Volume 2

Capítulo 120: VERSOS DO AREAL

Parecia que o silêncio era impossível de existir dentro daquele deserto vivo. Nem o vento ousou cortar o ar. Kai permaneceu imóvel, observando Liorah tremer, o dedo ainda apontado para ele como se estivesse tentando acusar, avisar ou simplesmente sobreviver ao que vira. A fuligem escorria pelo queixo dela em trilhas grossas, queimando a pele como lágrimas ácidas.

Os Esquecidos não falaram. Não gemeram. Não respiraram alto. Apenas absorveram o impacto — cada rosto preso numa mistura de medo contido e reverência desconfortável. Mesmo o Mudo de Barro inclinou ligeiramente a cabeça, incomodado; um som úmido escapou de sua garganta rachada.

Naor se moveu, dando dois passos, o cajado cravando fundo na areia, como se o próprio solo estivesse mais pesado. Seu rosto, sempre difícil de ler, agora era uma máscara de cautela pura. O dourado de seus olhos oscilava, como uma chama prestes a apagar.

— Liorah… — ele chamou, baixo.

A Que Ouve o Areal vacilou, a respiração falhando. Um soluço seco escapou de sua garganta antes que ela desabasse sobre os próprios joelhos. Dois Esquecidos correram até ela, segurando pelos braços, mas recuaram assim que a fuligem os queimou. Liorah nem percebeu, ainda tremendo. Ainda sussurrando algo sem voz.

Kai assistia tudo com atenção rígida, refletindo sobre as palavras de Naor. Suas mãos estavam relaxadas, mas o corpo, não. Uma parte sua, a que sempre buscava lógica por trás da violência, queria entender. Outra parte… apenas sentia um frio inexplicável subir pela espinha.

— O que significa? — perguntou ele, sem elevar a voz.

Naor demorou a olhar para ele. Quando olhou, era como se carregasse um peso que não queria admitir.

— Significa… — começou, mas parou.

Os outros Esquecidos esperavam por uma resposta. O ar estava tão tenso que parecia prestes a quebrar. Naor respirou fundo.

Kai aguardou, respeitando esse momento, pois qualquer palavra agora pareceria pequena demais.

— Significa que o fim começou.

Kai olhou para Naor, os olhos dourados deste sem o brilho habitual.

— As visões de Liorah não narram fatos — prosseguiu Naor. — Narram consequências. A morte de Shimon foi apenas a primeira rachadura. Mas o pilar… o verdadeiro horror começou com sua Queda, no firmamento.

Já não era sem tempo. Ainda assim, Naor mantinha um misterioso ar de quem teme revelar demais porque… caso o faça, tudo piore. Mas o que poderia piorar mais?

Ao mesmo tempo, Kai sentia uma nova sensação, como se isso tivesse sido escrito antes mesmo de acontecer. Ele lançou um olhar involuntário para Ashvai, que o encarava de volta.

Naor passou a mão no rosto, parecendo tirar um pó do rosto que não existe, e deixou o olhar perder-se por um instante no horizonte imóvel do deserto.

— Atom não caiu de uma vez — disse, enfim, a voz baixa, mas firme o bastante para atravessar o silêncio. — As seis capitais brilhavam como astros, mas por baixo delas… algo já apodrecia. Lento. Invisível. Um fio de corrupção que ninguém ousava nomear. Primeiro tomou as cidades menores. Depois, roeu as bordas das grandes. E, quando perceberam, o mal já estava entre as pedras que sustentavam o reino.

Liorah sussurrou pedaços de palavras desconexas, gemendo, enquanto os Esquecidos recuavam, temendo ouvir demais. Mas eles já ouviam.

Naor respirou fundo.

— Antes da ruína, o Areal falou. Os sacerdotes ouviram versos que ninguém compreendeu. Dizia-se que eram apenas ciclos… — seus olhos dourados se estreitaram. — …mas ciclos não costumam sangrar. Houve… uma Profecia.

Então ele olhou para Liorah. Kai observou que a mulher retornava a si, e a fuligem secava, pouco a pouco. Naor olhou para Kai, recitando palavras, quase num sussurro:

Quando um pilar sem eco cair,
rubra, a lua chorará.
A cidade-alva duas vezes há de tombar,
uma ao temer, outra por lembrar.
Do fora há de vir o que nada carrega,
trazendo consigo a semente antiga, em refega.
Se o véu abrir-se: o mundo repousa.
Senão, tudo à areia recorda.

O silêncio demorou a perceber que precisava voltar. Ele veio aos poucos, rangendo, como um portão antigo.

Nenhum dos Esquecidos ousou se mexer. Alguns abaixaram o olhar; outros fecharam os dedos em torno de talismãs inúteis. A areia recuou do som, temendo repetir a profecia.

Liorah, ofegante, mas retornando a si aos poucos, ergueu os olhos encharcados de fuligem. Mas não para Naor… era para Kai.

Como se a visão ainda estivesse ali… grudada em seu rosto.

Kai sustentou seu olhar sem pressa, mas com uma inquietação que nem ele era capaz de disfarçar. A profecia girava dentro dele como uma lâmina lenta.

— Um pilar que cai sem eco… — murmurou ele, num tom mais para si do que para os outros. — Isso é sobre Shimon.

Foi quase uma afirmação, quase uma pergunta, quase um luto.

Naor não respondeu de imediato. Seu rosto endureceu, mas não pelo luto, mas pelo cuidado.

— Shimon foi o primeiro silêncio, Kai — disse, finalmente. — O silêncio às vezes é mais barulhento que a morte. 

Kai absorveu aquilo. Abaixou a cabeça por um instante, depois ergueu devagar.

— E a lua que chora sangue? — perguntou, a voz rouca. — A protetora…?

Naor franziu o cenho, como quem pisa num terreno proibido. A protetora…

Kai suspeitava que se tratava dela, afinal de contas. Ele não negava mais tanto a existência de tais seres…, apenas não se sentia inclinado a adorá-las.

E tendo em mente que Bulogg era associado ao pronome ele… Kai analisou tudo relacionado ao misticismo em Atom. A lua sangrenta, profetisas e sacerdotisas, como no Salão Verde da Coorte Troaria…

A imagem esculpida de uma mulher logo acima dos tronos…

— A lua sangra quando algo que deveria guardar… falha — respondeu, em completa explicação. — E falharam muitas guardiãs antes dela.

Kai encarou o deserto, tentando decifrar linhas que não existiam na areia.

A cidade-alva cair duas vezes. Uma por medo… outra por memória. — Ele respirou fundo. — Isso é Atom, não é?

O dourado dos olhos de Naor ficou mais fosco, quase cinza. Ele parecia decepcionado, mas com nada em específico. Seu olhar cansado pousou em Liorah, que se recuperava aos poucos.

— Atom… cai desde antes de você nascer, Kai — disse, a voz baixa, evidenciando o cansaço antigo e revelador. —  As pessoas só não perceberam. Não…

Mas algo no rosto de Kai indicou um lampejo de compreensão. Ele olhava a coisa toda com um toque sutil de obviedade… tentava buscar respostas claras para palavras ambíguas e pouco reveladoras. Mas… se tentasse ver por outro ângulo?

Pensando bem, havia algo de incerto nisso tudo.

Antes, quando viajava com Eliyahu e acabou por conhecer a cidade caída de Fireas e seus Alquebrados, este lhe contou sobre a queda das cinco capitais…

Era claro como o sol do plano principal… era claro como a neve caindo no inverno. As palavras de Liorah ressoavam em sua mente, prometendo revelações ardentes.

— Não… — disse ele, encontrando o olhar confuso de Naor. — Naar-Ehtriel… ela caiu duas vezes. Não eram cinco capitais… eram seis…

Naor também dissera há pouco sobre seis capitais. Kai notou o erro, e manteve-se quieto por acreditar ser o cansaço batendo…

Mas Naor não dizia coisas à esmo. Cada uma de suas palavras eram necessárias e tinham significado próprio. Ele não erraria assim…

Naor afastou o olhar de Kai, cansado e satisfeito, talvez por não precisar explicar isso ao jovem. Havia um toque de curiosidade em seus olhos sob o capuz quando ergueu a cabeça novamente.

— Decerto. O que o fez pensar que haviam apenas cinco capitais?

Kai encarou-o.

— Visitei as ruínas de Fireas… e enfrentei seus mártires… um homem chamado Eliyahu Batista me disse que Atom possuía cinco grandes capitais: Fireas, Umabel, Tribeas, Nemimiah e Mehiel… Mas a cidade-alva cair duas vezes se refere à uma sexta capital… Naar-Ethriel.

Naor assentiu, suspirando pesado. Seu rosto se iluminara brevemente à menção de Eliyahu.

— O Firenze ainda era apenas um bebê quando tudo aconteceu, por essa razão, talvez tenham lhe explicado a existência de apenas cinco capitais. — Ele sorriu debilmente. — Mas você está certo… de novo.

“Quando a corrupção subiu sobre Atom, Naar-Ethriel resistiu, elevando suas cidadelas aos céus do firmamento. Ela era a última a se manter intacta e incorruptível.”

Kai observou o Esquecido. Havia mais em suas palavras, muito mais. Contudo, haveria tempo para destrinchar a história da queda de Atom no futuro.

Agora, contudo, Kai buscava compreender as conexões e linhas que se desdobravam umas sobre as outras.

Havia muitas perguntas sem resposta aqui, como sempre. Ele encarou Naor.

— Em Fireas, uma ruína permanecia intacta. Ela… revelava uma tapeçaria de desenhos feitos de grãos que se moviam e mostravam parte do que aconteceu… e meu próprio duelo contra um daqueles seres que vocês costumam chamar de divinos.

Naor inclinou a cabeça, confuso. Uma percepção sutil envolveu-lhe, demonstrando mais humanidade contida ali.

— Você… derrotou um Ednarg sued ad arret…? — Naor falhara em conter a emoção na voz.

Kai assentiu, estreitando os olhos e enrijecendo sua postura.

— Sim. Você é um dos adoradores dessas coisas?

Naor reprimiu um soluço, enquanto Yegar e Azbai o encaravam, nada felizes com as palavras do jovem.

Uma carranca surgiu por baixo do capuz do Sussurrante, mas sua voz era forçadamente calma.

— Não uma “coisa”, mas um espírito poderoso e ancestral da Terra. Antes de Atom estar corrompida, eles devastavam as pequenas cidades longe do toque poderoso da União, e poucos homens conseguiam lidar com eles. Os nobres enviavam forças sublimes, no passado, mas eram realmente escassos… Você lidar com um mostra sua força.

Naor estufou o peito. Mas para Kai não parecia algo sobrenatural. Como eles não conseguiam ter sujeitos fortes o bastante para lidar com esse tal espírito? Kai enfrentou Shemesh, e ele era realmente forte. Se não fosse pelo uso de chi misterioso, Kai teria tido dificuldades contra o homem.

Lembrando da conversa de Shaul e Shemesh antes do exílio, ele suspeitava que haviam mais que pudessem lidar com um ser dessa magnitude. Contudo, ele levou em consideração que tempos sombrios formavam homens rijos e endurecidos.

Apesar de levemente ofendidos, os três — Naor, Yegar e Azbai — olhavam para Kai com um pouco de reverência.

Kai sentiu um leve arrepio, lembrando de quanta energia gastou em apenas um golpe devastador contra aquela criatura. Ela era poderosa, sim, mas se fosse nos tempos de hoje — já mais adequado ao ambiente e a pressão gravitacional, Kai não teria problemas.

Afastando essas questões, Kai suspirou. Ele queria perguntar sobre a tapeçaria em Fireas, mas o foco do grupo parecia outro, e ele sentia que se entrasse no assunto, perderia tempo demais.

Voltando-se para a profecia, ele refletiu sobre um trecho realmente misterioso e mais claro de todos.

Olhando para Naor, encarou-o silenciosamente.

— Então… — ele hesitou, buscando as palavras certas. — O “portador do Nada”... sou eu.

A palavra Nada parecia mais pesada na boca dele do que deveria ser. Alguns Esquecidos recuaram um passo, apenas por ouvi-la.

Naor fechou os olhos por um momento. Quando abriu, havia uma dor controlada.

— Você não é o Nada, Kai. — A voz dele veio firme, quase paternal. — Mas algo antigo o escolheu como recipiente. Isso não é destino. É consequência.

Kai ficou em silêncio. Ahsvai o observava com a postura de uma sombra que teme acender.

— E “a semente antiga”... — tentou ele.

— …algo que respira em você — atalhou Naor, sem dureza, mas sem permitir mais perguntas. — Algo que não deve ser desperto sem compreensão.

Kai limpou a garganta.

— E se eu recusar?

Naor o olhou com a honestidade cruel dos sábios.

— Então tudo volta à areia.

Houve um estremecimento coletivo. Liorah fechou os olhos, aliviada e assustada ao mesmo tempo, como se finalmente tivesse ouvido a última nota da visão.

Kai inspirou devagar, digerindo cada palavra. E depois ergueu os olhos para Naor.

— Você disse que Atom não caiu de uma vez — murmurou. — Então… quando começou?

Naor encostou o cajado na areia. O som foi seco. Definitivo.

Ele olhou para o horizonte — para o deserto quieto, como se estivesse olhando muito além dele.

— Para entender a profecia… você precisa entender como Atom começou a morrer.

Seu tom era grave, pausado. Um convite e um aviso.

— E começou muito antes da queda. — Ele respirou fundo. — Começou quando as capitais ainda brilhavam como luas… e ninguém percebeu que cada luz escondia uma sombra maior.

O vento voltou, finalmente. Frio. Como se o deserto tivesse esperado só por aquela frase.

— Vou te contar, Kai. — Naor ergueu o rosto. — Não! Vou te mostrar… como Atom caiu pela primeira vez.

 

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