Ano 3 - Volume 4
Capítulo 1: Teste de Coleta de Tokens Especiais
A VOZ DE MASHIMA-SENSEI ecoou pela praia com uma tranquilidade que transmitia um senso definitivo de encerramento.
— Com efeito imediato, iniciaremos agora o Exame Especial da Ilha Desabitada.
Os alunos, já exaustos após o Jogo de Sobrevivência, ainda tentavam processar o que acabavam de ouvir. No entanto, Mashima-sensei não demonstrou a menor intenção de esperar que todos compreendessem a situação. Como se ignorasse completamente a confusão que se espalhava pelo grupo, ele continuou sua explicação sem hesitar.
Justamente quando todos acreditavam que o exame da ilha finalmente havia terminado, outro exame especial foi colocado em andamento de forma repentina. Então o Jogo de Sobrevivência realizado anteriormente tinha sido apenas o prólogo, e esta era a segunda fase?
Claro, também existia a possibilidade de que esta nova etapa fosse apenas a parte intermediária de uma provação ainda maior que os aguardava. Mas, considerando o estado em que alguns alunos já se encontravam, obrigá-los a enfrentar três fases consecutivas parecia irrealista.
De qualquer forma, a situação era severa. Enquanto isso, o sol já começava a se aproximar do horizonte. Eram quase cinco horas da tarde. Os alunos do terceiro ano já haviam passado por inúmeros exames especiais e desenvolvido certa resistência à imprevisibilidade da escola. Ainda assim, não conseguiam esconder a confusão. Aquilo era diferente de tudo o que haviam enfrentado antes.
— Droga, eles vão mesmo começar outro exame especial agora? — murmurou Hashimoto ao meu lado com uma risada tensa. — Yamamura e Shiraishi já estão por um fio.
Seu tom carregava um traço de simpatia, mas a escola não dava qualquer sinal de reconsiderar sua decisão.
— O exame especial que começa agora — continuou Mashima-sensei — consistirá em dez grupos, cada um contendo dezesseis alunos. A cada grupo será designado um supervisor adulto, responsável por fornecer instruções quando necessário. Espera-se que todos obedeçam ao supervisor em todos os momentos. Como vocês já sabem, devido ao número de alunos expulsos até agora, alguns grupos inevitavelmente começarão com menos membros do que outros. No entanto, foram feitos ajustes para garantir que diferenças no tamanho dos grupos não gerem vantagens nem desvantagens.
Dezesseis alunos por grupo. Se essa era a estrutura básica, então era improvável que se tratasse de um exame simples entre turmas. Como se estivesse confirmando exatamente essa suspeita, as palavras seguintes de Mashima-sensei revelaram mais uma camada da situação.
— As bebidas engarrafadas que vocês foram instruídos a pegar ao desembarcarem podem ter parecido estranhas para alguns. Essas garrafas são a chave para determinar seus grupos.
Imediatamente, os alunos começaram a olhar para as garrafas plásticas que seguravam nas mãos.
— Existem cinco cores diferentes de rótulo — explicou ele. — Vermelho, azul, verde, amarelo e roxo. Foi preparada uma quantidade suficiente para cada turma, e os ajustes e orientações necessários foram realizados para garantir que todos recebessem uma.
Baixei o olhar para a garrafa de água mineral que carregava desde que deixara o navio.
Ela tinha um rótulo azul. Hashimoto, ao meu lado, segurava uma garrafa com rótulo roxo. Pelo menos uma coisa estava confirmada: nós dois não acabaríamos no mesmo grupo. No entanto, havia apenas cinco cores. Isso, por si só, não era suficiente para dividir todos em dez grupos distintos.
O que significava que havia outra etapa oculta no processo de seleção. Remover o rótulo apenas criaria lixo. Em uma ilha como aquela, uma simples rajada de vento poderia carregá-lo diretamente para o oceano. A escola não utilizaria um método tão descuidado. Se quisessem uma forma mais limpa e simples de adicionar outro fator aleatório, havia uma resposta óbvia.
A tampa. Sem dizer uma palavra, desenrosquei a tampa da garrafa e examinei sua parte interna. Um segundo depois, Hashimoto percebeu o que eu estava fazendo e verificou a dele também.
— Não há nada na minha tampa — falei em voz baixa. — E na sua?
— A minha tem uma marca — respondeu Hashimoto imediatamente. — Uma linha preta.
Como se estivesse esperando exatamente por isso, Mashima-sensei retomou sua explicação pelo microfone.
— Gostaria que todos retirassem as tampas de suas garrafas e examinassem cuidadosamente a parte interna.
Ao nosso redor, o som de tampas plásticas sendo desenroscadas espalhou-se pela multidão em ondas irregulares.
— Existem dois tipos de tampa preparados para este exame — continuou ele. — Tampas simples, sem qualquer marcação, e tampas marcadas com uma única linha preta. Os alunos que possuírem rótulos vermelhos e tampas sem marcação pertencerão ao Grupo 1, enquanto aqueles com rótulos vermelhos e tampas marcadas pertencerão ao Grupo 2. Assim serão definidos os grupos de vocês.
Ele prosseguiu sem pausa pelas demais combinações. Rótulos azuis correspondiam aos Grupos 3 e 4. Verdes aos Grupos 5 e 6. Amarelos aos Grupos 7 e 8. E roxos aos Grupos 9 e 10.
Também foi explicado que apenas o Grupo 10 começaria com menos de dezesseis membros. Hashimoto lançou mais um olhar para seu rótulo roxo.
— Então fiquei preso no Grupo 10, o menor deles, é? E você está no Grupo 3... — Ele observou lentamente os alunos ao nosso redor. — Mesmo assim, não tem a menor chance de descobrir quem caiu em qual grupo daqui.
Mesmo que alguém conseguisse identificar a cor do rótulo da garrafa de outro aluno à distância, enxergar a pequena linha preta escondida sob a tampa era outra história. Até que todos se reunissem fisicamente com seus respectivos grupos, ninguém poderia saber com certeza quem seriam seus companheiros.
O que provavelmente era intencional.
Se as atribuições dos grupos fossem fáceis demais de identificar, os alunos poderiam tentar trocar as garrafas antecipadamente. A escola claramente havia considerado essa possibilidade desde o início. Ainda assim, a identidade dos futuros companheiros de equipe era algo que inevitavelmente descobriríamos em breve. Especular sobre isso agora era inútil.
Mais importante era compreender as regras do exame em si. Na verdade, Mashima-sensei e os demais professores já estavam avançando para a próxima etapa sem perder tempo.
— Agora, explicarei os detalhes deste exame especial. Para auxiliar na compreensão de todos, documentos resumindo as regras e a estrutura do exame serão distribuídos neste momento. Leiam-nos com atenção.
Após uma breve pausa, os professores começaram a caminhar entre os alunos, distribuindo os materiais um a um. O documento, composto por várias páginas, vinha acompanhado de mapas detalhados da ilha. Pequenos anéis plásticos prendiam os cantos das folhas, provavelmente para evitar que fossem levadas pelo vento.
Quando os documentos chegaram às minhas mãos, Mashima-sensei retomou a explicação.
— Vocês se dividirão em seus respectivos grupos e enfrentarão diversos desafios espalhados pela ilha. Com base em seus resultados, receberão recompensas conhecidas como "tokens". A coleta desses tokens constituirá o principal objetivo do exame. Além disso, um aluno de cada turma já foi selecionado por seu professor responsável para atuar como líder da classe. Embora os resultados do Exame Especial Jogo de Sobrevivência tenham provocado mudanças provisórias na classificação das turmas, essas posições permanecerão não oficiais até o fim do mês. Portanto, para os propósitos deste exame, as designações atuais das turmas permanecerão inalteradas.
Ele fez uma breve pausa antes de anunciar os nomes.
— Para a Classe A: Horikita Suzune. Para a Classe B: Ryuen Kakeru. Para a Classe C: Ayanokoji Kiyotaka. E para a Classe D: Ichinose Honami. Esses alunos servirão como líderes de suas respectivas turmas.
Enquanto sua voz ecoava pela praia, baixei o olhar para os documentos em minhas mãos.
Exame Especial de Coleta de Tokens
Visão Geral: Durante os quatro dias e três noites de duração do exame, os alunos deverão percorrer a ilha, enfrentar diversos desafios, coletar tokens e, por fim, alcançar o objetivo final designado.
Recompensas por Conclusão em Grupo: Multiplicadores de tokens e recompensas em Pontos Privados serão distribuídos de acordo com a ordem em que cada grupo alcançar o objetivo.
Observação: A colocação de um grupo é definida no exato momento em que a maioria de seus integrantes alcança com sucesso o objetivo final.
Classificação dos Grupos:
1º Lugar: Multiplicador de Tokens de 100% + 100.000 Pontos Privados
2º Lugar: Multiplicador de Tokens de 95% + 80.000 Pontos Privados
3º Lugar: Multiplicador de Tokens de 90% + 50.000 Pontos Privados
4º Lugar: Multiplicador de Tokens de 85% + 30.000 Pontos Privados
5º Lugar: Multiplicador de Tokens de 80% + 20.000 Pontos Privados
6º Lugar ou inferior: Multiplicador de Tokens de 75% + 10.000 Pontos Privados
Grupo Desclassificado: Multiplicador de Tokens de 70% + Nenhuma recompensa adicional
O mais importante não era simplesmente coletar tokens, mas equilibrar dois objetivos ao mesmo tempo: reunir o maior número possível deles enquanto se alcançava o objetivo rápido o suficiente para preservar um multiplicador elevado.
Nenhum dos dois, isoladamente, seria suficiente. Mashima-sensei quebrou o breve silêncio e retomou sua explicação.
— Quanto às recompensas em Pontos Privados concedidas ao alcançar o objetivo, caso um grupo termine em primeiro lugar, cada aluno desse grupo receberá individualmente 100.000 Pontos Privados. A primeira recompensa, o multiplicador de tokens, está vinculada tanto à classificação do grupo na posse de tokens quanto às recompensas individuais que explicarei em breve. Se um grupo terminar em terceiro lugar, o total de tokens utilizado nos cálculos será reduzido para 90%. Grupos classificados em sexto lugar ou abaixo receberão apenas 75%.
(N/SLAG: Um grupo coleta 1.000 tokens. Fica em 3º lugar. Só serão considerados 900 tokens 90%.)
Ele fez uma breve pausa antes de acrescentar:
— Quaisquer valores fracionários gerados após a aplicação do multiplicador serão arredondados para cima.
Em outras palavras, mesmo que um grupo acumulasse mil tokens por meio de esforços incessantes durante quatro dias exaustivos, uma colocação ruim reduziria gradualmente o valor de tudo o que havia conquistado.
As condições exatas para o que significava "alcançar o objetivo" ainda permaneciam obscuras, mas uma coisa já estava clara. Terminar entre os primeiros colocados era indispensável.
— Até este ponto, as regras podem ter parecido favoráveis aos alunos. Contudo, este exame especial também contém diversas penalidades severas. E... algumas delas são inevitáveis.
Baixei os olhos para a página seguinte do livreto. As penalidades às quais ele se referia já estavam impressas ali de forma organizada.
Lista de Penalidades:
Expulsão do Aluno com Menor Quantidade de Tokens: Ao término do exame, o único aluno de todo o ano escolar que possuir a menor quantidade de tokens será expulso.
Caso múltiplos alunos estejam empatados com o menor número de tokens, será selecionado aquele que possuir a menor pontuação na Avaliação Geral de Habilidades (OAA) registrada em 1º de junho. Se o empate persistir, registros mensais anteriores do OAA serão utilizados em ordem cronológica.
Alcançar Zero Tokens: Se a quantidade de tokens de um aluno chegar a zero em qualquer momento durante o exame, esse aluno será imediatamente expulso.
Entretanto, caso possua um Ponto de Proteção, ele será retirado do exame e aguardará a bordo do navio. Essa penalidade se aplica apenas ao primeiro aluno cujo total de tokens atingir zero.
Falha em Alcançar o Objetivo: Para cada aluno que não alcançar o objetivo até o encerramento do exame, sua turma perderá 5 Pontos de Classe.
Além disso, independentemente da colocação final do grupo, qualquer aluno que não alcançar o objetivo terá seu multiplicador de tokens reduzido para 70%.
Penalidade por Atraso Após a Conclusão do Grupo: Assim que a maioria dos integrantes de um grupo alcançar o objetivo e a classificação do grupo for definida, cada aluno que ainda não tiver chegado continuará custando à sua turma 1 Ponto de Classe a cada 30 minutos até sua chegada.
Abandonar a Área do Supervisor: Para cada hora que um aluno permanecer fora da área onde seu supervisor designado estiver localizado, esse aluno perderá 1 token. Retornar à área designada reinicia a contagem do tempo.
As penalidades apresentadas diante de nós eram severas. Ao contrário das punições comuns por quebrar regras, aquelas não eram armadilhas que os alunos poderiam simplesmente evitar com cautela ou obediência. Algumas talvez pudessem ser administradas, mas outras estavam incorporadas à própria estrutura do exame. Eram inevitáveis por definição.
Comparado ao Exame Especial do Jogo de Sobrevivência, aquilo representava um passo ainda mais profundo em território perigoso.
— Então agora chegou a parte séria, é? — murmurou Hashimoto ao meu lado.
— Parece que sim — respondi em voz baixa.
Considerando que Horikita provavelmente havia assumido a penalidade do Exame Jogo de Sobrevivência, o único aluno confirmado como possuidor de um Ponto de Proteção ainda era Koenji.
Outras turmas talvez ainda tivessem alguns em reserva, mas reduzir deliberadamente seus próprios tokens a zero apenas para consumir a única vaga de expulsão beneficiaria muito mais as turmas rivais do que os próprios aliados.
Ninguém faria tal sacrifício voluntariamente. Com sua rede de segurança praticamente removida após a recente derrota, a situação da Classe A havia se tornado especialmente severa.
Mashima-sensei concedeu alguns instantes para que os alunos absorvessem o peso das penalidades antes de prosseguir.
— Em seguida, explicarei os detalhes referentes aos próprios tokens... assim como às recompensas individuais.
Classificações dos Tokens (Front-side e Back-side): Os tokens são divididos em duas categorias distintas: Front-side e Back-sid. Tokens obtidos por meio de conquistas individuais verificadas são classificados como Tokens Front-side. Tokens adquiridos por quaisquer outros métodos são classificados como Tokens Back-side.
As recompensas relacionadas à classificação por posse de tokens levarão em consideração o total agregado, independentemente de serem Front-side ou Back-side.
Já as recompensas individuais considerarão exclusivamente os Tokens Front-side.
Protocolo de Transferência de Tokens: Os tokens podem ser transferidos livremente entre alunos. Para realizar uma transferência, é necessário executar uma operação específica na interface do relógio e, em seguida, colocar os relógios de ambos os participantes em contato físico.
Não há restrições quanto à quantidade transferida, à frequência das transferências ou ao destinatário escolhido.
Qualquer token utilizado em uma transferência será permanentemente convertido em um Token Back-side e jamais poderá retornar à condição de Token Front-side.
A quantidade de tokens de um aluno é fixada no exato momento em que ele alcança o objetivo. Após esse ponto, qualquer transferência envolvendo esse aluno será proibida.
Consumo de Tokens:
Gastar 1 Token permite 5 minutos de comunicação com qualquer aluno escolhido.
Gastar 1 Token permite realizar uma verificação de localização, exibindo as coordenadas atuais de qualquer aluno escolhido.
A possibilidade de transferir tokens livremente parecia destinada a desempenhar um papel crucial na prevenção de determinadas penalidades. Um aluno próximo de atingir zero tokens poderia ser salvo por seus aliados antes que a expulsão fosse acionada. Da mesma forma, alguém correndo o risco de terminar na última posição poderia ser resgatado por meio da concentração de recursos.
Ao mesmo tempo, existia uma desvantagem evidente. No instante em que um token era transferido, ele perdia permanentemente seu status de Token Front-side e se tornava um Token Back-side. Isso o tornava inútil para a disputa das recompensas individuais.
Recompensas Individuais
Recompensa Especial: A turma do aluno que acumular o maior número de Tokens Front-side receberá 100 Pontos de Classe. Além disso, esse aluno receberá 500.000 Pontos Privados.
(Em caso de empate na primeira colocação, as recompensas serão divididas igualmente entre os alunos qualificados.)
Recompensa Geral (Todos os Alunos): Cada aluno receberá 1.000 Pontos Privados multiplicados pelo número total de Tokens Front-side em sua posse.
A seção referente à Recompensa Especial era impossível de ignorar.
100 Pontos de Classe.
Somente isso já era valioso o suficiente para rivalizar com a recompensa de uma vitória completa em um exame especial. Mas havia uma condição importante. Se vários alunos empatassem com a maior quantidade de Tokens Front-side, a recompensa seria simplesmente dividida entre eles.
De qualquer forma, obter mesmo que um único token adicional como indivíduo trazia vantagens claras para qualquer participante. A essa altura, toda a estrutura do exame finalmente havia se tornado visível, e uma tensão controlada começou a se espalhar entre os alunos.
Se um grupo cooperasse de maneira eficiente, acumulasse uma grande quantidade de tokens e garantisse uma colocação elevada, então naturalmente todos os seus membros obteriam enormes quantidades de Pontos Privados.
Esse era o benefício mais óbvio. O problema era o que acontecia dentro do próprio grupo. Se um aluno de uma turma rival acumulasse uma quantidade esmagadora de Tokens Front-side enquanto trabalhava ao seu lado, ele poderia conquistar a Recompensa Especial para sua própria turma.
E isso criaria uma enorme diferença de Pontos de Classe em favor de uma classe rival. Depois disso, a explicação passou para as novas funções adicionadas aos relógios de pulso.
— Ao inserir o código de seis dígitos atribuído ao seu dispositivo — explicou Mashima-sensei — vocês poderão verificar sua quantidade atual de tokens, bem como transferi-los para outras pessoas. Agora todos irão operar o sistema como parte desta explicação.
Ele fez uma breve pausa.
— No entanto, há uma precaução importante. Todos os alunos receberam pelo menos dois tokens no início da prova, mas a quantidade distribuída varia de aluno para aluno. Portanto, a quantidade de tokens com que você começa é uma informação valiosa. Recomendo fortemente que evitem revelar esse número aos outros.
Então, afinal, as condições iniciais não eram iguais. Os próprios mostradores dos relógios de pulso haviam sido projetados pensando na privacidade. A menos que alguém se posicionasse deliberadamente atrás de outra pessoa ou se aproximasse de forma antinatural por um dos lados, era praticamente impossível dar uma espiada na tela de alguém.
Mesmo assim, os alunos não correram riscos. Protegendo as telas com o corpo, inseriram cautelosamente suas senhas para confirmar a quantidade inicial de tokens. Eu também digitei minha senha, e a tela se iluminou.
11 Front-side
À primeira vista, parecia um número relativamente alto. Mas ainda não havia nenhuma referência além de "dois ou mais". Sem comparações adicionais, não havia como avaliar com segurança quão elevado aquele número realmente era.
Além disso, os botões de envio e recebimento para transferências eram exibidos simultaneamente. Parecia que as transferências de tokens exigiam que ambas as partes ativassem os comandos apropriados antes de encostarem fisicamente seus relógios um no outro.
Sem dizer nada, estendi ligeiramente o braço na direção de Hashimoto, mostrando-lhe minha tela. Seus olhos se arregalaram um pouco de surpresa enquanto comparava o número ao seu próprio. Em seguida, virou o relógio para mim.
9 Front-side
Próximo ao meu valor, mas um pouco menor. Era difícil acreditar que a distribuição estivesse diretamente ligada às pontuações no OAA ou ao desempenho acadêmico. Era mais provável que estivesse relacionada à prova anterior — não necessariamente à contribuição de cada um, mas ao tempo de sobrevivência. Yamamura e Shiraishi haviam resistido até o fim do Jogo de Sobrevivência, exaurindo-se mais do que qualquer outra pessoa.
Enquanto isso, os alunos eliminados logo no início provavelmente já haviam se recuperado completamente e estavam entrando nesta prova em condições muito melhores. Visto por esse ângulo, a distribuição desigual de tokens fazia sentido. Era uma espécie de seguro. Uma medida de compensação destinada a equilibrar a diferença física entre os alunos.
Ainda assim, não era algo para comemorar sem reservas. Mesmo que os outros eventualmente conseguissem fazer suposições fundamentadas sobre quem havia começado com uma quantidade maior de tokens, ocultar essa informação sempre que possível continuava sendo a escolha mais sensata.
— E, por fim — continuou Mashima-sensei —, embora todos estejam presentes neste momento, alguns alunos podem adoecer inesperadamente durante o exame. Nesses casos, os procedimentos envolvidos são extremamente delicados. Certifiquem-se de revisar cuidadosamente a seção correspondente em seus documentos.
Ao ouvir isso, baixei o olhar para a última página.
Condições que Tornam Impossível Continuar o Exame: Se um aluno sofrer uma doença súbita ou um ferimento grave que o impeça de continuar, poderá, em princípio, comunicar verbalmente a situação a um supervisor e solicitar uma avaliação sobre sua capacidade de prosseguir.
Caso não haja um supervisor por perto e o contato direto seja impossível, o aluno poderá utilizar a função de solicitação de emergência em seu relógio de pulso.
Entretanto, no momento em que um aluno for oficialmente declarado retirado do exame, sua quantidade de tokens será congelada.
Como medida de auxílio, qualquer aluno poderá transferir tokens para um participante retirado, independentemente da distância.
Além disso, um grupo que contenha um aluno retirado ainda poderá receber uma classificação oficial, mas apenas se todos os membros restantes conseguirem alcançar o objetivo com sucesso.
Fingir doença ou ocultar deliberadamente um ferimento grave ou condição médica para continuar participando é estritamente proibido.
Caso um aluno não tenha certeza se sua condição se enquadra nesses critérios, deverá consultar a escola para obter uma avaliação.
Se uma violação for descoberta, será aplicada a penalidade de expulsão.
Em uma prova numa ilha como aquela, problemas de saúde e lesões eram praticamente inevitáveis.
Como o exame era fundamentalmente estruturado em torno da manutenção do número de integrantes dos grupos, a escola provavelmente não toleraria que os alunos ocultassem seu verdadeiro estado físico. Se ser agrupado com alunos de outras turmas colocasse alguém em desvantagem, era natural que as pessoas quisessem esconder qualquer sinal de debilidade.
Essa regra existia justamente para impedir isso. E, como fingir estar doente também não funcionaria, ela impedia efetivamente alguém como Koenji de abandonar a prova quando bem entendesse.
— Cara, essas regras são brutais — murmurou Hashimoto. — Então, mesmo que você fique doente e tenha que se retirar, eles ainda não vão aliviar, é isso?
As medidas de auxílio realmente existiam. Mas, se um aluno sem grande capacidade ou valor estratégico abandonasse a prova cedo, havia uma possibilidade muito real de sua turma simplesmente deixá-lo para trás.
Por outro lado, alguém como Ichinose quase certamente seria salva sem hesitação. Seus colegas reuniriam tokens de toda a ilha de bom grado apenas para mantê-la segura.
De qualquer forma, a posse de tokens permanecia escondida sob várias camadas de sigilo. Fossem eles Front-side ou Back-sid, nenhum terceiro tinha um meio confiável de verificar a quantidade total, a menos que o próprio dono decidisse revelá-la. Na prática, todo o sistema funcionava como uma caixa-preta.
Se já era difícil descobrir a quantidade de tokens de pessoas fora do grupo, compreender a situação dos próprios membros do grupo também não seria algo simples.
Além disso, parecia que os alunos podiam gastar tokens para entrar em contato uns com os outros, mas cada utilização naturalmente reduziria a quantidade máxima de tokens com que poderiam terminar o exame. A menos que fosse uma emergência, comunicações desnecessárias deveriam ser evitadas.
Depois disso, a explicação passou para os suprimentos: comida, barracas e outros itens essenciais. Cada aluno receberia uma mochila designada e teria permissão para levar o que quisesse dentre os materiais disponibilizados.
No entanto, não houve nenhuma explicação sobre o que aconteceria caso os suprimentos se tornassem insuficientes durante as três noites na ilha. Por isso, provavelmente era mais prudente carregar provisões extras, mesmo que isso significasse aumentar o peso da mochila.
Naturalmente, isso colocava as garotas, que em média possuíam menos massa muscular, em uma posição de maior desvantagem. Ainda assim, era difícil acreditar que a escola não tivesse considerado esse problema. Havia uma boa chance de existir algum tipo de medida de apoio nos bastidores.
— Muito bem. Após um intervalo de dez minutos, vocês deverão se reunir de acordo com seus grupos designados. Com isso, encerramos a explicação.
Com essas palavras, a orientação finalmente chegou ao fim. Voltei-me para Hashimoto.
— Preciso que você transmita uma mensagem para os outros da turma — falei.
Hashimoto olhou para mim.
— Claro. É só dizer.
— A primeira coisa que quero que diga é o seguinte: compartilhar ou não a quantidade de tokens com os colegas é uma decisão de cada um. Mas, neste momento, eles devem pensar com muito cuidado antes de fazer isso.
— Pensar com cuidado antes de compartilhar….? — Hashimoto inclinou levemente a cabeça. — Quer dizer, pessoalmente eu sou totalmente a favor de guardar segredos, mas compartilhar não ajudaria a evitar riscos?
— Ajudaria, se você pudesse ter absoluta certeza de que todos estariam dispostos a afundar juntos pelo bem da turma.
Fiz uma breve pausa.
— Mas colegas de classe continuam sendo, no fim das contas, outras pessoas. Se a escolha se resumir entre si mesmos e outra pessoa, a resposta se torna óbvia.
Especialmente na minha turma, mais da metade dos alunos era extremamente capaz e possuía grande confiança nas próprias habilidades. E, justamente por carregarem uma determinação tão forte de se formar na Classe A, compartilhar informações de forma descuidada trazia seus próprios riscos.
Os alunos designados para cada grupo misto agora eram forçados a fazer uma escolha difícil: Compartilhariam constantemente informações sobre suas quantidades de tokens com seus colegas de classe... ou manteriam tudo em segredo?
Se uma turma administrasse cuidadosamente as informações sobre os tokens, então os alunos que estivessem ficando sem recursos poderiam ser apoiados coletivamente, reduzindo o risco de expulsões de forma geral. Havia uma vantagem clara nessa abordagem.
É claro que isso também tornaria praticamente impossível para qualquer indivíduo monopolizar tokens e perseguir as enormes recompensas pessoais associadas a eles. Ainda assim, se a alternativa fosse sacrificar colegas de classe, muitos estudantes considerariam essa troca aceitável.
O problema era que nem mesmo uma cooperação perfeita garantia segurança. Suponha que três ou quatro alunos trabalhassem juntos e distribuíssem os tokens igualmente entre si. Se, mesmo assim, esse equilíbrio resultasse em alguém terminando na última posição geral, a expulsão continuaria sendo inevitável.
No fim, o fator decisivo passaria a ser a classificação no OAA. E, se o grupo tentasse compensar isso direcionando tokens extras para o aluno com o menor OAA, então naturalmente o estudante com o segundo menor OAA se tornaria o próximo em risco.
Não importava o quanto as pessoas unissem forças cuidadosamente; confiança e risco moral sempre existiriam lado a lado. Tudo começava com a capacidade de aceitar genuinamente a política estabelecida desde o início. Mesmo dentro de um único grupo, ressentimentos e desconfianças poderiam facilmente surgir através de reclamações como:
"Ele está guardando mais do que diz."
"Ela não está ajudando nem perto do que deveria."
Além disso, não havia como saber por onde as informações poderiam vazar. Alunos que acumulassem grandes quantidades de tokens acabariam atraindo atenção até mesmo de fora de seus próprios grupos. Quanto mais bem-sucedida uma pessoa se tornasse, mais inevitavelmente passaria a ser vista como uma possível salvadora por aqueles desesperados por ajuda.
Por outro lado, recusar-se completamente a compartilhar a quantidade de tokens também era uma opção perfeitamente razoável. Mas o sigilo absoluto trazia seus próprios perigos. Se ninguém compartilhasse nada, colegas próximos do limite de expulsão não poderiam ser socorridos a tempo em situações de emergência.
Pior ainda, alunos dispostos a mentir e manipular os outros para obter ajuda ganhariam uma vantagem clara. A paranoia dentro da turma se aprofundaria ainda mais, corroendo lentamente a confiança interna e, eventualmente, causando prejuízos.
No fim das contas, os alunos mais racionais provavelmente encontrariam um meio-termo. Evitariam revelar números exatos, responderiam vagamente com algo como "não estou exatamente em posição de ajudar" e contribuiriam apenas com o mínimo necessário quando algum colega realmente estivesse em perigo imediato.
— Então, basicamente, não devemos confiar demais nos colegas de turma — disse Hashimoto.
— Exatamente.
O fato de Hashimoto ter entendido imediatamente provavelmente significava que ele próprio já vinha pensando em algo semelhante. Depois disso, fiz mais alguns pedidos para que ele transmitisse aos demais. Ele aceitou todos sem reclamar, assentindo com firmeza a cada um deles.
— Deixe isso comigo.
Hashimoto respondeu com sua habitual confiança descontraída e imediatamente saiu correndo pela areia. Como se estivesse trocando de lugar com ele, Shiraishi e Nishikawa começaram a caminhar em minha direção, sem pressa.
— Agora há pouco, o fiel cão Hachiko... ou melhor, o fiel cão Hashimoto Masayoshi, parecia correr energicamente pela praia. Parecia uma criança incapaz de conter a alegria por ter recebido uma tarefa.
(N/SLAG: Hachiko (ハチ公) foi um cão japonês que se tornou símbolo de lealdade por continuar esperando seu dono falecido por anos na estação de trem.)
Ao lado delas estava a excêntrica de sempre: Morishita.
— Você parece mais animado do que eu esperava, Ayanokoji Kiyotaka — disse ela ao se aproximar. — Não estava começando a sentir aquela mistura de ansiedade e expectativa acelerando o coração por querer tanto me ver?
— Nem de longe — respondi. — Mais importante, considerando que você abandonou a prova no segundo dia, parece bastante cheia de energia.
— Sem dúvida, sem dúvida — declarou Morishita orgulhosamente, sem o menor traço de vergonha. — A vida a bordo do navio foi surpreendentemente maravilhosa. Gastei pontos privados como água, comendo comidas deliciosas, bebendo e me divertindo. Sinceramente, teria gostado de continuar aquele estilo de vida elegante por mais algum tempo.
Ela falava sem fazer a menor tentativa de esconder qualquer coisa.
— Certamente parece ter sido um uso muito produtivo do seu tempo — comentei secamente. — Aconteceu algo incomum a bordo do navio?
Sem esperar grande coisa de Morishita, direcionei a pergunta para Nishikawa, já que ela também havia sido eliminada cedo.
— Os alunos do terceiro ano que abandonaram a prova basicamente receberam tempo livre até o fim do Exame Especial do Jogo de Sobrevivência — explicou Nishikawa. — Mas parecia que os alunos do primeiro e do segundo ano estavam participando de exames especiais separados. Não ouvi nada sobre os resultados, então não sei os detalhes. Desculpe.
Então, em vez de ganharem férias antecipadas de verão, parecia que haviam sido colocados em um ambiente semelhante ao dos demais.
— Os alunos do primeiro ano também devem estar passando por dificuldades — murmurou Shiraishi. — Provavelmente estão sofrendo com o contraste em relação ao navio de cruzeiro de luxo.
Ela parecia genuinamente preocupada, mas Morishita imediatamente estalou a língua e balançou o dedo.
— Você continua ingênua demais, Shiraishi Asuka. Uma verdadeira manteiga derretida. Nossos veteranos mais novos, especialmente os calouros, deveriam sofrer na ilha exatamente como nós sofremos. Nós passamos dificuldades desde o primeiro ano e eles vão ser mimados? Que absurdo.
Vindo de alguém que mal havia sofrido nesta prova, aquela malícia demonstrava uma impressionante falta de autocrítica.
— Por acaso encontrei Yamamura Miki mais cedo — continuou ela. — E nossa, ela estava completamente impregnada de suor e sujeira.
— Não diga esse tipo de coisa, nem de brincadeira — respondi. — Yamamura permanecer até o fim ajudou muito a turma. O mesmo vale para Shiraishi.
Voltei meu olhar para Shiraishi.
— Como está sua condição física?
— Para ser sincera — respondeu ela com um leve sorriso —, está um pouco difícil. Mas não posso me dar ao luxo de reclamar. Nossa turma conseguiu o segundo lugar e finalmente reduzimos a distância para as classes acima de nós.
No Exame Especial do Jogo de Sobrevivência, a turma de Ichinose havia ficado em primeiro lugar, a de Ryuen em terceiro, enquanto a turma de Horikita terminara em último. Como resultado, a diferença de Pontos de Classe entre as turmas superiores e inferiores diminuiu consideravelmente.
Embora nossa turma tivesse caído temporariamente para a Classe D provisória após a reorganização, a diferença para a turma de Ryuen ainda era mínima.
Dependendo do resultado do exame especial prestes a começar, qualquer turma ainda tinha uma chance realista de terminar em qualquer posição entre A e D.
— Na verdade, viemos porque queríamos comparar nossas quantidades iniciais de tokens.
Dizendo isso, Shiraishi operou rapidamente seu relógio e virou a tela em minha direção. O número exibido era 12 tokens. Nishikawa, que mostrou o seu ao mesmo tempo, tinha apenas 2, uma diferença enorme.
— E você, Morishita?
— Fufu. Eu sou adepta do sigilo.
— Mais cedo, tive permissão para confirmar a quantidade de tokens da Morishita-san — disse Shiraishi calmamente. — Ela tinha cinco.
Parecia que a adepta do sigilo havia compartilhado suas informações com bastante facilidade.
— Bem, para alguém do meu nível, cinco tokens são mais do que suficientes. Embora, na improvável eventualidade de uma emergência, eu pretenda explorar Ayanokoji Kiyotaka sem qualquer remorso, então trate de ganhar bastante por mim.
No momento, Shiraishi possuía a maior quantidade confirmada, com doze. Eu tinha onze. Nishikawa tinha dois e Morishita cinco.
— Hashimoto tinha nove — falei. — Provavelmente é seguro presumir que quanto mais tempo alguém permaneceu ativo no Exame Especial do Jogo de Sobrevivência, maior foi a vantagem recebida na quantidade inicial de tokens.
A classificação da turma, as movimentações durante o exame, os papéis desempenhados e os níveis de contribuição também poderiam ter influenciado. No mínimo, fatores desse tipo claramente estavam relacionados à distribuição inicial dos tokens. O quão significativa aquela vantagem inicial em tokens acabaria se mostrando poderia se tornar uma das principais chaves de todo o exame.
Shiraishi refletiu sobre isso em silêncio antes de voltar a falar.
— Como todos começam com pelo menos dois tokens, seria razoável presumir que a penalidade envolvendo o primeiro aluno reduzido a zero tokens dificilmente acontecerá tão cedo?
— Não necessariamente — respondi. — Enquanto existirem transferências irrestritas de tokens, o sistema estará constantemente oferecendo aos alunos maneiras de alterar sua situação.
Voltei a olhar para Shiraishi.
— Se a primeira tarefa já trouxesse a possibilidade de perder vários tokens, então alguns alunos precisariam receber tokens de outras pessoas antes mesmo de tentarem concluí-la.
Era um cenário deliberadamente extremo. De forma realista, o exame provavelmente não chegaria a esse ponto tão rapidamente. Mas, com Morishita assentindo casualmente ao nosso lado, não era uma mentira ruim para deixar pairando no ar.
Um pouco de tensão lhe faria bem.
— Tem certeza de que não deveria ir ajudar o restante da turma? — perguntou Shiraishi em voz baixa.
— Já pedi a Hashimoto que transmitisse várias coisas — respondi. — Além disso, por mais que organizemos tudo cuidadosamente, ninguém estará realmente a salvo da penalidade de expulsão por ficar sem tokens até garantir uma quantidade estável para si mesmo. Agora que os grupos foram separados, isso é algo que eles terão de superar por conta própria.
Havia limites para o quanto se podia proteger alguém à distância. Se alguém permitisse que seus tokens chegassem a zero com tanta facilidade, então receber uma notificação de expulsão seria simplesmente a consequência desse fracasso.
É claro que existia outra abordagem possível. A turma poderia se reunir desde o início, juntar todos os tokens excedentes e redistribuí-los para alunos como Nishikawa, que possuíam apenas a quantidade mínima. No papel, isso fortaleceria os membros mais vulneráveis da turma. Mas até essa estratégia tinha suas desvantagens.
Proteger os alunos mais fracos de forma excessiva reduziria o potencial máximo de ganhos da turma como um todo. Quanto mais tokens fossem redistribuídos defensivamente, mais difícil seria para os alunos mais capazes maximizar seus lucros em outras áreas.
E, em um exame estruturado inteiramente em torno da obtenção de tokens, reduzir demais o potencial ofensivo da turma poderia se tornar fatal à sua própria maneira. Se a turma pretendia vencer, então os alunos precisariam, em última análise, conquistar tokens por meio de sua própria capacidade.
Este não era um exame em que todos poderiam ser protegidos com absoluta certeza. Uma certa dose de risco precisava ser aceita.
— A propósito — perguntou Nishikawa —, em qual grupo você ficou, Ayanokoji-kun? Eu estou no Grupo Um. Sinceramente, esperava acabar junto da Asuka, se possível~.
Parecia que Shiraishi havia sido designada para o Grupo Dois, então esse desejo não havia se realizado.
— Então deseja saber em qual grupo estou? — Morishita cruzou os braços com um orgulho desnecessário. — Realmente, que homem secretamente pervertido você é! É o Grupo Três. Três.
— Não me lembro de ter perguntado isso nem um pouco... — murmurei. — Espera. Não me diga que estamos realmente no mesmo grupo...
— Eh!? Sério!? Estamos juntos!?
Morishita cobriu abruptamente a boca com as duas mãos, em um choque exageradamente teatral. Curiosamente, porém, seus olhos permaneceram completamente inalterados.
— Este vai ser um exame especial exaustivo...
Só de imaginar o quanto ela provavelmente falaria pelos próximos dias já era suficiente para me deixar levemente deprimido.
*
Com as explicações finalmente encerradas, Morishita e eu seguimos para o ponto de encontro designado do nosso grupo. Como a área de espera do Grupo 3 ficava bem próxima, acabamos sendo os primeiros a chegar.
— Permita-me deixar uma coisa clara desde já — disse Morishita, virando-se para mim com a seriedade composta de alguém emitindo um aviso oficial. — Durante o exame, por favor, evite agir de maneira excessivamente íntima comigo. Se surgisse sequer o menor mal-entendido de que você é meu namorado, isso arruinaria seriamente minha vida escolar futura.
— Você não precisa se preocupar com isso.
— Tenho minhas dúvidas — respondeu ela sem perder o ritmo. — Dizem que, mesmo quando um homem nega, sua metade inferior continua bastante animada. Embora eu admita não compreender totalmente os mecanismos biológicos envolvidos.
— Você realmente tem talento para falar com confiança sobre coisas das quais não sabe nada.
— Bajulação não vai aumentar seu nível de afeição comigo, sabia?
Ninguém mais vai aparecer?
Justo quando eu esperava silenciosamente por alguma distração, ouvi o som de passos afundando na areia.
— Vamos dar o nosso melhor, Ayanokoji.
A voz pertencia a Yoshida Kenta, que havia se aproximado por trás. Sanada chegou logo depois e, com sua chegada, os membros da Classe C designados ao nosso grupo estavam reunidos.
Ao observá-los, pareciam ser do tipo mais estudioso: alunos que talvez não se destacassem de maneira espetacular, mas que podiam ser confiáveis para lidar com a maioria das situações com estabilidade e sem criar problemas desnecessários.
— Ah, não... Morishita? Sério? — resmungou Yoshida.
— Parece que você simplesmente não consegue esconder sua alegria, Kobayashi Kenta.
— É Yoshida — corrigiu imediatamente. — Yoshida.
— Ah. Ayanokoji. Não me diga que vou ficar presa com você.
A voz que surgiu ao lado estava carregada de um desgosto nada disfarçado. Pertencia a outra participante: Ibuki Mio, da Classe B. Quase ao mesmo tempo, outra figura começou a se aproximar. Era Katsuragi Kohei, com sua expressão rígida e cautelosa de sempre.
— Pensar que eu acabaria no mesmo grupo que você — disse ele, parando por perto. — Parece que esta será uma batalha difícil.
— Eu poderia dizer o mesmo — respondi.
Katsuragi não era o tipo de pessoa facilmente influenciada pelas emoções. Se acabasse do lado oposto em um exame especial como aquele, certamente não facilitaria a vida de ninguém. Por outro lado, como o exame também exigia cooperação dentro do mesmo grupo, ele podia igualmente ser considerado um aliado extremamente confiável, tornando difícil avaliar sua presença de forma definitiva.
Os demais alunos da Classe B ainda não haviam aparecido. Antes que isso acontecesse, porém, uma estudante da Classe A se aproximou.
— Ah, estou com você, Ibuki-san! — A voz alegre de Kushida veio logo atrás dela. — Espero trabalhar bem com você.
Ela se aproximou de Ibuki e colocou gentilmente uma das mãos sobre seu ombro, dando um leve tapinha. Seu sorriso era impecável. Quase angelical. Para qualquer observador externo, aquilo pareceria apenas uma garota cumprimentando calorosamente uma amiga. Se era realmente esse o caso, porém, era outra história.
— Ah, não... Kushida... Isso é o pior possível.
Ibuki parecia tão repugnada por ela quanto havia estado por mim, mas Kushida, naturalmente, não permitiu que um único músculo de seu rosto vacilasse. Enquanto isso, estudantes das outras turmas continuavam chegando um após o outro.
Quando finalmente os dezesseis participantes estavam reunidos, observei o grupo mais uma vez e revisei mentalmente a composição.
Participantes do Grupo 3
Classe D: Sumida Makoto, Moriyama Susumu, Minamikata Kozue e Amikura Mako
Classe C: Ayanokoji Kiyotaka, Yoshida Kenta, Sanada Kosei e Morishita Ai
Classe B: Sonoda Masashi, Katsuragi Kohei, Ibuki Mio e Morofuji Rika
Classe A: Ike Kanji, Kushida Kikyo, Shinohara Satsuki e Wang Mei-Yu
Havia algumas pessoas barulhentas no meio, mas minha impressão inicial era de que aquele era um grupo sólido e bem equilibrado. Imediatamente comecei a estruturar a lógica necessária para garantir uma vitória e, mais importante ainda, evitar uma derrota.
Os fatores importantes eram a quantidade de tokens, os multiplicadores e a prevenção de penalidades. Ainda existiam incógnitas, como o sistema de objetivos que afetava esses multiplicadores.
Mas uma coisa já era certa: Essas dezesseis pessoas eram, ao mesmo tempo, aliadas e inimigas. Ao analisar suas habilidades individuais e seus relacionamentos, comecei a reduzir as possibilidades até encontrar a forma ideal de agir dali em diante.
Enquanto fazia esses cálculos mentalmente, notei que os quatro alunos da Classe A me observavam atentamente. Como ex-colega deles, imaginei que talvez devesse oferecer um cumprimento educado e padrão. Embora, conhecendo Ike e os demais, existisse uma boa chance de que me enchessem de insultos no instante em que eu abrisse a boca.
Enquanto considerava essa possibilidade sem grande interesse, Ike Kanji e Shinohara Satsuki trocaram um olhar. Então, após uma breve conversa em voz baixa, tomaram a iniciativa e caminharam até mim, ambos com expressões visivelmente nervosas.
Andavam extremamente próximos um do outro, tão próximos que seus ombros quase se tocavam. Só isso já bastava para mostrar que o relacionamento dos dois continuava indo muito bem. Estatisticamente, a probabilidade de um casal acabar no mesmo grupo era pouco inferior a oito por cento.
Não era um resultado particularmente surpreendente por si só, mas os dois provavelmente interpretavam aquilo como algum tipo de destino romântico sem fundamento.
Atrás deles, Kushida e Mii-chan também me observavam. Kushida, mantendo seu sorriso impecável, acenou casualmente para mim. Já Mii-chan parecia um pouco nervosa, mas ainda assim baixou a cabeça em uma educada reverência.
— Nunca imaginei que acabaria no mesmo grupo que você, Ayanokoji.
Ike foi o primeiro a falar. Seu tom estava surpreendentemente controlado. Enquanto eu considerava a melhor forma de corresponder à sua postura, ele continuou.
— Quando vi sua cara pela primeira vez, pensei em dizer umas boas verdades para você. Mas já que estamos presos no mesmo grupo, acho que podemos pelo menos tentar nos dar bem. Vou ajudar no que puder.
— Eu penso o mesmo que o Kanji — acrescentou Shinohara. — Não parece que este exame seja apenas uma disputa simples, e acredito que finalmente entendi o quão capaz você realmente é, Ayanokoji-kun. Vou cooperar da maneira que puder, então conto com você.
Era uma saudação surpreendentemente amigável vinda de antigos colegas de classe. Considerando as circunstâncias, eles deveriam nutrir sentimentos extremamente negativos em relação a mim. Ainda assim, seus sorrisos pareciam genuínos, sem qualquer traço de falsidade, e eles estavam tentando me tratar da forma mais normal possível.
Neste exame, éramos simultaneamente aliados e inimigos. Era justamente por isso que eles queriam manter a paz e abordar a situação de maneira cordial. Evitar criar inimigos desnecessários era, taticamente, a decisão correta. Ainda assim, eu estava genuinamente surpreso ao ver um julgamento tão sensato vindo daqueles dois.
Parecia que eu estava testemunhando um verdadeiro sinal de amadurecimento. Considerando que estavam se dirigindo à pessoa que havia traído sua turma, suas expressões suaves e atitudes moderadas eram praticamente impecáveis. Ike e Shinohara provavelmente haviam reunido uma grande dose de coragem apenas para tomar a iniciativa de falar comigo.
Desviei o olhar dos dois. Então, sem parar, passei por eles e me dirigi a Kushida e Mii-chan, que observavam silenciosamente a situação logo atrás.
— Tenho certeza de que trabalhar ao lado de um traidor traz muitos inconvenientes — falei, dirigindo minhas primeiras palavras a Mii-chan. — Mas conto com você até o fim deste exame.
— Eh? — ela piscou, claramente pega de surpresa. — Ah, s-sim. O prazer é meu...
Apesar do nervosismo, sua resposta foi educada, quase excessivamente educada. Depois de ouvi-la, voltei meu olhar para Kushida, que estava ao seu lado.
— Também seria uma grande ajuda poder contar com você como aliada.
— Sou eu quem deveria dizer isso — respondeu Kushida com um sorriso gentil. — Só espero que alguém como eu possa ser útil.
Sua voz era suave e sua expressão perfeitamente controlada. Apenas seus olhos revelavam um vislumbre quase imperceptível de seus verdadeiros sentimentos.
— Considero suas habilidades de comunicação especialmente valiosas, Kushida. Com alunos das quatro turmas misturados, administrar o grupo não será uma tarefa fácil.
— Claro, farei tudo ao meu alcance para ajudar. Não seria maravilhoso se todos no grupo conseguissem um bom resultado?
Sempre atenta aos olhares ao redor, Kushida ofereceu uma resposta impecavelmente segura.
— Isso será suficiente.
Encerrando os cumprimentos, virei-lhes as costas e comecei a caminhar em direção aos alunos da Classe C.
— Ei, espera aí!
— A-Ayanokoji-kun...?
Ike e Shinohara me chamaram. Suas vozes carregavam a mesma confusão estampada em seus rostos. Nenhum dos dois parecia entender o que acabara de acontecer. Tinham se aproximado de mim, me cumprimentado, oferecido algo próximo de boa vontade...
E eu simplesmente passara por eles como se nada tivesse sido dito. Lancei-lhes apenas um breve olhar. Então continuei andando. Talvez percebendo o quão estranho aquilo era, Ike ergueu a voz.
— Espera um pouco! Você simplesmente vai nos ignorar?!
A irritação que ele vinha reprimindo finalmente começou a aparecer. Foi ele quem havia dado o primeiro passo, engolindo o ressentimento que ainda carregava e escolhendo falar comigo antes mesmo de Kushida ou Mii-chan.
— Isso é realmente cruel — disse Shinohara, perdendo parte da compostura anterior. — Sério mesmo... Nós fizemos alguma coisa para você?
— Não. Nada — respondi. — Apenas concluí que vocês não valiam a pena ser cumprimentados.
— O quê?!
Ao receber palavras tão impiedosas de forma totalmente inesperada, suas expressões se distorceram imediatamente em uma mistura de choque e raiva renovada. Até mesmo Kushida provavelmente não imaginara que eu responderia de forma tão brutalmente direta.
Mas a reação deles era perfeitamente natural. Qualquer pessoa ficaria furiosa se engolisse seus sentimentos negativos para cumprimentar alguém educadamente, apenas para receber um insulto sem reservas em troca.
— Bem, então... nos vemos depois.
Mesmo ao me despedir, direcionei aquelas palavras exclusivamente a Kushida e Mii-chan, ignorando completamente os outros dois.
— Ayanokoji! — a paciência de Ike finalmente se rompeu. — Qual é o seu problema?! Essa atitude passou dos limites!
Embora suas emoções finalmente tivessem explodido, Ike não tentou correr atrás de mim. Ignorando seus gritos, continuei caminhando em direção ao local onde Yoshida e os outros estavam reunidos.
No caminho, notei uma garota parada entre nós, imóvel, como se a confusão tivesse chamado sua atenção e a deixado sem saber o que fazer. Ela me encarava diretamente. Nossos olhares se encontraram.
— A-Ah... D-Desculpe! Me desculpe...! — Morofuji encolheu-se imediatamente. — P-Por estar no caminho...
Seu pedido de desculpas saiu em fragmentos desconexos. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se afastou apressadamente e fugiu, demonstrando uma inquietação suspeita.
Não havia motivo algum para ela pedir desculpas. Ainda assim, sua expressão ultrapassava a simples cautela. Ela parecia assustada. Assustada de maneira anormal. Morofuji havia sido uma das alunas envolvidas no bullying contra Karuizawa.
Talvez os acontecimentos daquela época ainda permanecessem em sua memória e influenciassem a forma como me enxergava. Enquanto eu a observava retornar apressadamente para junto dos alunos da Classe B, Yoshida se aproximou pelo outro lado.
— Aconteceu alguma coisa com a Morofuji?
— Não. Nada em particular.
— Entendi.
Yoshida lançou um olhar para trás de mim.
— Mais importante... Tem certeza de que está tudo bem? Ike e Shinohara não pararam de encarar você desde então.
Pelo tom preocupado de sua voz, parecia ter ouvido parte da conversa.
— Não se preocupe com isso. Eu nunca tive a intenção de agir amigavelmente com meus antigos colegas de classe para começo de conversa — respondi. — Mais importante, agora que você viu os participantes, qual é sua avaliação da composição do nosso grupo?
— Hm? Ah, bem...
Yoshida observou os integrantes reunidos.
— Eu diria que demos sorte. Katsuragi vai ser problemático porque nos conhece bem, mas o restante dos alunos da Classe B é relativamente insignificante. A Classe A é uma mistura estranha, uma combinação meio desequilibrada de alunos excelentes e alunos fracos. Quanto à Classe D, eles são bem equilibrados e parecem competentes, mas não são exatamente intimidadores.
Tendo visualizado os confrontos que estavam por vir, Yoshida apresentou sua avaliação de maneira direta.
— Essa configuração também deve facilitar bastante as suas manobras, não?
— Se estivermos falando apenas do Grupo Três, então essa avaliação está correta.
Observei novamente os alunos reunidos.
— No entanto, quando se trata das principais lideranças, pessoas como Ryuen, Horikita e Ichinose, o ideal teria sido que todos estivessem no mesmo grupo que eu. Principalmente Ryuen.
— Ryuen? — O rosto de Yoshida se contorceu como se tivesse mordido algo amargo. — Eu odiaria estar preso no mesmo grupo que ele.
A uma curta distância, Sanada, que vinha ouvindo nossa conversa, aproximou-se lentamente.
— Quanto mais problemático for o adversário, mais útil é mantê-lo por perto. Neste exame especial, isso torna mais fácil controlá-lo. É isso que você está pensando, não é, Ayanokoji-kun?
— Exatamente.
Assenti.
— Independentemente de quem esteja do outro lado, meu compromisso de fazer tudo o que for necessário para proteger a turma e garantir a vitória permanece o mesmo. Mas, dada a estrutura deste exame, será impossível controlar tudo o que acontece fora do meu campo de visão.
Sanada assentiu enquanto abria o material do exame na página das penalidades.
— Até certo ponto, posso agir para garantir que meus colegas não terminem em último lugar na contagem de tokens ou para impedir que deixem de alcançar o objetivo final — continuei. — Mas a penalidade que determina a expulsão imediata do primeiro aluno cujos tokens chegarem a zero... essa é algo sobre a qual não tenho absolutamente nenhum controle.
Yoshida pareceu compreender imediatamente. Sua expressão endureceu antes que ele assentisse lentamente.
— É... você tem razão. Se alguém que estiver no grupo do Ryuen cair em uma das armadilhas dele e chegar a zero tokens, será expulso instantaneamente. Pensando assim... é realmente assustador.
— Entre todas as penalidades descritas nas regras, essa é a única que sinto não poder neutralizar ativamente.
Na realidade, sob determinadas condições, havia a possibilidade de outra penalidade revelar suas presas e se mostrar ainda mais devastadora. Mas não havia motivo para mencionar isso agora. Deixei o pensamento passar.
— Não é inútil se preocupar demais com isso? — interrompeu Sanada — Imagino que a escola tenha elaborado as tarefas de forma que os tokens não cheguem a zero tão facilmente.
— O Sanada tem razão — concordou Yoshida — Desde que ninguém faça algo absurdamente estúpido e caia numa armadilha óbvia, tudo ficará bem. Além disso, mesmo que nos preocupemos, não existe uma forma de impedir isso, certo?
— Por enquanto, devemos priorizar descobrir como nosso próprio grupo vai agir — concluiu Sanada.
Concordei com um único aceno. Daqui para frente, meu processo seria o mesmo de sempre. Eu precisava reunir todas as peças espalhadas diante de mim e começar a separá-las entre o que era eficiente e o que não era. Já havia descartado muitas possibilidades desnecessárias, mas ainda me faltavam informações para compreender os verdadeiros objetivos ocultos dos líderes de classe: Horikita, Ichinose e Ryuen.
Eu precisava de mais tempo para analisar completamente as nuances das regras. Enquanto isso, como o professor supervisor do grupo ainda não havia aparecido, deixei meu olhar vagar pelos arredores. Naturalmente, todo o terceiro ano, junto de inúmeros membros da equipe adulta, estava se reunindo às pressas nas proximidades.
Mas eu não estava observando a multidão para descobrir a composição dos dez grupos. Nem tentando memorizar quem estava em qual equipe. Mesmo que conseguisse identificar parte disso apenas observando, sem garantia de precisão não havia muito valor em decorar tais informações.
Meu verdadeiro objetivo era mais simples. Eu procurava uma pessoa específica. E, como esperado, acabei encontrando Hiyori ao longe, conversando alegremente enquanto estava cercada por seus colegas de classe. Se ela estivesse mais perto, talvez eu pudesse chamá-la.
Mas a distância física tornava isso completamente impossível. Parecia que eu realmente estava destinado a não ter nenhuma interação significativa com ela durante este Exame da Ilha Desabitada. Mas não havia motivo para pressa. Quando retornássemos ao navio de cruzeiro, inevitavelmente haveria tempo para conversar.
...
De repente, uma estranha sensação de desconforto surgiu em meus pensamentos.
Isso mesmo. Não havia motivo para pressa. E pensar que eu estava "destinado a não ter nenhuma conexão" com ela também era logicamente incorreto. Era verdade que não conversávamos havia alguns dias, desde que embarcáramos no navio de cruzeiro. Mas alguns dias estavam longe de ser tempo suficiente para justificar uma conclusão tão dramática.
Na verdade, olhando para trás, já havíamos passado períodos muito mais longos sem interagir. Então por que eu estava sendo tomado pela sensação de que fazia uma eternidade desde nossa última conversa?
Não...
Será que o simples fato de eu estar questionando isso já era prova de que havia entrado em um território desconhecido? Seria esse o efeito de perceber que talvez eu tivesse sentimentos por Hiyori? A mudança que isso havia provocado dentro do meu coração?
Dada a atual falta de informações concretas sobre o exame, Hiyori, que pertencia a outra turma e a um grupo completamente diferente, não passava de ruído estático. Sua existência não tinha qualquer relevância dentro da estrutura estratégica que eu estava construindo naquele momento.
E, ainda assim, meus olhos a seguiam. Inconscientemente, acompanhavam o contorno distante de seu perfil. Mesmo depois que percebi o que estava fazendo, nada mudou. Era uma ação sem sentido.
O tempo gasto com aquilo não servia a nenhum propósito prático. Mesmo assim, em algum lugar dentro daquela inutilidade, havia uma leve sensação de entusiasmo. Se esse sentimento realmente fosse amor, então Karuizawa já havia me olhado da mesma forma? Ela sentira algo parecido quando seus olhos me acompanhavam?
O romance era um livro didático que eu falhara em compreender na primeira leitura. Mas, ao revisá-lo, eu começava gradualmente a perceber todos os detalhes sutis que haviam passado despercebidos da primeira vez.
Que tipo de emoção nascia ao conversar com a pessoa de quem se gosta?
O que surgia ao tocá-la?
Minha curiosidade também não se limitava apenas aos sentimentos positivos. Que emoções nasceriam dentro de mim se eu fosse odiado por essa mesma pessoa? Ou se eu a perdesse completamente?
Eu queria experimentar ambos os extremos:
O calor do afeto.
E o frio da rejeição.
Amor e ódio.
Talvez, porém, fosse tolice desejar os dois ao mesmo tempo. Talvez fosse importante não ser ganancioso. Talvez não se pudesse aprender tudo através de um único romance. Se fosse impossível alcançar ambos, então experimentar qualquer um deles já seria suficiente...
— O que foi, Ayanokoji? Tem alguma coisa te incomodando?
Yoshida, que momentos antes conversava com Sanada, voltou sua atenção para mim.
— Não, nada em particular. Por que pergunta?
— Bem, não exatamente por algum motivo específico...
Ele olhou na direção para a qual eu estava encarando e depois voltou os olhos para mim.
— Você estava olhando para longe. Pensei que talvez tivesse percebido algo com que deveríamos nos preocupar.
— Afinal, acabamos de sair do Exame Especial do Jogo de Sobrevivência — respondi naturalmente. — Acho que estou apenas um pouco cansado. Mas, considerando que Shiraishi e Yamamura ainda estão dando tudo de si, não posso exatamente ser o primeiro a desistir.
Após uma breve pausa, decidi conduzir a conversa para um assunto mais útil.
— Neste momento, ainda não temos o quadro completo. Não sabemos o número exato de tarefas nem quantos tokens realmente poderemos obter. Aconteça o que acontecer, não revelem informações sobre seus tokens para ninguém de fora.
— Nem mesmo para aliados, certo? Ouvi isso do Hashimoto — disse Yoshida.
— Certo. E, por enquanto, também gostaria de evitar conflitos desnecessários com as outras turmas. Se pretendemos buscar o primeiro lugar neste grupo, como você espera, a cooperação com alunos das outras classes será inevitável.
— Acho que é verdade — comentou Sanada. — Mas fico me perguntando o que o outro lado pensa disso. Tenho certeza de que eles querem os Pontos Privados, mas provavelmente também não querem que nossa turma vença. Talvez acabem sabotando as coisas de propósito.
— Mesmo que façam isso, os líderes das outras três turmas estão enfrentando exatamente o mesmo dilema. O desejo de não entregar uma vitória para outra classe sempre estará presente.
Sanada e Yoshida trocaram um breve olhar. Eles entenderam rapidamente a lógica por trás das minhas palavras.
— Entendi o que você quer dizer — falou Yoshida. — Enfim, é só nos chamar quando precisar.
Assenti uma única vez, deixando que minha expressão transmitisse minha gratidão. Satisfeito com minha explicação conveniente, Yoshida deu um leve tapinha nas minhas costas.
— Não hesite em procurar a gente se precisar de ajuda.
— Sim, farei isso.
Com essa resposta, finalmente afastei meu olhar de Hiyori. Por enquanto, tudo em que eu precisava me concentrar era em superar este Exame Especial.
Todo o resto podia esperar.
*
Por volta do mesmo momento em que Ayanokoji fazia seu primeiro contato com o Grupo 3, Horikita, designada ao Grupo 8, também vivia seu próprio encontro cara a cara. Uma suave brisa marítima agitava brincalhonamente os longos cabelos rosados da garota diante dela.
Um sorriso caloroso adornava seus lábios enquanto falava.
— Conto com você, Horikita-san.
— Eu sabia que havia uma boa chance de líderes de turma acabarem no mesmo grupo, mas nunca imaginei que seria justamente você, Ichinose-san.
Por dentro, Horikita suspirou de alívio. Entre os três líderes rivais, Ichinose era, de longe, a mais fácil de lidar. Não porque fosse uma adversária fraca. Mas porque havia uma certeza absoluta: Ter Ichinose Honami como aliada traria uma sensação imensa de estabilidade para o grupo.
Este exame especial certamente continha um elemento de competição entre classes. No entanto, também atribuía enorme importância aos resultados obtidos por cada grupo como um todo.
Nesse aspecto, a presença de Ichinose praticamente garantia que o grupo seguiria uma direção positiva.
— Se fosse uma competição puramente entre turmas, talvez fosse um pouco complicado — disse Ichinose. — Mas, olhando para as regras, cooperar como grupo claramente traz benefícios mútuos. É uma configuração muito favorável. Se você e eu unirmos forças, Horikita-san, talvez consigamos conduzir nosso grupo a uma vitória segura e estável.
Parecia que Ichinose estava pensando exatamente a mesma coisa. Ainda assim, ao observá-la, Horikita percebeu uma intensidade silenciosa e poderosa que não existia antes. Como inimiga, essa nova força seria um pesadelo. Como aliada, tornava-a incrivelmente confiável.
— É verdade — respondeu Horikita. — Como líderes, espera-se que garantamos a vitória do grupo. Em circunstâncias normais, estaríamos tentando descobrir as intenções ocultas uma da outra. Em vez disso, vamos cooperar e buscar a melhor colocação possível... suponho que estamos de acordo quanto a isso?
Escolher cooperar ou se opor mudaria tudo. Era possível enviar tokens para outros grupos, enfraquecendo deliberadamente o próprio grupo para impedir que outra turma lucrasse. Dependendo da política adotada, o total de tokens conquistados pelo grupo poderia variar drasticamente.
— Claro — respondeu Ichinose alegremente. — Se nosso grupo ficar em primeiro lugar, cada uma de nós receberá cem Pontos de Classe. É o resultado ideal para ambas. E não será apenas por minha parte; se necessário, pedirei firmemente a cooperação total de todos os alunos da Classe D. Isso funciona para você?
— Aceito sua oferta com prazer — respondeu Horikita. — Da nossa parte, também pretendo unir meus colegas em torno da política de maximizar com segurança o total de tokens do grupo. Embora, naturalmente, isso dependa muito dos movimentos da Classe B e da Classe C, cujas cartas ainda não vimos.
Alunos das outras turmas começaram a aparecer aos poucos. No entanto, não havia sinal nem de Ayanokoji nem de Ryuen. Hipoteticamente, se os quatro líderes de turma tivessem acabado no mesmo grupo, cooperar para maximizar o total de tokens seria algo simples.
Porém, uma configuração dessas beneficiaria pouco além da Classe A, que já estava na liderança. Um exame especial tão valioso representava uma oportunidade rara para ampliar a diferença entre as classes. Mas, se todos os líderes simplesmente trabalhassem juntos no mesmo grupo, essa oportunidade perderia boa parte de seu valor desde o início.
— Parece que chegar a um entendimento mútuo e buscar o primeiro lugar será mais fácil do que eu esperava — observou Horikita. — No entanto, existe uma questão crítica que tanto você quanto eu devemos tratar como prioridade absoluta.
— Como lidar com as expulsões... certo?
Os olhares das duas se encontraram. Horikita assentiu firmemente. Já estava estabelecido que este Exame Especial resultaria em expulsões.
Pior ainda, uma delas era obrigatória. Alguém inevitavelmente teria de arcar com essa penalidade. As únicas formas de impedir que um aluno fosse expulso eram possuir convenientemente um Ponto de Proteção ou pagar a quantia exorbitante de vinte milhões de Pontos Privados.
— Horikita-san — disse Ichinose com firmeza. — Eu não permitirei, sob hipótese alguma, que um único colega meu seja expulso. Se conquistar o primeiro lugar em tokens exigir o sacrifício de um companheiro, escolherei salvar meu aliado sem hesitar.
A mensagem implícita pairava claramente no ar: Se você tem algum problema com isso, diga agora. Recebendo aquela declaração com serenidade, Horikita respirou fundo antes de responder.
— Concordo. Também não tenho intenção de sacrificar meus colegas.
— Então suponho que isso nos torne aliadas capazes de dar as mãos e seguir na mesma direção, certo?
— Isso se você estiver disposta a confiar em mim.
Horikita sabia muito bem que não inspirava nem de longe o mesmo nível de confiança e boa vontade que Ichinose. Ela conhecia sua posição. Neste momento, era ela quem precisava provar que merecia ser confiada.
— Então parece que não teremos problemas!
Abrindo um sorriso brilhante e inabalável, Ichinose estendeu a mão.

Ao ver a postura decidida de Ichinose, sem qualquer hesitação, Horikita não pôde evitar um suspiro silencioso de admiração.
Ao longo dos últimos dois anos, Ichinose havia enfrentado inúmeras tempestades apoiando-se puramente no poder da confiança, e seu histórico falava por si só. Horikita já havia sentido isso indiretamente em diversas ocasiões, mas estar ao lado dela no mesmo grupo tornava essa força incrivelmente nítida e reconfortante.
Em circunstâncias normais, ninguém deveria confiar tão facilmente em um rival. Ainda assim, Horikita percebeu que sua mente chegava naturalmente à conclusão de que Ichinose era alguém em quem podia acreditar. Claro, essa confiança não era absoluta. A possibilidade de traição, por mais remota que fosse, jamais poderia ser completamente descartada.
Mas o simples fato de Ichinose conseguir inspirar inconscientemente um pensamento tão firme — fazer alguém sentir que, se eu for traída por Ichinose, então que seja — já era algo impressionante por si só.
— Antes de apertar sua mão, há mais uma coisa...
Fitando os dedos finos e elegantes de Ichinose, Horikita decidiu ir direto ao ponto.
— Sacrifícios são praticamente inevitáveis neste exame. No entanto, estamos concordando que nenhuma das nossas turmas sofrerá expulsões e que faremos tudo ao nosso alcance para garantir isso. Manter essa política significa que, por eliminação, alguém da turma do Ryuen-kun ou do Ayanokoji-kun acabará sendo empurrado para a expulsão. Você está preparada para isso?
Diante da pergunta incisiva, Ichinose fechou os olhos por um instante e soltou uma risada suave.
— É verdade que a antiga eu provavelmente não teria concordado tão facilmente — admitiu. — Mas eu não hesito mais. Pode ficar tranquila, Horikita-san. Não tenho intenção de pegar leve com as classes rivais se isso significar proteger meus amigos.
Horikita sustentou aquele olhar direto e inabalável.
— Entendo. Parece que você cresceu muito mais do que eu imaginava enquanto eu não estava olhando, Ichinose-san.
Horikita sempre a reconhecera como uma adversária formidável. Ainda assim, em algum lugar do seu íntimo, continuava subestimando Ichinose Honami. Ser uma pessoa genuinamente boa normalmente significava carregar fraquezas inerentes.
Proteger uma turma inteira não era algo simples. Tanto Horikita quanto Hirata haviam tentado inúmeras vezes alcançar esse ideal e fracassado. No entanto, apesar de todas as dificuldades, Ichinose continuava protegendo seus colegas até hoje, sem perder sequer um deles.
— Eu sinto exatamente o mesmo sobre você, Horikita-san — respondeu Ichinose com suavidade. — Você é muito mais formidável agora do que quando entramos nesta escola.
— Não sei quanto a isso. Pessoalmente, sinto que ficou mais difícil agir agora que tenho mais coisas para proteger...
Ela interrompeu o próprio pensamento antes de continuar.
— Mas, mais importante, há algo que me incomoda desde que ouvimos a explicação deste Exame Especial. Garantir que os tokens dos nossos aliados não cheguem a zero exigirá uma certa dose de sorte. O que você acha disso?
— Você percebeu a relação entre a quantidade de tokens iniciais e o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência?
— Sim — respondeu Horikita. — Os alunos que permaneceram mais tempo no exame anterior parecem ter recebido mais tokens. Claro, não confirmei isso com todos os meus colegas, então não posso afirmar com certeza...
Após uma breve pausa, acrescentou que sua conclusão se baseava apenas nos relatos de alguns alunos eliminados em momentos diferentes.
— Essa também é a minha avaliação — disse Ichinose. — Em outras palavras, podemos dizer que temos uma pequena vantagem sobre as turmas do Ayanokoji-kun e do Ryuen-kun, já que ambas sofreram muitas eliminações precoces.
— Sua turma teve alunos que permaneceram até o final. Se essa conclusão puder ser tirada a partir do maior número de tokens entre eles, então provavelmente você está certa. No entanto, simplesmente possuir um grande total de tokens como classe não significa necessariamente que tudo correrá a nosso favor.
No fim das contas, como os alunos haviam sido distribuídos aleatoriamente, um alto total de tokens apenas criaria diferenças entre os grupos ou, no máximo, proporcionaria vantagem em disputas individuais.
— Mas possuir muitos tokens como turma faz uma enorme diferença na frequência com que podemos transmitir informações pelos rádios — contrapôs Ichinose. — Se você e eu cooperarmos para administrar cuidadosamente nossos tokens, Horikita-san, poderemos monitorar constantemente os alunos cujas quantidades estiverem perigosamente baixas. Excluindo o Grupo 10, que não possui dezesseis membros completos, teremos oito pessoas em cada grupo capazes de transferir tokens e cobrir umas às outras.
— Entendo... Você está sugerindo que todos os grupos fora do nosso Grupo 8, que buscará estritamente o primeiro lugar, atuem apenas para evitar baixas? Os tokens transferidos se tornam Back-side, o que reduz seu valor para recompensas individuais. Mas, do ponto de vista do nosso grupo, isso também significa que os grupos rivais que precisamos derrotar inevitavelmente ficarão para trás.
Normalmente, coordenar duas turmas distintas sob uma estratégia tão unificada seria extremamente difícil. Antes de tudo, exigiria que os alunos dos outros nove grupos abandonassem completamente qualquer esperança de conquistar a Recompensa Especial.
Talvez a Classe de Ichinose, unida quase como um único organismo, aceitasse essa proposta. Mas convencer todos os alunos da turma de Horikita a engolirem isso seria praticamente impossível.
— É uma ideia interessante — disse Horikita —, mas significa obrigar alunos de outros grupos, que talvez fossem perfeitamente capazes de realizar uma grande virada, a sacrificar suas chances. Na verdade, os grupos completamente livres da influência do Ryuen-kun e do Ayanokoji-kun não seriam justamente aqueles com maiores possibilidades de conquistar uma vitória surpresa?
Essa troca de opiniões destacava perfeitamente a diferença fundamental entre as duas. Ichinose queria lutar com foco defensivo, priorizando a sobrevivência coletiva. Horikita queria manter certa consciência ofensiva, procurando oportunidades para vencer.
Mesmo tendo concordado em cooperar, Horikita não conseguia afastar o forte pressentimento de que este Exame Especial seria repleto de dificuldades.
— Você tem razão — concordou Ichinose suavemente. — Tenho certeza de que nem sempre veremos as coisas da mesma forma. Mas este exame dura quatro dias e três noites. Vamos discutir tudo com calma e decidir nosso rumo conforme avançamos, Horikita-san.
— Verdade. Ainda não sabemos em que consistem as tarefas nem como os tokens circularão na prática. Não há motivo para nos precipitarmos.
— Certo, então. Vou falar com todos do grupo.
Após uma educada reverência, Ichinose se despediu e se afastou. Sozinha, a uma curta distância, Horikita observou enquanto ela cumprimentava alegremente alunos das outras classes.
— Eu sei que não há necessidade de me apressar, mas...
Sua mente voltou para uma conversa preocupante que tivera com Sudou logo após o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência.
"Pode haver um traidor na nossa turma."
Ele lhe contara que, durante a batalha da Classe A, os adversários haviam ignorado completamente sua presença, apesar da enorme ameaça física que ele representava no campo de batalha, para concentrar todos os ataques em Satou, a VIP deles.
Se Horikita fosse a comandante inimiga, teria eliminado Sudou primeiro sem a menor hesitação. Se os adversários haviam focado exclusivamente em Satou… E se alguém estivesse manipulando tudo pelas sombras...
— Será que realmente existe alguém vazando informações da nossa turma...?
Seu olhar vagou até encontrar, ao longe, a figura de Ayanokoji. Ao redor dele estavam quatro alunos da Classe A: Wang, Shinohara, Ike e Kushida. Antes mesmo do fim do primeiro semestre, as quatro classes já haviam alcançado um delicado equilíbrio de forças.
Se todos os assuntos internos estivessem realmente vazando, então qualquer estratégia ou informação compartilhada por Horikita com seus colegas inevitavelmente acabaria chegando aos ouvidos de Ayanokoji.
Se isso acontecesse, eles seriam forçados a travar outra batalha extremamente difícil neste Exame Especial. E assim, como uma pequena brasa teimosa, aquela ansiedade sombria continuava queimando silenciosamente dentro de seu peito.
*
Antes mesmo que o cansaço do Exame Especial do Jogo de Sobrevivência pudesse desaparecer, um novo Exame Especial já havia começado. Enquanto Mashima explicava as regras, Ryuen já revirava inúmeras estratégias em sua mente.
Desde que ingressara naquela escola, enfrentara todos os obstáculos com confiança absoluta em seu próprio julgamento. Mas, ultimamente, não importava a hora ou a situação, a imagem fantasmagórica de Ayanokoji parecia surgir constantemente no fundo de seus pensamentos.
Táticas ortodoxas. Planos pouco convencionais. Ou até mesmo métodos que quebravam as regras sem qualquer pudor. Ayanokoji enxergaria através de tudo isso e ainda sairia vencedor.
Ryuen percebeu que estava admitindo derrota antecipadamente diante de um futuro que sequer havia acontecido. Se fosse apenas uma disputa intelectual, ele teria inúmeras maneiras de contra-atacar.
Mas Ayanokoji também possuía uma força física monstruosa. A lembrança do confronto com pistolas de tinta atravessou sua mente, arrancando dele um estalo irritado de língua.
— Aconteceu alguma coisa, Ryuen-shi? Algo o desagradou?
Kaneda, que havia sido colocado no mesmo grupo que ele, pareceu notar aquele pequeno som. Enquanto os demais participantes começavam a se reunir, dirigiu a palavra a Ryuen.
— Eu só estava pensando naquele desgraçado do Ayanokoji. Não se preocupe com isso.
— Então tem relação com Ayanokoji-shi. Entendo.
Se fosse deixado agir livremente, Ayanokoji provavelmente levaria seu grupo ao primeiro lugar em número total de tokens. Somando isso à Recompensa Especial individual, a Classe C poderia conquistar até duzentos Pontos de Classe. Além disso, a enxurrada de Pontos Privados lhes concederia um grau de liberdade ainda mais perigoso.
A confortável vantagem que a turma de Ryuen mantivera até então havia evaporado completamente durante a primeira metade do exame da ilha desabitada. Mesmo que os rebaixamentos oficiais de classe só entrassem em vigor no mês seguinte, eles já haviam perdido Pontos de Classe suficientes para cair provisoriamente da Classe B para a Classe C.
Pior ainda, a diferença para a turma de Ayanokoji, que estava na última posição, agora era mínima. Em resumo, era uma batalha que eles simplesmente não podiam se dar ao luxo de perder.
Por outro lado...
O mesmo poderia ser dito do Exame Especial anterior.
Como exatamente ele deveria superar Ayanokoji?
Ayanokoji sem dúvida arrecadaria uma quantidade enorme de Front-side. A verdadeira questão era se Ryuen conseguiria superar esse total. Se vencê-lo diretamente em pontuação se mostrasse impossível, então derrotá-lo na classificação do grupo para garantir o multiplicador de tokens seria absolutamente indispensável. Esse era o requisito mínimo para que Ryuen conquistasse a vitória.
Havia também a penalidade de expulsão, acionada no momento em que a contagem de tokens de um aluno chegasse a zero. Por mais monstruoso que Ayanokoji fosse, ele não poderia proteger todos os seus colegas de classe vinte e quatro horas por dia. Se Ryuen conseguisse assumir o controle total do grupo, eliminar um único aluno da Classe C estaria perfeitamente ao seu alcance.
Deixando o olhar percorrer a área, Ryuen avistou Ayanokoji a certa distância. Yoshida estava bem ao lado dele, conversando sobre alguma coisa, mas o garoto sequer entrou no campo de visão de Ryuen.
Ayanokoji encarava outra direção, com os olhos tão apáticos quanto de costume.
— Que diabos aquele desgraçado está olhando...?
Só porque os pensamentos e emoções de Ayanokoji estavam escondidos atrás de uma muralha impenetrável não significava que Ryuen desistiria de tentar entendê-lo. Para encontrar uma brecha, ele não tinha escolha a não ser atacar como uma serpente, cravando as presas até mesmo nas pistas mais triviais.
Assim, Ryuen seguiu a linha do olhar de Ayanokoji. Normalmente, determinar exatamente para onde alguém estava olhando à distância era quase impossível, especialmente com tantos alunos agrupados tão próximos uns dos outros. Ainda assim, Ryuen percebeu imediatamente. No fim da trajetória daquele olhar inabalável estava a figura de Shiina Hiyori.
— Ryuen-kun, parece que estamos no mesmo grupo.
Uma voz quebrou sua concentração justamente quando ele tentava dissecar os pensamentos de Ayanokoji.
— Que diabos você quer?
Voltando seu olhar afiado para o intruso, Ryuen encontrou Hirata Yosuke parado bem à sua frente.
— Gostaria de fazer um pedido desde já — disse Hirata. — Não quero que ninguém deste grupo seja expulso.
— Hah, você tem um faro bem aguçado — zombou Ryuen. — Mas esse é um desejo que eu não vou realizar, Hirata. Afinal, esta é a oportunidade perfeita para expulsar alguém da sua preciosa Classe A. Não pense que você é o único sentado em segurança.
— Se quiser me tomar como alvo, não pretendo impedi-lo — respondeu Hirata com calma. — Mas, se planeja expulsar qualquer outro aluno da Classe A... ou da Classe C, nesse caso, então vou ter que fazê-lo me ouvir.
Hirata havia interpretado corretamente o clima da situação. Apenas pelo olhar de Ryuen, sabia que a Classe A nem sequer estava em seu radar; Ryuen estava ativamente procurando uma presa na Classe C. Era exatamente por isso que suas palavras carregavam uma implicação tão direta.
— Não tenho motivo nenhum para receber ordens sobre quem devo atacar — retrucou Ryuen com desdém. — Ou o quê? Tem algo para oferecer em troca de eu deixar esses peixes pequenos em paz?
— Bem, suponho que eu possa cooperar ativamente, mesmo atravessando as fronteiras entre as classes. Você é um líder de classe, Ryuen-kun, o que significa que uma vitória para o nosso grupo também é uma vitória para a Classe B.
— Não consigo pensar em uma única razão para um cara da Classe A querer me ajudar.
— É simples. Podemos evitar expulsões desnecessárias. Para mim, esse é o maior benefício.
— Parece que você tem a mesma personalidade irritante da Ichinose.
— Não me importo com o que pensa de mim. Só quero resolver as coisas pacificamente.
Em vez de chegar a uma conclusão precipitada, Ryuen parou para avaliar a credibilidade das palavras e da postura de Hirata, considerando cuidadosamente qual caminho serviria melhor aos seus objetivos.
Mesmo que levasse os tokens de alguém a zero e forçasse uma expulsão da Classe C, isso não passaria de um ato mesquinho de provocação contra Ayanokoji. Não impactaria diretamente a posição de sua própria classe nem renderia qualquer ponto. Além disso, poderia se argumentar que qualquer aluno descuidado o suficiente para deixar seus tokens chegarem a zero já era um peso morto. Fazer um esforço para eliminá-lo, especialmente ao custo de transformar Hirata em inimigo, tinha pouquíssimo valor estratégico.
Por outro lado, se a oferta de cooperação de Hirata fosse genuína, ela representaria uma vantagem considerável.
Observando os outros alunos que se reuniam para formar o grupo, Hirata continuou:
— Considerando as penalidades severas deste Exame Especial, sei que não seria impossível para você armar uma armadilha e expulsar alguém da Classe C, Ryuen-kun. No entanto, a única razão pela qual mantém aberta a possibilidade de atacar uma classe inferior é causar dano a Ayanokoji-kun. Mas, mesmo que pudesse eliminar livremente uma das quatro pessoas do nosso grupo... ou melhor, uma pessoa da Classe C, isso não o afetaria de verdade. Você não estaria marcando um ponto real contra ele, estaria?
Era uma verdade simples. Se Ayanokoji estivesse no mesmo grupo e Ryuen conseguisse destruir sua estratégia em um confronto direto antes de expulsar um aluno da Classe C, isso sem dúvida seria uma vitória gigantesca. Mas, sob as regras atuais, existiam inevitáveis pontos cegos onde eles não poderiam observar um ao outro. Acertar um golpe barato enquanto o demônio estava ausente não era motivo de orgulho.
— Se for assim, talvez isso apenas prove que você é um peixe pequeno — acrescentou Hirata.
— Não me faça rir.
Decidindo adiar sua decisão final, Ryuen devolveu a provocação.
— Você quer proteger esse grupo improvisado tão desesperadamente que está disposto até a me provocar? Então vai ter que provar isso com ações primeiro.
Ele calculou que, se Hirata pudesse realmente atuar como aliado em vez de inimigo neste Exame Especial, seu valor estratégico seria imenso. Como se já esperasse essa exigência desde o início, Hirata assentiu uma única vez, de forma firme.
— Eu sei.
Pelo canto do olho, Ryuen percebeu a expressão rígida de Hirata — tão diferente da imagem que tinha dele até então que, pela primeira vez, sentiu nele um leve traço de intenção assassina.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag
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