Volume 1

Capítulo 14: Três Pratos

A cozinha estava quieta. Só o som suave do algodão mergulhado na água e pressionado contra uma tigela interrompia o silêncio.

Glenn sentava-se na cadeira, a postura rígida, tentando não reagir quando o algodão tocava os cortes mais fundos. Vivian estava à frente dele, concentrada… mas o olhar dela dizia tudo: preocupação, culpa, medo.

Ninguém disse nada por longos segundos.

Até que ela respirou fundo.

— Me desculpa, Glenn… — a voz saiu baixa. — Por ontem. E por… por esse mês inteiro. Eu devia ter… — ela apertou o algodão sem perceber. — Eu só… precisava de um tempo.

Glenn levantou a mão e tocou de leve o pulso dela, e o movimento cessou.

— Eu sei, tia. — murmurou. — Todo mundo tem o seu tempo. E eu fui meio… — ele tentou sorrir, mas não conseguiu. — Meio idiota de perguntar daquele jeito.

Ele desviou o olhar para o chão.

— Mas… é algo que ficou preso aqui. — ele tocou o próprio peito com dois dedos. — Eu me culp…

Vivian não deixou que ele terminasse. Simplesmente avançou e o abraçou — de repente, forte. O corpo de Glenn enrijeceu por um instante, mas logo se afrouxou, como se parte dele esperasse aquele abraço há muito tempo.

O queixo de Vivian tremia contra o ombro dele.

— Eu nunca culparia você, Glenn… — disse, num sussurro quebrado. — Nunca.

Glenn fechou os olhos e respirou fundo.

— Eu dizia isso pro Louis o tempo todo… — continuou ela. — Pra ele não tentar ser um herói. Porque heróis… — ela parou, a voz falhou — …heróis quase nunca voltam pra casa. Nem pra mãe. Nem pra quem amam.

Ela o apertou com mais força, como se quisesse ancorá-lo ali.

— Eu não quero que você vá — confessou, finalmente encarando os olhos dele. — Quero você aqui. Com a gente. Com a Ellie. Comigo. Com o seu tio. Então… não me deixa, Glenn. Por favor.

Glenn engoliu em seco.

E retribuiu o abraço — sem esconder a tremedeira nas mãos.

Reynolds entrou pela porta sem fazer barulho, mas, ainda assim, os dois se viraram para ele. Glenn soltou o abraço devagar e limpou discretamente o canto do olho.

Sem dizer uma palavra, Reynolds foi até a mesa e colocou sobre ela algo pequeno e verde. Parecia... um remédio.

Glenn olhou para aquilo com estranhamento.  

Depois olhou para Reynolds.  

Depois para o “remédio”.  

E de novo para Reynolds.

"Eu… é pra comer?"

Sem esperar resposta, pegou o objeto com cuidado, cheirou, virou na mão… e levou à boca.

Pec!

O peteleco veio tão rápido que ele nem teve tempo de reagir.

— Glenn! — Vivian riu, tapando a boca. — Não é pra comer!

Glenn piscou algumas vezes, meio perdido.

Reynolds suspirou fundo, como quem já passou por isso antes.

— Só segura isso. — disse, cruzando os braços. — Fecha a mão e pensa nas partes que mais doem.

Glenn hesitou, mas obedeceu.  

Fechou a mão devagar.

A princípio… nada.

Mas logo um calor suave escapou do “remédio”, espalhou-se pelos dedos e subiu pelo braço. Era como mergulhar a mão em água morna depois de muito frio. Os músculos relaxaram. A dor latejou… e, aos poucos, começou a desaparecer, escorrendo para longe como se algo a puxasse.

Glenn abriu um olho, surpreso.

Era estranho. Bom. Quase confortável.

Vivian sorriu, aliviada ao ver os machucados se fecharem mais rápido.

Reynolds esperou o brilho fraco do item sumir antes de falar:

— Poções de cura agem diretamente nas raízes da mana. — disse, ao se sentar. — Elas obrigam a própria mana do corpo a entrar em ação: reparar ou… reconstruir. Sem raízes… essa etapa simplesmente não acontece. Por isso, não funcionariam em você.

Ele apontou para a orbe na mão de Glenn.

— Isso aqui é outra história. — continuou. — A magia já vem pronta. É mana moldada, condensada. Não depende da sua raiz pra reagir. Só de tocar… ela faz tudo sozinha.

Glenn olhou para a orbe de novo. O calor diminuía, e os ferimentos cicatrizavam.

“…Então é assim... que a mana deveria ser?”

Era a primeira vez que algo mágico lhe fazia bem.

Vivian se levantou e limpou as mãos no avental.

— Certo… já que você está inteiro, ou quase, vou preparar o almoço. Ninguém comeu nada hoje. Todo mundo pulou o café da manhã.

Reynolds entrou no clima com um sorriso discreto.

— Perfeito, querida.

Fechou o kit de primeiros socorros com calma, colocando cada frasco de volta no lugar. Um por um. Como se o gesto pudesse apagar o que não deveria ter acontecido.

Glenn apoiou as mãos na mesa e se levantou. O corpo respondeu com atraso, como se cada músculo tivesse uma opinião própria sobre o movimento. Mas respondeu. Como sempre fazia. Mesmo quando ele não merecia.

— Obrigado… — disse em voz baixa, olhando primeiro para Vivian, depois para Reynolds.

Vivian sorriu com doçura, como se tentasse esconder a preocupação. Reynolds apenas assentiu, a expressão neutra demais para parecer natural.

Glenn virou-se e seguiu pelo corredor. Seus passos ecoaram mais fortes do que deveriam — secos, firmes, quase irritados. Não era a dor. Não mais. Era outra coisa batendo junto com a sola da bota no chão. Algo que ele não queria nomear.

Então Reynolds perguntou, atrás dele:

— Quer ajuda para subir as escadas?

Glenn nem olhou.

— Não. Eu consigo.

Continuou. Subiu. Reto. Duas portas, três… até chegar ao próprio quarto. A mão pousou na maçaneta e ficou ali por um momento, apenas repousada. Como se o corpo precisasse de um segundo para aceitar que o corredor havia terminado — e que agora ele estava, de fato, sozinho.

Entrou.

Fechou a porta devagar.

Silêncio.

Um segundo de quietude pesada.

Então Glenn respirou… e o ar pareceu arranhar por dentro. Como se o peito estivesse cheio de cacos.

O punho esquerdo se fechou sem pensar.

Ele odiava isso. Odiava o jeito como todos olhavam pra ele. Como se ele fosse feito de vidro. Como se ele fosse… frágil.

Mas o pior era saber que eles estavam certos.

Ele era frágil.

Ele tinha falhado.

A parede estava perto. Perto o bastante.

O impacto foi seco. Rígido. A vibração subiu pelo braço até o ombro, e só então ele soltou o ar que prendia — junto com um som rouco, abafado, que não era bem um grito, mas também não era silêncio.

O punho caiu ao lado do corpo segundos depois, o braço pendendo pesado, como se estivesse cansado de existir. Como se até ele tivesse desistido.

Glenn encostou as costas na porta e deslizou até o chão. Não caiu — só… afundou. O corpo cedeu aos poucos, como se fosse perder a forma. Como se não fizesse mais sentido manter-se inteiro.

O quarto permanecia em silêncio. Só a respiração dele, irregular, arranhava o ar. Cada inspiração parecia um erro. Cada expiração, um castigo.

— …que piada. — murmurou, quase imperceptível.

Só escapou.

Os pensamentos vieram sem lógica, sem ordem — como se alguém abrisse gavetas aleatórias dentro da cabeça dele e jogasse tudo no chão. Vozes, memórias, frases que ele queria esquecer. E outras que queria ter dito.

— Ele só… brincou comigo. O tempo todo. Nem… nem por um segundo eu…

A voz falhou ali. Como se a palavra tivesse esquecido de sair inteira. Ou tivesse vergonha de ser dita.

Passou a mão pelo rosto, não para limpar nada, mas como se tentasse segurar algo por dentro. Como se pudesse empurrar a raiva de volta pra dentro do crânio.

— O que eu tava pensando? — sussurrou. — Sair pelo mundo? Me aventurar? Fazer diferença?

Riu. Uma risada curta, seca. Sem humor — apenas um ruído. Um estalo de cansaço.

— Herói. — repetiu, como se experimentasse a palavra na boca e a achasse amarga. — Que piada.

Ficou em silêncio por alguns segundos. Mas por dentro, tudo gritava. Uma fúria surda, voltada pra ele mesmo. Como se quisesse se arrancar da própria pele.

Os olhos baixaram. O corpo relaxou aos poucos, em rendição. Ou em derrota.

— Eu nem devia ter nascido assim.

— Eu nem deveria ter nascido…

O som veio primeiro — seco, abafado — um toc toc firme contra a madeira.

Glenn ergueu o rosto, ainda sentado no chão. O coração apertou no peito como se tivesse sido pego fazendo algo que não queria que ninguém visse.

Ele respirou, devagar, e se levantou. A mão esquerda ficou marcada na parede onde ele havia batido.  

Abriu a porta.

Reynolds estava ali. Parado. Ombros caídos. Eles só se olharam por alguns segundos.

— …Pode entrar — Glenn disse por fim, e abriu espaço.

Reynolds entrou devagar, quase em silêncio, e Glenn foi até a beira da cama. O colchão afundou quando ele se sentou. Reynolds permaneceu de pé por um instante, sem saber onde pôr as mãos, até que encostou na escrivaninha.

O silêncio cresceu. Quase incômodo.

Reynolds pigarreou.

— Então…

Mas Glenn o interrompeu antes que a frase ganhasse forma.

— Você não… — ele ajeitou o olhar no chão, respirou fundo, levantou o rosto — …você não fez aquilo só pra me ensinar uma lição, fez?

Reynolds piscou, devagar. Não respondeu de imediato.

Glenn insistiu:

— Você queria que a tia Vivian voltasse. — Os olhos dele não desviaram. — Não era isso?

Reynolds suspirou pelo nariz e passou a mão pela barba rala.  

Não parecia irritado. Só… pego no flagra.

— Heh… — ele abriu um sorriso curto, meio torto. — Foi a solução mais rápida que consegui imaginar.

Glenn baixou os olhos. Não sorriu. Mas também não demonstrou raiva.

Reynolds cruzou os braços.

— E… desculpa. Pelo exagero. — A voz saiu baixa, sincera, sem rodeios.

Glenn ergueu uma sobrancelha.

— Tudo bem… só achei que eu não precisava virar um saco de pancada por causa disso.

Reynolds soltou um riso breve.  

— É. Talvez não precisasse.

O silêncio retornou. Reynolds respirou fundo antes de falar de novo:

— Mas eu também queria que você entendesse uma coisa. — Ele enfiou as mãos nos bolsos e olhou direto para Glenn. — O mundo lá fora não pega leve com ninguém. Ainda menos com quem tenta provar algo sem estar pronto. Coragem sem preparo… — ele balançou a cabeça — …é só uma forma mais lenta de morrer.

Glenn escutou tudo em silêncio. Depois assentiu, quase imperceptível.

— Eu sei… — respondeu baixo. — Eu… entendo.

O silêncio voltou a ocupar o quarto. Só o som distante das marteladas na vila, cadenciadas como um relógio velho, preenchia o espaço entre os dois. Um pássaro cantou lá fora, curto, como se testasse o ar depois da chuva.

Glenn passou o polegar pela palma da mão, sem notar o gesto.

— Você acha que… — ele começou, com hesitação entre uma respiração e outra — …mesmo sem magia, eu poderia… fazer alguma coisa? — engoliu seco. — Seguir um caminho meu. Ajudar as pessoas que eu… — soltou o ar, exausto — …que eu queria proteger.

Reynolds permaneceu quieto. Não havia julgamento no olhar — apenas a demora pesada de quem buscava as palavras certas.

Glenn tentou completar:

— Eu podia tentar virar um cavalei...

— Melhor desistir de uma vez. — Reynolds cortou, direto.

A frase não veio agressiva. Mas bateu como se fosse.

Glenn sentiu o peito encolher, apertado, e desviou o olhar.  

Firmou o maxilar — firme demais para não denunciar nada.

Reynolds apoiou uma das mãos no batente da porta e puxou o ar com força.

— Eu não posso dizer que você vai ser o que quiser sem mana. — falou com sinceridade crua. — Isso seria ilusão.

— Tá… — Glenn respondeu, quase inaudível.

— Sonhar não é problema. — Reynolds prosseguiu, com a voz mais branda. — Mas… chega uma hora em que a gente encara a realidade de frente.

Glenn assentiu com a cabeça. Se abrisse a boca, a voz não sairia como queria.

Reynolds entendeu.

— Me desculpe, Glenn. — disse em voz baixa, diferente da firmeza de minutos atrás.

Glenn apenas engoliu o ar e manteve os olhos fixos no chão.  

"Não era isso."

Reynolds recuou dois passos.

— O almoço está quase pronto.

A porta se fechou com suavidade.

E o quarto ficou imóvel — como se o ar tivesse prendido a respiração junto com Glenn.

As marteladas voltaram a ecoar lá fora. Glenn continuou sentado, sem se mexer, como se o corpo estivesse ali… e o resto dele ficasse um pouco atrás, tentando alcançar.

"Não era isso que eu precisava ouvir."

Glenn se deixou cair devagar até deitar na cama. O colchão afundou sob o peso dele — não físico, mas mental. O teto branco parecia mais distante que o normal.

"Quando foi… que tudo virou isso?"

Ele passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Nem parecia o mesmo Reynolds que, anos atrás, o botava pra correr com uma espada de madeira maior que ele.

E ele mesmo… já não lembrava daquele garoto que treinava só para arrancar um sorriso da Ellie.

Um canto de riso escapou. Morreu antes mesmo de virar som. Glenn virou o olhar para a janela e deixou a mente vagar.

"Eu não vou chorar por isso."

Mesmo assim, uma única lágrima teimou em aparecer. Ele a limpou antes que tivesse tempo de incomodar.

"Por que eu estou tão preso nisso? Por que eu quero tanto sair daqui? O que eu acho que tem lá fora? Resposta? Força?… Alguma prova de que eu posso ser mais do que isso?"

Ele fechou o punho.

"Se nem eles acreditam… então talvez..."

— E você? — disse uma voz tranquila, como quem comenta o clima. — Você acredita?

O coração dele gelou por um segundo.

Glenn virou o rosto devagar, esperando ver Reynolds de novo. Ou Vivian preocupada.

Não.

Ela estava ali.

Sentada no criado-mudo, pernas cruzadas, ajeitava o vestido branco com facilidade ensaiada, como se apenas corrigisse uma pequena etiqueta fora do lugar. Os cabelos brancos escorriam pelo ombro, brilhavam no cômodo escuro.

Ela não parecia deslocada.

Parecia… inevitável.

Glenn fechou os olhos por um segundo, vencido pelo cansaço.

— Ótimo… — murmurou. — Agora eu tô imaginando você no meu quarto.

Ela inclinou a cabeça, tentando ver o rosto dele.

— Imaginação responde perguntas agora?

Ele soltou um suspiro, sem forças pra discutir.

— Você sabe que é falta de educação entrar sem bater… né?

Ela deu um meio sorriso — não doce, não provocador. Só… como se já soubesse a resposta.

— Ué… este é o primeiro quarto de um garoto que eu entro. Tô aprendendo as regras ainda.

Glenn abriu os olhos e encarou o teto. Um riso fraco escapou, quase sem querer.

— Que honra a minha…

— A minha, talvez — ela disse, balançando os pés no ar, como se aquele quarto fosse o lugar mais natural do mundo pra estar.

Glenn soltou um riso leve — quase cansado demais para existir.

A garota inclinou a cabeça e o observou.

— Você ainda não respondeu. — disse ela, sem tirar os olhos dele.

Ele continuou olhando para o teto. Ela repetiu, mais suave, porém mais firme:

— Você… acredita em si mesmo?

Glenn fechou os olhos por um instante.

— "Acreditar" é uma palavra muito forte pra usar logo depois de ser espancado e humilhado — murmurou. — Mas, enfim… acho que você já sabe. Você sempre tá por perto, pelo que parece.

Ela sorriu de canto. Quase orgulhosa.

— É… eu sei. — Seus olhos brilharam. — Não achei que você fosse se levantar tantas vezes.

Glenn soltou o ar devagar.

— Nem eu.

O silêncio durou um segundo, depois outro.

— Mas acho que… ficar parado era pior. — Ele disse. — O medo de não fazer nada… a raiva de desistir… doía mais do que qualquer porrada.

A garota o observou até ele terminar a frase, sem interromper. Quando finalmente falou, a voz dela pareceu tocar o ar e não o ambiente.

— Então por que pensa em desistir?

Glenn ergueu o tronco e se sentou na beira da cama. Encarou a garota — direto, pela primeira vez — e disse:

— Você não viu o que aconteceu lá fora? — Sua voz falhou só um pouco. — Que chance eu teria no mundo? Que chance alguém como eu teria?

Os olhos dele caíram para o chão.

— Heróis… não voltam pra casa.

A garota balançou as pernas devagar, em silêncio. Como se estivesse tentando entender o que ele queria dizer — ou talvez sentindo o peso daquelas palavras.

Depois de alguns segundos, ela falou. Baixo. Com uma calma que parecia impossível.

— “Heróis não voltam pra casa?” — repetiu, como se experimentasse a frase na boca. — Talvez… só talvez… seja porque só quem volta entende o que é ser um.

Glenn levantou os olhos, devagar. A testa levemente franzida.

— Como assim?

Ela hesitou. O olhar ficou mais firme — não fria, mas verdadeira:

— Porque… não voltar é fácil, Glenn.

Ela tocou o próprio peito com um dedo.

— Difícil é sobreviver. Difícil é carregar o que viu, o que perdeu… o que teve que fazer.

Um sorriso triste apareceu nos lábios dela. 

— Difícil é ter coragem de voltar. Encarar quem ficou. Não saber mais quem você é… mas ainda assim estar ali.

Os olhos dela brilharam.

— Isso é ser herói. — Ela o encarou, firme. — E, vendo por esse lado… Glenn… você já é um.

Silêncio.

As palavras de Reynolds voltaram — não como som, mas como peso.

“Melhor desistir de uma vez.”

A frase ecoou no quarto vazio. Glenn baixou os olhos. Não respondeu. Nem na lembrança.

Logo depois, outra voz — mais quente, mais frágil.

“Eu não quero que você vá… quero que viva aqui, com a gente, nessa vila… com a Ellie… comigo e seu tio… não me deixe.”

O braço dela ao redor dele. A força desesperada daquele abraço. A verdade que ela não conseguia esconder.

Glenn fechou a mão devagar. Tremia.

“Mesmo assim… eu ainda…”

As palavras saíam rasgadas demais para serem completas.

Ele respirou fundo — ou tentou — e então murmurou, quase sem voz:

— Mesmo sem mana… eu posso…?

O peito doía. Não era cansaço — era medo.

— Eu posso ser um cavaleiro?

Ele não piscou…

— Ver o mundo…?

As mãos tremiam, marcadas por dias e noites de treino que nunca haviam dado resultado. Ainda assim, ele seguiu:

— Se eu treinar. Se eu… aprender mais. Se eu nunca desistir…

Um fio de ar escapou entre os dentes.

— …eu posso ser alguém capaz de salvar os outros?

A garota desceu do criado-mudo.

Sem pressa.

Sem palavras.

Cada passo parecia esmagar o silêncio do quarto.

Ela parou diante dele.

Glenn levantou o rosto — e, pela primeira vez, não desviou.

A garota o encarou por um momento longo demais para ser apenas hesitação.

Então, apontou para o peito dele.

— Justamente por não ter mana…

Ela ergueu o dedo.

— …você pode se tornar um herói.

Nada de discurso.

Nada de explicação.

Apenas isso.

Glenn piscou devagar.

A respiração tremeu. O peito doeu — não como antes, não apertado… mas estranho. Quase leve. Como se algo, finalmente, tivesse cedido espaço.

“Talvez fosse isso…”

A mão tocou o próprio peito, devagar, como se confirmasse que ainda estava ali. Os olhos brilharam, mas não chegaram a transbordar. Um sorriso pequeno — tímido — surgiu.

“…o que eu queria ouvir do Reynolds.”

— É… — murmurou, testando a própria voz. — …eu consigo.

A voz da tia Vivian atravessou o quarto como uma onda quente:

— GLENN! O almoço tá pronto!

Ele piscou outra vez, arrancado do torpor dos próprios pensamentos. Levantou-se.

A garota de cabelos brancos deu um passo curto para trás, como se abrisse espaço — não para a porta, mas para observá-lo melhor.

Glenn ajeitou a camisa amarrotada.

— …Antes de eu ir — murmurou — qual é o seu nome?

Ela inclinou levemente a cabeça. O sorriso brincava em seus lábios, como se guardasse a resposta não por segredo… mas por escolha.

— Não agora. — Deu de ombros. — Você ainda não saberia o que fazer com ele.

Glenn soltou um suspiro, quase riu.

— Muito mistério estraga qualquer relacionamento, sabia?

Ela entrelaçou as mãos nas costas.

— Ou melhora. — respondeu. — Depende de quanto a outra pessoa está disposta a correr atrás.

O sorriso dele veio sem esforço desta vez.

Glenn abriu a porta e saiu do quarto. Não olhou para trás — não precisava.

O leve som do vestido balançando foi a última coisa que ouviu.

A presença dela sumiu tão silenciosa quanto havia surgido.

No corredor, Glenn caminhou devagar. Cada degrau rangia sob os pés… e dentro dele.

“Mesmo que eu tenha tudo aqui…”

“Paz. Família. Risadas.”

“Se eu continuar carregando essa sensação de ser inútil…”

Os dedos se fecharam com força em torno do corrimão de madeira.

“…isso vai me destruir antes de qualquer monstro.”

Respirou fundo.

“Eu preciso fazer algo.”

“Nem grandioso. Nem heróico.”

“Qualquer coisa.”

“Trabalhar. Ajudar. Aliviar o peso deles, nem que fosse um pouco.”

“Se for pra me arrepender…”

Os passos retomaram.

“…que não seja por ter ficado parado.”

O cheiro de comida veio primeiro.

Depois, a luz morna da cozinha.

Vivian estava sentada, falando baixo com Reynolds.

Dois pratos já estavam postos.

E um terceiro.

Bem ali.

À espera.

Glenn parou.

Só por um instante.

O vapor subia da comida. O talher tocou o prato com um som leve.

O sorriso surgiu sozinho — pequeno, quase tímido.

Sem ninguém precisar dizer nada.

Ele puxou a cadeira.

Vivian o olhou de relance. E, por um segundo, havia algo diferente em seu rosto.

Glenn sentou-se.

“Eu quero protegê-los.”

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