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Capítulo 11: "Apegada ao Passado"

"Cheguei!"

E assim, sendo puxado pela mão por Sana-chan, acabei visitando a casa de Misuzu-chan. Ao contrário de mim, que moro em um apartamento, ela aparentemente vivia em uma casa térrea bem espaçosa.

Misuzu-chan destrancou a fechadura e abriu a porta da frente. Assim que Sana-chan anunciou sua chegada com toda aquela energia — "Bem-vinda de volta~!" — Tof, tof, tof — Kamijou-san desceu as escadas correndo, exibindo um sorriso bobo e completamente derretido de amor pela irmã.

É... definitivamente, ela parece outra pessoa fora da escola.

No entanto—

"Hã?!"

A minha aluna, que estava com o rosto todo amolecido pela fofura da irmãzinha, congelou no ato assim que notou a minha presença.

Não sei se foi pelo choque de ver alguém que não deveria estar ali dentro de sua casa, ou se foi por ter sido flagrada exibindo uma faceta que ela jamais queria que eu visse... Provavelmente, foram as duas coisas.

"Maninha, cheguei!"

Ignorando o choque de Kamijou-san, Sana-chan a cumprimentou com um sorriso e — como se estivesse se gabando —, soltou a minha mão apenas para se agarrar com força ao meu braço logo em seguida.

"O-O-O que o senhor está fazendo aqui?!" 

"Bem... acho que se você olhar para isso, vai entender..."

Diante de uma Kamijou-san completamente desnorteada e com o rosto corando de vergonha, que me cobrava uma explicação sobre o porquê de eu estar em sua casa, apenas desviei o olhar para a garotinha agarrada ao meu braço direito. Sana-chan estava radiante por ter conseguido me trazer até ali e esfregava a bochecha no meu braço, me mimando ao extremo.

Olhando para essa cena, mesmo sem saber o que aconteceu no meio do caminho, qualquer um conseguiria deduzir a situação.

"Mas para começo de conversa, por que vocês se encontraram...?!"

Contudo, Kamijou-san não parecia disposta a aceitar a situação tão facilmente, já que nada disso teria acontecido se não tivéssemos nos cruzado antes. Na verdade, a dúvida dela era perfeitamente justa.

"Eu estava pensando na praça quando a Sana-chan veio falar comigo..." 

"Pelo visto, somos vizinhos de bairro."

Deixando-me para trás enquanto eu era bombardeado de perguntas por Kamijou-san, Misuzu-chan tirou os sapatos e entrou na casa. Como ela havia dito, a casa delas ficava a um pulo de distância do prédio do meu apartamento.

Com razão eu vivia cruzando com elas no supermercado e na praça...

A propósito, Misuzu-chan. Quando você fala com a sua filha, você usa aquele tom doce e gentil de antigamente, não é? Por que será que comigo você é tão ríspida e cheia de espinhos?

Senti uma vontade imensa de perguntar isso, mas como a chance dela ficar brava era grande, preferi morder a língua e não dizer nenhuma besteira.

"O senhor... por acaso não está stalkeando ela por não ter superado a época do colégio, está...?" 

"Eu sei que não tenho muita moral com você, mas é claro que eu não faria isso... Como eu acabei de dizer, quem veio falar comigo foi a Sana-chan. E para início de conversa, eu nem sabia onde a Misuzu-chan estava morando atualmente."

Afinal, fazia quase dez anos que não nos abríamos. Esta casa também era totalmente diferente de onde Misuzu-chan morava no passado, e não ficava nem perto da região onde vivíamos na época do colégio. Como a minha amiga de infância é a melhor amiga dela, se eu quisesse muito, até poderia ter descoberto o paradeiro dela, mas eu não era um homem tão apegado ao passado a esse ponto.

"...Bem, quem não conseguiu cortar os laços do passado provavelmente foi ela..."

Ao ouvir minhas palavras, Kamijou-san por algum motivo baixou a cabeça e murmurou algo baixinho. No entanto, pela distância entre nós e pelo tom de voz quase inaudível dela, não consegui decifrar o que foi dito.

"Desculpe, o que você disse?" 

"Nada. Só estava pensando em como mandar para o além um certo professor que vive testemunhando os meus momentos mais vergonhosos." 

"Esse seu pensamento não é violento demais?!"

Por que será que eu, um professor, preciso ter a minha vida ameaçada pela minha própria aluna...?! No momento em que pisei na casa da minha ex-namorada, eu já tinha aceitado que enfrentaria um clima desconfortável, mas jamais imaginei que o verdadeiro perigo viria da filha dela.

"Maninha, não pode ser má com o irmãozão!"

Enquanto eu era encurralado por Kamijou-san, Sana-chan, que assistia à nossa interação em silêncio, de repente inflou as bochechas e brigou com a irmã mais velha. Pelo visto, a pequena estava do meu lado.

"A Sana... me odeia agora...?!"

E, para a surpresa de ninguém, o golpe atingiu em cheio o psicológico de Kamijou-san.

Essa garota, quando estamos fora da escola ou da sala de aula, acaba se revelando uma figura bem divertida na vida privada... Mesmo quando estamos a sós, ela costuma soltar algumas piadas inesperadas.

...Eram piadas, certo? Ela não estava falando sério sobre me mandar para o além, estava...? Como eu ainda não conseguia decifrar totalmente as intenções de Kamijou-san, fiquei um pouco preocupado.

"Sana se apegou muito ao Shirasaki-san, então se você não tomar cuidado, vai acabar transformando ela em sua inimiga, sabia?"

Enquanto conversávamos, Misuzu-chan retornou trazendo consigo uma sacola de lona e uma bolsa feminina pequena.

"Iludir uma criança inocente assim... E o senhor ainda se diz um educador...?!"

Assim que ouviu o alerta de Misuzu-chan, Kamijou-san voltou a descontar sua frustração em mim.

"Dá para parar de falar como se eu fosse um criminoso?! Eu não fiz nada disso!"

Eu simplesmente fui mimado e adorado por ela sem entender o motivo!

Enquanto eu retrucava, ao meu lado, Misuzu-chan começou a calçar os sapatos novamente.

"Você vai sair?" 

"Ainda não fiz as compras para o jantar."

"Ah... então, se quiser, eu posso ir junto para carregar as sacolas..." 

"E se alguém nos vir caminhando juntos e tirar conclusões erradas? Por favor, Shirasaki-san, fique aqui e tome conta da Sana e da irmã."

Certamente, se eu fosse junto com ela, haveria o risco de alguém suspeitar de um caso extraconjugal. E a posição de um professor saindo com a responsável de uma aluna também seria muito malvista.

Eu conseguia entender perfeitamente o argumento de Misuzu-chan, mas... ela continuava sendo implacável comigo.

Além disso, Kamijou-san estava guardando um tremendo rancor de mim, não apenas por eu ter visto seu lado embaraçoso, mas também porque Sana-chan havia tomado o meu partido. Ficar sozinho com ela era a última coisa que eu queria naquele momento.

Obviamente, Kamijou-san não fez menção de acompanhar a mãe nas compras e, com Sana-chan ainda grudada ao meu braço, fui conduzido por ela direto para a sala de estar.

 

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