Volume 2

Capítulo 104: O SALÃO DA SIBILA

Kai, vertido em memórias de uma criança chamada Onaé, observava-a agora parada num lamento. A garota sobrevivera à primeira provação de uma desconhecida Ordem de mulheres e somente isso. O Chamado da Névoa.

Onaé sobreviveu durante dias, semanas, na selva, sozinha, abandonada até mesmo pelo único sopro que ela achava estar com ela… a Névoa.

E quando as esperanças pareciam vazar feito orvalho ao sol, a Névoa mostrou a ela que poderia sim contar com ela. Onaé não mais estava sozinha, e agora se encaminhava para o segundo rito de passagem.

O Banho das Raízes Negras.

Onaé era uma Enluarada, aspirantes que desejavam entrar formalmente nesta Ordem.

Aqui, vivia num lar doentio, mas acolhedor, onde todo dia era posta à prova. Ela passou por provações físicas, como andar sobre brasa, ser privada de sono e sustentar o corpo de outra menina caída.

Aqui não havia tempo para desespero, ainda que algo queimasse no ventre de Onaé. No peito, ainda rugia aquela doce e lânguida fagulha, o riso de liberdade.

A Filha do que não Volta viu crianças falharem aqui. E elas foram queimadas por isso.

Enquanto recebia os treinamentos através das Círicas – mulheres fortes e marcadas por terem sobrevivido à dor total, que às treinavam acerca de tudo, Onaé vertia os pensamentos em lembranças da vida que deixara para trás, lembrando da visão que teve das mulheres no dia de sua iniciação.

E quando a Círica Kaen decidiu que ela estava pronta, Onaé se preparou.

Era fácil, para Kai, se esquecer de que isso se tratava de uma memória, pois para ele era como uma vida inteira sendo vivida, pensada e mostrada, principalmente. Mas as memórias passavam feito flash, e ele simplesmente tomava conhecimento acerca dos nomes e de tudo. Tudo ia e vinha num instante, como água ondulando.

No dia do segundo rito, duas velhas mulheres conduziram-na a um pântano raso, envolto por troncos ocos e cipós vivos que se moviam como se respirassem. Tudo aqui passava essa sombria sensação de vida.

A água era espessa, escura como tinta de luto, o odor lembrava ferro, mofo e leite estragado. Aqui, raízes negras cresciam, tortas, cobertas por veios pulsantes, sussurrando em línguas antigas.

Onaé se despiu, e afundou as mãos e os pés no lodo até sentir as raízes se enroscarem em sua carne.

Quando o contato foi feito, a dor irradiou. Kai também a sentiu, mas com mais leveza do que a menina deve ter sentido, pois ela gritava… ele gritava.

Não era dor física, mas ancestral. Memórias que não eram dela invadiram seus olhos, assim como as que ela tentava esquecer.

Sua primeira visão foi com sua mãe. Onaé viu seu rosto, sujo de cinzas, chamando por ela à beira da vila, enquanto soldados marchavam para dentro de casas. A menina queria voltar. Mas a Névoa não permitiu.

Kai observava tudo. Sentia a água, a dor, o frio, mesmo sem estar ali. Era como se vivesse cada fragmento. E viu: 

Uma menina. Suja de sangue. Carregando o corpo de uma irmã. Os olhos da morta estavam abertos — vazios. A boca, aberta num último grito sem som. 

Um doce sussurro ungiu seus ouvidos:

“Você a ouviu… e mesmo assim virou as costas.”

Tudo acabou mais rápido do que começou. Uma segunda visão teve início.

Onaé via a si mesma, anos mais velha, estava de joelhos, nua, diante de três sombras — as Filhas da Névoa —com olhos fundos e mãos manchadas de sangue. Estava sozinha, em um campo de corpos, cantando uma bela canção de ninar. Cada uma lhe ofereceu uma escolha:

A primeira: uma lâmina. 

A segunda: uma venda.

A terceira: um espelho. 

Onaé escolheu a venda. 

A voz de Kai saiu num sussurro… mas não era dele:

— Eu não queria ver mais ninguém morrendo.

Sua terceira visão foi a pior: Uma menina desconhecida, cercada por chamas, olhava para ela e sorria. Seu sorriso tinha dentes faltando. Então sussurrou:

“Eu também via névoa… mas fui fraca. Você será forte por nós duas?”

Quando isso acabou, Onaé viu a si mesma na água, queimando, os olhos vazios, e um símbolo negro marcado sobre sua língua.

Ela gritava, mas não se movia. Mesmo com o sangue escorrendo de seus pés, Onaé permaneceu, mordendo a dor. As mulheres observavam à distância. Resolutas. Uma dela era mortalmente séria, enquanto a outra, sorriu.

Então isso passou, Onaé retirando os membros do pântano, a carne marcada com linhas que, no dia seguinte, passaram a se mover sob sua pele, como se a própria névoa estivesse dentro dela.

Então a memória ondulou, e Onaé agora sorria, feliz por entrar na Ordem… ela ganhou um novo nome, um símbolo da névoa pintado em sua pele com pigmentos naturais.

Mais memórias ondulando, como se submerso em água.

Uma neblina caía pesada, espessa como véu de luto, encobrindo ao redor de uma clareira. A terra sob os pés era encharcada, respirando névoa como um ser vivo. Em seu centro, uma árvore – contorcida, escura, com galhos como braços de viúva.

Era dito que jamais florescera, jamais perdera flores. Uma árvore feita para carregar segredos.

Onaé – não mais menina, não ainda mulher – ajoelhou-se diante do tronco. A pele suja. As mãos trêmulas. Os olhos, já meio vazios de tudo que antes a preenchia.

Ao redor, em silêncio absoluto, haviam mulheres – chamadas Tece-sombras e Círicas – envoltas em mantos ondulantes, cinzentos e opacos como a própria névoa. Nenhuma palavra fora dita desde que ela adentrara o círculo.

Uma Círica se aproximou com um bastão de galho seco. Tocou-lhe os ombros, uma vez à esquerda, outra à direita.

Mais silêncio.

Então a Tece-sombra mais antiga, uma Venerável Mãe, parecida feita de sombra e cheirando musgo, falou:

– Dize. Dize o que vieste esquecer.

A voz de Onaé saiu num sopro:

– Meu nome.

– Dize o que vieste prometer.

– Que não serei ouvida fora da névoa. Que não chorarei sozinha. Que não trairei as sombras que me protegerem. Que serei espinho nas palavras dos homens e raiz entre as irmãs.

Então a árvore gemeu. Um som surdo, como um lamento vindo do chão.

A voz veio, portanto – não de mulher, nem de bicho. Algo que parecia ter sido esquecido por séculos dentro da névoa:

– Tua língua se despede. Teu nome será sussurrado, e te corroerá com cinza viva. Levanta-te, filha do vento oculto. Agora tu és: Veela.

O corpo de Onaé – agora Veela – arquejou. A névoa apertou seu peito como um juramento físico. As Círicas começaram a andar em círculo, cantando baixo, em uma língua que apenas o pântano entendia. A árvore inclinou-se imperceptivelmente, como se reconhecesse nela o peso da maldição. 

Ali, no coração de tudo que era esquecido, Veela renascia. E ninguém, jamais, voltaria a chamá-la de Onaé. 

Mais memórias voando ao vento, e agora Veela sentava-se à beira do espelho de névoa, um lago que não refletia rostos, apenas intenções. Era noite, mas entre as Filhas da Névoa, isso não dizia nada — o tempo ali parecia dormir com os olhos abertos. 

Kai observa quieto, sem poder fazer muito. Às vezes na condição de Veela, às vezes assistindo de longe. Mas um sentimento pulsava em seu peito. Uma suspeita mortal. E se essa não fosse a memória de uma vítima…? 

Veela tocou os dentes com a ponta do dedo. Ainda ardia a gengiva onde fora entalhada a marca. 

Após o Juramento da Névoa, as Filhas das Névoas mais velhas – Círicas, realizavam o ritual de marcação. Com um feitiço especial, elas entalharam um símbolo arcano nas gengivas da nova irmã – uma marca invisível para olhos comuns, mas visível apenas para… bruxas. Essa marca emitia uma aura fraca, ligada à névoa viva, e era o sinal visível de sua integração. 

Toda vez que seu pensamento fugia para o mundo que deixara, a marca queimava, como se dissesse: não fujas. 

Ao seu lado, as Círicas ensinavam meninas a cantar com a garganta firme e o olhar sem lágrimas. Veela não falava com nenhuma delas. Ainda era recente. Ainda era corpo estranho. 

Mas à noite, ela sonhava com a voz. Aquela voz que a árvore sussurrava dentro dela. 

“Agora tu és: Veela.”

Era uma voz impossível de ser imitada. Nem desobedecida.

Um dia ela perguntaria à uma Tece-Sombra, uma Venerável Mãe, o que significava seu novo nome. E a resposta viria como ferro: 

— Veela é a bruxa que não esquece. A que caminha sabendo. A que não é perdoada. 

Veela teve noites ruins por semanas. 

Mas as memórias ainda não tinham acabado. Kai sentia a água da memória escorrer por seus pés. Ele está letárgico, acompanhando tudo de modo que seus pensamentos dão voltas, rápidos, associando tudo. Ele mantém para si a ideia de que esta memória é conveniente. E ele entende. Mas tudo se encaminha para um fim derradeiro. 

Havia um pântano iluminado por fungos azuis. Meninas de véu escuro dançando em círculos ao redor de um lago de névoa. Uma delas — não mais Onaé… Veela, dançava de olhos abertos, mesmo quando as outras tremiam. Agora ela tinha doze.

Seus corpos pareciam pincéis pintando o escuro. Os pés de Onaé sangravam nos degraus, mas ela permaneceu a dançar — porque isso que a dor exige. Sua sombra se estendeu mais que as outras. Uma das anciãs a observou em silêncio.

Houve um sussurro: “Ela escuta o que nem a névoa quer contar”

Um toque de orgulho na voz de uma Acólita. Nessa noite, marcaram sua fronte com brasa negra do primeiro rito: A que dança no escuro sem se perder. 

Depois, a imagem tremeu. A água do lago borbulhou. Uma das meninas caiu. Ninguém pra socorrer. 

Um tremeluzir, Kai forçou a vista. 

Goteiras de névoa escorriam pelas pedras. Um cubículo escuro. Veela, jovem e de joelhos, com as orelhas seladas por fios prateados. Mais um rito. Agora o do Eco. 

Não mais menina. Uma jovem.

Ela trazia oferendas de sangue para salões silenciosos. Viu a morte de perto pela segunda vez — uma praga atingiu parte da irmandade. Ajoelhada entre as moribundas, uma Venerável lhe tocou a cabeça. 

— Você não fugiu da dor. Você a escutou. Então, agora, você escutará a todas.

E ela fora nomeada. Uma Sussurrante das Profundezas. Uma Acólita. Jurou nunca negar abrigo a um espírito perdido.

Ela tremeu. Escutou vozes antigas em sua mente. Estava em silêncio absoluto há cinco dias. As vozes a cercavam como cardumes de assombros. Precisava atravessar a sala dos lamentos — um corredor de espelhos que mostram não o passado, mas o que poderia ter sido. Lá, via-se filhos que nunca teria, amantes que jamais conheceu, finais felizes que não seus. 

Veela sangrou pelos olhos. Mas não recuou. Ao fim, recebeu um manto da cor de seus olhos: prateado. E a reboque, o título de Lamentadora — as que carregam o peso dos que não podem mais lembrar.

Outra ondulação. A árvore de pele queimada piscou na sua memória, como se sua casca fosse de carne viva. Uma lâmina brilhou. Um nome foi retirado de sua própria gengiva. Dor. Sangue. 

O véu foi entregue. Ela respirou fundo — soltou um som inumano. Um lamento que fez a árvore curvar-se. 

Sons inebriantes, rápidos demais e dissociados demais. Ela já era velha. Não o bastante. Mas uma Lamentadora. A mais jovem dentre elas. A mais letal e mais poderosa.  

Seu dom era raro: podia plantar sonhos em outras mulheres. Não como ilusões, mas como sementes de força, liberdade e ruptura. Mas a dor a alcançou cedo demais. 

Veela entrava na mente de homens, controlandos, sendo a espinha para eles. Ela verteu povos ao seu bel-prazer, e trouxe paz a terras há muito perdidas. 

E com seu dom, podia plantar sonhos de um futuro promissor no sonho de aspirantes, Enluaradas como ela já fora um dia. 

Numa noite de lua nova, a Névoa viva se enrolava no seu corpo nu. As Sussurrantes cantavam. A Marca da Névoa surgiu em sua pele, brilhando como uma constelação morta. Ela sorriu. Ela passa a ser conduzida ao centro do círculo das Tece-Sombras. Cada passo que dá sobre o chão enegrecido, runas são tecidas. No fim da travessia, recebe um Véu Negro, bordado à mão por Três Anciãs. 

Uma espiral de madrepérola negra foi colocada contra seu peito. Ela a escutou. É como uma concha. 

Sons que jamais havia ouvido saem: os pensamentos da Névoa, os sussurros do tempo, vozes que não pertencem a nenhum mundo. Ela chorou. Mas se ergueu e aceitou. 

As Veneráveis se curvaram. Pela primeira vez, tinha poder o suficiente — não só para proteger, não só para plantar sonhos, mas para mudar tudo. 

Uma Venerável tocou seu ombro. 

— Você ouvirá demais. Cuidado com o que se cala.

Então havia fogo. Sangue. A memória ondulou tão logo chegou. Crianças gritavam. Tropas com o emblema de uma organização qualquer. O céu estava em chamas. 

O chão coberto por corpos. Veela corria entre casas de palha. Soldados da tropa empunhavam foices arcanas. Uma menina morreu ao seu lado. Outra foi arrastada pelos cabelos.

Veela entrava nas mentes de quantos conseguisse, mas era muito até para ela, e a Névoa gostava de cobrar um preço caro demais, injusto demais para uma de suas maiores vozes. 

Kai sentia as coisas saírem do controle, escapando por suas mãos. Imponência. Pela primeira vez ele sabia que não somente ele sentia isso. A própria Veela também. Tanto treinamento e sufoco… pra nada? 

Muitas pessoas em tristeza, em dor, tudo sendo absorvido por Veela, fundo demais em seu dom para recuar. Isso enlouqueceria qualquer um, até mesmo uma Venerável.

Então Veela gritou, o som abrindo uma rachadura no céu. Dela uma névoa preta escapou, viva, esfomeada. O feitiço proibido fora conjurado. 

A terra se dobrou. Os soldados recuando, mas a corrupção permaneceu. Quando ela abriu os olhos, eles não mais eram de prata, adquiridos na ascensão de Acólita a Lamentadora. Eram negros. Como esquecimento. 

As formas perderam a tonalidade, oscilando. 

Agora havia uma câmara circular, adornada por velas negras. Haviam sete Veneráveis — de véus rasgados e semblantes cerrados — apontando lâminas curtas ritualisticas contra ela, em denúncia. 

Para reunir todas as Tece-Sombras, algo de errado aconteceu. 

— Você cruzou a linha — reflete uma. — usou o que não deveria ser nomeado. 

— Traiu os ecos…

— Desonrou a Névoa…

Veela, que sentiu aquele riso de liberdade ecoar no peito, ajoelhou-se, ensanguentada. Mas seus olhos não baixaram. 

— Então as bruxas não são armas? — murmura. — Se não formos lâminas… seremos ossos? 

Tramas começaram a girar — fios de energia dançando ao redor. Ela não implorou. Ela sorriu. 

Então havia apenas um negro absoluto. Depois, um leve borbulhar. A visão clareou: uma câmara submersa sem teto, flutuando sob uma coluna mágica infinita. Lá dentro, apenas silêncio e pulsações. As paredes vivas murmuram. Têm olhos que se abrem e fecham. Rostos esquecidos aparecem nas rochas — como se almas estivessem presas. 

Kai agora sentia que o coração de Veela se corrompia. Ele era bondoso, e mesmo diante das provações, permanecia em fé. Mas algo se rompeu quando aquele céu rachou. 

Agora ela flutuava, acorrentada por fios de névoa cristalizada. Sua boca, aberta, não produzia som algum. O tempo não passava de jeito maneira. Ele apodrecia. 

Então ela ouve vozes — mas não as responde mais. 

Um círculo de juízo de repente se forma sob o lago da Sala Submersa. As sete Veneráveis entoam o cântico. Uma mulher se aproximou… a Venerável Matisa Gilea, líder máxima da Ordem, com uma concha imensa talhada em escamas de uma criatura abissal. 

Ela tocou a fronte de Veela com um véu tecido com fios do próprio tempo. 

— A mentira tomou forma em ti. Então que sejas o que semeasse: um véu de ilusões, um espírito do cansaço… uma Sibila. 

O feitiço foi lançado, e como se tirado temporariamente da visão de primeira pessoa, Kai assistiu a concha se abrir, e Veela, com sua pele se rasgando, véus se fundindo so seu corpo, a alma costurada em retalhos, seus olhos se apagam, mas sua voz permanece dissonante, distorcida, sussurrante, eterna… enquanto ela é sugada para dentro da concha. 

Era lindo e trágico. Veela abriu a boca num grito decoroso, mas não saiu som algum. Como toda sua vida: quieta e calada, bondosa. Mesmo em corrupção, fora boa. E agora pagava o preço por não suportar uma mente quebrada. As Veneráveis também temiam por sua ex companheira, mas teciam o feitiço como boas costureiras, conjurando os fios da realidade etéreos como finos fios de seda e musselina. Verdadeiras feiticeiras. 

A realidade rugia em decorrência deste feitiço, se curvando como a superfície da água ao ser desassossegada por um grande corpo de massa. 

Enquanto isso ocorre, a Matisa, com uma única lágrima escorrendo, sussurrou para a concha e, à medida que sua voz soou, runas surgiram na superfície:

— Que teus véus nunca sequem. Que tua voz jamais se cale. Que a mentira seja tua nova língua, e o cansaço, teu legado. 

A concha desapareceu assim como a memória. Kai sentiu um gosto amargo, em choque, enquanto percebeu que já sabia há muito tempo. 

Essa não fora a memória de uma vítima da criatura… era a memória dela própria… a Sibila da Areia.

A memória ondulou, mostrando todas as pobres vítimas de Onaé — a Sibila. Todas caindo na mesma armadilha cruel de um sonho provável. Adormecia viajantes, sugava lembranças, matava de exaustão. Povos mais antigos que a queda de Atom. Povos com rostos impossíveis de serem vistos. 

Ver o que Onaé se tornou, quando ela mantinha tanta bondade antes de entrar nessa ordem… Filhas da Névoa, o deixou em polvorosa. O coração de Kai pulsava em desmantelo. E o fim derradeiro foi… pra si mesma. Não por força bruta. Não porque Kai era mais forte. Mas porque ele viu além da mentira, e foi forte para não se deixar ir. Ele fora mais forte do que ela jamais conseguiu ser quando uma Venerável. 

Porque apesar de saber que estava entrando na morte certa, Kai acreditou por um segundo que poderia sorrir. E essa era uma mentira impossível, porque no peito dele, sabia que nunca poderia sentir isso. Ele, de risos tão afetados. 

Mas vendo as lembranças de Onaé — Veela — Sibila, ele percebeu que ela também nunca teve um lar. Nem mesmo entre a Névoa, nem entre as Enluaradas, nem entre as Acólitas e as Lamentadoras. Tampouco entre as Tece-Sombras. Ao seu ver, Veela fora tão triste quanto ele próprio.

A memória se esvaiu aos poucos, e ele foi retornando ao centro de tudo: o vale com rochas e véus ondulando, a concha no meio de tudo. Dentro dela, o som de vozes dissonantes era puro e plural. Claro como um vento cortante. 

As vozes das vítimas, das antigas companheiras, dos irmãos e irmãs de Onaé Tzari. Um dia ela foi uma querida filha e irmã, uma querida companheira e colega, uma querida bruxa em um lugar longe e distante, mais cruel do que nessa terra de Reiqin. E ela viveu bem, até se corromper. 

A Sibila sibilou, a boca costurada com fios de prata e o véu que envolvia seu corpo, ondulando e se rasgando. Apesar disso, não havia arrependimento. Tudo o que vazava dela era dor, ressentimento e ódio. Auras e auras de puro ódio. 

Direcionados à Kai. Às Filhas da Névoa. Às Mães da Maré. À todas as meninas que ingressaram na mesma ordem. 

Não. Ela estava odiosa pois queria consumir mais. Mais poder. Ensandecida por mais. Sempre. 

O mundo ruiu. Como um castelo de sal sob a chuva. Seu covil, repleto de névoa, se dispersava, com as rochas agora submergindo como qualquer coisa pesada sobre areia movediça. 

E Kai não lembraria dela assim: raivosa, tresloucada. Lembraria da jovem e doce Onaé, que decidiu escapar da família para livrá-los de um fim aparente.  

Enquanto Kai corria para sair do vale em declínio, escutava os últimos suspiros e lamúrias da criatura. 

A Sibila não morreu. 

Ela foi esquecida. Soterrada com seus véus e sua névoa. Ou foi devolvida ao deserto que nunca a teve. 

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora