Volume 2

Capítulo 102: ONDE NUNCA RIMOS

A luz ali era ausente, mas tudo se via.

Kai não sabia ao certo quando cruzara o limiar — se é que cruzara algo. O deserto apenas... se dissolvera. Como se o vento deixasse de rugir e, no lugar, sussurrasse.

Não havia chão. Nem paredes. Nem teto. Só véus. Véus de fumaça. De pano. De lembrança.

E silêncio. Mortal. Consumindo tudo. 

Cada passo que dava era em falso. Vertiginoso demais para ele. 

Contudo, ele estava calmo. Sua mente estava em silêncio profundo. Ela não doía. Não havia lamentos recorrentes. Era bom não ouvir esse sussurro, como um chiado. 

Fazia tempo… muito tempo. 

Apesar de carregar a maldição da lembrança viva, Kai se esquecera com facilidade disso.

Mas como ele se lembraria de algo que viveu pouco? Kai sempre foi tão sincero com tudo… até mesmo em não fingir felicidade. Ele nunca foi feliz. Mas também nunca precisou ser. E estava bem com isso. 

Então era bom provar uma realidade onde não havia tanta culpa, tanto arrependimento, tanto ostracismo. Ele se cobrava demais, e mesmo assim havia bondade em seu coração. Gentileza. Se esquecera fácil disso também. Até mesmo agora. 

Então um sussurro surgiu, vindo das profundezas distantes daquele lugar inóspito. 

Primeiro era um sussurro. Depois pareceu um chiado, vários sons se sobrepondo por cima dos outros. E à medida que aumentava, Kai notou que se tratavam de vozes, dissonando ritmicamente. Subindo o timbre, até tornar-se como várias pessoas falando, gritando, berrando, chorando. Tudo na sua cabeça. 

Mas aí foi diminuindo lentamente. Foi perdendo a aglomeração. Vozes um barítono. Vozes um contralto. Estavam se adequando para que pudessem produzir todas um mesmo e único som. Pouco a pouco se tornou uníssono. 

Kai respirava fundo, alarmado e letárgico. Faltava-lhe ar, apesar de sentir nos poros que este lugar não necessitava das leis normais do mundo normal. Mesmo assim, ele sufocava.

A voz, entrementes, vinha de todos os cantos. Uma voz que parecia antiga e feminina, mas sem idade. Aveludada, quase maternal. O tipo de voz que um órfão ouviria ao sonhar com a mãe que nunca teve.

Kai conseguia controlar sua respiração, agora.

Um cheiro gentil untou seus sentidos. Era desconhecido, e mesmo assim, nostálgico. Levava-o à um período inexistente. Ele lembraria. 

Havia cheiro de jasmim, de sangue seco, de infância que não volta.

A voz, grave e fina, mantinha um tom indecifrável, como se falasse em outra língua. 

Então como uma flor desabrochando na primeira manhã de primavera, o espaço se formou, tomando forma, proporção. Uma miríade de cores invadiu o mundo, cheiros, sons. Era como se a cor surgisse do nada — e surgia. 

Um campo se estendia sob seus pés, coberto por flores de hastes longas, ondulando como cabelos submersos em água morna. O céu tinha a coloração de um entardecer que jamais acaba — dourado demais para ser real. A brisa era suave, com o perfume exato de uma lembrança feliz: fruta fresca, madeira velha, chuva em pedra quente. Era como um abraço que ele nunca teve, mas sempre quis.

Ao longe, ele viu um rapaz. Baixo e atarracado de ombros largos, uma cabeleira loura pendia por seus ombros. Era Gunter. Não ferido, não embriagado, não endurecido. Apenas sorrindo. Um sorriso largo, desarmado, enquanto acenava para ele como um irmão reencontrado. 

Gunter te odiava. — Disse a voz, sem mais nem menos. 

Isso pegou Kai de jeito. Sua pele se arrepiou. Mas havia uma concessão aqui. Gunter sorria, mas Kai sentia que a voz era verdadeira, porque ele também sabia, no âmago escuro e sombrio, da verdade dessa afirmação. 

Mas não o culpe — continuou. — Era inevitável, como sempre foi

A voz recuou, como se dando tempo para Kai absorver suas doces e sórdidas palavras. Havia uma crueldade aqui. Mas uma crueldade sincera. Todas as verdades do mundo tendem a ser cruéis. 

Você brilhava demais, mesmo que não aceitasse os méritos devidos. Tão justo com o mundo, mas injusto consigo mesmo. 

O mundo atrás de Gunter ondulou. Agora ele olhava, distante, como uma sombra, enquanto um Kai Stone jovem e soturno, lutava e saia em missões antes mesmo de receber a carta mágica. Era aplaudido, mas era bom demais para aceitar os elogios. 

Gunter não odiava porque queria, era apenas uma fagulha dentro dele, irascível. Ventando conforme via seu amigo… irmão, se afastar de tudo e todos. Você sempre foi assim, Stone, gentil, reservado, forte… e triste. 

A imagem ondulou, e uma jovem de longos cabelos ruivos e olhos verdes surgiu. Seus olhos faíscavam com uma elegância sublime. Com um riso incontido, feito uma criança boba e levada. 

A garota dos sonhos… Ela ficava mortalmente irada com sua modéstia. E você era feliz… ou pelo menos eles achavam. Não é? 

Cada vez que a voz assobiava, lânguida, as memórias de Kai se mesclavam com a cena que se desdobrava. 

Kai tinha bons amigos em Neve Sempiterna, mas desde criança ele sentia uma imerecida vantagem. Era o protegido do lorde. Ele sentia como se não devesse estar ali. Mesmo que seus amigos nunca tenham feito menção de descontentamento, cada palavra de Ruffael Murphy, Jim Lei e todos os outros a despeito do fato de ele não ter pais era como faca afiada em seu peito. Não ter uma origem clara em suas terras. Um pária. 

Kai sentia isso também, e achava que seria mais fácil se seus amigos admitissem também. 

Por isso ele se fechou em si. Criou uma rocha em volta do coração. Ficou devastado quando foi abandonado por seu pai. Mas fingiu não ligar. Se esforçou mais do que os outros. Treinou, botou em prática os ensinamentos de seu mestre

Se tornaria um General, e teria um lugar que pudesse chamar de lar. Ele não pertencia a Neve Sempiterna, e mesmo que boas pessoas e as que mais importavam deixassem claro que ele fazia, era na voz de seus dissabores que encontrava a verdade cruel.

Kai amava o frio de Neve Sempiterna, adorava o silêncio da floresta…, mas não pertencia ao lugar. Não era seu…

Não se sentia em casa. Não se sentia confortável. E por isso era triste. Mesmo que risse com os amigos, o vazio o consumia. 

Porque se ele se tornasse General, poderia ir a qualquer lugar. Poderia ter um canto a chamar se lar. Mesmo quando foi embora, ainda não encontrou um lar. 

Fora amado por um povo distante e diferente. Os vitanti tinham apenas amor e amizade para lhe oferecer… Fioled chorou, implorando por sua ficada. O amou. 

E mesmo assim Kai a deixou para trás… porque apesar do que os Echanti e os Eblomdrude diziam, Kai não via lar em Orquídea. 

E quando entrou no sonho… na maldita forja criada pelo traiçoeiro Greylous, foi a primeira vez que sentiu pertencer. Mesmo que soubesse, no fundo mais uma vez, que se tratava de uma mentira, aceitou-a. 

Eu vi o que você viveu naquele feitiço. Aquela vida… — disse a voz, mordaz. — A mulher que amava, os filhos. O lar. O calor. Tudo era mentira… mas tão bom, não era?

É verdade. Kai aceitou a mentira criada com cinzas e sangue vitanti. Ele permitiu o ferro abraçar suas costas, se isso significasse que poderia ser feliz, que poderia pertencer…

Mas isso era apenas uma definição temporária para um problema duradouro… — atalhou a voz, como se fosse capaz de ouvir mesmo os sussurros mais distantes da mente de Kai. — Por muito tempo, você andou sem rumo, perdido, um lamento convexo no peito. Gritando, calado, por ajuda…

Os olhos de Kai arderam, as lágrimas se acumulando nas pálpebras. Nunca caíram. 

A imagem à sua frente ondulou, mudando novamente. O campo permaneceu, a grama baixa e vários morros e morrinhos, um imenso lago refletindo a luz de um sol distante e erguido. 

Havia esse casebre à beira rio, e diante dele, uma imensa mesa de madeira, repleta de comida. Zurrapas, uísque, suco, cerveja. Todos os cheiros inebriaram Kai. 

Ao redor, todo mundo que ele conhecia e sentia um respeito modesto o encarava, sorrindo. 

Ardara, Gunter, Siobhan, os Echanti, Mael, a pequena Plumrose, seu mestre que não via a mais tempo do que o velho Shiv. Clay Dito, Lucio Fal… todos que também sentiam zelo e respeito por ele. 

E entre esses, havia duas pessoas altas, de cabelos negros escorridos. Um homem e uma mulher, ambos sem rostos. O peito de Kai se aqueceu. 

Mas não precisa mais continuar sua busca, criança… dê um rosto à eles. Seja feliz, seja pertencido. Se pertença.

As palavras vinham como vinagre quente nos ouvidos. Kai não recuou — mas vacilou.

Por dentro.

A criatura sabia onde tocar. Ela era feita disso. 

Todos riam, gargalhavam, até que uma imagem dele mesmo surgiu entre estes.

Haviam mais pessoas. Gente dos bairros baixos de Neve Sempiterna. Pessoas boas que o acolheram, mesmo que não houvesse acolhimento interno. 

Vá. Tome seu lugar, seja pertencido. Este é seu destino, é seu desejo, seu merecimento…

Kai andou, e a cada passo, tudo isso se tornava mais real, mais vivido. Ele realmente podia aceitar ser pertencido? Podia mesmo viver isso? 

Os cheiros e cores ficavam mais presentes. 

Será que podia mesmo? Não era errado? 

Algo dentro dele pulsava querendo dizer que sim, era errado, mas Kai estava cansado. Tão, tão cansado…

Correndo por aí lutando a guerra dos outros. Ele pensou que ficaria mais fácil, mas não ficou… 

Morte, sangue, guerras, batalhas… tudo isso valia mesmo a pena? Para ser forte? 

De repente, havia uma nova realidade aqui. Algo mais fácil, simples. Ele poderia sorrir, mesmo que fosse uma mentira. Mesmo que tudo isso não passasse de uma bela isca para a morte escancarada. 

Mas é… Kai estava cansado, e de repente não lhe era mais proveitoso lutar. Não quando nada mudava. Era mais do mesmo. 

Então Kai deu esses passos. Ele seguiu, mirando cada rosto que ali estava. Todos de quem precisava, todos os gentis. Um povo que mesmo diante de um mundo estranho, conturbado, tinha bom coração, como ele. 

Um novo véu se ergueu. Todos sumiram, sendo substituídas por uma cena:

Ardara sorrindo num jardim. Filhos correndo, chamando por ele.

Essa é a realidade que pode vir a acontecer… basta você aceitar. Deixe que esse futuro aconteça. 

Ele olhou ao redor. Gunter, vivo. Abençoando-o com uma mão calejada.

Os dois adultos de antes com face sem rosto.

Ele parado, alto, sorrindo com os olhos lacrimejando.

O som do riso — leve, claro, sincero.

Kai cambaleou. E foi aí que tudo parou. 

Ele estava certo de que poderia encontrar seu lar aqui. Nessa doce e velada mentira. 

Estava tudo muito perfeito — e mesmo assim ele aceitou. Por que não poderia acontecer assim? 

Um frio preencheu o coração dele. Ele sabia a razão, e de repente tudo ficou nítido e claro. 

Porque em que mundo Kai riria assim? 

Isso nunca aconteceu, de modo que seus risos, sempre algo difícil de acontecer, vinham precedidos por um deboche. Nada de genuíno. Nada concreto. 

Ele estremeceu. Se tudo continuasse do modo que estava, ele poderia deixar a mentira tomar forma, novamente. Mas essa criatura cometeu um único e penoso erro. 

A verdade rompeu como um escudo. Ele nunca riu daquele jeito. Nem riria. Não ali. Não com eles. 

Havia muita dor, muita história, muita mágoa. As coisas não se resolviam com uma risada, um jantar. Num mundo perfeito até poderia ser. Mas Kai não suportaria um mundo assim. E esse também era um escudo. A memória de que nada é flor. 

E agora, a memória — sua maldição — ergueu-se. Não como escudo, mas como espelho. 

A criatura sentiu antes mesmo que ele reagisse.

Tudo rachou. O mundo ruiu.

Os véus estremeceram.

A ilusão perdeu cor.

O perfume virou mofo.

Gritos dissonantes, voltando ao contraste de sons anterior, a balbúrdia generalizada. 

As vozes começaram a gaguejar. Os véus, a se desfazer.

 — Você... não pode... — ela sibilou.

Kai olhou ao redor, vendo aquela doce mentira ruir. 

— Inventou uma mentira — disse ele, sem raiva. — E isso... é o único erro que não posso perdoar.

Porque Kai permitiria aceitar memórias dele e de seus amigos, poderia aceitar uma ilusão com filhos e mulher de mentira. 

Mas essa criatura errou onde nem Greylous errara. Ela inventou uma sinceridade onde só havia raízes de falsidade e mentira. Um sorriso sincero vindo dos lábios de Kai. Esse poderia ser seu fim.

Kai não tinha controle da situação. Estava fraco, desidratado, mentalmente esfolado.

Mas a mentira era imperdoável. Porque ele nunca mentiu diante de um sorriso falso. Kai nunca precisou de máscaras. 

E com isso, a mentira era impossível de sustentar diante dele.

Com Kai, a memória era maldição.

Ele não confundia. Não idealizava.

Ele sabia.

Então a criatura gritou com dor, com ódio, desiludida, perdendo toda compostura e doçura com que ludibriou Kai a pouco. 

Kai se ajoelhou — não por cansaço, mas por peso da memória.

E ainda assim, Tirise, muda até então, vibrou.

Leve.

Como quem diz:

“Você lembra. Então ainda é você.”

A voz recuou.

Mas não havia para onde.

De repente, o espaço opaco se tornou visível. As flores feneceram num piscar. O céu dourado vacilou, piscando entre tons de púrpura e branco podre. Gunter se dissolveu numa miragem. Ardara virou fumaça. As crianças evaporaram com um riso sombrio. Os adultos sem rosto despedaçaram feito sal. 

A versão falsa de si olhou para ele. E sorriu com dentes que não eram seus. Com olhos macabros de pura determinação odiosa. 

Então sumiu também, sendo substituído pela concha que pendia no centro do início daquilo tudo. 

Seu corpo era como um pedaço de carne untado, tiras de tecido secas se rasgando. 

A criatura se ergueu, tremendo, e por baixo das incontáveis faixas que rodeavam seu rosto, a boca se abriu numa lamúria incontida. 

Ela gritou — ou talvez estalou, como carne exposta ao frio absoluto. Seu canto, antes maternal, tornou-se uma tentativa falha e desesperada de recompor a mentira. Mas cada imagem reconstruída era devorada por sua mente incorruptível. Cada frase adaptada desabava sob o peso do que ele sabia.

Seu corpo de véus se enrolou em desespero, tentando vestir uma nova máscara, uma nova lembrança, um novo sonho. Mas Kai não sonhava.

Kai sabia.

E saber, ali, era tudo.

O mundo ruiu, como um castelo de sal sob a chuva. Como um sonho acordando.

E enquanto tudo isso acontecia, Kai viu.

Memórias voaram para lamber a mente dele, desesperadas para serem vistas.

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