Volume 2

Capítulo 123: LYVAS, A PERDIÇÃO INCÓLUME

Kai, Ashvai e Yegar foram em direção à cidade em desalento com passos largos e discretos.

Sua missão era apenas uma, e o início de sua resposta dependia de uma boa vitória aqui. 

Não somente isso. A missão de Naor também exigia um bom resultado nessa cidade, afinal, tudo precisava sair conforme o planejado. 

Naor e o restante dos Esquecidos estavam indo na direção de Troas, enquanto Kai e o resto deles precisava libertar o máximo de cidades escravizadas o possível.

Fazia longos 38 anos desde a Queda total de Atom; isto é, quando Abeeku se tornara corrupto e impusera seu toque frio e mortal sobre essas pessoas.

Ele e seus reis devastaram cidades, executaram as capitais e destruíram qualquer chance de revolta por parte dos Atonianos.

Alguns chamaram esse período de Era da Mão Fria. Outros, mais ousados, ousaram nomeá-lo de Aurora do Fim. Mas, entre os que sobraram, o nome mais comum era o mais verdadeiro: Tempo do Medo.

Era uma vitória esmagadora que durava quase três décadas. Anos de escravidão, fome, assassinato e humilhação.

E então, entre a poeira e o sangue, restou Lyvas — não por graça ou destino, mas por cálculo. Uma peça que, se removida, derrubaria o tabuleiro inteiro.

Cidades como Lyvas, que antes faziam parte da extensa e numerosa quantidade de estados que se ajudavam, foram as únicas que viveram para presenciar a tirania do Indigno.

E havia um motivo claro para isso: Lyvas, no passado, fora a fronteira entre Umabel e Naar-Ethriel, sendo uma das poucas que herdaram o melhor de duas capitais.

Lyvas era rica em minérios, e suas terras eram férteis e abundantes. Mesmo após o toque vil da corrupção, quase cinco décadas no passado, Lyvas prosperou. Ali, existia um dos maiores e mais proeminentes celeiros de depósitos de mantimentos.

Minérios viravam armamentos; campos viravam pão. E pão virava controle.

E Abeeku não era bobo. Ele destruiu as capitais pois não queria força à altura que fizesse frente à ele. Destruiu as cidades distantes, dando o controle delas para seus Reis, Ministros e Kawa Kale.

… E manteve essas cidades como Lyvas, pois perder elas e seu povo seria um ato irrecuperável. Afinal, eles precisavam ascender mais e mais. O que seria de um Império sem sua principal fonte de renda?

Nem mesmo os monstros desperdiçam as joias de sua coroa. O lobo devora a carne, mas guarda os ossos; sabe que deles pode nascer outra fome, outra guerra.

Os minérios eram uma fonte abundante de armamentos, construções e desenvolvimento arcano da tecno-magia. E as plantações mantinham o povo vivo.

Abeeku era um tirano, um usurpador, mas não era louco. Ele não mancharia suas terras de sangue, não depois de tão prontamente abanar a corrupção para longe delas.

Aquela visão dos antigos dias de Atom foram cruciais para Kai entender uma coisa sobre esse lugar: Abeeku faria qualquer coisa para ser vitorioso. Os meios justificavam os meios. 

E ele mantinha Lyvas numa rédea curta.

Com sua habilidade unânime de controlar massas, fez das cidades vizinhas mártires. Quando Lyvas ousou se opor, ele fez o mesmo com elas. Mártires eram necessários na iminente ascensão.

E Abeeku não poupava esforços. Pois ele também precisava do povo, afinal, não disporia de sua própria corte de cuidar de algo tão abaixo deles. Não… ele precisava de sua corte onde estavam.

E precisava dos lyvanos aqui, cuidando das terras e minerando. Ele precisava de trabalhadores. E precisava de escravos.

E todos eles eram escravos nessa nova era de Abeeku.

Mas não hoje. Não agora.

Havia um silêncio estranho naquele avanço. Não era ausência de som — era o contrário. Como se cada grão de areia carregasse memórias gritadas, e o chão, ao ser tocado, recordasse o que um dia sustentou.

Em algum lugar no trajeto do morrinho para a cidade, a terra mudou de forma.

A areia profunda e inescapável saiu para que um solo arenoso e escuro desse lugar. O céu era escuro, pontuado por nuvens de fuligem que escapavam da cidade, bloqueando a luz da lua de ter acesso à essa terra inóspita e mórbida.

Quanto mais se aproximavam dela, mais desolada a paisagem ficava.

Nem tudo que jaz sob a terra está descansando. Nesta fronteira, o solo respirava. E aquilo que respira, mesmo sem vida, deseja.

Ao redor dela havia diversos túmulos e terra revirada. O cheiro podre de carne era presente e forte demais para ser ignorado. Aves negras de três patas e três olhos sobrevoavam morros…

Mas Kai sabia que esses morros eram pilhas… de corpos.

Uma estrada de terra arenosa levou-os mais próximo.

Nessa estrada… uma procissão seguia em direção à cidade. Carruagens, homens encapuzados, comerciantes igualmente pouco expostos e todo tipo de gente.

Parecia que algo grande aconteceria hoje.

Mesmo longe e com um rio de transeuntes à frente deles, já podiam ver… quilômetros e quilômetros de distância de uma muralha imponente.

Elas eram tão altas que quase tocavam as nuvens de fuligem… quase.

No alto das muralhas, torrinhas e torreões pontilhavam a cada poucos metros de distância, e ele sentia a presença de seus protetores.

Na base e ao longo da muralha, enormes aberturas circulares na própria pedra despejavam de vez em quando dejetos, sujeira, lixo… e corpos. Rios pútridos de imundície inundavam cada vez mais a área ao redor da muralha.

No fim da passarela arenosa, um alto portão fora talhado na pedra. Suas grades eram grandes e enormes, do tamanho dos troncos de árvores que Kai vira em Bulogg.

Erguidas, cada uma terminava em pontas afiadas.

Aqui, a morte não era sentença; era função. Uma engrenagem a mais na máquina que mantinha o Império de pé.

Do lado direito, uma dúzia de cruzes se despargiam, mais aves oriundas da degradação voejando por sobre aquilo pregado nelas.

E nem mesmo os céus ousavam olhar. A lua, velada pela fuligem, parecia recuar — como se os protetores, ali, não tivessem jurisdição.

Kai franziu o nariz. Pouco a pouco sua apatia ia embora, dando lugar à um novo sentimento de raiva e rancor.

Ele observou os corpos das pessoas presas — menos da metade permanecia viva — implorando por ajuda. Alguns simplesmente morreram de olhos abertos. Outros morreram no meio de uma prece.

Kai fechou a cara quando uma ave desceu em disparada na direção de um coitado que berrava por misericórdia. Seus gritos só não eram mais altos do que a cacofonia que a própria cidade criava… e as risadas dos malditos Kawa Kale.

Os desgraçados vis surgiram entre a poeira e os destroços como se fossem a continuação natural do mundo que havia morrido ali.

Nenhum deles mantinha uma silhueta inteiramente humana, curvados sobre seus ombros alargados por placas de metal remendas, membros alongados por juntas artificiais, cabos expostos atravessando couro queimando e entrando na carne sem cerimônia.

Mas Kai e seus colegas ainda estavam longe o bastante da muralha e de seus soldados. Kai inclinou a cabeça para Ashvai, franzindo a testa por baixo de uma máscara.

O Jovem Sem Fim não havia lhe contado o restante do plano, deixando ele no escuro.

Kai não gostava disso. Entendia que os mínimos detalhes precisavam ser seguidos e mantidos em segredo do máximo de pessoas possível.

Mas ele não era alguém que costumeiramente estragava os planos. Isso feriu um pouco seu ego.

Para a parte essencial do plano, um pouco antes de ingressarem na estrada, Ashvai e Yegar trocaram de roupas. Era estranho vê-los usando a Tecidura Âmida.

Kai usava um adorno cobrindo seu rosto. Era uma máscara de metal pálido, de feições femininas rígidas e sem expressão. Cobria todo o rosto, ocultando identidade e emoção, deixando apenas o olhar atravessar. 

Não expressava emoção alguma — nem raiva, nem alegria. Apenas olhos estreitos vazados, suficientes para enxergar, insuficientes para revelar quem a usava. 

Isso… foi conveniente. O rosto de Kai por baixo dela era uma confusão real.

Então estavam finalmente próximos o bastante da cidade… 

Apenas uma pessoa estava viva, agora, no crucifixo. A que fora mortalmente comida pela ave gritou enquanto seus olhos e língua eram arrancados. Ele continuou vivo, mas um Guarda-Kale acabou com seu sofrimento enfiando uma flecha em sua testa.

Kai suspirou, escondendo o rosto — que já estava escondido, muito embora — debaixo do chapéu de palha dado a ele por Yegar.

O pórtico de Lyvas erguia-se como um arco de metal negro, retorcido por anos de magia rudimentar e suor escravo. Fileiras de guardas avaliavam cada recém-chegado com olhos opacos, treinados para identificar desobediência pelo cheiro.

Ashvai caminhava um passo à frente dos demais, o queixo erguido, segurando sob o braço um rolo de pergaminho marcado com uma sinete estranha. A veste em tons acinzentados — simples demais para a nobreza, refinada demais para a plebe — o colocava no limiar confortável entre “importante demais para ser ignorado” e “irrelevante demais para levantar suspeitas”.

Atrás dele, Yegar mantinha o semblante neutro; braços cruzados, postura alerta, o traje de guarda-costas ajustado para ocultar o peso real de quem ele era. O tecido forrado escondia o cheiro de sangue antigo, e mesmo assim parecia que os guardas o farejavam de longe.

Ao lado, o terceiro caminhante — mais silencioso que os próprios ventos subterrâneos — mantinha o olhar abaixado, como se tivesse aprendido a esquecer o próprio rosto.

Kawa Kale com visores rachados e pulsantes em tons instáveis de verde ácido e azul morto observavam cada transeunte com atenção dobrada. Núcleos de energia fraca brilhavam sob peitorais fundidos ao corpo, como corações que haviam aprendido a bater em ritmo errado.

Nenhum dos três pronunciou palavra quando os guardas solicitaram intenções. Bastou que Ashvai revelasse um selo de cera quebrado, pendendo de uma fina corrente dourada em seu pescoço, alegando negociações para aquisição de minério.

Os guardas assentiram com uma reverência curta, quase automática; não por respeito, mas pelo medo de contrariar um nome que não sabiam pronunciar. E foi assim que os três atravessaram o arco e, pela primeira vez, sentiram Lyvas se fechar atrás deles como uma mandíbula prestes a morder.

E ela era… cruelmente pálida.

Haviam construções talhadas na própria parede interna da Muralha, umas por cima das outras como uma extensa colmeia. Escadas levavam até elas.

Mais construções feitas para servir de moradia se espalharam pelo lugar, feitas de um material pútrido.

A cidade ardia com um fedor tácito de fuligem, sangue e carne morta. Entre os espaços das casas, pessoas caídas encaravam o nada com olhares pálidos e perdidos.

Kai se lembrou dos Alquebrados e daquele povo doente em Fireas.

Mas estas… não tinham uma cor cinzenta como o povo em Atom. Pelo menos não algumas. Eram mais parecidos com alguns visitantes que careciam de trajes escondendo suas feições.

Sua pele era num tom entre pêssego e pérola, suja e doente. E seus olhos eram opacos, vazios e temerosos.

A favela em Lyvas não parava aqui. Casas e mais casas se sobrepujaram umas sobre as outras, criadas apenas para que o alento necessário fosse atendido.

Olhando distante, para as muralhas que se erguiam ao redor, ele podia ver mais daquelas construções em suas paredes, se acentuando feito colmeias. 


Ao longe, torres altas de castelos e funis largos soltavam fumaças ominosas de fuligem. Uma névoa doentia se espalhava pelo lugar junto da catinga de sujeira.

Sujeitos de pele crômio e doente tentavam vender suas coisas enquanto a multidão prosseguia cidade adentro.

Para onde quer que Kai olhasse só via isso: casas caindo aos pedaços, pessoas doentes vendendo coisas e escravos trabalhando em alguma necessidade da cidade.

Conforme caminhavam, as cidades foram ficando mais escassas, dando lugar a praças quadradas conectadas por espaçosas estradas de terra molhada. Carruagens e carroças faziam seu trajeto por ali, dobrando loucamente uma vez e outra.

Na extremidade noroeste, Kai podia ver as entranhas de um portão tal e qual o que acabaram de entrar, e mais carruagens passando por elas.

Numa das praças, haviam cadafalsos com escravos sendo chicoteados por três ou quatro Kawa Kale cada, multidões rodeando para olhar.

Os escravos já nem gritavam mais.

Em outra praça, um sujeito em um patíbulo — sem forca — orquestrava um leilão de escravos. Alguém fizera uma jogada grande.

Em outra praça… Kai abaixou a cabeça.

Haviam cinco paliçadas altas, rodeadas por aves grasnando. Espetados em seu topo, cada um tinha a cabeça de uma criança atoniana. Uma mulher de pele quebradiça chorava copiosamente enquanto Kawa Kale observavam a cena com uma vontade decrépita sob os visores rachados e hostis.

Ele podia sentir o cheiro de óleo velho e ferrugem procedendo a cada passo, acompanhados pelo rangido seco de engrenagens e pela respiração mecânica que  substituíra o fôlego humano.

Para Kai, não eram soldados. Eram sobreviventes que haviam perdido a última escolha possível. Ele quase esquecia que um dia esses nojentos foram Atonianos, antes de serem completamente consumidos pela maldade de Abeeku. Mas era fácil esquecer.

Mas Kai não esquecia. 

Hoje, eles eram um exército que não marchava pela fé nem por honra, mas porque já não havia carne suficiente neles para lembrar como era parar.

Abeeku não os havia armado; havia terminado de consumi-los. E, ao encará-los, Kai sentiu um incômodo que ia além do medo: a certeza amarga de que aquilo não era o futuro da guerra… era o destino de quem sobrevivia tempo demais sob um império que chamava corrupção de salvação.

Inconscientemente, ele roçou os dedos no cabo de Tirise, que zuniu violentamente.

Yegar e Ashvai lançaram um olhar cauteloso para Kai. Eles também tinham dificuldade de aceitar o que viam aqui.

A crueldade de Abeeku… não tinha controle.

— Foi por isso que não lhe contei o restante do plano — disse Ashvai, mantendo o olhar longe.

Eles seguiam por uma via onde havia poucos transeuntes. Para o Jovem Sem Fim, parecia fácil ignorar a maldade escancarada. 

— Tudo depende de agirmos no momento certo. 

Kai suspirou, mantendo a cabeça baixa. Ele sabia disso…

— Não preciso que me lembre.

Ashvai voltou o rosto para frente.

— Então controle essa maldita sede de sangue.

Kai suspirou, obedecendo. Yegar esteve quieto, observando um ponto distante.

Eles caminhavam por uma via onde as casas não pareciam tão desgastadas como antes. Um número considerável de pessoas seguia junto, assim como carruagens e comerciantes aqui e ali.

— Como tão poucos Kawa Kale… controlam tanta gente assim? — Kai indagou. — Não há somente escravos… precisa haver ordem.

Ele vinha ponderando sobre isso desde que viu a muralha. Ela era muito grande para tão poucos deles darem conta…

Ashvai se manteve calado por um tempo.

— Por alguns motivos importantes. O primeiro é que os Kawa Kale servem apenas de vigias; o papel deles é manter a ordem do trabalho e dos escravos, e isso é capaz por causa da força do poder de Abeeku, que circunda toda Atom. — Ele ficou em silêncio novamente, bocejando quando um Kawa Kale passou, lançando olhares estranhos para eles. — O segundo e terceiro estão alinhados com o primeiro; os comerciantes e transeuntes trazem a própria comitiva de proteção, e respeitam a ordem do Imperador, isso parece manter a ordem parcialmente…

Kai refletiu. Sim, isso fazia sentido. Quem ousaria ir contra a lei? Ora, a lei era o próprio Imperador. Quem ia contra ela, ia contra ele. E quem ia contra ele… bem, isso era óbvio.

Parecia natural que isso funcionasse… o poder de Abeeku de repente parecia escalar taxativamente.

— O terceiro é o mais simples de todos: a ordem é mantida através do medo. É como se a presença de Abeeku fosse sentida daqui… dizem que ela se estende através de seus seguidores fieis… isto é, dos Quatro Reis e de seus Ministros. Não me surpreenderia se encontrássemos um deles aqui.

Ashvai lançou um olhar de soslaio para Kai, se forçando para não rir. Mas Kai não mostrou qualquer reação, e aquela máscara acentuava sua indiferença.

‘Não deveria ter dado essa máscara à ele!’

Quando o silêncio se tornou mórbido e Kai não disse nada, Ashvai suspirou, irritado.

— Não precisa ser tão presunçoso. Como eu disse, é apenas uma especulação. Não fique todo nervosinho.

Kai não respondeu.

Eles caminharam mais um pouco, observando os toques degradáveis de maldade: crianças chorando, homens desnutridos e sem perspectiva, escravos trabalhando pesado, homens andando em filas presos à correntes. 

A rua se tornou estreita, deixando-os mais próximos dos outros que seguiam o mesmo destino.

Mesmo assim, tinham liberdade o bastante para conversar sobre o que viria a seguir. E isso era necessário.

— Nosso papel hoje será causar tumulto — disse Ashvai. — Acontece, uma vez no ano, um rito político disfarçado de entretenimento. Para manter a classe média satisfeita e distraída dos esquemas políticos, aumentar sua própria popularidade e a de sua corte, exibir poder, riqueza e nobreza e, acima de tudo, servir suas execuções políticas, Abeeku incumbiu seus ministros de desenvolverem essa espécie de jogos. Um torneio anual.

Kai ponderou. Era óbvio.

Abeeku considerava muito seus seguidores fiéis e próximos, e pra mostrar um pouco de misericórdia — e quem sabe evitar pessoas demais se metendo em suas coisas, um torneio era mais do que adequado.

Sim, ele era um tirano, e podia resolver isso simplesmente cortando suas cabeças.

Mas pessoas como Abeeku queriam ser idolatradas. Queriam ser ovacionadas. Não haveria isso se todo mundo fosse morto por ele. Então existia o mártir mais forte do que nunca.

— Cada ministro envia campeões ou mercadorias humanas — prosseguiu Ashvai, olhando para os dois lados. Ele fez uma pausa quando um homem encapuzado passou por ele. Quando o sujeito seguiu, se virou para Kai. — Esse é o Rasgo dos Vivos.

Kai ponderou enquanto a voz de Ashvai caía, mordaz. Era um nome adequado, considerando que essas pessoas estavam tudo, menos vivas.

Isto é, seus espíritos já haviam sido quebrados, e seus descendentes fadados a éons e éons de escravidão ininterrupta.

— Este ano, Lyvas parece ter sido escolhida — ele ergueu um medalhão em seu pescoço. Era o mesmo que ele mostrou ao Kawa Kale na entrada do lugar. Sua sinete tinha o formato de um arco e uma coroa ao fundo com raios rodeando sua circunferência. — Fomos enviados por um comerciante a mando de um ministro que morreu na estrada.

Kai manteve aquele sinete na mente. Um arrepio frio tomou conta de seu estômago, como um breve e resoluto aviso.

Ashvai suspirou.

— Os Kawa Kale escolhem novos soldados entre os sobreviventes — continuou, apontando alguns soldados com a cabeça. — O ganhador recebe um selo de mobilidade, podendo viajar entre cidades sem ser caçado. Isso é muito importante, tendo em vista que somente membros da corte, nobres, a classe média — nesse grupo colocamos os comerciantes e proprietários de terras — e os Kawa Kale detém essa liberdade móvel.

Kai abaixou a cabeça, ponderando. Precisava manter a mente límpida para dar seguimento aos ensinamentos de Naor. Mas nem sempre conseguia.

Às vezes, quando sua raiva ficava um pouco excessiva, ele sentia ecos da voz da Voragem. E isso era ruim. E era por isso que os Artefatos existiam.

Ele não podia lidar sozinho com ela, pois ela era mais poderosa do que o próprio tempo. Suspirando, Kai tocou levemente a ampulheta em sua cintura, tons frios de areia se movendo levemente — ele pôde sentir um sussurro frio e nauseante sendo emitido, afastando a voz distante da Voragem.

— E de que forma entramos nisso? — perguntou ele. Suspeitava que a resposta não seria de seu agrado.

— Nós? Humpf! — Ashvai balançou a cabeça, sorrindo um pouco. — Não! Não “nós”. Devo dizer, a parte mais importante é sim, nós… exceto que… a parte mais difícil, aquela que sangue é derramado… é sim com você. — Ele sorriu, mas notou o olhar de Yegar e engoliu em seco. — Certo! E com Yegar aqui.

Kai suprimiu a vontade de revirar os olhos. Mas ele fez. Ashvai sequer saberia.

— Apenas diga o que deve ser feito.

Ashvai rangeu os dentes. Sua mudança de humor era radical demais.

Minha parte do plano cabe somente a mim. Já a sua… você deve entrar no torneio… e causar um tumulto. Alegre-se! Vai sair conforme planejado.

Kai, contudo, tinha a lúgubre sensação de que não seria bem assim.

Logo, eles deixaram as habitações para trás, ficando diante das enormes construções em forma de cilindros e funis altos e imponentes, que soltavam torrentes e torrentes de fuligem doentia.

Seu destino não era esse, contudo.

Diante deles, um anfiteatro enorme, cujas vozes enlouquecidas de uma população ensandecida urrava mais do que as engrenagens internas dos cilindros.

Havia todo tipo de gente aqui… e Kai não deixava de se sentir pressuroso sobre isso. 

 

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