Volume 2
Capítulo 101: ONDE NUNCA ESTIVE
O silêncio não rugia. Ele sussurrava em círculos, como dedos costurando um manto invisível ao redor da mente de Kai.
Ele desceu.
As colchas tremeluziam ao redor, erguidas como bandeiras num reino sem rei, balançando mesmo sem vento. Havia essa singularidade aqui.
Hora um lugar sem ar respirável. Hora tempestade. Hora vento. Hora cabeças rolando.
Kai suspirou, observando as colchas. Elas tocavam o chão e o céu, e entre elas haviam coisas — talvez formas, talvez olhos. O ar era morno, doce, e denso, como incenso queimado há tempo demais. Tudo ali parecia suspenso no tempo, como se alguém tivesse esquecido o mundo em pausa.
A cada passo, Kai sentia o chão menos sólido. Não afundava, mas tampouco avançava. Era como se andasse dentro de um pensamento que não era dele.
A areia era outra, aqui. Mais fina, como pó de ossos antigos. Cada passo de Kai ecoava como se pisasse dentro da própria cabeça — um ruído abafado, surdo, que não tinha onde ressoar, exceto nele mesmo.
Não havia vento.
Apenas véus suspensos. As colchas de tecido ondulavam sem motivo, como se respirassem.
O silêncio era mais espesso.
O calor, como antes, era úmido, levemente pegajoso. A luz dourada parecia vir de dentro das coisas, não do céu. Como se a lembrança do sol bastasse para iluminá-las.
Kai parou.
Haviam pedras dispostas ao redor do vale como sentinelas. Como ele não as notou antes?
Elas tinham rostos, as pedras. Não esculpidos — marcados. Expressões presas em rugas de sofrimento ou êxtase. Algumas riam. Outras choravam. Algumas tinham as bocas abertas como se gritassem.
Kai observou, pensando que isso não poderia ficar mais estranho.
Seguindo seu rumo, havia algo que o impulsionava a caminhar para o centro. Como se um radar pulsasse em sua nuca. Uma atração alienígena. Uma sensação avassaladora de pressa. Não podia esperar.
E não esperou.
Ao centro do vale, entre véus e tecidos, uma estrutura em forma de concha dobrava-se para dentro, como um útero de pano e fumaça. De lá, um som surgia. Ou talvez a sensação. Um lamento abafado, ritmado. Como um choro contido na garganta.
Kai se aproximou.
As colchas penduradas por nada se afastavam sozinhas à medida que ele caminhava. Não como cortinas sendo abertas — mas como carne se abrindo à lâmina.
Ali, sobre um leito de almofadas que pareciam respingar sombra, repousava algo.
Era um corpo pequeno, mirrado, coberto por véus translúcidos que tremiam sem vento. Os braços se estendiam finos, como galhos molhados. Dela partiam filamentos de tecidos, como tentáculos, ligando-se às colunas de pedra, ao chão, ao teto invisível — como raízes de um fungo enterrado em tudo.
O rosto era coberto por um tecido branco. E ainda assim, Kai sabia que ela o observava. Aquilo era uma fachada, uma bela armadilha.
E ele mesmo assim se pôs na condição de vítima.
— Está cansado, peregrino?
A voz era como uma série de retalhos. Fina, grossa, aguda, grave. Vinha de todos os lados, como se o próprio lugar tivesse língua. Possuía sotaque e de repente não. Era uma voz velha e de repente jovem. Seda sendo rasgada dentro d'água.
O peito de Kai errou uma batida. Todo seu corpo se alarmou, gritando perigo. Mas algo o impedia de perder a compostura. Ele estava cruelmente calmo.
— Há descanso aqui. — Houve uma pausa. Foi milimetricamente calculada, sem pressa ou vagareza demais. Agora uma voz conhecida… mortalmente conhecida.
— Você trouxe a dor com você — continuou. — Que bonito. Todos os que carregam a verdade em demasia acabam sangrando pelas lembranças. Você está farto, mas insiste. Sabe por quê?
Ele sabia a quem pertencia. Por que demorou tanto a perceber?
Era dela, a garota que fora apaixonado por grande parte da vida, e que o deixou no fim, como seu pai de mentira.
Como era bom ouvir sua voz, mesmo que não fosse sua.
Seus sentimentos por ela eram conflitantes, e lembrar-se daqueles dias — algo que ele conseguia não fazer com frequência, apesar dos pesares — era como uma faca sendo cravada no seu peito, e girada para ter certeza de que o pegara de jeito. Era recente demais.
Era a voz de Ardara. Doce, melodiosa. A voz da mulher que ele casou em seus sonhos mais profundos. A mulher que nutria sentimentos desde que fosse jovem demais para saber disso. A mulher que amou por tempo o suficiente para que deixasse o sentimento se tornar amargura. Mas seu coração ainda palpitava.
Seus olhos arderam, mas lágrimas não saíram. Estranhamente, Kai permaneceu calmo, sem um pingo de afetação.
— Porque alguém lhe ensinou que dor é moralidade — prosseguiu a voz de sua amada, indiferente aos seus pensamentos conflitantes. — E você acredita nisso como uma criança crê no nome que lhe deram.
Kai apertou o cabo de Tirise, para se certificar de que não estava sozinho. Mas nunca seu toque foi tão frio. Tão indiferente. Tão vazio.
Ele enrijeceu o corpo, se mantendo firme no lugar conforme a voz mudava o tom novamente, se reajustando.
Desta vez, os tecidos tremeram, e um rosto conhecido surgiu entre os véus, costurado em um pano pendurado à esquerda. Sorriu. Mas aquele não era seu sorriso.
Gunter nunca sorriu com tamanha falsidade. Sua voz deslizou:
— Você não quer saber o que esconde. Você quer esquecer. Eu sei. Você me disse.
Kai cerrou os olhos. Seu melhor amigo. Seu irmão. Mas ele continuou calmo, tremendamente calmo.
Então seria assim... andou todo aquele caminho, com o foco de derrotar essa coisa pra no fim… não fazer nada?
Nem raiva, nem tristeza, nem ódio. Nada. Apenas calma. Apenas uma vontade de chorar. Mas as lágrimas não rolaram. Ele também foi ensinado a nunca derrama-las.
Tirise não pulsava. Estava em silêncio — não ausente, apenas calada. Fria.
A criatura prosseguiu, mudando a voz. A dele próprio.
— Você nunca me caçou. Só queria ter certeza de que ainda não era eu.
Kai precisava sair dali. Um pé de cada vez. Ele se afastou. Lentamente. Não por medo de alarmar a coisa. Porque não conseguia ser mais rápido. Porque sabia que pouco a pouco, a criatura fisgava ele.
A vontade inerente de se opor, de ser resistência, já não latejava com tanto afinco. Estava morna. Ele estava desistindo.
Parando três metros da criatura, observava a concha se fechar e abrir lentamente, como respiração. Dos véus, desciam pequenos pingos. Não água. Algo mais espesso. Como lembrança líquida.
— Nem toda memória é sua, Kai. Não há memória neste deserto que já não tenha sido minha. Agora, algumas o são. E você… você é meu espelho preferido.
A dor chegou como farpa invisível. Não física. Mas uma memória que não existia: Kai correndo com a mãe que nunca conheceu no quintal da casa que nunca teve. Cheiro de frutas adocicadas, de tarde de verão. Típico verão de Neve Sempiterna, que dura poucos dias antes de um longo período de frio e inverno. Típico verão do único lar que já teve na vida. Uma mescla de mentira e verdade. Um passado alternativo com um futuro promissor.
E ele sabia que era mentira. Mas tudo era sentido. Porque no fundo, assim como as mentiras que Kai aceitou acreditar naquele sonho distante, tudo isso fazia parte de uma vontade mais profunda do que tudo: a de ser pertencido. De ser amado.
— Já esqueceu o gosto dela? — atalhou, plácida. — Eu te ajudo a lembrar se você deixar.
Kai rangeu os dentes. Mas algo dentro dele — um calor estranho, antigo, contido — estremeceu.
Ele ainda não entendia, mas parte dele reconhecia essa… coisa.
Não de vista. Mas da sensação. Como quem revê um pesadelo antigo e sabe, de imediato, que já esteve ali antes. Mas não esteve.
A criatura riu. Não com a boca, ela não tinha. Com os tecidos.
A dor virou vertigem. O tempo pareceu hesitar. O véu da realidade ondulou.
Kai quis falar. Mas nenhuma voz saiu. Foi aí que a criatura sussurrou, num tom que não imitava mais ninguém:
— Feche os olhos. Você está cansado de si mesmo. Por que não deixa que eu pense um pouco por você?
Kai estremeceu. O véu ondulou e as colchas se eriçaram. Tudo ao redor escureceu. Não porque ele apagou — mas porque ela entrou.
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