Volume 2
Capítulo 103: FILHA DO QUE NÃO VOLTA
As memórias inundaram a mente de Kai. Mas a quem pertenciam?
Uma das vítimas, com certeza.
Uma menina, repleta de névoa. Jovem, sozinha, triste, esquecida. Num mundo odioso, distante, familiar.
Como se acertado por um soco, Kai observou as memórias daquela pessoa que um dia pertenceram à alguém vindo de um plano diferente… do mesmo plano que ele.
E esse alguém estava morto. Enterrado. Esquecido.
Ele agora era ela, e sentia o que ela sentia. Via o que ela via. Sofria o que ela sofria.
Ele… ela, chamada Onaé, pertencia a um lugar onde não podia ser verdadeira consigo mesma, onde deveria esconder seus poderes e dons. Mas o que deveria fazer quando sentia a atração da terra? Ou quando o vento sussurrava coisas mais reais do que as mentiras que seus pais lhe contavam? Ou quando a névoa se projetava como mentora?
Neste canto esquecido por reis, por protetores, mulheres não tinham direito a não ser provir com sua semente. Homens mandavam e, ela, uma mulher, baixava a cabeça. Obedecia.
Mas em Onaé havia esse riso. Essa vontade inerente de se opor. Porque é da natureza do homem e de seus filhos se questionarem. Quando algo está errado ou não parece certo ou é omitido, o homem tende a procurar esta voz. Essa oposição natural. Essa liberdade.
Mas ela era jovem e pequena. Era inocente, e acatava o que seu pai dizia. E obedeceu quando, ao contar aos pais sobre os sussurros do ar e as vozes da terra, estes fizeram-na jurar não tocar mais no assunto. Eram sonhos, dizia ele, seu pai, imaginação de crianças.
Contudo, Onaé era curiosa, e a cada vez que a terra sussurrava, ela perguntava ao pai. Então ele, temeroso e assustado, bem como dava para notar, decidiu se mudar com a família. Levou a mãe grávida e todos seus irmãos ao coração de uma floresta de árvores e arabescos altos.
Afastaram-se do mundo.
Onaé era criança demais para não saber que aquele não era o lugar para mulheres que conversavam com a natureza.
E por um tempo tudo ocorreu bem, pois o pai achou que afastando-se de tudo e todos, as coisas ficariam bem.
Neste tempo, Onaé também se convenceu de que estava tudo bem, e os sussurros até pararam. Ela saía, podia brincar, ria, era feliz. Notava que a decisão do pai fora a melhor, mesmo com dúvidas e ressalvas. Ele era um homem bom que a amava. Ela se convenceu disso também.
Até não se convencer mais. Até começar a acordar no meio da floresta, atordoada, após ter tido sonhos estranhos, obtusos.
Até ouvir o sussurro outra vez, não da terra ou do vento… da Névoa que se precipitava em preencher todo o derredor de sua humilde cabana.
Onaé escondeu esse fato do pai. Até um dia decidir dar uma escapada para a cidade… ficara sabendo, certa noite, pelo pai — que fazia visitas costumeiras à vila fora da floresta, que haveria um grande movimento, que as pessoas estavam ansiosas por isso.
Ela, jovem e menina, pensou se tratar de uma festa. E foi até lá, escondida, com dois de seus seis irmãos menores. Queria ver gente, sorrir, festejar. E depois, o pai não saberia, afinal ele foi contundente em dizer que nenhum naquela casa iria.
Onaé, no seu riso infantil, logo chegou na cidade e descobriu todos reunidos na longa praça. Mas de um modo que nunca poderia imaginar. Essa não seria uma ocasião comum.
No centro da praça, um cadafalso, e sobre ele uma tora se erguia, presa a ela uma mulher jovem de cabelos longos e pretos. O povo rugia, e o líder daquele lugar gritava do cadafalso, proferindo palavras horrendas e nojentas na direção da mulher.
E a mulher, em prantos, os olhos tão negros quanto o carvão que o papai removia de cavernas… a fitou. Ela sorriu, os dentes negros e podres. Era um belo sorriso, apesar de tudo... não fossem as palavras odiosas saídas dela.
Num minuto ela arquejava e bradava para os céus, inclemente. Mas um fogo se acendeu em seus olhos quando viu Onaé. Fogo também acendeu nas lascas de madeira e palha sob seus pés.
O fogo soltou labaredas de um amarelo lânguido, saboreando a carne da mulher, enquanto ela amaldiçoava as pessoas dispostas ali. Pessoas que comemoravam, aproveitando a oportunidade única.
A voz da mulher fora ofuscada pelos gritos da multidão, mas chegaram à menina assim como sussurros de névoa.
“Eles acham que me queimam, mas estão só me espalhando… Olhe bem, menina. Olhe enquanto ardem minhas entranhas. Um dia, serão as tuas — ou as deles.”
Kai sentia o cheiro da carne. Mas não era o dele. Era o dela. E ainda assim, a dor era dele também. As lamúrias, o ódio.
Onaé voltou para casa com a lembrança de ter ouvido o sussurro daquela mulher, dos ventos que carregaram de modo doloso suas últimas palavras.
Onaé soube que não era imaginação. Soube também que era a primeira vez que vira a ira do pai.
O homem, que desconfiou de tudo, encontrou os filhos na metade do caminho. Assustados, tremendo. Cada uma daquelas crianças vira algo que não deveria. Naquela altura da floresta, era capaz de ver a fumaça subindo.
Mas deveria haver punição. E o pai lhes deu cintadas, cada um recebendo dez. Onaé, contudo, foi dolorosamente punida a mais do que seus irmãos.
O pai a batia enquanto as lágrimas caiam. Não as dela, mas as dele. Um homem de bom coração, de fato.
E enquanto o pai, que com as mesmas mãos que a puniu, cuidava dos ferimentos, ela pôs-se a chorar. Contou tudo. Dos sussurros. Das vozes. Dos dizeres. Das noites em que acordou assustada na floresta, no meio da noite, névoa sussurrando.
Mas quando viu no rosto do pai uma pitada de horror… decidiu não contar as últimas palavras da mulher. Porque o pai tomara uma decisão ali. Talvez essa decisão já tivesse sido tomada há tempos e, o pai, protetor como era, só vinha adiando-a mais e mais.
Kai sentiu como se fosse ele ali. Chorando. Apanhando. E de certa forma era... Ainda que não fosse.
O ressentimento cresceu no coraçãozinho de Onaé enquanto ela era trancada no porão, rearranjado pela mãe para ser seu novo quarto. Mas ela não permitiu que esse ressentimento ficasse raizes, boa do jeito que era.
O ar era fedido aqui, fechado, poroso. Mofo e musgo cresciam ao redor, e ela lutava para encontrar cantos livres de pragas para dormir.
Dormir… até isso era um problema.
Onaé estava livre de todo o exterior, mas o que a incomodava era o interior. Os sonhos. A mulher morrendo.
Sangue. Fogo. Dor. Carne queimada. Gritos, lamentos, ódio. O mesmo ciclo. Noite após noite. Um nome que não era o dela… e ainda assim era. Um nome que não era de Kai... E ainda era.
Caos.
Sombras e morte.
Névoa…
Foi quando ela falou. A Névoa.
Começou como sussurros. Eram chamados sutis nas noites em que o nevoeiro era denso. Sussurros entre as árvores e o vento que só ela podia escutar.
Os sussurros eram como facas lapidadas em ferro e fogo. Distantes, onerosos.
Conquanto, Onaé tinha pesadelos recorrentes, até mesmo com a família morta. E ela sabia que deveria deixar o lugar, ou quem sabe o que viria a ocorrer?
Kai se encontrou num ciclo odioso de imponência, enquanto observava o derensolar das memórias sofridas de Onaé, na condição de espectador. Que jovem de coração bom... E que mundo de coração frio.
Numa dessas noites, finalmente, aterrorizada, Onaé fugiu por um buraco que havia no sopé da casa. Ela correu em direção contrária à cidade. Deixou o conforto, o lar, a segurança, temerosa de que essa realidade ruísse. Havia bondade na criança.
E ela teve de sobreviver sozinha na selva, enfrentando perigos naturais e espirituais. Cansada, fatigada, esfomeada. Sentia-se triste e contrariada. Pois a névoa não sibilava mais para ela. Abandonada.
O medo consumindo-a por dentro.
Kai temia também. Ela não era ele, mas ele era ela.
Mas conforme a dor se afeiçoava, e a morte perseguia, Onaé repetia dizeres, mais uma vez se convencendo de seguir em frente.
“Não chore.”
“O som atrai.”
Uma hora isso tinha que acabar, e acabou.
Onaé andou muito até que um corvo de olhos vazios crucitou.
Ele a levou até um vale que não existia no dia anterior.
Havia névoa ali. Viva, densa. Palpável. E quando a tocou, um lugar sob o toque da Névoa se revelou, sagrado e próspero. Um refúgio no limiar do mundo, onde termina o tempo e começa a névoa.
À primeira vista, parecia uma clareira enevoada com pedras dispostas em círculo, mas conforme ela se aproximava, a neblina se dispersava e revelava a verdadeira forma: um monólito oco de madeira viva, alto como uma torre. Ali a névoa pulsava.
Seu formato orgânico, lembrando uma árvore, crescia com dor. Sua casca tinha veios escuros que se moviam lentamente, como se a madeira respirasse.
Onaé encontrou uma fenda vertical, com cortinas feitas de véus velhos, pedaços de pele escrita e fios de cabelo trançado. Ao atravessar, memórias de outras crianças passaram. Sussurros em uma língua estranha, distante, mesmo que ao redor não houvesse som algum.
Kai lutou para não ser envolvido por uma memória dentro da memória, e quando a primeira ondulou, ele estava num salão longo.
Havia uma sala circular, sem janelas, apenas fendas onde a névoa penetrava. Ele sabia, mesmo sem saber, que Onaé havia passado por algum tipo de iniciação.
A sobrevivência na selva, a descoberta de um lugar que não parecia existir até um dia… faziam parte de um rito de passagem.
No centro d'O Salão do Sopro Silente, havia uma bacia com água e sangue. Uma única vela se acendeu enquanto Onaé se aproximou, Kai vendo seu reflexo — não o seu, mas o da menina.
Jovem, morena, de cabelos ondulados e tempestuosos. Triste e infantil. Temerosa. Ali, ele… ela… sabia que deveria reconhecer o reflexo daquilo que perderia. A Névoa sussurrava isso.
Uma voz feminina, de longe e de forma alguma humana, soprou o nome de Onaé por trás da parede.
Em seguida, a voz instruiu, mentalmente, que Onaé cortasse um tufo do seu próprio cabelo e o depositasse na bacia.
Quando fez isso, a superfície tremeu e não mais refletiu seu rosto. Agora o que substituía era o rosto da mãe, envelhecido, olhando para ela como se fosse uma estranha. Olhos vazios, boca costurada com linha de ferro.
Em seguida a imagem se dissolveu. Sua próxima visão foi um campo de corpos femininos deitados sob a chuva, todos com cabelos iguais aos seus — alguns ainda sussurravam entre os dentes partidos.
Por fim, uma mulher encapuzada com a própria pele, tatuada com versos em língua esquecida, estendeu-lhe a mão. No dedo, um anel de osso com a inscrição em língua estranha: Aquilo que você ama será seu fardo. Aquilo que você teme, será sua estrada.
O reflexo desapareceu e a névoa ascendeu. Então, o sussurro do novo nome veio pela fenda da parede, mas ainda inconcebível para Onaé:
— Onaé… filha do que não volta… eco do que não se cala.
Feito isso, a Névoa se adensou. Quando clareou, uma boneca trançada com esse cabelo surgiu, deitada sobre a pedra. Ela foi até a boneca, com a certeza de que estaria segura com ela.
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