Volume 2
Capítulo 115: A PRIMEIRA RUPTURA
A luz se estreitou como uma pupila. Kai sentiu a bolha respirar com ele, lenta, pesada, paciente. A Voragem movia-se por dentro como sombra em água turva — não agressiva, mas inquieta.
Curiosa.
Naor aproximou-se alguns passos, mas ainda manteve distância.
— Hoje você aprende a reconhecer a intenção dela. Não a força.
Kai engoliu seco.
— Intenção?
Naor assentiu.
— Como eu disse, a força só aparece quando você já perdeu. A intenção aparece antes. E, se você a percebe… ela não tem como se esconder.
Kai fechou os olhos. A primeira sensação foi um puxão leve, como se uma linha invisível estivesse amarrada ao seu esterno. Depois, um calor úmido atrás do crânio.
Depois… silêncio. Mas não um silêncio vazio… um silêncio atento.
— Ela está esperando você se irritar — murmurou Naor. — Hoje, não dê isso a ela.
Kai respirou. Falhou na primeira tentativa, pois o ar parecia por si só querer fugir dele. Fazia dias que esse entrave permanecia.
Concentrar, sentir, dormência, sensação de afogamento, e uma enxurrada de sensações em uma sucessão incontida… Kai chegava ao limite. Ele bufou.
— Cara… isso é ridículo — murmurou. — Eu tô literalmente brigando com o meu próprio peito.
Naor parecia cansado, também. Fazia dias que nenhum dos dois dormia. Ele suspirou fundo.
— Não. — sua voz ecoou firme. — Está conversando com ele pela primeira vez.
Uma pontada subiu a espinha de Kai. O peso deslocou-se com pressa, como se irritado pela frase. Kai sentiu a mandíbula travar.
Naor o encarou, estático.
— Você sentiu isso? — perguntou o Sussurrante.
— Senti. — Kai assentiu, atordoado. — Ela… reagiu.
Naor suspirou, cruzando os braços.
— Reagiu porque você nomeou a sensação. Sempre que você dá forma ao que sente, ela perde um pouco da dela.
Kai abriu os olhos devagar.
— Isso foi uma queda?
— Não. — Naor inclinou a cabeça. — Foi a sua vez de fazê-la recuar.
Kai piscou, surpreso. E, pela primeira vez desde que acordara naquele entrelugar, a Voragem não se moveu para frente. Moveu-se… para trás. Como se avaliasse o novo formato do terreno.
Naor sorriu.
— Amanhã, você vai repetir isso. Mesmo cansado. Mesmo quebrado. Mesmo com medo.
Kai ficou em pé com dificuldade, o corpo tremendo como se tivesse corrido dias.
— E se eu errar?
— Você vai errar — disse Naor, com a sinceridade tranquila que já irritava Kai. — Mas cada erro vai te mostrar onde fica a porta por onde ela entra.
A luz diminuiu ainda mais. A fogueira atrás deles estalou, deixando apenas brasas azuis respirando como pequenos corações.
Kai sentiu o peso mover-se de novo. Mas dessa vez, ele o viu. Sentiu-o. Reconheceu-o. E isso, por si só, já era vitória.
***
Dias mais se passaram, Kai em sua labuta concisa e profunda, lutando com todas as suas forças para lidar com a Voragem Inominável.
Havia muitas coisas, contudo, que ele soube durante esse tempo.
Sua aproximação com Naor ganhou novos capítulos, enfim, e ele descobriu várias coisas sobre o sujeito.
O primeiro de tudo era que… o Entrelugar era uma habilidade de Naor. Com a ajuda de outro Esquecido, eles conduziram Kai à um sono profundo, inserindo a Bolha, que também era uma habilidade do líder dos Esquecidos, nesse sonho.
Assim, o mundo real não lidaria com as possíveis quebras de realidade do provável embate de Kai e a Voragem.
Por isso, eles podiam ficar dias incontáveis no Entrelugar. Claro, um preço era cobrado para manter essa habilidade em funcionamento…, mas Naor se recusou a falar sobre qualquer coisa que pudesse tirar o foco de Kai do principal objetivo.
E era por essa conexão com o Entrelugar, que Naor também era capaz de sentir, embora com menos força e propulsão, os movimentos da Voragem. Ela estava em seu domínio, afinal.
Por outro lado, contudo e infelizmente, uma das coisas que ia e vinha para alargar a curiosidade de Kai não foi respondida. Isto é, o passado de Naor e seus Esquecidos.
Kai também não era indelicado a ponto de perguntar. Nem sabia se tinha tempo para mais drama. Com certeza, cada um daqueles sujeitos tinha sua própria cota. Sem contar que ele sequer tinha interagido com o restante dos membros… saber da história de outras pessoas, ainda contada pela boca de um terceiro sujeito era uma tremenda falta de educação.
Apesar de o cansaço no Entrelugar ser sentido, coisas como sono, fome e sede eram totalmente inviáveis aqui.
Como Naor bem apresentou, o cansaço era puramente devido ao esforço mental e espiritual de combater algo tão voraz, insidioso e antigo.
No fim, Kai voltou a se concentrar em seu objetivo. Ele respirou pela metade. O ar voltou a pesar, como se o Entrelugar tivesse decidido estreitar ainda mais suas paredes invisíveis ao redor dele. A areia perdeu a cor. A luz vacilou.
Naor nem se moveu.
— Começou — disse apenas, a voz baixa, quase cansada.
Kai sentiu primeiro o estômago: um puxão pequeno, uma fisgada. Depois no peito. Depois atrás dos olhos.
A Voragem decidiu acordar.
Ele fechou os olhos, mas era inútil. A luz mudava de forma, não de presença. O peso se arrastou de um lado para outro dentro dele, como um animal tateando a própria toca.
— Observe — murmurou Naor.
Kai tentou. Céus, ele tentou. Mas não era como antes. Antes havia tropeços, lufadas, ondas curtas. Agora era uma mão inteira, fechando-se em torno do espírito dele.
— Está… forte demais — rosnou.
— Não está forte — corrigiu Naor. — Você que está perto.
Por fim, o puxão veio.
Um impacto seco — sem som — o arrancou do chão por dentro, como se seu corpo tivesse sido soltado de uma altura impossível. A areia cedeu sob seus pés; o mundo virou uma queda silenciosa, sem vento, sem direção. O chão se abriu em camadas de luz e poeira que se desfaziam antes de tocar qualquer coisa.
Kai tentou inspirar, mas o ar simplesmente não entrou. A Voragem o puxava. Não era fome… era a intenção.
Ele não se desesperou, mas tudo ocorreu rápido demais.
— Kai! — chamou Naor, firme.
Mas ele mal ouviu. Era isso que Naor temia. Era aqui que o perigo residia, novamente.
A consciência começou a escorregar, arrastada por algo que poderia ser ele mesmo, mas distorcido, rachado e multiplicado em milhares de versões que o encaravam sem olhos.
Por um único instante… ele viu.
Não uma criatura, nem um monstro ou uma linda e sexy mulher… Apenas uma fissura, fina, escura, pulsante… atravessando seu mundo interno como um corte feito com precisão cruel. Um olhar sem rosto.
Sua voz ecoou, intrépida, há muito esperando.
“Agora eu sei onde você quebra.”
Kai despencou.
O corpo cedeu, o peito repuxou, a garganta fechou. A queda parecia eterna; não era para baixo, era para dentro.
— Kai! — Naor insistiu, mais perto agora. — Segure-se!
Ele tentou agarrar algo, qualquer coisa. Mas não havia chão. Nem luz. Não havia nome.
A Voragem puxou mais forte. Kai vacilou. Ele quase foi… quase.
Até que a dor veio. Não a dor da queda. A dor da lembrança. Uma que ele nunca conseguiu esquecer — porque ele não podia esquecer nada.
Fioled chorando, a luz da lua artificial brilhando em seus negros cabelos trançados. O olhar de Siobhan quando percebeu o que tinha feito na vida dele e… ido embora. O silêncio frio das noites em que ele fingia dormir para não sentir.
A dor de crescer sozinho, isolado e afastado numa terra que sabia que não pertencia. Seus amigos em datas comemorativas com suas famílias, e ele observando como um espectador.
Dias sozinho na mata, lugar onde se sentia livre e bem consigo mesmo. Sua própria infância…
A rachadura dentro dele vibrou.
E Kai, num gesto quase instintivo, fixou-se nisso. Na dor que era dele. Na história que era dele. Em quem ele foi, mesmo quando não queria ter sido.
A queda diminuiu. A pressão recuou um centímetro. Depois dois. Depois mais. A respiração voltou em um tranco seco.
Kai caiu, mas dessa vez não no chão.
A areia se ergueu em torno de seus joelhos. Ele tossiu, arfou, apoiou as mãos no solo quente demais. A cabeça pulsava como um sino quebrado.
A Voragem recuou. Mas não era a derrota que ela sentia… era reconhecimento.
Naor se aproximou por fim, a sombra dele longa sobre a areia. Kai ergueu levemente o rosto.
— Isso… isso foi cair? — perguntou, a voz raspada.
— Foi — respondeu Naor. — E você não partiu.
Kai fechou os olhos. O peito ardia, mas estava inteiro. Inteiro… o suficiente.
Naor bateu com o cajado levemente no chão. A areia respondeu em um círculo suave, firme.
— Agora — disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. Sua especialidade. — Amanhã você aprende a levantar.
Kai ficou ajoelhado por longos segundos, respirando como se o ar estivesse sendo devolvido a ele à força. A areia ainda tremia sob seus dedos, mas a Voragem finalmente recuara, simplesmente porque ele não havia quebrado.
Ele levantou devagar. Não havia triunfo no movimento, apenas firmeza.
Os joelhos vacilaram na primeira tentativa, mas na segunda ele se pôs de pé. Era como se cada músculo do corpo tivesse sido desmontado e recolocado no lugar, torto, dolorido, mas funcional. E Naor, parado à sua frente, apenas assentiu.
Não houve elogio. Não houve explicação. Só o assentir. Porque Kai tinha entendido.
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