Volume 1

Capítulo 8: Restar

 

 

Os passos de Ellie sumiram, deixando para trás apenas o estalo rítmico da madeira esfriando no corredor. Glenn continuou deitado. O teto parecia descer centímetro por centímetro, prensando o ar para fora de seus pulmões até transformar o quarto em um vácuo.

​Ele encarou as mãos. Estavam limpas, mas ele ainda sentia a viscosidade do sangue dela impregnada nos poros. O peso de Ellie em seus braços não fora o de um fardo; fora o de uma âncora, uma massa inerte que o arrastava para o fundo.

​— Você prometeu — sussurrou.

​A frase não era dele; era o eco dela, uma acusação vibrando em seu crânio. Ele fechou os punhos, as unhas cravando-se na carne. A raiva era mais fácil de carregar do que a saudade. Era uma fúria latente contra Louis por ter bancado o mártir, e contra si mesmo por ter aceitado, com docilidade covarde, o papel de sobrevivente.

​— Idiota — rosnou para o canto vazio. — Achou que estava me salvando? Olhe para este lugar.

​A luz do entardecer morria no assoalho em tiras de um laranja doentio. Aquela claridade era um insulto; o mundo não tinha o direito de permanecer dourado enquanto Louis apodrecia no escuro. Glenn levantou-se, as pernas instáveis, como se aprendesse a caminhar sobre um solo que já não reconhecia.

​No corredor, a voz de Vivian o deteve. Era um som cru, despojado da polidez que ela sempre ostentara como armadura.

​— Como se respira agora, Reynolds? — A pergunta flutuava no ar, pesada como fumaça de incenso em um velório. — Eu esqueci como se faz.

​Ele recuou, as costas atingindo a parede fria com um baque seco. Sentiu o impulso violento de entrar, de se ajoelhar e implorar por um perdão que não merecia. Mas a redenção exigia encarar os ombros curvados de Reynolds e a desolação de Vivian.

​Se olhasse, veria refletido neles exatamente o que se tornara: o resto indigesto de uma história que deveria ter terminado de outra forma.

​— Viv…

​Ela continuou, ignorando a interrupção.

​— Você se esqueceu da Rhis? — O sorriso era um traço fino e doentio no rosto de Vivian. — Eu conversava com ela toda noite. Prometi que ela conheceria este mundo, por mais frio ou feio que fosse. Mas ela não viu nada.

​Reynolds permanecia estático, como uma estátua de gesso com rachaduras invisíveis sob a superfície.

​— E agora, o Louis. — A voz dela não quebrou; apenas baixou, carregada de uma periculosidade contida. — Eu dei tudo o que tinha, Reynolds. Até o que não possuía. E, mesmo assim, ele se foi.

​Ela apertou o cobertor até os nós dos dedos marcarem.

​— Então me diga... onde foi que eu errei?

​Ele finalmente baixou a cabeça, incapaz de sustentar o peso daquela pergunta.

​— Você não errou — sussurrou, mas a frase soou oca, como uma mentira gasta para consolar uma criança.

​Vivian virou o rosto. Os olhos estavam injetados. Não havia lágrimas, e era essa aridez absoluta que tornava a cena insuportável.

​— Então por que só sobrou este buraco? — Ela não gritou; perguntou com a curiosidade clínica de quem examina uma ferida mortal. — Por que parece que arrancaram um pedaço de mim e esqueceram de fechar a cicatriz?

​Reynolds tentou tocá-la, mas ela se esquivou. Foi um gesto de pura exaustão, como se o toque dele fosse um fardo que sua pele não podia suportar.

​— Estou cansada. Cansada de manter viva uma parte de mim que o mundo insiste em levar.

​Ele a puxou para um abraço. Vivian não ofereceu resistência, mas permaneceu imóvel, um corpo oco. Era um abraço que não oferecia consolo; apenas impedia que ela desabasse no assoalho.

​Do lado de fora, Glenn era uma sombra projetada contra a parede fria. O ar ali parecia ter acabado. Queria entrar, implorar que ela o culpasse, que descarregasse nele aquela fúria silenciosa, mas percebeu que não havia espaço para ele.

​Glenn deu um passo para trás. Depois outro. Recuando daquele silêncio que o acusava muito mais do que qualquer grito.

Reynolds saiu do quarto e fechou a porta com cautela fúnebre. Permaneceu ali, estático, a mão agarrada à maçaneta como se tivesse esquecido como soltá-la. A respiração entrava em seus pulmões de forma entrecortada, ruidosa.

​Glenn esperava no topo da escada. Os olhos se cruzaram por um átimo — tempo suficiente para que tudo fosse dito e nada se dissolvesse.

​Reynolds esboçou um sorriso. Era um gesto mínimo, uma contração muscular que parecia mais um reflexo automático. Não havia calor. Era apenas o esforço de manter as aparências.

​— Está com fome? — perguntou. A voz soava limpa, desprovida de matiz emocional, como em uma tarde qualquer de domingo.

​Glenn limitou-se a balançar a cabeça, sustentando o peso daquela normalidade forçada.

​— Certo. — Reynolds não insistiu; não possuía energia para preencher o vácuo que se seguiu.

​Ao passar por ele, o movimento revelou o que tentava esconder. O olhar. Não continha culpa ou julgamento, mas algo pior: ausência. Reynolds olhava através dele, para um lugar onde Glenn não existia. A percepção o atingiu com o impacto de um soco. Doeu de forma física, visceral.

​Reynolds seguiu, incapaz de processar o estrago que deixara para trás. No corredor, o ar tornou-se denso demais. Glenn buscou a saída.

​Lá fora, o cheiro de chuva recente impregnava a atmosfera. Nuvens baixas tingiam o mundo de um azul gélido. A vila parecia suspensa em torpor. No suporte de madeira, repousavam as espadas de treino. Sem pensar, ele empunhou a de Louis.

​Era leve. Ridiculamente leve. Louis sempre dizia que a trocaria por uma lâmina de verdade. Algum dia.

​Glenn fixou o olhar no couro gasto do cabo, esperando uma torrente de memórias, algo que desse sentido à dor. Mas o que veio foi o vácuo. Nenhum pensamento se articulou. Apenas um calor sufocante que subiu pelo pescoço.

​O olho direito tremeu. A primeira lágrima caiu, pesada, absorvida pela terra. A segunda veio logo depois. Seus ombros cederam, como se a estrutura que o mantinha de pé tivesse apodrecido. Tentou buscar fôlego, mas o que escapou de sua garganta foi um ruído falho — o som de quem tenta manter a integridade e falha.

​A espada escorregou de seus dedos. Não foi fúria; foi a incapacidade física de segurar qualquer coisa que pertencesse ao passado. Ela atingiu o chão com um estalo seco, um som pequeno para o peso que carregava.

​Passos suaves ecoaram pela grama úmida. Reynolds aproximou-se com lentidão. O som arrancou Glenn do transe. Ele virou o rosto e deparou-se com o mesmo vazio que o ferira no corredor.

​O homem parou diante da arma caída. Curvou-se, pegou-a e reconheceu a textura do objeto com uma familiaridade melancólica.

​— Você quer tre…

​— Por que está falando comigo como se nada tivesse acontecido? — Glenn o cortou. A voz era baixa, mas de uma firmeza cortante.

​Reynolds não respondeu de imediato. Permaneceu com a madeira em punho, a silhueta escura contra o céu cinzento. Quando falou, sua voz estava trincada, como uma viga prestes a ceder.

​— Você quer que eu grite? — O tom subiu o suficiente para revelar a fissura interna. — Que eu reduza esta casa a escombros? Que eu desabe diante da Vivian, quando ela mal encontra forças para respirar? É isso o que você quer de mim?

​Glenn levantou o rosto, os olhos injetados e a face marcada pelo pranto. As mãos tremiam.

​— Eu quero que diga a verdade… que me culpa — declarou, a voz embargada. — Porque quando eu olho para você… ou para ela… é a única coisa que vejo. Sempre.

​Reynolds permaneceu estático, as feições mergulhadas na penumbra que antecede a tempestade.

​— Porque eu fui embora — prosseguiu Glenn. As palavras saíam em golfadas que ele não conseguia conter. — Deixei que ele fosse atrás da Ellie. Ele disse que estava tudo bem... e eu, como um imbecil, acreditei. Deixei que ele fosse sozinho para o matadouro.

​O autodesprezo agora era uma torrente.

​— Ele sempre falava como se o mundo fosse simples. Eu deveria ter gritado "não". Deveria ter ficado, segurado ele pelo colarinho! Mas eu simplesmente dei as costas. Porque tive medo, Reynolds. Eu estava apavorado. — A respiração dele falhou em um chiado seco. — Eu o deixei morrer.

​O silêncio foi interrompido apenas pelo farfalhar inquieto das árvores. Reynolds deu dois passos à frente. Movimentos pesados, como chumbo. Parou diante de Glenn e sustentou seu olhar.

​— Glenn — disse ele, a voz baixa. — O Louis não morreu sozinho.

​Glenn piscou, as lágrimas turvando a visão.

​— Ele morreu sabendo que havia salvado quem pretendia salvar — continuou Reynolds. — Fez o que escolheu fazer. Ele não lhe pediu para ficar porque sabia que, se você ficasse, morreria também. E ele nunca permitiria isso.

​Reynolds encurtou a distância.

​— Se você tivesse ido, eu estaria enterrando dois filhos agora. E a Vivian não estaria viva. Nem a Ellie.

​Glenn finalmente soltou o ar preso nos pulmões. Seu corpo cedeu, como se o peso da culpa tivesse se tornado insuportável. O vento trouxe o cheiro forte de terra úmida.

​— Você também passou por muita coisa — murmurou Reynolds, a aspereza suavizando-se. — E ainda está aqui.

​Glenn levantou os olhos com cautela.

​— Perder meu filho é uma agonia que não sei descrever. Mas eu não perdi tudo. — Ele estendeu a mão enfaixada e a pousou sobre a cabeça de Glenn. Era um gesto antigo, uma lembrança de quando ele era apenas um menino de joelhos ralados. — Eu ainda tenho você. E a Vivian. Minha família.

​Glenn petrificou. Era o choque de receber um tesouro que julgava perdido. Reynolds deixou a mão ali por um momento antes de recuá-la.

​— Temos de continuar. Nós vivemos, e seguimos em frente. O que você pretende fazer agora?

​Glenn baixou o olhar para as mãos que ainda tremiam. Inspirou devagar, recompondo os fragmentos. Estendeu o braço e tomou a espada de treino que Reynolds segurava. Apertou o cabo até os nós dos dedos empalidecerem.

​— Eu quero ficar mais forte. — As palavras carregavam uma resolução sombria. — Não suporto mais ficar parado. Não quero apenas chorar. Não outra vez.

​Reynolds o estudou com seriedade de pedra.

​— Não há como regressar, nem como reparar o que foi quebrado. — Ele deu um passo à frente, o olhar endurecido. — Então use isso. Use a raiva. Use a parte de si mesmo que se recusa a perdoar. Transforme isso.

​Glenn apertou o cabo, o maxilar tenso.

​— Deixe que isso o mova — completou Reynolds. — Nem que seja apenas por enquanto.

​O vento soprou mais forte, varrendo o cheiro de chuva. Glenn não respondeu. Permaneceu ali, a espada em punho e a respiração lenta, os olhos injetados, mas com uma nova e perigosa firmeza.

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