Volume 2

Capítulo 117: O FUNDO QUE SOBE

Kai observou Naor se afastar e se sentar de sua maneira habitual, e os Esquecidos sentarem ao redor dele.

Um dos Esquecidos se mexeu, se aproximando do fogo. Era um jovem com a feição de um garoto de 15 ou 16 anos no máximo. Vestia roupas simples de cores suaves: cinza claro, areia e marfim.

O tecido parecia velho, gasto, remendado dezenas de vezes, parecendo atravessado pelo século. Seu manto era curto, caído aos ombros, grande demais para ele. Sua calça era justa e amarrada na canela com tiras de pano.

Seu rosto era suave, pele clara e olhos grandes cor de mel cristalizado, profundo demais para sua imagem jovem.

Havia, contudo, rugas discretas ao redor dos olhos… como se a idade tivesse desistido de acompanhá-lo. Seu cabelo era curto e desgrenhado, escuro como noite sem lua. 

Claro, era Ashvai, O Jovem Sem Fim. Ao contrário dos outros, ele não parecia perturbador… parecia fora do lugar…

Apesar da aparência enganosamente jovem, Kai sabia que Ashvai poderia ser mais velho que qualquer um ali. Sua expressão cansada entregava isso. 

Ashvai encarou o fogo por um longo tempo, e todos o encaravam, atentos como se pudesse começar a falar a qualquer momento. 

E, de fato, quando sua voz encontrou o tom certo – entre melodioso e crônico, o próprio mundo parecia querer ouvir sua fábula.

Seus olhos ganharam um novo tom de observação, nunca desviando do fogo.

— Dizem que todo esquecimento tem um guardião. Alguns o chamam de misericórdia; outros, de covardia. Eu, que já vi memórias pedirem para morrer, prefiro chamá-lo de mentira.

Kai levou um tempo refletindo sobre as palavras do Jovem sem Fim. Eram pesadas e cheias de um significado realmente profundo.

— Esta — continuou ele, pegando um enorme livro preso por uma tira de couro. Era tão antigo que tinha marcas de secura feito pergaminho. — é a história de um viajante que tentou enterrar suas lembranças num poço, acreditando que o fundo era longe o bastante para calar o que doía. Mas o poço… ah, o poço conhecia o nome dele.

Ashvai abriu o livro, e Kai observou seu braço direito, onde pequenas cicatrizes circulares se exigiam, como se fossem marcas de tempo queimado.

— Há quem acredite que lembrar seja o castigo. Tolice. O castigo é descobrir tarde demais por que você tentou esquecer.

Kai observou os outros Esquecidos. Naor tinha suas feições totalmente escurecidas. Liorah finalmente havia perdido o ar perdido de antes. Yegar abrira levemente os olhos, eles eram levemente cinzentos e foscos… nublados como cerâmica.

Os outros dois — Azbai e Mizrah – mantinham feições neutras. O primeiro tinha olhos completamente brancos, sem pupila. Ele parecia ter uma audição muito boa, pois inclinou levemente a cabeça para Kai.

A segunda, tinha o corpo marcado por cicatrizes queimadas, que não eram feias. Sua postura era ereta e firme; os cabelos longos, escuros e presos para trás. Seus olhos eram amarelo-âmbar, com um brilho constante, observando atentamente o Jovem Sem fim.

Kai suspirou, encarando-o também.

“Eu aprendi isso cedo, cedo até demais para alguém que ainda tropeçava na própria sombra. Desde então, vagueio por aí, anotando histórias que ninguém quer contar; porque algum tolo sempre insiste em desafiar aquilo que é mais velho que ele. E, naquela noite, quando o vento de Atom uivava como se tivesse dentes, encontrei mais um desses tolos caminhando até o Fundo que Sobe.

Ele não tinha nome. Ou, quem sabe, tivesse. Mas o havia deixado cair em alguma estrada do passado. Carregava apenas um saco tosco, e dentro dele, três objetos: um espelho rachado, uma pedra quente e um barbante curto.

— Quero esquecer — disse ele, sem rodeios.

Eu não respondi. Há pedidos que não merecem palavras.

A beira do poço estava fria como julgamento. O viajante respirou fundo, ergueu o espelho e o lançou no buraco. O objeto girou, sumiu, e o som demorou demais para voltar. Mas quando voltou… não era o som do impacto. Era o som da própria voz dele, mais jovem, dizendo a verdade que ele nunca dissera em voz alta.

O espelho subiu. Inteiro. Sem rachaduras. O viajante empalideceu.

— Isso não é meu.

— É exatamente seu — respondi.

Ele não desistiu. Jamais desistem na primeira tentativa… orgulho é um bicho insistente.

Pegou a pedra quente, que representava uma raiva velha, dessas que queimam apenas para provas que ainda existem. Jogou-a no poço. Desta vez, a água subiu até seus joelhos. E não subiu com calma; subiu com pressa, como se tivesse saudade dele.

A pedra voltou boiando, fria como arrependimento.

—Por que… por que ele devolve?

— Porque você não jogou para longe — murmurei. — jogou para dentro.

Veio, então, o último objeto.

O barbante curto. A memória que ele mais temia encarar. Ele hesitou, e isso sempre diz mais do que qualquer confissão. Quando o barbante caiu, o poço não devolveu nada — não água, nem eco, nem objeto. Apenas silêncio.

E esse silêncio, esse assassino paciente, o derrubou.

O viajante caiu.

Demorou para eu ouvi-lo atingir o fundo. Demorou mais ainda para o poço decidir o que fazer com ele. Mas o poço, ao contrário das pessoas, nunca tem pressa.

Quando o encontrei de novo, ele não estava morto. Estava sentado na água escura, diante de si mesmo… uma versão pequena, jovem, intacta, olhando-o com aquele tipo de decepção que só uma memória viva consegue ter.

Não ouvi o que conversaram. Não era conversa minha. E, de todo mundo… memórias falam baixo demais para meus ouvidos cansados.

Sei apenas que, quando o poço devolveu à superfície, ele não parecia leve.

Ninguém sai leve do fundo que sobe. Mas estava inteiro, e isso é mais raro do que se imagina.

Ele subiu a borda, respirando como quem reaprende o próprio corpo. Olhou para mim. Não agradeceu. Não pediu nada. Só disse:

— Eu não posso esquecer, posso?

Dei de ombros.

— Pode tentar.

— …E funciona?

— Nunca vi funcionar.

Ele riu. Um riso curto, o tipo de riso que nasce de vergonha e renasce como verdade.

E partiu.

Fiquei olhando sua silhueta desaparecer da névoa azulada. E deixei que o vento guardasse o resto da história. O poço… permaneceu em silêncio. Ele sempre fica em silêncio depois de devolver alguém.

Alguns lugares sabem mais do que deveriam.

Kai observou ele, com uma leve carranca de compreensão… Algo ficou em sua mente, martelando sem parar. Ninguém vence o poço. Ninguém sepulta a própria sombra. O máximo que se consegue é parar de correr. E, para alguns… isso já conta como vitória. 

Ashvai fechou o livro devagar, não como quem encerra uma história, mas um velório. O couro rangeu em protesto, acostumado demais a ser aberto e quase nunca a ser fechado. Ele pousou o volume sobre as pernas finas e respirou fundo, um som leve, quase partido.

— A maioria — murmurou, ainda encarando o fogo. — acha que o Fundo que Sobe é um lugar. Mas lugares não devolvem ninguém. Lugares não sabem nomes. Quem devolve… é aquilo que a pessoa pensa ter matado dentro de si. E isso, Kai Stone, nunca morre como deveria.

O silêncio que seguiu não era vazio. Era denso, vivo, cheio de sentidos que ninguém ali ousou traduzir. O fogo estalou, como se reagisse às palavras do Jovem Sem Fim.

Kai sentiu uma fisgada no peito. Não sabia se era memória, medo ou aquela energia adormecida — o parasita silencioso — esticando garras dentro dele. Talvez tudo ao mesmo tempo.

Ashvai, então, ergueu os olhos e o fitou. Pela primeira vez desde que começaram a falar, encarou Kai diretamente. E naquele momento… parecia muito menos um jovem garoto e muito mais um homem que já vivera civilizações inteiras.

Kai sentiu um leve déjà vu, como se aquilo tivesse acontecido… ou ainda fosse acontecer.

— Você — disse ele, sem elevar a voz. — é o tipo de tolo que o poço adora conhecer.

Kai estremeceu. Não de ofensa… ou raiva. Mas por reconhecer a precisão daquela frase. Ashvai inclinou a cabeça, estudando-o com a serenidade cruel de quem já viu centenas de versões do mesmo destino.

— Mas não hoje — completou. — O Fundo que Sobe espera. Memórias têm… fome, sim. Mas também paciência.

Ele voltou a olhar o fogo, e o mundo pareceu perder um pouco de sua cor por um instante.

— Só se lembre de uma coisa, Kai. O poço não aceita mentiras. Só aceita você… inteiro.

Os outros Esquecidos permaneceram imóveis, como se respeitassem junto com o fogo. Kai tentou responder, mas nenhuma palavra surgiu. Só sentiu a estranha certeza de que compreendera mais do que gostaria.

Ashvai fechou os olhos por um momento, e sua voz final foi quase um sussurro:

— E, quando chegar a hora, escolha bem o que deseja enterrar. Às vezes, o que você solta… volta segurando sua mão.

A fogueira estalou forte, como se marcasse um ponto final.

Kai respirou fundo. Pela primeira vez, não sabia se queria esquecer — ou já estava, sem perceber, sendo esquecido por partes de si mesmo.

E assim, o silêncio retomou o acampamento. Não o comum e conhecido silêncio… mas aquele observador. O paciente.

E, talvez, o Fundo que Sobe tivesse acabado de aprender um novo nome.

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