Volume 2

Capítulo 118: A FORMA DA SOLIDÃO

Liorah cantarolava do outro lado da fogueira enquanto Kai observava as labaredas de fogo azul cuspirem em direção ao teto.

A Tempestade Cisca nunca descansou, urrando mais ainda a cada minuto que se passava.

Mas estava tudo bem, pois Kai já considerava isso bastante terapêutico. Ele, na verdade, esquecera de como era o mundo sem grãos se chocando e o zumbido constante de criaturas se despedaçando do lado de lá.

Por outro lado, apesar de conseguir controlar um pouco o quanto era atormentado pela voz insidiosa da Voragem Inominável, isso não significava que as coisas em sua cabeça haviam se silenciado.

Não era necessário dizer que a maldição de Greylous ainda existia, e ele se lembrava de tudo a todo momento. Contudo, ele conseguia controlar o fluxo dos pensamentos — o que era realmente difícil com o toque vil da Voragem em seu âmago.

Ele refletia sobre as palavras de Ashvai…

Era, de fato, inegável que Kai tinha muitas coisas que se arrependia, e precisava enterrar bastante coisa. Ele não se considerava parecido com o sujeito da fábula…, mas estava claro que ela foi contada para ele em específico.

Que arrependimentos ele gostaria de deixar para lá? Que memórias seriam melhor se estivessem enterradas fundo no poço?

Antes, Kai era alguém que conseguia deixar o passado no passado…, mas isso lentamente se tornou o contrário. Agora, ele lidava com tudo com um peso aumentado em dez vezes.

Eram tantas coisas…

Para piorar, Kai recentemente percebeu coisas ruins sobre sua vida anterior, como se um fio que impedia que ele fizesse a conexão tivesse sido cortado. Shimon era o responsável, afinal…

Isso mexeu com sua cabeça. Perceber isso… não foi bom.

Enquanto ele refletia sobre si durante essa pausa momentânea, o líder Sussurrante dos Esquecidos se sentou ao seu lado, observando o fogo com olhos perscrutadores.

Nenhum dos dois disse nada, aproveitando o silêncio confortável e mútuo.

Kai aprendera a gostar do homem, e tinha um respeito sublime por ele. Inevitável dizer que Naor também via Kai com bons olhos, afinal, estava estampado em seu rosto.

Mas Naor parecia inquieto…, e Kai notou.

— Há algo de errado? — perguntou o mais novo, erguendo a sobrancelha.

Naor não disse nada, limpando a garganta. Ele olhou para Kai de soslaio, analisando o rosto do jovem pálido e sério.

— Sim. — Disse, sem preâmbulos.

Ele se remexeu em seu canto, observando o fogo. Depois de um tempo, sua voz saiu sussurrante, melodiosa. 

— Quando no Entrelugar, eu possuo uma sensibilidade extra comum com qualquer um que esteja presente no ambiente.

Kai assentiu. Era por isso que ele conseguia notar quando a Voragem se mexia dentro de Kai, mesmo que numa frequência menor.

— E naquele momento da queda, houve uma coisa que eu notei.

Franzindo a testa, Kai se virou para ele, observando seu rosto. A queda tinha sido há dias, quando ele quase perdeu seu controle para a Voragem.

Uma sombra de dúvida passou pelo rosto de Kai.

— Naquele momento, nossa conexão se tornou muito maior… eu pude ter acesso à suas próprias emoções, pensamentos… dúvidas. Há muita coisa aí, que infelizmente é agravado por essa estranha habilidade sua de nunca esquecer de nada…

Kai franziu o cenho, se perguntando porque ele não havia dito nada. Não existia vergonha na voz de Naor, como se ele tivesse receio do rapaz se irritar. Isso não existia aqui, e Kai realmente entendeu que estavam sujeitos a tais empecilhos. Mas… havia algo mais no tom de Naor.

Ele suspirou.

— É uma maldição — disse Kai. — Um tempo atrás, enfrentei um… feiticeiro. Dores, momentos felizes, cicatrizes… tudo em mim arde como se tivesse acontecido a poucos segundos.

Ele tocou involuntariamente seu esterno, lembrando da dor de quando teve seu núcleo de mana destruído. Era uma coceira que não podia ser saciada por fora. Naor suspirou.

— Entendo porque diz que é uma maldição…, mas Kai, devemos também observar o lado bom das coisas… isso me parece muito bem uma benção.

Kai franziu a testa. Ele poderia dizer que Naor não sabia de nada, e falar sobre as milhões de coisas ruins que vieram disso…, mas Kai não faria isso, porque… porque, bem, não havia motivo para falar essas coisas. Afinal, Naor sabia. Ele sentiu.

— Essa habilidade pode lhe conferir uma memória fora do comum. Pense em boas lembranças, em bons momentos, e viva tudo isso com o êxtase vívido. Para todos os males há os prós, afinal.

Kai ponderou. Era realmente como Naor disse. Porém…

— Eu entendo que você se sinta inebriado por isso. Imagino que tenha boas memórias que se foram com o tempo e a idade… contudo, não é assim para mim.

Naor encarou o jovem, seus olhos dourados brilhando na sombra que a fogueira lançava. Kai, por sua vez, tinha uma feição cabisbaixa e distante. Um sorriso desprovido de graça surgiu em seu rosto.

Aos poucos, Naor notou o que Kai queria dizer. Não precisava ser um mestre da interpretação ou um leitor voraz de mentes para saber que Kai… era sozinho.

Mais do que isso. Ele não possuía momentos felizes em sua vida. Ela era um extenso campo de batalha.

Kai estava acostumado a ver morte, humilhação, ausência e indiferença, tudo desde muito pequeno. Aprendeu da pior maneira que nada de bom chegaria, a não ser que ele mesmo fosse atrás. No fim… como poderia buscar algo que nunca viu?

Refletindo sobre isso, Kai suspirou outra vez. Estava bem com isso.

— Não é um caminho que eu conheça. Não é um lugar que eu consiga chegar.

Naor arregalou os olhos, percebendo que tocara em um assunto delicado. Contudo, não disse nada.

Kai sorriu.

— Não fique assim, eu sei o que é felicidade, apenas nunca experienciei isso. Não tenho um lar para onde voltar. Aprendi a viver comigo mesmo e, querendo ou não, gosto disso, também. Pode não ser felicidade, mas é o que tenho, e é bom.

Naor abaixou a cabeça, as finas linhas de seu rosto brilhando levemente. Sua voz veio num sussurro.

— Certa vez, um sábio disse que lar é onde o coração está.

Kai suspirou, um ricto suave que fez sua feição parecer menos… tensa. Ele sorriu, seus olhos ficaram semicerrados por um breve momento.

— Você tem um lugar assim?

Naor suspirou, olhando para cima. Ele também sorriu. Era uma bela visão.

— Já tive.

Kai assentiu, sabendo que essas seriam as únicas palavras do homem. Mas seu rosto era como um claro lembrete, como se estivesse revivendo, ainda que de fragmentos, um tempo saudoso e cheio de graça.

— E como era?

Naor olhou para baixo e depois suspirou de novo.

— Magnífico. Foi… foi o melhor tempo em que já vivi.

Ambos ficaram quietos. Kai apreciou esse momento, esperando que um dia também pudesse olhar para trás com os mesmos olhos. Infelizmente, ele só tinha lembranças ruins e amargas.

Tudo que teve de bom não passou de mera ilusão.

Naor voltou seu olhar.

— Enfim. Acabamos nos desviando levemente da real conversa.

Kai franziu a testa, encarando o homem.

— Achei que fosse isso…

Naor negou.

— Não. Naquele momento em que tive acesso às suas memórias, havia algo… desconexo. Deve saber que não tive acesso a todas as suas lembranças porque isso é algo íntimo. Mas já presenciei as lembranças de outras pessoas, por vontade delas mesmas, e era diferente do que vi, como se as suas memórias fossem… falsas.

Um frio gelou sua espinha, e Kai sentiu seus dedos ficarem dormentes. Memórias… falsas?

— Foi um breve momento. Mas, Kai… tenho certeza.

Lutando para respirar fundo e manter a calma, um turbilhão de coisas passava pela mente de Kai.

Ele olhou bem sério para Naor, sentindo uma tensão abrupta lhe tomar. Havia também o gosto agridoce de quem… sabe.

— Que… memórias?

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora