Volume 1

Capítulo 11: As Páginas de Vidro

 

 

Glenn chegou em casa logo após deixar Ellie. A caminhada de volta fora banhada por um silêncio absoluto, do tipo que fazia o som de suas próprias botas contra o cascalho soar como pequenas explosões.

​Ao entrar, o cheiro familiar de madeira velha e ervas secas o recebeu, mas a quietude da casa não parecia tão opressiva quanto de costume. Ele se recostou contra a porta por um momento, sentindo os músculos dos ombros relaxarem.

Ela continua a mesma, pensou, e um meio sorriso cansado surgiu em seu rosto. Mesmo depois de todo aquele horror, Ellie ainda insiste em procurar o lado bom das coisas.

​Fazia uma eternidade que ele não a ouvia rir daquela maneira. A lembrança do brilho nos olhos dela e do jeito desajeitado com que se despedira voltou à sua mente com uma clareza desarmante. Glenn soltou um suspiro curto, quase uma risada de si próprio, admitindo que sentira falta daquilo. Sentira falta dela.

​Foi então que seus olhos recaíram sobre a mesa da cozinha. Havia um pano cobrindo um prato e um bilhete ao lado.

“Coma antes que desmaie”, dizia a letra apressada de Vivian.

​Glenn balançou a cabeça, o sorriso alargando-se de leve. Sentou-se e removeu o pano. Um ensopado de legumes, acompanhado de uma fatia generosa de pão torrado, o esperava. O aroma de batatas, cenouras e ervas subiu em direção ao seu rosto. Vivian ainda realizava prodígios culinários com as parcas provisões da despensa.

Enquanto comia, seu olhar perdeu-se nas vigas do teto. As vozes do dia ecoavam, misturando-se a pensamentos mais sombrios. As conversas sobre reconstrução, perdas… números sendo jogados de um lado para o outro como se bastassem.

O ataque não levou apenas as casas… levou gente demais, refletiu, a colher parando no meio do caminho. Ao menos Reynolds conseguiu negociar com o senhor feudal. Nada de aumento nos impostos… em troca, a própria vila reconstruiria tudo, com as próprias mãos.

Ele deu um sorriso amargo. Para piorar, sem um chefe na vila, ninguém parecia disposto a organizar o caos; ninguém queria o fardo da liderança — e Glenn não podia culpá-los.

Mas a ideia de que alguém precisava agir começou a martelar em seu peito.

O que Louis faria?

Ele terminou a refeição, lavou a louça e secou as mãos num pano gasto. A casa estava quieta demais. Um silêncio que, de repente, começou a formigar em sua nuca.

Caminhou pelo corredor, ouvindo o ranger das tábuas de madeira sob seus pés. Notou que passava das nove horas. Reynolds e Vivian ainda não haviam retornado; decerto ainda estariam na estalagem, envolvidos em alguma discussão interminável sobre a reconstrução.

​Mas então, Glenn estancou o passo.

​Um frio súbito percorreu sua espinha, um calafrio tão nítido que ele quase pôde senti-lo como uma mão de gelo. Um brilho pálido e vacilante vinha do fim do corredor — bem diante da porta entreaberta do quarto de Louis.

​Seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse processar o perigo. Glenn arregalou os olhos, a respiração presa na garganta. Ali, imóvel diante da porta, estava ela.

​A garota de cabelos brancos.

​Era a mesma figura daquela noite de pesadelo; a garota que emergira das chamas e obliterara o cavaleiro negro com uma facilidade aterrorizante. Em um instante, as memórias voltaram em uma enxurrada: o som do aço se partindo, o cheiro de sangue quente e o terror absoluto que o paralisara.

​— Você... — a voz de Glenn saiu num sussurro rouco. — Como... Eu tinha me esquecido. Como você entrou aqui?

​A garota não se moveu de imediato. Permanecia de costas para ele, seus cabelos brancos descendo em uma cascata pálida até a cintura, refletindo a luz da lua que se infiltrava pela janela do corredor.

Ele deu um passo hesitante à frente, a mão buscando inconscientemente algum apoio na parede.

​— Onde estão meus tios? — perguntou, a voz ganhando uma nota de urgência.

​Ela se virou. Lentamente.

O olhar dela encontrou o dele e, no mesmo instante, Glenn sentiu o ar tornar-se pesado, como se a gravidade tivesse se intensificado ao redor daquela figura. A voz que emanou dela era calma, mas possuía uma qualidade etérea, como o eco de um sino em uma catedral vazia.

— Eles parecem bem... — disse ela, num tom que parecia flutuar no ar frio. — Como espelhos que não mostram rachaduras... apenas reflexos devidamente treinados.

Glenn permaneceu estático, sentindo um peso estranho no estômago.

​— O quê...?

​— E você? — inquiriu ela, inclinando a cabeça com uma curiosidade felina. — Está bem, Glenn?

​Os olhos dela não pareciam apenas fitá-lo; atravessavam sua pele, examinando o que havia por trás das costelas.

​— Parece… cheio de dúvidas. E perguntas.

​Glenn estreitou os olhos. Sua respiração tornou-se lenta, cautelosa. O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. Ele baixou o rosto, organizando o caos nos pensamentos. Quando voltou a encará-la, a rigidez dos ombros cedera.

​— Eu tenho, sim. Muitas — admitiu, a voz baixando. — Mas... antes disso... eu pretendia lhe agradecer.

​A garota piscou, surpresa, como se gratidão fosse a última coisa que esperasse encontrar ali.

​— Agradecer?

​Glenn assentiu. Seus pensamentos agora estavam limpos.

​— Agora eu me recordo. Você me tirou daquele lugar. Se eu tivesse permanecido, Ellie e eu estaríamos mortos... e o sacrifício de Louis teria sido em vão. Você sabia disso, e foi por isso que me deixou no celeiro. — Ele inclinou levemente a cabeça, num gesto de respeito que lhe pareceu natural. — Portanto... obrigado.

​A garota o observou em silêncio por alguns instantes. Um sorriso minúsculo e enigmático aflorou em seus lábios.

​— Você não tem necessidade de me agradecer, Glenn.

​A voz dela era doce, mas carregava uma ressonância que fez o coração dele dar um solavanco. Ela deu um passo à frente; seus olhos brilharam sob a luz prateada da lua com uma intensidade sobrenatural.

​— Eu fiz o que fiz porque... eu amo você.

​As palavras o atingiram com a força de um soco no estômago. Glenn piscou, completamente aparvalhado, sentindo o rosto queimar.

​— Ahn... como é que é? — Ele coçou a nuca, desajeitado. — Certo... bem, eu... não esperava por essa.

​Soltou um riso curto e nervoso, sem saber onde meter as mãos.

​— Nós jamais nos vimos antes daquela noite... como alguém pode nutrir tal sentimento assim, do nada?

​Ela inclinou a cabeça, parecendo divertida.

​— Uma dama precisa guardar um ou dois segredos... — replicou, e o sorriso parecia brilhar em uníssono com a luz lunar. — É o que a mantém misteriosa, não acha?

​— Hah... — Glenn deu um sorriso de canto, sem jeito. — Acho que sim.

​Por um momento, o ar pareceu reter o fôlego. A garota desviou os olhos para a porta logo atrás dela.

​— Olhe debaixo do colchão — sugeriu com suavidade. — Avistei algo brilhando ali.

​Glenn franziu o cenho.

— Brilhando?

​Ela anuiu e deu um passo lateral, liberando a passagem.

​Glenn hesitou, sentindo uma pontada de desconfiança, mas entrou no quarto. Ao passar por ela, seu coração acelerou sem justificativa. A lamparina sobre a cômoda lançava reflexos trêmulos nas paredes e, de fato, um feixe de luz metálica piscava sob a estrutura da cama.

Antes de se abaixar para investigar, ele se lembrou de algo:

​— Eu sequer perguntei. Qual é o seu nome?

​Não houve resposta.

​Glenn girou sobre os calcanhares. O corredor estava mergulhado na penumbra, completamente vazio. Ele olhou para todos os lados, mas não havia sinal de vivaldi.

Deveria haver alguém ali?, perguntou-se, o sangue subindo para as têmporas. Exalou o ar com força e passou a mão pelo rosto, subitamente exausto.

​— Que merda tá acontecendo... — murmurou para as paredes vazias, com um humor sombrio. — Acho que tô maluco.

Glenn voltou-se para o colchão e o empurrou. Algo reluziu, capturando o brilho frouxo da lamparina. Era um caderno de capa escura, com os cantos de metal gastos pelo tempo. Ele o apanhou, limpando a poeira com o polegar. O nome na contracapa fez seus batimentos estancarem.

— Um diário… do Louis? — a voz saiu num sussurro rouco.

Folheou as páginas devagar. O peso do papel áspero era real demais. Louis escrevia ali havia muito tempo. Glenn permaneceu estático por alguns segundos, sem coragem de prosseguir. A garganta apertou-se, tornando a respiração um exercício difícil, uma sensação incômoda de sufocamento.

— Eu sinto tanto a sua falta… — murmurou. A confissão flutuou pesadamente no ar parado.

Acomodou-se na beira da cama, sentindo o colchão ranger sob seu peso. A chama da lamparina tremulava, em sintonia com sua ansiedade. Abriu o caderno com uma reverência quase religiosa. O cheiro de papel antigo e poeira o atingiu, fazendo-o cerrar os olhos por um átimo. As primeiras páginas, notou com estranheza, estavam rasgadas — arrancadas de forma limpa, como se alguém tivesse planejado deliberadamente aquele esquecimento.

Passou o dedo pelas bordas serrilhadas e virou as folhas. A caligrafia de Louis saltou-lhe aos olhos. Era um traço firme, embora tortuoso nas curvas. Tão familiar que provocou uma pontada física de dor no peito.

 

Primavera dia 13

Glenn e eu combinamos de visitar Ilvanor um dia, o reino dos elfos. Falam que as árvores tocam o céu, maiores do que qualquer torre humana. Imagino como deve ser caminhar sob sombras tão antigas. Dizem que há bestas de mana únicas: cervos que brilham no escuro, corujas do tamanho de casas. Só de pensar, sinto um arrepio.

Ouvi histórias sobre a princesa elfa, uma beleza descomunal. Mas, sinceramente? Nenhuma descrição chega perto da Ellie. Ela tem algo que nenhuma princesa traduziria em palavras. É diferente. Única. É nela que meus pensamentos sempre repousam.

 

Glenn esboçou um sorriso involuntário. Um riso curto e exausto escapou no meio do silêncio sepulcral.

— Vira até um poeta quando fala da Ellie, não é, seu idiota? — disse ele, com um afeto óbvio sob o tom de mofa.

Virou a página.

 

Primavera dia 15

Hoje é aniversário de dezesseis anos da Ellie… parece tão surreal pensar nisso. Nós conhecemos desde os meus quatro… Quero juntar algum dinheiro para comprar algo especial para ela. Ainda tenho tempo, já que ela continua na academia de magos iniciantes. Tio Edran comentou que ela só voltaria no Outono. Isso significa que preciso atravessar toda a Primavera e o Verão sem ela. Uma eternidade. Ninguém merece essa espera. Mas talvez, quando finalmente voltar, o presente esteja pronto, e eu também.

 

Glenn olhou para o chão e folheou mais.

 

Verão dia 03

Treinei com espadas hoje. Meu dedo está inchado e lateja horrores. Glenn assistiu e disse que minha defesa foi ‘criativa’. Acho que é o jeito educado dele dizer ‘absolutamente horrível’. Mas estou melhorando. Um dia ainda vou vencer meu pai. Só preciso mirar no ombro certo.

 

Glenn riu novamente, mas o som ficou entalado na garganta, transformando-se num nó de angústia.

— Você realmente acreditava nisso, não é? — perguntou à caligrafia torta.

Inspirou profundamente, passando o polegar sobre as letras. Aquelas páginas eram tudo o que restara de Louis. As letras seguintes estavam descuidadas, oscilando de tamanho conforme os pensamentos do primo aceleravam.

 

Verão, dia 55

Glenn me disse que leu em um livro que os anões vivem dentro de uma montanha em Karak-Dûm. Tipo… dentro mesmo. Como é que eles constroem cidades ali? Nada que uma boa e bela magia de pedra não resolva, suponho. Queria ver isso com meus próprios olhos. Talvez um dia.

 

Glenn balançou a cabeça, sentindo a nostalgia pela curiosidade incessante do primo.

 

Verão, dia 81

Nosso reino se chama Valeris. Às vezes acho engraçado — ou preguiçoso — que a capital tenha o mesmo nome. A Família Real não parece ter talento para dar nomes… Mas ouvi dizer que lá existe uma biblioteca com livros enormes. Imagino Ellie e Glenn explorando aquelas prateleiras. Acho que eles iriam gostar mais do que eu.

 

Glenn deixou escapar um pequeno riso pelo nariz, imaginando a expressão cobiçosa de Louis ao escrever sobre a biblioteca. Virou outra página, sentindo o coração desacelerar conforme as palavras preenchiam o vazio do quarto.  

Mas então, ao se deparar com a próxima linha, o calor subiu-lhe às faces. A fisionomia de Louis saltava do papel, carregada daquele entusiasmo juvenil e da falta de tato de sempre.

 

Verão, dia 90

Ellie voltou. Mais linda do que nunca. Cresceu em tudo… TUDO MESMO… Principalmente nos peitos. Passamos a tarde com ela no piquenique. Ela adorou meu presente. Estou ansioso pelo festival da luz. Fui obrigado a trazer algo em casa para a mamãe, então fingi passar mal na igreja para voltar mais cedo e encontrá-la… Injusto eu ter que ir à igreja e o Glenn não…

 

Glenn continuou, mas o tom mudou. As letras tornaram-se trêmulas, perdendo a firmeza.

 

Vi algo que não deveria… nem sei por que escrevo isto. O corpo inteiro treme. Machucou de uma forma que eu não queria sentir… Vi a Ellie com o Glenn. Sozinhos.

 

O ar pareceu rarefeito. Glenn inspirou profundamente, o peito oprimido, e forçou-se a seguir.

 

Riam, bem próximos. Ela ria de um jeito que nunca fez comigo… E o Glenn a puxou pela cintura. Iam se beijar, se o tio Edran não tivesse aparecido. Que porra, Glenn…

 

Ele passou a mão pelos cabelos, soltando um riso de puro nervosismo que ecoou estranho no vácuo do quarto.

 

Tentei achar uma forma de não ser o que parecia. Mas era. Não havia outra interpretação. O mais idiota é que minha primeira reação não foi raiva. Foi tentar entender. Como se houvesse uma resposta que deixasse isso menos pior. Me sinto ridículo.

 

Havia um espaço em branco antes do parágrafo final.

 

Glenn gosta dela. Não sei desde quando, mas faz sentido. Todo mundo gosta. Amanhã vou falar com ela. Chega de enrolar. Se der errado, tanto faz. Não quero ficar aqui fingindo que está tudo bem…

 

O coração de Glenn deu um solavanco doloroso. Quase visualizava o primo sentado naquela cama, mordendo o lábio com ferocidade enquanto a pena arranhava o papel. A lamparina deu um último estalo e piscou. Glenn fechou o diário com lentidão, deixando-o sobre as coxas.

Eu deveria falar com a Ellie? Sobre nós… depois de tudo?

— …

Não seria justo. Louis morreu e ela se consome em culpa.

Era um pensamento lúgubre, um eco que ele tentava abafar desde o ataque. Não era o momento oportuno. Decerto, nunca seria. Colocou o caderno de lado, encarando a penumbra.

— Você sempre foi o mais corajoso, Louis — murmurou, com um riso fraco. — Enquanto eu… sequer tenho coragem para dizer o que sinto.

— Glenn?

A voz soou firme o suficiente para fazê-lo sobressaltar-se. Ele virou-se bruscamente. Tia Vivian estava à soleira. Pálida, exausta, mas com aquele olhar que parecia ler a alma.

— Tia Vivian… — Glenn levantou-se num movimento atrapalhado. — Peço desculpas. Não queria bisbilhotar.

Ela esboçou um sorriso triste, balançando a cabeça.

— Glenn, querido… está tudo bem. — Entrou no quarto com passos leves. — Acha mesmo que eu nunca mexi nesse caderno?

Arqueou uma sobrancelha, num gesto que era a imagem do filho.

— Eu o lia quase diariamente. Escondida, ou alimentando a ilusão de que estava escondida.

Glenn soltou um riso curto, apesar do aperto no peito.

— Eu sequer desconfiava que ele escrevia isso.

Vivian sentou-se na beira da cama, e o colchão cedeu. Glenn notou que ela evitava sentar-se exatamente no centro, deixando o espaço vazio onde Louis costumava deitar. Ela passou a ponta dos dedos pela capa do diário; não era um toque suave, era um gesto desesperado. As unhas quase arranhavam o couro, como se ela tentasse extrair algum calor dali.

— A ideia foi minha — disse ela, a voz seca, despojada de musicalidade. — Louis atravessava um daqueles períodos sombrios... — Ela parou, a garganta dando um nó visível. — Achei que escrever ajudaria a organizar a bagunça na cabeça dele.

Glenn sentiu o aperto no estômago. O quarto ainda conservava o cheiro do primo — sabão barato e o rastro metálico de tinta.

— Foi por isso que ele arrancou o começo? — a voz de Glenn soou estranha aos próprios ouvidos.

Vivian olhou para as páginas serrilhadas. De perto, Glenn via que as pálpebras dela estavam inchadas, a pele marcada por noites em claro desde o enterro.

— Foi — ela soltou um suspiro trêmulo. — Ele não suportava ver o que tinha escrito. Sempre fazia isso quando queria uma saída. Arrancava o que doía e tentava começar de novo. Mas desta vez não houve tempo para o novo, não é?

O silêncio que se seguiu foi pesado, opressor. O teto parecia baixar sobre eles. Vivian lutava contra a própria respiração.

— Ele estava tão inquieto nas últimas semanas — continuou, a voz subindo um tom, instável. — Parecia que ia explodir. A cabeça dele não cabia mais aqui dentro. — Ela deu um soluço curto, disfarçado de risada. — Começou a inventar aqueles planos de novo.

Glenn sentiu um calafrio. Ele conhecia os planos.

— Dizia que ia viajar — Vivian falava rápido agora, como se as palavras precisassem sair antes que a coragem acabasse. — Que ia enfrentar o Reynolds, que ia pedir permissão... ele ensaiava sozinho, Glenn. Eu o ouvia através da porta.

Ela fechou os olhos. Glenn pôde ver a cena: Louis andando de um lado para o outro no espaço estreito entre a cama e o armário.

— "O mundo é grande..." — ela repetiu, tentando imitar a voz do filho. O tom saiu quebrado, uma paródia dolorosa. — "E talvez seja hora de eu descobrir quem eu sou fora daqui."

Ela abriu os olhos e encarou Glenn. Havia uma intensidade crua ali, uma ferida exposta.

— Sempre tão dramático. Até o fim.

A promessa que eles tinham feito um ao outro parecia agora uma traição. Você ia me deixar para trás, Louis? A luz da lamparina vacilou, e Glenn sentiu que o quarto tinha ficado subitamente gélido. A culpa, que vinha latejando como um dente inflamado desde o acidente, finalmente explodiu.

— Você me culpa pela morte dele?

A pergunta cortou o ar como um chicote. Vivian estancou. Ela não desviou o olhar; pelo contrário, seus olhos pareceram se fixar nos dele com uma lucidez terrível. Ela não respondeu de imediato. O silêncio se esticou, elástico e torturante.

Glenn sentiu o suor frio na nuca. Ele se lembrou de Ellie no telhado, a voz dela carregada do mesmo medo que ele sentia agora. A incerteza era pior que a confirmação. O fato de Vivian não dizer "não" imediatamente era, por si só, um peso esmagador. Havia algo naquele silêncio — uma hesitação, um brilho de ressentimento que ela tentava, sem sucesso, sufocar sob a camada de luto.

Ele não esperou que ela encontrasse as palavras. O silêncio já tinha dito o suficiente.

Glenn levantou-se abruptamente, as pernas vacilando.

— Eu já entendi.

Não havia raiva na voz dele, apenas uma resignação amarga. Ele caminhou até a porta, sentindo o olhar dela em suas costas — um olhar que ele não tinha coragem de encarar.

Vivian não se moveu. Ela continuou ali, sentada na beira da cama do filho morto, segurando o diário contra o peito como se fosse um escudo, enquanto Glenn saía para o corredor escuro, carregando o peso de uma resposta que nunca foi dita.

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