Volume 1

Capítulo 10: O Peso das Coisas

 

 

As três semanas que se passaram desde o ataque foram, na opinião de Ellie, as mais longas de sua vida. Eloria reerguia-se, um rascunho de si mesma. As cinzas haviam sido varridas e as paredes refeitas, embora marcas pretas de queimadura ainda mordessem as pedras e rostos estivessem envelhecidos uma década em uma única noite. Mas risadas já ecoavam, um som ruidoso que desafiava a ruína.

O sol de fim de tarde dourava os telhados e as lonas dos armazéns. O cheiro de pão fresco brigava com o ranço da terra molhada. Ellie ajustou o lenço na cabeça e, num solavanco, ergueu os dois sacos de grãos.

Eram pesados. Os ombros protestaram instantaneamente.

Deveria ter levado um de cada vez, a teimosia sibilou. Mas Taren lançaria aquele olhar de superioridade, como se eu fosse um vidro delicado que não aguentasse nada.

Ela seguiu pela rua principal. Cumprimentos esparsos a atingiam.

— Ellie! — chamou o senhor Dorn, o ferreiro, enxugando o rosto suado. — Obrigado pelas ervas. Minha filha parou de tossir!

— Fico feliz, senhor Dorn! — ela respondeu, lutando para não parecer que estava prestes a cair de cara no chão.

Logo adiante, a velha senhora Rida sofria com uma cesta de verduras. Ellie não hesitou; largou um dos sacos com um baque e correu para ajudá-la.

— Ah, minha querida — suspirou a velha, com um sorriso fraco. — Você é boa. O mundo precisa de quem não desiste.

Ellie esboçou um sorriso e ajudou a mulher a se equilibrar antes de voltar ao próprio fardo. Ao tentar levantar o segundo saco, os braços tremeram numa revolta silenciosa.

Enquanto avançava, tentava se distrair com as notícias que circulavam. Outras vilas haviam enviado auxílio, e diziam que até o Rei enviara provisões dos armazéns reais. Talvez as engrenagens estivessem, finalmente, entrando nos eixos. Ela respirou fundo, buscando ar no calor estagnado.

​Mas seu corpo discordava. Após três passos tortuosos, ela estancou. O suor escorria pelo pescoço, e os sacos de trigo pareciam ter dobrado de volume.

Só um segundo…

Pensou em abaixar-se para ajustar a carga, mas o equilíbrio vacilou. A fibra bruta escorregou pelo ombro úmido. Por um átimo, ela soube que os grãos terminariam na lama.

​O impacto não veio.

​Uma mão firme, surgiu do vácuo, travando a carga por trás. O peso que esmagava seus ombros desapareceu, levado por uma força súbita.

​Ellie girou sobre os calcanhares, o coração dando um solavanco descompassado. Glenn estava ali, logo atrás. Segurava os dois sacos com uma facilidade irritante, como se fossem penas. Seus olhos tinham um brilho tranquilo, mas carregavam uma distância melancólica.

​Por alguns segundos, o fôlego de Ellie sumiu de verdade. Ela havia se esquecido de como os detalhes do rosto dele eram nítidos quando vistos de perto.

​— Você ainda tenta carregar o mundo inteiro nas costas, não é? — disse ele, a voz quebrando o silêncio com uma suavidade que fez sua pele formigar.

Ellie piscou, as palavras entaladas na garganta.

— Eu... não pretendia amolar ninguém — disse, a voz subindo uma oitava.

Glenn esboçou um meio sorriso. Era uma expressão exausta, que morria antes de atingir os olhos.

— A vila inteira está se ajudando, Ellie. Ninguém se incomodaria com isso.

Sentindo as orelhas arderem, ela baixou o olhar para as pontas das botas encrostadas de poeira.

Glenn ajeitou o fardo nos ombros com uma facilidade exasperante e correu os olhos pelo vilarejo. O som rítmico dos martelos e o eco de risadas ocasionais preenchiam o vácuo entre os dois.

— Estão reconstruindo rápido — murmurou ele. — Supus que as coisas estariam... bem piores.

— Acho que todos quiseram ocupar a cabeça — explicou Ellie. — Ficar parado dá margem à dor.

Glenn assentiu, o olhar recaindo sobre ela por um segundo penetrante.

— É. De fato, dá.

Ellie inspirou o ar seco, buscando o tom de costume.

— Vai acabar com dor nas costas se carregar esses dois sozinho até o fim da rua.

Glenn arqueou uma sobrancelha, parecendo, por um segundo, muito mais jovem.

— Garanto que carrego menos peso que você no dia a dia.

Ellie soltou uma risada genuína, que lhe soou estranhamente vívida após semanas de mudez. Glenn acompanhou-a com um riso curto, de alívio.

— Vamos — disse ele. — Eu os levo até o armazém.

Prosseguiram lado a lado pela via principal. O armazém situava-se logo adiante, ladeado por barris empilhados e pelo perfume adocicado de grãos recém-colhidos. 

Taren estava lá dentro. Era um rapaz de ombros largos, refestelado contra uma pilha de caixotes com uma prancheta. O cabelo castanho escapava de um coque malfeito e o avental estava enfarinhado. Ao avistar Ellie, arqueou uma sobrancelha.

— Eu sabia que você não daria conta — disse, com um sorriso enviesado.

— Eu estava indo perfeitamente bem — protestou Ellie, forçando um riso — até o chão decidir não ser mais cooperativo.

Taren abafou um riso.

— Sei beeeeem. — Ele desviou o olhar para Glenn, que sustentava os sacos. — E você veio resgatar a donzela do desastre, é isso?

Glenn esboçou um meio sorriso.

— Algo por aí. Onde quer que eu ponha isto?

— Ali, junto àquela parede — indicou Taren com o lápis. — Tente não derrubar nada, por favor.

Glenn acomodou os sacos. Quando ele se virou, a máscara de Taren havia caído; o brilho de mofa desaparecera.

— Soube do que houve com o Louis... — disse Taren, a voz agora baixa e grave. — Sinto muito, Glenn.

O silêncio no armazém esticou-se. Ellie baixou o rosto, torcendo o tecido do vestido entre os dedos. Glenn inspirou profundamente, os ombros tensos por um momento.

— Está tudo bem — disse ele, as palavras saindo devagar. — Todos perderam alguém. O que importa é o que nos restou.

Taren assentiu, a voz endurecida pela gravidade:

— É a pura verdade. Se precisar de qualquer coisa... basta dizer, entendido?

— Obrigado — respondeu Glenn com um curto aceno.

Taren exalou com força para dissipar a melancolia.

— Bem, Ellie, por hoje basta — declarou, rabiscando na prancheta. — Você já trabalhou mais do que o necessário. Vá para casa antes que desabe no caminho.

— Mas ainda resta…

— Nada de "mas" — atalhou ele, rindo. — Se continuar nesse passo, vai me deixar sem serviço para supervisionar. Ou me sobrecarregar com marcações.

Ellie suspirou, mas um sorriso aflorou.

— Está bem... só porque o chefe está mandando.

Taren pareceu satisfeito e voltou-se para Glenn.

— E você, trate de acompanhá-la — ordenou, num tom leve. — Antes que ela tente carregar mais meio armazém nas costas por pura teimosia.

Ellie arqueou uma sobrancelha, assumindo uma ofensa fingida.

— Ora essa! Sou perfeitamente capaz de voltar sozinha.

— Capaz, você é — retrucou Glenn, ajustando as mangas da camisa. — Mas aposto que tropeçaria umas três vezes no trajeto.

Ela bufou. Uma mecha de cabelo escapou do lenço e agitou-se diante de seus olhos.

— Você está me subestimando, Glenn.

— Eu? — Ele compôs uma seriedade que beirava o absurdo. — De modo algum. Só pretendo garantir que o “quase” de hoje não se converta em um machucado para a manhã.

Ellie abriu a boca para o contra-ataque, mas Taren soltou uma tosse seca, tentando abafar o riso atrás da prancheta.

— Vocês dois são piores que um casal de velhos ranzinzas — interrompeu ele. — Sumam daqui logo, antes que eu me arrependa da folga.

Glenn e Ellie se entreolharam. Por algum motivo, a situação pareceu cômica. Riram. Ao atingirem a porta, Ellie virou-se e acenou:

— Até amanhã, Taren!

— Se aparecer com outro saco de grãos, vou fingir que sou cego! — berrou ele em resposta.

Do lado de fora, o sol começava seu mergulho final. Glenn caminhava à frente, as mãos mergulhadas nos bolsos. Ellie seguia-o, entretendo-se em chutar seixos.

— Eu não teria deixado o saco cair, para sua informação — declarou ela.

— Tenho plena convicção disso — respondeu ele, embora a inflexão da voz denunciasse que sorria para a estrada. — O chão é que foi impaciente demais para esperar.

Ela riu, e o som reverberou pelas ruelas que esvaziavam. A estrada de terra estendia-se com uma tranquilidade pastoral, ladeada por campos onde os primeiros brotos teimavam em surgir. O céu exibia matizes de violeta e rosa. Durante um longo trecho, o único som era o do cascalho sob as botas.

Ellie encarava o horizonte, mas vez ou outra voltava os olhos para ele. A brisa bagunçou seus cabelos. Glenn seguia fixo na estrada, o semblante calmo demais para se decifrar. Tomada pela inquietação, ela suspirou: 

— Obrigada... por ajudar lá atrás. Se não fosse por você, eu ainda estaria em duelo com aqueles sacos.

Ele emitiu um som gutural, entre o pigarro e o riso.

— Eu sei.

Ela franziu o cenho.

— “Eu sei”? É tudo o que tem a dizer?

— Você prefere que eu seja sincero ou meramente educado? — rebateu ele, o canto da boca curvando-se.

— Ah, então agora resolveu caçoar de mim?

— Não. — Ele finalmente voltou o rosto para ela, e a intensidade do olhar a pegou de surpresa. — Mas é gratificante ver você rindo outra vez.

A frase pareceu flutuar no ar. Ellie piscou, o coração dando um solavanco desajeitado contra as costelas.

Ellie arriscou um sorriso miúdo.

— Você é um homem de poucas palavras, Glenn, mas quando resolve falar... às vezes acerta em cheio.

Ele soltou um suspiro que lembrava um riso contido.

— É raro ouvir esse tipo de elogio. Geralmente diziam que eu tinha o dom de estragar o clima.

— Talvez você só precise aprender o momento exato de abrir a boca — provocou ela.

Ele lançou-lhe um olhar de esguelha, e um brilho atravessou seu semblante cansado. Glenn mergulhou novamente no silêncio, mas a expressão suavizara-se. Ellie teve a nítida impressão de que o “obrigado” que ele jamais pronunciaria estava ali, oculto na calmaria.

O sol desaparecia. Glenn chutou uma pedra que rolou até se alojar em um buraco de barro ressecado.

— Creio que nunca vi Eloria tão silenciosa — comentou em voz baixa.

— É o silêncio que sucede a tempestade — ponderou Ellie. — As pessoas ainda estão tentando voltar a respirar.

— E quanto a você? Já conseguiu respirar?

Ellie refletiu por um instante, o vento bagunçando seus cabelos. Respondeu num sussurro:

— Tem dias que parece suportável. Em outros, não. Mas é menos pesado quando alguém fica por perto. Não acha?

Glenn desviou o olhar, não sabendo que destino dar àquelas palavras.

— Como se fosse simples. 

— Eu me esforço para acreditar que sim — replicou ela com um sorriso tênue.

Ele riu baixo, um som seco.

— Eu me esqueço que você é sempre assim?

— Assim como?

— Teimosa — disse ele, e o sorriso desta vez era inegável.

— Eu prefiro o termo “persistente” — corrigiu Ellie, fingindo-se ofendida.

— Dá no mesmo — atalhou ele.

— Para você — retrucou ela, cruzando os braços. — Eu prefiro a versão mais heroica.

Glenn soltou um riso seco — curto, mas desarmado.

— Pois bem, “heroica”, então.

Ellie o observou de soslaio. A risada de Glenn tornara-se um artigo de luxo, uma raridade naqueles dias de cinzas. Ouvi-la provocou em seu peito um calor súbito, como se alguém tivesse acendido uma lareira em um quarto gelado.

— Viu só? — comentou ela, vitoriosa. — Estou lhe ensinando as artes de falar nos momentos oportunos.

— Um terreno perigoso — replicou ele, o tom suavizando-se. — Se eu aprender o ofício com tal perfeição, você perderá o posto de sábia do grupo.

Ellie riu baixo, os olhos na estrada.

— Creio que posso me dar ao luxo de dividir o título.

Glenn não ofereceu resposta. Contudo, o modo como ele a fitou — um olhar fugaz, acompanhado por um rastro de sorriso quase tímido — transmitia mais do que qualquer sentença bem estruturada. 

O caminho prosseguia imperturbável; o som dos passos fundia-se à brisa morna. A urgência ficara para trás, junto ao trigo.

Faz semanas que percorro este trajeto, mas hoje... não sei dizer, pensou ela, curiosa. Há algo de inusitado no ar. Até aquela parede parece... extraordinária.

 

Hm? Parede...?

 

— Glenn... olhe! — A voz dela surgiu num misto de sobressalto e assombro. — Olhe logo ali!

Apontou com veemência, o dedo denunciando um tremor de excitação. À frente, em meio ao emaranhado de árvores e ao matagal que crescera sem freios, erguia-se a antiga escola de Eloria.

O edifício parecia menor do que as lembranças sugeriam, mas permanecia de pé. As paredes de pedra clara exibiam manchas de umidade, e as janelas estavam ocultas por uma cortina densa de hera. O portão pendia precariamente de um dos gonzos, mas o telhado permanecia intacto. O vento, ao passar, balançava o sino da torre com preguiça, arrancando-lhe um tlim-tlim fraco e familiar.

Glenn estancou o passo, contemplando a construção.

— Ela... ainda está de pé — murmurou.

Ellie abriu um sorriso radiante.

— Eu sabia! Sabia que ela ia resistir!

Deu um pequeno salto, batendo as palmas num gesto infantil. Glenn não pôde evitar um riso leve.

— Incrível. Pensei que essa parte tivesse sumido.

— Aqui não — declarou ela, com um orgulho quase proprietário. — Esta área mal foi tocada pelos invasores. — Voltou-se para ele, o entusiasmo estampado no rosto. — Vamos?

— Para onde?

— Você sabe muito bem para onde quero ir: o lugar onde nos conhecemos. Ora essa!

Glenn hesitou por um átimo, avaliando a trilha engolida pelo mato, mas a determinação dela o fez ceder.

— Está bem. Mostre o caminho.

Contornaram o muro sob o coro de pássaros ocultos na folhagem. O aroma de grama úmida misturava-se ao cheiro mineral da pedra centenária.

— Ainda se recorda do atalho? — inquiriu ela, travessa.

— Depende. Ainda existe o barril atrás da janela?

Ellie olhou por sobre o ombro e sorriu.

— Creio que sim. Do contrário, teremos de improvisar.

O “atalho” permanecia lá, tal qual um velho amigo: dois barris carcomidos, visivelmente tortos, escorados contra a alvenaria. Ellie subiu primeiro, com uma agilidade que desafiava a compostura do vestido.

— O segundo ainda range — alertou, sem se virar.

— Você se lembra de tudo — comentou Glenn, apoiando-se logo atrás. — Até do rangido dos barris.

— É difícil esquecer onde a gente se escondia pra fugir da professora Lucrécia. Todas as terças e quintas…

Ele soltou um riso breve, tingido por uma nostalgia súbita. Momentos depois, alcançavam o telhado. O lugar assemelhava-se a uma ilha flutuando acima da vila; ali, o vento soprava com mais ímpeto e o sol alaranjado espalhava-se pelas telhas como uma manta de fogo.

Ellie sentou-se cautelosamente, ajeitando as dobras do vestido amassado.

— Veja só... — sussurrou. — Consigo ver o lago daqui.

Glenn acomodou-se ao lado dela, contemplando a paisagem em silêncio. Ellie virou o rosto, deixando que o vento fustigasse suas mechas rebeldes.

— Você se recorda? — perguntou, os olhos presos na memória. — De quando subimos aqui porque você cismou que era perfeitamente possível tocar o céu?

Glenn soltou um riso baixo, um som seco de reconhecimento.

— Eu tinha sete anos, Ellie.

— E uma confiança absurda — completou ela. — Você se postou na ponta daquela telha, esticando-se todo... como se fosse, de fato, alcançar as nuvens.

Ele passou a mão pela nuca, subitamente desajeitado.

— Eu quase caí.

— Quase? — Ellie voltou-se para ele, o semblante aceso. — Você escorregou feio. Se eu não tivesse agarrado sua camisa com toda a minha força…

— Eu teria recuperado o equilíbrio sozinho — atalhou ele, sem convicção.

— Teria rolado telhado abaixo como um saco de batatas.

Glenn bufou uma risada.

— Okay... talvez.

Ellie deixou o olhar vagar até a cumeeira, como se a cena ainda estivesse desenhada ali.

— E depois ficou furioso. Não comigo, mas com o próprio céu. Cruzou os braços e declarou: “Pois que o céu desça, então!”

Por um instante, apenas o sibilar do vento preencheu o espaço. Glenn esboçou um sorriso mais tranquilo.

— Eu continuo achando que era uma exigência justa.

— Com certeza... o céu é que estava equivocado.

— Obviamente.

Ela soltou uma risada cristalina.

— Éramos dois tontos... — murmurou.

Glenn deu de ombros, contemplando o horizonte que escurecia.

— Sabe o que é curioso? — disse Ellie, erguendo os olhos para a imensidão. — Mesmo com todo o horror... este lugar ainda transmite uma calma estranha.

Glenn sentiu a brisa fresca no rosto.

— Acredito que algumas coisas simplesmente permanecem.

— Como o quê?

— Como isto aqui — respondeu ele, com uma simplicidade desarmante. — Nós dois.

Ellie emudeceu. O coração deu um pequeno nó, mas ela evitou fitá-lo; limitou-se a observar o horizonte.

O sol já se despedira, mergulhando o mundo em sombras azuladas. As primeiras estrelas pontilharam o firmamento e, emergindo por trás das nuvens sobre as montanhas, a ilha flutuante de Aldebaran surgiu, suas torres prateadas refletindo o último suspiro de luz.

O som que subia de Eloria era agora um murmúrio irrelevante. Ellie puxou os joelhos contra o peito e apoiou o queixo neles.

— ...Obrigada, Glenn — disse, num tom tão baixo que quase foi arrebatado pelo vento.

Ele voltou o rosto para ela, surpreso.

— Você já agradeceu.

— Não é pelo trigo.

Ele franziu o cenho, aparvalhado. Ellie tomou fôlego.

— Obrigada por ter me salvo. Naquela noite.

O olhar de Glenn desviou-se bruscamente. Ele permaneceu calado.

— Eu não a salvei, Ellie — respondeu por fim, a voz sumida. — Quem fez isso foi o Louis.

Ela mordeu o lábio, o peito oprimindo-se à menção do nome.

— Eu sei... mas se você não tivesse retornado... não ouso imaginar o que teria sido de mim.

Glenn cerrou os olhos, as feições retas.

— Não diga isso — pediu, a voz suave, mas com uma firmeza inflexível. — Eu fiz apenas o que qualquer pessoa decente faria.

Ellie esboçou um sorriso triste.

— Nem todos teriam retornado, Glenn.

Ele não replicou. O silêncio retornou, interrompido apenas pelo pio solitário de um pássaro noturno. Glenn inspirou profundamente e, como quem tenta desesperadamente mudar de assunto para conseguir respirar, declarou:

— Comecei a treinar.

Ellie piscou, pega de surpresa.

— Treinar? Como assim?

— Com espada — disse ele, observando o reflexo distorcido na fivela de metal do cinto. — Todos os dias, desde... aquele dia.

— É sério?

Ele assentiu.

— Julguei que já passava da hora de dar algum uso útil a estas mãos — Ergueu uma delas, o sorriso exausto.

Ellie soltou uma risada curta.

— “Útil”, não é? Você fala como se jamais tivesse feito nada proveitoso.

— E não fiz — retrucou ele com crueza. — Esperei tempo demais, Ellie. Esperei que minha mana despertasse, que as coisas melhorassem... e, no fim, tudo ruiu.

Ela o observava em silêncio absoluto. Glenn ergueu os olhos para o céu, onde Aldebaran cintilava como uma joia inacessível.

— Se a mana quiser dormir para todo o sempre... pois que durma. Aprenderei a lutar sem ela. Não pretendo mais depender de algo que sequer se digna a me ouvir.

Por um átimo, Ellie apenas o fitou. Um sorriso de ternura aflorou em seus lábios.

— Eu acho isso meio teimoso, mas também meio bonito. No fim, ouvir você falar assim me deixa com vontade de ficar perto.  

Ele desviou o olhar prontamente, e um sorriso fugaz escapou-lhe antes de desaparecer na penumbra. 

Ellie observou aquele semblante — fechado, distante — e sentiu o peito apertar.

​A brisa soprou, mas não era mais o vento morno do anoitecer, mas algo carregado de um presságio familiar. Ellie franziu o cenho. O som veio logo depois: um estalo metálico, cuja distância ela não soube precisar.

​Ela piscou. Ao reabrir os olhos, o mundo havia sido tragado. O telhado sumira, e o céu dera lugar a uma cortina asfixiante de fumaça negra. O ar já não trazia o cheiro dos campos, mas o odor metálico de sangue e o acre das cinzas. O silêncio fora substituído por um coro ensurdecedor de metal colidindo e ossos partindo.

 

Louis.

 

Ela piscou outra vez, a cabeça latejando com uma dor lancinante. O chão era gélido e pedregoso. Vozes distorcidas vinham de dentro de um túnel profundo, como se a tapeçaria do tempo tivesse se esgarçado. Ali, a poucos passos, emoldurado por labaredas que lambiam as ruínas, ele estava caído.

— Louis...? — A voz saiu como um rascunho, arranhada pela fuligem.

Ele jazia imóvel. Um tremor percorreu-lhe a espinha. O corte em seu próprio flanco queimava como ferro em brasa, mas ela o ignorou. Tentou se erguer; porém as pernas fraquejaram como se fossem feitas de gelatina. Começou a se arrastar — unhas, cotovelos, cada grama de fibra restante.

— Louis! — O grito engasgou em soluços. — Louis, por favor, me escuta!

As mãos tremiam ao tocarem o rosto dele. A pele estava gélida em alguns pontos e assustadoramente quente em outros. Quando ele abriu os olhos, o coração dela deu um solavanco.

Mas então, ela percebeu.

O sangue escorria do peito dele, um fluxo lento, denso, que tingia a roupa e o solo. Um talho profundo atravessava o seu lado esquerdo; o mundo tentava arrancá-lo dali. 

— Ei... — sussurrou ela, lutando contra o tremor da voz. — Fica comigo. Estou aqui, Louis. Bem aqui.

Ele esboçou um sorriso. Um vinco minúsculo, mas inconfundível.

— Eu disse... para correr.

Ela soltou um som entre o riso e o pranto.

— Cala a boca... não vou ouvir seus sermões agora.

Ele inspirou, o peito subindo com um esforço hercúleo.

— Ellie... escuta.

— Não fale... — implorou ela, espremendo as mãos dele entre as suas. — Vamos sair desta. Vai dar tudo certo, eu prometo a você.

— Suas promessas... sempre me deram frio na barriga — brincou ele, a voz falhando perigosamente.

Ellie balançou a cabeça, as lágrimas embaçando a visão.

— Não faça piadas. Apenas... fique.

Louis virou o rosto com lentidão, os olhos buscando os dela com uma urgência muda. Ainda restava um vestígio de luz naquelas pupilas. Mesmo assim, ele sorriu.

— Sabe... — disse ele, cada palavra custando um fio de oxigênio. — Existe uma garota que eu amo.

— Pare, Louis... — Ela chorava sem descanso, sentindo o peito em frangalhos.

— Eu finalmente contei a ela. Eu só queria... estar perto. Protegê-la. Mesmo que... a pessoa que ela quisesse ao lado... não fosse eu.

Ellie o segurou com força desesperada.

— Não fale assim! Vamos sair juntos!

Louis piscou devagar, os lábios pálidos curvando-se.

— Você precisa ir…

— Por favor…

Ele estremeceu, uma respiração ruidosa escapando-lhe.

— Quero que seja feliz... do seu jeito. Se encontrar a felicidade... meu desejo se torna realidade.

Ellie estava em choque, o corpo sacudido por espasmos.

— PARE, por favor... eu não quero ouvir isso!

Ele tentou erguer a mão; ela a capturou, pressionando-a contra o rosto. O olhar de Louis fixou-se no dela. O caos em volta emudeceu.

— LOUIS! — O grito partiu-se em mil pedaços.

— Ellie…

— LOUIS! OLHA PARA MIM!

Não houve resposta. O vento cessou.

— LOUIS!!

E então, o mundo pareceu explodir em mil pedaços. Um clarão ofuscante rasgou o céu de breu. Som, calor, luz — tudo se fundiu em uma onda de choque brutal que lançou o corpo de Ellie para trás como se ela fosse um boneco de pano. O chão desapareceu sob seus pés, a vida foi arrancada de seu curso com uma violência avassaladora.

E, no meio do estrondo e das chamas, restou apenas o eco agonizante de uma voz que ela jamais, por toda a sua existência, conseguiria esquecer:

 

Seja feliz.

 

— Ellie!

A voz de Glenn a atingiu como um solavanco. Ela piscou, atordoada, sentindo o vento frio açoitar o rosto. O telhado de pedra estava de volta. A fumaça e o sangue haviam evaporado, restando apenas um zumbido incômodo nos ouvidos.

Glenn a observava com um alarme franco, as sobrancelhas tão franzidas que quase se juntavam.

— O que houve?

Ellie levou a mão ao rosto e levou um susto ao sentir os dedos molhados. Ela tentou secar as bochechas às pressas, mas a voz saiu engasgada.

— Glenn... você me culpa? Pelo que aconteceu ao Louis?

Glenn arregalou os olhos, momentaneamente aparvalhado.

— O quê? Mas é claro que não, Ellie. De onde tirou isso?

— Pois eu me culpo — retrucou ela, com uma risada curta, desprovida de graça.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo assobio do vento nas telhas. Glenn limpou a garganta, escolhendo as palavras.

— Você não tem culpa de estar viva — disse ele. — Louis decidiu protegê-la. Foi uma escolha dele, porque ele amava você. — Fez uma pausa, fixando os olhos na linha do horizonte. 

Ellie sentiu as lágrimas arderem.

— Sempre que ajuda alguém, está honrando o que ele fez — continuou Glenn. — O que aconteceu naquela noite não define quem você é. Não enterre o que ele sentia junto com a sua dor. Viva, Ellie. Por ele e por você.

Ela não respondeu. Estava ocupada demais tentando conter o soluço que subia. Foi em vão. As lágrimas recomeçaram com uma intensidade que a deixou furiosa.

— Ellie? — Glenn pareceu em pânico. — O que foi? Eu disse algo errado?

— Eu... não sei — soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Elas simplesmente não param… Oh, não… não olhe para mim, Glenn, estou falando sério!

Mas Glenn ignorou o pedido. Aproximou-se e a puxou para um abraço desajeitado. Foi um choque de ossos e calor. Ellie sentiu o cheiro de serragem e suor que emanava da roupa dele. Ficou rígida por um segundo, mas logo desabou, escondendo o rosto no ombro de Glenn enquanto agarrava o tecido grosseiro de sua roupa.

O coração dele batia com uma força impressionante contra a orelha dela — um tamborilar rápido, vivo. Era um abraço firme, sem delicadezas desnecessárias, um refúgio sólido contra o caos das lembranças.

— Glenn? — murmurou ela, a voz abafada.

— Hm?

— Fico feliz que esteja aqui.

Houve um breve silêncio, interrompido apenas pelo farfalhar das árvores lá embaixo.

— Eu também — murmurou ele.

Ellie fechou os olhos. O abraço era, de fato, um abrigo genuinamente quentinho, embora ela soubesse que, em cinco minutos, Glenn provavelmente voltaria a ser o mesmo rapaz rabugento e econômico nas palavras de sempre. Mas, por enquanto, aquilo bastava.

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