Volume 1
Capítulo 12: Antes do Primeiro Passo
Glenn acordou antes do amanhecer. Não porque quis, mas porque, nos últimos dias, seu corpo parecia ter desistido de descansar.
Ao abrir os olhos, não percebeu diferença entre noite e manhã — a casa permanecia silenciosa, imóvel, com aquele ar parado.
Ficou sentado por alguns instantes, tentando decidir se valia a pena dormir de novo. Mas a casa, tão quieta, parecia empurrá-lo para fora. Levantou e saiu sem fazer barulho.
O ar frio tocou seu rosto ao abrir a porta. A vila já dava sinais de vida — passos, alguém arrastando um saco de grãos ao fundo, vozes abafadas discutindo algo simples. Glenn parou no batente por alguns segundos. O clima pesava no ar.
Ao erguer o rosto, entendeu o motivo.
O céu estava tomado por nuvens, e a sombra imensa da fortaleza de Aldebran cruzava lentamente sobre a vila. A ilha flutuante apagava o sol por completo, mergulhando tudo em penumbra constante. Aquele peso no céu combinava com tudo que ele sentia desde o ataque.
Sem perceber, pensou:
"Louis… você queria ir embora."
O primo nunca falara abertamente sobre aquilo, mas talvez o desejo sempre estivesse lá — discreto, escondido entre risadas e histórias que pareciam inocentes.
Agora… tudo fazia sentido, ainda que de um jeito estranho.
Glenn desviou o olhar para a porta atrás de si.
Sua casa.
O silêncio da tia na noite anterior.
A pergunta que ele mesmo fizera.
Então, a lembrança surgiu — suave, quase tímida — como se tivesse aguardado o instante exato para se revelar.
Ellie, inconsciente, ofegava entre frases partidas.
“… você prometeu… me salvar…”
Glenn engoliu seco.
"Se eu tivesse sido mais forte… ela não estaria se culpando."
"Se o Louis tivesse sido mais forte… a tia Vivian não estaria sofrendo daquele jeito."
Apertou a própria mão, como se tentasse segurar algo que escorregava.
— Eu preciso ficar mais forte. Por elas. Porque ele me pediu.
O ar atrás dele mudou, como se alguém tivesse se aproximado.
— E como pretende fazer isso?
A voz fez Glenn se virar. Reynolds atravessava o quintal com passos firmes, as duas espadas de madeira apoiadas no ombro. A mão que antes não largava as faixas agora se movia com naturalidade.
Glenn demorou a responder.
— Eu… não sei — murmurou.
Seu olhar escapou para as árvores além da cerca. O vento balançava os galhos com lentidão, e por algum motivo aquilo trouxe de volta, com nitidez, a lembrança do diário.
Um sorriso curto surgiu, involuntário.
— Acho que o mundo é grande — disse, com a voz mais leve. — E talvez seja hora de descobrir quem eu sou fora daqui.
Reynolds não respondeu, mas Glenn percebeu o maxilar dele se contrair por um instante.
Glenn inspirou fundo.
— Não acho que vá conseguir ser alguém melhor… ou mais forte… ficando aqui. — continuou. — Quero arranjar trabalho, dinheiro… ajudar vocês. A vila. Fazer alguma coisa.
Reynolds soltou um som baixo, entre um “hm” e um suspiro.
— E o que um garoto pode fazer que um adulto não consegue? — perguntou, sem ironia, apenas direto.
Glenn abriu a boca.
Nenhuma resposta.
Fechou de novo.
Reynolds observou o silêncio, como se já soubesse que viria.
— Por que quer ficar forte, Glenn? — a voz veio mais baixa. — Por que essa pressa?
Glenn ergueu o olhar.
Tentou responder.
Não conseguiu.
O tio avançou um passo, firme.
— Pelo Louis? — disse, sem rodeios. — Não coloque isso nas costas dele.
Glenn piscou, o ar preso no peito antes que pudesse evitar.
Reynolds deu mais um passo.
O rosto perto demais para permitir fuga.
— Então me diga — continuou. — Por que quer ficar forte?
Outro passo.
— Por que quer ir embora?
Mais um.
— Quero ouvir o seu motivo. Não o do meu filho morto.
As palavras ficaram suspensas no ar — sólidas, pesadas, incontornáveis.
Glenn tentou dizer algo.
Nada.
— O que está acontecendo aqui?
Os dois se viraram ao mesmo tempo. Vivian vinha do corredor, saindo de casa. O olhar dela percorreu Reynolds, depois Glenn, e parou exatamente no espaço entre eles.
— Por que está levantando a voz, Reynolds? — perguntou, calma demais para ser desatenção.
Reynolds passou a mão pelo rosto, impaciente.
— Nada demais — disse, com um suspiro seco. — O Glenn aqui acha que virou herói. Quer salvar todo mundo… mas nem sabe do quê. — Olhou para o sobrinho de cima a baixo, como quem avalia um erro. — Parece mais alguém tentando transformar a morte do Louis numa desculpa conveniente.
Glenn sentiu os ombros endurecerem. O maxilar travou antes mesmo que percebesse. A garganta ardeu, mas ele não disse nada.
Reynolds continuou, impiedoso.
— E pra completar — ergueu a sobrancelha, como se fosse um veredito — já tá cogitando ir embora daqui.
Vivian parou. O mundo pareceu parar com ela.
— O… o quê? — a voz falhou, quase inaudível. — Por quê?
O olhar dela foi direto para Glenn, tão rápido que ele virou o rosto. Não conseguia encarar. Não agora.
Vivian deu um passo hesitante.
— Glenn… por que você quer ir? — a voz dela era baixa, mas tremia nas bordas. — Eu não consigo… — ela engoliu seco — …eu não consigo entender. É… é por minha causa? Foi porque eu me afastei?
Outro passo. O olhar dela brilhava agora, como se segurasse lágrimas com força demais.
— Foi porque eu não respondi ontem…? — a pergunta saiu quebrada. — É isso?
Glenn apertou a mão ao lado do corpo. Forte. Mais forte. Como se tentasse segurar alguma coisa dentro dele que já estava escapando.
Vivian riu. Curta. Sem graça. Desesperada. Encharcada de medo.
— Eu não respondi porque… — ela tocou o próprio peito, tentando controlar a respiração — …porque me pegou de surpresa. Eu nunca… nunca pensei… que você achasse isso.
As lágrimas começaram a se formar no canto dos olhos.
— Glenn, você não tem culpa — a voz dela quebrou de vez. — Você não tem culpa nenhuma por o Louis não ter voltado.
Ela deu mais um passo, quase num impulso.
— Então, por favor… não me deixa também.
A respiração falhou.
— Por favor….
Glenn baixou os olhos. O chão parecia mais fácil de encarar do que ela. Ele ficou em silêncio por um instante, como se procurasse as palavras certas no meio do caos que era sua cabeça.
— Eu… eu não posso — murmurou, quase sem voz.
Vivian deu um passo à frente, a respiração presa no peito.
— Por quê? — perguntou, como se a resposta pudesse mudar tudo.
Glenn fechou os olhos. O peito subia e descia rápido demais. Quando falou, a voz veio rouca, arranhada, como se tivesse atravessado um deserto por dentro.
— Porque cada vez que eu olho no espelho, eu vejo tudo o que eu perdi. Tudo o que eu deixei acontecer. Eu vejo ele… e vejo você… e vejo tudo o que eu não fui capaz de segurar.
Ele respirou fundo, mas o ar não entrou.
— E eu não sei mais quem eu sou sem essa culpa. Sem esse peso. Eu carrego isso o tempo todo, Vivian. E quanto mais eu tento seguir em frente… mais eu me afundo.
Ele finalmente a encarou. Os olhos vermelhos, úmidos, mas firmes.
— Porque eu me odeio. E eu não sei como ficar… quando tudo em mim só quer desaparecer.
Foi tão sincero que até ele se assustou com o próprio som.
Reynolds franziu o cenho. Vivian congelou no lugar.
Glenn baixou o olhar por um segundo — só um — e outra lágrima caiu.
— Eu me acho pequeno… — murmurou, quase sem voz. — Pequeno demais pra tudo isso.
Ele passou a manga no rosto, mas as lágrimas continuaram.
— Eu me odeio por não ter ficado quando o Louis me mandou procurar vocês… — a respiração falhou — …por não ter chegado a tempo.
Ele piscou rápido, tentando segurar algo que já tinha escapado.
— Eu me odeio por… — o lábio tremeu — …por não ter morrido no lugar dele.
Silêncio.
Pesado.
— Ele queria viver. — Glenn continuou, mas agora parecia estar falando sozinho, para ninguém. — Ele tinha todos aqueles planos… e eu… eu só fiquei aqui.
Mais uma lágrima caiu, esta sem qualquer resistência.
— Eu só… — ele ergueu os olhos, vermelhos — …eu só quero fazer alguma coisa que preste. Qualquer coisa.
As mãos dele cerraram devagar.
— Quero realizar os sonhos dele. Quero impedir que isso aconteça de novo. E sim… — respirou, tenso — …eu quero destruir quem fez aquilo.
A voz não tinha grito.
Só verdade.
— Porque se eu não tiver isso… esse motivo… — engoliu seco — …então eu não tenho mais nada.
Os olhos se encheram de novo.
— E se eu não tenho nada… por que eu tô vivo?
Vivian levou a mão ao peito.
O rosto dela desabou num segundo.
Não foi um choro bonito — foi um choro silencioso, de choque.
De perceber que ele carregava tudo aquilo… sozinho.
Ela abriu a boca pra dizer algo, mas a voz simplesmente não saiu.
— Glenn… — tentou enfim, falhando na metade do nome. — Eu… eu não sabia…
Os olhos dela tremiam, cheios, transbordando.
— Me perdoa… — sussurrou, dando um passo à frente — …eu devia ter visto.
Água caiu no chão.
Ela nem percebeu.
O silêncio pairava no ar quando Reynolds soltou um riso breve.
— Hm… — balançou a cabeça, como quem se permite um alívio tardio. — Faz tempo que você não fala assim, Glenn.
A espada de madeira cruzou o ar num arco limpo e caiu diante do garoto. Glenn a agarrou por instinto. O impacto foi leve, mas firme, vibrando nos dedos. Por um segundo, ele apenas encarou o objeto, sem entender.
Reynolds deu um passo à frente. A expressão não era de raiva, nem de cobrança — era sóbria.
— Finalmente ergueu a cabeça — disse, voz baixa, firme. — Não usou desculpas. Não se escondeu atrás de ninguém. Pela primeira vez, falou como você mesmo… e não como alguém tentando carregar o mundo inteiro nas costas.
Glenn desviou o olhar. O maxilar travado. A madeira parecia mais pesada agora.
Reynolds continuou:
— Mas eu não posso deixar você ir embora assim. — Fez uma pausa. Lenta. — Se seguir viagem desse jeito… vai morrer antes de chegar ao próximo vilarejo.
O ar pareceu engrossar.
Glenn sentiu o estômago apertar. Um frio subiu pela espinha.
Reynolds apoiou a outra espada no ombro, como fazia quando ensinava Louis.
O vento cortou entre as árvores, levantando poeira e folhas. A voz dele atravessou o silêncio como um golpe direto.
— Só vou saber que está pronto quando conseguir me vencer — disse, sem elevar o tom. — Aqui. Agora. Sem fugir do que quer.
Glenn engoliu seco.
“Vencer?”
A ideia soou absurda. Quase cômica.
Reynolds percebeu o medo antes que ele tentasse esconder.
— Se nem consegue me encarar… — comentou, com um sorriso mínimo. — Como espera proteger essa vila? A Vivian? A Ellie? Como acha que vai enfrentar o que destruiu tudo aqui… se não pode sequer me enfrentar?
Glenn prendeu a respiração. Queria argumentar. Dizer algo. Qualquer coisa. Mas nada veio.
Reynolds não recuou.
— Me prove que não foram palavras vazias — disse. — Só assim eu deixarei você ir.
A voz de Vivian cortou o ar como uma pedra na água.
— O que você está dizendo, Reynolds?!
A respiração dela estava acelerada. A expressão, tensa. Os olhos correram entre os dois — as espadas, as posturas, o clima pesado que puxava tudo para o chão.
— Eu nunca… — apontou para Glenn, a voz trêmula — nunca permitiria que ele fosse embora! Não assim!
Glenn se virou, surpreso. O peito apertou de um jeito estranho.
Reynolds respirou fundo.
— Eu também não permitirei, Vivian — disse, sem levantar a voz.
O silêncio que se seguiu foi estranho. Quase calmo.
Mas não era paz. Era o tipo de silêncio que precede o trovão.
Glenn não teve tempo de entender.
Um som seco — terra sendo chutada para trás — cortou o ar.
Reynolds avançou.
Foi rápido. Rápido demais.
Glenn só conseguiu erguer a espada no último instante.
Madeira encontrou madeira com um estrondo surdo — e o impacto o atravessou inteiro, como se o mundo tivesse desabado sobre ele.
Vivian gritou.
Mas o som se perdeu no choque.
O corpo dele voou de lado, atingindo o tronco de uma árvore com força suficiente para arrancar o ar dos pulmões.
O chão girou. O peito ardia.
Um gosto amargo subiu pela garganta — e ele vomitou.
Nada além de ácido. A barriga vazia queimando por dentro.
— O QUE VOCÊ PENSA QUE VAI FAZER CONTRA UM HUMANO REVESTIDO DE MANA?! — Reynolds gritou, a voz vibrando como trovão.
— REYNOLDS, CHEGA! — Vivian gritou atrás, em puro desespero.
Glenn tentou levantar o olhar.
A pressão que vinha do tio era sufocante — não só a mana, mas a presença.
Era como estar diante de uma parede viva.
Os braços dele tremiam sem controle.
"Eu nunca…"
"…nunca vi ele assim."
Ele tentou empurrar o chão, mas antes que conseguisse se por de pé, Reynolds já estava ali.
Um soco — direto no estômago.
O mundo apagou por um segundo.
As pernas dobraram.
Ele caiu de joelhos, o ar preso, a visão embaçada.
— Nada. — Reynolds disse, sem gritar desta vez. — Você não conseguiria fazer nada contra alguém assim.
Ele se agachou perto do garoto, a sombra cobrindo metade do rosto.
— Você não tem nem raiz de mana. Nada liga o seu corpo à mana ambiente. — disse, como uma sentença. — Está a décadas de distância de sequer pensar em sobreviver fora daqui… muito menos ser um herói.
Glenn caiu com tudo. O rosto afundou na terra fria, o gosto de sangue e poeira se misturando na boca.
Respirava como quem tenta puxar ar por uma agulha.
Reynolds se levantou.
Virou de costas.
— Você não está pronto.
Deu dois passos.
E então—
— Mana… — a voz de Glenn veio baixa, arranhada, quase irreconhecível. — Eu não quero essa merda.
Reynolds parou.
— …eu não preciso disso.
Silêncio.
O homem se virou devagar.
Glenn estava de joelhos.
Apoiava-se na espada como se ela fosse a única coisa que o mantinha no mundo.
Os braços tremiam. O corpo curvado.
Mas ele se levantou.
Centímetro por centímetro.
Dor por dor.
Como se cada músculo gritasse. Como se o chão tentasse puxá-lo de volta.
E mesmo assim — ele se levantou.
Quando ergueu o rosto, os olhos estavam vermelhos, o rosto sujo, o peito arfando.
E ele estava sorrindo.
Um sorriso pequeno.
Quase quebrado.
Quase desafiador.
Mas era um sorriso.
E era dele.
— Me mostra de novo — disse, a voz firme apesar do sangue nos lábios. — Me mostra por que eu não tô pronto.
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