada, eles andaram por um corredor, com quartos dos dois lados.

Entrando no último, ele olhou ao redor. Não havia nada, exceto as paredes desgastadas e uma porta do outro lado da câmara.

Ashvai se dirigiu à ela e deu apenas um toque, que ressoou longo e frio.

Uma série de engrenagens pôde ser ouvida do outro lado, rangendo e fritando. A porta se abriu e, dentro, o ambiente era escuro. No centro do novo quarto, porém, havia um assento circular feito no chão, com uma mesa quadrada.

Cerca de seis sujeitos encapuzados rodeavam o assento no centro, todos com armas de fogo pesadas e destrutivas.

Ashvai parou diante deles observando que cada um era estranho o bastante para não ser notado.

No assento, havia um sujeito com uma máscara cinza cobrindo todo o rosto. Havia um visor negro de detalhes brancos e aberturas na parte inferior. Seu corpo era coberto por uma capa, escondendo o que quer que estivesse embaixo.

Um dos encapuzados deu um passo, revelando sua arma com cano e uma lâmina no fim.

Ashvai não podia ver seu rosto, mas podia apostar que ele usava uma máscara parecida com a do outro.

Yegar rosnou — Ashvai nunca soube como ele fazia isso sendo mudo — e deu um pesado passo à frente, erguendo um punho.

Alguns segundos se passaram com essa breve demonstração de afeto entre os dois. Mas, no fim, o encapuzado deu um passo para o lado, indicando que Ashvai podia ir e sentar.

Ele o fez, ficando de frente para o sujeito, que inclinou a cabeça levemente.

— Naor o saúda. — Disse Ashvai, inclinando sua cabeça em respeito.

O outro se endireitou, sua respiração saindo entrecortada pelas aberturas na parte inferior.

— Saudações. — respondeu, sua voz sombria e serrilhada.

Um aparato de modificação de voz. Inteligente.

Neste lugar, quem escondia seu rosto é porque já havia visto demais do mundo. Principalmente aqui, no Bairro Escuro, cuja parte clandestina de Atom funcionava.

Havia vários pontos como esse em Atom, onde criminosos e bandidos faziam seus negócios, escondidos do toque sombrio de Abeeku.

Parecia haver, é claro, um acordo mútuo e social entre ele e esses criminosos. Ele fazia vista grossa para seus trabalhos desde que eles não se esgueirassem pelas entranhas e saíssem planejando golpes.

Estava claro que ele sabia da natureza desses trabalhos e, mesmo que não desse ordens diretas de que cada um destes sujeitos fosse erradicado, os Kawa Kale e os seguidores fiéis de Abeeku tinham a permissão de, em caso de circunstâncias extenuantes, dar cabo desses criminosos.

Abeeku também parecia lucrar com os trabalhos clandestinos. Isso era favorável.

E, por isso, fora de tanta facilidade que Ashvai entrasse ali.

— Confesso que tive curiosidade quando uma audiência foi solicitada aos Besouros… por nada mais nada menos que o Herege de Troas. 

A voz do sujeito caiu, infectando o lugar com um clima hostil. Os seus guardas ficaram claramente desconfortáveis.

Um arrepio se apossou de Ashvai. Seu rosto, contudo, era lívido, livre de qualquer intenção. Fazia tempo que não ouvia esse termo.

Ashvai ergueu o queixo.

— Isso… ficou para trás. Naor aprendeu com seus erros e, hoje, é um homem diferente.

Uma risada cortou suas palavras.

— Naor… então é assim que ele é chamado atualmente? Bom… — o sujeito assentiu. — De qualquer maneira, não pensei que o Herege estaria vivo. Acreditei… muitos acreditaram, que tivesse sido banido, morto ou esquecido pela areia.

Ashvai analisou as palavras.

Esquecido… Todos fomos, de certa forma.

O outro acenou com a cabeça. 

— Sem dúvida. Achei que vocês fossem apenas histórias de terror… quem diria que o Herege criaria e lideraria um grupo tão infame e esguio quanto o seu? — uma risada irônica escapou. — Muito, muito irônico. Mas aqui estão vocês… Ashvai, O Jovem sem Fim e Yegar, o Mudo de Barro. Que figuras ilustres.

Ashvai sorriu sem qualquer emoção. Os guardas ao redor também riram, lançando lufadas serrilhadas de suas máscaras.

— Oh, mas não seja modesto, Pai do Enxame. Você também criou um grupo de vontade infame, aqui — Ashvai olhou ao redor. — Decerto que tem dado muito trabalho para o Indigno. Ele deve se perguntar quem pode ser o impiedoso e destemido líder que rouba e saqueia as pequenas caravelas de suprimentos entre as cidades distantes. De fato… talvez ele nem saiba que, por baixo desta máscara esteja… O Capitão Rauth Azul-Morto.

A risada do Pai do Enxame foi interrompida, assim como a de seus seguidores. Um frio mordaz preencheu o lugar, o clima se tornando repentinamente hostil.

Ashvai levou a mão à boca, dando sua melhor demonstração de inocência.

— Me desculpe. No futuro, farei o possível para evitar tais deslizes…, mas, sabe, pra mim também é irônico encarar a realidade dos fatos.

Azul-Morto se inclinou, de repente, sem um pingo de humor. Sua voz saiu ignorante e hostil.

— O que o Herege quer com os Besouros Cerúleos? — indagou.

Ashvai conteve um soluço. 

— Oh! Então tá bom. — ele olhou ao redor e ficou sério, encarando o Pai do Enxame. — Tenho dois trabalhos, um a curto prazo e outro a longo.

O Pai do Enxame se mexeu em seu lugar, parecendo prender a respiração.

— Qual é o de curto prazo?

Ashvai sorriu.

— Preciso saber se tem a intenção de concluir o trabalho. Seria realmente um estorvo se você voltasse com sua palavra.

O líder dos Besouros assentiu.

— Com o valor certo, não há trabalho que seja impossível para os Quitinosos.

Ashvai soltou uma risadinha, feliz.

— Bom, bom… Bem, o trabalho de curto prazo é simples. Vocês devem escoltar uma grande quantidade de escravos para as cavernas de Além-leste.

O clima ficou frio quando uma risada sincera surgiu, provavelmente de um dos guardas-cerúleos. Percebendo que Ashvai falava sério, o pobre coitado tossiu, envergonhado.

O Pai do Enxame olhou para o seu guarda e, lentamente, virou-se para Ashvai.

— Você está louco? Sabe quantos escravos existem em Lyvas? É loucura. E depois, nem mesmo sabemso se existe uma entrada para Troas em Além-leste. Esqueça, é impossível.

Ashvai sorriu e ergueu uma sobrancelha.

— Achei que nenhum trabalho era impossível para os altaneiros, deslumbrantes, imponentes e espetaculares Besouros Cerúleos. Acho que a fama é indevida… uma pena.

O Pai do Enxame se inclinou para frente.

— Custará o olho da cara!

Ashvai sorriu, rangendo os dentes.

— Tudo bem.

— Queremos um Nó de Krael. — disse o Pai do Enxame, esperando que este desse para trás.

Ashvai, contudo, manteve seu sorriso calmo.

— Certo.

O líder dos Besouros se inclinou para trás, suspirando pesado.

— Eu disse um "Nó de Krael”…? N-não… queremos um Nó e meio de Krael. Metade agora e metade depois.

Ashvai concordou.

— Feito.

O Pai do Enxame bufou.

— Droga… — sussurrou. — Deveria ter pedido quatro Nós de Krael...

Ashvai inclinou a cabeça.

— Como disse?

O líder dos Besouros fez um gesto vago com a mão.

— Nada! Droga. E esse outro trabalho? Espero que o pagamento valha a pena.

Ashvai suspirou.

— Não vale voltar atrás, em?

— Não. — o Pai do Enxame negou. — Vamos, diga logo do que se trata o trabalho a longo prazo.

Ashvai enfiou a mão dentro de suas vestes e puxou uma bolsinha de couro cinza preso por uma tira dourada de linho.

— Ah! Queremos armar um motim, causar uma guerra e matar Abeeku, seus Reis, Ministros e todo seu exército odioso. E então, onde assinamos?

O ambiente caiu num silêncio mortal, e um dos guardas tossiu, como se tivesse ouvido errado.

O Pai do Enxame se ergueu parecendo nervoso e olhando para todos os lados.

— Vocês enlouqueceram? Absolutamente não! De jeito nenhum. Nunca. Considere esta conversa encerrada.

O Pai do Enxame caminhou rapidamente dirigindo para a saída, mas Yegar impediu sua passagem.

Os guardas-cerúleos rodearam os dois, preparando suas armas. Havia um leve tremor neles. Afinal, como viviam no submundo, ouviam as histórias — de fantasmas ou não — do Mudo de Barro. 


Ele não era uma força simples.

Ashvai, por sua vez, se ergueu e encarou os Besouros, seu rosto impassível.

— É chegada a hora, Capitão Rauth. Há tempo de plantar e tempo de colher. Há tempo de se curvar e, também, há tempo de se erguer. E há tempo de agir. O Cármico o convoca. É chegada a hora.

O Pai do Enxame tremeu diante das palavras de Ashvai, e suspirou pesadamente. Podia-se dizer que seu rosto estava incrédulo ou amedrontado. Mas quem sabia? Sob aquela máscara, nenhuma emoção era vista ou sentida.

Por fim, o líder dos Besouros suspirou e se inclinou à frente.

Ashvai, por sua vez, sorriu.

— Bom… muito bom.

 



***



Numa ampla câmara larga e escura havia um clima estranho permeando o lugar. Duas dúzias de sujeitos formavam um círculo ao redor de uma figura sombria e imperiosa.

Claro, o círculo era composto por sujeitos caídos, cortes profundos em seus corpos, suas vidas ceifadas sem qualquer emoção ou causa.

Cada um deles era forte o bastante e, antes deste dia, apresentava uma aura única e força majestosa.

No fim, entretanto, eles caíram para o fio de uma lâmina imponente e sem pudor.

No centro destes corpos em círculo, um sujeito encarava o nada com seu rosto coberto por uma máscara de metal pálido, de feições femininas e expressões neutras. Nenhuma emoção passava por aquela máscara apática. A máscara estava banhada de sangue e, ainda assim, sua indiferença era sublime.

O sujeito vestia uma armadura de liga metálica flexível com fragmentos de cerâmica. Os sulcos lembravam ondas de areia, repleto de runas que cintilavam sob uma luz bruxuleante de uma lanterna à óleo.

Sua capa esvoaçava sob um vento unânime, leve e tingida de pigmentos naturais do deserto, no interior, uma tonalidade quase prateada refletia esse pouco brilho.

Ele segurava em sua mão esquerda uma bainha de ébano escuro com linhas finas de prata percorrendo sua madeira, que refletia sombras distorcidas. Com a direita, seu toque era suave sobre o cabo de uma textura de couro entrelaçado com fios de prata, firme e antiderrapante, permitindo que seu movimento fluísse com precisão. Pequenos pingentes pendiam de sua ponta. 

Sua lâmina era lisa, quase etérea, raspando contra a estrutura interna da bainha. Uma energia roxa e levemente translúcida escapava feito filetes e tentáculos de algo vivo, insaciável.

Claro, o sujeito era Kai Stone, embainhando lentamente Tirise.

De repente, uma luz brilhou sobre a extremidade em suas costas, na parede lisa e escura.

Ele não se virou, inclinando seu rosto levemente para visualizar pelo canto do olho.

Entrementes, um rosto surgiu sobre a luz.

Era mais uma máscara, na verdade. Ela era feita de marfim, escondendo qualquer traço de humanidade. Lisa e silenciosa, com fendas estreitas onde olhos observavam sem pressa nem ódio.

Uma risada sutil escapou daquela figura quando Kai percebeu que ele estava se mexendo. Batendo palmas.

— Sou Kaedor Vaelrys, Legatário da Lâmina Aberta e anfitrião do Rasgo da Vida — sua voz era grossa, calma e sem qualquer emoção. — Congratulações, meus queridos campeões! Vós, que depositaram tuas vidas neste magnânimo torneio emocionante pela glória honrada, concluem aqui a primeira fase do torneio.

Kai encarou o rosto escondido com uma expressão neutra — por baixo, contudo, lutava para conter sua raiva.

— Agora, peço-lhes mais desta voracidade e voluptuoso orgulho, e que encarem as próximas etapas com igual vontade e conquista. Vemo-nos em breve, filhos da Vitória. Que tua glória seja unificada e bem abençoada pelo Rei, o Imperador máximo e amado, Abeeku-Khan.

A luz que refletia seu rosto se apagou e, onde estava a parede, um arco se abriu, revelando uma pequena arena e vários arcos surgindo na pedra talhada de suas paredes.

Desses arcos, grades separavam a pequena arena… de uma horda de criaturas horrendas e ferozes, lutando para sair.

— Espero que sobrevivam bem e nos entreguem um bom espetáculo. — a voz do Legatário surgiu de algum lugar acima, parecendo orgulhosa. — Seus telespectadores os aguardam na grande arena. Bons jogos.

Um arrepio percorreu a espinha de Kai quando as grades se ergueram e uma enxurrada de demônios colapsaram sobre si, lutando para sair, lutando para correr, despedaçar e mutilar seu alvo.

O alvo, claro, era Kai, que exalava sangue.

 

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