Volume 1

Capítulo 47: GREYLOUS, O REI DOS PESADELOS

Desde o início da batalha, aquela foi a primeira vez em que Mael parou para pensar em uma coisa: como tinham conseguido passar pelo escudo protetor dos postos avançados?

Ele olhou para o campo abaixo. Apesar das poucas perdas, ainda haviam muitos vitanti mortos. Assim como estes, outros haviam morrido, dado a vida em troca do escudo ser ativado. Inclusive Erde, um de seus melhores amigos.

Então seu olhar se voltou para a figura imponente logo acima, pairando acima de todos, exalando ar de superioridade e uma aura tão poderosa quanto qualquer uma que ele pudesse ter topado por aí. Pelo menos era uma aura maligna, maliciosa. E tudo fez sentido.

Se um ser como aquele estava do lado de lá, tudo poderia ser possível, até mesmo destruir um escudo criado há mais de séculos e refeito só agora, no ápice das batalhas.

Seu olhar voltou-se para Pele-pétrea, cujo corpo estatelado no chão já havia derramado sangue o suficiente. Aquela criatura, que era covarde por demais, não teria forças nem para se levantar contra um vitanti da unidade Púrpura, avalie para um exército inteiro. Mas, novamente, seu olhar pousou naquela figura imponente, sem qualquer carisma em sua face.

Com ele ao seu lado, essas coisas eram possíveis.

E quem poderia dizer o contrário?

Greylous permanecia inalterado, estático no ar, como se estivesse em pé no chão firme. O vento uivava, ondulando suas vestes negras, tilintando os cordões de contas de ossos de pequenos animais. Os cabelos negros de seu hospedeiro magro ondulavam igualmente. Os olhos, antes negros e profundos, agora revelavam um vermelho sombrio, quase carmim, da cor de sangue.

Seus dedos, longos e nodosos, eram negros da ponta até a articulação. Os pulsos eram repletos de mais pulseiras com contas redondas, brancos como ossos.

Não era mais Kai Stone, o rapaz que fora feito prisioneiro pelo finado Gorila de pelo cinza. Que aprendeu uma energia desconhecida em poucos meses e mostrou tanta evolução, tanta chama nos olhos, tanto prazer de se levantar. Que por vezes e vezes foi contra tudo o que diziam de si, e superou não apenas suas expectativas, como a de terceiros. Que deu a vida por alguém que lhe considerava um amigo.

Agora era apenas Greylous.

Ele ergueu uma mão, sorrindo. Flutuou lentamente até o pedestal onde Mael se encontrava com Saanp e o agora transformado em árvore, Jimothy.

Saanp se pôs a frente de Mael quando notou que o general permaneceu estático, hesitante.

– Quem é você? – Indagou, abrindo os olhos amendoados em muito tempo. Tinha uma feição séria.

Não houve resposta alguma. Greylous pousou e encarou suas mãos, um sorriso doentio em seu rosto. Levantou a cabeça, encarando Pele-pétrea e os magos caídos no chão.

– Sabia que os humanos haviam enfraquecido – Sua voz soou grave e imponente, como se a cada sílaba dita, sua aura saísse, opressora. – mas isso beira o patético. Esperava que pudessem ser tão fortes quanto o garoto.

– O garoto que eu derrotei, mestre. – A voz de Jim veio de trás dos vitanti, repleta de idolatria e uma ofensa reprimida.

Greylous não se deu o trabalho de olhá-lo.

– E pelo que me lembro bem, ele já estava quase esgotado de energia... sem o tal chi. Foi necessário quase um pelotão de vocês.

– Éramos em apenas seis...

– Calado. – A voz de Greylous saiu irritada. A ordem foi tão imediata que Jim calou-se logo, como se um zíper tivesse sido fechado.

Greylous começou a caminhar na direção de Mael. Saanp se colocou a frente, erguendo a palma da mão esquerda.

– Pare, diga quem é.

Uma sobrancelha de Greylous se ergueu, despreocupado e alheio àqueles a sua volta.

– Saia. – Disse, com um floreio de mão como quem espanta um mosquito.

Não aconteceu imediatamente, mas, como se houvesse uma força invisível, Saanp foi empurrado lentamente campo abaixo, flutuando no início, até que ganhou tanta velocidade que ao atingir o solo, gerou um enorme estrondo.

Greylous olhou para sua mão, irritado.

– Parece que ainda não possuo o total de minhas forças. Mas há de bastar por enquanto.

Ele estalou os dedos, e a árvore que envolvia Jim se desfez aos poucos, murchando e se tornando as raízes secas de antes.

Mael encarou, estupefato.

Jimothy caiu de joelhos no chão, choroso, e logo se levantou, correndo para ficar frente a frente com seu mestre.

– Ó, mestre, tão piedoso, tão bondoso com este servo. Mesmo que eu tenha falhado, ainda assim me dá uma segunda chance.

Greylous, que encarou Mael com escarnio, abriu a boca, mas não disse nada. Apenas sorriu e deixou o vento uivar.

– Cães tendem a ser cães para a vida toda; os porcos comem farelo, com a finalidade de crescer e se tornarem grandes o suficiente para matar a fartura daqueles que os criam. – Mael entendeu o que ele quis dizer. Não considerava Jim mais do que um fazendeiro considera sua galinha que põe ovos.

O xamã virou o olhar para Jim, que estava ajoelhado beijando seus pés.

– Agora diga que fez algo certo e que se saiu bem em pelo menos uma das coisas que lhe incumbi.

Jim ergueu o rosto, os olhos vermelhos de chorar.

– Ó, mestre, eles se provaram mais resistentes do que o esperado. Ordenei, em nome do senhor, que seu líder viesse até mim, mas isso não aconteceu. Resistiram até o fim.

Greylous piscou, erguendo a cabeça e acariciando a de Jim, que lhe abraçou, os olhos fechados.

– Não o culpo. Afinal, ordenei que alguém semelhante a um asno capturasse a figura relativa a um deus. Tomo teu erro como meu.

– Ó, mestre, tão piedoso, misericordioso. Tenho certeza de que assim que conseguir seu objetivo, poderá finalmente reviver meu irmão.

O vento uivou, Mael encarando aquela cena com imensa descrença.

O tempo passou e, lentamente, a risada de Greylous começou a ecoar. Era como se serras estivessem se riscando.

Jim começou a rir também, entregue totalmente a loucura.

– Isso seria impossível, pequeno asno.

Jim parou de rir lentamente, olhando para seu mestre com dúvida estampada.

– M-mas mestre... o senhor prometeu...

– Acredite, sei o que prometi, asno. No entanto, isso não significava que iria cumprir. É impossível reviver os mortos.

Jim soltou seu mestre, caindo sobre os joelhos, incrédulo.

– Ma-ma-mas e seu pla-plano... co-como pla-planejava criar o maior exército do mundo?

Greylous sorriu.

– Eu fui, há muitos séculos, aquele que chamavam de O Senhor dos Mortos. Fui chamado de Necromante; de Marwolaeth e até de Arauto das Potestades. Mas a minha alcunha, veja bem... minha alcunha é apenas uma. O Rei dos Pesadelos. Eu não vou criar um exército, porque não preciso de um. Não preciso de pessoas vivas... tudo o que preciso, é delas mortas, perdidas, esquecidas, afundando em sonhos e pesadelos. O que preciso, é de caos... e eu já me cansei de você.

Greylous esticou a mão direita, os dedos apontados para cima em forma de garras, e ergueu-a, puxando algo invisível. Lentamente, Jim foi ficando pálido. Ele levou as mãos ao pescoço, sufocando. Sua respiração ficou ofegante quando algo começou a sair de seu rosto. Parecia-se com um lenço, um véu sendo puxado.

O xamã manteve seu sorriso doentio, puxando a mão lentamente para cima. À medida que o véu era sugado para fora de Jim, ele perdia sua cor, o brio de seus olhos. Até que parou repentinamente, seu corpo caindo com um baque surdo, seco, sem vida, morto.

Mael encarou a cena com um rosto totalmente apavorado.

Greylous inalou todo o véu que ganhara um aspecto gasoso. Quando acabou, seus olhos estavam mais vívidos. Ele havia sugado a alma de Jim.

Seu olhar caiu sobre Mael.

Era assim que sua magia funcionava. Precisava causar pânico, pavor, para que pudesse consumir a alma das suas vítimas.

Sacando a espada e deixando que éter fluísse pela lâmina, Mael se pôs em pose de batalha.

– Uma troca justa? – Indagou Greylous, esticando a mão para Tomen e fazendo o mesmo processo que acabara de fazer com Jim.

A alma que estava no corpo dele foi consumida mais rapidamente, talvez por não o pertencer. E tinha uma tonalidade mais escura.

– Por que precisa do meu pai?

O xamã deixou que a pergunta caísse, causando um silêncio tenso.

– Acredito que não devo detalhes de meus planos a ti, vitanti.

Ele sorriu, esticando o braço, a mão fechada num punho, e uma onda de choque de energia foi lançada, pulverizando o próprio ar.

Mael ergueu a espada bem a tempo de ser atingido no peito, mas não conseguiu evitar de ser lançado mais longe do que Saanp.

Quando a onda de choque de energia cessou, Greylous encarou o punho, que perdia a cor dourada que era adquirida ao disparar aquele feitiço, tornando novamente negro como se estivesse gangrenando.

– Esse garoto tinha truques formidáveis.

O ar se partiu, o vento uivou. Desviando para a direita, Greylous encarou um rapaz que apareceu na esquerda atacando com uma haste envolta em eletricidade.

Pelydryn girou a haste e também no próprio eixo, tentando acertar o calcanhar na altura do rosto do xamã.

Este se agachou e pulou para trás. Segundos depois dois cortes imensos apareceram no chão onde ele estava.

Se ergueu e encarou o rapaz ao lado de uma bela moça de cabelo ralo.

– Mil anos na dimensão do caos não foram capazes de me tirar o gosto por vocês, lindas mulheres.

Inseyftal sorriu, ignorando o comentário.

Pelydryn diminuiu o espaço, atacando o flanco de Greylous, enquanto que a general permaneceu a distância.

Greylous desviou com louvor das investidas revestidas de eletricidade do jovem rapaz e dos ataques invisíveis da moça.

Pelydryn perfurou na altura da cabeça. O xamã esquivou e acertou um soco no esterno do rapaz. Depois deu outro soco e uma joelhada.

O vitanti tentou defender da maneira que era capaz, mas foi golpeado no queixo, embaçando sua visão.

Greylous diminuiu espaço entre ele e Inseyftal, as mãos abertas e o sorriso escancarado.

Ela não fugiu. Iniciaram uma troca de golpes de palma aberta. Quase sempre ela era bloqueada, fosse num golpe onde ele parecia estar totalmente com a guarda aberta, fosse num onde parecia estar distraído.

Trocaram chutes e socos, o xamã sempre desviando dos que eram direcionados à sua cabeça e respondendo com chutes firmes no esterno e no abdome.

Pelydryn apareceu às costas do xamã numa velocidade absurda quando Inseyftal achou uma brecha no seu plexo solar. A haste estava envolta de fogo e eletricidade, uma estática absurda envolvendo a lâmina.

Mas o Rei dos Pesadelos viu o ataque; num rápido movimento ele estapeou a face esquerda de Inseyftal, desestabilizando-a e, com a mão direita, desviou a haste que estalava e piscava em direção à coxa da mulher, que berrou quando a lâmina fez um corte profundo na parte interna.

Pelydryn arregalou os olhos. Com a mesma mão, Greylous agarrou o cabo da haste e puxou para perto, trazendo o cotovelo esquerdo e acertando o rosto do rapaz em cheio.

A magia envolvendo a haste se desfez, e Greylous a encarou, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Observou o material cujo era feito e observou a lâmina, repleta de algumas inscrições em viteni.

A GRAÇA DE BULOGG SEJA SEMPRE SEU GUIA. – Ele leu, pausadamente. – Bastante genérico.

A haste começou a vibrar em sua mão, querendo sair. Ele estranhou que não estivesse conseguindo anular suas propriedades mágicas, e abriu os dedos.

Ela girou compulsivamente até parar na mão de Pelydryn, que estava de joelhos e ofegando muito. Sangue pingava por seu nariz.

– Estranhei quando vi você atacando Mael. Pensei: Ué, não foi esse moleque que eles fizeram tanta questão?! Mas lembrei que você estava morto... agora me diga: como está vivo, Stone? E como está tão forte?

– É simples. Ele não é Kai. É Greylous, o líder do exército. – Disse Mael, pousando na borda do pedestal, sem óculos e o com um braço direito feito de luz. – Achei que isso já estivesse claro para você e Saanp.

– Não estava. – Concluiu Saanp, aparecendo repentinamente ao lado de Mael. Parte da sua roupa estava chamuscada, revelando músculos e tatuagens de origem vitanti. – É nosso inimigo final, portanto.

– Isso deixa as coisas mais fáceis, então. – Falou Pelydryn, retirando a cota de malha e ficando apenas com uma roupa de tecido leve. – Ainda consegue lutar, Inseyftal?

– Mas é claro – disse a moça, se levantando e fazendo uma leve careta. Ela rasgou um pedaço de seu vestido vermelho de flores amarelas e enfaixou na coxa. Éter se reuniu ali, Greylous percebeu. – Eu não perderia isso por nada.

Os quatro liberaram energias tão opressoras quanto a de Greylous, a de Mael, que era o mais debilitado, sendo a maior delas.

– Então vamos. – Gritou ele.

E os quatro atacaram. 



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