Volume 1
Capítulo 12: Antes do Primeiro Passo
Glenn acordou antes que o primeiro vislumbre de luz cruzasse o horizonte. Não foi um despertar suave; foi como se seu corpo tivesse desenvolvido uma repulsa pelo descanso, expelindo-o do sono para a realidade fria do quarto.
A escuridão era quase absoluta. A casa parecia prender a respiração naquele silêncio estagnado que se tornara seu companheiro constante. Ele permaneceu sentado, os pés descalços tocando o assoalho gélido, travando uma breve batalha contra o desejo de se esconder sob os lençóis. Mas as paredes pareciam apertá-lo, empurrando-o para fora.
Lutando contra o peso nos membros, ele se vestiu e saiu, cuidando para que nenhuma tábua no piso denunciasse sua fuga.
O ar da manhã o atingiu como um tapa. Eloria despertava sob uma luz cinzenta e doentia; ele ouvia o som arrastado de sacos de grãos e o murmúrio de vozes discutindo as banalidades da sobrevivência. Glenn parou no batente, o cenho franzido. Havia algo errado com a manhã.
Ele ergueu os olhos e compreendeu.
O sol fora apagado. A sombra colossal da fortaleza de Aldebaran cruzava lentamente o céu, uma ilha de pedra e poder flutuando sobre suas cabeças. A penumbra constante que ela projetava sobre a vila parecia uma extensão física do que Glenn carregava no peito — um lembrete maciço de sua própria insignificância.
Louis... você queria ir embora daqui?, pensou, os olhos fixos na base escura da fortaleza.
O desejo do primo, antes uma suspeita vaga, adquiria contornos nítidos. Fazia um sentido cruel. Louis não queria apenas viajar; queria escapar do peso daquela sombra. A lembrança de Vivian e seu silêncio punitivo na noite anterior voltou a latejar, atropelada por outra, mais visceral: Ellie, pálida, delirando em seus braços: “... você prometeu... me salvar...”
Glenn apertou os punhos até as juntas ficarem brancas. Uma mistura de culpa e raiva fervia em seu estômago. Se eu tivesse sido mais forte, ela não estaria se culpando. Se eu e Louis tivéssemos sido mais fortes, tia Vivian não estaria olhando para o vazio.
— Eu preciso ficar mais forte — sibilou para o ar gelado. — Por elas. Louis queria isso.
— E como pretende fazer isso, exatamente?
Glenn deu um salto, o coração disparando. Reynolds atravessava o quintal com uma passada firme. Duas espadas de treinamento, feitas de madeira gasta, repousavam sobre seu ombro. A mão que estava protegida por faixas agora se movia com uma naturalidade deliberada.
— Eu... eu não sei — murmurou Glenn, sentindo-se uma criança pega em travessura.
Ele desviou o olhar para o balanço lento dos galhos das árvores além da cerca. A imagem do diário rasgado flutuou diante de seus olhos, e um sorriso sem alegria surgiu.
— Acho que o mundo é grande — disse, a voz ganhando uma leveza estranha. — E talvez seja hora de descobrir quem eu sou fora daqui.
O maxilar de Reynolds contraiu-se. O veterano não se moveu, mas seus olhos perfuravam a superfície das palavras de Glenn. O rapaz continuou, as palavras atropelando-se:
— Não acredito que vou me tornar alguém melhor... ou mais forte... se continuar parado neste lugar. Preciso buscar trabalho, conquistar influência... dinheiro... qualquer coisa que me permita ajudar vocês. Ajudar a vila. Eu quero fazer algo que realmente faça diferença, Reynolds.
Reynolds soltou um som baixo, um híbrido entre um suspiro e um bufo de escárnio.
— E o que você acha que um garoto pode realizar que um adulto já não tenha tentado e falhado? — perguntou, a voz fria como o orvalho.
Glenn abriu a boca, mas as palavras secaram na garganta. Ele a fechou, o silêncio voltando a cair sobre o quintal como um manto. Reynolds observou a hesitação com uma paciência implacável.
— Por que quer ficar forte, Glenn? — a pergunta veio num tom baixo. — Por que essa pressa toda?
Glenn encontrou o olhar severo do homem. Tentou organizar o turbilhão de luto e culpa, mas a resposta parecia grande demais para ser dita. Pela segunda vez naquela manhã, não conseguiu dizer nada.
Reynolds avançou, a expressão endurecida como se tivesse sido esculpida em granito.
— Pelo Louis? — disse ele, a voz cortante. — Deixa ele em paz. Já há terra suficiente cobrindo o que restou.
Glenn piscou, sentindo o ar fugir de seus pulmões antes que pudesse sequer tentar uma defesa. Reynolds deu mais um passo, diminuindo a distância até que seu rosto estivesse perto demais para permitir qualquer fuga.
— Então me diga — insistiu ele, os olhos faiscando. — Por que quer ficar forte?
Outro passo. Glenn sentiu o impulso de recuar, mas suas pernas pareciam presas ao solo úmido.
— Por que quer ir embora?
Mais um passo. O peito de Reynolds quase tocava o de Glenn agora.
— Quero ouvir o seu motivo. Não a voz do meu filho morto saindo pela sua boca.
As palavras ficaram suspensas entre eles, sólidas como as muralhas da fortaleza acima. Glenn tentou formular uma resposta, mas sua mente era um deserto.
— O que está acontecendo aqui?
A voz de Vivian veio do corredor, quebrando o feitiço de agressividade. Ela cruzou o batente e parou, o olhar percorrendo Reynolds e Glenn com uma calma que parecia, de algum modo, mais perigosa que a fúria do marido.
— Por que está levantando a voz, Reynolds? — perguntou ela, suavemente.
Reynolds passou a mão pelo rosto, um gesto de impaciência bruta.
— Nada demais — sibilou, soltando um suspiro seco. — O Glenn aqui decidiu que vai ser o novo herói de Eloria. Quer salvar o mundo... embora não faça a menor ideia do que está tentando salvar. — Ele olhou para o sobrinho de cima a baixo, um olhar de desdém que queimou Glenn mais do que qualquer insulto. — Parece apenas alguém tentando transformar a morte do Louis em uma desculpa conveniente.
Glenn sentiu os ombros endurecerem. O maxilar travou com tanta força que os dentes doeram. Queria gritar, mas a garganta parecia obstruída por brasas.
— E para completar — continuou Reynolds, erguendo uma sobrancelha — já está cogitando ir embora daqui.
Vivian estancou. O mundo ao redor pareceu perder o som.
— O... o quê? — a voz dela falhou, tornando-se um fio inaudível. — Por quê?
Ela olhou diretamente para Glenn. Foi um olhar tão carregado de dor que ele desviou o rosto imediatamente. Vivian deu um passo hesitante.
— Glenn... por que você quer ir? — a voz dela tremia nas bordas. — Eu não consigo... eu não entendo. É... é por minha causa? É porque eu me afastei?
Outro passo. A luz da manhã, filtrada pela sombra da fortaleza, fazia as lágrimas brilharem como vidro quebrado.
— Foi porque eu não respondi ontem à noite? — a pergunta saiu em um soluço sufocado. — É por isso?
Glenn apertou as mãos ao lado do corpo, as unhas cravando-se na palma. Tentava, desesperadamente, manter o controle sobre algo que já havia escapado. Vivian soltou uma risada curta e sem vida, um som encharcado de puro medo.
— Eu não respondi porque... — ela tocou o próprio peito, lutando por oxigênio — ...porque você me pegou de surpresa. Eu nunca... nunca imaginei que você carregasse esse pensamento.
Uma lágrima escapou, traçando um caminho rápido pelo seu rosto pálido.
— Glenn, você não tem culpa — a voz dela quebrou de vez, transformando-se em um lamento. — Você não tem culpa nenhuma por o Louis não ter voltado para casa!
Ela deu mais um passo, um impulso de desespero, tentando agarrar uma sombra antes que ela desaparecesse.
— Então, por favor... não me deixe também. Por favor…
Glenn baixou os olhos para o chão de terra batida. Permaneceu em silêncio por um longo momento, enquanto o peso da súplica de Vivian o esmagava.
— Eu... eu não posso — murmurou, a voz quase sumindo no vento.
— Por quê?
Glenn fechou os olhos com força. O peito subia e descia em espasmos. Quando finalmente falou, a voz veio rouca, arranhada, como se arrancada das profundezas de um poço seco.
— Porque cada vez que eu me olho no espelho, eu vejo tudo o que perdi. Vejo cada erro, cada segundo que deixei escapar. Vejo ele... e vejo você... e vejo o fracasso do que eu deveria ter sido.
Respirou fundo, mas o ar parecia denso demais.
— E eu não sei mais quem eu sou sem esse peso, Vivian. Eu carrego essa culpa em cada passo. E quanto mais eu tento fingir que nada mudou... mais eu me afundo nesse lodo.
Ele finalmente abriu os olhos e a encarou. Eles estavam vermelhos, transbordando de uma angústia antiga e nova.
— Porque eu me odeio. E eu não sei como continuar aqui... quando tudo em mim só quer desaparecer.
A confissão saiu das entranhas de Glenn com uma força inesperada. Por um instante, o único som no quintal era sua respiração curta e ruidosa. Vivian parecia paralisada; o rosto pálido e as mãos presas ao peito como se contivessem o próprio coração. Até Reynolds, sempre imperturbável, estreitou os olhos, observando o sobrinho como se o visse pela primeira vez.
— Eu me sinto... pequeno — murmurou Glenn. Uma lágrima teimosa transbordou, descendo pelo rosto. — Pequeno demais para carregar tudo isso.
Ele limpou o rosto com o dorso da mão, mas era inútil. A represa havia rompido.
— Eu me odeio por ter seguido ordens e ido buscar ajuda enquanto ele... — A voz falhou em um soluço seco. — Eu deveria ter chegado a tempo. Deveria ter morrido no lugar dele. Louis tinha planos, tinha um futuro. E eu só estou aqui, ocupando espaço.
Ele ergueu o rosto, os olhos injetados e cheios de uma determinação desesperada.
— Preciso fazer algo que preste, tio. Realizar o que ele não pôde, ou encontrar quem fez aquilo e... — O ódio na voz era palpável. — Se eu não tiver um motivo para acordar amanhã, não tenho nada. E se não tenho nada, por que ainda estou vivo?
Vivian soltou um gemido baixo. Deu um passo à frente, as lágrimas escorrendo, e tentou alcançar o ombro do rapaz.
— Oh, Glenn... me perdoe — sussurrou. — Eu deveria ter percebido.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um som inesperado: um riso curto e seco vindo de Reynolds. Ele balançou a cabeça lentamente, com um brilho de respeito no olhar severo.
— Finalmente — disse Reynolds, a voz como o estalar de lenha seca. — Finalmente parou de tentar ser o bom menino que agrada a todos. Faz tempo que você não fala com tanta honestidade, Glenn.
Sem qualquer aviso, Reynolds girou o pulso e lançou uma das espadas de treinamento. O objeto de madeira rodopiou no ar. Glenn, por puro reflexo, agarrou o punho da arma. O impacto enviou um estalo pelo seu braço, fazendo os dedos formigarem.
— Quer ir embora? — perguntou o tio, com autoridade. — Quer buscar vingança? Pois saiba que, se cruzar aquele portão agora, não durará uma hora. O mundo não tem misericórdia de garotos que lutam apenas com o coração cheio de culpa.
O vento fustigou as árvores, fazendo as roupas de Glenn chicotearem contra o corpo. Reynolds apoiou a própria espada no ombro, em postura de combate.
— Só vou acreditar que está pronto quando me vencer — declarou, fixando os olhos nos dele. — Aqui e agora. Se realmente quer esse destino, prove que tem força para segurá-lo.
Glenn sentiu um frio subir pela espinha. Vencer o tio parecia tão impossível quanto derrubar a fortaleza de Aldebaran com as mãos nuas.
Reynolds não esperou por uma resposta. O medo no rosto de Glenn parecia ser o sinal que ele aguardava.
— Se não consegue sustentar o olhar contra o meu — disse o tio, a voz fria —, como espera proteger alguém? Como enfrentará o que destruiu esta vila se treme diante de mim?
Glenn tentou protestar, mas a garganta parecia seca. Reynolds deu um passo à frente, estreitando a distância até Glenn sentir o calor da sua respiração.
— Prove que não são palavras vazias. Só assim você cruza aquele portão.
— O que você está fazendo, Reynolds?! — O grito de Vivian cortou o ar. Ela avançou, pálida ao ver as espadas de madeira. — Eu não permitirei! Ele não vai a lugar nenhum!
Glenn sentiu um solavanco de surpresa, mas Reynolds manteve os olhos fixos no sobrinho.
— Eu também não permitirei, Vivian — respondeu ele, em um tom perigosamente baixo.
O chão pareceu explodir sob os pés de Reynolds. Foi um borrão que os olhos de Glenn não acompanharam. Ele ergueu a espada por reflexo, mas o impacto foi como o choque de uma carruagem. O estalo da madeira ecoou em seus dentes. A força o arremessou para trás até que suas costas atingissem o tronco de uma árvore, expulsando todo o ar de seus pulmões.
O mundo girou. Antes que pudesse se conter, o ácido subiu por sua garganta. Ele vomitou na terra fria, o corpo inteiro tremendo.
— VOCÊ ACHA QUE PODE CONTRA ALGUÉM REVESTIDO EM MANA?! — O rugido de Reynolds vibrou no crânio de Glenn.
— CHEGA! — Vivian gritava, mas sua voz soava abafada.
Glenn tentou se apoiar, mas a presença do tio era esmagadora; uma pressão invisível que tornava o ar pesado. Antes que ficasse de joelhos, o punho de Reynolds atingiu seu estômago. A dor foi cegante. Glenn desabou sob faíscas brancas.
— Nada — sibilou Reynolds, agora agachado. Sua sombra cobria o rosto do garoto. — Você não passaria de um estorvo lá fora. Você não tem raiz de mana, Glenn. Nada liga você ao poder deste mundo. Você está a décadas de distância de ser um herói.
O tio levantou-se e limpou o pó das calças com indiferença.
— Você não está pronto — sentenciou, virando as costas.
Ele já havia dado dois passos quando um som arranhado o fez parar.
— Mana... — Glenn forçou as palavras. — Eu não quero essa merda. Não preciso dela.
Reynolds virou-se. Glenn estava curvado pela náusea, usando a espada de madeira como um apoio precário. Centímetro a centímetro, ele se obrigou a ficar de pé. Quando finalmente ergueu a cabeça, o rosto estava manchado de terra e sangue, mas os olhos brilhavam com fúria.
Ele não apenas encarava o tio; ele o desafiava. Um sorriso torto e sangrento surgiu em seus lábios.
— Me mostre de novo — desafiou Glenn, a voz firme. — Me mostre exatamente por que eu não estou pronto.
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