Volume 1
Capítulo 13: Raízes de Mana
Glenn tentou puxar o ar, mas ele vinha em pedaços, áspero e cortante. Suas pernas vacilaram e os dedos latejavam em volta do cabo da espada. Ele está certo, admitiu, e a constatação queimava mais que o golpe.
A mana sempre estivera ali: no vento dos vales, na terra sob as unhas, no calor que vibrava o horizonte. Todos aprendiam a puxar um pouco dela para si através das raízes — fios invisíveis que ligavam a alma ao mundo, transformando vontade em poder.
Um músculo sob seu olho direito tremeu. Todo mundo tem, pensou, com um nó de amargura na garganta. Todo mundo... menos eu. Para ele, o mundo se recusava a ser tocado.
Reynolds não desviou o olhar.
— É fácil falar — murmurou o tio.
O ar ao redor de Reynolds mudou. Não foi um vento comum, mas uma deformação no espaço. Folhas secas correram para seus pés e a poeira girou, atraída por uma força que Glenn sentia formigar na própria pele. A temperatura subiu. A camisa de Reynolds estufou e as bordas do tecido se desfizeram em brasa, com fagulhas nascendo diretamente de sua pele.
— Um combatente reveste o corpo com mana para aumentar a força e a velocidade — explicou Reynolds, enquanto o ar ondulava como água ao seu redor. — Mas quem sobrevive aprende a revestir o corpo com o elemento.
O fogo subiu, envolvendo o braço do tio como uma armadura viva e crepitante. Vivian deu um passo à frente, as mãos trêmulas cobrindo a boca.
— Reynolds... por favor. Ele já entendeu...
Glenn não ouviu. Ele apertou o maxilar e mudou a postura, percebendo que não havia para onde correr. Reynolds ergueu uma das mãos. Um ponto de luz nasceu ali: fogo comprimido em uma esfera minúscula que parecia pesar toneladas.
A esfera cruzou o ar como um soco quente. Glenn saltou para o lado, sentindo o calor roçar seu rosto. Rolou pela terra, recuperou a espada por instinto e disparou, mas Reynolds já não estava lá.
O peso surgiu acima dele.
Reynolds desceu em um golpe vertical, seco e devastador. Glenn ergueu a madeira no último segundo. O impacto estalou seus nervos e ossos; a espada rangeu, uma rachadura profunda correndo de cima a baixo. Com a precisão de um carrasco, o tio girou o corpo e desferiu o chute.
O mundo virou de cabeça para baixo. Glenn atingiu a árvore novamente, o impacto expulsando o fôlego de seu peito. O suor se misturou ao gosto de sangue. Vivian observava em horror, percebendo que aquilo não era mais um treinamento.
Glenn inclinou-se e cuspiu na terra. O chão girava, e seu corpo implorava para que permanecesse caído. Ainda assim, através da névoa de dor, seus olhos não se desviavam de Reynolds, recusando-se a ceder.
À frente, Reynolds permanecia imóvel. As chamas que o envolviam pulsavam em sintonia com sua respiração, transformando-o em uma figura inatingível. Seu olhar desceu lentamente até a espada de Glenn, agora marcada por uma rachadura profunda.
— Sua arma está partindo — observou ele, sem emoção. — Você mal se sustenta. Está tremendo, não possui mana e não tem técnica. Como alguém assim espera sobreviver?
Glenn pressionou a palma contra a terra úmida. Apertou os dedos no solo até a sujeira prender-se sob as unhas, buscando um ponto de equilíbrio para não desmoronar. A dor em seu abdômen latejava a cada respiração, aguda como uma faca cravada nas entranhas.
Ele se levantou. O corpo oscilou, mas ele se firmou.
— Glenn... por favor... — Vivian deu um passo, o rosto vincado.
Ele forçou um sorriso torto, apesar da agonia.
— Se eu fosse desistir porque parece impossível, já teria parado há muito tempo.
Reynolds piscou. Um esboço de sorriso surgiu, destituído de gentileza.
— Você sempre fala demais.
— Então pare de me subestimar... e me faça calar a boca.
Reynolds avançou. Foi um borrão que atravessou a distância em um segundo. Glenn reagiu por puro instinto. Seu braço disparou numa fração de segundo e um estalo seco ecoou quando algo atingiu o rosto de Reynolds. Terra. Pura terra e cascalho lançados diretamente nos olhos do homem.
Reynolds recuou meio passo, fechando os olhos por reflexo. Ele desferiu um golpe cego; a madeira cortou o ar com um sibilo tão violento que o vento roçou o couro cabeludo de Glenn enquanto ele se abaixava.
Glenn não esperou. Correu.
Enquanto o tio limpava a visão, guiado pelo som dos passos, o quintal pareceu desaparecer para Glenn. O cheiro de fumaça foi substituído pelo odor de óleo velho sob a luz de uma lamparina. Ele viu Louis, sentado no chão, desmontando o cabo de uma espada de treino.
— Glenn... sabe por que o velho largou a vida de aventureiro? — perguntou Louis, sem erguer os olhos.
— Porque você nasceu — murmurou o Glenn da lembrança, deitado com os braços sob a cabeça. — E eu fui adotado.
Louis soltou uma risada curta, que morreu rapidamente. O polegar dele batia rítmico contra a madeira. Toc. Toc.
— Também. Mas tem algo mais. Na última masmorra, ele levou um golpe na lateral e foi arremessado. O ombro direito nunca mais voltou para o lugar. Nenhuma poção ou magia resolveu.
Louis ergueu a mão direita, simulando uma guarda de combate.
— Mamãe diz que é como se o corpo dele guardasse um medo que ele se recusa a admitir. A guarda sempre abre desse lado, mesmo quando ele tenta esconder.p
Louis tocou a própria clavícula e olhou seriamente para o primo.
— Se um dia precisar acertá-lo... mire aqui.
O cheiro de fumaça real trouxe Glenn de volta. Reynolds avançava, mas agora o ponto cego estava exposto. O ombro direito. Aberto.
A voz de Louis ecoou:
“Mira aqui.”
Glenn atacou.
A espada de madeira descreveu um arco seco rumo ao ombro de Reynolds. Por um segundo, ele acreditou. Mas o tio apenas desviou o rosto, os olhos semicerrados pela terra, e bloqueou o golpe com um movimento fluido do antebraço.
O impacto latejou até o cotovelo de Glenn, jogando sua arma para o alto. Reynolds girou o tronco e desferiu um soco baixo. Glenn saltou para o lado, sentindo o punho rasgar o ar a centímetros do rosto, mas o tio aproveitou o giro e plantou um chute em suas costelas.
O ar sumiu. Glenn foi arremessado, rolando pela terra até colidir com uma raiz exposta. A dor no flanco explodiu. Lutando contra a náusea, ele se arrastou de joelhos, tateando o chão até reencontrar o cabo da espada.
Levantou-se, trêmulo. Um filete de sangue escorria de sua boca, mas o olhar permanecia fixo. Reynolds avançou.
O choque das madeiras produziu um estalo seco que fez os dedos de Glenn arderem. Seus pés derraparam na terra batida, mas ele resistiu. O segundo golpe veio na horizontal, rente às costelas. Glenn ergueu a lâmina; o impacto quase desarmou sua mão e a rachadura na madeira abriu-se mais um centímetro — um aviso silencioso.
Reynolds empurrou a lâmina com força bruta. Glenn cambaleou, a guarda cedendo. Cada lufada de ar era um corte no peito, enquanto o tio não demonstrava cansaço.
Quando Reynolds recuou, Glenn avançou. Mirou o ombro direito — o ponto de Louis. O movimento foi preciso, mas o bloqueio veio com um desdém entediado.
— Esse truque... — murmurou o tio. — Achou mesmo que ninguém tentou isso antes?
Glenn não respondeu; guardava o pouco fôlego que lhe restava. Reajustou a base e insistiu.
A luta seguiu num ritmo punitivo. Reynolds golpeava; Glenn bloqueava. Reynolds chutava; Glenn tropeçava e se erguia. A cada defesa, a visão de Glenn escurecia, o braço tornando-se dormente. Contudo, ele voltava ao flanco direito. Sempre ali.
— Já disse — comentou Reynolds, desviando outro ataque. — Acha que eu teria sobrevivido tanto tempo com um lado fraco exposto?
Ele moveu o ombro com facilidade, a musculatura firme como se a velha lesão fosse um boato. Glenn não recuou. Jogou o peso do corpo em um último corte diagonal.
A lâmina desceu — e as chamas explodiram.
As brasas que rodeavam Reynolds expandiram-se num clarão. Um rugido abafado cortou o silêncio. A onda de calor atingiu Glenn primeiro, seguida por um impacto que o golpeou no peito.
Ele foi lançado. O corpo girou no ar e a espada escapou de seus dedos. Glenn caiu metros adiante, parando de bruços na sujeira.
O fôlego voltou em soluços dolorosos. O mundo girava.
Reynolds continuava lá, imóvel. Brasas silenciosas flutuavam ao seu redor como fragmentos de um sol suspenso. Sem suor, sem fadiga. Parecia mais uma estátua do que um homem.
Glenn tossiu. O som saiu áspero, seguido por uma pontada aguda no peito que sugeria que algo estava muito errado em suas costelas. Ele tentou apoiar as mãos na terra, mas os braços cederam como palha. Seus dentes rangeram. O mundo girou antes que ele conseguisse, enfim, manter-se de joelhos.
— A espada… — a voz era um fio fraco. — Onde está?
Os olhos de Glenn percorreram o chão de forma desesperada, buscando entre a poeira e as pedras o único objeto que ainda lhe dava esperança.
— Acabou, Glenn — disse Reynolds.
Não havia desprezo, apenas uma constatação fria. Glenn apertou os olhos, uma teimosia infantil e desesperada agarrou-se ao que restava de sua vontade.
— Eu ainda posso lutar! — Seus dedos arranharam a terra. — Eu só preciso da minha…
— …espada? — completou Reynolds. Ele inclinou o queixo.
Glenn seguiu o gesto. O que restava da arma eram fragmentos negros e carbonizados espalhados pelo chão, fumegantes como ossos após um incêndio.
O mundo ficou subitamente quieto. Glenn não piscou. O peso daquela imagem caiu sobre ele com uma lentidão torturante. Suas mãos se fecharam na terra solta, os punhos tremendo violentamente.
Vivian deu um passo à frente.
— Glenn… Reynolds… por favor, parem com is—
— DE QUE ADIANTA TODA ESSA FORÇA?! — a voz de Glenn explodiu, rasgada. — SE VOCÊ NEM CONSEGUIU PROTEGER O SEU PRÓPRIO FILHO?!
Vivian sufocou um grito. Reynolds não reagiu. Não houve um passo atrás, nem mudança no brilho dos olhos. Nada. Glenn sentiu o peso das próprias palavras e, simultaneamente, a ausência de qualquer efeito.
— VOCÊ… VOCÊ NUNCA…! SE VOCÊ FOSSE TÃO FORTE ASSIM… SE TUDO ISSO ADIANTASSE… POR QUE…?! — A voz morreu. Não havia mais fôlego, nem veneno.
O silêncio que se seguiu foi asfixiante. Glenn esperou por fúria ou um aperto no maxilar. Reynolds permaneceu imóvel.
— Terminou? — perguntou o tio. O tom baixo doeu mais do que o soco. — Aprenda a controlar suas emoções. Palavras ditas dessa forma não carregam peso. E não me atingem, Glenn.
A humilhação apertou o peito do rapaz. Ele queria quebrar aquela calma, mas só encontrou a própria respiração descontrolada. Reynolds deu um passo à frente; sua sombra cobriu Glenn por completo.
— Espero que essa derrota tenha servido de lição — disse ele, olhando-o de cima. — Você não tem permissão para ir. Estamos entendidos?
Glenn trancou o maxilar até um zumbido agudo ecoar em seus ouvidos. Queria gritar, lançar uma última ofensa, mas a voz estava enterrada sob camadas de exaustão.
Reynolds deu um passo lento. Com um gesto de descaso, soltou a própria espada. O som da madeira atingindo o solo seco foi um estalo definitivo.
— Você ainda não entendeu? — O sussurro do tio era ríspido. — Se nem eu, com tudo o que sou, mudei o destino daquele dia... que direito você acha que tem de tentar?
Glenn não respondeu. Reynolds suspirou, um som carregado de uma decepção que fez o estômago do rapaz revirar.
— Então talvez — disse o tio, fechando o punho — eu precise quebrar alguns ossos para que a realidade se instale nessa cabeça oca.
As botas de Reynolds esmagaram o cascalho. Glenn tentou comandar as pernas, mas elas pesavam como chumbo. Ele fechou os olhos, encolhendo-se para o impacto, o peito subindo em espasmos de pânico.
O golpe não veio. Em vez disso, um calor súbito e desesperado o envolveu.
Glenn abriu os olhos e viu Vivian. Ela estava ajoelhada entre ele e o marido, os ombros tremendo. Envolvia o sobrinho como se pudesse torná-lo invisível para o mundo.
— CHEGA! — O grito dela rasgou o ar, agudo e desfigurado. — Eu não vou deixar você encostar um dedo nele, Reynolds! Nem mais um!
Glenn tentou se afastar por um instante, o orgulho ainda lutando nas cinzas, mas Vivian o segurou com mais força. Ele desabou. Agarrou-se à roupa dela, os dedos enterrados no tecido. Um soluço seco escapou de sua garganta e as lágrimas finalmente lavaram a sujeira e o sangue de seu rosto. Vivian o apertou contra o peito numa proteção feroz. O tremor em seus membros foi diminuindo, substituído por uma exaustão que parecia atingir até os ossos.
Reynolds permaneceu imóvel, uma silhueta escura contra a claridade da manhã. O único som era a respiração errática de Glenn, acalmando-se aos poucos sob o balanço do corpo de Vivian.
Lentamente, o tio desviou o rosto. Antes de se virar por completo, Glenn viu o canto de seus lábios se erguer. Não era o sorriso de um vencedor, mas algo sereno e satisfeito.
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