Volume 1

Capítulo 9: Quatro Pratos

O som de madeira contra madeira cortava o ar do pátio.

Clac.  

Clac.  

Clac.

A luz do dia ainda era pálida, presa atrás de nuvens pesadas. O vento levava poeira fina misturada ao cheiro de terra úmida. O chão mostrava marcas de passos, arranhões e quedas — como se o corpo insistisse em aprender o que a mente ainda não alcançava.

Glenn se movia com a espada de madeira nas mãos. O suor escorria pelo pescoço, colando a camisa ao peito. A respiração vinha alta, irregular. Ele tentava manter o ritmo.

Reynolds estava à frente. O braço direito seguia enfaixado, preso ao tórax, inutilizado. Mesmo assim, os movimentos saíam firmes. Nenhum passo desperdiçado. Nenhum gesto fora de lugar.

— Vem — disse Reynolds, sem elevar a voz.

Glenn avançou.

O primeiro passo saiu pesado. O segundo veio apressado, tentando compensar. A espada cortou o ar num ângulo quase certo — quase — mas Reynolds inclinou o corpo. A madeira passou sem tocar nada.

O contra-golpe veio leve. Um toque na costela.  

Não para machucar.  

Para marcar.

Glenn apertou os dentes, respirou fundo e atacou outra vez.

Dessa vez, mirou no pulso. Reynolds girou o braço esquerdo, a espada subiu e prendeu a de Glenn pelo cabo. Um giro pequeno, preciso. A madeira escapou.

Clac.

— O tempo ainda tá errado — observou Reynolds.

Glenn recuou. O peito subia e descia rápido. 

— Eu sei.

— Saber não basta — disse Reynolds, ajustando os pés. — O corpo precisa saber junto.

Glenn arfou; o ar arranhava a garganta. Abaixou-se, pegou a espada. Firmou o pé, girou o quadril e lançou o golpe com o corpo inteiro. A madeira chocou-se contra a lâmina de Reynolds com um estalo seco, vibrando até o ombro. Glenn resistiu por um instante.

Reynolds respondeu com controle. Glenn tentou sustentar a pressão, jogou o peso no ombro e no peito, mas cedeu um segundo antes do necessário. A guarda se abriu. Num gesto limpo, Reynolds passou o cabo da espada atrás do joelho dele. Glenn caiu. O ar escapou num sopro.

Os pássaros voaram, por conta do barulho. O pátio parecia quieto demais.

Reynolds não se aproximou, não ofereceu a mão, não disse nada. Apenas esperou. Levantar fazia parte do treino.

Glenn empurrou o chão e se ergueu devagar. A espada pesava mais. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse tudo o resto.

— Chega por hoje — disse Reynolds.

Glenn soltou um riso curto, sem humor.  

— Perdi.

— Perdeu — confirmou Reynolds. — Mas acertou seis vezes.

Glenn ergueu o olhar, surpreso.

— Três semanas atrás, mal conseguia manter a postura — continuou Reynolds. — Agora respira com o golpe. Se move antes de pensar. Ajusta o peso sem perceber. Isso é muito. O corpo entende antes da cabeça aceitar.

Glenn olhou para a mão. Ainda tremia. 

— Então eu… melhorei?

Reynolds sorriu. Pequeno. Cansado. Real.  

— Glenn, você começou a se mover.

O vento cruzou o pátio, arrastando poeira leve. Nenhum dos dois falou. Reynolds se virou para a casa.  

— Vamos comer.

Glenn permaneceu por alguns segundos, olhando a espada. Sentiu o peso. Sentiu o próprio peso também.

Quando chegaram ao pé das escadas da casa, os dois pararam ao ouvir passos que vinham pelo caminho de terra. Um homem se aproximava com pressa, um maço de jornais enrolados debaixo do braço. Cumprimentou Reynolds com um aceno curto, quase automático, e entregou alguns exemplares.

— Entregas da capital. — murmurou, sem ficar tempo suficiente para conversa. Partiu logo depois, como se ainda tivesse outras casas para alcançar antes do meio-dia.

Reynolds segurou o jornal por um tempo antes de abri-lo. A luz do dia tocou o papel amarelado, revelando tinta fresca e manchetes grandes demais. Leu em silêncio, o olhar fixo, até soltar um suspiro lento. Em seguida, estendeu o jornal para Glenn.

Glenn se aproximou e pegou o jornal.

Na primeira página, a manchete ocupava quase todo o topo:

"Valeris Celebra Festival de Outono com Presença da Família Real"

“A capital Valeris recebeu milhares de visitantes durante o tradicional Festival de Outono. Música, danças e bandeiras douradas tomaram conta da praça principal, marcando o fim da colheita.

O Rei Hadrian Valerius, acompanhado da Rainha Seraphina e da princesa Kate, participou das celebrações. A presença da família real foi vista como um gesto de proximidade com o povo, reforçando a imagem de estabilidade em tempos incertos.

Fontes locais destacaram o entusiasmo popular e a recepção calorosa à princesa, chamada por muitos de “joia do reino”.

Glenn passou os olhos pelo texto sem realmente ler. A distância entre aquele mundo e o dele parecia tão grande que quase soava como mentira.

Virou a página.

Outro título, menor:

"Valeris e Ilvanor Reabrem Rota Comercial pelo Lago Central."  

“Acordo marca reaproximação entre os reinos após anos de distanciamento

O reino humano e élfico retomaram oficialmente o comércio pelo lago central, encerrando um longo período de relações interrompidas. A nova rota permitirá o intercâmbio de grãos, ervas e madeira encantada, fortalecendo os mercados locais.

O acordo é considerado um marco histórico, já que os dois reinos — há décadas afastados por desavenças diplomáticas — voltam a cooperar, ainda que apenas no setor comercial. Especialistas apontam que as previsões de colheitas fortes neste inverno podem consolidar a parceria e abrir espaço para futuras negociações.”

E então, mais abaixo, um bloco sem imagem, sem detalhes, sem tinta demais. Quase como se tentassem ocupar pouco espaço na página.

"Vila de Eloria sofre ataque desconhecido"  

“67 mortos. 70 feridos. 10 desaparecidos. Autoridades ainda investigam o ocorrido.”

Nenhuma explicação.  

Nenhum nome.  

Nenhum responsabilizado.  

Só números.

Como se fossem objetos.  

Como se fossem contáveis.  

Como se fossem substituíveis.

A garganta de Glenn secou.

Dobrou o jornal com cuidado — não por zelo com o papel, mas porque qualquer movimento brusco faria a raiva subir rápido demais.

Olhou para o lado.

Reynolds guardava as espadas no suporte da varanda. Os gestos eram calmos. Cuidadosos até demais.

Glenn não perguntou. Sabia que ele tinha lido. Sabia que tinha contado. Reynolds estivera lá, entre os escombros, tentando dar nome aos números.

Ainda assim, não disse nada.

Glenn deixou o jornal sobre a mesa. Soltou o ar devagar.

“Três semanas…”

A vila se movia como uma ferida tentando fechar. Casas queimadas recebiam vigas novas. Telhados improvisados surgiam onde antes havia só carvão. A fumaça já não subia. Só o cheiro antigo permanecia preso no ar.

Gente que perdeu casa ajudava quem não tinha onde ficar.  

Gente sem forças carregava madeira para quem não conseguia se levantar.

Ellie e o pai distribuíam mantimentos perto da praça — sacos de farinha, caixas pequenas, cobertores dobrados. Ela falava pouco. O sorriso era breve. Não fraco — apenas… cansado. Glenn a observava de longe, como sempre.

“Desde aquele dia, eu não falei com ela. Parece que estamos evitando isso.”

Os guardas enviados pelo rei mantinham-se nas entradas da vila. As armaduras reluziam sob o sol, as lanças imóveis como estátuas. Os rostos, lisos e impassíveis. Vieram com suprimentos, com promessas de paz. Mas desviavam o olhar antes que alguém pudesse encará-los de volta.

Reynolds terminou de guardar as espadas e se virou, enxugou o suor da testa com o antebraço. O sol batia forte.

— E aí… vai me ajudar a carregar madeira hoje de novo depois do almoço? — disse, como quem pergunta o óbvio.

Glenn levantou o olhar e assentiu. Um sorriso pequeno escapou, sem esforço, sem pensar.

Ao subir os degraus da varanda, o pensamento voltou.  

Sempre voltava.

"E ainda tem aquela garota de cabelos brancos... quem era ela?"

"Eu não entendi nada do que ela quis dizer... e até hoje ela não apareceu de novo..."

Nenhum sinal. Nenhuma pista. Como se fosse só um fragmento da própria noite.  

Glenn respirou e entrou atrás de Reynolds. O calor da cozinha veio primeiro — um vapor leve que não disfarçava o fato de que a comida era pouca. Vivian mexia a panela com lentidão, o rosto inclinado sobre o cheiro que subia. Tudo nela parecia quieto, mas não calmo. Só... preso.

Ela olhou quando eles entraram. Um olhar curto, quase automático. Depois voltou à panela.

Reynolds pendurou o casaco no prego da parede. Glenn ficou parado perto da mesa, ainda com a respiração presa do lado de fora. Não sabia se devia sentar. Não sabia se devia falar. Não sabia se tinha o direito de quebrar aquele momento.

A mesa estava posta.

Quatro pratos.

Não havia cuidado exagerado.  

Nem descuido.  

Era uma arrumação tão natural que parecia respirar por conta própria.

Por um instante, o estômago de Glenn subiu — como se o corpo tentasse avisar algo antes que a cabeça alcançasse. O ar entrou rápido demais no peito, e ele soltou devagar para não tremer.

Reynolds passou por ele, pegou a jarra d’água. Fingiu não ver. Não por frieza. Mas porque, se visse, teria que sentir também.

Vivian desligou o fogo.

Glenn puxou a cadeira devagar, com cuidado demais. Sentou em silêncio. As mãos repousaram no colo, imóveis.

Vivian não olhou para a mesa. Não precisava. Sabia exatamente onde cada prato estava. Tinha colocado todos ali, como fazia todos os dias. Sem errar o lugar. Sem hesitar. Sem questionar o vazio.

Reynolds apoiou o braço sobre a mesa. Respirou fundo, como quem já conhece esse silêncio e sabe que não existe palavra que caiba nele.

Glenn manteve os olhos baixos.

Ninguém falou.

Mas o quarto lugar estava ali.

Esperando.

Como se alguém pudesse voltar.

Vivian pegou a concha. Serviu o primeiro prato com movimentos lentos. Precisos. Reynolds observou por um instante, só o bastante pra notar o cuidado — cada porção medida com exatidão, como se todos ainda estivessem ali.

Glenn manteve os olhos na mesa. O som da concha raspando o fundo da panela parecia alto demais.

Segundo prato.

Terceiro.

Quando ela levou a concha ao quarto, Reynolds desviou o olhar. Sem pressa. Só virou o rosto, como quem já entendeu que não há conversa possível.

Glenn sentiu o peito apertar. Respirou fundo. Continuou olhando a madeira da mesa.

Vivian colocou o prato no lugar de sempre. Alinhado. Exato. 

— Comam antes de esfriar — ela disse.

A voz saiu limpa.

Reynolds assentiu. A mão apertou o copo com força demais. Glenn pegou a colher. Segurou. Não mexeu a sopa.

Vivian comeu. Reynolds também. Glenn tentou.  

A comida não parecia ter gosto.

...

O sol já começava a cair quando Glenn e Reynolds trabalhavam no telhado. O serrote ia e vinha, arrancando farpas finas e pó claro que flutuava no ar como neve suja.

Glenn mantinha a tábua firme, sentindo o peso nos ombros, o braço cansado demais para seu tamanho.

E mesmo com a mão enfaixada, Reynolds não parava — como se ignorassem a dor, os dedos que escapavam das ataduras serravam a madeira com pura teimosia.

O vilarejo não era o mesmo, mas tentava parecer. Martelos ao longe. Vozes baixas. Crianças que agora andavam em silêncio. Uma tentativa de normalidade que nunca se encaixava direito.

Foi quando ele a viu.

Ellie atravessava a rua com dois sacos de trigo nos ombros, o corpo inclinado para manter o equilíbrio. O cabelo estava preso alto, amarrado com um lenço simples. Algumas mechas soltas pela testa, molhadas de suor. A luz do fim da tarde deixava um brilho dourado nos fios.

Os olhares a seguiam. Sempre seguiam. Não porque ela buscava atenção — mas porque parecia que o mundo se arrumava ao redor dela, mesmo agora.

Glenn afrouxou sem perceber.  

Reynolds não olhou, mas sentiu.

— Segura direito — disse, sem tirar o ritmo do serrote.

Glenn ajustou a mão.  

Tarde demais pra disfarçar.

Reynolds parou. Encostou a serra na perna. O silêncio entre eles quase nunca incomodava — era parte do que tinham. Mas certas coisas só se diziam assim.

— Ela tá carregando peso demais — disse, cortando o pensamento de Glenn como quem comenta o tempo.

Glenn olhou de novo. Rápido demais pra fingir que não.

Reynolds baixou os olhos pra madeira.  

— Vai.

Glenn hesitou. O ar pareceu parar ao redor dele.  

As palavras vieram sem intenção:

— Eu não acho que ela...

Reynolds soltou um sopro curto. Um quase riso, seco, cortando Glenn no meio.

— Você lembra o que disse no treinamento? “O corpo sabe antes da cabeça aceitar.” Então para de pensar e deixa ele te levar até ela.

Glenn o encarou. Reynolds já voltava ao trabalho.

O telhado parecia mais alto do que antes.  

Ou talvez fosse só ele que estava menor.

Glenn respirou. Prendeu o ar. Soltou.

E desceu.

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