Volume 1
Capítulo 15: Vaga-lumes e Silêncios
Glenn murmurou:
— Certo…
Ajustou a mochila nas costas. O peso não era grande, mas parecia maior do que realmente era.
Subiu na cama, primeiro um joelho, depois o outro, e empurrou a janela. O ar frio da noite entrou de imediato, cortando o calor do quarto. A lua cheia iluminava o quintal e o mato baixo, onde os vaga-lumes piscavam devagar. O som dos grilos preenchia tudo — constante, quase reconfortante.
Sentou-se no parapeito por um instante. Olhou o quarto inteiro como se fosse a última vez. Talvez fosse.
O olhar parou na escrivaninha.
Na carta.
Parada ali, onde ele a deixou.
O canto da boca se mexeu — não era um sorriso.
Só… algo entre um adeus e um pedido de desculpas que não cabia em palavras.
Então pulou.
O impacto no chão do segundo andar fez os joelhos vibrarem, mas ele não parou. Cortou o quintal em silêncio, entrou na trilha estreita que ele e Louis usavam para fugir da vista dos adultos e alcançar a estrada de terra.
O coração batia rápido.
“Me desculpe, tia Vivian… Reynolds…”
O mato roçava nas pernas enquanto ele corria. O som da noite o envolvia, cúmplice e indiferente.
Não havia volta agora.
Glenn caminhava pela estrada de terra como se pisasse num lugar estranho, mesmo conhecendo cada curva desde pequeno.
A noite estava calma. Quieta. As janelas das casas permaneciam apagadas — todo mundo já devia estar na igreja, como sempre faziam às quartas.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou o papel dobrado. O nome escrito na frente parecia mais pesado que a folha inteira.
Ellie.
Guardou rápido, antes que começasse a pensar demais.
Seguiu pela estrada, e logo o caminho o arrastou de volta para memórias que ele fingia ter esquecido.
A ponte veio primeiro. Velha, rangia nos mesmos pontos de sempre. Quando passou por ela, a lembrança surgiu tão nítida quanto o cheiro da madeira molhada.
Louis escorregando na lama, braços pra cima, o grito curto antes de cair no riacho raso… e depois, a risada. Alta, descontrolada, que durou tanto que Glenn quase precisou sentar pra respirar de tanto rir.
Glenn riu — só um sopro, quase imperceptível.
Mais alguns passos e lá estava: a árvore das iniciais. O tronco marcado, desgastado pelo tempo.
E – G – L
Ellie tinha cortado o dedo com a faca ao tentar gravar as iniciais deles na madeira. O sangue brotou rápido, vermelho demais para algo tão pequeno. Louis entrou em pânico na mesma hora — os olhos arregalados, a voz embargada, repetindo que o tio Edran ia matá-los, que aquilo era grave, que ela ia desmaiar.
Glenn lembrava de ter rido. Não da dor dela — nunca disso — mas do drama de Louis, que já procurava um lugar pra se esconder.
Sem pensar, rasgou um pedaço da própria camisa e enrolou na mão de Ellie, apertando com cuidado. Ainda ria, tentando acalmá-los, dizendo que ninguém morria por causa de um corte bobo. Que ela ia ficar bem. Que o tio Edran nem ia notar.
Mas ele lembrava do jeito como Ellie olhou pra ele naquele momento. Não de dor. De confiança. Como se, por um instante, ele tivesse conseguido segurar o mundo no luga
Ele passou os dedos pelas letras tortas por um instante longo demais antes de se dar conta de que tinha parado.
O pé suspenso no meio do passo. O peito pesado.
O corpo já tinha escolhido o destino antes que a cabeça pudesse protestar.
A casa de Ellie surgiu à frente, silenciosa como se estivesse prendendo a respiração. A varanda era iluminada por uma luz fraca, amarelada, que mal vencia a escuridão ao redor. O balanço se movia sozinho, empurrado apenas pelo vento — rangendo baixo, no mesmo ritmo de sempre. O portão seguia meio torto, exatamente como Edran deixara, prometendo consertar “amanhã”.
Glenn ficou ali por um momento, olhando, com a estranha sensação de que tudo permanecera no lugar.
O caminho até a porta parecia maior do que deveria.
Cada passo arrastava algo no peito de Glenn — uma mistura de urgência e hesitação que machucava mais do que ele admitiria.
“Eu precisava mesmo vir aqui…”
Cerrou a mão ao lado do corpo, como se quisesse segurar a própria decisão.
“Entregar a carta. Só isso.”
Ergueu os olhos para o céu escuro. O sino da igreja ainda ecoava na memória.
“A essa hora… ela deve estar na missa. Melhor assim. Sem explicações.”
Um suspiro escapou, pesado.
“Mesmo que eu quisesse ver ela… só mais uma vez.”
Os dedos tocaram o rosto, como se pudessem afastar o pensamento.
“…já que eu nem sei se volto.”
Silêncio.
“Merda…”
Apertou o nariz entre os dedos, os olhos fechados.
“Que tipo de covarde faz isso?”
O portãozinho rangeu com um som leve quando ele o empurrou. O quintal estava quieto, e o cheiro familiar das flores da varanda se misturava ao ar frio da noite.
Glenn subiu os degraus devagar, como se cada um exigisse permissão.
A porta estava ali — simples, de madeira clara, marcada pelo tempo em manchas irregulares. Por um instante, ele apenas a observou. Então se agachou, puxou a carta do bolso e a deslizou pelo vão inferior. Empurrou com cuidado, certificando-se de que atravessara por completo.
Ainda estava recolhendo a mão quando a quietude se quebrou.
— …Glenn?
O nome chegou baixo, inseguro. Mesmo assim, fez o coração dele falhar um compasso inteiro.
A porta se abriu com um ranger suave.
Ellie surgiu no vão, os cabelos presos às pressas, alguns fios soltos emoldurando o rosto. Os olhos verdes estavam abertos demais, tomados por uma confusão silenciosa, como se ainda tentassem entender o que viam. Ela segurava a carta entre os dedos, meio abaixada, como se a tivesse apanhado do chão apenas um segundo antes.
Glenn a encarou de baixo, o corpo ainda agachado, sentindo o peso estranho da posição. Então se levantou devagar.
— Ellie… — disse, a voz menor do que pretendia. — Eu… achei que você estava na missa.
Ela ergueu a carta, o olhar preso ao papel.
— O que… o que é isso? — perguntou, a voz baixa.
O rosto de Glenn queimou. Ele não sabia se era por vê-la ali — tão linda na luz suave da noite — ou pelo fato de ter sido pego no exato momento em que tentava fugir de uma explicação.
“Como eu explico isso…?”
Pensou, o estômago apertado.
Ellie baixou os olhos para a carta e começou a abrir.
— Espera… — disse Glenn, deu meio passo à frente.
Ela ergueu os olhos, a carta ainda aberta entre os dedos.
— Vai me dizer o que é isso?
A voz era baixa, mas firme. Como quem segura a dor com os dentes.
Glenn hesitou. O frio da varanda parecia ter se alojado no peito.
— Ellie…
Mas ela já tinha visto.
A mochila nas costas dele. Gasta, cheia, pronta.
— Não. — cortou ela. — Só me responde uma coisa.
Deu um passo à frente, ainda com a mão no batente, como se o corpo não soubesse se queria ficar ou cair.
— Você tá indo embora?
Glenn passou a mão no rosto, como se quisesse apagar o momento.
— Eu ia falar com você.
— Vai. Ou não vai?
O silêncio veio primeiro. Depois, a palavra.
— Vou.
Ellie soltou uma risada curta. Um som seco, sem alegria.
— Claro que vai.
Os dedos dela se fecharam em torno da carta, amassando o papel sem perceber.
— E achou que isso aqui era suficiente? — ergueu o envelope. — Que eu ia ler e entender?
— Eu tentei… — disse ele, baixo. — Mas não consegui.
— Não conseguiu ou não quis?
Glenn cerrou a mandíbula.
— Eu não sabia como começar.
Ela virou o rosto devagar, como se a resposta tivesse vindo tarde demais.
— Começar dizendo a verdade seria um bom começo.
Ergueu a carta outra vez, como se fosse uma prova.
— Pra onde?
— Ainda não sei. Talvez alguma vila próxima.
— Então você nem sabe pra onde vai… — ela respirou fundo. — Mas sabe que vai.
Ele assentiu, quase imperceptível.
— Sei.
Ellie balançou a cabeça, um riso amargo nos lábios.
— Engraçado. Pra ir embora, você nunca precisa pensar muito.
Dobrou a carta com força, como se quisesse dobrar ele junto.
— E achou mesmo que isso bastava?
Ele hesitou.
Foi o bastante.
— Você vai embora agora? — A voz dela não subiu. Afundou. — Justo agora? Quando a vila tá caindo aos pedaços? Quando eu…
Ela parou. Os olhos brilharam,.
Glenn tentou:
— Ellie, eu vou voltar. Se eu conseguir algum dinheiro lá fora, posso—
— Você não volta. — cortou ela, sem olhar.
Glenn piscou.
— Como assim? Claro que eu—
— Você vai morrer. — disse, e a frase saiu como se já tivesse sido dita mil vezes na cabeça dela. — Igual ao Louis.
Silêncio.
Glenn sentiu o nome bater no peito como um soco.
Ela ainda não chorava. Mas parecia que tudo dentro dela já tinha desabado.
— Ellie…
Ela respirou fundo, mas o ar falhou no fim. A voz saiu trêmula:
— Você podia ficar. Podia tentar. Tem gente aqui que precisa. Eu… — a voz quebrou. — Eu preciso.
As primeiras lágrimas escaparam, silenciosas, deslizando pelo rosto sem que ela percebesse. Ela apertou os olhos, como se isso bastasse pra segurar o que vinha — mas não bastava.
— Você não precisa provar nada. Não pra mim. Não pra ninguém. Só… fica.
O silêncio entre eles era um abismo.
— Ellie… — murmurou ele, mais baixo agora. Como se só agora ouvisse de verdade.
Ela ergueu o rosto de repente, quase como se temesse que, se demorasse, ele já não estivesse mais ali.
As lágrimas agora vinham sem trégua, molhando o queixo, o pescoço, a gola do pijama — um vestido leve, velho, que parecia ainda mais frágil nela naquela noite.
— Por favor… — disse, e a palavra arranhou a garganta. — Eu sei que a gente se afastou. Mas… não assim, Glenn. Não desse jeito.
A voz dela quebrou de vez. E, com ela, tudo o que ainda tentava manter de pé.
Ele deu um passo.
Ela não recuou.
Glenn respirou fundo. Os dedos hesitaram no ar antes de pousarem, trêmulos, contra o tecido quente do pijama dela.
— Você lembra? — perguntou. — Da promessa que eu te fiz?
Ellie franziu o cenho, confusa. Glenn ficou um tempo com os olhos no chão antes de conseguir falar.
— Anos atrás… eu te prometi que ia te proteger.
Ellie piscou, surpresa. A expressão dela se abriu num espanto suave, quase vulnerável.
— Você… lembra disso? — murmurou, como se não acreditasse. — Glenn, aquilo foi… a tanto tempo…
Ele esboçou um sorriso fraco, cansado.
— Eu lembro de tudo, Ellie.
Ela desviou o olhar. O peito subia e descia num ritmo inquieto.
— Mas… você disse que só sairia daqui quando despertasse sua mana. Eu… eu não entendo. — O olhar dela voltou a se prender no dele, implorando por uma explicação.
Glenn mordeu o interior da bochecha. A confissão veio áspera, mas verdadeira.
— Eu não vou despertar minha mana. — Uma pausa longa demais. — E tô cansado de criar esperança onde não existe.
Por um instante, Ellie pareceu perder o ar.
— Glenn… então por que…?
— Porque ver você sangrar daquele jeito — a voz dele falhou — …e sobreviver só por sorte… — Ele levou a mão ao peito, apertou a camisa. — E o Louis… morrendo nos meus braços… Ellie, aquilo me desmontou por dentro. Tudo aqui ficou… errado.
Ela deu um passo à frente, quase sem perceber — como se fosse puxada pelas palavras dele.
Glenn respirou fundo, tentando manter a voz firme.
— Eu não sei o que vai acontecer quando eu ir. Mas eu preciso tentar. — O olhar dele se fixou no dela, intenso, urgente. — Quero encontrar uma forma de trazer dinheiro… de ficar forte de verdade… de sobreviver. E, finalmente… — a garganta apertou — …ser alguém capaz de te proteger.
O “te proteger” saiu mais suave do que ele pretendia — quase um carinho, quase uma declaração.
Ellie sentiu. E sentiu fundo.
— Glenn… não. — A voz dela se quebrou. — Você fala como se… — começou, mas não terminou. — Você acha que eu preciso que você vá embora pra… ser alguma coisa pra mim?
Ele abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Então ela avançou e bateu no peito dele com as duas mãos — não com força, mas com dor. Cada toque era uma súplica, um impacto quente contra o corpo dele.
— Eu não preciso de proteção! — disse, chorando. Os golpes perderam força a cada palavra. — Eu só… preciso de você. Aqui. Com a gente. Comigo.
As mãos dela cederam. Em vez de bater, escorregaram pelo peito dele… até que Ellie encostou a testa contra o coração de Glenn, trêmula. A respiração dela tocava a pele dele, quente, próxima demais.
— Eu preciso de você, Glenn… — a voz saiu abafada, frágil — …aqui. Assim. Pertinho…
As últimas palavras mal tinham som — mas carregavam um mundo inteiro.
Glenn respirou fundo. Ergueu os braços, devagar, como se temesse quebrá-la… e a envolveu. No instante em que o fez, Ellie agarrou a camisa dele e o puxou ainda mais para perto. A respiração quente dela tocava a pele dele. Ele sentia cada movimento. Ellie, cada batida acelerada do coração dele.
— Eu não quero mais ser fraco, Ellie… — disse ele, a voz rouca, grave. Falava tão perto do cabelo dela que ela estremeceu.
Ela balançou a cabeça, ainda colada ao peito dele.
— Por que você acha… — a voz saiu abafada, trêmula — …que sair daqui vai te deixar mais forte?
As lágrimas começaram a escorrer, silenciosas, quentes, molhando a camisa dele. Ela não tentou esconder. Nem limpar.
Glenn demorou a responder. A mão dele repousava nas costas dela, e, sem perceber, os dedos deslizaram, sentindo o tremor sob o tecido.
— Talvez eu nem fique mais forte — murmurou. — Talvez nada mude.
Respirou fundo, mas o ar parecia pesado demais.
— Mas se eu não tentar… vou viver preso nesse “talvez”. — O olhar dele caiu para os lábios dela por um instante. — E esse peso… eu não aguento mais.
Ela ergueu o rosto devagar. Estavam perto demais. O nariz dela quase tocava o dele.
Os olhos de Ellie, marejados, brilhavam sob a luz trêmula da lamparina — não era só tristeza ali. Era o cansaço de quem segurou demais. O medo de perder. E algo mais fundo, mais antigo, que ela nunca disse em voz alta.
— Glenn… — sussurrou, a voz falhando. — Eu entendo. Eu entendo que você quer mudar. Que precisa tentar.
As lágrimas continuavam caindo, uma após a outra, sem pressa, sem trégua.
— Mas por que você sempre tem que ir embora pra isso?
Ela pousou a mão no peito dele, sentindo o coração disparado. A respiração dela vinha em soluços contidos.
— Eu tô aqui. Sempre estive. E você… você nunca olha pra trás.
Glenn a encarou. A garganta apertada. O peito, um nó.
Sem pensar, levantou a mão e segurou o rosto dela com delicadeza. O dedo passou sob o olho dela, secando uma lágrima — mas o toque demorou mais do que precisava. Como se ele quisesse guardar aquele instante. Como se, pela primeira vez, entendesse o que ela estava realmente pedindo.
Ellie fechou os olhos ao sentir o toque.
— Eu vou voltar. — disse ele, num sussurro rouco.
Ela segurou a mão dele contra o próprio rosto, puxando-a com mais força, como se o calor da pele dele fosse a única coisa que a mantinha inteira.
— Promete?
— Eu prometo, Ellie.
Os olhos dela tremiam, cheios de algo que era medo e desejo ao mesmo tempo.
— Mesmo que tudo dê errado? — sussurrou, inclinando-se só mais um pouco. O hálito dela roçou a boca dele, quente, doce, urgente.
Glenn sorriu, mas havia dor no sorriso.
— Mesmo assim.
Ela o puxou para um abraço que não era só abraço. Era corpo pedindo corpo. Era memória e vontade misturadas. O peito dela colado ao dele, o quadril encaixado como se sempre tivesse pertencido ali. Glenn passou o braço pela cintura dela, puxando-a com mais força, sentindo o calor, o cheiro, a entrega.
Ele respirou fundo, mas o ar parecia denso demais.
— Ellie… eu… eu te—
Ela ergueu o rosto de repente. Os lábios quase tocaram os dele. Quase.
— Não. — disse, a voz trêmula, os olhos ardendo. — Não agora.
Glenn ficou imóvel. O coração batendo alto demais.
Ela respirou uma, duas vezes, tentando se recompor. Mas a proximidade era um incêndio.
— Quando você voltar… — murmurou, os lábios ainda perigosamente perto — …me diga.
Glenn ergueu a mão devagar e afastou uma mecha do cabelo dela, prendendo-a atrás da orelha com um cuidado que fez Ellie fechar os olhos por um segundo.
— Então vou guardar isso pra quando puder olhar você assim. De perto.
Os olhos dela vacilaram. Ela mordeu o lábio, como se segurasse algo maior que ela.
— Me diga se me ama… — sussurrou, e a voz saiu como um segredo.
Glenn deslizou os dedos pela lateral do braço dela, subindo devagar até alcançar a nuca. Seus rostos já estavam próximos, mas agora o calor entre eles era palpável.
— Eu vou querer te dizer isso olhando dentro dos seus olhos. Sem pressa. Sem medo.
Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos por um instante, como se o toque dele fosse demais. Depois agarrou a camisa dele com força e o puxou para um novo abraço — quente, apertado, desesperado demais pra ser só saudade.
E Glenn…
Ele a abraçou como quem tenta memorizar cada curva, cada traço, cada centímetro dela.
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