Volume 2

Capítulo 121: REDUZIDOS AO PÓ

Kai percebeu o chamado antes do mundo existir ao seu redor. Primeiro veio o som — um rumor distante, como pergaminhos sendo rasgados dentro da própria mente. Depois, a sensação de que respirava com pulmões que não eram seus.

O mundo suspirava junto com a tapeçaria de luz e areia. Cada partícula carregava lembrança e promessa, expandindo e contraindo-se em ondas suaves, como se Atom estivesse respirando em sincronia. Um segundo de silêncio bastava para perceber que não havia limites entre a visão e o próprio ser; cada exalação liberava dúvidas, cada inspiração enchiam-no de uma clareza quase dolorosa.

Quando a visão se abriu, não havia chão: apenas uma tapeçaria de luz e areia, tecida por mãos invisíveis.

A areia começou a se erguer, se juntando e formando um furacão. O processo parecia lento, mas era veloz, pois os Esquecidos eram sugados e devolvidos aos pequenos grãos de pó.

O deserto urrava e rugia como minúsculas engrenagens de uma máquina maior. Havia um rebuliço, e a tempestade aos poucos retrocedia, como se voltando no tempo.

O céu mudava de cor, nuvens pálidas da Tempestade Cisca voltando. O sol, antes pálido, se elevou, ganhando fagulhas brancas, diferentes do habitual amarelo que Kai estava tão acostumado.

Da areia se revolvendo e do tempo retrocedendo, o processo ganhou velocidade e força, devolvendo cor à um mundo pálido e sombrio.

O sol não era escaldante, e a pálida luz que cobria o mundo era quente e fria, úmida até. Os quilômetros e mais quilômetros de areia continuavam a se revirar e colidir, devolvendo o aspecto régio de tanto tempo atrás.

Sob os escombros de areia pútrida e oblíqua, o mundo se transformou em uma cacofonia de cores e beleza que exalavam saúde e prosperidade.

O tempo voltou para uma era muito antes de Kai existir, quando Atom prosperava e suas capitais eram o topo deste Plano.

As fundações de sua sociedade surgiram, sendo iluminado pela luz nova — não a do sol prateado, mas de algo que nascia das próprias construções.

As cidades eram como constelações encarnadas. Elas não brotavam da Terra: emergiam em harmonia com ela. Terras de linhas impossíveis erguiam-se em espirais suaves, como se a pedra tivesse aprendido a respirar. As paredes não eram lisas nem ásperas, mas compostas de camadas translúcidas, veios de cristal e metal pálido entrelaçados por runas silenciosas. Cada superfície refletia o mundo ao redor com delicadeza, como um espelho que escolhe o que revelar. 

Caminhar por Atom era caminhar sobre história viva: símbolos antigos deslizavam sob os pés, rearranjando-se lentamente, narrando feitos, eras e pactos esquecidos. As paredes falavam. Os templos lembravam. As pontes recordavam.

Seus edifícios não eram separados por função, mas por intenção. Bibliotecas se misturavam a observatórios. Jardins se entendiam sobre telhados e entre colunas, com árvores de folhas claras e troncos cristalinos, cujas raízes se entrelaçam com a própria fundação do reino. A água corria em canais suspensos, atravessando praças e varandas, nunca estagnada, sempre em movimento lento.

Em seu centro, erguiam-se Salões da Memória, onde a estranha engenharia celeste atingia sua forma mais elevada. As paredes não apenas exibiam o passado, permitiam senti-lo. Um toque elevava vozes, emoções, decisões antigas.

O ar era limpo demais para parecer real. Tinha o perfume da chuva que ainda não caiu e da pedra recém-talhada. Cada inspiração parecia renovar o corpo.

Fireas brilhava no centro, suas vias elevadas pulsando como veias de um corpo divino.

Em Umabel, as linhas do destino tremulavam como respirações profundas; sacerdotes e sibilas costuravam o futuro com dedos que brilhavam.

Mehiel dançava — cada passo um juramento antigo, cada giro um pacto com a própria sobrevivência.

Nemamiah erguia torres que tocavam o firmamento, e Naar-Ethriel cavava o ventre da terra em busca de respostas. Era belo demais para ser real. Era perfeito demais para durar.
Então vieram as pessoas.

Altos. Esbeltos. Régias por natureza, não por vestes. Suas peles refletiam tons prateados, às vezes azulados, às vezes dourados, como se a luz escolhesse repousar neles, mas refletia de maneira suave, jamais agressiva. Havia uma pureza mineral.

Os cabelos variavam entre branco-lunar, cinza-perolado e tons suaves de lilás e platina, sempre longos, sempre tratados com um cuidadoso ritual. Os olhos — ametistas, violeta profundo, lilás claro — carregavam uma serenidade que não vinha da ignorância. Era clareza.

Vestiam-se com tecidos leves e longos, mantos que reagiam à luz e ao movimento mudando de tonalidade conforme ângulo. Não havia ostentação — apenas dignidade. Mesmo os mais jovens carregavam uma gravidade serena, como quem cresce sabendo que faz parte de algo maior do que si mesmo.

Não era arrogância. Era segurança.

Vista à distância, a capital nascia do próprio mundo — não construída, mas revelada. As muralhas não eram muralhas: eram arcos contínuos de metal claro e pedra viva, curvando-se suavemente como se obedecessem a leis mais próximas da música do que da engenharia.

Elas se estendiam até onde a vista alcançava, não havendo ângulos brutos. Tudo fluía. Torres altas se erguiam em espirais lentas, refletindo a luz prateada do sol em tons de marfim, prata líquida e azul pálido, como se a cidade estivesse sempre envolta em um amanhecer eterno.

À noite, a cidade não escurecia. Seu tom mudava. As luzes tornavam-se mais suaves, azuladas, violetas profundas, como um céu refletido na terra. As torres brilhavam como constelações fixas, e o silêncio que se formava não era vazio — era reverente.

Estar em Atom era sentir que o mundo fazia sentido. Que o caos estava longe. Que tudo tinha um lugar — inclusive o futuro.

Era um reino onde a ciência, magia e fé não disputavam espaço. Conviviam. Onde profecias eram vistas como ciclos naturais, não como sentenças. Onde o amanhã não causava medo.

Atom não parecia eterna porque desafiava o tempo. Parecia eterna porque não precisava prová-lo.

E isso não era o começo: era apenas o início de uma longa e extensa terra populosa e próspera.

Uma a uma, cada capital se ergueu como um mausoléu esculpido do próprio éter — a energia da vida.

No centro de cada capital, erguiam-se colunas monumentais, longe de serem símbolo de poder, mas feito âncoras do mundo. Delas partiam linhas de luz invisível que se estendiam até o horizonte, conectando as cidades menores, campos férteis, observatórios, hospitais, academias. Atom não dominava — sustentava.

O céu acima parecia mais próximo. Constelações eram nítidas mesmo à luz do dia, e enormes instrumentos astrológicos flutuavam, girando lentamente, calibrando o tempo, as marés mágicas, os ciclos da vida. Sacerdotes do Areal observavam em silêncio, mãos mergulhadas em caixas de areia viva, sentindo futuros possíveis.

As capitais de Atom não eram apenas cidades, eram monumentos, feito a chama imperial da existência, servindo de ponto de conexão e a base da própria vida.

Todas eram imperiosas à sua maneira, existindo como a singularidade no tempo que foram. Ao longe, mais distante do toque crucial da revolução da vida, pequenas cidades — essas menos avançadas em termos de arte mecânica de espírito e abundância — se desenvolviam lentamente junto ao fluxo do tempo como um córrego lento às margens de um rio raso.

Aquelas eram cidades que lembravam. As paredes registravam histórias. As praças guardavam ecos de debates antigos, risos e juramentos. Tapeçarias de grãos vivos decoravam salões abertos, cada fio de areia rearranjando-se para contar eras inteiras: fundações, alianças, descobertas, ciclos enterrados sem tragédia.

A morte, apesar de ser bem vinda, não era temida. Pois não haviam mortes ruins — ninguém adoecia ou era morto por outro, pois eles eram elevados ao ponto de respeitar cada vida como singular e única. A centelha do ser era respeitada, portanto.

Assim, os povos viviam eras, e quando seus espíritos estavam cansados, se recolhiam aos salões espirituais, devolvendo sua própria existência ao areal.

Do pó ao pó.

E havia lugares onde as tapeçarias demoravam mais para responder; sombras onde o sol parecia hesitar. O ar carregava a memória da cidade, pulsando em respirações lentas que contavam histórias esquecidas. Eis como era Atom nos dias Antes da Queda.

Gerações se ergueram sobre si mesmas enquanto o tempo passou para Atom, em mil anos de uma vida próspera, régia e regada de resplendor. Dias que o mundo não via a cor do sangue, da raiva, do ódio ou da afetação.

Aqui termina o Tempo da Graça. Inicia-se o Tempo da Fenda.

Pois, contudo, esses dias estavam contados, pois uma centelha escura surgiu nas fundações profundas das cidades, começando como um galho fino e inofensivo, distante das capitais Luminosas. Se espreitava por entre as rachaduras minúsculas e impossíveis de serem vistas por este povo que escalonava em glória.

E quando este povo se distanciou cada vez mais, foi que algo… respirou errado.

Pequenas imperfeições surgiam: o dançarino de Mehiel errou um passo, e o movimento, antes perfeito, hesitou. Um profeta esqueceu uma palavra; a linha de destino perdeu um fio de brilho, e a água de Umabel tornou-se turva por um instante. Pequenos ecos de ausência atravessavam a cidade, quase imperceptíveis, mas suficientes para deixar uma sombra nos corações atentos.

Uma tapeçaria se desfazendo no ar. Um sacerdote engasgando em silêncio, incapaz de lembrar a própria profecia.

Não era destruição. Era pior. Era a sensação de que o mundo havia percebido, tarde demais, que estava sendo observado.  A primeira queda de Atom não foi uma guerra, mas um esquecimento.

O vento uivava e lambia as cidades com a promessa de algo hediondo se aproximando.

Enquanto isso, — e apesar disso — o povo prosperou mais e mais, se elevando tais como deuses, seus corpos ficando, com o passar do tempo, mais resistentes. Não havia tantas mortes, e não havia pobreza, nem tristeza… mas o galho crescera, atraído pela felicidade incólume.

Ele era alimentado pela voracidade da existência, surgindo como corrupção, consumindo tudo pela frente.

Então após a nona geração nascida sob o sol pálido, cidades pequenas e distantes passaram a ser consumidas. Não se sabe onde onde caiu a primeira chama. Alguns afirmam ter sido em uma das cidades de Umabel, onde a chuva caía em abundância e regava bem as colheitas. Desses, não restou descendência.

A União, como era chamado o conselho de líderes das seis capitais, se reuniu sob o aviso perspicaz de seus melhores estudiosos… de que algo havia despertado. Ela não demorou para que percebesse e identificasse o problema.

Houve uma comoção. Uma junta de pessoas guiadas e intencionadas à resolver isso.

Estudantes e astrólogos, magos e feiticeiros, guerreiros e reis; todos trabalhando juntos para lidar com a crescente profanação que degradava suas terras distantes, lenta e paciente.

Essa distorção, contudo, não destruía apenas suas terras férteis e adoecia seu povo. Ela plantava algo vil em seus corações: medo, dúvida e anseio.

O anseio poderia ser bom, mas se somado ao desconhecido, se tornava causador da ruína.

E foi o que aconteceu quando essa degradação não pôde ser contida. Ela escalou rápido demais, lambendo as bordas mais próximas das Grandes Capitais. O povo sabia que algo estava errado.

O medo se infiltrava nas capitais, e o povo se dividia entre os que escondiam o pouco que tinham e os que ansiavam por tudo. A União, outrora símbolo de cooperação, não podia mais conter a voracidade da destruição.

A União, antes criada com o propósito de tornar os problemas mais fáceis de lidar, entrou em contenda.

Os líderes das capitais observavam a corrupção com medo, temerosos. Pois, afinal, grande parte das cidades que eram tão provedoras das capitais, haviam caído em desgraça, e não havia uma resolução aparente.

O povo, vendo essas quedas e percebendo que muito poucas cidades restavam cada vez menos, entrou em polvorosa. Isso causou discórdia naqueles que não faziam parte da nobreza, e mais cidades ruíram diante da infecção.

A queda não começou com gritos. Começou com esquecimento. Tapeçarias se desfizeram de dentro para fora, expulsando fios como vísceras luminosas. A dança virou convulsão.

Os profetas abriram os olhos — e estavam cegos.

As águas de Umabel subiam aos céus em vez de cair, e o brilho das linhas do destino evaporava-se em névoa. As danças de Mehiel, antes proteção viva, desenhavam sigilos vermelhos sobre a terra, e cada passo espalhava violência involuntária. O céu de Fireas se partia em retalhos, como vitrais derretidos, e as torres de Nemamiah tombavam silenciosas, despejando cristais quebrados sobre os caminhos.

Naar-Ethriel afundou na própria mineração, como se o solo tivesse decidido devorá-los.

Doenças assolaram Atom, e o povo se revoltou mais. O medo fazia isso com as pessoas. Agora não havia tanta água e comida, e a nobreza racionava esses produtos para os povos do centro de seu reino… deixando aqueles distantes perecerem ao léu. Fireas continuava enquanto as pequenas cidades eram lentamente execradas.

A degeneração mexeu com a mente dos Atonianos, antes cheios de graça e bondade; eles usaram suas técnicas de dança para guerrear, para destruir, brigar e saquear os bens dos outros, que não queriam dividir diante da depressão e da crise.

O povo tão unido se partiu em dois, divididos naqueles que escondiam o pouco que tinham… e naqueles que não tinham nada e queriam consumir o que restava.

No fim, a União se desfez. As capitais já não eram mais amistosas entre si.

Guerras irromperam e o reino de Atom, tão régio e esguio durante éons… se partiu. Suas terras eram feias, seu sol não brilhava mais — como se diretamente afetado pela doença de sua terra — e seus solos férteis cheiravam à sangue. Pois em meio à isso, a primeira morte por assassinato de Atom, aconteceu. E não parou por aí.

A doença também ceifou vidas. E a corrupção se alimentou do ódio também, nunca distinguindo ou discriminando sentimentos.

Em meio à isso tudo, profecias eram proferidas enquanto os poucos cientólogos que restaram tentavam combater a escuridão que também se apossara de seus espíritos.

Mesmo diante dessas conflagrações, as capitais permaneceram como farois. Distantes, mas como ornamentos diante da perdição.

Havia quem não perdesse a fé. A esperança. A bondade. As casas nobres das capitais se juntaram, formando uma aliança única e responsável, visando tentar combater a origem do problema. 

Mesmo sem a União, e com parte da nobreza intrigando entre si, um pequeno e seleto grupo não perdeu de vista os valores culturais de Atom; aquilo que uma vez a fizera grande.

Assim, uma corte se juntou com os melhores guerreiros e pensadores de todas as capitais. E eles tinham uma única missão em mente. 

Entrementes, havia antigos oráculos que temiam que o salvador viesse do mesmo lugar que a queda. E, quando as esperanças pareciam perdidas — pois o povo de fé estava temeroso em perder seus líderes.

Um jovem surgiu, nem escolhido, nem celebrado. Sua chegada trouxe tensão: esperança e temor entrelaçados, um lembrete de que o equilíbrio não era dado, mas tolerado. Ele não comandava com palavras nem proclamava destino; simplesmente existia no limiar, e sua presença modificava o ritmo do mundo.

Pois sua chegada — despertando tanto curiosidade quanto uma tranquilidade de novos ares —, veio acompanhada de uma profecia, que o apontava como modificador de marés.

Apesar da corte ter sido fundada com um objetivo em mente, ela era valiosa demais para se perder, e seus lideres temiam que a última frente poderosa capaz de unir novamente as capitais, ruísse.

Foi, portanto, que o jovem assumiu o papel da corte nobre, partindo numa missão junto a três companheiros.

Dele se esperava salvação. Dele se temia a vitória.

O jovem seguiu para a terra distante, lidando com as criaturas vis que nasciam da terra morta e corrompida. Ele exterminou junto de sua trupe, cada prole hedionda e maculada pela escuridão corrupta, nunca sendo atingido por ela.

Pois ele era como uma brasa na escuridão, iluminando o caminho de seus seguidores. Nada sobrevivia ao frio aço de sua lâmina e a dos seus. Cada um mais mortal do que o outro.

Enquanto eles se aprofundaram na escuridão distante, anos se passaram, a guerra se aprofundava no restante do reino.

As vias elevadas de Tribeas permaneceram intactas, mas ninguém mais as cruzava. Celeiros cheios apodreceram enquanto vilas distantes silenciavam. A colheita continuou — não para alimentar, mas para sustentar a fome de um império que aprendera a escolher quem merecia viver.

Em Umabel, as tapeçarias apenas cessaram. Fios do destino se romperam no meio do traçado, profecias ficaram suspensas, incompletas, e as sibilas passaram a ouvir apenas eco. O futuro deixou de responder, e o silêncio foi mais aterrador do que qualquer grito.

Mehiel transformou sua dança da vida em massacre. A dança da vida, criada para proteger, tornou-se linguagem de terror. Passos sagrados abriram caminhos de sangue, e aqueles que juraram defender o povo aprenderam a feri-lo com precisão perfeita. Atom não foi atacada ali — foi profanada.

A corte fazia de tudo para evitar isso, mas era irascível com o tempo que lhes restara.

Mais alguns anos se foram, mas o jovem e sua trupe finalmente chegaram ao estuário de sua infecção; ele percebeu algo que mudaria o destino do mundo de Atom para sempre.

Pois no fim, o jovem… agora um homem depois de tanto tempo combatendo a degradação vil, conseguiu eliminar a foz de todos os problemas. Alguns negam que o céu tenha se partido neste momento.

Logo, ele e seus fiéis seguidores, refizeram seu caminho até Atom, restaurando lentamente aquelas cidades pequenas e mais devastadas pela escuridão corrupta, deixando poucos sinais de sua presença, presentes que um dia seriam bem usados.

Mas a “cura” que trouxe não era limpa. Cada gesto de restauração carregava um toque de avareza; cada cidade reconstruída escondia sementes de ambição que germinariam.

O poder, absorvido e manipulado, tornava-se sombra dentro do salvador, sugerindo que a redenção seria também a ruína de quem nele depositasse fé. Pequenos sinais surgiam, sutis, como prenúncios do que ainda estava por vir.

Ao retornar, quase duas décadas depois, o homem foi ovacionado, assim como sua corte. Eram os heróis da nova era, os deuses do novo mundo. Os destruidores da maldade que devastou essas terras por anos e anos.

Muitas cidades haviam caído, e metade das capitais havia perecido, restando apenas ecos da memória em suas praças vazias e desoladas.

Havia, contudo, algo de diferente… e algo mudaria daquele dia em diante.

Pois aquela profecia dizia que este homem mudaria o rumo de tudo. De fato, mudou…

…Para pior.

Pois o que ele viu no estuário da doença, tantos anos antes, também lhe causou anseio. Lhe causou avareza. Ganância. Ele viu a fonte do poder, consumindo tudo e a todos, e também foi consumido… em partes.

Sentindo o poder que emanava, e sem nada o impedindo…

O homem tomou a profanação para si, tornando-se ele mesmo corrupto, vil e escuro. Pois ele já era desdenhoso e mesquinho. Ele já era ganancioso. Antes, ele queria fama, poder, riquezas… nascera um homem assim, de fato, neste mundo incorrupto e livre de vaidades… ele era o primeiro filho da corrupção nesta nova era, e nada mais justo do que ele ser o receptáculo mor de sua vil obscuridade.

E ele queria esta terra para ele também. Ele era voraz e voluptuoso, e possuía uma fome insaciável por mais.

O homem queria ser rei… e foi negado. Portanto, ele devastou Fireas — a última capital restante que suportava o peso de duas décadas em  decadência — com suas próprias mãos. Afinal, ele queria ser seu Deus… mas nunca poderia ser seu rei.

Ora! Um Deus não era mais que um rei? E um Imperador, que tal?

Ele e sua trupe devastaram a corte nobre que, lá atrás, se reuniu para eles mesmo combaterem a profanação. Não sobrou nada. 

O homem… tomou o que era seu por direito, mais uma vez, e ninguém pôde se opor. Cidades ruíram, pessoas pereceram, vidas foram ceifadas. A maldade ganhou novos tons. Mais desgraça. 

Ele havia deixado sua centelha de escuridão nas cidades distantes, e assim surgiram guerreiros disformes que possuíram o povo fraco que resistiu a primeira onda de distorção. Escravos. Doentes. Vis. Kawa Kale.

Em Fireas, havia um pavimento inteiro que guardava não apenas o que passou, mas o que estava sendo escrito, entrelaçado por uma tecno-magia criada pelos cientistas da magia. Grãos de areia se moldavam como tapeçarias, conectando o destino de todos os seres com o grande fluxo das constelações, que fluíam como rios invisíveis.

Centelhas de pura imaginação se derramavam para os salões, onde cada pedra, cada coluna, cada teto, se fazia vivo, contando histórias. Cada vida, cada gesto, estava gravado ali. Nenhum ser era esquecido. Nenhum destino escapava.

E tudo foi perdido. A destruição chegou sem aviso, lenta como a neblina da manhã. Os homens, filhos de gerações passadas, tentaram proteger o que restava... e falharam. As paredes, que guardavam o curso de milênios, desabaram, engolindo o saber, a memória, a essência de uma era que não voltaria.

Os tetos ruíram sobre eles, soterrando os últimos defensores, aqueles que ainda acreditavam que poderiam salvar algo que já estava perdido.

O Salão do Esquecimento — o último vestígio da memória viva de Fireas — desapareceu para sempre. E não havia mais quem se lembrasse de sua existência.

Muitos morreram… as cidades colapsaram em meio à destruição lançada, eclodindo e erodindo sobre o povo… aqueles fracos demais para viver e doentes demais para morrer… permaneceram em um limbo de quase morte.

Então as capitais — ou aquilo que restou delas — foram consumidas.

Tribeas ruiu depois de Fireas. Fogo lambeu tudo e a todos, os poucos postos de sobreviventes sendo imediatamente incinerados.

Umabel seguiu, as linhas do destino se partiram como fios molhados; os profetas abriam a boca e engasgavam em silêncio.

De Mehiel e seus poucos sobreviventes, não restara nenhum. O seguidor fiel de Abeeku reduziu-a aos escombros, trazendo destruição para suas vias antes cheias de vida. Nada sobrou de Nemamiah, nem mesmo os celeiros.

Apenas uma… que construiu meios de alçar sua existência aos céus, saiu ilesa de seu toque. Naar-Ethriel e suas cento e vinte e seis cidades, todas conectadas às pontes de arcos cristalinos, fixaram-se próximo do firmamento.

No fim, não sobrou nada… nem lembrança, nem memória, nem praças ou bibliotecas. Apenas ruínas, doenças, alquebrados e construções tornadas ao pó.

O homem, responsável por devastar os resistentes, deixou o centro de Atom, largando para trás o antigo reino sob uma constante Tempestade, formada pela devastação das erosões de seu platô.

Ele partiu para longe, distante das gavinhas obscuras do estuário vil… os escombros… deixando uma terra morta, devastada, sem povo, sem perspectiva.

Abeeku formou seu império sobre dor, sangue, esperança, anseio e medo. E tudo de fato foi mudado… por ele.

Kai observou isso tudo de uma forma incorpórea, saboreando um misto de tantas coisas que não era capaz de entender a todas.

E os olhos de Kai refletiram um mundo que não existia mais, mas que exigia dele um preço. Ele observava sem intervir, percebendo cidades que respiravam apenas como lembranças, pessoas cujas memórias se mantinham vivas apenas no eco do tempo, e a dança silenciosa da vida e da destruição que continuava, mesmo sem testemunhas.

A visão se fechou como um punho, esmagando-o de volta ao próprio corpo. Ele caiu em si mesmo como quem retorna de um abismo. Os olhos viram o presente; o coração permaneceu preso no passado.

Ele não deveria lembrar tão claramente — mas lembrava. Cada capital, cada queda, cada grito silencioso. A memória se alojou nele como uma segunda alma. E, ao erguer o olhar, Kai entendeu: a Queda de Atom não terminara ali. Terminaria nele.

No fim, houve um rebuliço em seu estômago, ele ficou zonzo e foi cuspido para fora da visão. 

Mas isso fora há muito, muito tempo…

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