Volume 4

Capítulo 1

1. Não dê ouvidos às garotinhas: 

 

Já havia se passado cerca de meio dia desde que fizemos aquele juramento.

"E, portanto, eu te sentencio a vinte mil anos de trabalhos forçados, seu pirralho maldito."

A policial ruiva se inclinou em minha direção, com um charuto preso entre os dentes. Havia um ar ogro em seu rosto.

O nome daquela ogra era Fuubi Kase.

Ela tinha me chamado, e foi por isso que eu estava no apartamento dela, na cobertura de um prédio alto. Mas...

"Isso não é justo. Eu não fiz nada."

Exatamente de que crime ela estava me acusando? Ela me empurrou até a grande janela com vista para as luzes da cidade, e eu retruquei como um pomerano nobre enfrentando um leão.

"Não fez nada? Ha! Não me faça rir." Ela nem sequer estava sorrindo. 

"Odeio ser a portadora de más notícias, Kimihiko Kimizuka, mas você é suspeito de violar o limite de velocidade numa motocicleta, de múltiplas infrações à Lei de Controle de Posse de Armas de Fogo e Espadas, agressão, lesão corporal e obstrução de uma oficial no exercício de suas funções."

Ela apontou para a própria bochecha direita, me lançando um olhar fulminante.

Na noite anterior, por razões que prefiro não entrar em detalhes, a Srta. Fuubi e eu havíamos nos enfrentado. Durante a luta, eu acertei um soco nela... Já fazia algum tempo desde então, mas aparentemente sua bochecha ainda estava inchada.

"Talvez, mas você também me fez passar por poucas e boas."

"E, ainda assim, você parece estar se sentindo ótimo."

Ela tinha razão. Seria essa uma resistência natural à dor, algo que desenvolvi por causa da minha predisposição? Até minhas costelas pareciam bem, e eu tinha certeza de que estavam quebradas.

"Com todas essas acusações adicionais, estou te condenando à prisão perpétua."

"Ei, espera! Quero um advogado! Eu tenho direitos!" Desesperado, olhei ao redor. Eu não era o único convocado para aquele lugar. Três das minhas  fiéis aliadas também estavam ali. 

"Ei, Natsunagi! Fala alguma coisa pra ela..."

"Uau! O banheiro é enorme! Olha isso, é uma Jacuzzi!"

Por alguma razão, vinda de algum lugar distante, especificamente do banheiro, ouvi vozes animadas.

"Nagisa, ensaboe-se e enxague primeiro."

Natsunagi estava tomando banho. Com Charlie.

(Nota do revisor=N/R: vai virar um Yuri 😮)

Você só pode estar brincando comigo. Que tipo de detetive não aparece quando seu assistente está em apuros? ...Embora eu conhecesse outra que também não o fez no ano passado.

"Francamente. Acho que não tenho outra escolha."

Quando Deus fecha uma porta, abre uma janela, como dizem. Uma garota me lançou uma tábua de salvação.

"Srta. Kase, será que a senhora poderia encontrar em seu coração perdão para o Kimizuka?"

Era Yui Saikawa, a super idol. Estava sentada sozinha à mesa, tomando uma caneca de leite. Normalmente, eu não recebia muito respeito dela. No entanto, pelo menos mentalmente, ela era a mais madura entre nós, e parecia que, só desta vez, tomaria o meu lado.

"Sim, ele te acertou. Mas ele não teve escolha. Fez isso por amor."

"Amor?" A Srta. Fuubi pareceu confusa. Eu também.

"Sim, por amor!"

Saikawa bateu na mesa e se levantou.

"Para o Kimizuka, a Siesta é absolutamente insubstituível. Não importa se você é uma detetive ou uma Tuner, ele vai te socar até a semana que vem por ela. Afinal, o Kimizuka ama a Siesta. Ele a ama com todo o seu coração!"

(N/R: quem não ama a Siesta né?)

"Quer morrer?!"

"Eeek! Kimizuka, você está assustador!"

Eu precisava dar um fim nessa garota, de qualquer jeito. Enquanto Saikawa fugia, jurei para mim mesmo que a perseguiria até o inferno, se fosse necessário.

"Ei, nada de brincar de pega-pega no apartamento dos outros. E parem de me usar como escada para o show de comédia de vocês."

"Chamei vocês aqui para dar um aviso."

Provavelmente tínhamos invertido a parte séria e a cômica, mas era assim que as coisas normalmente aconteciam por ali.

Estávamos os quatro sentados à mesa, ouvindo a Srta. Fuubi, que ocupava a cabeceira.

"Nagisa Natsunagi, Yui Saikawa, Charlotte Arisaka Anderson e Kimihiko Kimizuka. Vocês pretendem desafiar os Tuners e encontrar outra forma de derrotar Seed. Têm certeza de que é isso mesmo que querem fazer?" Seus olhos afiados nos examinaram um por um.

"Sim, é isso mesmo," respondeu Natsunagi. Ela olhava diretamente para a Srta. Fuubi, sem hesitar. 

"Não vamos permitir que você mate ninguém, e não deixaremos que ninguém seja sacrificado. Vamos todos sorrir juntos, e no fim, vamos vencer juntos. Esse é o nosso único objetivo e a nossa condição para a vitória."

Certo. Começamos nossa jornada naquela noite para realizar esse desejo.

"Hmpf..." A Srta. Fuubi resmungou, insatisfeita.

Nosso inimigo atual era a organização SPES e seu líder, Seed. Seed não havia conseguido se adaptar completamente ao ambiente terrestre e estava à procura de um receptáculo humano para possuir. A principal candidata era uma pessoa que possuía o poder de uma de suas "sementes", mas que não havia desenvolvido efeitos colaterais: Yui Saikawa.

Como uma Tuner que combatia os inimigos do mundo, a Srta. Fuubi havia tentado derrotar Seed indiretamente, unindo-se a sua subordinada Charlie para destruir o receptáculo, ou seja, matar Saikawa. Quando descobri o que ela estava tramando, lutei contra ela. Natsunagi  e depois Charlie, que teve uma mudança de coração, se uniram a mim.

“Dez dias.” Os olhos da Sr Fuubi percorreram o nosso grupo. 

“Vou dar um prazo de dez dias. Durante esse tempo, mostrem-me provas de que conseguem derrotar Seed. Esse é o melhor acordo que posso oferecer.”

“E se não conseguirmos?”

“Então eu mato aquela garota.” Ela olhou para Saikawa com um olhar frio.

“Kimizuka, eu estou com medo.” Ao meu lado, Saikawa apertou a manga da minha camisa. Ela era corajosa, mas a hostilidade aberta da assassina parecia tê-la intimidado.

“Vai ficar tudo bem. Vamos te proteger.”

“Deve ser porque ela está com inveja da minha juventude e de como sou preciosa, não acha?”

“Saikawa, pelo amor de Deus, não fala uma coisa dessas! Vai ser impossível te proteger assim!”

“E você também,  Kase. Ouvi dizer que você está chegando nos trinta, mas, se seguir uma boa rotina de cuidados com a pele e diminuir os estresses da vida, vai conseguir manter sua juventude por um bom tempo! Não desista!”

“Saikawaaaa!!!”

Eu me arrependo.

As veias nas têmporas da sr. Fuubi pareciam prestes a estourar, e eu coloquei a mão sobre a boca de Saikawa.

“Ainda assim, como vamos derrotar o Seed com apenas quatro pessoas?” Mudando para um tom mais sério, Charlie passou o dedo pelo queixo.

Ainda sabíamos quase nada sobre o líder da SPES. Ele era uma criatura parecida com uma planta que veio do espaço, e podia criar clones com habilidades especiais. Isso era tudo o que sabíamos sobre ele. No entanto…

“A melhor estratégia é perguntar a alguém que saiba mais sobre ele,” disse eu, sugerindo alguém que estava ausente. 

“Siesta.”

Os olhos de Charlie se arregalaram de surpresa. Enquanto isso, os da sr. Fuubi se estreitaram, como se tentasse entender as minhas intenções.

“Ela sempre foi do tipo que arranjava uma maneira de resolver os problemas antes que eles acontecessem. Deve estar fazendo seus próprios planos para derrotar o Seed.”

Como o legado da detetive, por exemplo, o que Charlie estava procurando naquele navio de cruzeiro, dez dias atrás. No fim, o “legado” éramos nós, mas o ponto era que Siesta nos deixara o que precisávamos para derrotar a SPES. Além disso, ela sempre foi uma pessoa muito cautelosa; não a via esperando que derrotássemos Seed e a SPES sem sequer uma dica.

“Então você acha que a Senhora deixou outro legado por aí? Não temos nenhuma informação sobre isso...” Charlie parecia cética.

Nesse caso, fui eu quem passou três anos com ela. Será que havia uma pista que só eu conseguiria perceber? Por exemplo, fomos a Singapura e ao Havai juntos, caçando tesouros secretos lendários.

Ou, mais recentemente, havia outro país que eu conhecia muito bem: a Inglaterra. Foi lá que encontramos Hel, um executivo de alto nível da SPES, e onde vivemos até partirmos para o nosso confronto final. Havia alguma pista lá, no lugar onde eu tinha as minhas memórias mais vivas com Siesta...?

“Ah, então é isso que isso significava?”

Lembrei-me do objeto no bolso esquerdo da minha jaqueta.

“Uma vez, quando Siesta e eu morávamos em Londres, a vi esconder algo apressadamente em uma gaveta de uma escrivaninha.”

Essa gaveta tinha uma fechadura, e era sólida o suficiente para que minhas habilidades de arrombamento de fechaduras não conseguissem abri-la. No entanto, enquanto eu tentava de tudo para descobrir o que havia naquela gaveta, Siesta me disse algo.

“Você vai ter que roubar essa chave de mim algum dia.” Com um sorriso desafiador, ela segurava sua chave mestra, uma das suas Sete Ferramentas, entre os dedos, balançando-a na minha direção.

“Ontem, SIESTA me deu isso.”

Tirei uma chave pequena do meu bolso e a mostrei a sr. Fuubi e aos outros. Era a chave que SIESTA me entregara após a batalha de ontem, antes de o helicóptero a levar para tratamento. Natsunagi herdara o mosquete dela, e eu havia recebido uma das Ferramentas da detetive de SIESTA também.

Agora que eu havia cumprido minha missão, Siesta queria que eu derrotasse a SPES. Se ela escolheu me dar essa chave agora, talvez isso significasse que havia algum legado escondido que nos ajudaria a derrotar a SPES e o Seed.

“Você quer dizer que o seu apartamento em Londres ainda está lá, sem uso?” Ms. Fuubi parecia perplexa.

“Bem, sim. Eles descontam o aluguel todo mês. Está matando minha conta bancária.”

“Então, por que não se mudar?”

“...Ah, bem...”

“Kase, por favor, não faça mais perguntas para ele!” Saikawa interveio. 

“Kimizuka não quer perder o ninho de amor que ele tinha com a Siesta!”

“Cala a boca! Saikawa, você está fazendo muitas piadas!”

“Não estou brincando,” murmurou Saikawa, mas ignorei.

“Então, estou pensando em ir a Londres amanhã.”

Decidi refazer os passos de Siesta, esperando encontrar alguma pista que nos ajudasse a derrotar, ou pelo menos a conhecer melhor, Seed.

“Eu vou também,” disse Natsunagi, do outro lado da mesa. 

“Afinal, cuidar do assistente dela é parte do trabalho de uma detetive.” Ela soava cansada com a ideia, mas ainda assim piscou para mim.

“...Sim, isso seria uma grande ajuda.” Com um sorriso de volta, aceitei sua oferta.

“Então, vocês dois façam isso. Quanto a vocês, Charlotte e Yui Saikawa, vão aprender maneiras de lutar contra o Seed.” 

A Sra. Fuubi olhou para Charlie e depois para Saikawa. Habilidades que permitiriam que elas enfrentassem o Seed... Pensando bem, nos últimos dias, Natsunagi havia adquirido o poder de Hel, e eu acabei ficando com o de Camaleão. A Sra. Fuubi estava tentando dar algo semelhante a Charlie e Saikawa, já que elas precisariam desses poderes para lutar.

“Primeiro, Charlotte, há uma tarefa que eu gostaria que você fizesse.” Ela nos lançou um sorriso significativo.

“Pode mandar!” Por algum motivo, Charlie disse isso como se fosse uma pergunta. Ela olhou para mim, e seus olhos estavam um pouco marejados... Entendo o que você está pensando, mas minhas mãos estão atadas. Desculpe.

“O problema é Yui Saikawa...” Os olhos da Sra. Fuubi se voltaram para a outra garota, e nesse momento...

“Deixe comigo.”

No instante seguinte, a grande janela atrás de nós se estilhaçou. Uma figura surgiu da noite e entrou na sala.

“Bat?” Um homem loiro, vestido de terno, estava lá, sorrindo para nós.

“Como ousa aparecer aqui.”

De pé, a Sra. Fuubi sacou sua arma e apontou para Bat.

“Ha-ha! O trabalho policial poderia ser um pouco mais criativo,” retrucou o intruso com preguiça, antes de se deixar cair no sofá. Outro dia, com a ajuda de Scarlet, ele havia escapado da segurança da Sra. Fuubi e quebrado a prisão.

“Você esqueceu por que eu te coloquei em liberdade condicional?” A Sra. Fuubi deu um olhar afiado para Bat. Pensando bem, eles haviam feito um acordo lá atrás, durante o incidente do Olho Safira. 

“Eu ia pedir para você vigiar Yui Saikawa, mas você me traiu.”

Ah, então era isso que ela estava tentando fazer... Mas enquanto a Sra. Fuubi tentava matar Saikawa por ela ser a candidata a receptáculo do Seed, Bat a havia traído e tentado fazer da garota sua aliada. Isso era o que eu havia visto acontecer no telhado da estação de TV.

“Ei, é por isso que estou aqui agora, oferecendo-me para entrar no seu time.” Bat não se importou nem um pouco com a arma apontada para ele. 

“Eu vou cuidar da garota safira.” Enquanto fazia sua proposta, seus olhos estavam fixos em Saikawa.

“Eu?” Saikawa olhou para ele, sem entender.

“Bat, você não desistiu disso?” Eu tinha certeza de que essas negociações tinham fracassado outro dia.

“Ha-ha! Meu objetivo e o seu eram os mesmos o tempo todo. E agora você está trabalhando com essa policial assustadora também, né? Nesse caso, acho que pode me deixar entrar.”

Ele devia ter ouvido nossa reunião estratégica de longe com aqueles ouvidos especiais. Bat tinha uma conta a acertar com o Seed e queria se juntar à equipe de subjugação da SPES.

“O que você pode fazer?” A Sra. Fuubi perguntou, guardando temporariamente a arma.

“Ativar aquele olho esquerdo.” Bat estreitou seus olhos turvos. 

“Como a garota safira, eu sou um humano com uma semente. Posso ajudá-la a usar esse olho melhor.”

Bat tinha sido um humano comum até colocar uma das sementes do Seed em si. Pelo que ouvimos, Saikawa tinha uma semente implantada cirurgicamente junto ao seu olho esquerdo, então as circunstâncias eram semelhantes.

“O que você diz, garota safira? Mesmo que vingança não seja sua praia, você vai lutar pelos seus amigos?” Bat perguntou, mudando o foco. 

Naquela noite, embora ela tivesse descoberto que a SPES havia tirado a vida de seus pais, Saikawa optou por não se vingar. Ainda assim, Bat sabia que seus companheiros significavam mais para ela do que qualquer coisa agora.

“Sim, eu vou! Tudo bem, Bat, me ajude!” Saikawa disse, concordando prontamente.

“Você realmente está de boa com isso?” Eu estava preparado para ela rir de mim por ser superprotetor, mas perguntei assim mesmo.

“Claro. Não vou ficar aqui só deixando os outros me protegerem. Quero ser forte o suficiente para proteger vocês também.” Saikawa sorriu, fazendo um sinal de paz para nós.

“Yui, obrigada.” Charlie se levantou e abraçou Saikawa por trás. Mais cedo, ela havia tentado matar a outra garota por ordem da Fuubi Kase, a Assassina. Agora, no entanto, parecia que as duas haviam se reconciliado.

“Charlie...”

“Yui...”

“Você pode fazer uma massagem nos meus pés?”

“Ah, sim.”

Correção: Aparentemente, ainda levaria um bom tempo para que Charlie pudesse olhar para Saikawa sem dificuldades.

“Ainda assim, acho que temos algo parecido com um plano por agora.” Inclinei-me para trás na cadeira e soltei um longo suspiro.

“Certo,” Natsunagi concordou. 

“Você e eu vamos para Londres procurar a pista que Siesta deixou sobre como derrotar o Seed. Yui e Charlie vão treinar para ficarem fortes o suficiente para enfrentá-lo.”

“Só para constar, Watson. Você tem certeza de que isso é o que você deveria estar fazendo?”

Eu já tinha praticamente decidido, mas nem todo mundo concordava. Bat parecia estar se divertindo bastante com seu cigarro enquanto continuava. “Quero dizer, olha. Tenho quase certeza de que ouvi um garoto gritando ontem que ele ia trazer a mulher que amava de volta à vida. Eu só pensei que seria isso que você ia tentar fazer a seguir.”

“Ghk… Não começa a me zoar também!”

Levantei-me de repente, batendo na mesa em protesto... Mas ele parecia nem um pouco preocupado. Apenas se acomodou no sofá. Droga, aqueles ouvidos dele realmente pegaram tudo o que eu disse ontem?

“Ha-ha! Não me entenda mal. Só estou perguntando se você tem certeza de que tem tempo para ficar brincando com o Seed. O que você mais quer é ressuscitar o Ace Detective, certo?” Bat deu um sorriso torto.

Ele tinha um ponto.

Sinceramente, em termos extremos, eu não me importava com Seed ou com a SPES. Mas o último desejo de Siesta havia sido um pedido para derrotar a SPES. Ela disse que éramos sua última esperança, e eu não podia ignorar isso. Além do mais...

“Não adianta trazer a Siesta de volta à vida se ela retornar a um mundo arruinado.” E foi por isso que eu lutaria contra a SPES. Eu derrubaria Seed.

Era só isso.

“Além disso, ressuscitar a Siesta vai exigir um milagre. Isso não vai acontecer de um dia para o outro.”

Trazer os mortos de volta à vida era uma ideia completamente absurda. Ainda assim, eu achava que podia acreditar nisso, pelo menos um pouco. O motivo era Scarlet, o vampiro que eu conheci ontem. Ele era um vampiro de verdade, com uma habilidade que desafiava a lógica: ele podia devolver a vida a humanos que haviam morrido.

Havia apenas um problema.

“Imaginei que você iria se interessar pelas habilidades do vampiro, mas acho que não é burro o suficiente pra tomar uma decisão precipitada só por causa daquilo.”

Provavelmente Bat e eu estávamos pensando na mesma coisa. Ele fez uma careta leve.

No telhado da estação de TV, vimos o Camaleão, de volta do inferno. Os “mortos-vivos” que o vampiro criava perdiam tudo, com exceção do que havia sido seu instinto mais forte em vida. Ninguém queria ressuscitar Siesta nesse estado. Mesmo que levasse tempo, teríamos que encontrar outro caminho.

“...Haaah. Talvez eu não devesse dizer isso, mas...”, a Sra. Fuubi interveio. Ela coçava a cabeça, parecendo desconfortável. 

“Já que vocês pretendem ir para Londres, tem alguém como nós lá. Se levarem essa questão até ela, talvez alguma coisa mude.”

“Uma Tuner?”

Os únicos Tuners que eu conhecia pessoalmente eram Siesta, a Detetive de Elite; Scarlet, o Vampiro; e Fuubi Kase, a Assassina. Pelo que me disseram, existiam doze ao todo. Quem seria a Tuner em Londres?

“A Oráculo.” A Sra. Fuubi me deu uma fotografia.

“Aquela garotinha conhece todos os futuros possíveis do mundo.”

 

A dez mil metros de altura, de novo.

“Carne ou peixe?”

Estávamos no ar, a dez mil metros de altitude. Em termos de frases que você costuma ver no início de livros como Inglês em Cinco Minutos por Dia, a pergunta que acabei de ouvir estava em segundo lugar. (O primeiro lugar vai para “Do you play tennis?”)

“Peixe,” respondi, lançando um olhar à minha companheira de viagem. 

“E você, Natsunagi?”

Ela parecia não ter ouvido a pergunta da comissária. Estava com os fones de ouvido e os olhos grudados no filme que passava na tela do seu assento.

“Desculpa interromper seu momento de vergonha com mais uma daquelas cenas de amor repentinas que todo filme estrangeiro parece ter, mas não ignore a comissária de bordo.”

“Eep!” Quando alcancei o fone e o puxei, Natsunagi levou um susto.

“O quê...? E-e-e-e-eu vou te matar duas vezes!”

“Isso não está no cardápio.” Corrigi o pedido para: “Dois peixes”, um para ela.

“...Kimizuka, por que você é tão idiota?” Após observar a comissária se afastar, Natsunagi me lançou um olhar cheio de ressentimento.

Estranho. Eu estava assumindo o papel de vilão porque achei que ela gostasse desse tipo.

“Escuta, Natsunagi. A gente se cansa de um santo em três dias, mas pode assistir a um vilão a vida inteira sem enjoar.”

“O quê, essa teoria veio daquele ditado de ‘se enjoa de uma beleza em três dias’ ou algo assim? Mesmo que eu não enjoe, eu vou te odiar, tá bom? Na verdade, eu já te odeio, Kimizuka!”

Natsunagi me lançou um olhar gélido.

Pouca gente sabe, mas o tipo mais difícil de enjoar é uma garota linda e extremamente complicada…

(N/R: como é Kkkkkk que é)

Não que eu vá dizer quem é, exatamente.

“Em outras palavras, o provérbio implica que quanto mais justo você for, mais dano você leva,” comentei.

“Esse é um provérbio horrível.”

 

“Ah, e no filme que você está assistindo, a protagonista tão devotada ao cara acaba tomando um tiro por ele e morrendo.”

“Você acabou de me dar o pior spoiler da história!” Natsunagi puxou os cabelos. Em seguida, soltou um grande suspiro e desligou a tela. 

“...Eu realmente te odeio, Kimizuka. Não tem nada de divertido estar com você.” Ela virou o rosto, me ignorando descaradamente.

Mas...

“Você pode dizer isso, mas ainda vamos passar pelo menos mais dez horas juntos,” falei. Ela olhava pela janela.

Estávamos a dez mil metros de altitude, num voo internacional para Londres. Como havíamos nos metido em uma confusão a caminho do aeroporto, perdemos o voo inicial e pegamos o seguinte. Ainda assim, estávamos avançando em direção ao nosso objetivo.

“Eu sei. Não vamos voltar ao Japão até encontrarmos o legado da Siesta e vermos a Oráculo.”

Exato. A Oráculo era uma das Tuners, e a única pessoa que talvez tivesse uma pista de como trazer Siesta de volta à vida.

Pensei na explicação que havíamos recebido no dia anterior.

“Uma oráculo?”

Franzi a testa diante da proposta da Sra. Fuubi. Ela mencionara essa pessoa enquanto discutíamos formas de ressuscitar Siesta. Mas eu tinha quase certeza de que...

“Siesta falou dela, não foi?” Saikawa falou antes que eu pudesse dizer algo mais.

Sim, quando Siesta nos contou sobre os Tuners pela primeira vez, “Oráculo” estava entre os nomes que ela mencionou, junto de posições como Vampiro e Assassino.

“É, é verdade. Nunca a conheci pessoalmente. Nem sei seu nome. Dizem que a Oráculo prevê tudo com sua clarividência.”

A essa altura, eu já tinha conhecido pseudohumanos e um vampiro, então não podia simplesmente dizer “Que absurdo” e descartar a ideia de precognição. Além disso, ouvimos que os Tuners eram pessoas escolhidas para proteger o mundo em tempos de crise. Isso tornava plausível a existência de uma verdadeira Oráculo, capaz de prever tais crises.

“Se existir um futuro onde a Detetive de Elite volte à vida, talvez a Oráculo possa mostrar como chegar até ele.”

“...Entendo. Então temos que pedir ajuda a ela, hmm?”

Meus olhos voltaram à fotografia. Era uma foto borrada, claramente tirada às escondidas. Nela aparecia uma garota com cabelos azul-claros e traços europeus.

Se ela era capaz de prever todas as possibilidades de futuro, talvez pudesse encontrar uma rota onde Siesta voltasse à vida. Um modo de realizar um milagre, algo diferente do método do vampiro.

“Então, se forem a Londres em busca do legado da Detetive de Elite, considerem encontrá-la também. A Oráculo pode ser a chave para revivê-la,” disse a Sra. Fuubi, num tom brusco.

Nossa viagem agora tinha um segundo objetivo.

“Uuh, uma viagem a sós com o Kimizuka... Isso não quer dizer que ele já escolheu a sua rota, Nagisa?” provocou Saikawa.

“Saikawa, não compare a vida das pessoas com um dating sim.”

“Yui, não importa quantas flags você acione, esse cara não tem coragem pra esse tipo de coisa. Ele simplesmente não tem.”

Natsunagi, não coloque a mão no peito e balance a cabeça em silêncio. E tire esse sorriso incrivelmente fotogênico do rosto.

“Bem, tanto faz. Desculpa, Saikawa, mas você precisa me emprestar dinheiro para chegar a Londres.”

“Hã? Como se alguma namorada fosse te emprestar dinheiro sabendo que você vai sair por aí com outra mulher.”

Essa idol, alguns anos mais nova do que eu, de repente me pareceu bem assustadora.

E quem é namorada de quem aqui?

“Bem feito. Ontem você me pediu em casamento e agora vai embora com outra garota. Que nojo.”

“Charlie, não vai falando essas coisas que confundem os outros! Quando foi que eu propus... ah... Eu propus, não foi? Agora que penso bem.”

Lembrando agora, eu realmente tinha dito algo assim durante a nossa briga com a Sra. Fuubi. Não era algo sério, claro, mas...

“Uau! O que é isso? Incrível... Meu sangue está literalmente fervendo de indignação. É impressionante!”

“Natsunagi, essa discrepância entre o seu humor e o que você está dizendo tá me dando medo.”

Eu realmente detestava essa ideia. Não queria, de jeito nenhum, ficar sozinho com a Natsunagi quando ela estava assim.

“...Então, como encontramos a Oráculo?” perguntei à Sra. Fuubi, tentando retomar o foco da conversa.

“Ah, sobre isso.” Ela parecia incomumente envergonhada. 

“Não sei bem como dizer isso, depois de ter sugerido isso e tudo, mas... dizem que ninguém jamais conseguiu encontrar a Oráculo.”

Ah, entendi.

Parece que o final pelo qual estou lutando não vai me entregar um milagre de mão beijada.

“Isso realmente me faz lembrar do passado.” No avião, deixei escapar o comentário.

“?” Natsunagi olhou, confusa.

“Só quis dizer que estive em um avião assim, há quatro anos.” Sozinho, com uma maleta misteriosa.

No entanto, a dez mil metros de altitude, eu não, nós  nos tornamos uma equipe.

“Entendo. Então foi aqui que você e a Siesta começaram,” disse Natsunagi. Ela observava as nuvens brancas passando pela janela.

“É. Foi uma baita coincidência... Ou melhor, acho que foi inevitável.”

Tudo tinha feito parte do plano dela. Foi assim que me vi lançado em três anos de aventuras deslumbrantes, graças à detetive sentada ao meu lado.

“Ah, Kimizuka. Esse é o olhar de alguém que está lembrando da ex-namorada.”

“O que você quer dizer com isso? Para com isso. E não fique segurando um espelho.”

Talvez fosse porque eu estivesse me perdendo nas lembranças daquele dia distante. No momento seguinte, e não era imaginação minha, ouvi claramente uma comissária de bordo que passava pela cabine dizer:

“Há um detetive a bordo?”

 

Não existem figurantes neste mundo.

Ao ouvir isso, minhas lembranças voltaram instantaneamente para aquele dia, quatro anos atrás. Aquele incidente, que acabaria sendo um sequestro arquitetado por Bat, foi justamente o que deu início à minha jornada pelo extraordinário.

“Minha tendência a me meter em encrenca está em plena forma hoje.”

Quem acreditaria que eu ouviria exatamente a mesma frase de quatro anos atrás, nas mesmas condições? Não consegui fazer nada enquanto o passado se desenrolava novamente diante de mim; eu não fazia ideia de como lidar com aquilo.

“Há um detetive a bordo?”  ouvi novamente, bem ao meu lado.

Cara, acho que não posso simplesmente ignorar isso, pensei. Levantei o olhar 

“...Espera. Você não é...?”

“Faz muito tempo, senhor. Obrigada por sua ajuda naquela ocasião.”

Seria possível uma sequência de coincidências tão grande assim? A mulher que havia me cumprimentado era exatamente a mesma comissária que veio até mim e Siesta para falar do sequestro, quatro anos atrás.

“Conseguimos sair daquele incidente em segurança, e foi tudo graças a você, à detetive e ao assistente dela.” A mulher sorriu; parecia estar nos seus vinte e tantos anos. 

“Na verdade, aquele foi meu primeiro voo. Receio que dei um verdadeiro vexame...” Ela parecia arrependida.

“Ah, bem, não se preocupe com isso.”

Agora que pensava, ela realmente tinha entrado em pânico quando Bat apareceu. Bem, fosse novata ou veterana, seria estranho qualquer ser humano ver algo assim e não surtar.

“Mas permita-me me apresentar. Meu nome é Olivia. É um prazer revê-lo, senhor Kimizuka.”

“Vocês são amigos, Kimizuka? ...Você é amigo de uma comissária de bordo?”

Natsunagi, que nunca tinha visto Olivia antes, parecia confusa. Além disso, o olhar duvidoso que lançou para mim parecia sugerir outra coisa.

“Não somos exatamente ‘amigos’. Só me envolvi num problema dela, há muito tempo. Não é o tipo de relação que mereça desconfiança.” E eu nem sei por que preciso me justificar.

“Agora que mencionou, senhor Kimizuka, você está com uma detetive diferente desta vez.”

“Você também vai puxar a conversa para direções aleatórias?!”

“Estão indo para Londres em lua de mel?”

“As comissárias sempre implicam assim com os passageiros...?”

E por que Natsunagi parece como se não estivesse realmente incomodada com esse comentário? Não me venha com esse “Eh-heh-heh!”

“Estamos indo a Londres buscar uma coisinha que esquecemos. E também há uma pessoa que precisamos encontrar, de qualquer forma... Embora eu nem saiba o nome dela.” Forcei um sorriso.

“Indo ao encontro de alguém cujo nome você nem sabe... Está em mais uma missão difícil, pelo visto.” Olivia sorriu com gentileza.

“E então? O que está acontecendo?”  perguntei, achando que já era hora de irmos direto ao assunto.

Segundo Olivia, havia um incidente em andamento a dez mil metros de altitude. E o que precisavam não era de um médico ou da polícia, e sim de um detetive. Seria o caso de humanos artificiais? Ou um vampiro? Ou talvez uma invasão alienígena?

Ah, cara, agora havia tantas opções a mais do que quatro anos atrás. Eu esperava pela resposta quando...

“Atenção, senhorita Mia Whitlock, do assento A20. Ao ouvir este anúncio, por favor, fale com a comissária mais próxima.”

O anúncio era repetido várias vezes, em japonês e inglês. Era o tipo de coisa que se ouve o tempo todo em aeroportos... mas eu jamais esperava escutar isso dentro do avião. Por que fazer um anúncio em vez de ir direto ao assento da passageira?

Ou será que...

“Ela desapareceu?” Olivia assentiu, com um sorriso sarcástico no rosto.

“Sim. Uma passageira que estava aqui no momento da decolagem simplesmente evaporou.”

Esse era o motivo por trás do estranho anúncio a bordo: Mia Whitlock havia desaparecido de um avião que cruzava os céus a dez mil metros de altura.

“Naturalmente, sempre checamos a lista de passageiros e nos certificamos de que todos estão a bordo antes da decolagem. No entanto, durante a distribuição das refeições, ficou evidente que uma passageira estava faltando.” Olivia levou a mão à testa, como se não soubesse o que fazer diante da situação.

“Mia Whitlock estava viajando sozinha?”  perguntou Natsunagi, inclinando-se sobre o meu assento para falar com Olivia.

“Não coloque a mão na minha coxa, não aproxime tanto o rosto, seu cabelo vai entrar na minha boca...” Forçado a inalar a fragrância adocicada do perfume de Natsunagi, permaneci imóvel e ouvi a conversa delas.

“Sim, ela parece estar sozinha. Cerca de uma hora após a decolagem, um dos tripulantes viu alguém com a descrição dela se afastando do assento.”

Entendi... Será que ela estava indo ao banheiro?

Então, em vez de voltar ao seu assento, ela simplesmente desapareceu.

“Vocês já procuraram pelo avião?”  perguntei, empurrando Natsunagi de volta para o lugar dela.

“Claro, olhamos por toda parte que conseguimos. No entanto, não conseguimos localizá-la.”

“E é por isso que estão pedindo por um detetive?” Nossa... talvez não fosse tão chamativo quanto o surgimento de um pseudohumano, mas isso ainda podia se revelar bem mais complicado do que eu imaginava. Enquanto eu suspirava diante da situação...

“Sim. Vi os seus nomes na lista de passageiros, então...”  disse Olivia, com os lábios pintados se curvando num sorriso.

“Ei. Então vocês estavam de olho na gente desde o início.”

Afundei no assento. Olivia podia até ter solicitado um detetive, mas na verdade já contava conosco desde o começo.

...Hmm? Espera aí. Algo naquela ideia me incomodava.

“Ei, o que acontece se vocês não encontrarem a passageira desaparecida?”

Antes que eu pudesse obter uma resposta, Natsunagi fez sua própria pergunta a Olivia.

A resposta dela foi:

“Bem, teremos que voltar ao Japão.”

“Por favor, não sorria ao dizer isso. Só... não sorria.”

Aparentemente, o primeiro problema que precisaríamos resolver não era encontrar o legado de Siesta ou conhecer o Oráculo. Era solucionar um mistério de sala trancada... a dez mil metros de altitude.

 

Um clichê de mistério

“Sinto cheiro de caso,” disse Natsunagi, com um olhar mais afiado do que realmente precisava.

“Bem provável que estejamos sentindo algum cheiro mesmo.”  comentei, fazendo uma careta.

Natsunagi me ignorou. Ela observava atentamente o espaço apertado.

Acertou quem pensou que estávamos no banheiro do avião... Não, por nenhum motivo estranho. Estávamos apenas fazendo uma investigação de campo.

“Hmm. Ainda assim, não vejo nada de anormal... E você?”  Natsunagi esticou a mão, tocando o teto, mas ele não parecia ter partes removíveis.

Claro, não havia garantias de que Mia Whitlock tivesse desaparecido daquele banheiro. Mas não havia muitos lugares no avião acessíveis a uma passageira comum, então esse era um forte candidato.

“Talvez ela tenha sido sugada pelo vaso sanitário.”  Eu sabia que não era a resposta certa, mas falei o que me veio à cabeça.

Quatro anos atrás, um incidente tinha ocorrido na minha escola. Diziam que, se batesse três vezes no terceiro boxe do banheiro às três da manhã, a senhorita Hanako te puxaria para dentro do vaso. Mas Siesta havia resolvido aquele caso brilhantemente.

“Ok, Kimizuka, se inclina aqui um segundo.”  disse Natsunagi, apontando para o vaso, como se quisesse me transformar em uma das vítimas da Hanako.

“Natsunagi, não use seu assistente como sacrifício humano. Eu nem tenho coragem de fazer minhas necessidades na frente dos outros.”  diferente da antiga detetive de cabelos brancos. “Aliás, Natsunagi, esse tipo de coisa no banheiro é bem a sua cara, né? Eu imaginei que você curtia esse tipo de coisa.”

“Não fale tão casualmente dos meus fetiches!  Quer dizer, não é um fetiche, mas mesmo assim!”

“Ah, entendi.”

“Não pare de me provocar do nada! Quer dizer, tudo bem parar, mas mesmo assim!”

Natsunagi agora se debatia, toda atrapalhada. Ignorando-a, revirei o local com cuidado, mas não havia nada que parecesse suspeito. Aquele lugar parecia mesmo um beco sem saída.

Saímos do banheiro e circulamos pela cabine em busca de alguma outra pista. Mas o avião não era tão grande assim, e não conseguíamos pensar em muitos lugares onde uma pessoa sem treinamento poderia se esconder. Aviões de longa distância tinham compartimentos de descanso para a tripulação, mas não vimos nenhum indício de que ela tivesse entrado em um deles.

“Onde mais ela poderia estar escondida...? Nos compartimentos de bagagem?”

Caminhei olhando para o bagageiro acima dos assentos. Quatro anos atrás, eu havia escondido o mosquete que Siesta me mandou contrabandear ali.

“Na verdade, por que Mia Whitlock precisaria se esconder?”  Natsunagi perguntou do nada. 

“Estamos tratando isso como um desaparecimento voluntário, mas... e se alguém a tivesse levado contra a vontade dela? Por exemplo.”

“Ela está sendo mantida prisioneira?” Natsunagi assentiu.

O culpado podia estar mantendo Mia Whitlock cativa em algum lugar. Decidimos manter essa possibilidade em mente também. Quando nos demos conta, já estávamos diante da cabine de comando, na parte frontal do avião.

“Foi aqui que tudo aconteceu da última vez.”

Do outro lado daquela pesada porta, eu havia conhecido Bat, e meus dias de luta contra a SPES tinham começado.

“Será que a SPES está envolvida desta vez também?”

“Com tantas coincidências já em jogo, não dá para descartar essa possibilidade.”

Peguei essa frase emprestada; na verdade, foi Natsunagi quem disse isso uma vez. Ela me advertira para não ser irresponsável e fatalista ao chamar tudo de “coincidência”. Precisávamos refletir sobre o que aquilo realmente significava.

Havia algo mais por trás daquele incidente. Um presságio. Enquanto eu ponderava sobre o que poderia ser, Natsunagi e eu retornamos aos nossos assentos.

“Parece que as peças estão começando a se encaixar, mas...”  cruzei os braços, tentando organizar mentalmente as informações e pistas que havíamos reunido até agora.

O legado de Siesta. Nossa busca pelo Oráculo. Minha jornada com a detetive. Uma comissária de bordo que eu reencontrei após quatro anos. A passageira desaparecida. Um mistério de sala trancada a dez mil metros de altitude. Confinamento. SPES. Coincidência e inevitabilidade.

Quanto a outras pistas possíveis... havia aquele comentário que ela tinha feito...

“Não entendo. Não entendo o que é que eu não entendo.”  resmunguei para mim mesmo, olhando para a refeição de bordo. A comida havia chegado enquanto estávamos fora dos assentos.

Quando pensei com mais calma, fazia muito tempo desde que eu me deparara com um enigma clássico tão difícil. Claro, quando algo envolvendo a SPES estava no meio, nada podia ser apenas um jogo.

De qualquer forma, meu cérebro já não estava tão afiado, e eu sentia que a resposta certa ainda estava muito longe. Massageando levemente as têmporas, olhei para o lado e...

“...Você tá mesmo aproveitando isso, hein.”

Natsunagi devorava a refeição de bordo como um jogador de rúgbi do ensino médio. Ela estava curtindo essa viagem com tudo o que tinha.

“Kimizuka, vai comer a sua?”  tendo acabado com a própria, ela começou a mirar a minha.

O quê, existe alguma regra de que a Detetive Principal tem que ser comilona?

“Se você disser que não aguenta mais nem uma garfada, suponho que posso abrir uma exceção e comer isso por você.”

“Olha, não tem nada de fofo nesse joguinho de difícil.”  Você é só uma colegial sublinhando o próprio fator gula.

“E-então quer dizer que, das outras vezes que faço charme, você acha fofo?”

“Se você tem consciência de que está só fazendo charme, isso quer dizer que está admitindo que às vezes amolece comigo também?”

“E-eu não fui tão longe! E nem disse aquilo de antes!”  Natsunagi tentava desesperadamente disfarçar a própria escorregada. Ótimo, agora o jogo estava empatado.

“Hã? O que foi essa pose de força com o braço?”  perguntei.

“Normalmente sou eu quem leva as zoeiras. Você é a única pessoa com quem consigo me sentir por cima.”

“O quê? Eu sou o fundo do poço?!”

“Bem, na verdade é mais como se você, eu e a Charlie estivéssemos disputando um campeonato longo e bagunçado por esse posto.”

“Ah, e a Yui tá acima da gente... Que tipo de hierarquia é essa?”

“O problema talvez seja que todos nós temos menos maturidade mental do que uma aluna do fundamental.” Mas esse era um problema realmente complicado, então parei de pensar nisso.

“Mais importante, o que a gente devia mesmo estar pensando agora é na passageira desaparecida.”

Tínhamos encontrado um certo número de pistas, mas a verdade ainda estava bem longe do nosso alcance.

“Os Dez Mandamentos de Knox,” murmurou Natsunagi, agora séria. Ela tinha acabado de devorar a minha refeição de bordo.

“Ei, não come isso. Era meu.”  Eu não entendia como ela conseguia manter uma expressão tão séria, mas não era como se fosse me contar.

“Os Dez Mandamentos de Knox foram propostos por um autor britânico de mistérios chamado Ronald Knox em 1928. São uma lista de dez regras que devem ser seguidas ao escrever romances de mistério.”

“Ah, sim, eu conheço. A ideia era que as soluções de enigmas precisam ser justas com os leitores... Mas o que tem isso?”

Claro, o próprio Knox publicou depois um livro que quebrou essas dez regras. Elas são apenas um padrão, mas... por que ela tinha mencionado isso agora?

“Bem, se enquadrarmos nosso mistério atual nesses termos, talvez consigamos enxergar algo novo.”

“...Não sei. Pode funcionar num romance policial comum, mas não sei se essas regras se aplicam às coisas em que a gente se mete.”

Por exemplo, duas das regras de Knox dizem: “Nenhuma explicação sobrenatural ou preternatural deve ser aceita” e “Não deve haver personagens enigmáticos com habilidades físicas extraordinárias.” Nós estamos enfrentando pseudohumanos, então infelizmente essas regras não cobrem nosso caso.

“Mas não é certeza que a SPES esteja envolvida desta vez, certo?”

“Bem... não é. Então você tá dizendo que devemos pensar em regras que se apliquem só pra esse caso?”

Dentre as dez regras, a que parecia mais útil para esse mistério de sala trancada era….

“‘Não é permitido mais de um compartimento ou passagem secreta.’” Dissemos isso em uníssono, e então trocamos olhares.

“Certo. Se invertermos essa regra...”

“É. Mesmo num avião, pode haver apenas um lugar onde alguém conseguiria se esconder.”

E esse compartimento secreto tinha que ser um lugar que Natsunagi e eu não conseguíamos acessar com facilidade.

Claro, nossa hipótese partia do princípio de que estávamos dentro de um enigma digno de um romance policial. Mas se esse princípio fosse, na verdade, uma pista que ajudaria a resolver esse caso...

“Kimizuka, eu entendi tudo,” disse Natsunagi. “Escuta só.” Ela apontou para mim.

“Quando você elimina tudo o que é impossível, o que sobra por mais improvável que pareça, deve ser a verdade!”

Com uma citação digna do grande detetive Holmes, ela me lançou um olhar triunfante.

“A propósito, Natsunagi, aquele romance policial era bom? Aquele da bolsa aos seus pés, todo marcado com post-its?”

“...Eu te odeio, Kimizuka.”

 

Esse futuro foi determinado num passado distante

“É chá de ervas. Cuidado, está quente.”

Com movimentos treinados, Olivia nos ofereceu xícaras. Os assentos onde Natsunagi e eu estávamos sentados eram tão macios quanto sofás.

“Então isso é a primeira classe...”  Eu estava acostumado a viajar de classe econômica, e só pela maciez dessas poltronas já dava pra sentir a diferença gritante.

“Aqueles assentos estavam desocupados desde o início, então fiquem à vontade.”  disse Olivia, sorrindo, de pé no corredor entre nós. Realmente não parecia haver mais nenhum passageiro na primeira classe além de nós dois.

“Tem certeza de que podemos mesmo usá-los?”  perguntou Natsunagi, com um olhar um pouco culpado enquanto despejava uma bebida caríssima num copo gelado sobre a mesinha lateral, e em seguida bebia tudo de um gole. Tanto faz a culpa por trocar de classe. Pelo menos toma o chá de ervas que ela acabou de te dar.

“Sim, eu pedi permissão. Além disso, talvez esse não seja o tipo de assunto para conversar na frente dos passageiros.” Olivia nos lançou um sorriso irônico. 

“E então? É verdade que vocês sabem onde está a senhorita Whitlock?” Seus olhos se estreitaram.

Depois que Natsunagi e eu havíamos descoberto a verdade, convocamos Olivia, e ela designou aqueles assentos como o local da nossa conversa.

“Claro. Viemos aqui justamente pra isso... Mas pode assumir a partir daqui, Natsunagi?”

“Uhum, com certeza.” Natsunagi esvaziou o segundo copo da sua bebida, e então:

“Foi você quem escondeu Mia Whitlock, não foi Srta. Olivia?” E que maneira foi essa de começar a conversa.

“Entendo.” Olivia assentiu levemente. 

“Eu adoraria contestar essa acusação, mas vamos ouvir sua teoria primeiro. Imagino que isso seja o procedimento padrão.” Ela incentivou Natsunagi a continuar, mantendo-se perfeitamente calma. 

“O que te levou a imaginar que eu prendi a senhorita Whitlock?”

“Porque essa era a única possibilidade restante,” respondeu Natsunagi. Já era algo que ela havia me dito. 

“Não importa onde no avião Kimizuka e eu procuramos, não conseguimos encontrá-la. Nesse caso, é lógico supor que ela foi escondida em um local onde amadores como nós jamais a encontrariam, não acha?”

“...Ah. Então você acha que houve a mão de uma profissional nisso.”

“Exato. Tenho certeza de que Mia Whitlock está sendo mantida em algum lugar inacessível para nós. Como, por exemplo, a cabine de comando... ou talvez o carrinho de refeições.” Os olhos de Natsunagi se moveram discretamente para o carrinho prateado ao lado de Olivia.

O carrinho era geralmente usado para servir bebidas e refeições, mas uma mulher magra provavelmente conseguiria se esconder dentro. Claro, não havia garantia de que ela estivesse lá, mas Olivia era parte da tripulação. Com sua ajuda, aquela “saída única” da sala trancada realmente existia naquele avião.

“Agora mesmo, Mia Whitlock está sob sua custódia, Olivia. Não é verdade?” Natsunagi confrontou a culpada com as provas de seu crime.

Na verdade, isso se encaixava em outro dos Dez Mandamentos de Knox: “O culpado deve ser mencionado na parte inicial da história.” E tudo começou quando Olivia perguntou se havia algum detetive no avião.

“...Hmm. Essa é uma teoria interessante.” Olivia fechou os olhos lentamente, assentindo em silêncio. “Mas que motivo eu teria para fazer algo assim? Por que eu sequestraria a senhorita Mia Whitlock? Ela é uma de nossas passageiras.”

Ela tinha um ponto. Ao resolver mistérios, uma dedução não era o suficiente. Como ela mesma disse, nossa teoria só se sustentaria se pudéssemos apresentar um motivo para o crime.

“Por que você aprisionou Mia Whitlock, uma passageira importante? Isso é simples.” Eu complementei a dedução de Natsunagi, como um bom assistente deve fazer.

“Hmm, tudo bem se eu disser essa parte também.”

“Natsunagi, me deixa brilhar de vez em quando.”

Tendo (decidido que) obtido a permissão de Natsunagi, expliquei tudo para Olivia.

“Porque Mia Whitlock é o Oráculo, uma dos doze Tuners que protegem o mundo.”

Os olhos de Olivia se estreitaram. “Oráculo? Do que você está falando?”

“Já é tarde demais pra fingir ignorância. Sabemos que você faz parte do time.”

Lembrei da nossa primeira conversa com Olivia naquele dia. Ela tinha me provocado sobre estar viajando com uma detetive diferente dessa vez... e também disse que decidiu contar conosco depois de ver o nome de Natsunagi na lista de passageiros. Conhecer a mim não era estranho, mas ela conhecer Natsunagi era suspeito. Mais do que isso, ela presumiu imediatamente que Natsunagi era uma detetive.

Ou seja, Olivia sabia demais sobre nós.

“Mas o que te faz ter certeza de que Mia Whitlock é esse tal ‘Oráculo’?”

“O fato de você ter criado esse enigma absurdo pra gente logo de cara.”

Olivia nos conhecia, e mesmo assim fingiu não saber quem éramos e nos apresentou esse problema. Claramente havia um motivo para isso, e seu objetivo provavelmente era impedir que nos encontrássemos com o Oráculo e completássemos nossa missão.

Lembrei do que a Srta. Fuubi dissera antes de sairmos do Japão, que ninguém jamais conhecia o Oráculo. Com isso em mente, não era nenhum salto de lógica ligar a passageira desaparecida ao Tuner.

“Você tem uma missão, e não podia deixar que encontrássemos Mia Whitlock. Isso significa que você a escondeu em algum lugar deste avião.”

Tinha que ser uma coincidência que minha tendência a me meter em encrenca nos tivesse colocado nesse voo. Como Natsunagi e eu perdemos nosso avião anterior, acabamos embarcando no mesmo voo que o Oráculo. No entanto, o Oráculo nunca conhecia ninguém pessoalmente. Havia a possibilidade de que a reconhecêssemos, então ela nos evitou e se escondeu, com a ajuda de Olivia, uma comissária de bordo.

“Entendo. Sim, isso realmente parece plausível. Contudo...” Olivia ainda não havia desistido de refutar nossa dedução. 

“Vocês devem ter percebido que a teoria de vocês contém uma grande inconsistência.”

...Ah, então ela percebeu. E aquela inconsistência podia destruir a base da nossa dedução.

“Se você não queria que encontrássemos o Oráculo, por que pediu que resolvêssemos esse mistério? É disso que está falando, certo?”

“Exatamente. Se, como a detetive afirma, fui eu quem causou esse incidente... não me parece lógico que eu mesma pedisse a vocês que o solucionassem.”

Claro, como comissária de bordo, não era estranho que Olivia tivesse nos explicado o problema. No entanto, se ela era a culpada, havia uma contradição em jogo. Seria uma situação bizarra, onde o criminoso convoca o detetive para resolver o próprio crime.

Dito isso, a detetive já tinha uma teoria para resolver essa contradição, e deixei que ela fosse a responsável por revelá-la.

“Por causa da sua missão, você fez de tudo para evitar que nos encontrássemos com o Oráculo,” disse Natsunagi, como se as intenções de Olivia fossem um livro aberto.

“Mas em algum lugar dentro de você, queria que nos encontrássemos com ela. Ou então, propôs esse enigma como um teste, torcendo para que fôssemos dignos de conhecê-la.”

Era por isso que ela havia pedido à detetive que resolvesse o caso. Era como um sequestro falso: mais do que ninguém, a própria culpada queria que o incidente fosse solucionado.

“...Trabalho brilhante.” Finalmente, com um leve sorriso, Olivia reconheceu nossa teoria.

“Correto. Fui eu quem levou a senhorita Mia Whitlock. Vocês deduziram com precisão tanto meu objetivo ao causar este incidente quanto a razão de eu ter pedido que vocês o resolvessem.”

“...Então quem é você?” Natsunagi fez a pergunta que nossa investigação anterior não conseguiu responder. 

“Entendemos que você não queria que encontrássemos o Oráculo. Mas por que está ajudando ela?”

Era claro que Olivia estava por trás de tudo... mas ela era apenas uma comissária de bordo. Por que teria feito isso?

Ela respondeu: “Eu pertenço a uma família que serve o Oráculo há gerações. De certa forma, sou sua serva.” Confessou sua identidade com elegância. 

“O Oráculo não recebe ninguém ativamente, nem mesmo outros Tuners. Então, quando alguém pede uma audiência com ela, sou eu quem faz a triagem.”

...Já suspeitava. Olivia havia nos pedido para resolver um enigma que ela mesma criou, justamente para julgar se Natsunagi e eu éramos dignos de uma audiência com sua senhora.

Quem escreveu o roteiro deste mistério foi a própria Olivia, e ela nos escalou como leitores que deveriam solucioná-lo. Por isso, só desta vez os Dez Mandamentos de Knox funcionaram. Se ela era tão equilibrada e racional, seu desespero ao ver o Bat provavelmente foi só uma encenação.

“Então esse era um teste para ver se poderíamos conhecer o Oráculo.”

“Sim. Ou talvez eu simplesmente esperasse que fosse assim.” Pegando a palavra que Natsunagi usara, Olivia fechou os olhos silenciosamente.

Ela devia querer dizer que esperava que fôssemos dignos de conhecer o Oráculo. Sua senhora supostamente era impossível de ser encontrada, e ainda assim ela queria que superássemos as probabilidades.

“Existe algum futuro que você gostaria de mudar?” Natsunagi perguntou.

Soou como se tivesse percebido algo.

Ela estava perguntando se Olivia tentava trair sua senhora, uma garota que supostamente sabia de todos os futuros possíveis. Assim como uma certa criada de cabelos brancos que estava disposta a trair sua senhora — desde que fosse pelo bem dela.

“Bem, receio que já conversamos demais. Preciso voltar aos meus deveres.” Lentamente, abrindo os olhos de novo, Olivia se virou para sair, sem responder à pergunta de Natsunagi. 

“Por favor, guardem esses assentos. Ainda temos muito caminho até o nosso destino.”

“Espera aí. Isso é uma oferta muito gentil, mas o mais importante, isso significa que não vamos conhecer o Oráculo afinal?” Eu simplesmente tinha assumido que iríamos, agora que passamos no teste.

Olivia riu. “Pessoalmente, eu gostaria que conhecessem, mas... se vão conhecer o Oráculo ou não, só Deus sabe.”

Colocando o rosto bem perto do meu, Olivia sorriu um sorriso encantador e muito maduro.

 

Fim da comédia romântica

Mais de dez horas depois, nosso avião pousou sem mais problemas, e chegamos ao hotel de Londres onde passaríamos a noite. Fizemos o check-in e levamos nossas malas até o quarto.

“E então? Por que estamos num hotel?” Longe de comemorar nossa chegada segura, Natsunagi me lançou um olhar insatisfeito. 

“Não íamos para o seu ninho de amor com a Siesta, Kimizuka?”

Como sempre digo, não é um ninho de amor. Mesmo assim, como Natsunagi disse, originalmente planejamos ir para aquele apartamento quando chegássemos a Londres. Assim economizaríamos com hotel. O problema era...

“Não faria muito sentido sem a chave.” Eu revirei os bolsos vazios.

“Haaa... Coisas assim normalmente não são roubadas, né?”

“Eu não sou normal; por isso provavelmente aconteceu comigo.” Essa é a maldição com que nasci. Minha mania de me meter em encrenca.

Quando saímos do aeroporto, seguimos para o apartamento da Siesta. No meio do caminho, percebi que minha carteira havia sumido. A chave mestra, aquela importantíssima, estava dentro dela. Depois desse tropeço logo no começo, decidimos nos basear temporariamente nesse hotel.

“Mesmo assim, quem pegou a carteira foi muito bom. Já me deparei com batedores de carteira por anos, então precisa de algo mais que habilidade média para roubar algo de mim.”

“Você realmente está acostumado a umas coisas desagradáveis... Então, o que vamos fazer agora?”

“Registramos um boletim de ocorrência, mas duvido que encontrem a carteira tão cedo.”

“Então e agora? Vamos arrombar a porta com uma furadeira?”

“Não destrua nosso ninho de amor!”

“Poxa, até você já está dizendo isso agora.” Calma, eu estava brincando.

“Temos outro objetivo além de procurar o legado da Siesta: conhecer o Oráculo. Por que não focamos nisso agora?”

Claro, se parecia que não encontraríamos a chave mestra, como Natsunagi disse, provavelmente teríamos que invadir a casa e arrombar a gaveta. Minha única preocupação era que a Siesta poderia ter colocado uma bomba para explodir se não abríssemos tudo do jeito certo...

“O Oráculo, hein? Ela acha que está com a gente na mão, não é?” Natsunagi resmungou. Depois, frustrada, soltou um “Argh!” e se jogou na cama.

“Você está me dizendo onde gostaria de ser beijada pela pessoa de quem gosta?”

“Não era fetiche!” Não era, hein?

Na cama, Natsunagi deitou de barriga para baixo e chutou as pernas impacientemente, descontando seu mau humor. Eu continuava pegando uns vislumbres da calcinha dela, mas apontar isso causaria mais problema do que valia, então apenas fiquei quieto e olhei.

“...Talvez no pescoço.”

"Olha, eu não faço ideia de como reagir se você realmente responder a essa pergunta."

Além de tudo, o ataque tinha sido bem intenso... e com atraso. Ela me pegou direitinho.

"Foi você quem perguntou, Kimizuka."

Natsunagi se levantou, sentou-se na cama com as pernas abertas em um V e fez bico pra mim.

"Não era isso. O que eu queria dizer é que a Oráculo zombou da gente, e eu não tô nada bem com isso."

É. Primeiro, tivemos que brincar de adivinhação com aquele enigma, e no fim nem pudemos encontrá-la. Aparentemente, Natsunagi não tinha gostado nem um pouco disso... Mas:

"Bom, a Srta. Fuubi também é uma Tuner, e nem ela conseguiu encontrar a Oráculo. Seria estranho se fosse tão fácil pra gente assim."

Na verdade, dava até pra dizer que o fato de termos nos conectado com ela de alguma forma já era um bom começo... embora aquilo não tivesse sido coincidência, e sim obra da sua serva, Olivia.

"Por enquanto, vamos dar um passo de cada vez. Da próxima vez, a gente chega até a Oráculo por conta própria. E vamos fazer com que ela encontre um futuro onde a Siesta esteja viva."

Não dava pra saber se esse futuro realmente existia. Meu desejo era algo quase impossível, mas mesmo assim, falei com firmeza. Assim como tinha jurado sob aquele sol nascente.

"Então me ajuda, Detetive Estrela. Continua me ajudando a trazer a Siesta de volta."

"...Acho que vou ter que ajudar." Natsunagi parecia ter se acalmado um pouco. Ela esboçou um leve sorriso.

"Se você aceitar uma detetive substituta, eu aceito o trabalho."

Ela parecia estar ecoando a promessa que eu fiz pra ela naquela sala de aula, depois das aulas. Na época, eu disse que ajudaria a encontrar o antigo dono do coração dela como assistente, não como detetive. E agora, eu tinha certeza de que o que Natsunagi mais queria não era se tornar a Detetive Estrela... mas recuperar a Siesta.

"Por enquanto, vamos bolar um jeito de encontrar a Oráculo?"

"Boa ideia. Ah, mas primeiro, quero tomar um banho... Dá uma saída rapidinha?" Natsunagi tentou me expulsar do quarto.

"Mas esse quarto também é meu."

"S-seu quarto? O quê? Por quê?! Você não pegou quartos separados?!"

"Todos os outros hotéis estavam lotados. Até aqui, esse era o único quarto disponível. Aguenta firme, tá?"

"Se não for pelo menos um quarto com duas camas, eu não consigo!"

"Tá tudo bem. Isso não me incomoda tanto assim."

"Incomoda! A mim!"

Por algum motivo, provavelmente raiva, o rosto da Natsunagi ficou vermelho como um tomate, e ela começou a pular na cama de casal, mesmo com as pernas ainda abertas pros lados.

"A gente tava morando sob o mesmo teto até outro dia."

"Aquilo era completamente diferente! E agora somos só nós dois!"

"Fica tranquila. Eu não vou fazer nada daquilo que você tá imaginando."

"! P-por que você está tão decidido a não deixar nada assim acontecer comigo?!"

"Decide logo se você quer que aconteça ou não?"

"Eu fico irritada porque você nem me vê como uma garota!"

Aparentemente, o coração de uma garota de dezoito anos era um negócio bem complicado. Natsunagi se jogou de costas no edredom, exatamente onde eu ia dormir depois. Eu só queria que ela não amassasse as cobertas daquele jeito.

"...O que é isso? Você realmente me odeia de verdade, Kimizuka?"

"Por que você faz perguntas que vão me fazer perder a cabeça se eu errar a resposta só um pouquinho?"

Será que a autoestima da Natsunagi sempre foi tão baixa? Com um sorriso meio sem graça, abri a porta do armário pra pendurar minha jaqueta. E aí eu vi o livro.

"Oh... É por isso que eu não consigo?" Natsunagi murmurou. 

"Eu sempre me deixo levar pela emoção. A Siesta não fazia isso. A diferença no nível de afeto quer dizer..."

Ela parecia estar fazendo uma espécie de sessão de análise sentimental. Acho que isso é saudável.

Mas provavelmente essa era minha chance de restaurar a moral dela.

Fosse qual fosse o futuro que nos esperava, eu tinha certeza de que ele nos surpreenderia.

"Natsunagi, reconhece isso?" Tirando o livro do armário, eu o estendi pra ela.

"Hã? Isso é..." Os olhos de Natsunagi se arregalaram. Ela tinha compartilhado algumas memórias com Hel e sabia o que aquilo era.

A gente tinha lutado por esse livro em Londres no ano passado.

"É, não há dúvida. É o texto sagrado."


Treinamento da charlotte

“...! Haah. Faltam quatro agora...”

Recostei-me contra a parede do beco e depois deslizei até o chão, tentando controlar a respiração. Um rapaz de cabelos longos estava caído ao meu lado — um sobrevivente da SPES. Se eu tivesse dado a ele a menor abertura, era eu quem estaria estendida ali agora.

“Então você finalmente acabou com eles, hein?”

Ouvi passos ecoando e, em seguida, uma voz feminina surpreendentemente rouca se aproximou.

“Você podia lutar com mais eficiência, no entanto.”

Enquanto fumava seu cigarro, ela começou a criticar a luta que eu acabara de travar.

“Então me ensina como, Fuubi.” Sentada no concreto, abraçando os joelhos, lancei um olhar furioso para minha chefe ruiva, extremamente arrogante.

Desde que Kimizuka e Nagisa partiram para Londres, eu vinha passando por um treinamento de combate real sob a direção dela. Mas tudo que ela fazia era apontar defeitos, aparentemente, não tinha a menor intenção de me dar uma instrução adequada.

“Espera aí... você não tinha parado de fumar?”

“Parar? Ah, é, parei sim.” Mesmo dizendo isso, Fuubi tragava o cigarro com a mesma desfaçatez de uma estrela de cinema japonês antiga... Isso é incrivelmente irritante.

“Pelo menos me ajuda. Tá planejando só assistir sua subordinada morrer?”  protestei, levantando-me e confiscando todos os seus cigarros.

Os membros da SPES com quem estávamos lutando agora eram como o Bat: humanos com sementes implantadas. Claro, não eram tão fortes quanto um puro-sangue como o Camaleão, e o próprio Bat provavelmente os superava. Ainda assim, não eram inimigos com os quais eu pudesse ser descuidada.

Fuubi me lançou um olhar cortante.
“O que você está dizendo, Charlotte? Esse tem sido o seu trabalho no último ano.”

...Ela estava certa. Eliminar sobreviventes da SPES era minha missão há um ano, desde que a Chefe morreu. Era a “divisão de papéis” de que ela havia falado.

Minhas habilidades de combate eram boas, então eu cuidava da luta. Kimizuka era inteligente e resolvia problemas com conhecimento e decisões rápidas. A Chefe sempre quis que trabalhássemos juntos dessa forma.

“E ainda assim aquele cara...”

Kimizuka passara o ano inteiro desde que perdemos a Chefe vivendo uma rotina morna. Só de lembrar já me dava raiva de novo... Mas balancei a cabeça. Não era hora pra isso.

“Mas existe algum sentido em caçar esses sobreviventes? Não seria melhor encontrar uma forma de derrotar a Semente diretamente?”

Claro, Nagisa e Kimizuka provavelmente estavam buscando exatamente isso agora.

“Estamos apagando os outros candidatos a receptáculo dele.” Fuubi se recostou na parede, cruzando os braços. 

“Yui Saikawa está definitivamente no topo da lista dele, mas não podemos garantir que ele não vá usar outros humanos com sementes implantadas como receptáculos temporários. É melhor eliminá-los agora.”

Olhei para o membro da SPES contra quem havia acabado de lutar. Então havia o risco de que aquele cara no chão fosse usado como receptáculo da Semente também. Ela estava me dizendo que era minha responsabilidade eliminar essa possibilidade.

...Era verdade, isso era algo que só eu podia fazer. Kimizuka era uma coisa, mas tanto Nagisa quanto Yui eram bondosas demais. Era melhor que qualquer assassinato direto ficasse por minha conta.

“Mas então... o Kimizuka está seguro? Ele também tem uma semente.”

Ele engolira a semente do Camaleão impulsivamente, forçando-a a se fixar nele. Nesse caso, existia pelo menos a possibilidade de que fosse escolhido como receptáculo da Semente.

“Ha! Ele provavelmente adoraria que você matasse ele,” murmurou Fuubi.

Não consegui dizer se ela estava brincando ou falando sério...

Mas se Kimizuka realmente fosse escolhido como receptáculo... Ou se a semente tomasse o controle de sua mente ou corpo, transformando-o em um monstro como o Camaleão... Se isso acontecesse, eu….

“É isso que estou te dizendo, Charlotte Arisaka Anderson.”

No instante seguinte, a adaga de Fuubi passou rente à minha bochecha.

Ao me virar às pressas, vi que um tentáculo havia crescido das costas do homem que eu achava inconsciente. A faca lançada por Fuubi o cortou em dois com precisão. Em seguida, ela se aproximou do sobrevivente da SPES e o executou com um tiro impiedoso.

“Você sentiu pena dele? Seu trabalho é destruir o inimigo.” Ela se virou para mim com olhos tão afiados quanto os de um falcão. “Ninguém precisa dessa gentileza. Livre-se dela. Jogue fora sua suavidade. Não deixe a piedade te tornar descuidada. Kimihiko Kimizuka, Nagisa Natsunagi, Yui Saikawa, nenhum deles pode fazer isso. Você pode. Se quer fazer parte do grupo deles, então pelo menos faça o que eles não conseguem.”

...Ela estava certa. Aquele incidente anterior com certeza não tinha ganhado a aprovação da Fuubi. E era provável que ela nunca fosse aceitar que eu agisse com ingenuidade.

“Se pegar uma arma, atire. Se sacar uma espada, golpeie. Quando a batalha começa, só termina quando alguém morre. Seja impiedosa ao julgar o que pode e o que não pode proteger. Mesmo que isso signifique fazer do mundo inteiro seu inimigo.” Fuubi estreitou os olhos.

“Então não é possível proteger tudo?”

“Diga isso depois de ficar forte o suficiente para conseguir.”

...De novo, ela tinha razão. Eu nem conseguia vencê-la numa discussão.

Ainda assim, sua convicção era real. Ela havia abandonado a cooperação, não confiava em ninguém, e vivia apenas pela missão em que acreditava. Seu papel como Tuner era o de Assassina, alguém que quase sempre trabalhava sozinha, e ela vinha protegendo o mundo das sombras sabe-se lá há quanto tempo.

“Escuta, por que está nos ajudando a eliminar a SPES?”

Dado tudo isso, uma pergunta começou a me inquietar. Ela nunca apoiava ninguém. Então por que ainda ajudava com a missão que a Chefe deixou incompleta?

“Pelo mesmo motivo que você.” Ao falar, Fuubi acendeu um cigarro que conseguiu surrupiar de volta de mim. 

“Eu também não consegui matar aquela coisa.”

Então, exalando a fumaça, ela começou a falar sobre seu passado, com uma franqueza inesperada.

A “coisa” que ela mencionara só podia ser a antiga Detetive de Elite. Cinco anos atrás, a organização da qual eu fazia parte me ordenara assassinar a Chefe.

“Naquela época, ela tinha acabado de fugir de uma instalação da SPES. Como Assassina, recebi ordens de eliminá-la.”

“Quer dizer que era uma missão dos Tuner? Por que os chefões tomariam essa decisão?”

“Nós já sabíamos que aquela coisa era um dos possíveis receptáculos da Semente. Provavelmente queriam derrotar a Semente de forma indireta, cortando o mal pela raiz, por assim dizer.”

...Entendi. Então, com a Chefe, eles haviam tentado a mesma jogada que tentaram agora com Yui.

“Mas ela sobreviveu.” Fuubi observava a fumaça do cigarro subir em espirais até o céu. 

“Eu a persegui até os confins da Terra, o fundo do mar, o topo do céu. Mas ela correu e correu, lançou alguns contra-ataques sólidos e escapou completamente. ‘Não pretendo morrer antes de cumprir minha missão, mesmo que leve um míssil’, ela me disse. Estava com aquele sorriso irritante no rosto.”

Mesmo ao dizer isso, a expressão de Fuubi suavizou levemente.

“Depois de escapar brilhantemente da Assassina, ela foi transformada em uma Tuner, em parte porque reconheceram suas habilidades. Depois disso, a tarefa de destruir a SPES foi oficialmente passada à Detetive de Elite.”

O tom de Fuubi mudou de novo, agora soando mais rabugento.

“‘Roubar o trabalho dos outros, né?’”  resmungou. Mas a rabugice parecia um pouco encenada.

Depois de ouvir tudo aquilo, tive uma pergunta inevitável:

“Você realmente deu tudo de si e mesmo assim não conseguiu matar a Chefe?”

Cinco anos atrás, eu era muito menos experiente do que sou agora, mas Fuubi já era famosa no submundo como a Assassina. Ela havia mesmo falhado repetidamente em sua missão?

Será que essa mulher havia percebido algo em Siesta, assim como eu percebi? Seria por isso que ela sempre deixava que ela escapasse?

Quando perguntei, Fuubi respondeu:

“Admito que pensei: ‘Huh! Garota interessante.’”

Com esse comentário inusitadamente leve, ela encerrou a conversa.

“Certo. Já desperdiçamos tempo demais conversando.” Ela apagou o cigarro em seu cinzeiro portátil.

“Preciso sair pra resolver um negócio, mas você continua com sua parte.”

Ou seja: continue caçando os sobreviventes da SPES. Ela se virou para ir embora.

“Esse ‘negócio’ é uma convocação da cúpula? Do Conselho Federal?”

Foi por impulso que gritei a pergunta atrás dela.

Poderia ser uma repreensão, já que subjugar a SPES era dever da Detetive de Elite, e Fuubi estava ajudando sem permissão. Ou talvez fosse o contrário. Mesmo como Assassina, ela poderia ter sido encarregada de concluir a missão que a Detetive deixara inacabada. Talvez fossem interrogá-la por não ter matado Yui Saikawa.

“Convocação? Não.” Fuubi fez uma breve pausa.

“Só estou indo pra uma briguinha.”  murmurou de forma desafiadora, jogando o casaco sobre o ombro direito.

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora