Volume 2
Capítulo 116: DEZ QUEDAS E UM SILÊNCIO
Nos dias seguintes, a queda veio de novo. E de novo. E mais uma vez. Cada puxão começava igual — o sopro quente na nuca, a curva do estômago, o puxão no peito… mas a forma como Kai reagia mudava. Ele não caía menos… mas caía melhor.
A Voragem empurrava. Kai cedia um centímetro… e firmava dois.
Na quinta queda, ele já sabia onde começava o tropeço. Na oitava, sentiu pela primeira vez que conseguia interromper a descida no meio. Na décima… a Voragem hesitou.
E naquele breve atraso — aquele único instante em que ela demorou para puxar — Kai percebeu que havia vencido a primeira aprendizagem.
Não a Voragem. A si mesmo.
Era a primeira vez, desde que chegara a Atom, que algo dentro dele parecia… alinhado. Não inteiro, mas encaixado o suficiente para que a rachadura não definisse o todo.
Ele respirou fundo, e o ar entrou sem resistência.
— Terminou — disse Naor, finalmente. — A primeira aprendizagem está completa.
Contudo, Kai não comemorou. Apenas fechou os olhos, sentindo o silêncio interno pela primeira vez em dias.
— E agora? — perguntou, a voz mais firme.
Naor o estudou por um longo instante, talvez mensurando algo invisível ao redor dele.
Havia algo de diferente no Esquecido. Antes, Kai sentia complacência em seu tom, até mesmo no modo como ele olhava para si… não, não tinha a ver com complacência.
Naor via algo que Kai sentia… ele sabia pelo que o jovem estava passando e, naquela época, seu tom e olhar era de pura pena. Talvez tenha visto muita gente ruir sob o mesmo destino de Kai… ou talvez tenha sido enxurrado com memórias próprias.
A questão era que não havia pena no olhar e no tom de Naor. Ele olhava para Kai com orgulho e felicidade… e essas eram coisas realmente genuínas no homem.
E Kai, por sua vez, percebendo em si mesmo a mudança que havia sido factual desde o momento em que ruiu, encontrou Naor e seus Esquecidos, e agora… não podia notar o homem com outro olhar senão o de admiração. Foi uma longa labuta, que dera frutos.
A primeira longa etapa, no entanto.
Naor sorriu.
— Por enquanto, vamos apenas retornar ao real.
Kai olhou para o homem por um longo minutos, ponderando mil e uma coisas. Havia uma pitada de curiosidade em seus olhos negros.
— Vamos… sair do Entrelugar…?
Ele estava surpreso. Kai estudou o rosto de Naor, que sorriu teatralmente. Isso era… provocação…?
Naor o encarou de volta e assentiu.
— Vamos… dar uma pausa no descanso.
***
Quando despertou de volta ao mundo real e longe do Entrelugar, havia uma diferença gritante, que quase escapou de Kai.
No Entrelugar, havia a sensação de estar… submerso, como se realmente fosse um sonho. Mas existe, também, aquela sensação igualmente real que, quando se está em um sonho, o cérebro prega uma peça, fazendo parecer que é a realidade.
Kai experimentou as duas coisas no Entrelugar. De volta ao real… era uma sensação alienígena, ainda que tão comum para quem quer que esteja desperto…
Naor parecia cansado enquanto se reuniam ao redor da fogueira. Ela estalava e soltava labaredas e línguas levemente azuis… como no sonho… Entrelugar.
A Tempestade Cisca rugia lá fora. Liorah, a jovem de rosto preocupado e afetado, lhes informou que haviam se passado três semanas… no calendário de Atom.
Kai ainda não sabia como era o tempo aqui em relação ao seu plano verdadeiro. Poderia ser que passasse extremamente lento, e lá, no mundo acima, apenas segundos, enquanto tudo se desenrolava aqui embaixo…
Também podia ser o contrário… aqui poderia ter se passado alguns meses desde sua chegada ao Plano de Atom, enquanto que em seu plano verdadeiro, anos…
Kai realmente nem se importava, isso era algo que resolveria depois. No momento, estava faminto.
Cheiro de carne grelhada escapava, fazendo sua barriga roncar. O tempero era igualmente cheiroso.
Uma tigela feita de areia endurecida foi entregue à Kai, bem como carne atravessada por um objeto fino e afiado. Havia também um copo com um líquido de cheiro forte… deveria ser a contraparte do álcool.
Ele deu uma mordida na carne, e uma protuberância de gostos inundou sua boca. Arregalando os olhos e sentindo o cheiro bom vindo da tigela, ele olhou bem dentro, observando um punhado de grãos úmidos e macios… era parecido com arroz.
Kai não perdeu tempo, colocando uma colherada disso na boca também… o gosto explodiu em sua língua, enviando sensações que ele nunca presenciara antes.
Talvez fosse o fato de ter passado muito tempo sem comer — Kai não comia realmente desde antes do duelo contra Kesel, o ministro verde-limão de Abeeku. Ele conseguiu ficar esse tempo todo sem se alimento muito, mantendo uma dieta rigorosa a base de grãos dados por Shaul, em seu exílio.
Contudo, provando algo tão bom, Kai que normalmente tinha modos, abandonou-os imediatamente, dando mordidas e engolindo sem mastigar.
Os estranhos Esquecidos — alguns deles ainda sendo bastante difíceis de encarar — observavam atentamente enquanto ele mastigava sem pensar no amanhã.
— Q-xixo…mufo… cososo…
Naor o olhou incrédulo, enquanto Liorah sorriu para ele. Ela era realmente gentil.
— Que bom que gostou, querido… tinha notado mesmo que tua alma estava levemente rachada… As duas coisas são o que sobraram de uma criatura Cisca… nosso querido Yegar ali, matou.
Kai, que parara de mastigar ao descobrir a origem da comida, arregalou os olhos levemente e encarou o homem cujo Liorah apontava. Era Yegar, o Mudo de Barro.
Usava os mesmos trapos que os outros. Tinha um corpo robusto, torso largo, e musculatura pesada. Sua pele parecia barro cozido… craqueado com rachaduras profundas. Seu rosto era queimado e deformado, dando-lhe uma aparência de estátua quebrada. Seus olhos estavam semicerrados, e ele olhava para Kai, fitando-o da cabeça aos pés.
Kai entendia como alguém assim matara uma Criatura Cisca. Contudo, ele estava mais atento às palavras de Liorah.
— …que durou três dias. — Prosseguiu a jovem. — Por fim, Yegar matou a criatura com suas próprias mãos — Kai lançou um olhar involuntário para as mãos do sujeito, acreditando na descrição da mulher. — deixando pó de barro por toda a criatura.
Ela suspirou, receosa.
— Foi um trabalho árduo, mas, graças aos céus, conseguimos conservar algumas partes de seu corpo. — Ela se mexeu levemente, os longos e brancos véus se movendo feito fumaça, nunca tocando suas pernas. — O intestino foi levemente cozido em mieri, uma especiaria do norte, e sua carne foi frita até perder as impurezas… com sorte, conseguimos manter as genitais, que são as partes mais gostosas…
Kai, por sua vez, engasgou no meio da explicação. Isso na tigela era o intestino, onde ficava… as bactérias patogênicas, os parasitas e suas toxinas…
Entalado, Kai lutou por ar enquanto seus olhos lacrimejavam. Acabou cuspindo tudo ao saber que a gostosa e suculenta carne nada mais era que… genitais de Criatura Cisca.
Soltando a tigela e a carne, Kai pegou rapidamente o copo, engolindo todo o líquido que desceu queimando, mas não totalmente alheio ao que a jovem dizia, num tom corriqueiro e agradável:
— … E o líquido é feito do suco gástrico de um Gnarian, uma carniça das regiões elevadas que consome carne pútrida. — Liorah bateu as mãos perdida em pensamentos, seus cordões com pequenas conchas de deserto vibrando levemente. — Felizmente, quando bem tratado, podemos diluir e sua conserva gera um bom líquido inebriante.
Kai já tinha bebido metade do negócio quando ouviu a explicação da mulher, cuspindo tudo fora e vomitando coisas que nem sabia que ainda estavam em seu estômago.
Naor riu enquanto Liorah se perdia em seus devaneios e Kai morria de indigestão.
Mais tarde, quando Kai prontamente viu que ainda havia um cantil de água em sua bolsa, não poupou nada. O gosto amargo do líquido ainda ardia em sua garganta. Ele prometeu a si mesmo que agora só comeria o que ele mesmo caçasse… nunca passou pela sua cabeça que sujeitos tão gentis seriam tão nojentos…
Quem bebia suco gástrico diluído e intestino cozido? Loucos… todos loucos…
Quando todos se saciaram e Kai manteve uma distância moderada de Liorah, receoso do que quer que a mulher lhe desse para comer, Naor se aproximou da fogueira, observando suas línguas azuis dançando.
Ele encarou o fogo por alguns momentos, então lançou um olhar gentil para Kai.
— Que acha de ouvir uma história, Kai Stone?
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