Volume 1
Capítulo 10: O Peso das Coisas
POV ELLIE
Três semanas haviam se passado desde o ataque.
As cinzas já tinham sido varridas, as paredes refeitas, e Eloria começava — aos poucos — a parecer viva de novo.
Ainda havia marcas nos muros, nos rostos, nas vozes… mas também havia risadas. E isso bastava para seguir.
O sol da tarde escorria pelos telhados, dourando as madeiras novas e as lonas improvisadas que cobriam os armazéns. O cheiro de pão fresco se misturava ao de terra molhada — o tipo de aroma que faz a vida parecer simples, mesmo quando não é.
Ellie ajeitou o lenço na cabeça e ergueu os sacos de grãos com um gemido baixo.
Eram dois — um em cada ombro — e pesavam como se cada um carregasse não só trigo, mas metade da vila junto.
"Devia ter pegado só um..."
Pensou, encolhendo os ombros.
"Mas aí o Taren ia me olhar com aquela cara de ‘eu disse que você não aguenta’..."
Ela bufou e seguiu adiante, os passos marcando o chão de pedra com o ritmo cansado.
Algumas pessoas acenaram quando ela passou.
— Ellie! — chamou um ferreiro, limpando o suor da testa. — Obrigado de novo pelas ervas, viu? A tosse da minha filha sumiu!
— Fico feliz, senhor Dorn! — respondeu ela, com o sorriso que aprendia a usar para disfarçar o cansaço.
Mais à frente, uma idosa curvada tentava equilibrar uma cesta de verduras.
— Deixe-me ajudá-la, senhora Rida! — disse Ellie, colocando um dos sacos no chão e correndo até ela.
— Ah, minha querida… — suspirou a velha, com um sorriso tremido. — Depois de tudo que aconteceu, ainda encontra forças pra cuidar dos outros… o mundo precisa de mais gente como você.
Ellie sorriu, sem jeito.
— O mundo precisa é de gente que não desiste, dona Rida. — e, mesmo cansada, ajeitou a cesta nos braços da mulher.
Ao voltar para o saco, o corpo reclamou. Os braços tremiam, os dedos doíam.
Ela forçou um riso, mas o som saiu fraco.
"Ótimo, Ellie. Agora carrega o peso dos sacos e ainda quer bancar a heroína..."
Enquanto caminhava, o pensamento se espalhou:
"Pelo menos outras vilas vieram ajudar… E até o rei mandou suprimentos. Talvez nem tudo esteja perdido."
Ela respirou fundo, tentando se convencer.
"É só uma fase. Tudo vai ficar bem."
Mas o corpo já não obedecia tão bem à mente.
Deu mais três passos — e parou.
O suor escorria pelo pescoço, o coração acelerado. Os sacos pareciam crescer a cada segundo.
"Um minuto só…"
Pensou em abaixar para ajustar o peso, mas ele cedeu, escorregou.
Antes que pudesse reagir, uma mão segurou por trás — firme, estável.
O peso sumiu do ombro dela de uma vez.
Ela se virou, surpresa. Glenn estava ali. Segurava os dois sacos como se fossem leves, o olhar tranquilo, mas distante — como alguém que voltou a um lugar que conhece demais, e ainda assim não sabe se devia estar ali.
Por um instante, Ellie só conseguiu encarar.
Tinha esquecido como era vê-lo de perto.
— Você ainda tenta carregar tudo sozinha, né? — disse ele, quebrando o silêncio.
Ela piscou, a voz engasgando antes de sair.
— Eu… não queria incomodar ninguém.
Glenn soltou um meio sorriso, sem ironia — um sorriso cansado.
— A vila toda tá se ajudando, Ellie. Ninguém ia se incomodar.
Ela olhou para o chão, sentindo o rosto esquentar.
— Eu sei… é só costume.
Ele não respondeu de imediato. Apenas ajeitou os sacos nos ombros e olhou em volta.
O som das marteladas e risadas ao longe preenchia o vazio entre eles.
— Tão reconstruindo rápido. — murmurou. — Achei que ainda estaria tudo… pior.
— Todo mundo quis ocupar a cabeça — disse Ellie, baixinho. — Ficar parado dói mais.
Ele assentiu, o olhar voltando para ela por um breve instante.
— É. Dói mesmo.
O silêncio que seguiu foi simples, até confortável. Não havia nada para explicar, nem desculpas a dizer — só o peso leve da presença um do outro, que, de algum modo, bastava.
Ellie respirou fundo, tentando parecer despreocupada.
— Vai ficar com dor nas costas se carregar os dois sozinho.
Glenn ergueu uma sobrancelha.
— Eu carrego menos peso que você todo dia.
Ela riu — de verdade, pela primeira vez em semanas. O som pareceu estranho, bonito, vivo. Glenn também riu, um riso curto, quase aliviado.
— Vamos — disse ele, enfim. — Levo até o armazém.
— Tá bom… mas depois é minha vez de ajudar alguém. — respondeu ela, meio séria, meio sorrindo.
— Combinado. — disse ele, e os dois seguiram lado a lado, em silêncio.
O armazém ficava no fim da rua principal, cercado por barris, cestos e o cheiro doce de grãos recém-colhidos.
O vento fazia o pó dançar na luz que entrava pelas frestas, e o som das carroças ecoava distante, junto ao barulho das marteladas da reconstrução.
Taren estava lá dentro, encostado numa pilha de caixas, com uma prancheta nas mãos.
Era um rapaz alto, de ombros largos e expressão tranquila, o cabelo castanho preso num coque malfeito e o avental coberto de pó.
Quando viu Ellie se aproximar, arqueou uma sobrancelha, meio divertido.
— Eu sabia que você não ia aguentar — disse, com um sorriso de canto.
Ellie tentou rir, sem muita graça.
— Eu estava indo bem… até o chão decidir cooperar.
Taren soltou um “hm” que soou mais como um riso abafado.
— Claro, claro. — Depois olhou para Glenn, que ainda segurava os sacos com facilidade. — E você veio resgatar a donzela do desastre, é isso?
Glenn deu um meio sorriso.
— Alguma coisa assim. Onde quer que eu deixe?
— Ali, perto da parede — respondeu Taren, apontando com o lápis. — Mas, por favor, sem derrubar nada.
Glenn assentiu e colocou os sacos no lugar. O barulho do impacto foi seco, mas suave — o tipo de som que encerrava um esforço.
Quando se virou, Taren o observava de forma diferente. O olhar não era brincalhão agora.
— Ouvi sobre o Louis… — disse, baixo. — Sinto muito, Glenn.
O silêncio que seguiu se alongou demais.
Ellie baixou os olhos, apertando os dedos contra o avental. O coração apertou junto.
Glenn respirou fundo.
— Tá tudo bem — disse, devagar. — Todo mundo perdeu alguém. O importante é o que sobrou.
Taren assentiu, a voz um pouco embargada.
— Verdade. Se precisar de algo… qualquer coisa, é só dizer, certo?
— Valeu — respondeu Glenn, com um pequeno aceno.
Taren soltou o ar e voltou a sorrir, afastando o peso que pairava.
— Bom, Ellie, por hoje chega — disse, anotando algo na prancheta. — Você já fez mais do que devia. Vá pra casa antes que desabe no meio da rua.
— Mas ainda tem...
— Sem mas — interrompeu ele, rindo. — Se continuar nesse ritmo, vai acabar me deixando sem trabalho pra supervisionar.
Ellie suspirou, mas um sorriso escapou.
— Tudo bem… mas só porque o chefe mandou.
Taren assentiu, satisfeito, e olhou para Glenn.
— E você, leva ela — disse, com um tom leve. — Antes que tente carregar mais meio armazém nas costas.
Ellie ergueu uma sobrancelha, ofendida de brincadeira.
— Ei! Eu consigo voltar sozinha!
— Consegue, sim — respondeu Glenn, ajeitando a camisa — mas tropeça umas três vezes no caminho.
Ela bufou, fingindo irritação.
— Tá me subestimando, Glenn.
— Eu? — Ele fez uma cara séria demais pra ser real. — De jeito nenhum. Só quero garantir que o “quase” de hoje não vire outro saco no chão.
Ellie abriu a boca pra retrucar, mas Taren tossiu, escondendo o riso.
— Vocês dois são piores que casal velho brigando. Vão logo, antes que eu me arrependa de ter dado folga.
Glenn e Ellie se entreolharam — e, por algum motivo, isso foi engraçado. Ambos riram. Era o tipo de riso que quebrava o peso das últimas semanas, ainda que só por um instante.
Já na porta, Ellie olhou para trás e acenou.
— Até amanhã, Taren!
— Se aparecer com outro saco de grãos, eu finjo que não te vi! — respondeu ele, sorrindo.
Do lado de fora, o sol começava a cair, espalhando reflexos dourados pela vila.
Glenn caminhava um pouco à frente, as mãos nos bolsos. Ellie o seguia, chutando pedrinhas no caminho.
— Eu não teria deixado o saco cair — disse, por fim.
— Claro que não — respondeu ele, com um sorriso que ela não viu. — O chão é que foi impaciente.
Ellie riu, e o som ecoou pela rua quase vazia.
A estrada de terra se estendia tranquila, ladeada por campos recém-plantados e pelo som distante do riacho que serpenteava entre as colinas. O céu, começava a anunciar o fim do dia.
Nenhum dos dois dizia nada.
O som dos passos sobre o cascalho era o único que preenchia o silêncio — um ritmo compassado, quase hesitante.
Ellie olhava para frente, depois para ele, e o peito apertava um pouco.
"Será que ele... me culpa?" — pensou, mordendo o lábio. — "Ou será que só... não quer falar sobre isso?"
O vento soprou fraco e levantou uma mecha do cabelo dela. Glenn nem olhava — mantinha os olhos na estrada, as mãos nos bolsos, o semblante sereno demais pra decifrar.
Ellie suspirou, vencida pela própria inquietação.
— Obrigada... por ter me ajudado lá atrás — disse, enfim. — Se não fosse por você, eu provavelmente ainda estaria brigando com os sacos.
Ele fez um som baixo, quase um riso, sem virar o rosto.
— Eu sei.
Ela franziu o cenho.
— “Eu sei”? É só isso?
— Você queria que eu fosse sincero ou educado? — respondeu. O canto da boca dele se curvou.
Ellie arqueou uma sobrancelha.
— Então, agora é engraçado rir de mim?
— Não — ele finalmente olhou para ela. — Mas é bom te ver rindo.
A frase veio simples, sem intenção, mas ficou no ar por tempo demais.
Ellie piscou, surpresa. O coração tropeçou uma batida.
— Faz tempo que ninguém diz isso... — murmurou, olhando para o chão.
— É — disse ele, voltando ao silêncio. — Faz mesmo.
Ellie arriscou um sorriso pequeno.
— Você fala pouco, mas quando fala… às vezes acerta em cheio.
Glenn soltou um leve suspiro, quase um riso.
— É raro ouvir isso. Normalmente diziam que eu estragava o clima.
— Talvez só precise saber quando falar — ela provocou, divertida.
Ele a olhou de lado, e um brilho rápido cruzou o olhar cansado.
Glenn ficou em silêncio, mas a expressão suavizou.
Por um instante, Ellie teve certeza: o “obrigado” que ele nunca dizia estava ali, escondido no olhar calmo que pousava sobre ela.
O sol se despedia devagar.
Glenn chutou uma pedrinha na estrada. Ela rolou por alguns metros e parou num buraco de barro seco.
— Acho que nunca vi Eloria tão quieta — murmurou ele.
— É o tipo de silêncio que vem depois da tempestade — disse Ellie. — As pessoas ainda estão… voltando a respirar.
— E você? — perguntou ele, após uma pausa curta. — Já conseguiu respirar?
Ellie pensou por um momento. O vento bagunçou os fios do cabelo, e ela respondeu num sussurro:
— Às vezes sim. Às vezes ainda dói. Mas… o ar pesa menos quando alguém ajuda a carregar.
Glenn desviou o olhar, como se não soubesse o que fazer com as palavras dela.
— Você fala como se tudo tivesse um jeito.
— Eu tento acreditar que tem — ela respondeu, com um sorriso leve. — Porque se não tiver, eu desabo.
Ele riu baixo.
— Sempre foi assim?
— Assim como?
— Teimosa — disse, com um pequeno sorriso.
Ellie fingiu indignação.
— Eu prefiro “persistente”.
— É o mesmo significado.
— É o mesmo significado pra você — retrucou, cruzando os braços. — Eu prefiro a versão mais heroica.
Glenn riu — um som curto, mas sincero.
— Tá bom, “heroica”, então.
Ellie o observou por um instante. A risada dele era coisa rara, quase esquecida — e tê-la de volta aqueceu o peito dela de um jeito simples, bom.
— Viu só? — disse ela, sorrindo. — Já tô te ensinando a falar nas horas certas.
— Perigoso isso — respondeu ele, num tom suave. — Se eu aprender demais, você perde o posto de sábia do grupo.
Ellie soltou uma risada baixa e olhou pra frente.
— Acho que posso dividir o título.
Glenn não respondeu. Mas o jeito como olhou pra ela — breve, discreto, com um canto de sorriso quase tímido — dizia mais do que qualquer palavra.
O caminho seguia tranquilo, e o som dos passos deles se misturava à brisa morna vinda dos campos.
Não havia pressa.
Nem necessidade de dizer mais nada.
"Faz semanas que passo por aqui, mas hoje... não sei. Tem algo diferente. Até aquela parede parece incrível."
"Hm? Parede...?"
— Glenn… olha… — a voz saiu entre surpresa e espanto. — Olha ali!
Ela apontou com força, o dedo tremia um pouco.
À frente, entre as árvores e o mato crescido, estava a antiga escola de Eloria.
O prédio parecia menor do que Ellie lembrava, mas ainda estava de pé.
As paredes de pedra clara tinham manchas, as janelas estavam cobertas por hera. O portão pendia de um lado, mas o telhado… ainda permanecia inteiro.
O vento balançava o sino devagar, soltava um som fraco, mas familiar.
Glenn parou ao lado dela, olhou por um momento.
— Ela… ainda tá de pé.
Ellie abriu um sorriso largo, os olhos brilharam.
— Eu sabia. Sabia que ela ia resistir.
Ela deu um pulinho leve, quase como um saltinho de alegria, e apertou as mãos fechadas contra o peito, com os olhos brilhando. Um gesto miúdo, mas transbordando encanto.
Glenn deixou escapar um riso leve.
— Incrível mesmo… pensei que essa parte tivesse sumido.
— Aqui não. — disse Ellie, com orgulho. — Essa área quase não foi atacada.
Ela olhou pra ele, o sorriso voltou.
— Vamos?
— Pra onde?
— Pra lá, ué. — apontou. — Quero ver como tá por dentro.
Glenn hesitou por um instante, olhou o caminho tomado pelo mato, mas o olhar dela o fez ceder.
— Tá bom. Mostra o caminho.
Deram a volta pelo muro lateral. O som dos passarinhos escondidos nas árvores acompanhava os passos, e o cheiro de grama úmida se misturava com o da pedra antiga.
— Ainda lembra do atalho? — perguntou ela.
— Depende. Ainda existe o barril atrás da janela?
Ellie olhou pra trás e sorriu.
— Acho que sim. Se não tiver, a gente improvisa.
O “atalho” ainda estava lá: dois barris velhos, meio tortos, encostados na parede.
Ellie subiu primeiro, com agilidade que não parecia condizer com o tamanho do vestido.
— O segundo ainda range — avisou, sem olhar pra trás.
— Continua lembrando de tudo… — disse Glenn, ao se apoiar atrás dela. — Até do barulho dos barris.
— É. — respondeu, ofegante. — Difícil esquecer onde a gente se escondia pra fugir das provas que não queria fazer.
Ele soltou um riso breve, quase nostálgico.
Pouco depois, os dois estavam no telhado. O lugar parecia uma pequena ilha acima da vila — o vento soprava mais forte, e o sol alaranjado se espalhava sobre as telhas.
Ellie se sentou com calma, ajeitou o vestido amassado, os olhos percorreram o horizonte.
— Olha só… — murmurou. — Ainda dá pra ver o lago.
Glenn se abaixou ao lado dela.
— É. — disse, num tom baixo. — Não mudou tanto quanto pensei.
Ela virou um pouco o rosto, o cabelo foi levado pelo vento.
— Você lembra? A gente subia aqui pra…
— Fugir de todo mundo… eu lembro. — respondeu ele. — Quando a professora Mara achava que a gente tava estudando.
Ellie riu, cobriu a boca.
— Eu juro que às vezes a gente estudava.
— Uma vez, talvez. — disse ele, e ela o empurrou de leve no ombro.
— Sabe o que é engraçado? — disse Ellie, erguendo os olhos para o céu. — Mesmo com tudo que aconteceu… esse lugar ainda me faz sentir calma.
Glenn acompanhou o olhar dela, o vento batia suave no rosto.
— Acho que… algumas coisas ficam.
— Tipo o quê?
— Tipo isso aqui. — respondeu, simples. — A gente.
Ellie ficou quieta. O coração deu um pequeno nó, mas ela não olhou pra ele — apenas sorriu, olhando o horizonte dourado.
"A gente se afastou algumas vezes ao longo desses anos, mas no fim, sempre voltava pra cá."
"Juntos, como se nada tivesse mudado."
O sol já se despedia no horizonte. O céu ardia em tons de laranja e vinho, e as nuvens pareciam incendiar-se enquanto a noite se preparava para nascer. Aos poucos, as primeiras estrelas começaram a brilhar — e, lá no fundo, acima das montanhas, a ilha flutuante de Aldebran surgiu, com suas torres prateadas refletindo o último brilho do entardecer.
Nenhum dos dois falava.
O vento passava leve, e o som que vinha de Eloria era distante, quase esquecido.
Ellie puxou os joelhos para perto do corpo e apoiou o queixo neles.
— …Obrigada, Glenn. — disse, num tom que quase se perdeu no vento.
Ele virou o rosto, surpreso pela quebra do silêncio.
— Você já agradeceu, lembra?
Ela balançou a cabeça.
— Não é por isso.
Ele franziu o cenho, sem entender.
Ela respirou fundo antes de continuar:
— Eu quis dizer… obrigada por ter me salvo. Naquela noite.
O olhar de Glenn se desviou para o horizonte. Ficou em silêncio por alguns segundos, como se as palavras tivessem travado no meio do caminho.
— Eu não te salvei, Ellie. — respondeu por fim, a voz baixa. — Quem fez isso foi o Louis.
Ela mordeu o lábio, o peito apertou com o nome.
— Eu sei… mas se você não tivesse voltado… eu não sei o que teria sido de mim.
Glenn fechou os olhos por um instante, a expressão tensa.
— Não fala assim. — pediu, suave, mas firme. — Eu só fiz o que qualquer um faria.
Ellie sorriu de leve, triste.
— Nem todo mundo voltaria.
Ele não respondeu. O silêncio voltou, cortado apenas pelo canto distante de um pássaro noturno.
Glenn respirou fundo e, como quem muda de assunto para respirar também, disse:
— Comecei a treinar.
Ellie piscou.
— Treinar? Como assim?
— Espadas. — disse, ao olhar o próprio reflexo distorcido no metal da fivela do cinto. — Todo dia, desde… aquele dia.
Ela o encarou, surpresa.
— Jura?
Ele assentiu.
— Achei que já era hora de fazer alguma coisa útil com essas mãos. — levantou uma delas, com um pequeno sorriso cansado.
Ellie riu de leve.
— “Útil”, é? Você sempre fala como se nunca tivesse feito nada direito.
— E não fiz. — retrucou ele, simples. — Esperei demais, Ellie. Esperei minha mana despertar, esperei as coisas melhorarem… e no fim, tudo só piorou.
Ela o olhou em silêncio, atenta. Glenn ergueu a visão para o céu, onde o brilho do castelo de Aldebran cintilava entre as nuvens.
— Se ela quiser dormir para sempre… — disse, devagar, — tudo bem. Eu aprendo a lutar sem ela. Não quero depender de algo que nem me escuta.
Por um instante, Ellie apenas o encarou. O peito subiu num ritmo contido, e os olhos ficaram fixos, quietos. Um sorriso surgiu nos lábios dela, discreto, mas cheio de ternura.
— Isso… é tão você.
Glenn arqueou a sobrancelha.
— O quê?
— Essa mania de enfrentar tudo. — disse, com um riso baixo. — Mas… é bom ouvir isso de você. De verdade.
— É bom?
— É. — afirmou, sincera. — Porque soa… vivo.
Ele desviou o olhar, e um sorriso leve escapou, rápido demais para durar.
— Você fala umas coisas estranhas às vezes.
— Eu? — ela fingiu ofensa. — É você que nunca entende nada.
Ele soltou uma risada curta.
— Isso eu não posso negar.
Ellie também riu, e o som saiu suave, quase infantil.
O vento soprou mais forte, e ela piscou — mas o mundo já não era o mesmo.
O telhado desaparecera.
O céu dourado se desfez em fumaça.
O ar, agora, cheirava a cinza e ferro queimado.
E o som...
O som era puro caos.
"Louis..."
"Ele realmente... me salvou."
Ela piscou outra vez, atordoada. O chão gelado sob seu corpo. As vozes soavam distantes, confusas, como se o tempo tivesse se quebrado.
Ali, à frente, entre poeira e labaredas, estava ele.
— Louis…? — a voz saiu fraca, arranhada.
Ele jazia imóvel. Ellie sentiu o corpo tremer. O corte acima da barriga sangrava pouco, mas doía. Tentou se levantar, mas as pernas falharam. Então se arrastou — com as mãos, com os cotovelos.
— Louis! — chamou, entre soluços. — Louis, me escuta!
As mãos tremiam ao tocar o rosto dele. Frio em alguns pontos, quente em outros.
Ele abriu os olhos, e o coração dela disparou.
Mas então viu.
O sangue escorria do peito dele, lento e constante, tingindo a roupa, o chão, os dedos dela.
Um corte profundo atravessava o lado esquerdo, o mundo tentava arrancá-lo dali à força.
Era muito sangue.
Demais.
— Ei… — ela sussurrou. — Fica comigo, tá? Eu tô aqui, Louis.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, fraco, mas ainda dele.
— Eu te disse... pra correr, Ellie.
Ela riu e chorou ao mesmo tempo, o som embaralhado, sem controle.
— Cala a boca… não quero ouvir sermão agora.
Ele respirou fundo, o peito subiu com esforço.
— Ellie… escuta.
— Não fala, por favor… — ela implorou, apertou as mãos dele. — A gente vai sair daqui. Vai dar tudo certo, eu prometo.
— Suas promessas sempre me deram frio na barriga. — ele brincou, a voz falhou.
Ela balançou a cabeça, soluçou.
— Não faz piada. Só… só fica. Fica comigo, tá? Eu tô aqui. — sussurrou, a voz quebrada. — Vai ficar tudo bem, eu juro.
Louis virou o rosto devagar, os olhos buscaram os dela. Ainda havia um resto de luz neles, mas fraco.
Mesmo assim, ele sorriu.
— Sabe… — disse com esforço, cada palavra um fio de ar. — Tem uma garota que eu amo.
— Para, Louis… — ela chorava sem parar. — Não fala, por favor…
— Eu finalmente contei para ela. Eu só queria… — continuou, a voz quase apagada. — Queria estar perto dela. Proteger. Mesmo que… quem ela quisesse ao lado… não fosse eu.
Ellie o segurou com força, como se pudesse prendê-lo ali, ancorá-lo à vida.
— Não fala assim, tá me ouvindo? A gente vai sair daqui, juntos. Eu te prometo.
Louis piscou devagar, os lábios esboçaram um sorriso fraco.
— Você tem que ir…
Ela balançou a cabeça, desesperada.
— Por favor, não faz isso comigo…
Ele respirou fundo, tremeu.
— Eu quero que você seja feliz… Pode ser do seu jeito. Mas, ao encontrar a felicidade… — murmurou. — … aí, o meu desejo se tornará realidade.
Ellie chorava descontrolada, o corpo inteiro tremia.
— PARA, por favor… não quero ouvir isso…
Ele tentou levantar a mão, e ela a segurou no mesmo instante. O olhar dele se fixou no dela — e por um segundo, tudo parou.
— Ellie…
— LOUIS! — ela gritou, a voz se partiu.
— Ellie! — respondeu ele, com o último respiro de força.
— LOUIS! — gritou. — OLHA PRA MIM!
Nada.
O vento cessou.
— LOUIS!!
— …
E então, o mundo explodiu. Um clarão rasgou o céu. Som, calor, luz — tudo ao mesmo tempo, tudo demais.
A onda de choque lançou Ellie como um boneco. O corpo queimou, o chão desapareceu sob ela, a vida foi arrancada do lugar com brutalidade.
E, no meio do estrondo, do fogo, da destruição, restou apenas o último eco de uma voz que ela jamais esqueceria:
“Seja feliz.”
— Ellie!
A voz de Glenn a trouxe de volta.
Ela piscou rápido. O telhado, o vento, o presente — tudo estava ali outra vez.
Respirou fundo, tentando entender onde estava.
Glenn a olhava, surpreso e preocupado, o cenho levemente franzido.
— Ei… o que foi?
Ellie respirou fundo, hesitou.
— Glenn… — a voz falhou. — Você… você me culpa? Pelo que aconteceu com o Louis?
Ele arregalou os olhos.
— O quê? Não. Ellie, claro que não.
Ela riu de nervoso — um som pequeno, quase um soluço.
— Pois eu me culpo.
O vento soprou. Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
— Ellie… — Glenn quebrou o silêncio.
Ela o encarou, surpresa.
Ele a observava com aquele olhar calmo, firme, que dizia mais do que qualquer frase.
Quando falou, foi devagar — como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado.
— Você não é culpada por estar viva.
— O Louis… ele escolheu proteger você. Porque quis. Porque acreditava em você.
Fez uma pausa curta. A voz saiu mais baixa.
— E eu também acredito.
Ellie piscou, e os olhos se encheram. Uma lágrima escorreu, quente, imperceptível, traçando caminhos silenciosos pelo rosto.
— Toda vez que você sorri… ou ajuda alguém… você honra ele.
— O que aconteceu não te define. Mas o que você faz com isso… talvez defina.
Ele respirou fundo.
— Então, por favor… não enterra o que ele sentiu junto com a dor.
— Vive. Por ele. Por você. Por tudo que ainda pode ser.
Ellie o encarava, muda.
O coração apertado — mas de um jeito diferente.
De algo quente.
Quando percebeu, as lágrimas corriam sem controle.
Glenn inclinou um pouco a cabeça.
— Ellie…? Você está chorando? Eu… eu disse algo errado?
Ela riu entre soluços, levou as mãos ao rosto.
— Eu não sei… — disse, com a voz embargada. — As lágrimas só… começaram a cair. Oh, não… — limpou o rosto às pressas, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Elas não param… não olha pra mim, tá?
Glenn se moveu antes que Ellie pudesse entender o que acontecia.
De repente, ele a puxou para perto.
O choque da força suave, o calor do toque — e o mundo pareceu sumir.
O vento parou.
O tempo parou.
Tudo que existia era o som do coração dele, batendo rápido, firme, contra a orelha dela.
Ellie piscou, atordoada, as mãos ainda suspensas no ar. Mas logo o corpo cedeu, instintivo — e ela o abraçou de volta. Os dedos se fecharam no tecido da roupa dele, e a respiração trêmula escapou sem que percebesse.
O peito dele subia e descia, e cada batida lembrava que ele estava ali.
Vivo.
Presente.
Ela fechou os olhos e, só por um instante, deixou o resto do mundo desaparecer.
“Como pode um abraço doer e curar ao mesmo tempo…?”
A cabeça repousou no ombro dele. O calor que vinha dele parecia surreal — um abrigo em meio ao frio de tudo que haviam vivido.
“Se esse momento pudesse durar só um pouco mais…”
O vento soprou de leve, mexeu nos cabelos dela, e Ellie percebeu que o coração de Glenn ainda batia acelerado.
Era reconfortante.
Era real.
E quando ela finalmente falou, foi num tom baixo, quase sussurrado:
— Glenn?
— Hm? — respondeu ele, sem se afastar.
Ellie hesitou, respirou fundo e sorriu, com a voz trêmula.
— Eu tô feliz por você estar aqui. — disse, simples, sem olhar pra ele.
Por alguns segundos, ele não respondeu. O som do vento, das árvores e dos corações preenchia tudo. Então Glenn murmurou, calmo:
— Eu também.
Ellie fechou os olhos outra vez. Um sorriso surgiu nos lábios dela, misturado ao tremor das lágrimas que insistiam em voltar.
“Esse é um abrigo quentinho.”
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios