Volume 2
Capítulo 119: MEMÓRIAS QUE NÃO ERAM MINHAS
Muitas coisas passaram pela mente de Kai com a revelação de Naor. Mas ele estava tentando manter sua cabeça no lugar e, por isso, ele conseguia analisar minuciosamente cada detalhe dessa situação.
Cerrando os olhos, Kai imaginou que memórias se encaixavam nessa situação, e ele só conseguia pensar em uma.
Kai sempre teve um controle absurdo de si mesmo, principalmente por ter sido tão capaz de controlar a mana. E esse controle era extremamente necessário, afinal; o controle começa no mental.
Apenas recentemente ele passou a duvidar de muita coisa, e uma delas era sua vida antes de deixar Neve Sempiterna. Isso aconteceu após ele ter a mente controlada por Shimon.
Não necessariamente controlada, é verdade, mas ele havia mexido com sua cabeça. Desde então, havia a sensação de que algo não se encaixava, que estava fora do eixo. Mas o que seria?
Kai sentia uma repulsa por seu velho pai que não sentira nem quando foi abandonado. E isso porque…
Ele suspirou, encarando Naor.
— Que… memórias?
O Sussurrante o observou. Ele não se conteria depois de chegar tão longe. E comedimento não se adequava à personalidade do homem.
— Memórias falsas de sua vida passada. Essas memórias onde você era usado como assassino por seus superiores desde criança, matando homens em missões secretas. Isso não deveria estar aí. É como um reflexo turbulento na água… incongruente com o resto. Isso claramente foi implantado.
Kai franziu o cenho. Então era assim.
Parando para analisar melhor, ele nunca esteve mal com os trabalhos feitos à Siobhan Murphy… porque eles nunca existiriam. De repente, todo aquele ódio e raiva não faziam sentido, ainda que pulsasse em seu coração, dormentes.
Ele havia sido sim coagido…, mas não pelos Murphy. Fora por Shimon.
Só restava uma pergunta a ser feita: por quê?
Bom, Kai nunca saberia. Ele cortou sua cabeça antes que aquela língua venenosa proferisse mais mentiras.
Ele fechou os olhos por um instante, permitindo-se sentir a estranheza rasgando-o por dentro. Era absurdo como algo tão vívido — o sangue nas mãos, o cheiro metálico, a sensação de estar sendo usado como arma — podia simplesmente… não ser dele. Nem existia.
A lembrança não desbotava; ela tinha textura, peso e tonalidade certos. E, contudo, era falsa. Como aceitar que parte da dor recente que o fazia sofrer tanto tinha sido esculpida por outra mão? Kai inspirou devagar, tentando firmar a respiração. Mas a constatação ecoava como um golpe oco: ele carregou um ódio que nunca lhe pertenceu.
Kai percebeu, com um misto de náusea e clareza, que sua mente havia sido manipulada em um nível profundo demais para ignorar. Não eram apenas eventos falsos; eram sensações, peso emocional, culpa, a justificativa de cada ação que acreditara tomar. Isso era o que mais incomodava. Não o fato de terem colocado aquilo em sua cabeça. Era apenas o fato de ele ter vivido aquilo como verdade, se enraivecendo sem ao menos parar pra perceber na mentira que respirava.
A constatação o fez repensar tudo de forma metodológica, quase clínica. Era assim que ele lidava com ameaças internas: esmiuçava, desmontava, identificava. E agora fazia isso novamente. Que sentimentos eram dele? Que decisões? Quanto daquela repulsa por Siobhan havia nascido dele e quanto havia sido tecido em silêncio pelo sacerdote que ele decapitou? O incômodo não estava na mentira, estava nas consequências que ela deixara no tecido de sua personalidade.
Era estranho, quase humilhante, perceber que parte do monstro interno que ele tentou combater com rebeldia, veio de mentiras cuidadosamente plantadas. Não do mundo, não de seus inimigos externos, mas de dentro de sua cabeça. Aquilo deixava seus pensamentos escuros, desordenados. Uma parte dele queria se revoltar, gritar, destruir algo. Outra queria apenas se deitar na areia fria e deixar que o deserto o engolisse por alguns instantes. Mas ele permaneceu sentado, quieto, porque era isso que fazia: sobrevivia ao caos com um silêncio endurecido.
Tinha tirado algo bom disso, afinal. Matar Shimon, mesmo com uma consequência tão severa, foi bom para ele. Não havia culpa aqui.
Ao organizar uma linha cronológica dentro da própria cabeça, uma sensação incômoda de alívio surgiu. Não era suave, nem gentil. Mas fria. Real. Aos poucos, o peso se organizou dentro dele. Não desapareceu, nunca desapareceria; mas Kai sentiu que as coisas começavam a se ajustar. Como se enfim pudesse distinguir o que era seu do que era imposto.
Aquele ruído dissonante que o acompanhava como uma lembrança dormente não era perda de controle, não era uma falha pessoal. Era interferência. E se era interferência, podia ser desmantelado.
A aceitação veio devagar, como areia escorrendo por entre os dedos. Ele não precisava gostar daquilo. Não precisava perdoar. Só precisava reconhecer. E, ao reconhecer, algo se organizou dentro dele, criando um espaço mais limpo.
Kai suspirou. Não tinha como direcionar mais sua raiva. Ele ainda sentia um forte ressentimento por Siobhan, mas sabia, agora, que isso era inútil. Era uma mentira.
— Isso… provavelmente foi feito por um homem chamado Shimon, um sacerdote daquela cidade, Troas.
A feição de Naor escureceu, como se ele conhecesse bem aquele nome. Uma dúvida cresceu em Kai. Será que os dois homens tinham alguma intriga…?
— Você… — disse Naor, metodicamente. — Esteve em Troas…?
Kai observou bem seu rosto, analisando as nuances de tal reviravolta. Havia, decerto, surpresa no rosto do líder Esquecido.
— Sim.
Naor manteve o olhar em Kai, um turbilhão de emoções contidas sob a sombra daquele capuz. Após algum tempo, ele encarou a fogueira, pensativo.
— Entendo… — disse ele, num sussurro. — Faz sentido. Shimon realmente parece ter esse tipo de poder. Troas foi fundado sob a promessa de esperança, mas sementes podres como ele infestam o lugar, impedindo que o futuro prospere. É uma pena.
Kai também se virou para observar o fogo, analisando cuidadosamente o que diria a seguir.
— Infestava.
Naor se virou abruptamente, revirando seus olhos dourado-foscos por todo o rosto de Kai, em busca de alguma mentira escondida. Ele apertou os olhos, então finalmente encarou os de Kai, arregalando-os um pouco.
— …Como?
Kai suspirou e sorriu, um riso seco e desprovido de emoção, que sequer chegava em seus olhos repletos de determinação sombria.
— Eu o matei. Arranquei sua cabeça na frente da Coorte Troaria. — Um sorriso doentio riscou seu rosto. — É por isso que estou vagando sem rumo… um belo exílio.
Naor abriu a boca, os olhos arregalados e o rosto em um espanto sublime. Kai nunca vira um homem assim, tão… em choque.
Ele parecia demorar para assimilar aquilo, encarando Kai incredulosamente. Naor estava atordoado e, ainda assim, cheio de mais emoção escondida. Era como tentar enxergar no escuro, sua feição mudando a cada novo segundo.
Perplexidade, dúvida, incerteza, descrença, pavor… quantas outras emoções aquele homem era capaz de conter?
Ao mesmo tempo, seu olhar encarava Kai de uma nova maneira. Naor não mentiu quando disse que não podia ler o futuro nem saber de tudo a todo momento… e talvez por isso que, para ele, que também parecia ter um passado com a cidade subterrânea, a notícia tenha sido tão… impactante.
Ele lançou um olhar para Liorah, que cantarolava do outro lado da fogueira. Assobiou baixo, chamando a atenção dela.
A mulher de pele clara se sobressaltou, suas vestes esvoaçando quando se virou para seu líder, atordoada.
O restante do grupo parou o que estava fazendo, também observando-o atentamente.
Kai manteve seu olhar calmo, inebriado por tal comoção.
Logo, todos os Esquecidos estavam ao redor de Kai e Naor, aguardando suas palavras.
Ele, Naor, encarou Liorah por um longo momento.
— Leia! — Seu tom era mais sério do que o habitual, adequado para a ordem direta de um líder.
Apreensiva, Liorah se sentou sobre seus joelhos, seus véus fugindo para longe de sua pele.
Ela começou a cantarolar baixo, enquanto os Esquecidos formavam um semicírculo ao seu redor.
Seus cantos subiram o tom, parecendo mais uma prece, agora. No entanto, sua voz criou uma vibração no ar, fazendo a poeira ondular. Um leve zumbido começou, como se o vento… sussurrasse seu nome.
As linhas de fuligem em seu rosto piscaram, ganhando um tom mais negro que o habitual. Ela balançava para frente e para trás, enquanto Naor se afastava do grupo, olhando para seus Esquecidos com uma feição… preocupada.
No centro do semicírculo, um vórtice de poeira e areia zuniu, brilhando sob um novo tom de dourado esguio. Os olhos de Liorah também adquiriram este tom, afastando sua íris para longe.
A prece agora era chorosa, triste, doentia e febril. Kai sentia um desconforto, levando a mão inconscientemente à cintura, apenas para perceber que Vento Noturno não estava ali.
Liorah, por outro lado, continuava pronunciando suas palavras, dando mais cor ao brilho no centro do vórtice. Os Esquecidos — exceto o Mudo de Barro — repetiam um verso a cada três batidas do cajado de Naor, que mantinha a voz mais alta do que todos.
A Que Ouve o Areal se balançava para frente e para trás. Kai observou, atônito, enquanto ela começou a chorar fuligem, queimando sua pele e deixando um rio negro sobre suas bochechas. Seus olhos estavam brancos, e veias saltavam de seu pescoço.
O vórtice girou e girou, enquanto o tom das preces e versos ganhava velocidade. Naor pronunciava outras coisas, agora, batendo seu cajado na areia, um som de água pingando surgindo dali. Os fragmentos de vidro fundido em seu cajado urravam, chiando e berrando.
Até que o vórtice explodiu em mil pedaços, fragmentando uma cacofonia de gritos oriundos de uma distância incalculável.
O silêncio caiu com uma rapidez quase antinatural. Assim que o vórtice se dissipou, como se nunca tivesse existido, ninguém ousou respirar fundo. A areia assentava devagar, flutuando pelo ar em pequenos grãos que cintilavam o brilho ainda quente do ritual. Os Esquecidos permaneciam imóveis, semicerrando os olhos como se temessem que qualquer movimento pudesse quebrar algo sagrado, ou profanar algo terrível.
Kai manteve a postura firme, embora sentisse o peso do momento pressionar sua nuca. A fogueira estalou, abafada pela tempestade lá fora, mas do lado de cá, tudo parecia… contido. Suspenso. Como se o próprio espaço aguardasse o que viria.
Naor não disse uma palavra. Apenas observava o centro do semicírculo, o rosto mais rígido do que Kai já vira. Ele apertava com força o cajado, os nós dos dedos quase esbranquiçados sob a sombra da manga. Seus olhos dourados oscilavam, incapazes de disfarçar o tumulto interno — medo, reconhecimento, presságio, dor. Algo ali tinha atravessado suas defesas.
Os outros Esquecidos observavam o líder em silêncio, apreensivos. A respiração de Liorah era irregular; os véus tremulavam contra sua pele marcada de fuligem e lágrimas negras. O Mudo de Barro inclinou a cabeça lentamente, como se ouvisse algo que os outros não ouviam. O ar vibrava numa tensão viva, pulsante.
Kai sentiu o desconforto crescer em sua coluna, mas decidiu não se mover. Tudo nele dizia que se tratava de algo maior do que apenas… leitura. Algo que ultrapassava memórias… alcançava estruturas.
Naor deu um único passo à frente, e todos os Esquecidos, por instinto, abriram espaço para ele. O líder manteve o olhar fixo na mulher que ainda tremia no centro, como se estivesse preparando o coração para ouvir algo que jamais quiseram escutar novamente.
Nenhum deles ousou quebrar o silêncio.
Liorah estava parada no meio do semicírculo, apontando para Kai, os dedos trêmulos e os olhos revirando, fuligem escapando de um dos buracos do nariz. Sua voz surgiu — rouca, partida, como se tivesse atravessado mil desertos antes de chegar.
— Um pilar ruiu. A Lua sangrenta chora. Naar-Ethriel… caiu.
O silêncio seguinte foi brutal. Nem o zumbido da tempestade ousou atravessar aquele instante. Naor permaneceu estático, o cajado suspenso no ar, o vidro fundido tremulando outra vez, temendo cair.
Kai viu o semblante dele… não era medo ou choque. Era reconhecimento.
Mas o rapaz tinha perguntas. Franzindo o cenho, ele manteve o olhar no líder Sussurrante.
— O que diabos significa “caiu”?
Naor tremeu, hesitante.
— Significa… que algo no céu perdeu seu lugar. O deserto deixou de guardar um segredo.
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