Volume 1

Capítulo 51: O FIM

Dor. Perda. Imponência. Fraqueza.

Esses eram os sentimentos nos rostos dos vitanti que continuaram de pé, assistindo o início da lenta destruição de um dos maiores protetores de seu povo.

A queimada da Grande Entrada causava uma dor invisível que arrebatava os corações daquele povo guerreiro, escondido há tanto tempo que já se esqueciam de suas origens.

Mael estava irreconhecível. Derrotado, quebrado, cansado. Não havia esperança, não havia.

Arjuani matinha o olhar triste para a cena em sua frente: o fogo se alastrando rapidamente conforme madeira queimava, o som de partes chamuscadas caindo. O tronco rompendo, urrando de dor. O espírito da floresta se esvaía, um grande cemitério sendo construído sobre suas fundações.

Houve tanta perda ali, tanta morte, tanta animosidade.

Houve a derrota, a quebra de espíritos. Nenhum vitanti ousou falar, apenas observar enquanto o xamã Greylous gargalhava e sua voz ecoava sobre a enorme fogueira que se acendera à sua frente.

Kai fechou os olhos, não rendido. A corda o sufocava, se enroscando em seu pescoço como uma cobra. Sua pele queimou, mas ele ignorou, buscando se concentrar no chi que partia de seu Tanden.

Se concentrou, pensou nas pessoas no Orquídea, pensou em como lutou, como nadou até ali. Sobrevivera, e aquele povo também era um sobrevivente. Não seria um espectro que tomaria sua liberdade, que tomaria suas vidas.

Repentinamente a energia dele explodiu para fora de seus poros, queimando as cordas verdes, que se tornaram pó e faíscas. Ele caiu sobre os joelhos, respirando ofegante, a marca de cordas ainda presente nos lugares apertados.

Ele se levantou, se esforçando para respirar e apertando os pulsos. Olhou para os vitanti que encaravam a árvore. Cambaleou até eles, alheios a sua presença; se ajoelhou ao lado de Mael, encarando seu rosto.

Os olhos do general eram vazios, sem esperança. Aquilo que ele mais temeu havia acontecido.

– Não é o momento para desistir, amigo. – Disse, apertando seu ombro.

Mael encarava o nada, o silêncio começando a ser constrangedor.

– Não há o que fazer, Kai... – Respondeu após algum tempo, finalmente olhando para o rosto do rapaz.

Kai olhou para Arjuani que devolveu o olhar. Encarou a general de cabelo ralo, que estava tão cansada, prestes a explodir em choro.

Os outros abaixaram suas cabeças, desiludidos.

Não há esperança.

Ele supriu uma vontade arrebatadora de cair no riso. Pense na hipocrisia do contexto: ele, alguém cético, tendo de servir de objeto de expectação.

Esperança. Algo que ele mesmo negou a si quando foi embora de Neve Sempiterna. Algo que não acreditava, algo que pra ele nunca foi tão importante assim.

E agora via, em primeira mão, como fazia falta. Fazia mesmo. Um povo sem esperança, sem vontade, sem brio, sem gana. Não tinham mais pelo que lutar, mais pelo que defender... pelo que morrer.

Mas tinham sim. Havia todo um ecossistema vivo nos dutos da Grande Árvore... uma civilização, um povo, pessoas vivas. Eles ainda estavam lá, e teriam que ser protegidos.

Kai se lembrou de Plumrose, a pequena menina que lhe fora tão gentil.

Lembrou-se de Cineáltas e Giglio, os pais de Fioled. Sua memória se direcionou para a jovem assistente do Pote de Runas e noiva de Ómra, Hyvina.

Lembrou-se da senhorinha Gwyrdd que fora tão gentil com ele. De Maneta, a mulher que decidiu segui-lo quando sua tribo foi massacrada pelos mercenários humanos. Lembrou-se de Daisysia dos Montes Cádmios, de Abang da Encosta Rubra – o caudilho dos mudanti e sua rainha.

Lembrou-se até mesmo de Ilygaid do clã Odz e de Athiná da Linhagem Grokich...

Todos ainda estavam vivos, lá embaixo em algum lugar. Se dependesse dele, todos iriam sobreviver sim, nem que pra isso sua vida precisasse ser ceifada.

– Não sou o mais adequado para falar de esperança, pois perdi a minha há muito tempo... não... na verdade, acho que nunca a tive. – Disse, suspirando. – Mas ainda tenho pelo que lutar, por vidas que morreram, por vidas que podem morrer se eu não fizer algo. Decidi entrar nessa guerra não por ser uma punição, muito menos por me considerar um vitanti... seus costumes nunca me fisgaram muito.

Um dos comandantes deu um passo a frente, com raiva no rosto. Foi interrompido por Inseyftal que colocou uma mão no seu peito.

– A razão pela qual dei minha vida mais de uma vez nesta guerra, foi porque pela primeira vez em dez anos, me senti pertencido. Senti que tinha um lar, mesmo negando esse sentimento que se criava bem fundo no meu âmago. Fui bem recebido por Abwn, que me lembrou muito um velho conhecido... fui tão bem tratado por Mael, que foi um péssimo professor, mas um ótimo amigo... quase um irmão.

Seu olhar se virou para aqueles vitanti. Ele deixou que suas palavras se assentassem, e pensou nas próximas que diria. Respirou fundo, decidido.

– Decidi lutar pois vi que ninguém tinha o direito de tomar o lar do outro, de chegar e macula-lo. Decidi lutar quando vi meu próprio povo fazendo o que sabe de melhor: destruir e guerrear. Decidi lutar pois quis defender algo importante para mim, mas mais do que isso, importante para as pessoas que me acolheram. – Seu olhar pousou em Fioled, que estava desmaiada há poucos metros. – Eu decidi lutar, e aceitei meu destino no exato momento em que fui à guerra. Isso pode custar minha vida outra vez, mas morrerei de bom grado se tiver a plena certeza de que fiz todo o meu possível para proteger a próxima geração de vocês.

Arjuani enxugou uma lágrima. Alguns vitanti companheiros de Kai de alguma data como os púrpuros, sorriram. Inseyftal assentiu, um misto de emoções riscando sua face.

O olhar de Kai recaiu sobre Mael, que encarava o nada.

– E para que possamos expulsar essa praga daqui, vamos precisar do nosso líder... do nosso Príncipe do Éter.

O homem ergueu os olhos, brilhantes. O canto de sua boca tremeu.

Acho que eu que deveria dizer essas palavras... pensou, sorrindo para si.

Se ergueu num pulo e olhou para cima, decidido.

– Que é que você precisa que façamos?



***


Greylous gargalhava enquanto encarava a árvore queimar. Agora tinha certeza de que os corações deles haviam se quebrado.

Notou uma presença às suas costas. Se virou e Mael pairava há poucos metros.

Uma gargalhada serrilhada saiu de sua garganta, cortando o ar.

– Vejo que desistir não é o ponto negativo dos vitanti, hã?

Mael abriu o braço esquerdo, cansado.

– Não pode nos julgar por tentar.

– Eu deveria tê-lo matado assim que cheguei aqui, isso sim. Pensei que deixá-lo vivo para ver a morte deles um por um seria... como dizem hoje em dia?! Hum... teatral. Confesso que foi uma atitude tola, causou em você a vã sensação de que poderia me derrotar.

Mael aguardou a voz do xamã cair.

– Mesmo que me matasse, haveriam pessoas com a chama da esperança viva. Mesmo que nos execrasse aqui e agora, haveria alguém que o impediria, que mandaria você de volta para o inferno de onde nunca deveria ter saído.

Greylous gargalhou.

– E por alguém você quer dizer o menino Stone. Devemos admitir a realidade, Mael... ele não me derrotaria nem em mil anos. São muitos “e se”.

O canto da boca do vitanti tremulou.

– Não deveria duvidar da força de vontade daquele rapaz, xamã. Eu o vi ir do fundo do poço até o topo... uma escalada dura e torturante. Mas ele tem um espírito forte, um garoto... não, um homem... justo. Kai é o pilar da nova geração, e eu o ajudarei a manter os tempos de paz.

– Pilar? HAHAHAHA. Eu admiro sua devoção para com aquele garoto, mas se você saísse por aí ao redor desses reinos encontraria meia dúzia de garotos ascendendo com mais poder do que ele.

Mael suspirou.

– Acredite, eu saí. E tudo o que vi foram garotos e garotas tão arrogantes que beirava o ridículo. Poderia contar nos dedos jovens da idade dele possuindo o mesmo que Kai.

– E o que seria?

– Um coração justo e bondoso. Kai é o tipo de homem que não se assenta até que possa resolver algo que o incomoda. Ele não faz vista grossa para as crueldades do mundo. Não é alguém que apenas diz, ele vai e faz. Reconheço que ele é duro às vezes e que por vezes pareça ser forçado a fazer as coisas. Mas ele não é alguém controlável; é um homem sincero e que faria de tudo por aqueles que ama.

Greylous pendeu a cabeça para o lado e sorriu.

– Que fofo! Quando é o casamento?

– Você não saberia o que é isso, Greylous. Poderia massacrar meu povo, mas perderia eternamente para Kai.

O xamã soltou uma risada seca.

– PERDER? EU sou o xamã Greylous, menor. Possuo tanto poder que nem o mais forte de vocês foi páreo para mim. Eu controlarei o mundo, e vocês beijarão meus pés.

Mael fechou o punho e bateu-o contra o peito.

– Eu sei a sua fraqueza. – Disse, ignorando as palavras do xamã.

– Fraqueza? Você se ouve?

Mael assentiu.

– E qual seria? – Disse abrindo os braços.

– O medo de estar sozinho para sempre... o medo irremediável de morrer. É por isso que ficou fascinado com Kai, pois ele mesmo diante da morte não a temeu.

– Não a temeu? – Indagou, irônico. – Ele implorou diversas vezes, pranteou.

– Mas não foi por ele, Greylous, e isso você não entende. – Mael se virou abruptamente para trás e gritou: – AGORA!

Aturdido, Greylous observou o céu se partir em dois enquanto um enorme pilar de vento – menor do que a lança feita por Pelydryn, se formar nos céus. Olhou para baixo e notou meia dúzia de vitanti erguendo as mãos para o alto, conjurando o pilar. Dentro, diversas lâminas cortantes rebatiam umas nas outras.

– Isso de novo? – Indagou ele, sorrindo. – Por que você acha que isso me afetaria agora? Não viu como me regenerei da outra vez?

– Essa é a ideia.

Greylous franziu o cenho, ciente de que havia algo de errado. Olhou para baixo, na direção onde deixara Kai. Havia sumido. A conversa foi uma distração, o pilar de vento com certeza também era.

– Está pensando em me derrotar por meio da surpresa, não é?! Desista, é inu...

Uma espada se projetou para fora de seu peito, rasgando ossos, músculos, carne, pele e tecido. Ele cerrou os dentes, cuspindo sangue.

A figura de Mael à sua frente sumiu. Olhando por cima do ombro, viu o general à suas costas segurando a espada.

Projeção Astral...

Tentou, inutilmente, de todas as formas conjurar éter para restaurar a ferida. A energia não o respondia de jeito algum.

– Talvez isso retarde sua cura... agora é com você, Kai... – Disse Mael um segundo antes de sumir, deixando a espada enfiada no peito de Greylous.

O xamã ergueu o rosto, o pilar de vento há poucos centímetros dele. Ao ser pego pelo feitiço, ela explodiu, lançando todas as pequenas lâminas em direções diversas. Greylous foi fatiado tantas vezes que perdeu membros essenciais.

Quando o feitiço acabou, ele flutuou até o chão, sem um braço, sem uma perna e o rosto todo rasgado. A espada enfiada em suas costas de alguma forma estava impedindo-o de se curar. E não era só isso: também anulava a energia do éter.

Ele respirou fundo e quebrou a lâmina, removendo o cabo espada por trás.

Iniciou a lenta regeneração, ainda aturdido pelo feitiço e pela espada. Antes que seu braço pudesse se regenerar por completo, um disco de energia transparente surgiu, arrancando-o na altura do cotovelo.

Foi rapidamente cercado por meia dúzia de vitanti.

Um deles atacou, o punho exalando éter. Direcionou o golpe para o rosto do xamã que desviou, mas conseguiu arranhar sua face que se regenerava lentamente.

Greylous balançou os dedos e cordas verdes surgiram do chão, amarrando a cintura do vitanti. Gelo se formou a partir dos pés deste, cobrindo-o inteiramente, bem como a corda, que se estilhaçou imediatamente.

O vitanti coberto por gelo atacou outra vez. Doze espirais de gelo se formaram a partir do nada girando em torno de si mesmas. Elas caíram sobre Greylous; sete empalaram-no, o restante foi desviado por um escudo que ele conseguiu conjurar às pressas.

Sob seus gritos, os outros vitanti atacaram, cada um manipulando um elemento natural. Ataques de fogo, terra, vento e água explodiram em Greylous.

Ele gritou, encurralado. A espada tinha atordoado ele, e agora seu processo de cura era lento, bem como o de reação. Girando no eixo, formou uma ventania e um vendaval verde bruxuleante.

Os guerreiros vitanti prontamente atacaram, conjurando mais feitiços, que impediram a resposta de Greylous.

Quando o primeiro vitanti se aproximou, a mão regenerada do xamã surgiu, agarrando-o pelo pescoço. Seu corpo secou, como se drenado.

O rosto do xamã surgiu sobre a névoa, se regenerando mais rápido. O vitanti do gelo formou uma lança, partindo para cima.

Trocaram golpes rapidamente, com o vitanti se saindo bem em não ser atingido. Sabia que se fosse pego, teria o mesmo destino do amigo.

Girou a lança rapidamente e desviou das mãos do xamã com um mortal para o lado. Esticou a lança e conseguiu rasgar o rosto raivoso de Greylous.

Quando o sangue espirrou, se tornou uma fina linha no ar, tomando o tamanho de uma flecha. A flecha de sangue reagiu ao olhar de Greylous, indo em direção para onde ele olhava.

– Manipulação de sangue...? – Praguejou um dos vitanti.

A flecha percorreu rapidamente o caminho até os soldados que conheciam a razão. Aquele era um antigo grupo de Púrpuros, velhos e conhecedores da razão. Sabiam que não eram páreos e que provavelmente morreriam, mas não puderam deixar de sentir medo diante da morte.

A flecha atravessou o peito do primeiro, fez uma curva arqueada e foi na direção do segundo. Depois no terceiro, que colocou um antebraço na frente de um ponto crítico, prestes a ser atingido.

A flecha se desfez quando a lança feita de gelo perfurou a coxa de Greylous, quebrando sua concentração. Ele gritou, se virando e agarrando o pescoço do vitanti do gelo. Começava a drenar sua força vital quando sentiu uma dor excruciante na barriga.

Olhou para baixo e viu uma lâmina etérea lhe perfurando, o rosto do vitanti amedrontado demais, mas corajoso o bastante para reagir.

Outra adaga, feita de um material sólido, atingiu o xamã na região do trapézio. Greylous se sentiu fraco, a sensação ardente de não conseguir se regenerar o atingindo novamente. Isso não o mataria, mas iria impossibilitá-lo e muito.

Ele gritou, drenando a energia vital dos vitanti que o cercavam. Seu grito gerou uma aura de névoa, feito uma cúpula se expandindo para cima.

A fraqueza o atingiu, mas havia conseguido se livrar daqueles vermes. Quando ia remover a adaga de seu pescoço, sentiu um frio indistinto em sua espinha. Era como se uma fera o espreitasse, uma besta.

Foi a primeira vez que teve medo desde que... desde que era humano.

Olhou por cima do ombro e atrás dele Kai se erguia sobre si, concentrado e amedrontador. O rosto sombrio, os olhos negros frios e sedentos por sangue.

Em suas mãos, havia uma espada que causou mais arrepios ainda em Greylous. Ele sabia, ela não era uma espada comum.

Tinha cabo duplo, com protetor de mão longo. Sua lâmina era de fio duplo, que se alongava na base e afinava à medida que ia até a ponta. O cumprimento era de 90 cm, mas com a luz do sol batendo nela, pareceu ser maior do que qualquer espada.

Ela exalava uma aura, uma energia... era como se estivesse viva, e Greylous soube que corria perigo. Antes que pudesse reagir, Kai apertou as duas mãos ao redor do cabo e desceu-a diagonalmente.

Kai acertou Greylous no ombro e desceu a espada até sua cintura, como faca na manteiga, enquanto sua lâmina chiava e exalava auras de chi puro.

O xamã foi partido ao meio e, conforme perdia sua consciência, Kai ganhava mais e mais confiança. A vitória era sentida por seu coração pulsante e pela lâmina cruel de sua espada do Amanhecer. 



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