Volume 4
Capítulo 2
2. Desvendando Mistérios com uma Porção de Peixe com Batatas:
Natsunagi e eu havíamos nos mudado para um restaurante próximo ao hotel para almoçar e estávamos sentados um de frente para o outro, separados apenas por uma mesa. Aquilo fora uma sugestão da Grande Detetive: não se resolvem mistérios de estômago vazio.
"Jamais imaginei que veria isso de novo", suspirei, lançando um olhar de esguelha para o volume sobre a mesa.
A contracapa havia sido removida e a maioria das páginas, a partir de certo ponto, desaparecera... mas era, sem dúvida, o texto sagrado. Ao abri-lo, encontrei relatos escritos sobre algumas das experiências que Siesta e eu vivemos nos últimos anos.
"Outra coincidência... Não, não pode ser só isso, né?", comentou Natsunagi, franzindo o cenho, embora ainda beliscasse algumas batatas fritas.
Eu vira o texto sagrado pela primeira vez há um ano. Naquela época, quem o possuía era Hel, a personalidade alternativa de Nagisa Natsunagi. Dizia-se que o texto sagrado continha relatos de eventos futuros. Seu verdadeiro dono era Seed, e Hel, junto com os outros executivos da SPES, vinha planejando a invasão da Terra com base nas instruções contidas nele.
Agora, cerca de um ano depois, o livro reaparecera. Como Natsunagi dissera, não podíamos simplesmente atribuí-lo ao acaso. Por que aquele livro havia voltado para nós? Seria uma armadilha armada por Seed? Ou talvez...
“O Oráculo….” murmurei.
"Eu estava pensando exatamente a mesma coisa", concordou Natsunagi. "O texto sagrado descreve eventos futuros. Quando penso em quem teria escrito algo assim, só consigo imaginar o Oráculo."
Sim, essa também era a minha teoria. Claro, não podíamos descartar totalmente a possibilidade de Seed ser clarividente... Mas, se eu tivesse de apostar, tínhamos o testemunho tanto da senhorita Fuubi quanto de Olivia sobre o Oráculo. Então, ela parecia a opção mais confiável.
"Em outras palavras, a explicação mais plausível é que o Oráculo seja a verdadeira dona do texto sagrado, e que em algum momento Seed tenha conseguido roubá-lo dela."
Havia outro motivo para acreditar que o Oráculo era a verdadeira proprietária daquele livro. Virei até a última página, já que muitas estavam faltando. O que estava escrito ali era...
"'O monstro Medusa atacará a cidade de Londres', hein?", murmurou Natsunagi, semicerrando os olhos diante da página. A data era de uma semana atrás.
Se aquela profecia fosse verdadeira, a cidade estaria sendo ameaçada pela Medusa naquele exato momento.
"Ou seja, esse é mais um teste preparado pelos servos do Oráculo para determinar se somos dignos de encontrá-la."
"Provavelmente essa é a conclusão mais lógica. Essa é uma mensagem do Oráculo: 'Se desejas me encontrar, deverás derrotar a temível Medusa, que mergulhou a cidade de Londres em um terror profundo.'"
"Qual é a da voz estranha? Não me diga que você estava imitando o Oráculo."
"Não me chame de estranha; era só uma imitação! Mas aposto que ela é assim. Não que eu tenha como saber."
Ela jamais se encontrara conosco, mas já havia nos lançado enigmas perturbadores por meio de seus servos. Eu tinha certeza de que era uma garota mimada, convencida, reclinada com arrogância em seu trono. De novo: não que eu tivesse como saber.
"Mas enfim, tem certeza de que vale a pena priorizar isso?", perguntou Natsunagi.
"A gente ia recuperar o legado da Siesta primeiro, depois decidimos procurar o Oráculo. E agora estamos seguindo outra pista. Não estamos nos afastando cada vez mais da resposta?"
...Sim, ela com certeza tinha um ponto.
Tínhamos cerca de dez dias até o prazo final que a senhorita Fuubi nos dera para derrotar Seed. Nesse período, eu precisava encontrar o legado deixado por Siesta e me encontrar com o Oráculo, que tinha a chave para a sua ressurreição. Talvez não tivéssemos tempo para lidar com um monstro desconhecido em solo estrangeiro.
"A questão é que, se eu desviar o olhar de um caso que está bem na minha frente, não consigo mais voltar para aquele apartamento." Eu já havia começado.
Se desistisse agora e voltasse pra casa, Siesta ficaria furiosa comigo. E, se alguém estivesse sendo atacado pela Medusa nesse momento, eu não poderia simplesmente ignorar.
"...Tá bom", murmurou Natsunagi, tão baixo que soou quase como um suspiro.
"Bem, se você está de acordo com isso, Kimizuka, então eu também estou, acho."
Ela esboçava um sorriso cansado. Ao que parecia, havíamos chegado a um consenso sobre o que fazer.
"Além disso, eu já tenho uma ideia."
Natsunagi pareceu confusa, e então contei a ela sobre uma certa experiência que tive há algum tempo.
"Acontece que, dois anos atrás, Siesta e eu enfrentamos uma Medusa."
Medusa era um monstro cujo olhar transformava as pessoas em pedra. Contudo, a que enfrentamos não era um monstro de verdade. Em uma mansão ao estilo europeu, a Medusa que conhecemos era um homem triste cuja filha adotiva havia ficado em estado vegetativo permanente após um acidente. Com pena dela, ele vinha envenenando outras pessoas para reproduzir a mesma condição.
"Entendi... Mas você e a Siesta já resolveram isso, não foi?"
"Sim. Ou melhor, a Siesta resolveu. Eu só atrapalhei."
Como Natsunagi disse, Siesta solucionara aquele incidente com perfeição. Isso significava que, ou estávamos lidando com um crime de imitação... ou com um monstro de verdade, alguém que possuía os poderes de uma das sementes de SPES. De qualquer forma, precisaríamos investigar com cautela.
"Bem, já abastecemos, então é hora de colocar a mão na massa."
A detetive e sua assistente teriam de fazer o tipo de trabalho de campo que os detetives antigos realizavam. Provavelmente, deveríamos começar nossa investigação fazendo perguntas. Quão pública era a informação sobre esse incidente? Que tipo de dano a Medusa havia causado, especificamente?
Eu comecei a me levantar, mas então...
"Kimizuka, escuta... Você está se sentindo bem?", perguntou Natsunagi, lançando olhares furtivos na minha direção. A pergunta surgiu do nada, e eu me perguntei o que estava acontecendo.
"Faz um tempo que estou esperando o momento certo para perguntar", continuou ela, de forma incomumente atenciosa.
"Bom, fisicamente, tenho tanta energia que chega a assustar."
Será que ela estava perguntando por causa da briga com a Srta. Fuubi, dois dias atrás? De fato, na hora pensei que tivesse quebrado algum osso, mas nada disso estava me atrapalhando no dia a dia, exceto por umas dores aqui e ali.
"Sério? Nem efeitos colaterais?", insistiu ela.
Ah... era disso que ela estava falando.
Ao ver a preocupação nos olhos de Natsunagi, percebi do que se tratava. Durante a luta, eu havia engolido a semente do Camaleão para enganar Fuubi. Aqueles artefatos haviam sido originalmente criados por Seed.
Embora concedessem poderes especiais a quem os consumisse, ingerir uma dessas sementes sem os devidos cuidados acarreta sérios efeitos colaterais posteriores. Você poderia, por exemplo, perder a visão, como aconteceu com Bat. Também diziam que era possível perder uma parte significativa da expectativa de vida.
Mas, até o momento, eu não apresentava sinais de nada disso. E não estou preparando terreno para uma reviravolta dramática, não direi algo como:
“não consegui sentir o sabor do peixe com batatas porque perdi o paladar”. Pode ser que um golpe do destino me atinja mais tarde, mas, por ora, eu estava com a saúde em perfeito estado.
"O quê, estava preocupada comigo?", provoquei Natsunagi.
"Sim, eu me preocupo com você." Natsunagi virou-se para mim com uma expressão surpreendentemente séria e fixou os olhos nos meus.
"Não sou só eu. Yui e Charlie também estão preocupados. Você é importante para nós. A gente se preocupa com você tanto quanto você se preocupa com a gente, Kimizuka. Entendeu?"
(N/R: fofinho demais a relação deles)
Ela me disse que não existe isso de apenas dar ou apenas receber. Os sentimentos sempre vêm dos dois lados.
Embora me custasse admitir, o sorriso que Natsunagi me deu naquele momento era tão encantador que rivalizava com o da antiga Grande Detetive.
"Foi impressão minha ou ouvi o som de alguém se apaixonando?"
"Infelizmente, isso foi só a conversa desandando."
No dia seguinte...
"Que manhã maravilhosa", comentei com Natsunagi.
Estávamos sentados lado a lado no andar superior de um ônibus de dois andares, observando as ruas da cidade.
No dia anterior, tínhamos iniciado nossa investigação sobre a Medusa. Nossas perguntas haviam nos rendido uma pista, e agora seguíamos de ônibus até um certo destino. Não estávamos ali para fazer turismo, claro, mas cada vislumbre da cidade vibrava com a cultura local. Eu queria compartilhar aquelas imagens com Natsunagi, porém...
"......"
Ela olhava fixamente para frente, com um ar distante. Parecia estar com a mente em outro lugar.
"Essa roupa ficou boa em você." Suspeitando que talvez tivesse feito algo errado, tentei elogiá-la e melhorar seu humor. Eu não entendia muito de moda ou nomes de roupas, mas ela vestia algo como um vestido preto. Era diferente do que costumava usar, mas combinava perfeitamente com o país em que estávamos.
"Kimizuka, no evento extremamente improvável de você conseguir uma namorada, aposto que vocês brigam em dois segundos e terminam dois segundos depois."
"Vou ignorar essa última parte e protestar contra a ideia de que minhas chances são tão pequenas assim."
Aparentemente, ela não estava me ignorando de propósito. Finalmente eu tinha conseguido a atenção de Natsunagi.
"Você estava distraída. O que foi? Não dormiu bem?"
"Ah. É verdade, foi difícil pegar no sono com você falando dormindo. Isso contribuiu."
"…Disso eu não lembro nada." Um dos riscos de dividir uma cama. Esperava não ter falado nada sobre a Siesta.
(N/R: ELES DORMIRAM JUNTOS 😮)
"Você ficava se ajoelhando e pedindo desculpas pra Yui. Vai entender por quê."
"Isso é cem vezes pior do que eu estava imaginando."
Pensando bem, eu tinha brigado com Saikawa antes de deixar o Japão. Queria poder resolver isso logo.
"E além disso..." Natsunagi sorriu de canto.
"Ontem à noite, eu sonhei com ela." Ela provavelmente se referia à sua outra personalidade, Hel.
"Talvez tenha sido por causa do texto sagrado que vimos ontem. Aquilo me fez pensar nela."
Era verdade. Natsunagi sonhava.
Ela havia mencionado antes que conversava com Siesta, que vivia em seu coração em devaneios. Era um mundo só delas, onde ninguém mais podia entrar.
"E o que você e Hel conversaram?"
"...Ela ficou muito brava comigo." Natsunagi inflou as bochechas, contrariada.
Nossa. E o que aconteceu com aquela conversa diante do espelho? Eu achei que já tinham se acertado.
"Ela disse pra eu não carregar fardos sem pedir ajuda." Com um suspiro desgostoso, Natsunagi falou em nome de Hel.
"Ela disse que assumiria a responsabilidade pelos próprios crimes."
...Ah. Isso soava mesmo como algo que ela diria. Hel era teimosa. Ela havia aceitado as emoções intensas que Natsunagi demonstrara diante do espelho. Aquilo devia ser a resposta que encontrou depois. Hel havia tirado vidas inocentes no passado, e estava determinada a enfrentar suas culpas por conta própria. Aquela teimosia era, também, sua forma de demonstrar compaixão por sua personalidade principal.
"Bom, eu mesma não estava nada bem com aquilo. E então tudo terminou numa briga de socos."
"Foi exatamente o que aconteceu com a Siesta também."
Aparentemente, as três cabeças do cão de guarda ainda estavam rosnando e se mordendo umas às outras.
"Mesmo assim, nunca imaginei que colocaria os pés neste país novamente."
Enquanto observava a paisagem passar pela janela, recordava a última vez que estive ali com Siesta. Já fazia cerca de um ano desde que vi aquelas ruas, mas eu havia morado ali por vários meses, e tudo me era muito familiar.
Até mesmo as placas e os postes de luz ao longo da estrada despertavam uma sensação de nostalgia.
"Faz muito tempo pra mim também." A expressão de Natsunagi suavizou.
"Você e eu andamos por esta rua juntos no ano passado, não foi, Kimizuka?" Ela parecia se lembrar de algo muito distante no tempo.
Ela estava certa: não tinham sido apenas Siesta e eu aqui, um ano atrás. Naquela época, Alicia ou melhor, Natsunagi, que usara a semente para assumir a forma de Alicia, também andara conosco por essas mesmas ruas.
"Eu sei que já perguntei isso antes, mas... Naquela época, você só parecia com a Alicia por fora, certo? Por dentro, era você mesma, Natsunagi?"

“Certo. Era eu mesma. Claro, só percebi isso de verdade recentemente,” disse ela, com um sorrisinho irônico.
De fato, a garota que eu conheci no ano passado não usava o pronome formal que a verdadeira Alicia usava, nem o pronome masculino da Hel — ela usava o pronome comum de uma garota normal. Apesar de parecer com a Alicia de cabelo rosa, por dentro, era a Nagisa Natsunagi.
“Mas fico pensando… A Alicia tinha uns doze ou treze anos; talvez a idade aparente tenha influenciado um pouco no meu jeito de falar e agir. Nem eu tenho certeza,” refletiu Natsunagi.
“Você parecia meio novinha mesmo... Embora sua idade mental ainda seja bem jovem, pra falar a verdade.”
“Uau. Isso vindo do cara que vivia tentando fazer a Siesta mimar ele como se fosse uma criança.”
“Não me lembro disso. E ninguém tem isso gravado.”
“Ah, mas eu vou fazer ela me contar tudinho um dia.”
...Natsunagi parecia ter encontrado uma motivação bem estranha para querer reencontrar a detetive.
“Olha só, aquela joalheria. Não foi ali que a gente entrou?” Natsunagi apontava para uma loja de fachada envidraçada voltada para a rua. Ela estava certa; era o lugar onde havíamos estado durante a busca pelo olho de safira.
“Se eu me lembro bem, você não tinha dinheiro e não pôde comprar nada naquela vez.”
“É. Eu era pobre naquela época... e continuo pobre até hoje.” Não seria má ideia a Natsunagi abrir uma agência de detetives um dia desses. Assim, quem sabe, eu arranjava um salário fixo.
“Bom, você acabou me dando um anel de uma barraca de rua, então valeu a pena.” Natsunagi me lançou um olhar por baixo dos cílios, parecendo feliz com a lembrança.
“...Eu tinha esquecido disso.”
“Você disse: ‘A partir de agora, uh... conto com você,’ e colocou o anel no meu dedo anelar...”
“Você me obrigou a dizer aquilo! Esquece isso, agora!”
“Nem pensar.”
Enquanto falávamos sobre essas bobagens, o ônibus parou no nosso ponto. Caminhamos por alguns minutos até finalmente chegarmos a….
“É aqui,” murmurou Natsunagi, olhando para um hospital branco.
Era uma das informações que havíamos conseguido no dia anterior, uma das vítimas da Medusa havia sido internada ali.
“Vamos entrar?”
Entramos no prédio e seguimos para o elevador que nos levaria ao quarto do paciente que havíamos rastreado.
“Mesmo assim, parece que a notícia do incidente não se espalhou tanto quanto achávamos,” comentou Natsunagi, pensando na investigação do dia anterior.
Na verdade, mesmo após perguntarmos para um bom número de pessoas na cidade, nem uma em vinte tinha ouvido falar da palavra “Medusa”. Nenhuma palavra-chave relacionada soava familiar para elas também.
“Pois é. Se não tivéssemos invadido aquele jornal, acho que ainda estaríamos no escuro sobre este lugar.”
No dia anterior, Natsunagi tinha reclamado que estávamos empacados e sugeriu uma invasão. Se não fosse por isso, as coisas certamente não teriam andado tão bem.
“A imprensa tem as informações. Só precisamos escutar às escondidas!”
“Não diga isso com tanto entusiasmo. Espionar os outros não é algo que se diga com tanta leveza.”
“Ah, mas funcionou... Tudo graças à sua habilidade, Kimizuka.”
“Sim. Ela é realmente perfeita pra operações furtivas, né?”
A semente do Camaleão me deu a habilidade de ficar invisível. Enquanto eu pudesse fazer isso, ouvir conversas escondido era mais fácil que entortar o braço de um bebê.
“Agora é só torcer pra você não ter desenvolvido um gosto por invadir o banheiro feminino invisível.”
(N/R: KKKKKKK)
“Para de imaginar coisas que realmente poderiam acontecer. Sério, corta isso. E para de rezar com essa cara séria.”
Enquanto ainda estávamos conversando, o elevador chegou ao nosso andar. Caminhamos até o quarto, respiramos fundo, abrimos a porta e vimos…
“Então essa é a vítima da Medusa?”
Era um homem na casa dos quarenta.
Aproximamo-nos em silêncio.
O homem na cama respirava por conta própria, e de vez em quando piscava, mas era só isso. Ele não falava, não mexia nem um dedo. Parecia mesmo ter sido transformado em pedra.
“Um estado vegetativo persistente, hein?”
Pelo que ouvimos, o homem fora hospitalizado há cerca de uma semana. Isso coincidia com a data mencionada no texto sagrado sobre o aparecimento da Medusa. Seria possível que nosso monstro misterioso tivesse petrificado esse homem com algum tipo de poder? Mas quem teria feito isso, e por quê?
Enquanto meus pensamentos giravam em círculos….
“Ei, Kimizuka?” Natsunagi olhava fixamente o rosto do homem na cama. “A gente não viu ele em algum lugar antes?”
Aparentemente, ninguém é só figurante neste mundo.
Neste ponto, a história se divide em dois caminhos.
Depois disso, seguimos com a investigação.
Conseguimos os detalhes com o médico responsável pelo paciente e vimos outros internados com os mesmos sintomas. Normalmente, questões de sigilo dificultariam muito a obtenção dessas informações. No entanto, os olhos vermelhos da Natsunagi fizeram tudo parecer fácil.
Com base nas informações e evidências circunstanciais que reunimos, conversamos e elaboramos uma teoria sobre a identidade e os motivos da Medusa. Chegamos a essa resposta justamente por sermos nós dois. E, em parte por vontade da Natsunagi, passamos também em um segundo lugar...
“Finalmente consegui chegar até aqui,” ela murmurou.
Estávamos no cemitério de uma igreja nos arredores de Londres. Era o crepúsculo, e as lápides se alinhavam ordenadamente sobre o amplo campo gramado.
Natsunagi se ajoelhou diante de uma delas. “Desculpa ter demorado tanto… Daisy.”
Daisy Bennett.
Ela havia sido a última das cinco vítimas do incidente Jack, o Demônio, ocorrido em Londres um ano atrás. Natsunagi já havia prestado homenagens às outras quatro, e agora oferecia flores à última delas.
“Natsunagi.” Toquei gentilmente seu ombro.
“...Sim, eu sei.”
A criminosa por trás daqueles assassinatos em série havia sido Hel, a outra personalidade de Natsunagi. O coração de Hel havia sido danificado em sua primeira luta contra Siesta; para sobreviver, ela tirou a vida de cinco pessoas, usando os corações delas como baterias.
Dito isso, Hel cometeu aqueles crimes por iniciativa própria. Natsunagi sequer sabia o que estava acontecendo. De certa forma, ela também era uma vítima, sua mente e personalidade foram roubadas.
“Eu já aceitei o passado. Agora, vou fazer o meu melhor para me redimir.”
Não havia pesar sombrio no rosto de Natsunagi. Mas essa também não era a única razão de ela estar ali.
“Então vou ficar bem. Vai, termine seu trabalho, Kimizuka.” Natsunagi sorriu para mim.
“Tem certeza? Não vai se sentir sozinha se eu for embora? Não vai chorar à noite?”
“O que é isso, sou uma criança por acaso? Quem ficou revirando o apartamento inteiro porque não viu a Siesta por perto foi você, Kimizuka.”
Não fale como se tivesse visto isso... Is-s-o-o-oo… nunca aconteceu… tenho quase certeza que nao.
“Além disso, a gente achou a chave, né?”
“...É. Coincidentemente. Bem quando estávamos vindo pra cá.”
Exato. Enquanto vínhamos para este cemitério, recebi uma ligação dizendo que minha carteira roubada e a chave mestra haviam aparecido. Natsunagi e eu fomos forçados a nos separar temporariamente porque alguém queria que fosse assim.
Sinceramente. Que ousadia, separar uma detetive e seu assistente.
“Você se preocupa demais, Kimizuka.” Devia estar estampado no meu rosto, mesmo que eu não quisesse. Abraçando os joelhos, Natsunagi me olhou com um sorriso de canto.
“Eu vou ficar bem. Afinal, eu não estou sozinha.”
“...É, isso é verdade.”
Era mesmo. Mesmo que eu não estivesse presente, Natsunagi não estava sozinha. Havia outra pessoa ali que havia decidido lutar ao lado dela.
“Tudo bem. Se algo acontecer, me liga. Eu venho correndo num robô gigante.”
“Uhum. Por favor, mantenha a escala do mundo como ela está, tá? Tenta refletir um pouco e fazer melhor da próxima vez.”
Ela pode falar, mas esse é um mundo onde temos que lutar contra alienígenas, vampiros e monstros que nem vimos ainda, então me deixa brincar um pouco. Só de vez em quando.
“Tá bom, até mais.”
“Mm-hmm, até.” Trocamos despedidas breves e eu fui embora.
Eu confiava que aquelas garotas conseguiriam enfrentar o que quer que estivesse por vir.
Mudança de narrador
Cerca de quinze minutos depois que Kimizuka foi embora, aconteceu.
“Minha nossa. Você é amiga da minha filha?”
Uma mulher de cerca de sessenta anos caminhava até mim, carregando flores.
Levantei-me, cumprimentando-a com um leve aceno. “Faz tempo, Rose Bennett.”
Era a mãe de Daisy, a quinta vítima de Jack, o Demônio. No ano passado, enquanto seguíamos a trilha do culpado, Kimizuka, Siesta e eu havíamos feito uma visita à casa dela.
“Nós perturbamos você numa época muito difícil, e peço desculpas por isso,” disse eu, fazendo uma reverência mais profunda.
Naquela visita, o luto pela perda da filha havia sido tão intenso que ela desmaiou bem na nossa frente.
“...Já nos conhecemos antes, senhorita?” A mulher me olhou com um leve sorriso confuso.
Pensando bem, era de se esperar essa reação. Naquela visita, eu estava usando a semente de Cérbero para me parecer com Alicia. Não era de se admirar que ela não me reconhecesse agora.
“...Já faz mais de um ano desde aquele incidente,” comentei, tentando disfarçar. Enquanto falava, observei Rose colocar as flores diante da lápide.
“O tempo tem asas, não é? Até aqueles dias dolorosos estão ficando para trás,” disse ela, com um sorriso marcado pelo sofrimento.
“Na época, com a dor ainda tão fresca, eu mal conseguia lidar com os jornalistas todos os dias.”
“Sim, eu soube. E também ouvi falar daquele parlamentar.”
Por um momento, o rosto de Rose se contraiu.
Eu me referia ao homem que havia se lançado como candidato substituto de Daisy Bennett, que era representante local no Parlamento. Ele havia feito discursos comoventes sobre continuar o legado dela e venceu por uma margem esmagadora... Mas só usou aquele espetáculo para subir na vida. Por trás das cortinas, enriquecia com doações ilegais. Chegou a zombar de Daisy, chamando-a de “um bom trampolim”.
“...Sim, senhorita, é verdade. Você sabe bastante. Onde soube disso tudo? Até parece uma detetive,” disse Rose, fazendo uma piada enquanto se endireitava.
“Mas está tudo bem. Talvez ele esteja arrependido de verdade; parece estar se comportando ultimamente.”
“Entendo...”
“Ah, é mesmo! Hoje é o aniversário da minha filha. Fico feliz que alguém além de mim ainda se lembre dela,” disse Rose, sorrindo com ternura. Minha resposta meio sem graça pareceu passar despercebida por ela.
“Sim, eu sei.”
Antes de vir até aqui, eu tinha feito uma pequena pesquisa e descoberto que hoje era o aniversário de Daisy Bennett. Diferente do Japão, a Inglaterra não tem o costume de visitar túmulos numa época determinada como o Obon. Por aqui, as pessoas costumam levar flores aos entes falecidos no aniversário deles.
Com base nessa informação, havia uma grande chance de que Rose Bennett visitasse o túmulo da filha hoje. Nosso encontro não foi coincidência; eu vim aqui especificamente para vê-la.
“Rose Bennett, a senhora é a Medusa, não é?”
Lancei minha teoria de forma repentina.
“...Heh-heh. O que está dizendo?” Sorrindo levemente, Rose negou minha acusação.
“Sei que há rumores sobre incidentes assim pela cidade, mas o que faz você pensar que eu sou essa tal Medusa?” Era uma pergunta perfeitamente natural. Ela ainda mantinha aquele sorriso.
Mas por que eu estava afirmando que Rose Bennett era o monstro? E se fosse verdade, o que a teria levado a se tornar uma Medusa que transforma pessoas em pedra?
“Foi como a senhora mesma disse agora há pouco.”
Exatamente. Como Rose acabara de me contar, a mídia e aquele parlamentar a haviam feito sofrer, e foram justamente essas as vítimas da Medusa que Kimizuka e eu vimos no hospital hoje. Lembrava bem do repórter, especialmente depois de vê-lo na frente da casa de Rose um ano atrás.
Além daqueles dois, havia outras possíveis vítimas da Medusa. Ao investigar, descobrimos que todos tinham tido algum tipo de desentendimento com Daisy Bennett. Se existia alguém que guardasse rancor dessas pessoas, esse alguém era...
“Rose. A senhora se tornou a Medusa para se vingar dos inimigos da sua filha... Das pessoas que tentaram manchar a memória dela.”
Um dia, sem aviso algum, ela perdeu sua única filha. Tudo o que lhe restava era um corpo sem vida. Sem ter onde depositar sua dor, tentou punir aqueles que continuavam tentando ferir sua menina, mesmo após a morte. Sua filha havia se tornado fria como pedra, então ela quis fazer os outros sentirem o mesmo. Foi assim que surgiu a Medusa.
“É só isso?” O sorriso de Rose Bennett havia desaparecido durante a minha explicação. Ela se aproximou de mim com um semblante severo.
“Isso não passa de suposição. Você apenas criou um motivo que soa plausível; não tem nenhuma prova concreta.”
“...Tem razão. Não tenho provas aqui. Mas...,” continuei,
“Se revistarem sua casa, com certeza encontrarão veneno.”
Antes de vir ao cemitério, eu tinha conversado com um dos médicos do hospital sobre os sintomas específicos das vítimas da Medusa. Meus olhos vermelhos ajudaram muito, e o fato era que uma certa toxina havia sido detectada em todos os casos.
Segundo Kimizuka, ela tinha a mesma composição do gás venenoso usado pelo dono daquela mansão europeia na floresta, dois anos atrás.
Isso deixava claro que a atual Medusa também estava usando uma toxina especial para danificar a mente de suas vítimas. Mesmo que não a encontrássemos diretamente, provas materiais surgiriam com o tempo. E além disso….
“Rose. Quero ouvir a verdade diretamente da senhora.”
Kimizuka sugeriu levar provas ao cemitério conosco, mas eu recusei. Escolhi persuadir Rose Bennett, custasse o que custasse.
“...Ora, e como eu poderia perdoá-los?” Rose sorriu de maneira amarga. Eu tinha certeza de que não era para mim, ela estava rindo de si mesma. Não precisava que eu dissesse que o que fazia era errado. Mesmo assim “Sim, sou eu. Sou o monstro de quem você fala. A Medusa.”
A mãe não conseguiu perdoar o desrespeito com que trataram sua filha, e retribuiu com venenos que deixaram os culpados em coma.
“Como conseguiu essa toxina?” perguntei. Não era algo que alguém vivendo uma vida comum pudesse simplesmente encontrar.
“Quando foi...? Um dia, simplesmente apareceu pelo correio,” murmurou Rose, com os olhos vazios.
Alguém a havia colocado nesse caminho deliberadamente!
“Me diga,” implorou ela.
“Um dia, minha filha simplesmente caiu morta. Agora ela não passa de cinzas, nunca mais vai falar comigo…. Minha única, ÚNICA FILHA…. MORTA…. O QUÊ VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE? Eu queria tanto, mas tanto ouvir a voz dela, mas nunca mais poderei. Enquanto isso, as pessoas que a difamaram falam o que bem entendem sobre ela. Por quê? O que há de errado em calar a boca deles?”
Ela segurou meus ombros... mas logo em seguida, desabou no chão, fraca.
Rose Bennett jamais perdoaria aqueles que profanaram a morte de sua filha. Estranhos alheios à dor dela lamentavam alto apenas por interesse próprio, enquanto a menina permaneceria em silêncio para sempre. Na tentativa de mudar isso, Rose havia se tornado um monstro.
O que eu deveria dizer a ela?
Se eu encontrasse as palavras certas para o turbilhão de sentimentos dentro de mim, aquilo que Kimizuka gentilmente chamava de “paixão” , será que eu poderia salvá-la? Eu consegui aceitar Yui mesmo quando ela apontou uma arma para nós. Será que minhas palavras alcançariam essa mulher ajoelhada e serviriam de apoio para ajudá-la a se reerguer?
Não. Não conseguiriam.
Afinal, eu já havia falhado em salvar Rose antes. A intensidade com que agi quando estive na casa dela, no ano passado, não a tocou... Mas claro que não. Naquela época, eu não estava com a minha aparência verdadeira. Eu nem sequer entendia o crime que havia cometido. Era uma arrogância tremenda da minha parte achar que poderia salvá-la.
Então, o que fazer?
De quem seriam as palavras capazes de salvar essa mulher? Quem poderia secar as lágrimas de uma mãe desabada em frente ao túmulo da filha?... Só havia uma resposta.
“Por favor, me empreste sua força.”
Desamarrando a fita vermelha que prendia meu cabelo, me voltei para minha outra parceira em busca de ajuda.
Uma mensagem de Niflheim
"Foi por isso que eu disse que faria isso desde o começo."
Apertando a fita vermelha em minha mão, murmurei para a consciência da minha mestra, adormecida em algum lugar dentro deste corpo. Honestamente, qual tinha sido o propósito daquela luta? Nem conseguia suspirar diante da paixão, ou melhor, teimosia da minha mestra.
"Quem é você?" perguntou a mulher agachada diante da lápide, olhando para mim.
O conteúdo deste corpo era diferente, mas minha aparência não havia mudado em nada. Talvez o olhar afiado nos meus olhos tivesse lhe dado alguma pista.
Ainda assim... quem eu era, de fato? O que eu era?
Parecia uma pergunta profundamente filosófica.
"Eu não saberia dizer. Sou apenas eu mesma, só isso."
Olhei para a mulher; estava atendendo ao pedido da minha mestra.
"O que você recebeu foi um produto inferior. É uma toxina, sim, mas seus efeitos são apenas temporários. As mentes daqueles homens estão nubladas agora, mas logo despertarão."
Um certo membro da SPES, a quem o Pai havia dado uma semente, havia criado aquela toxina dentro do próprio corpo. O codinome daquele pseudohumano era
"Água-viva". Nome científico: Medusa.
O veneno de água-viva perde o efeito depois de certo tempo. Aquele homem fazia os membros de menor patente da SPES venderem a substância para ganhar algum dinheiro.
Provavelmente ele explorou a fraqueza daquela mulher após a perda de sua filha. Talvez o veneno tivesse lhe parecido uma solução. Esperava que ele ainda não tivesse cobrado por isso... Não, eu não estava em posição de me preocupar com esse tipo de coisa.
"Dê mais um passo e eu atiro!" Rose Bennett sacou uma arma da bolsa aos seus pés.
"Entendo. Então deram isso a você também?" Minha chegada só tinha piorado a situação.
Conversar com outras pessoas é surpreendentemente difícil. Se isso continuar, pensei, minha mestra vai me repreender. Um sorriso constrangido escapou de mim.
"...!"
Talvez sorrir tenha sido um erro. Rose levantou a arma, apontando-a para mim com as mãos trêmulas.
Para ser sincera, pensei que talvez fosse melhor se ela atirasse. Ela tinha o direito. Se ia buscar sua vingança, aquele era o momento.
Mas...
"Essa bala não vai me atingir."
Ela atirou, mas o projétil passou longe de mim. O estampido seco e a fumaça pairaram no ar.
"Desculpe, mas não posso deixar minha mestra morrer."
"Fique longe..."
As pernas de Rose cederam de terror, e ela se arrastou para trás, sentada.
Será que ela achava que eu ia matá-la?... Ah, fazia sentido, na verdade.
Nós, da SPES, obedecíamos às ordens do Pai, seguíamos nosso instinto de sobrevivência e usávamos as habilidades especiais concedidas pelas sementes para matar os humanos deste planeta. Se nos temiam instintivamente, era natural.
"Não é por isso que estou aqui."
De forma alguma minha mestra me chamaria para fazer algo assim.
Ela me chamou para algo que ela própria não conseguia fazer. Algo que apenas eu era capaz de realizar.
Minha mestra ainda não dominava completamente o uso da semente neste corpo. Os olhos vermelhos eram apenas um gatilho; o verdadeiro poder da semente residia nesta garganta. Em nossa voz.
"A verdadeira forma da minha habilidade é a ‘alma da palavra’ ela imbuí os termos que eu falo com poder."
As sementes que o Pai criou concediam poderes especiais aos órgãos humanos. Eram elas que os membros da SPES usavam para continuar os ataques à humanidade, seguindo suas ordens.
Mas, hipoteticamente...
Se houvesse outra forma de usar esse poder, que não fosse para ferir pessoas...
Se minha habilidade de ‘alma da palavra’ tivesse o poder de salvar alguém...
"Pare, fique longe de mim...! Daisy!" Eu já estava bem diante de Rose Bennett. Ela olhou para mim e chamou o nome da filha. Ajoelhei-me suavemente, colocando-me ao nível de seus olhos.
Ah, entendo. Isso é o medo humano.
Será que sua filha me temeu assim, um ano atrás?
Em Londres, eu estava em um estado de transe, até recobrar a consciência diante de um cadáver. Para salvar este corpo e a vida da minha mestra, extraí o coração daquele cadáver. E fiz o mesmo de novo, e de novo. Será que aquelas cinco pessoas também estavam apavoradas assim antes de morrer?
"Desculpe por assustá-la", disse a Rose Bennett. Ela tremia.
O pedido de desculpas também se dirigia àquelas cinco pessoas, do ano passado.
"......?"
Rose provavelmente não entendeu. Mesmo agora, seus olhos vasculhavam os arredores, ansiosos... Essas coisas realmente nunca saem como o esperado.
Eu não era uma heroína lógica que sempre encontrava as melhores soluções baseadas em conhecimento e experiência, tampouco uma detetive brilhante que tentava realizar seus ideais elevados com emoções intensas.
No fim, eu era apenas uma imitação.
Um aglomerado amorfo de consciência que havia passado a habitar o corpo de uma garota chamada Nagisa Natsunagi. Minha existência era tão frágil que, se não estivesse presa ao desejo de ser necessária, uma rajada de vento talvez me levasse embora.
"Mas agora, eu tenho um laço."
Apertei a fita vermelha mais uma vez. Eu estava aqui agora porque minha mestra precisava de mim.
Era isso. Eu não podia imitar aquela detetive de cabelos brancos, e também não podia ser como minha mestra, aquela a quem esta fita combinava tão bem. Como já disse antes, eu era apenas eu mesma.
E, por isso, faria agora aquilo que só eu podia fazer.
Tinha certeza de que esse era o único direito que me foi concedido, e também um dever que eu precisava cumprir.
"Rose Bennett. Este é um presente não de mim, mas dela."
Minha habilidade era a "alma da palavra" a capacidade de imbuir palavras com poder.
O que significava que eu também podia trocar palavras com alguém com quem tivesse trocado sangue.
Um ano atrás, quando troquei de coração, também compartilhei sangue com Daisy Bennett, e por isso me lembrava de suas últimas palavras.
"Tenho certeza de que ela teria dito isso."
Sob o céu do entardecer, diante de uma lápide em um campo gramado, ajoelhei-me e transmiti à mãe as últimas palavras de Daisy Bennett.
"Eu te amo, mamãe."
Meu nome é Hel. Codinome: Inferno.
Meu nome pertence à rainha que governa a terra dos mortos, o elo entre os vivos e os que já partiram. O nome dessa emoção é...
De repente, minha visão se expandiu. Vi o brilho alaranjado do pôr do sol. Insetos cantavam ao longe, e percebi que minha consciência havia retornado ao meu corpo.
"...Hel."
Minha parceira havia terminado seu trabalho sem dificuldades e recuado para algum canto sombrio dentro de nós.
"Ops!"
Nesse instante, Rose Bennett cambaleou, caindo suavemente sobre meu ombro. Seus olhos estavam fechados.
"Daisy...", murmurou ela. O nome de sua única filha. Então, como se tivesse desmaiado, adormeceu em meus braços.
"Me desculpe." Gostaria de ter conseguido salvá-la adequadamente naquela época.
Enquanto pedia desculpas, lembrava que havia segurado Rose assim também um ano antes. Por alguns instantes, apoiei-a contra a lápide e chamei um táxi pelo celular. Se a deixasse descansar em casa, ela logo acordaria, com certeza.
Falando em despertar, Hel havia me dito que as pessoas deixadas em estado vegetativo pela toxina se recuperariam naturalmente com o tempo. Em outras palavras, este incidente estava resolvido.
Mais uma vez, fiz uma breve prece silenciosa diante da lápide.
"Não posso dizer que fiz o suficiente para me redimir..."
O tom da minha voz continha menos arrependimento e mais determinação voltada para o futuro.
Não havia como me absolver dos crimes que cometi há um ano. Nada jamais faria isso. Tudo o que eu podia fazer era continuar salvando pessoas, sem deixar que a posição de “detetive” me limitasse.
Agora, as missões prioritárias eram derrotar a Seed e trazer Siesta de volta à vida. Esta última exigiria um milagre que ultrapassaria até mesmo as intenções impecáveis da Detetive de Elite.
Para torná-lo realidade...
"Estou contando com você, Kimizuka."
Eu sabia que minha força sozinha não seria suficiente. Olhei para o céu, pensando no parceiro que sempre esteve ao meu lado.
Neste exato momento, ele estava ocupado reunindo pistas sobre essas missões.
Kimihiko Kimizuka, meu assistente e parceiro.
Eu o conheci em uma sala de aula, depois da escola, não faz muito tempo, mas por algum motivo, não parecia que era a primeira vez que conversávamos. Mais tarde, descobri que o coração dentro de mim havia passado três anos inteiros viajando com ele.
Eu dizia a mim mesma que era por isso que ele fazia meu coração bater mais rápido sempre que o via, que não tinha nada a ver com os meus próprios sentimentos.
Mas a verdade é que eu havia encontrado Kimizuka pessoalmente há um ano, aqui em Londres. Na época, estava mergulhada na escuridão, e foram as palavras dele que me salvaram.
O que significava que o verdadeiro motivo de meu coração acelerar na presença dele era...
"...Ah, deixa pra lá."
A resposta estava bem ali, mas decidi não estendê-la a mão. Fazer isso agora parecia como quebrar as regras.
Tudo teria que esperar...
"Até trazermos Siesta de volta."
Com esse pensamento, parti em direção ao lugar onde sabia que Kimizuka estaria. E foi nesse momento que ouvi uma leve explosão ao longe.
Enquanto isso
Depois que Kimizuka e Nagisa partiram para Londres, e a Srta. Kase e Charlie saíram, Bat e eu continuamos no apartamento da Srta. Kase.
Ainda estávamos ali porque Bat iria me submeter a um treinamento especial, com a esperança de despertar a habilidade do meu olho esquerdo. Esse era o plano, mas...
"Ah, esse aqui também é de primeira linha."
Bat havia tirado vinhos tintos com aparência caríssima da adega e agora fazia sua própria sessão privada de degustação, sorrindo satisfeito. O que aconteceu com o treinamento especial, hein?
"A Srta. Kase não vai ficar brava se você abrir o vinho dela sem permissão?", perguntei, sentando-me bem na frente dele.
"Não me importo. Aquela mulher me manteve trancado por eras. Não acha que mereço um pouco de luxo?" Bat girava suavemente o vinho na taça.
Sua atitude relaxada o fazia parecer um homem mais velho bastante desinibido e estiloso. Ele se comportava como um adulto maduro, algo que o Kimizuka provavelmente não conseguiria fazer nem em sonho.
"Não, não, você não vai me enrolar tão fácil assim! E o meu treinamento especial, hein?! Vamos lá!"
Abandonando meu papel habitual de piadista, comecei a pressionar o Bat por respostas.
"Vamos começar logo esse arco de treinamento! Em qual montanha vamos nos refugiar?! Quando é que eu vou meditar embaixo de uma cachoeira?! Será que vou precisar levar maiô?! Ah, mas fotos sensuais iam preocupar meu pai e minha mãe lá no céu, então melhor não!"
"Havia tantos problemas nesse monólogo que nem sei por onde começar."
Ora, ora. Parece que em algum momento trocamos de papéis.
"Não me apresse, tudo bem? Ainda tenho tempo pra terminar esta taça."
Com a calma de quem parecia ter total domínio sobre tudo que o futuro reservava, Bat girava lentamente o vinho na boca.

“Então por que você se ofereceu pra ser meu instrutor, Bat?” Se ele não ia começar o treinamento, então devia estar tudo bem bater um papo enquanto isso. Sim, essa era uma oportunidade rara.
Eu queria conversar sobre todo tipo de coisa com esse homem mais velho e estiloso.
“Já expliquei que temos um interesse em comum em derrotar a SPES. ...Bat era bem frio, no entanto.
Que estranho. O Kimizuka provavelmente já teria falado até cansar nessa altura. Não que eu me importe com o tipo de pessoa que sai numa viagem internacional com outra mulher assim, do nada.
“No entanto, já que estamos aqui... Tenho uma pergunta pra você,” disse Bat, colocando sua taça de vinho de lado. “Você realmente não quer vingar seus pais?”
Ele já tinha bebido bastante, mas não fez essa pergunta por influência do álcool. Parecia genuinamente interessado. Talvez até tivesse armado toda essa situação só pra perguntar isso... Não, tô exagerando.
“Mesmo se um inimigo mortal da sua família ou dos seus amigos estivesse bem na sua frente, você não puxaria o gatilho?” Bat perguntou de novo.
“Hmm, não sei. Na última vez, nem você nem o Camaleão tinham os machucado diretamente, então... A menos que aconteça de verdade, não posso dizer com certeza.” Eu estava me lembrando do incidente no telhado da emissora, outro dia.
“Entendi. Que sangue-frio o seu.”
“Sangue-frio mesmo? Acho que só consigo falar isso porque não estou diante de um inimigo agora. Peguei o microfone em vez da arma, mas isso não quer dizer que eu não pegaria a arma de novo, se fosse preciso.”
“Então você não vive pela vingança, mas também não descartou completamente a ideia?”
“Isso mesmo. No fim, acho que tudo se resume ao que eu quero fazer.”
Era algo arrogante de se dizer. Eu tinha dito algo parecido pro Kimizuka, mas ainda estava indecisa naquela época. Agora que passei por tudo aquilo, e o Kimizuka me deu apoio, consigo dizer isso com confiança.
“É por isso que não vou construir minha vida em torno da vingança. Quero viver do jeito que meus pais esperavam que eu vivesse.”
“E isso é diferente de se deixar prender pelos mortos?”
“Sim, é diferente.” É mesmo. Essa é a única coisa que eu posso dizer com orgulho.
“Afinal, é nisso que eu acredito agora!”
Esse pensamento com certeza é meu, uma vontade apenas minha, como se fosse minha convicção.
“Entendi,” murmurou Bat, pensativo. Então virou o resto do vinho num único gole.
“Hum... Isso respondeu sua pergunta? Acabei fazendo um monólogo...”
“Sim, foi bem esclarecedor. Também me mostrou que você ainda não conseguiu cortar o cordão umbilical.”
“P-por que você acha isso?! Você ouviu o que eu falei?!”
“Falei no bom sentido, então relaxa.”
“Adicionar ‘no bom sentido’ não é o suficiente pra me convencer, sabia?! Meu diferencial é que sou a personagem madura e capaz! Não me trate como uma criança!”
Sério, que velhote cruel. Fazer bullying com uma garota doce como eu! Ele é tão chato quanto o Kimizuka...
Aliás, olha só, continuo mencionando o Kimizuka mesmo ele estando longe. Esse homem é um cretino. Espero que volte logo.
“Ha-ha! Bom, agora que tivemos esse bate-papo agradável, vamos ao treinamento,” disse Bat, um pouco mais animado. Pelo menos estávamos indo para o que interessava.
“Escute, senhorita. A primeira coisa que vou te ensinar é uma das bases do movimento humano...”
“Ah, se isso for demorar, posso tomar um banho de imersão enquanto você fala? Se você ficar por aqui e falar alto, vou conseguir te ouvir!”
“Você é tão insolente que chega a ser refrescante.”
“Hee-hee! Essa foi boa!”
Foi um bom começo. É legal ter um amigo de outra geração.
Tinha certeza de que essa seria uma longa amizade entre mim e o Bat.
Ou... pelo menos, enquanto eu ouvia o que ele dizia, eu esperava que fosse.
“Ah, e a propósito, qual é o seu nome verdadeiro, Bat? Conheço um joguinho divertido que usa o nome da pessoa pra dizer a sorte.”
“Olha, nem sou eu quem deveria estar dizendo isso, mas... quando é que a gente vai começar esse tal de treinamento especial?”
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