A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 3 - Volume 4

Capítulo 2: De uma Pequena Fissura

JÁ PASSAVA DAS cinco da tarde. Mesmo com o pôr do sol tardio do auge do verão, não havia como negar que o crepúsculo começava a cair sobre a ilha.

Ainda assim, longe de se recuperarem do desgaste do Jogo de Sobrevivência, alguns estudantes foram diretamente para outro exame especial, carregando consigo todo o cansaço acumulado. À medida que o horário de início da prova se aproximava, os supervisores finalmente fizeram sua aparição.

— Meu nome é Urushibara — anunciou calmamente um dos adultos ao dar um passo à frente. — Serei o supervisor do Grupo 3. Conto com a colaboração de todos vocês.

Era um homem que eu nunca tinha visto antes. Após se apresentar, ele imediatamente começou a conferir a presença com eficiência profissional. Dos dez grupos, aparentemente quatro haviam recebido professores regentes do terceiro ano como supervisores.

Urushibara fazia parte dos seis restantes. Depois de confirmar que todos estavam presentes, ele prosseguiu sem demora.

— Neste exame especial, vocês enfrentarão uma variedade de tarefas para adquirir tokens. Essas tarefas são divididas em três categorias distintas, então peço que prestem atenção enquanto explico. As três categorias são: Individual, Grupo e Equipe.

— A categoria Individual é a mais simples de entender. São atividades atribuídas aos alunos de forma individual. Vocês podem competir sozinhos contra alguém do próprio grupo ou contra um estudante de outro grupo.

— Em seguida, temos a categoria Grupo. Nela, os dezesseis membros aqui reunidos deverão trabalhar juntos para cumprir tarefas propostas pela escola ou competir diretamente contra outros grupos inteiros.

— Por fim, a categoria Equipe. Nessa modalidade, o grupo será subdividido de acordo com a turma de cada aluno. Em outras palavras, os estudantes da mesma classe formarão unidades menores dentro do grupo. Como essas tarefas possuem regras mais específicas, as explicações detalhadas serão fornecidas quando elas forem realizadas.

Depois de confirmar que todos estavam acompanhando sem dificuldades, o supervisor, Urushibara, continuou.

— Muito bem. Agora, gostaria de explicar como os tokens serão concedidos. Porém, antes disso, cada turma dentro do grupo deverá escolher um "representante".

Até aquele momento, nem a explicação do professor Mashima nem os materiais escritos haviam mencionado qualquer representante. Ao ouvirem falar dessa função pela primeira vez, os estudantes trocaram olhares confusos.

— Ser representante traz alguma vantagem? — perguntou Sonoda da Classe B cautelosamente. — Na verdade... se também houver desvantagens, eu prefiro saber agora.

Mesmo consciente dos colegas ao redor, Sonoda tomou a iniciativa e fez a pergunta.

— Não — respondeu Urushibara com tranquilidade. — Não existem vantagens ou desvantagens específicas associadas ao cargo em si. Contudo, o sistema foi estruturado de modo que todos os tokens obtidos por uma turma sejam inicialmente concedidos em bloco ao representante dessa turma.

Uma onda de perplexidade percorreu o grupo.

— Isso se tornará relevante nas categorias Grupo e Equipe — continuou ele. — Por exemplo, suponham que a Classe A conquiste dez tokens em uma tarefa dessas categorias. Se Ike-kun tiver sido escolhido como representante da Classe A, então todos os dez tokens serão entregues primeiro a ele.

Até aquele momento, todos os estudantes presentes, inclusive eu, haviam naturalmente presumido que os tokens conquistados seriam distribuídos diretamente aos participantes. Essa premissa fundamental acabava de ser completamente derrubada.

Havia uma enorme diferença entre os tokens serem entregues individualmente ou ficarem concentrados nas mãos de um representante.

— Hã? Que diabos isso quer dizer? — Ibuki retrucou imediatamente. Ao perceber o quão estranho era aquele sistema, lançou um olhar desconfiado para Urushibara. — Então, se quisesse, o representante poderia simplesmente ficar com todos os tokens para si?

— A escola não pretende incentivar esse tipo de comportamento — respondeu Urushibara de forma serena. — No entanto, dentro das regras, isso é tecnicamente possível. Afinal, o nível de contribuição em cada tarefa pode variar bastante, então talvez seja necessário que cada turma discuta internamente como os tokens devem ser redistribuídos depois. Nesse sentido, o cargo de representante exige certo grau de integridade.

O supervisor apresentou uma justificativa aparentemente razoável, mas aquela configuração fazia os riscos dispararem. Exatamente como Ibuki temia, concentrar toda a administração dos tokens nas mãos de um representante significava que não havia garantia alguma de que eles chegariam aos estudantes que realmente os conquistaram.

A única exceção parecia ser a categoria Individual. Mas, supondo que as recompensas das três categorias fossem distribuídas de maneira relativamente equilibrada, isso significava que um aluno teria controle direto sobre apenas cerca de um terço dos tokens relacionados à sua própria sobrevivência.

— Entretanto, há um ponto importante que todos precisam compreender sobre os Tokens Front-side e Back-side — prosseguiu Urushibara.

— Qualquer token obtido na categoria Individual será, sem exceção, considerado um token front-side. Já os tokens adquiridos nas categorias Grupo e Equipe funcionam de forma diferente. O total obtido em uma determinada tarefa será primeiro dividido de acordo com o número de participantes envolvidos. Por exemplo, suponham que uma tarefa da categoria Grupo conceda quarenta e oito tokens. Como há quatro turmas representadas no grupo, cada representante receberia temporariamente doze tokens. Contudo, como o grupo é composto por dezesseis alunos, apenas três desses doze tokens por estudante poderão ser considerados legitimamente como tokens front-side. Esse número passa a ser o limite máximo reconhecido como contribuição individual válida. Se um estudante recebesse quatro tokens nessa situação, um deles automaticamente se tornaria um token back-side. O direito de possuir tokens front-side não expira e continua se acumulando ao longo do tempo. Portanto, não existe qualquer desvantagem relacionada ao momento em que os representantes decidirem distribuí-los.

Em termos simples, as regras funcionavam da seguinte maneira:

Regras de Distribuição de Tokens

Categorias de Tarefas: Individual, Grupo e Equipe

Tarefas Individuais: Todos os tokens obtidos pessoalmente são considerados tokens front-side.

Tarefas de Grupo ou Equipe: Todos os tokens conquistados passam primeiro pelo representante da turma.

O número máximo de tokens front-side que pode ser distribuído é determinado por: Total de Tokens Obtidos ÷ Número de Participantes

Qualquer token distribuído acima desse limite torna-se automaticamente um token back-side.

Direitos dos Tokens Front-side: A elegibilidade para tokens front-side se acumula ao longo do tempo.

Os representantes são livres para escolher quando realizar a distribuição.

(N/SLAG: Para quem ainda está perdido, vou explicar de maneira bem mais simples: Tarefas individuais: todos os tokens recebidos são front-side. Em tarefas de grupo/equipe: limite de front-side = total de tokens ÷ número de participantes (ex.: 48 ÷ 16 = 3); qualquer valor acima disso vira back-side.)

— Essa regra é uma porcaria — murmurou Ibuki.

A distinção entre tokens front-side e back-side provavelmente existia para impedir que os representantes monopolizassem todos os tokens obtidos e corressem sozinhos em direção à Recompensa Especial.

Mas, mesmo com essa salvaguarda, os privilégios concedidos aos representantes eram enormes, muito maiores do que o tom casual de Urushibara fazia parecer.

Eles controlavam a distribuição dos tokens ligados às recompensas em Pontos Privados e, potencialmente, poderiam até evitar a expulsão caso terminassem na última posição.

Urushibara também esclareceu que quaisquer sobras indivisíveis resultantes das divisões seriam simplesmente descartadas. Assim, mesmo que fossem obtidos 41 tokens, ao dividi-los entre quatro pessoas o limite de tokens de frente continuaria sendo de apenas 10 por aluno da turma. O token excedente não aumentaria esse teto de forma alguma.

— Muito bem — disse Urushibara. — Agora discutam entre vocês e decidam quem será o representante de cada turma. Se não chegarem a uma decisão dentro do tempo estipulado, será realizada uma votação entre os membros da respectiva equipe.

— Então eles estão deliberadamente concentrando o controle dos tokens nas mãos de uma única pessoa — comentou Sanada com expressão sombria. — Do ponto de vista dos alunos, essa regra parece quase inteiramente desfavorável.

— Parece que estão tentando provocar conflitos internos — acrescentou Yoshida.

Na verdade, provavelmente era exatamente essa a intenção. No fundo, o exame estava testando se os colegas eram capazes de confiar uns nos outros. E se a pessoa que recebesse essa confiança realmente seria capaz de corresponder a ela.

— Não sei quem vai acabar virando representante — disse Ibuki, estreitando os olhos —, mas é melhor garantir que meus tokens sejam entregues corretamente.

A regra já havia plantado a desconfiança nela. Sem se preocupar em escondê-la, direcionou aquela suspeita diretamente aos seus próprios colegas da Classe B. Katsuragi respondeu com sua habitual calma.

— Em condições normais, isso não deveria se transformar em uma situação em que alguém tente prejudicar outra pessoa. E, para garantir que não escolhamos alguém assim como representante, devemos decidir por um método justo.

Em outras palavras, uma simples votação por maioria. Era o método de seleção mais direto e aceitável. Enquanto isso, as outras turmas já começavam a se movimentar por conta própria.

— Acho que eu vou ser a representante — declarou uma voz firme e intimidadora entre os membros da Classe A. — Tudo bem para você, Mii-chan?

A voz era de Shinohara.

— S-Sim, eu não me importo, mas...

Mii-chan assentiu, parecendo um pouco confusa, mas sem demonstrar qualquer intenção de se opor à candidatura de Shinohara. Ela não era do tipo que gostava de chamar atenção. Se outra pessoa estava disposta a assumir a responsabilidade, provavelmente achava melhor simplesmente deixá-la fazê-lo.

— A Mii-chan também concordou — disse Shinohara, exibindo um sorriso confiante. — Então parece que não há problema. Ela agiu como se uma única opinião hesitante já fosse suficiente para garantir o cargo.

— Hum... — começou Mii-chan, percebendo instintivamente que seu voto estava prestes a ser tratado como uma decisão definitiva. — Não deveríamos perguntar ao Ike-kun e à Kushida-san também...?

Mas Shinohara sequer lhe deu atenção. Naquele exame especial, terminar na última posição em número de tokens estava diretamente ligado à expulsão. Quando se pensava alguns passos à frente, ainda havia razões para questionar se Shinohara ou até mesmo Ike deveriam ser escolhidos tão facilmente como representantes.

Kushida provavelmente também compreendia isso. Justamente por entender a situação, devia saber que simplesmente se deixar levar, como Mii-chan estava fazendo, seria extremamente arriscado.

O breve silêncio que caiu sobre a Classe A era pesado e estranhamente prolongado, incapaz de se dissolver nas conversas das outras turmas ao redor. Antes mesmo que alguém pudesse expressar oposição, o ambiente já havia mudado. Mii-chan alternou o olhar entre Kushida e Shinohara uma vez, antes de baixar os olhos rapidamente.

Talvez simplesmente não estivesse acostumada a estar numa posição em que sua opinião tivesse peso. Ou talvez entendesse perfeitamente o quanto uma única palavra poderia influenciar naquele momento. De qualquer forma, não demonstrou qualquer intenção de responder de maneira decisiva.

Shinohara, por sua vez, não deixou passar nem mesmo aquela pequena hesitação. Antes mesmo de a discussão ter sido realmente concluída, ela priorizou direcionar o fluxo da conversa a seu favor. Sustentou o olhar sem vacilar, exercendo uma pressão silenciosa que deixava pouco espaço para escapar. Aproveitando aquele impulso, voltou imediatamente sua atenção para Kushida.

— Então, o que foi, Kushida-san? — perguntou Shinohara. — Você não me quer como representante? Seria um problema para você se eu assumisse o cargo?

A frase tinha a forma de uma pergunta, mas, na prática, as respostas aceitáveis já haviam sido reduzidas a apenas duas opções. Se Kushida respondesse que sim, um conflito surgiria imediatamente. Se respondesse que não, estaria praticamente cedendo o cargo.

Ao forçá-la a escolher entre essas alternativas, Shinohara claramente tentava assumir o controle da conversa desde o início.

— Bem... não é que isso me causasse algum problema ou algo assim... — respondeu Kushida cuidadosamente. — Mas, na verdade, eu também estava pensando em me candidatar...

Ela expressou sua intenção de maneira modesta, porém firme. Ao ouvir aquelas palavras, entretanto, a expressão de Shinohara endureceu visivelmente.

— Por quê? — perguntou ela. — É porque você não confia em mim?

— Não, não é isso — respondeu Kushida sem hesitar. — Eu simplesmente pretendia me candidatar desde o começo.

— Hmm? — Shinohara soltou uma risadinha. — Porque, sinceramente, parece um pouco que não estão confiando em mim.

Kushida vacilou por apenas um instante diante da pressão. Mesmo assim, continuou rebatendo.

— Mas, se você coloca dessa forma... — respondeu cuidadosamente — isso não significa também que você não confia em mim, Shinohara-san?

Embora parecesse um pouco confusa e pressionada pela intensidade da outra garota, Kushida não parou de argumentar.

— Hã? Mas não é nada disso...

Shinohara sorriu levemente, quase como se estivesse se divertindo. Então elevou um pouco a voz.

— Mas, Kushida-san... você realmente acha que as pessoas podem confiar em você incondicionalmente?

Os grupos ao redor ainda não estavam prestando atenção. Mas, se a conversa se intensificasse mais um pouco, inevitavelmente atrairia os olhares e ouvidos dos demais.

— E-Eu me esforço para conquistar a confiança das pessoas — respondeu Kushida. — Foi justamente por isso que pensei que seria melhor não colocar um peso desnecessário sobre você, Shinohara-san.

Com alunos de outras turmas por perto, Kushida não tinha escolha senão continuar interpretando o papel da habitual Kushida alegre e atenciosa.

E Shinohara entendia isso perfeitamente. Era exatamente por essa razão que podia avançar de forma tão agressiva.

— Peso? O que você quer dizer com isso?

— Administrar todos os tokens parece trabalhoso — explicou Kushida gentilmente. — Mesmo sendo chamado de representante, na prática é como virar uma espécie de encarregada da turma. Achei que talvez fosse melhor eu cuidar disso.

— Isso não é trabalhoso nem um pouco — rebateu Shinohara imediatamente. — Então não precisa se preocupar comigo, Kushida-san. Pode deixar tudo nas minhas mãos.

Então Kushida virou-se ligeiramente.

— Mii-chan... o que você acha?

A pergunta soou quase como um pedido de socorro. Mas, antes que Mii-chan, presa dolorosamente entre as duas, pudesse sequer abrir a boca, a expressão de Shinohara se obscureceu de irritação.

— Você ouviu ela dizer que podia deixar isso comigo, não ouviu? — pressionou Shinohara imediatamente. — Então por que está perguntando de novo? No fim das contas, você realmente não confia em mim, não é?

— Não, não é isso — respondeu Kushida gentilmente. — Eu só queria confirmar adequadamente a opinião de todos...

— Então por que você não pergunta ao Kanji também?

Shinohara soltou um pequeno resmungo enquanto se virava para Ike, completamente convencida de que ele ficaria do seu lado.

— Hum... Ike-kun, o que você acha?

Diminuindo um pouco a distância entre eles, Kushida ergueu os olhos para ele com um olhar quase suplicante.

— Hã? Bem, quer dizer...

No instante em que Kushida lhe lançou aquele olhar, toda a compostura de Ike desapareceu. Mesmo que todos da turma já conhecessem sua verdadeira natureza, Kushida continuava sendo um anjo na superfície. Quando ela o encarava como se estivesse contando com ele, suas bochechas coravam quase imediatamente.

— Bem, a Kikyo-cha... quer dizer, a Kushida também não seria uma má escolha.

— Ei, Kanji...?

O humor de Shinohara azedou na mesma hora. Evidentemente insatisfeita com a reação inesperada dele, agarrou sua orelha esquerda e a puxou com força.

— Ai! Ai, ai, ai! Isso dói, Satsuki!

— Me responda com sinceridade — a voz de Shinohara era doce apenas na aparência. — Entre mim e a Kushida-san, quem é mais adequada para ser representante?

— Claro! Claro! — Ainda gritando de dor, Ike tratou de corrigir sua resposta. — É... é mais seguro deixar isso com a Satsuki!

Sob o olhar descaradamente desconfiado de Shinohara, Ike escolheu a resposta que lhe causaria menos danos.

— Está vendo? — disse Shinohara, voltando-se para Kushida com um ar satisfeito. — Tudo bem assim, não é, Kushida-san?

— Entendido — Kushida fez uma pequena pausa antes de continuar. — Sim. Se todos estão de acordo, então eu também estou.

Ela provavelmente estava profundamente insatisfeita. Mas Shinohara e Ike já controlavam dois votos. Mesmo que Kushida insistisse e conseguisse trazer Mii-chan para o seu lado, o resultado seria apenas um empate, e o representante continuaria indefinido. Pior ainda, depois de contrariar Shinohara de forma tão direta, provocá-la ainda mais seria uma péssima ideia.

Kushida não teve escolha senão recuar. É claro que, naquele momento, nem Shinohara nem Ike provavelmente tinham a intenção de enganar Kushida ou Mii-chan por meio da administração dos tokens. Seus objetivos ainda deviam ser relativamente normais.

Mas isso era apenas porque ainda não haviam sido encurralados. Se, dali em diante, não conseguissem aumentar seus tokens como planejado ou começassem a perdê-los, a autoridade que Shinohara possuía como representante poderia se tornar cada vez mais forte e mais difícil de controlar.

Mais uma vez, ficava evidente o quão importante era o cargo de representante. Provavelmente não havia quase nenhum aluno do terceiro ano que não conseguisse perceber isso. E era precisamente por essa razão que Kushida, mais do que qualquer outra pessoa, precisaria agir com extrema cautela a partir de agora.

— Parece que acabaram escolhendo a Shinohara por lá — murmurou Yoshida depois de ouvir discretamente a conversa. — Bem, se você corre risco de expulsão, é natural querer se tornar representante. Por outro lado, para alguém como Wang ou Kushida, isso deve ser uma verdadeira dor de cabeça.

Sua análise era calma e objetiva.

— Então, o que vamos fazer por enquanto? — continuou Yoshida, aproximando-se e baixando a voz. — Vamos colocar você como representante, certo?

— Vocês estão dispostos a me seguir?

— Claro — Yoshida respondeu sem hesitação. — Fiquei um pouco nervoso durante o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência quando pareceu que poderíamos perder, mas, no fim, terminamos exatamente onde você havia planejado: em segundo lugar. É difícil reclamar disso.

Ele deu de ombros levemente.

— Além disso, você é o líder para este exame. O ideal é que este grupo fique em primeiro lugar.

Ao lado dele, Sanada assentiu imediatamente em concordância.

— Então presumo que isso me torna a representante, correto? — concluiu Morishita.

— Pode ignorar essa aqui — disse Yoshida sem rodeios, apontando o polegar para ela. — Ela não é do tipo que toma a iniciativa.

Morishita estava de braços cruzados, assentindo repetidamente para si mesma, como se tivesse acabado de chegar sozinha a alguma conclusão profunda.

— Creio que a Morishita-san também compreende — acrescentou Sanada, amenizando a situação com sua habitual cortesia — que, entre nós, a melhor opção é confiar essa responsabilidade ao Ayanokoji-kun.

Parecia que estavam deliberadamente me colocando num pedestal, mas não dei muita importância a isso.

— Só quero confirmar uma última coisa — eu disse. — Vocês realmente estão dispostos a deixar isso comigo? Quando eu me tornar representante, poderei distribuir os tokens que conquistarmos da forma que eu quiser. Posso acabar agindo para me proteger.

Yoshida olhou para mim como se a resposta fosse óbvia.

— Você é o esquisito que desceu voluntariamente da Classe A, não é, Ayanokoji? Se fizer algo como nos trair apenas para salvar a si mesmo, no mínimo não poderá continuar sendo o líder da turma. É por isso que confiamos em você. Ou melhor, confiamos na posição que ocupa, uma posição que não permite esse tipo de egoísmo.

Essa era a lógica de Yoshida para me aceitar como representante. Sanada assentiu novamente, demonstrando que concordava. A atitude deles não vinha de uma fé cega. Eles já haviam aceitado o fato de que, se não fossem capazes de confiar plenamente em mim, a turma jamais voltaria a crescer.

— Eu, por outro lado, certamente não confio em você — declarou Morishita. — Mas tudo bem. Vamos tratar isso como um teste para descobrir se você realmente é digno de governar nossa turma.

— Entendido — respondi. — Se Yoshida e Sanada estiverem dispostos a colocar essa responsabilidade em minhas mãos, então cumprirei o papel adequadamente.

Informei a Urushibara que serviria como representante da Classe C e, em seguida, aguardei enquanto as demais equipes concluíam suas decisões.

No final, a Classe A escolheu Shinohara como representante.

A Classe B ficou com Katsuragi. Ibuki parecia longe de estar satisfeita com o resultado, mas, como os outros dois membros o apoiavam, a decisão estava praticamente tomada. Quanto à Classe D, Amikura assumiu o cargo de representante sem enfrentar a menor oposição.

Comparadas ao equilíbrio de poder distorcido que se desenvolvia dentro da Classe A, as demais escolhas pareciam razoáveis.

— Então você vai dividir os tokens de forma justa, certo? — exigiu Ibuki imediatamente, encarando Katsuragi.

— Claro — respondeu Katsuragi calmamente. — Embora eu não possa garantir que a minha definição de justiça seja a mesma que a sua.

— Hã? O que isso quer dizer?

— Isto continua sendo um exame especial — respondeu ele de forma serena. — Eu sou apenas a pessoa encarregada de administrar os tokens coletivos da turma. Pretendo distribuí-los de forma justa, de acordo com a contribuição de cada um. Aqueles que produzirem resultados receberão recompensas proporcionais aos seus esforços. Aqueles que prejudicarem o grupo receberão apenas o mínimo necessário.

Ele sustentou o olhar de Ibuki sem vacilar.

— Se você quer tokens suficientes para evitar a expulsão, então contribua para a turma.

— Tsc... tanto faz.

Uma política muito característica de Katsuragi. Sua ideia de igualdade não era distribuir partes iguais para todos. Era uma justiça baseada em avaliação, na qual a distribuição dos tokens estava diretamente ligada à contribuição individual. Gostassem ou não, a lógica era consistente.

Amikura, por outro lado, parecia adotar a abordagem oposta. Em sua equipe, o desempenho era irrelevante. Quaisquer tokens conquistados pelos quatro seriam divididos igualmente entre todos.

Aquilo também era uma forma de igualdade. Como já existia confiança entre eles e as capacidades de cada integrante eram relativamente equilibradas, provavelmente não havia espaço para que surgissem conflitos.

Então restava Shinohara, a representante da Classe A. Na superfície, sua postura era a mesma de Amikura: distribuição igualitária para todos os membros. Porém, as condições por trás dessa decisão eram completamente diferentes. Em termos de capacidade, Kushida e Mii-chan possuíam uma vantagem muito maior do que a própria Shinohara.

Em outras palavras, Shinohara estava usando a autoridade do cargo de representante para criar uma versão de igualdade que favorecia a si mesma.

*

 

Com os representantes das quatro turmas reunidos, o supervisor deu um passo à frente para se dirigir a nós.

— Muito bem. Sem mais demora, vamos iniciar as tarefas da categoria Individual — anunciou. — Vocês terão no máximo sessenta minutos para discutir e decidir, por maioria de votos, para qual local este grupo irá primeiro, escolhendo entre uma lista de destinos candidatos. Quando todos estiverem prontos para prosseguir, registrarão seus votos por meio dos relógios e seguirão para o local vencedor.

Ele fez uma breve pausa antes de continuar.

— Quanto às recompensas: qualquer estudante que votar no destino mais votado receberá um token. Se a votação for unânime, todos receberão dois tokens. Aqueles que votarem em um local diferente da maioria receberão três tokens. Por fim, caso algum destino receba exatamente um único voto, esse eleitor solitário receberá cinco tokens.

Portanto, nossa primeira tarefa consistia simplesmente em decidir o próximo destino do Grupo 3.

— Uma palavra de advertência antes de iniciarem a discussão — prosseguiu o supervisor. — Se houver empate no maior número de votos, ou seja, se dois ou mais locais receberem a mesma quantidade máxima de votos, os estudantes que votaram nesses destinos receberão zero tokens. Nesse caso, o destino será escolhido aleatoriamente entre as opções empatadas.

Em resumo, era um sistema que garantia tokens para todos, desde que não houvesse empate na primeira colocação.

— Não divulgaremos, sob nenhuma circunstância, quem votou em qual local. Além disso, é estritamente proibido mostrar a tela do relógio a outras pessoas durante a votação. Estejam cientes de que qualquer violação desta regra acarretará uma penalidade separada, resultando na perda de tokens.

Se fosse possível saber em tempo real quem estava votando em quê, coordenar os votos seria fácil demais. Esse anonimato rigoroso provavelmente existia justamente para impedir isso.

Após concluir rapidamente sua explicação, Urushibara, o supervisor designado para nosso grupo, leu em voz alta a lista de destinos disponíveis.

— Existem cinco locais candidatos para o primeiro destino: B9, E12, F14, I10 e I13. Independentemente da área escolhida, o conteúdo das próximas tarefas será exatamente o mesmo. Contudo, qualquer tempo gasto no deslocamento até o próximo destino é simplesmente tempo perdido, então tenham isso em mente.

Sanada abriu o mapa fornecido junto com os materiais e imediatamente verificou as coordenadas.

As opções estavam espalhadas pela grade, variando entre locais relativamente próximos e outros bem mais distantes. Alguns até pareciam exigir um esforço considerável para serem alcançados.

— Vou iniciar o cronômetro agora — disse Urushibara, consultando seu relógio inteligente sem perder tempo. — Podem começar a discussão.

Naturalmente, os dezesseis integrantes do grupo formaram um círculo para que todos pudessem ver os rostos uns dos outros.

— É óbvio que o melhor é escolher um lugar próximo. As tarefas não mudam mesmo — murmurou Sonoda, da Classe B, mais como alguém pensando em voz alta do que fazendo uma pergunta.

Ao ouvir isso, Ike concordou imediatamente.

— Verdade. Até o professor... quer dizer, o supervisor acabou de dizer que tempo de deslocamento é desperdício.

A ideia de que mais perto significava automaticamente melhor era típica de Ike, que odiava qualquer coisa que parecesse trabalhosa.

— Então basta todo mundo votar na área mais próxima e pronto. A discussão acaba rápido e todos ganham dois tokens — acrescentou Minamikata.

Uma votação unânime no local mais próximo. Era a primeira e mais óbvia opção que vinha à mente.

Embora a garantia de que a próxima tarefa não mudaria fosse um fator importante, se a única conclusão possível fosse escolher o destino mais próximo, não haveria necessidade alguma daquela discussão.

A escola havia se dado ao trabalho de conceder sessenta minutos inteiros para deliberação. Devia haver algum significado por trás disso. Ou melhor, fazer os alunos acreditarem que existia um significado oculto provavelmente era exatamente a intenção da escola.

— Não é simplista demais votar cegamente no local mais próximo? — argumentou Yoshida. — Provavelmente existe algo mais por trás disso.

Se a distância fosse a única diferença entre as opções, ninguém jamais votaria em um lugar distante. Suspeitando de uma armadilha escondida atrás de uma resposta tão óbvia, Yoshida tentou conter o entusiasmo dos demais.

— Concordo — disse Katsuragi, lançando um breve olhar para Ike e Sonoda. — Devemos analisar cuidadosamente os outros locais primeiro.

— Mas... o Urushibara-san disse que o destino e as tarefas não têm relação... — murmurou Morofuji ao lado dele.

— Nesse caso, talvez precisemos considerar fatores além das próprias tarefas — respondeu Katsuragi. — Não podemos prosseguir cegamente sem antes verificar qual destino trará o maior benefício para o grupo.

— Isso não é perda de tempo? — rebateu Sumida. — Essa tarefa gira em torno da troca de tokens. Acho que "mais perto é melhor" é uma resposta perfeitamente válida.

Parecia que a discussão já começava a se fragmentar. Era apenas uma votação para decidir o próximo destino, mas alcançar um consenso não seria tão simples.

— O supervisor chamou isso de uma disputa individual, não foi? — perguntou Sanada, voltando-se para mim. — Isso significa que devemos tentar superar uns aos outros por meio da votação?

— Sem dúvida essa é uma das mecânicas centrais da tarefa — respondi.

— Uma votação unânime garante dois tokens, mas certamente não é a recompensa máxima — observou Sanada.

Era natural que a maioria dos estudantes preferisse um local próximo. Consequentemente, os votos tenderiam a se concentrar nele. Embora uma escolha unânime distribuísse dois tokens para cada um dos dezesseis participantes, uma traição calculada poderia render uma recompensa muito mais lucrativa ao traidor. Pior ainda, essa traição reduziria a recompensa dos votantes da maioria para apenas um token. E, se surgissem vários desertores, oportunistas poderiam conquistar três ou até cinco tokens sob a proteção do anonimato absoluto.

— É uma tarefa simples, mas problemática — murmurou Sonoda novamente, enquanto vários alunos assentiam em concordância. — Nossos objetivos gerais estão alinhados, mas o sistema de recompensas nos desencoraja ativamente a cooperar.

A estratégia ideal era não votar você mesmo no destino desejado, enquanto convencia os outros a votarem nele.

— Espera aí, isso não é impossível? — argumentou alguém. — Ninguém vai querer desperdiçar o voto no lugar mais próximo.

Exatamente.

Todos concordavam que uma distância menor era melhor. Mas, se priorizar essa conveniência significasse receber apenas um token, inevitavelmente muitos seriam tentados a buscar três ou cinco tokens, pouco se importando se precisassem caminhar mais por isso.

— Mas... se todo mundo pensar assim, então todos os votos vão acabar indo para os lugares mais distantes, não é? — apontou Mii-chan, aparentemente tendo previsto a conclusão lógica daquele raciocínio.

— Se todo mundo evitar a rota mais curta e votar nos lugares mais distantes, então um destino distante vai acabar recebendo a maioria dos votos? Cara, isso também não funciona.

Num espaço onde aliados e adversários estavam misturados, os estudantes trocaram olhares investigativos, avaliando uns aos outros. Um silêncio desconfortável tomou conta do grupo.

Dez segundos passaram.

Depois vinte.

E, quando parecia que aquele clima pesado continuaria indefinidamente, Katsuragi quebrou o silêncio.

— Entrar numa disputa desajeitada de inteligência só vai gerar desconfiança — disse calmamente. — Se acabarmos votando às cegas, então, como Wang apontou, corremos o risco de não ganhar token algum e ainda sermos obrigados a percorrer uma longa distância. A maneira mais simples de lidar com isso é reduzir a discussão ao mínimo, priorizar a cooperação acima de tudo e votar unanimemente na área mais próxima. Talvez não maximizemos nossos ganhos, mas garantiremos um resultado — e uma distância de deslocamento — que todos podem aceitar.

Naturalmente, a maioria do grupo não iria simplesmente concordar com a proposta de Katsuragi de imediato. O próprio Katsuragi tinha plena consciência disso. Era seguro dizer que ele apenas havia apresentado um argumento-base para dar início à verdadeira discussão.

— Talvez seja verdade, mas, para garantir a maioria dos votos, precisamos que pelo menos nove pessoas votem no mesmo lugar — argumentou Ike. — Está mesmo sugerindo que entreguemos três ou cinco tokens para as outras sete pessoas?

— Tokens podem ser transferidos — rebateu Katsuragi calmamente. — Poderíamos concordar em reunir todos os ganhos e distribuí-los igualmente depois.

— Você só pode estar brincando — retrucou Ike. — Se os tokens acabarem nas mãos de alguém de outra turma, não existe garantia nenhuma de que essa pessoa vai entregá-los. A votação é totalmente anônima, o que significa que alguém certamente vai tentar passar a perna na gente. Pega o Ayanokoji, por exemplo... Isso, alguém exatamente como o Ayanokoji!

Ele voltou o olhar para mim.

— Você está mirando nos cinco tokens com certeza, não está?

Assim como Katsuragi havia previsto, sua proposta serviu de estopim para uma enxurrada de objeções, com Ike liderando a resistência de forma particularmente agressiva. Como ele estava me encarando e me apontando diretamente, retribuí o olhar, nem que fosse apenas para reconhecer sua presença.

— Parece que sua atitude ficou ainda pior desde que você traiu nossa turma — zombou Ike. — Quero dizer, qualquer um que abandona a Classe A para ir para uma classe inferior só porque se acha inteligente demais já é maluco para começar.

Desde que os grupos foram formados, Ike não havia parado de reclamar da minha atitude. Eu estava perfeitamente disposto a ignorá-lo sem responder, mas Katsuragi interveio em meu lugar.

— Você é livre para pensar o que quiser sobre transferências para classes inferiores — disse Katsuragi, cruzando os braços e estreitando os olhos. — Mas, se descer para uma classe inferior torna alguém maluco, então suponho que eu também seja maluco.

Ao perceber que havia atingido Katsuragi por tabela, Ike desviou o olhar de maneira constrangida.

As consequências daquela troca não ficaram restritas apenas aos dois. Uma atmosfera ligeiramente pesada pairou também sobre os estudantes da Classe C. Yoshida e os demais já haviam sido aliados de Katsuragi e, agora, após tantas reviravoltas, ele havia se tornado um adversário. Era natural que carregassem sentimentos complicados sobre isso.

Incapaz de suportar o clima repentinamente tenso, Moriyama, da Classe D, interveio para apaziguar os ânimos.

— Vamos todos nos acalmar um pouco. Acho que cooperar, como o Katsuragi sugeriu, é uma opção válida. É a abordagem mais direta, não é?

— Mas esse é justamente o problema — rebateu Shinohara. — Nem eu nem o Kanji queremos desperdiçar nossos votos na opção mais popular.

— Isso mesmo! — concordou Ike com veemência.

— Claro que qualquer um se sentiria assim — ponderou Sumida. — Mas, se cada um continuar insistindo na própria posição, não vamos chegar a lugar nenhum. Primeiro precisamos descobrir onde podemos ceder e encontrar uma estratégia de votação equilibrada. Talvez exista uma solução que todos possam aceitar.

— O Sumida tem razão — concordou outro estudante. — O número total de tokens que conseguiremos como grupo certamente muda dependendo de como votarmos. A verdadeira questão é: quais padrões de votação realmente estão disponíveis para nós?

Partindo da premissa de que seria possível controlar os votos de todos, o grupo começava a perceber que o método de distribuição influenciava diretamente a quantidade total de tokens obtidos. Ao perceber isso, levantei a mão levemente antes de falar.

— Uma votação simples e unânime rende dois tokens para cada participante — expliquei. — Isso resulta em um total de 32 tokens distribuídos. No entanto, se espalharmos os votos de forma intencional, existem seis padrões diferentes que produzem a recompensa máxima possível de 40 tokens. Por exemplo, o Padrão 1 seria 7 votos, 6 votos e três destinos com 1 voto cada. O Padrão 2 seria 6 votos, 5 votos, 3 votos e dois destinos com 1 voto cada, e assim por diante. Independentemente de qual dos seis padrões utilizemos, o rendimento máximo continua sendo de 40 tokens.

Fiz uma breve pausa antes de apresentar a estratégia ideal.

— Entre os seis padrões, o mais fácil de coordenar é uma divisão de 4-3-3-3-3. Enviamos exatamente uma pessoa de cada uma das quatro turmas para votar no destino principal, totalizando 4 votos. Os doze participantes restantes se dividem em grupos de três e votam nos outros quatro destinos.

Isso renderia oito tokens a mais do que uma votação unânime, o que não era um mau negócio para nenhuma das turmas envolvidas.

— O único problema — continuei — é que quarenta tokens divididos por dezesseis pessoas resultam em 2,5 tokens por aluno, o que torna impossível uma distribuição perfeitamente igualitária em nível individual. No entanto, podemos dividir os ganhos por turma, dando exatamente 10 tokens para cada uma das quatro classes, para que depois elas decidam internamente como distribuí-los.

Em termos puramente de eficiência, aquela era a solução ideal. É claro que, independentemente do padrão escolhido, colocá-lo em prática estava longe de ser simples.

— Você é incrivelmente rápido para calcular tudo isso, Ayanokoji — comentou Katsuragi, claramente impressionado.

Alguns outros estudantes concordaram, chegando até a bater palmas de forma exagerada em demonstração de admiração.

— Você não precisava ter explicado cada detalhe — resmungou Ike, na defensiva. — Eu teria percebido esses padrões imediatamente. Não precisa agir como se fosse superior só porque consegue fazer umas continhas de cabeça. Quer dizer, você tem certeza de que isso está certo? Está tão confiante assim?

— Sim. Os cálculos estão corretos — respondi secamente.

— Olha só ele, tão cheio de certeza. Vai ser muito vergonhoso se estiver errado depois de tudo isso.

Ike claramente queria que eu estivesse errado. Ele começou a contar nos dedos, mas abandonou a tentativa quase imediatamente.

— Para ser sincera, você está parecendo bem arrogante, Ayanokoji-kun — acrescentou Shinohara, correndo para defendê-lo. Seu tom passou da irritação para a exasperação. — Você não costumava transmitir essa impressão. Sempre parecia... inofensivo. Virar líder mudou você ou simplesmente parou de esconder quem realmente é?

O restante do grupo alternou os olhares entre mim e o grupo de Shinohara. O antigo eu teria preferido evitar conflitos. Provavelmente teria ignorado aquelas provocações e deixado passar. Mas, dessa vez, resolvi responder.

— Talvez seja isso mesmo — disse sem emoção. — Minha turma anterior era um lugar bastante desconfortável, afinal.

— Uau, ele realmente falou isso em voz alta. Você tem mesmo uma personalidade horrível — zombou Shinohara, fazendo uma careta de desprezo.

Diante da minha postura inflexível e sem qualquer sinal de arrependimento, não foram apenas Mii-chan e Kushida que pareceram abaladas. Até mesmo meus novos colegas de turma, como Yoshida, demonstraram evidente desconforto.

— Ei, não acha melhor pegar mais leve? — sussurrou Yoshida, com uma leve contração no rosto.

— Não há motivo para se preocupar. Estou apenas dizendo o que penso.

— Cara... esse é exatamente o problema...

A atmosfera hostil continuava pairando no ar, pesada e sem solução. Mas Katsuragi, que provavelmente havia passado todo aquele tempo verificando meus cálculos mentalmente, assentiu profundamente e retomou a discussão.

— Parece que os cálculos dele estão realmente corretos — declarou. — Dividir os cinco destinos no padrão 4-3-3-3-3 é uma estratégia sólida. Não podemos evitar competir uns contra os outros para sempre, mas, se existe uma forma de todos obterem tokens com a máxima eficiência neste momento, vejo grande valor em aproveitá-la. O mais importante é que cada um de nós aumente sua quantidade de tokens e evite cair para as últimas posições do ano.

Katsuragi havia compreendido perfeitamente a política central de "ganhar enquanto é possível" e a aceitava ativamente.

— Acho que concordo também — disse Sonoda. — A única razão para alguém tentar enganar todo mundo seria conseguir um ou dois tokens extras, certo? Mas, sinceramente, não acho que valha o risco. Dividir os votos só aumentaria as chances de empate. Quando você percebe isso, até alguém planejando trair o grupo entenderia que garantir dez tokens para a própria turma é a opção mais inteligente, não é?

Claramente interessado em preservar a harmonia, Sonoda voltou a defender a cooperação.

O verdadeiro brilhantismo da estratégia 4-3-3-3-3 estava no fato de que todos os destinos receberiam votos. Como cada local teria no mínimo três votos, mesmo que alguém resolvesse agir como traidor, seria matematicamente impossível conquistar a recompensa de cinco tokens reservada a um voto isolado. E mesmo que um grupo de conspiradores tentasse coordenar uma armadilha, executar um plano perfeito usando apenas trocas de olhares naquele grupo misturado seria uma tarefa hercúlea.

— Ainda não gosto disso — resmungou Ike. — Simplesmente seguir um plano proposto pelo Ayanokoji me incomoda.

— Não há motivo para suspeitas infundadas — respondeu Katsuragi firmemente. — Refiz os cálculos várias vezes e tanto o padrão quanto os resultados previstos por Ayanokoji estão corretos. Em vez de reclamar, deveria olhar pelo lado positivo: ao nos fornecer uma conclusão rapidamente, ele economizou um tempo precioso que agora podemos dedicar à discussão de como executar o plano.

A compreensão de que aquele método de distribuição oferecia a maior eficiência possível finalmente havia se consolidado entre os estudantes. Entretanto, entender a lógica e concordar em colocá-la em prática eram coisas diferentes.

— Sim, concordo em princípio. E vocês?

— É cem vezes melhor do que votar aleatoriamente sem estratégia. Estou dentro.

Como esperado, a Classe D foi direta. Eles não eram do tipo que se oporia a uma proposta claramente vantajosa para a maioria. Aproveitando o momento, voltei meu olhar para Yoshida e Sanada.

— Depois de ouvir toda a discussão até aqui, vocês já decidiram?

— Se eu tivesse que escolher, prefiro que as quatro turmas recebam dez tokens cada — respondeu Yoshida. — Se nossas opiniões se dividirem, corremos o risco de acabar sem token nenhum no pior cenário. Além disso, essa configuração parece ser um bom desestímulo à traição, não acha?

Seguindo o exemplo de Yoshida, os dois não demonstraram qualquer resistência, claramente inclinados a apoiar a estratégia mais eficiente. Curiosamente, Morishita, que normalmente era barulhenta a ponto de se tornar irritante, permanecia completamente calada.

Após confirmar a concordância da Classe C com um leve aceno, Katsuragi voltou-se para seus colegas da Classe B.

— E-Eu acho que isso é melhor do que apostar numa unanimidade incerta...

— Desde que eu receba tokens garantidos, tanto faz — acrescentou Ibuki de forma direta.

Embora não demonstrassem o mesmo entusiasmo da Classe C ou da Classe D, Ibuki e os demais expressaram uma postura relativamente favorável. Agora restava apenas a Classe A, que incluía justamente Ike e Shinohara, os opositores mais vocais da proposta.

— Também gostaria de ouvir a opinião da Kushida e da Mii-chan — falei.

— E-Ei, espera um segundo! — gaguejou Ike, dando um passo à frente. — Primeiro você ignorou nossos cumprimentos e agora isso. Está nos excluindo de propósito, não está? A mim e à Satsuki?

— Pelo mesmo motivo que não os cumprimentei antes — respondi friamente. — Foi mal, mas não tenho interesse em ouvir a opinião de nenhum dos dois.

— Você está falando sério, Ayanokoji? — explodiu Ike. — Sabe que isso é uma tarefa em grupo, não sabe? Pare de fazer coisas que só vão criar divisões! Não estávamos justamente falando sobre cooperação?

Era um argumento perfeitamente razoável, difícil de rebater. E o restante do grupo começou a demonstrar uma simpatia evidente pela posição de Ike. Ao ver Ike cerrar os punhos de irritação, Shinohara segurou gentilmente sua mão, consciente dos olhares voltados para eles.

— Kanji, vamos agir como adultos aqui — disse ela suavemente. — Eu também fiquei magoada quando ele nos ignorou antes, mas você mesmo disse: isto é uma disputa em grupo, não é? Brigar por coisas sem importância só vai nos prejudicar.

— Mas mesmo assim...!

— Eu também me exaltei um pouco, mas isso não foi parcialmente culpa sua, Kanji? Foi você quem começou a provocar o Ayanokoji-kun, dizendo que ele não era confiável. Estou errada?

— Bem... acho que...

Embora sua raiva ainda não tivesse desaparecido completamente, o ressentimento de Ike diminuiu um pouco diante da repreensão gentil de Shinohara.

— É. Você tem razão. ...Entendi.

Forçando-se a engolir o próprio orgulho, Ike relaxou lentamente os punhos cerrados. Depois fez uma pequena e rígida inclinação de cabeça e se esforçou para colocar um sorriso amigável no rosto.

— Sobre antes... como posso dizer... foi mal por falar coisas que fizeram parecer que eu duvidava de você. É claro que você ficaria irritado com isso. Por enquanto, concordo que o melhor é garantir que todas as turmas recebam uma parte igual dos tokens. Então, como uma forma de testar nossa confiança uns nos outros, vamos tentar nos dar bem desta vez.

Tendo recuperado a compostura, Ike estendeu um ramo de oliveira. Shinohara assentiu, claramente pronta para apoiar sua tentativa de reconciliação. Quando comparados aos tempos em que ingressamos na escola, era evidente que tanto Ike quanto Shinohara haviam amadurecido mentalmente, ainda que de forma irregular.

Eu já havia percebido isso na etapa dos cumprimentos. Pensar que eles seriam capazes de ignorar minha grosseria explícita e ainda tentariam chegar a um acordo comigo novamente. E mais do que isso: não era apenas uma fachada. Mesmo que precisassem se forçar a isso, pareciam realmente determinados a deixar o passado para trás pelo bem do grupo.

Pude sentir uma onda palpável de alívio vindo de Yoshida e dos meus outros colegas ao meu lado. Voltei meu olhar para Ike e Shinohara para dar minha resposta.

— Concordo em alinhar nossas intenções de voto — declarei friamente. — Mas, infelizmente, simplesmente não consigo confiar em nenhum dos dois.

Sem o menor traço de hesitação, destruí a frágil paz que a boa vontade deles acabara de criar. A atmosfera congelou instantaneamente.

— O quê...?

Antes mesmo que Ike tivesse a chance de reagir, o sorriso hesitante no rosto de Shinohara endureceu, transformando-se em uma expressão de choque. O restante do grupo me encarou; a surpresa inicial rapidamente deu lugar a uma clara insatisfação diante da minha hostilidade descarada.

— Ayanokoji, acho que isso já está passando dos limites — interveio Katsuragi. — Não sei o que aconteceu entre vocês quando eram colegas de turma, mas não há absolutamente nenhuma vantagem em transformar a Classe A em sua inimiga aqui.

— Ele tem razão, Ayanokoji — concordou outro estudante. — Não importa por qual ângulo se olhe, você está errado. Isso é simplesmente infantil.

— Não tenho intenção de transformá-los em inimigos — respondi calmamente. — No entanto, se queremos que esta discussão avance de forma produtiva, ela só terá sentido se as pessoas certas assumirem a liderança. Enquanto Shinohara e Ike continuarem se intrometendo inutilmente como representantes da Classe A, qualquer debate será apenas perda de tempo. Como esta é uma tarefa baseada em diálogo, o natural seria Kushida liderar as discussões, com Mii-chan auxiliando como sua assistente. Se seguirmos por esse caminho, poderemos confiar uns nos outros e avançar sem problemas.

A mensagem era clara: aqueles dois precisavam reconhecer seu lugar e recuar para o papel de coadjuvantes.

— Você... está me irritando pra caramba, Ayanokoji!

Ike voltou a cerrar os punhos, pronto para avançar, mas Shinohara segurou firmemente seu ombro para impedi-lo. Diferentemente de antes, porém, Shinohara parecia ter finalmente chegado ao limite de sua paciência.

— Mas que diabos isso significa? — exigiu ela, com a voz trêmula. — Está dizendo que nem deveríamos ter o direito de falar? Isso não é completamente injusto? Nós dissemos algo tão horrível assim para sermos tratados desse jeito?

— Eu... bem, também acho que os comentários do Ayanokoji-kun foram completamente inadequados — disse Sanada, posicionando-se à minha frente com uma expressão sombria.

— Todos nós temos o mesmo direito de nos expressar e, como a Shinohara-san disse, não vejo nenhum problema específico na atitude dos dois. Isso não é completamente fora do seu normal, Ayanokoji-kun?

— Concordo. Não consigo defendê-lo dessa vez — acrescentou Yoshida, balançando a cabeça.

Parecia que todos os meus novos colegas da Classe C compartilhavam exatamente a mesma impressão negativa a meu respeito.

— Sinceramente, isso tudo me deixa preocupada — disse Shinohara, encarando-me. — Mesmo quando tentamos chegar a um acordo, você respondeu dessa forma. Se continuar criando esse clima tóxico, não há garantia nenhuma de que seu plano realmente vai funcionar. A próxima votação é totalmente anônima; se alguém nos trair, nem sequer poderemos descobrir quem foi. Essa estratégia toda não desmorona se houver pessoas de outras turmas em quem não podemos confiar?

Seus olhos estavam levemente úmidos e, apesar do olhar desafiante, parecia estar tentando esconder o quanto minhas palavras a haviam ferido.

— Não acredito que esteja exigindo algo absurdo — respondi. — Se vocês apenas deixarem Kushida e Mii-chan conduzirem a discussão, tudo seguirá tranquilamente.

Mesmo sabendo que isso só pioraria a opinião que tinham de mim, mantive minha posição.

— Você nos provoca do nada e depois exige o que quiser... Isso também não é perda de tempo?! — gritou Ike.

— Ah... entendi. Então é assim que as coisas são. Tudo bem, já saquei — zombou Shinohara. — Vamos simplesmente fazer o que ele quer, Kanji. Afinal, a Kushida-san é uma ótima garota. Ela se comunica bem e ainda é bonita.

Jogando a toalha, Shinohara desistiu da discussão, decidindo que eu não valia mais o esforço.

— De qualquer forma, vamos deixar esta tarefa nas suas mãos. Podemos contar com você, Kushida-san?

— E-Eu...? — Kushida piscou surpresa.

— Bem, é o que o Ayanokoji-kun quer. Pelo visto, nós não somos capazes de conduzir uma discussão sozinhos.

— S-Sim, eu posso liderar, mas... Ayanokoji-kun, acho que você deveria pedir desculpas aos dois primeiro. Quero que todos nós possamos cooperar em bons termos, sabe...

Kushida deixava claro que a cooperação seria difícil enquanto eu mantivesse a postura hostil que havia usado para forçar Ike e Shinohara a recuar. Para que as coisas avançassem sem mais atritos, provavelmente aquele era o momento certo para ceder.

— Entendido. É verdade que passei um pouco dos limites. Kushida tem razão.

— Mas que diabos? Quando a Kushida-san fala, você simplesmente pede desculpas assim, sem mais nem menos? — retrucou Shinohara.

— Não é isso. Apenas percebi, ao refletir, que ela me fez enxergar meu erro.

— Duvido muito disso. Não foi essa a impressão que tive... — murmurou Shinohara. — Tanto faz.

Em vez de me perdoar, respondeu friamente, claramente cansada de continuar discutindo comigo.

— Foi mal — acrescentei.

Diante do meu breve pedido de desculpas, Shinohara apenas soltou um bufar. Ela agarrou o braço de Ike e o puxou um passo para trás, afastando-se um pouco do círculo.

— Então, aceitamos o sincero pedido de desculpas do Ayanokoji-kun. Kanji e eu vamos recuar por enquanto. Claro que, se tivermos algo a dizer mais tarde, vamos falar.

— Desculpa, Kikyo-chan. Estamos deixando isso com você — acrescentou Ike.

— Não, não se preocupem. Não sei o quanto serei útil, mas vou dar o meu melhor — respondeu Kushida com um sorriso adorável.

Ao ver sua expressão gentil, a irritação de Ike finalmente pareceu diminuir.

— Ah, já sei! Por que você não sugere alguma boa ideia, Kushida-san? — disse Shinohara. — Seria melhor termos algum tipo de método de prevenção contra traidores, não acha?

Foi um comentário claramente provocativo. Aquela alfinetada era direcionada a mim, que vinha irritando Shinohara desde o início? Ou a Kushida, a outra grande traidora da Classe A?

De qualquer forma, os olhares do grupo naturalmente se voltaram para Kushida. Parecendo um pouco aflita, ela começou a pensar.

— Hum... vejamos... — começou Kushida. — Não podemos impedir completamente uma traição, mas podemos reduzir o risco tornando possível restringir os suspeitos. Se anunciarmos publicamente quem votará em cada destino antes da votação, poderemos identificar quem provavelmente traiu caso o resultado final não corresponda ao plano.

Kushida explicou que, por exemplo, se o grupo combinasse uma divisão 4-3-3-3-3, mas o resultado final fosse 4-2-3-3-4, isso provaria que um dos três alunos designados para o segundo destino havia traído o acordo.

— É... algo assim, pelo menos. Espero que minha lógica esteja certa, mas... não tenho muita confiança nela — acrescentou, parecendo um pouco insegura enquanto coçava levemente a bochecha com o dedo indicador.

— Para uma ideia improvisada, não é nada ruim — observei. — O que acha da proposta da Kushida, Katsuragi?

Ao passar a palavra para Katsuragi, forcei a conversa a se afastar da narrativa de "Ayanokoji contra a Classe A", que dominava o ambiente até então.

— Concordo — respondeu Katsuragi. — É certamente uma medida que devemos adotar. Embora, obviamente, não se possa dizer que seja infalível.

Embora provavelmente tivesse acabado de inventar a ideia naquele instante, Kushida não tentou apontar suas próprias falhas, limitando-se a concordar obedientemente. Afinal, não havia sentido em se obsessar pela possibilidade de identificar um traidor com absoluta certeza.

Enquanto a votação permanecesse anônima, o mais importante era encontrar uma solução prática dentro dessas limitações.

— O simples fato de aumentar nossas chances de restringir os suspeitos já funciona como um enorme fator de dissuasão — concluiu Katsuragi.

— Ei — interrompeu Ibuki, franzindo ligeiramente as sobrancelhas. — Nesse plano que vocês acabaram de explicar, quatro pessoas vão acabar sendo obrigadas a votar no destino mais popular, certo?

— Exatamente — respondeu Katsuragi sem hesitar. — A distribuição será equilibrada, uma pessoa por turma. Enviando exatamente um aluno de cada classe para o destino dos quatro votos, o peso da responsabilidade é compartilhado igualmente. Assim, nenhuma turma fica com todo o prejuízo.

— Você fala em "igualdade", mas quem votar nesse destino vai receber apenas um token — retrucou Ibuki. — Ou seja, essa pessoa estará assumindo uma perda temporária, certo? Mesmo supondo que o plano funcione, existe alguma garantia real de que os tokens serão redistribuídos depois?

— Claro — assentiu Katsuragi. — Porém, como já estabelecemos, cada turma receberá um total de dez tokens. Mesmo que os distribuam igualmente entre seus quatro integrantes, dando dois tokens para cada um, ainda sobrarão dois tokens. O destino desses excedentes ficará a critério de cada turma.

Ao ouvir a explicação, Ibuki permaneceu em silêncio por um instante.

— Tanto faz. Mas, para deixar claro, eu vou votar em um dos destinos que rendem três tokens.

Ela deixou sua posição perfeitamente explícita enquanto desviava o olhar.

Era verdade. Se todas as turmas seguissem o plano, uma pessoa de cada classe precisaria votar no destino mais popular, recebendo apenas um token naquele momento.

A declaração direta de Ibuki significava que, sem uma garantia absoluta de redistribuição posterior, ela queria estar do lado que receberia três tokens desde o início.

Avessa à ideia de assumir um papel arriscado, Ibuki deixava clara sua recusa.

— Ah, então eu também quero uma das vagas de três tokens — declarou Ike rapidamente, ainda parado mais ao fundo. — Eu confio nos meus amigos e tudo mais, mas não quero me meter em problemas. Não faz sentido assumir riscos desnecessários, certo?

Aproveitando a declaração de Ibuki, Ike deixou claro que também não tinha qualquer intenção de se sacrificar votando no destino principal. O clima do local mudou, ainda que apenas um pouco.

— Já que não teremos como saber quem votou em quê, alguém poderia muito bem se fazer de desentendido e ficar com os tokens extras depois — continuou Shinohara, cruzando os braços. — Mesmo que vocês digam que não tem problema porque a turma continua recebendo dez tokens no total, é óbvio que existe uma diferença no nível individual. A questão de alguém compensar ou não essa perda depois é outra história, não é?

Embora falasse de forma genérica, seu olhar carregava uma nitidez sutil. Katsuragi lançou um rápido olhar na direção dela.

— Ibuki e Shinohara estão absolutamente certas — declarou ele, entrando na conversa sem perder tempo. — Esta tarefa parte do princípio de resultados em nível de turma. Como não existe nenhum mecanismo que garanta uma justiça perfeita entre os indivíduos, a confiança se torna indispensável. Qualquer aluno que esteja preocupado em não ser devidamente compensado deve se manifestar por conta própria e garantir uma das posições que rendem três tokens. Quanto a mim, assumirei a responsabilidade de votar no destino mais popular pela Classe B.

Precisávamos de apenas uma pessoa por turma para assumir o risco, permitindo que os outros três integrantes garantissem ao menos dois tokens de forma segura.

Agindo com decisão, Katsuragi foi o primeiro voluntário.

— Eu faço isso pela Classe C — declarei.

Voltando-me para Yoshida e os demais, tornei-me o segundo voluntário. Amikura, da Classe D, imediatamente seguiu o exemplo. Agora restava apenas a Classe A. Como Ike já havia recusado explicitamente a função, todos os olhares naturalmente recaíram sobre os outros três integrantes.

— Se possível, recomendo que Ike ou Shinohara assumam essa responsabilidade — acrescentei casualmente.

Ao ouvir meu comentário desnecessário, Shinohara franziu a testa. Nossa discussão supostamente havia terminado após meu pedido de desculpas, mas minhas palavras ameaçavam reacender o conflito. Percebendo isso, Yoshida interveio.

— Ei, o que a Classe A faz é problema da Classe A.

— Tem razão — respondi. — Esqueçam o que eu disse.

— Não, eu não posso simplesmente "esquecer" — retrucou Shinohara. — Você passou o tempo todo dizendo que não somos confiáveis e falando conosco como se nem tivéssemos o direito de participar da discussão! Qual é o seu problema, afinal? Nós fizemos alguma coisa para você, Ayanokoji-kun?

— Não estou mirando especificamente em vocês dois — respondi com tranquilidade. — Apenas acredito que pessoas que não possuem a confiança do grupo deveriam tomar a iniciativa de agir de forma a conquistá-la.

— Então me responda uma coisa: e a Ibuki-san? — rebateu Shinohara, apontando para ela de forma acusatória. — A Ibuki-san recusou o papel explicitamente e você simplesmente ignorou isso! Não deveria estar obrigando ela a votar no destino principal em vez do Katsuragi-kun?

Arrastada inesperadamente para a discussão, Ibuki lançou um olhar irritado para Shinohara sem fazer qualquer esforço para esconder seu desagrado.

— A situação interna da Classe B é um pouco mais complexa — expliquei calmamente. — Embora eu considere Katsuragi uma pessoa extremamente confiável, do ponto de vista da Classe B ele ainda é um aluno transferido que entrou na turma no meio do caminho. Assumir voluntariamente esse papel para construir confiança com seus novos colegas não é uma decisão ruim da parte dele.

— Ainda assim, não compro essa explicação... — murmurou Shinohara.

— Para começar, a situação é completamente diferente da Classe A. Se eu ainda fosse aluno daquela turma, votar no destino principal e receber apenas um token não me faria hesitar nem por um segundo. O motivo é simples: enquanto Kushida fosse minha aliada, eu teria garantia absoluta de que ela compensaria a diferença depois. Mesmo que eu quisesse garantir três tokens para mim, se Kushida não me entregasse os dois restantes, eu poderia simplesmente pedir para a Mii-chan. Em outras palavras, não haveria motivo algum para temer sair prejudicado.

As únicas pessoas que não podiam ser consideradas confiáveis eram justamente Ike e Shinohara, os dois que haviam demonstrado claramente a intenção de garantir três tokens para si mesmos se tivessem a oportunidade.

— Em contrapartida — concluí —, deixar Ike ou Shinohara de fora do destino principal é claramente prejudicial para o grupo.

— Ah, entendi. Então você desconfia tanto de mim e do Kanji porque se importa profundamente com a Kushida-san e a Mii-chan? — perguntou Shinohara, estreitando os olhos.

— Elas são membros valiosos do grupo — respondi. — Naturalmente, quero cooperar com elas da melhor forma possível.

— Eu já tinha pensado isso antes, mas você confia demais na Kushida-san, não acha?

— Estou apenas afirmando fatos. Se você não aceita minha avaliação, pode perguntar ao Katsuragi, ao Sonoda ou a qualquer pessoa das outras turmas. Pergunte quem eles consideram mais confiável: a dupla Shinohara e Ike ou Kushida e Mii-chan.

— Vinte minutos se passaram. Restam quarenta minutos.

O supervisor, que até então não havia dito uma única palavra, anunciou o tempo restante, lembrando a todos que o relógio continuava avançando.

— Temos muito pouco a ganhar cedendo à paranoia neste momento — afirmou Katsuragi com firmeza, cortando a tensão. — Como a transferência de tokens é permitida, qualquer ajuste ou compensação poderá ser resolvido depois da prova. O problema atual é impedir que nossa estratégia desmorone antes mesmo de chegarmos a esse ponto.

A mensagem de Katsuragi era clara: primeiro resolvam o problema do grupo; as disputas internas de cada turma podem ser tratadas depois.

— Concordo. É melhor deixar algum tempo sobrando para as tarefas de verdade — disse Sumida, dando de ombros.

Moriyama respirou fundo e imediatamente concordou.

— Eu também. Não vejo sentido em prolongar negociações inúteis agora.

Os membros da Classe D estavam praticamente unânimes. Como os quatro confiavam plenamente uns nos outros, toda aquela discussão provavelmente lhes parecia apenas uma enorme perda de tempo.

— Acho que já está na hora de avançarmos — disse Sanada, olhando ao redor do círculo antes de se concentrar na última turma. — Quanto à Classe A...

— Eu não vou fazer isso de jeito nenhum — declarou Shinohara categoricamente.

— Eu assumo — ofereceu-se Kushida.

A recusa firme de Shinohara e a oferta altruísta de Kushida aconteceram exatamente ao mesmo tempo. Diante do contraste absoluto entre as duas respostas, Shinohara lançou um leve olhar de reprovação para Kushida.

— Eu só não quero mais ver todo mundo discutindo... — acrescentou Kushida com um sorriso discreto, colocando oficialmente seu nome à disposição. — Se eu puder ser útil para o grupo agora, isso é o mínimo que posso fazer.

Então ela voltou seu olhar para mim.

— Isso é aceitável para você, Ayanokoji-kun?

— Se é o que você quer, não vou impedir. Depois que os tokens forem distribuídos, isso passa a ser um assunto interno da sua turma — respondi, reforçando o risco pela última vez. — Apenas lembre-se de que não vou mover um dedo para ajudar quando começarem a discutir sobre a distribuição.

— Tsc.

Ike estalou a língua baixinho, claramente irritado com meus constantes avisos.

— Não se preocupe, Kikyo-chan. Diferente de certa pessoa que traiu a própria turma, eu vou compartilhar meus tokens com você sem falta.

— Sim, eu confio completamente em você, Ike-kun. E também na Shinohara-san e na Mii-chan, é claro.

Os alunos das outras turmas elogiaram silenciosamente Kushida por ter tomado a iniciativa e assumido o risco. Ela parecia genuinamente sincera ao dizer que não desconfiava de ninguém de sua classe.

Lógica e emoção. A distância entre as duas jamais poderia ser eliminada por completo. nAinda assim, o grupo conseguiu avançar para a próxima etapa, deixando para trás apenas um leve resquício de atrito.

A próxima questão era decidir qual dos destinos candidatos receberia o maior número de votos e se tornaria nosso próximo objetivo.

— Só para confirmar: o conteúdo das próximas tarefas realmente não está ligado ao destino escolhido, correto? — perguntou Sanada, virando-se para o supervisor.

Naturalmente, o supervisor não respondeu. O próprio silêncio serviu como confirmação suficiente.

— Nesse caso, acredito que o melhor seja concentrarmos os votos no destino mais próximo para minimizar o desgaste físico — propôs Sanada ao grupo. — Mas, se alguém tiver objeções, gostaria de ouvi-las.

Guiados pela lógica de Sanada, vários estudantes voltaram os olhos para o mapa. Havia cinco destinos possíveis, cada um com suas próprias vantagens e desvantagens.

Deveríamos escolher o mais próximo?

Ou deveríamos aceitar o custo do deslocamento e seguir para um ponto mais distante?

Naquele momento, simplesmente não havia informações suficientes para determinar qual era a resposta correta. Como resultado, a personalidade e a forma de pensar de cada aluno começaram a se refletir diretamente em suas opiniões.

— Eu concordo com o plano do Sanada — foi Sonoda quem falou primeiro.

Observando o mapa, ele apresentou uma opinião direta e pragmática.

— Esta prova dura quatro dias e três noites, certo? É óbvio que estaremos exaustos amanhã. Além disso, se nem sabemos qual será a próxima tarefa, deveríamos economizar toda a energia possível.

Suas palavras eram simples, mas refletiam perfeitamente o sentimento silencioso de muitos dos presentes. Deixando de lado aqueles que haviam abandonado cedo a prova anterior, a fadiga acumulada durante o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência era algo impossível de ignorar.

Uma distância que parecia pequena no papel tornava-se muito mais relevante quando era preciso percorrê-la a pé.

— Eu também concordo... — disse Mii-chan, assentindo suavemente.

Passando o dedo sobre um ponto do mapa, ela explicou seu raciocínio.

— Com base apenas nas informações que temos agora, não existe motivo para abrir mão da vantagem óbvia de uma distância menor. Isso é ainda mais verdadeiro se a explicação de que o destino não influencia as próximas tarefas estiver correta.

Sua voz era suave como sempre, mas sua posição era firme. Ela eliminava especulações desnecessárias e chegava a uma conclusão lógica baseada apenas nas condições apresentadas. Nesse aspecto, sua linha de raciocínio era muito semelhante à de Sanada e Moriyama. Por outro lado, naturalmente havia quem não estivesse disposto a simplesmente seguir a corrente.

— Mas isso parte do pressuposto de que devemos aceitar as palavras do supervisor ao pé da letra, não é? — disse Sumida, erguendo os olhos do mapa.

Sua voz não soava como oposição direta, mas sim como cautela.

— Ele disse que o conteúdo das tarefas não mudaria, mas nunca afirmou que a facilidade de deslocamento ou os acontecimentos futuros não poderiam ser afetados indiretamente. Não é igualmente perigoso escolher um lugar só porque ele é mais próximo?

Era um argumento bastante plausível. Na verdade, durante os exames especiais, procurar brechas nas regras e desconfiar da redação exata usada pela escola era praticamente um instinto natural. No instante em que alguém verbalizou essa suspeita, a semente da dúvida — e se...? — começou a criar raízes na mente do grupo.

— Ele tem razão. Isso parece exatamente o tipo de coisa que esta escola faria — Ike aderiu imediatamente à ideia. Ainda carregando parte da hostilidade anterior, agarrou-se rapidamente a um argumento que combinava com sua maneira de pensar. — Escolher o lugar mais próximo só porque parece a opção normal é... normal demais, sabe? Em provas assim, sempre existe um padrão em que quem escolhe a opção "óbvia" acaba se ferrando.

Ele não tinha nenhuma prova concreta para sustentar aquilo. Mesmo assim, era fácil concordar intuitivamente. Afinal, procurar armadilhas ocultas parecia muito mais condizente com um exame especial do que simplesmente escolher a rota aparentemente mais eficiente.

Katsuragi cruzou os braços e baixou o olhar, refletindo.

— É verdade que não podemos descartar completamente a possibilidade de uma armadilha. Considerando o histórico dos exames especiais desta escola, é perfeitamente natural tentar interpretar aquilo que não está explicitamente escrito nas regras.

Não era exatamente uma concordância. Era mais uma abertura para a possibilidade. Ainda assim, bastou essa vaga validação para enfraquecer a atmosfera favorável à escolha do destino mais próximo.

Sumida voltou a olhar para o mapa.

— Mesmo assim, se começarmos a pensar demais, essa discussão vai sair do controle. Enquanto a distância for o único critério concreto que temos para comparar os destinos, qualquer outra teoria não passa de especulação, certo?

Vários estudantes assentiram silenciosamente diante de sua lógica direta. Era fácil desconfiar das regras. Mas, uma vez que se começava a duvidar, não havia limite para as possibilidades. O que o grupo precisava naquele momento não era necessariamente encontrar a resposta correta, mas sim estabelecer um critério comum sobre o qual todos pudessem basear seus votos. Nesse sentido, as palavras de Sumida trouxeram a discussão de volta à realidade.

— Eu... — começou Kushida, com sua voz suave.

Ela interveio de forma tão natural que não interrompeu o fluxo da conversa, mas suas palavras carregavam um peso inegável.

— Tenho a sensação de que não vamos encontrar uma resposta mesmo que continuemos nos torturando por coisas que simplesmente não sabemos neste momento. Claro, ser cauteloso é importante, mas o fato de que um destino mais próximo reduz nosso desgaste físico é incontestável. Se economizar energia nos der mais margem para lidar com o que vier depois, pessoalmente acho que deveríamos priorizar isso.

Era uma maneira gentil e diplomática de falar, que não desagradava ninguém. Ela não desmereceu a opinião de ninguém, mas conduziu a conclusão de volta ao apoio ao destino mais próximo de forma suave. Sua habilidade para lidar com esse tipo de situação social continuava tão impressionante quanto sempre.

— Bem, se a Kikyo-chan diz isso, talvez seja mesmo o melhor caminho — disse Ike, sua expressão suavizando imediatamente enquanto abandonava sua posição anterior sem a menor dificuldade.

Shinohara lançou-lhe um olhar de canto, mas permaneceu em silêncio. Não, seria mais correto dizer que ela engoliu suas palavras à força. Sua expressão deixava claro que não queria estragar o clima por algo trivial.

Ibuki observou toda a troca com um tédio profundo, mas, por fim, soltou um suspiro irritado e se manifestou:

— No fim das contas, ninguém aqui consegue apontar um único benefício real de caminhar até um lugar distante agora, consegue? Se é assim, então ir para um lugar mais perto está bom. Se acabar sendo uma armadilha, vou ficar furiosa, mas, por enquanto, prefiro andar menos.

Seu argumento era um tanto grosseiro, mas era raro ver Ibuki chegar a uma conclusão tão rapidamente. Ela claramente estava exausta e sem a menor paciência para discussões inúteis. Sonoda concordou com um aceno.

— Certo. No mínimo, usar a distância como nosso principal critério é a forma mais simples de fazer a discussão avançar. Mesmo que não consigamos fazer todos concordarem completamente sobre o motivo, usar o local mais próximo como base torna muito mais fácil alcançar um consenso.

Com isso, o apoio à ideia de priorizar um local próximo aumentou consideravelmente. Mesmo que não fosse um acordo perfeito e unânime, o impulso era forte o bastante para adotá-lo como princípio orientador.

Claro, a questão não era simples o suficiente para terminar ali. Qual dos locais "próximos" deveríamos escolher? E exatamente até que distância estávamos dispostos a caminhar antes que um lugar deixasse de ser considerado "próximo"? Na prática, executar a distribuição de votos 4-3-3-3-3 entre aqueles locais seria o verdadeiro problema.

Observando o clima do grupo, Yoshida voltou a apontar para os candidatos no mapa.

— Vou parecer um disco arranhado, mas temos mesmo certeza de que é tão simples assim? Diferente da prova da Ilha Desabitada, em que podíamos nos mover livremente, não há garantia alguma de que teremos essa liberdade desta vez. E se nos posicionarmos o mais perto possível do centro da ilha nos der uma vantagem enorme depois?

— Também existe a possibilidade de que, quanto mais longe viajarmos, melhores sejam as recompensas, não é? — acrescentou Shinohara.

Todos queriam ganhar tokens da forma mais eficiente possível, e todos entendiam a distribuição de votos necessária para isso. Mas enquanto permanecesse a possibilidade de que o destino escolhido pudesse afetar o restante do exame especial, era natural que as opiniões continuassem divididas.

— Entendo as preocupações levantadas por Yoshida e Shinohara — rebateu Katsuragi calmamente. — No entanto, essas preocupações são inteiramente baseadas em especulações sem fundamento. Seja indo em direção ao centro da ilha ou caminhando até suas extremidades, não recebemos uma única pista sobre o que nos espera nesta tarefa. A única diferença concreta e inegável é a distância percorrida. Pensando racionalmente, escolher um local próximo é a opção absolutamente ideal.

— Você é teimoso pra caramba, Katsuragi — zombou Yoshida. — Já esqueceu que foi exatamente esse jeito rígido de pensar que fez você ser chutado da nossa turma em primeiro lugar?

— Vamos parar por aí, Yoshida-kun. Isso foi desnecessário — repreendeu Sanada.

Desde que fui transferido, senti que havia passado a compreender meus novos colegas de turma até certo ponto. Diferente de mim, Katsuragi não havia traído sua turma por vontade própria; ele fora expulso dela. Ainda assim, a hostilidade direcionada a ele era surpreendentemente intensa. Eu conseguia imaginá-lo entrando em conflito repetidas vezes com seus antigos colegas sempre que surgiam divergências sobre as políticas da classe.

— Meu voto vai para o lado do Katsuragi — declarou Ike, observando os dois trocarem olhares hostis como se o conflito não tivesse nada a ver com ele. — Como ele disse, não importa para onde vamos, já que não temos ideia do que vem depois.

Apesar das várias opiniões apresentadas até aquele momento, era dolorosamente óbvio que nosso grupo não estava em sintonia. Se seguíssemos para a votação naquele instante, havia uma grande chance de que as coisas não corressem de acordo com nossa estratégia inicial. Bastaria uma única pessoa mudar de destino por capricho para fazer toda a estrutura 4-3-3-3-3 desmoronar.

Deixando a imaginação correr solta, aqueles alunos tentavam desesperadamente convencer a si mesmos de que interpretar significados ocultos em um exame que não os possuía era a escolha "correta".

Era o retrato perfeito do viés de confirmação.

Optar pelo destino mais próximo era uma decisão perfeitamente lógica e sensata. Ainda assim, as pessoas não conseguiam evitar priorizar narrativas em vez de simples probabilidade e eficiência. Perguntavam-se se seguir mais longe poderia render uma recompensa oculta ou se escolher um local que ninguém mais escolheria poderia, de alguma forma, beneficiá-las. Estavam sendo atraídas pelo fascínio de uma aposta incerta.

É claro que não sabíamos se a escolha do destino influenciaria ou não o restante da tarefa. A única coisa que eu sabia com certeza era que estávamos desperdiçando um recurso precioso a cada segundo que passava.

— Pessoalmente, eu gostaria de valorizar nosso tempo — intervim. — Fomos lançados neste Exame Especial imediatamente após o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência, sem sequer termos a oportunidade adequada de descansar. Eu agradeceria muito se pudéssemos passar para a votação o quanto antes.

Justamente porque não importava qual das cinco opções escolhêssemos, eu considerava toda aquela discussão uma perda monumental de tempo.

— Heh, nesse caso, talvez seja do nosso interesse prolongar isso o máximo possível — riu Ike, claramente ainda irritado por eu tê-lo ignorado mais cedo.

— Esta é uma batalha em grupo, Ike — advertiu Katsuragi. — Não há absolutamente nada a ganhar com discussões inúteis.

— Quem está arrumando briga comigo o tempo todo é o Ayanokoji! — retrucou Ike.

Parecia que ele continuaria discutindo, mas acabou apenas coçando a nuca e suspirando.

— Ah, tanto faz. Isso provavelmente não vai levar a lugar nenhum. Vamos parar de falar e votar logo.

Seguindo a liderança de Katsuragi, finalizamos os ajustes entre as turmas e registramos nossos votos.

— Como todos já concluíram a votação, anunciarei os resultados — declarou o supervisor. — A contagem final é: 3 votos para B9, 4 votos para E12, 3 votos para F14, 3 votos para I10 e 3 votos para I13. A partir de agora, o Grupo 3 seguirá para E12. Em seguida, distribuiremos os tokens a cada aluno de acordo com esses resultados.

 

— Parece seguro presumir que todos cumpriram seu papel perfeitamente — observou Katsuragi.

Nosso grupo havia conseguido um começo seguro, executando a divisão exatamente como planejado. Todas as turmas saíram com dez tokens, sem que qualquer diferença fosse criada.

Satisfeito com o resultado, Katsuragi assentiu profundamente em aprovação. Apesar de suas várias insatisfações, os outros alunos acabaram priorizando os tokens garantidas que estavam diante deles.

— Nenhum dos traidores com os quais você estava tão preocupado apareceu. Parabéns, Ike — disse Katsuragi.

— Bem... sim, mas isso é porque a ideia de impedir traições veio da minha turma, certo? — argumentou Ike. — Antes de começar a reclamar comigo, você deveria agradecer à Kikyo-chan. Obrigado, aliás.

Enquanto rebatia Katsuragi, Ike insistia que o sucesso deles se devia inteiramente a Kushida.

— Nah, não foi nada — respondeu Kushida, mantendo seu sorriso gentil e impecável em meio ao grupo misto de colegas e estranhos. — Na verdade, eu não estava muito confiante na ideia, mas fico feliz por ter conseguido ajudar todos vocês.

Ela desempenhava perfeitamente o papel da garota humilde e um pouco envergonhada.

— É, é. A Kushida-san realmente encontrou uma ótima forma de impedir traições, não foi? Acho que a maneira como ela vê as coisas é simplesmente... completamente diferente da nossa — comentou Shinohara.

Foi uma alfinetada afiada e carregada de intenção, feita de uma forma que apenas os membros da turma de Horikita entenderiam. Era apenas porque ela ainda guardava ressentimento em relação a Kushida, ou estava irritada por Ike elogiá-la tão abertamente?

De qualquer forma, Kushida não deixou sua máscara vacilar nem por um instante, ignorando o comentário com absoluta naturalidade.

*

 

Quando terminamos nossa caminhada, já passava das seis da tarde. Seguindo as instruções do supervisor, decidimos montar nossas barracas ali para passar a noite. Os alunos começaram a erguer as barracas e instalar banheiros temporários com eficiência impressionante, separando naturalmente as áreas de convivência por turma.

Dentro do acampamento principal, o território foi dividido de forma informal em quatro seções distintas, uma para cada classe. No entanto, no instante em que Ike me viu, lançou-me um olhar hostil e foi direto ao assunto.

— Só vou dizer isso uma vez, Ayanokoji: não chegue nem perto da nossa barraca sem permissão. E quanto ao que aconteceu mais cedo também...

— Não tenho intenção de fazer de vocês meus inimigos fora das tarefas do exame.

— Como se alguém acreditasse nisso. Se você acha que vai conseguir me expulsar, está muito enganado.

— Imagino que dizer que não tenho absolutamente nenhuma intenção de fazer isso não vá convencê-lo.

— Claro que não! Até a forma como você agiu hoje...

Incapaz de continuar ouvindo a hostilidade crescente de Ike, Katsuragi interrompeu o que estava fazendo e se levantou.

— Preciso lembrá-lo de que, por enquanto, somos aliados no mesmo grupo?

Katsuragi fez a advertência com firmeza. Ainda assim, depois de se sentir repetidamente feito de bobo, a raiva de Ike não desapareceria tão facilmente.

— Olha, eu estou calmo. Mas não tem como enxergá-lo como um aliado. O Ayanokoji é um traidor da turma e nos trata como idiotas. Não dá para baixar a guarda perto dele. Quem sabe quando ele vai tentar cortar nossa garganta enquanto dormimos?

Ike voltou-se para mim antes de continuar:

— Enfim, desculpe, mas fique longe da gente, a menos que seja absolutamente necessário.

— Se uma das dezesseis pessoas deste grupo estivesse destinada a ser expulsa, eu até entenderia sua hostilidade, mas...

— Está tudo bem, Katsuragi. O que o Ike está dizendo é fundamentalmente correto.

Depois disso, peguei minhas malas e entrei em nossa recém-montada barraca para três pessoas. Um instante depois, Yoshida entrou atrás de mim.

— Mesmo assim, Ayanokoji... Você tem algum tipo de rancor contra a Classe A? Ou melhor, contra o Ike e a Shinohara?

— Não guardo rancor algum. Embora, dadas as circunstâncias, eles tenham vários motivos para guardar rancor de mim.

— É, acho que isso é verdade. Mas, se é assim, o que foi aquela sua atitude durante a tarefa? Você exagerou um pouco, e algumas das coisas que disse nem faziam muito sentido do ponto de vista lógico. Está lidando com algum problema ou circunstância especial sobre a qual não pode falar facilmente?

Mesmo tendo respondido honestamente, Yoshida não parecia totalmente convencido.

— Quero dizer, sair da Classe A por vontade própria já é algo bem estranho.

Parei de desfazer minhas malas e olhei para Yoshida. Ele sustentou meu olhar com uma expressão séria e continuou:

— Como posso dizer isso... Observando você, fiquei pensando se realmente tomou a decisão certa. Com suas habilidades, poderia ter se formado tranquilamente como membro da Classe A.

— Estar na Classe A não significa muito para mim. Mesmo sem usar os privilégios da classe, há muitos ex-alunos que conseguiram entrar na universidade com sucesso.

— Claro, alguém como você provavelmente conseguiria passar nos exames de admissão de uma universidade de elite por conta própria. Ainda assim... depois de entrar numa escola tão exigente quanto esta, não acha que deveria aproveitar os privilégios da Classe A enquanto pode?

— É um argumento justo. Não vou negar isso.

— Nem vai tentar negar?! — Yoshida riu, dando um tapa amigável no meu ombro.

— Tenho certeza de que os outros já o bombardearam com essa pergunta, mas você já decidiu para onde vai depois da formatura?

— Vou para a universidade. Só ainda não decidi exatamente qual.

Mesmo sabendo que a vida universitária era completamente irrelevante para meu futuro, eu havia pesquisado bastante sobre o assunto para não acabar revelando minha ignorância.

Para um aluno do terceiro ano do ensino médio, o verão era o período crucial para restringir a lista de universidades desejadas. Pelo que li, era comum que essa escolha estivesse definida até novembro, no mais tardar.

— E você, Yoshida? Já decidiu? Você comentou antes que qualquer universidade razoável serviria.

— Não, nada mudou. Se tivesse que escolher, diria que gostaria de continuar em Tóquio. Dito isso, se eu não conseguir me formar pela Classe A, no pior dos casos vou acabar em alguma faculdade local da minha cidade natal.

Diferentemente das escolas de ensino médio comuns, esta escola oferece uma vantagem única: o privilégio de graduação da Classe A.

Tomemos o caso de Yoshida, por exemplo. Seu plano era prestar o vestibular para uma universidade local e tentar ser aprovado por mérito próprio primeiro. Não sei se essa sempre foi a regra, mas, sob o sistema atual da escola, a classificação final das Classes A é definida em 1º de março, pouco antes da formatura. Se um aluno decidir exercer seu privilégio nesse momento, ele ignora completamente o processo normal de admissão e é aceito na universidade de sua escolha por meio de uma cota especial.

Naturalmente, ingressar em uma universidade muito acima do seu nível acadêmico real traz sérias desvantagens. Você teria de correr atrás do prejuízo diante de aulas em ritmo acelerado, do nível de compreensão mais elevado dos seus colegas e da sua própria falta de conhecimentos prévios. Não faltariam obstáculos que exigiriam um esforço enorme para serem superados. Ainda assim, no fim das contas, sobreviver nesse ambiente depende apenas de quanto você está disposto a se esforçar depois de entrar.

Em circunstâncias normais, escolas e universidades possuem limites rígidos de vagas, o que significa que o número de candidatos aprovados é reduzido de forma impiedosa. Some a isso a pressão dos vestibulares decisivos e o fato de que, quanto mais prestigiada a universidade, mais feroz é a concorrência, e as barreiras de entrada tornam-se extremamente altas. Mas, se você puder ignorar todos esses obstáculos e garantir sua matrícula, tudo o que resta é seguir em frente dando o máximo de si.

É claro que essa estratégia não funcionaria para todos os cursos. Forçar a entrada em uma faculdade de medicina ou em certas áreas altamente especializadas sem a base necessária talvez não resultasse em um futuro muito promissor. Para alunos sem confiança em seu desempenho acadêmico, em vez de usar pela metade o privilégio da Classe A para sofrer durante a faculdade, seria muito mais valioso utilizá-lo para garantir um emprego em uma grande empresa logo após o ensino médio.

— Bem, antes de começarmos a falar dos nossos sonhos, precisamos vencer este exame especial primeiro — suspirou Yoshida, jogando-se de lado dentro da nossa barraca relativamente espaçosa.

Imediatamente mandei que ele se levantasse, o que o levou a erguer o tronco novamente.

— O que foi?

— Você tem razão. Vencer este exame é crucial — respondi, mostrando meu smartwatch para ele. — Felizmente, as outras turmas estão recolhidas em suas próprias barracas agora. Há algumas coisas que quero testar enquanto temos a oportunidade, então faça companhia para mim por um tempo.

— Não estou entendendo muito bem, mas imagino que você tenha pensado em alguma coisa. Certo, vamos nessa.

Superando o próprio cansaço, Yoshida sentou-se à minha frente, e passamos algum tempo realizando os testes que eu tinha em mente.

*

 

Às sete da noite, chegou a hora do jantar. Com minha ração em mãos, fui até a área destinada às garotas e chamei Kushida, que estava conversando com Amikura.

— Gostaria de jantar comigo?

O sorriso de Amikura pareceu endurecer por uma fração de segundo — talvez o convite tivesse lhe trazido outra pessoa à mente —, mas ela rapidamente recompôs a expressão e incentivou Kushida a ir.

Com uma expressão apropriadamente confusa, Kushida pegou sua refeição e me seguiu. Caminhamos até estarmos longe o bastante para que ninguém pudesse nos ouvir. Então ela parou, mantendo deliberadamente cerca de um metro de distância entre nós.

— O que você está tentando fazer, Ayanokoji-kun?

— Você não disse que queria discutir nossos planos para amanhã?

— Eu nunca disse isso. Além disso, não é como se você realmente precisasse da minha ajuda, certo? Honestamente, você está sendo um pé no saco.

— É mesmo? Achei que dar a você uma oportunidade de provar seu valor ao grupo satisfaria sua necessidade de aprovação. Pensei que ficaria feliz.

— Não me faça rir. Se fosse só você, Ayanokoji-kun, seria uma coisa, mas você tem ideia de como é agonizante ser colocada num pedestal na frente da Shinohara e dos outros quando eles já conhecem minha verdadeira natureza? Eles só estão se divertindo às minhas custas.

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Ela concluiu sua reclamação estreitando os olhos em um olhar feroz.

— Embora eu suponha que entenda que você não pode exatamente contar com a Shinohara ou com o Ike... — murmurou com um suspiro exasperado, aceitando a contragosto que havia sido escolhida por eliminação. — Deixando isso de lado, parece que você está se adaptando muito bem à sua nova turma.

— Com a saída da Sakayanagi, eles perderam sua rede de segurança. Provavelmente teriam se unido em torno de qualquer um que ocupasse aquela posição, não acha?

— Ah, é mesmo? — zombou ela.

Sua resposta foi breve, seguida por um instante fugaz de hesitação. No entanto, tão rapidamente quanto sua guarda havia baixado, sua compostura habitual retornou.

— Se há algo que você quer perguntar, vá em frente.

— Não é nada em particular — rebateu ela imediatamente. Mas, percebendo que eu já havia notado sua hesitação, soltou um suspiro discreto. — É só que... os rumores sobre você estão por toda parte ultimamente. Obviamente, não acredito em todos eles, mas também tenho ouvido muitas coisas vindas da Classe D.

Enquanto falava, ela direcionou o olhar para Amikura e os demais alunos da turma de Ichinose.

— Ainda assim... — Sua expressão mudou quando ela decidiu trocar de assunto deliberadamente. — Ter minha verdadeira natureza exposta tem sido quase um pesadelo completo... mas momentos como este, em que posso simplesmente parar de fingir e dizer o que realmente penso, talvez sejam a única coisa que me salva.

Encerrando a conversa à força, ela deu um passo para trás. Ainda não havia tocado em uma única mordida do jantar.

— Desculpe, mas vou voltar. Realmente não quero atrair ainda mais atenção desnecessária da Shinohara e dos outros.

— Sua vida dupla parece exaustiva.

— Um pouco tarde para perceber isso.

Com isso, Kushida girou nos calcanhares e retornou ao grupo de Amikura.

Era verdade que Shinohara estava usando Kushida, em parte, como uma válvula de escape para a frustração que sentia em relação a mim. Obviamente, Kushida não ficaria satisfeita em servir de dano colateral naquele conflito.

Ainda assim, isso não significava que eu pretendia deixá-la de fora dos meus planos a partir do dia seguinte. Este exame especial carregava uma penalidade garantida: alguém seria expulso.

Normalmente, a estratégia seria se fechar, proteger todos do próprio grupo e apenas torcer para que o último colocado viesse de outro grupo ou de outra turma. Mas eu não tinha a menor intenção de jogar dessa forma.

Era muito mais racional assumir o controle e escolher pessoalmente o alvo da expulsão entre os outros quinze alunos do meu grupo. Eu não deixaria de preparar o terreno para que qualquer um pudesse ser selecionado, dependendo de como a situação evoluísse.

Embora sua prioridade fosse baixa, Kushida naturalmente era uma dessas candidatas. Essa era simplesmente a realidade da situação.

*

 

Quando terminamos o jantar, o supervisor se aproximou do grupo com um tablet nas mãos.

— Já que todos terminaram suas refeições, agora vocês participarão de uma nova tarefa de categoria individual — anunciou o supervisor. — Como continuarão trabalhando juntos como grupo para enfrentar as tarefas a partir de amanhã, gostaria que elegessem oficialmente uma "Pessoa Popular" e uma "Pessoa Impopular". Cada um de vocês votará uma vez para Pessoa Popular e uma vez para Pessoa Impopular. O estudante coroado como Pessoa Popular receberá uma recompensa de cinco tokens ao final da tarefa. Por outro lado, o estudante escolhido como Pessoa Impopular perderá metade dos tokens que possui atualmente. Como medida de alívio, qualquer pessoa que possua apenas um token não perderá nada. No entanto, se o infeliz estudante tiver um número ímpar de três ou mais tokens, qualquer fração resultante será arredondada para baixo, o que significa que ele poderá perder mais da metade de seus tokens. Por fim, qualquer aluno que votar na Pessoa Popular vencedora receberá dois tokens.

Uma tarefa para decidir quem era o mais popular e o menos popular entre nós. Naturalmente, os olhares dos alunos das outras turmas se voltaram para Kushida. Enquanto isso, Ike, Shinohara e Ibuki me lançaram olhares carregados de significado.

— Se houver empate para Pessoa Popular, nenhum token será concedida — continuou o supervisor. — Por outro lado, caso haja empate para Pessoa Impopular, todos os empatados terão seus tokens reduzidos pela metade. Vocês terão trinta minutos para discutir, e o método de votação será o mesmo de antes. Além disso, quem conquistar o título de Pessoa Popular ficará automaticamente isento de ser escolhido como Pessoa Impopular. Nesse caso, a penalidade será transferida automaticamente para a pessoa com a segunda maior quantidade de votos. Podem começar.

Entre a tarefa anterior e esta, uma sensação de déjà-vu pairou sobre o grupo.

— Já fizemos um exame especial parecido com este antes, não foi? — murmurou Yoshida para Sanada, sentado ao meu lado.

— Sim, é extremamente parecido — respondeu Sanada em voz baixa. — É possível que este exame especial inteiro tenha sido projetado para refletir exames especiais que já enfrentamos no passado. Pensando bem, o formato desse grupo misto de quatro turmas é bastante semelhante ao Acampamento de Treinamento Misto, então faz sentido.

Ainda era cedo demais para tirar conclusões definitivas, mas a possibilidade parecia cada vez mais plausível.

Se esse realmente fosse o caso, então a partir do dia seguinte poderíamos enfrentar tarefas inspiradas nas regras do Paper Shuffle, do Exame de Seleção de Eventos ou da Prova Escrita Abrangente Cooperativa, embora em uma escala muito menor.

Independentemente disso, especular sobre o futuro não nos ajudaria naquele momento. Precisávamos nos concentrar na tarefa que estava diante de nós: aquela em que a Pessoa Popular ganharia tokens.

Ao contrário da tarefa anterior, que havia sido estruturada para que todos pudessem colher benefícios facilmente, desta vez apenas uma única pessoa sairia com os cinco tokens. A recompensa não poderia ser dividida entre os quinze participantes. Diante dessa realidade, era natural que todos quisessem ser eleitos como Pessoa Popular.

Entretanto, a verdade era que poucos estudantes possuíam confiança suficiente para proclamar descaradamente sua própria popularidade.

Na maioria das vezes, aqueles que se declaravam populares em voz alta acabavam justamente sendo excluídos pelos demais.

Até mesmo Ike, apesar da evidente vontade de se manifestar, optou por permanecer calado. Ele sabia muito bem que o título de Pessoa Popular estava completamente fora de seu alcance. Mais do que isso, temia que chamar atenção para si acabasse produzindo o efeito contrário, transformando-o em um dos principais candidatos aos votos de Pessoa Impopular.

— Essa tarefa vai ser um saco — murmurou alguém. — Se todos nos coordenarmos e votarmos na mesma Pessoa Popular, cada um ganha dois tokens, mas o vencedor leva cinco. Não vai ser fácil chegar a um acordo sobre quem fica com a maior parte do prêmio.

— Se vamos ter dificuldade para alcançar um consenso, não seria mais seguro votar na Kushida, assumindo que estamos avaliando apenas popularidade? — intervim, tentando evitar que a discussão se prolongasse.

— E-Eu? — Kushida piscou, fingindo surpresa.

Na verdade, talvez ela estivesse genuinamente surpresa.

Afinal, todos os alunos da turma de Horikita já conheciam a verdadeira Kushida. Embora provavelmente tivesse interpretado minha sugestão como um reconhecimento superficial de sua persona "gentil", o choque estampado em seus olhos indicava que ela tentava desesperadamente descobrir minhas verdadeiras intenções.

Ao mesmo tempo, Yoshida e meus colegas de turma também pareciam visivelmente surpresos. Recomendar uma aluna de uma turma rival equivalia, na prática, a entregar voluntariamente a maior recompensa para outra classe.

Enquanto Kushida me observava com desconfiança, também senti a pressão silenciosa de uma pergunta implícita em seu olhar: "O que você está tramando?"

Talvez fosse apenas impressão minha, então ignorei e continuei falando.

— Claro, isso é apenas uma sugestão. Se alguém tiver um candidato mais adequado em mente, não tenho objeções.

Ao formular a proposta dessa maneira, fiz parecer que não estava tentando impor minha opinião. Ainda assim, a primeira ideia lançada à mesa invariavelmente estabelece o ponto de referência para o restante do debate.

— Não, você tem toda razão! — Ike aderiu à ideia imediatamente. — A Kikyo-chan é superpopular. Ela se dá bem com todo mundo e nunca se mete em dramas desnecessários.

Ignorando completamente o fato de que a sugestão tinha partido de mim, ele expressou seu apoio com entusiasmo.

Kushida possuía duas faces. Embora todos em sua turma conhecessem sua verdadeira personalidade, enquanto os alunos das outras turmas continuassem ignorando isso, sua imagem pública permanecia um recurso valioso a ser explorado. Ike compreendia perfeitamente esse fato. Além disso, sua afeição naturalmente elevada por Kushida certamente contribuía para seu entusiasmo.

— Vocês... acham mesmo? Não tenho tanta certeza — murmurou ela.

— Claro que sim. Entre todo mundo aqui, tem que ser você, Kikyo-chan. Sem a menor dúvida! — afirmou Ike, assentindo energicamente, com um largo sorriso estampado no rosto.

Quando Kushida respondeu com um sorriso tímido e constrangido, a expressão de Ike se derreteu ainda mais. Seus olhos se estreitaram de pura satisfação enquanto um sorriso bobo se espalhava pelo rosto.

Embora o apoio de Ike estivesse claramente servindo como cobertura tática para sua turma, do ponto de vista de sua namorada, Shinohara, aquilo não tinha absolutamente nada de engraçado.

Era dolorosamente óbvio que sua irritação aumentava ao ver o namorado babando por outra garota. Em circunstâncias normais, ela provavelmente já o teria arrastado pela orelha e despejado alguns insultos em sua direção. No entanto, garantir o título de Pessoa Popular para Kushida beneficiava diretamente sua própria classe.

— Bem... é — suspirou Shinohara, incapaz de esconder completamente um tom amargo na voz. — Seria outra história se alguém como a Ichinose-san estivesse aqui, mas, entre as pessoas deste grupo, Kushida-san não é a escolha mais segura?

Engolindo sua irritação pessoal, ela optou por apoiar a proposta de Ike. Naturalmente, esse impulso não agradou ninguém fora da Classe A. A resistência começou quase imediatamente.

— Esperem um segundo. Eu entendo por que vocês dizem que a Kushida é popular, e não estou negando isso, mas simplesmente entregar nossos votos para ela assim é um pouco... — Yoshida interrompeu a própria frase, sua hesitação evidente enquanto tentava formular um contra-argumento convincente.

— Então em quem você vai votar? — provocou Ike. — Me diga uma pessoa aqui que seja mais popular do que a Kikyo-chan. Pode falar, eu espero.

— Isso...

Yoshida percorreu o círculo com o olhar. Procurava alguém capaz de rivalizar — ou talvez até superar — a popularidade amplamente reconhecida de Kushida. Mas, mesmo que tentasse blefar, não existia nenhum aluno daquele grupo que se encaixasse nessa descrição.

— Viu? Por mais que tentem encontrar outra resposta, não existem outros candidatos. Então está decidido, decidido!

— Eu não sou tudo isso, sabia...? — Kushida ofereceu mais um sorriso modesto, mas sua negativa era pouco convincente. Sua postura deixava claramente aberta a possibilidade de aceitar a indicação.

E essa mesma vulnerabilidade dava a Ike e aos demais membros da Classe A ainda mais motivos para insistirem nela.

— Entendo seu ponto, Yoshida, mas, realisticamente, não existe candidato melhor do que Kushida. — Ofereci essa defesa seca em benefício da Classe A, embora estivesse apenas expondo os fatos.

— Se ao menos a Shiraishi estivesse aqui... — murmurou Yoshida para si mesmo, sua frustração passando despercebida pelos demais. Eu não diria que Shiraishi era impopular, mas o voto imaginário de Yoshida era movido inteiramente por sua preferência pessoal.

— Entendo.

Katsuragi, que observava a troca em silêncio, finalmente se pronunciou. De braços cruzados, fixou seu olhar afiado diretamente em mim.

— Sua lógica faz sentido. No entanto, há uma falha gritante nesta discussão.

Como esperado, parecia que Katsuragi fora o primeiro a perceber.

— Estamos nos deixando enganar pelas palavras "Popular" e "Impopular", cegando-nos completamente para os interesses conflitantes de nossas respectivas turmas.

Sua voz era baixa, mas o peso de suas palavras ancorou toda a conversa.

— Este grupo é formado por alunos das quatro classes. Naturalmente, dependendo do resultado, algumas classes lucrarão enquanto outras sofrerão perdas.

Acrescentou Katsuragi.

— Mas isso não tem jeito, certo? A Kikyo-chan realmente é popular...

— Esse é exatamente o ponto. A popularidade real dela é completamente irrelevante — Katsuragi interrompeu Ike sem hesitar. — É verdade que a tarefa pede que escolhamos uma "Pessoa Popular", mas não existe absolutamente nenhuma regra que diga que a pessoa indicada precise realmente se encaixar nessa descrição.

— Hã...? Mas o supervisor disse literalmente que tínhamos que decidir isso adequadamente para cumprir a tarefa.

— E daí? Aquilo foi apenas uma instrução para completar o objetivo. Eu não interpretei essa declaração como nada além do que ela realmente era. E você?

Ele acertou em cheio. Aquilo não era um concurso de popularidade genuíno. Em sua essência, era apenas uma disputa para determinar quem acumularia tokens e quem seria privado delas. Enquanto permanecêssemos distraídos pela terminologia superficial, nunca teríamos uma discussão significativa.

— Votar na Kushida simplesmente beneficia a Classe A.

O olhar de Katsuragi tornou-se ligeiramente mais intenso. Era mais um teste do que uma simples observação.

— Ah... então é isso... — murmurou alguém, à medida que a compreensão se espalhava. — Certo. Não importa se a pessoa é realmente popular ou não.

— Então a proposta está rejeitada. Rejeitada — Ibuki disparou sem perder um único segundo. Mas rejeitá-la não era suficiente para ela. — Sério, por que diabos deveríamos entregar tokens para a Kushida, para uma turma rival? Vocês quase foram levados por isso. São idiotas ou o quê?

Agora que a ilusão havia sido destruída, a rejeição era aberta e visceral. Ela já não discutia com lógica; era pura emoção. Mas tudo bem. Na verdade, aquela emoção crua era exatamente o que eu precisava para alterar a dinâmica. Enquanto tudo ocorria exatamente como eu havia planejado, a atenção intensa de Katsuragi voltou-se para mim.

— Não existe a menor possibilidade de Ayanokoji não ter percebido algo tão óbvio quanto isso. Sou o único que pensa assim?

A acusação veio de forma direta, questionando por que eu havia indicado Kushida em primeiro lugar.

— Você não está conspirando secretamente com a Kushida-san pelas nossas costas, está, Ayanokoji-kun? — perguntou Shinohara, que até então havia estado nominalmente do lado de Kushida por serem colegas de turma, mas agora direcionava sua suspeita diretamente para mim.

— E-Eh? O que você quer dizer com isso, Shinohara-san? — Ao perceber que as suspeitas estavam começando a apontar para ela, Kushida imediatamente intensificou sua atuação de confusão e nervosismo. Mas Shinohara ignorou completamente a encenação.

— Quero dizer exatamente o que disse. Bem, acho que não há como Kushida-san realmente descer a esse nível.

— Claro que não. Nós nem sequer tínhamos como saber que tipo de tarefa viria em seguida.

— É, Satsuki, você está exagerando um pouco.

— E por que exatamente você está defendendo a Kushida-san?! — disparou Shinohara.

— Ei, espera aí! Não precisa ficar tão agressiva, certo? Quero dizer, eu pensei exatamente a mesma coisa que o Ayanokoji, então talvez ele só estivesse tentando escolher a opção mais segura.

— Duvido muito disso. Não pense que eu não percebi você passando o tempo inteiro encarando a Kushida-san, Kanji!

— N-Não é verdade! Juro! Sério, eu juro!

Enquanto o clima se deteriorava rapidamente em uma discussão de casal que ameaçava descarrilar o debate, Ibuki perdeu a paciência e chutou o chão com irritação.

— Tanto faz. O ponto é que eu me recuso completamente a entregar tokens para a Classe A.

— Concordo. Nós também somos contra.

Um após o outro, os membros da Classe B manifestaram oposição, e as demais classes rapidamente seguiram o mesmo caminho. Ninguém dava sinais de querer recuar.

— Ah, qual é... Isso ainda é melhor do que criar uma confusão desnecessária, não é? — Virando as costas para evitar o olhar aterrorizante de Shinohara, Ike tentou desesperadamente acalmar o grupo. — Qual é o sentido de começarmos a nos atacar logo de cara? Assim nunca vamos chegar a um acordo.

— Então vamos parar de ficar rodando em círculos — declarou Ibuki de forma direta, sem a menor paciência para discussões intermináveis. — Vamos simplesmente escolher em quem queremos votar e acabar com isso.

Se a conversa não podia produzir um resultado favorável, ela preferia nivelar o campo de jogo. Para ela, um confronto direto era o caminho mais simples e oferecia a melhor chance de vitória.

Katsuragi refletiu silenciosamente sobre a sugestão.

— Simplesmente indicar quem quisermos talvez seja realmente a opção mais segura.

— Quero dizer, se o objetivo é que a Pessoa Popular ganhe tokens, então votar normalmente faz mais sentido. Não que eu me importe com o resultado.

Ibuki assentiu casualmente, como se aquela fosse a conclusão mais natural possível.

— Entretanto, seguir por esse caminho praticamente garante que cada turma consolidará seus próprios votos — apontou Sanada. — Mesmo sem dizer uma única palavra, é fácil coordenar isso apenas trocando olhares.

Ele tinha razão. Se nos dividíssemos por turmas, o resultado seria apenas quatro possíveis "Pessoas Populares" recebendo três votos cada. Um empate múltiplo significaria zero tokens para todos.

— Exatamente! — Ike aproveitou a oportunidade. — Se fizermos isso, os votos vão se dividir e ninguém ganha nada. Nesse caso, é muito melhor concentrarmos os votos na Kikyo-chan e aumentar o total geral do grupo! Este exame especial não é só sobre indivíduos acumulando tokens, certo? É sobre ajudarmos uns aos outros!

— Você tem um ponto, Ike — interveio Sonoda, da Classe B. — Entendo o que você quer dizer. Mas, se o objetivo é concentrar pontos, então alguém da Classe B... inferno, até eu serviria. O total aumentaria da mesma forma, então dá exatamente na mesma.

— Ah, isso é um pouco diferente, Sonoda-kun — rebateu Shinohara. — Ajudar uns aos outros significa confiar que a pessoa realmente vai estender a mão quando alguém estiver em apuros. Sem querer ofender, Sonoda-kun, mas você não é exatamente alguém confiável. Já a Kushida-san é. Não é mesmo, Ayanokoji-kun?

Ela estava usando habilmente a mesma lógica que eu havia apresentado anteriormente sobre a confiabilidade de Kushida, voltando-a diretamente contra Sonoda.

— Sim, essa lógica faz sentido — concordei.

Se Kushida fosse escolhida como Pessoa Popular, ganharia cinco tokens. Embora esses tokens pertencessem oficialmente à Classe A, caso Sonoda ou qualquer outra pessoa acabasse em uma situação desesperadora no futuro, Kushida possuía a reputação de alguém que retribuiria favores e ofereceria ajuda. Funcionava como uma espécie de seguro para o futuro.

— Claro, talvez isso signifique que nossa turma receba alguns tokens a mais agora — continuou Shinohara, pressionando sua vantagem. — Mas você pode encarar isso como o valor da confiança. Não é mesmo, Kushida-san?

— Eu... eu realmente não sei se sou adequada para ser a Pessoa Popular — respondeu Kushida, com uma voz suave e sincera. — Mas, se alguém acabasse em apuros, eu certamente gostaria de ajudar.

Um pesado silêncio caiu sobre o local, enquanto o peso dos argumentos conflitantes permanecia suspenso no ar. Aquelas eram as palavras de alguém que talvez fosse a pessoa mais confiável de todo o grupo. Mesmo assim, as outras turmas não conseguiam simplesmente concordar.

O problema central era a disparidade inevitável de tokens. Dar a vitória para Kushida significava aceitar voluntariamente a criação de uma diferença entre as classes dentro do grupo, algo que elas queriam evitar desesperadamente. Mesmo que isso significasse abrir mão da recompensa e forçar um empate, impedir o surgimento de uma hierarquia clara parecia mais seguro.

A discussão havia deixado completamente de ser sobre "quem é popular" e se transformado em "estamos dispostos a deixar a Classe A assumir a liderança?"

— O que fazemos, Ayanokoji? — sussurrou Yoshida, inclinando-se para que os outros não ouvissem. — Você tem algum plano?

Não respondi. Apenas deixei meu olhar deslizar discretamente para o lado, observando a distância entre Ike, Shinohara e Kushida, que permanecia um pouco além deles. Uma separação muito sutil, mas inegável, havia surgido entre os três — uma pequena fissura que não existia momentos antes.

Para os propósitos desta tarefa, isso por si só já era suficiente. No momento, não passava de uma pequena semente de desconforto, mas, com tempo suficiente e nas circunstâncias certas, inevitavelmente floresceria em algo muito mais concreto. Sem qualquer compromisso visível no horizonte, o relógio continuou avançando.

Um minuto se passou. Depois outro.

— Sério, o que estamos fazendo aqui? Não vamos avançar se não decidirmos alguma coisa de verdade — reclamou Ike por fim, sua paciência se esgotando.

Entretanto, a irritação em sua voz não vinha de raiva genuína. Era apenas uma impaciência desesperada para acabar logo com aquilo, prova de que ele não suportava mais um segundo da tensão sufocante que pairava no ambiente.

— Quanto à Pessoa Popular, realmente parece que essa é nossa única opção viável — acrescentou Shinohara, erguendo ligeiramente o olhar.

Naturalmente, vários olhares se voltaram imediatamente para ela. Ainda havia uma clara cautela nesses olhares, mas, por enquanto, isso não era um problema.

— Então vocês estão dizendo que a escolha deve se basear exclusivamente na confiabilidade pessoal da Kushida... — refletiu Katsuragi, ainda de braços cruzados. — É verdade que, sob essa perspectiva, a lógica é sólida, mas...

Seus olhos permaneceram semicerrados, sondando silenciosamente minhas intenções. Era óbvio que ele ainda não estava completamente convencido.

— Não me importa se os votos da turma acabarem se dividindo ou coisa do tipo. No fim, isso só significa que vamos acabar escolhendo aleatoriamente de qualquer jeito, não é? — Ibuki zombou. — Então por que ainda estamos dando voltas e mais voltas? Isso é tão idiota.

— Pois é. Basicamente, só precisamos decidir o que é melhor: deixar os votos se dividirem e ninguém do grupo receber tokens, ou dar a vitória para a Classe A e aumentar o total geral de tokens do grupo — disse Ike, dando de ombros rapidamente. — Tentar fazer algum joguinho mental estranho e fracassar completamente é muito pior.

— Além disso, se o grupo está trazendo tokens, o normal é sermos gratos por isso — acrescentou Shinohara, assentindo levemente. Seu comentário pareceu casual, mas carregava exatamente o peso necessário para inclinar a balança de forma decisiva.

Ao mudar o foco para uma questão simples e fácil de entender — o lucro total — a resistência das outras turmas enfraqueceu consideravelmente.

— Não posso dizer que minhas objeções desapareceram por completo — admitiu Katsuragi por fim. — Mas, considerando que não há nenhuma contraproposta clara neste momento... estou disposto a aceitar isso provisoriamente.

— Certo, então... estamos oficialmente de acordo com a Kikyo-chan como Pessoa Popular?

Como ninguém apresentou uma objeção direta à confirmação de Ike, alguns segundos de silêncio pesado se passaram antes que aquilo fosse silenciosamente interpretado como aprovação unânime. Com isso, o primeiro grande obstáculo foi superado.

— Acho que tudo bem — disse Ibuki de repente, inclinando-se para a frente. — Mas, a propósito, o que exatamente vamos fazer sobre a Pessoa Impopular?

A atmosfera mudou instantaneamente, e o ar ao nosso redor pareceu ficar visivelmente mais pesado. Se havia um ponto central para Ibuki, era justamente esse. Ao contrário do que aconteceu com a Pessoa Popular, desta vez ninguém ousou abrir a boca casualmente.

E era natural. Não se tratava de exaltar alguém; era uma discussão sobre rebaixar alguém. Não havia como isso terminar de forma pacífica, e era exatamente por isso que todos sabiam que precisavam agir com cautela.

— Um debate em que apenas tentamos empurrar a penalidade para outra pessoa à força só terminará em um conflito feio e improdutivo. A solução mais simples é alguém disposto a assumir a perda se apresentar voluntariamente — declarou Katsuragi, indo direto ao ponto para impedir que o clima se tornasse hostil.

— Bem, suponho que isso seja verdade — murmurou um aluno da Classe C, enquanto os demais colegas exibiam expressões igualmente complicadas e desconfortáveis.

— Definir a Pessoa Popular durante esta discussão já é suficiente — acrescentou Katsuragi após uma breve pausa. — Quanto à votação da Pessoa Impopular, basta que cada um avalie a situação por si mesmo e vote como achar melhor.

— Então é algo do tipo "sem ressentimentos", certo? — confirmou Shinohara, embora uma leve irritação transparecesse em sua voz. Ela não era burra; sabia perfeitamente que, se expressasse uma opinião fortemente negativa naquele momento, colocaria um alvo nas próprias costas.

Ibuki, que havia sido a primeira a levantar a questão, também permaneceu calada depois disso. Diferentemente de Kushida, que já havia garantido claramente a posição de Pessoa Popular, Ibuki era exatamente o tipo de aluna que corria alto risco de acumular votos para Pessoa Impopular.

— É exatamente nisso que se resume — confirmou Katsuragi.

— Entendo... — murmurou Sanada, resumindo a estratégia em voz alta. — Ao escolhermos não unificar nossos votos, estamos, por outro lado, abrindo espaço para jogos mentais.

Ele assentiu levemente, parecendo totalmente convencido. Ele estava certo. Se escolhêssemos à força um único sacrificado agora, o raciocínio de todos permaneceria simples e direto.

Mas, ao dispersar o alvo, estávamos forçando todos a ler nas entrelinhas. E essas interpretações... inevitavelmente se distorceriam.

Ike relaxou os ombros, e Shinohara o imitou com um pequeno suspiro de alívio. Os dois trocaram um breve olhar. Foi uma demonstração perfeita de comunicação silenciosa, um fenômeno que os alunos das outras turmas começavam a reproduzir inconscientemente.

Afirmar que deixaríamos o papel do azarado para a sorte, sem apontar ninguém diretamente, não passava de uma fachada conveniente.

Na realidade, blocos de votação coordenados se formam com a mesma facilidade para penalidades negativas que para recompensas positivas. Na verdade, os mecanismos psicológicos por trás de um voto negativo criam uma necessidade ainda maior de conluio. "Vote como quiser" soava perfeitamente justo na teoria, mas, na prática, desencadeava imediatamente uma rede de jogos mentais. As pessoas fazem previsões, e outras naturalmente se apoiam nessas previsões para se proteger. Se esse efeito manada não for contido, ele inevitavelmente converge para um único ponto: o alvo mais seguro e conveniente possível.

Não era preciso se perguntar quem seria esse alvo azarado. Ike e Shinohara votariam em mim com cem por cento de certeza. Ibuki perceberia isso e lançaria um terceiro voto na minha direção.

Além disso, alunos perspicazes como Katsuragi antecipariam exatamente esse desenrolar e direcionariam seus próprios votos para me empurrar com segurança para a posição de Pessoa Impopular.

Esse consenso silencioso já estava se espalhando rapidamente entre os alunos de fora da Classe C. Não era surpresa que Sanada parecesse um pouco inquieto ao perceber a corrente se formando contra nós, mas ele não podia levantar objeções. Como havíamos ostensivamente concordado em deixar a decisão a critério individual, ele não tinha base para impedir aquilo.

— Bem, então, já que está resolvido, vamos votar logo — sugeriu Ike.

Pequenos murmúrios de concordância ecoaram ao redor do círculo, e o impulso da sala mudou completamente para a execução da votação. Kushida para Pessoa Popular, e critério individual para Pessoa Impopular.

Como discussão, aquilo havia terminado. Pelo menos na superfície. Nem todos estavam plenamente satisfeitos, mas cavar mais fundo inevitavelmente exporia a feia realidade de que alguém estava prestes a ser deliberadamente sacrificado. Diante disso, era natural que o grupo quisesse encerrar o debate enquanto o ambiente ainda permanecia relativamente pacífico.

Na verdade, interromper a conversa naquele ponto era a decisão correta para a maioria. Investigar demais poderia fazer os ventos mudarem em uma direção imprevisível. Justamente porque eles haviam acabado de conspirar abertamente para concentrar seus votos positivos em uma única pessoa, ninguém queria chegar nem perto da votação negativa. A declaração superficial de "não decidir" estava funcionando perfeitamente como uma medida coletiva de autoproteção.

Naturalmente, porém, para mim, que estava sendo visado, não havia intenção alguma de deixar a discussão terminar ali.

— Gostaria de confirmar uma última coisa antes de prosseguirmos — falei, interrompendo os momentos finais antes da votação. — Se realmente deixarmos isso a critério individual, os votos para Pessoa Impopular vão se dividir. Isso significa que vários alunos podem acabar tendo seus tokens reduzidos pela metade. Não seria esse o pior cenário possível?

— Qual é o problema? Você ainda vai continuar enrolando isso? — resmungou Ike. — Já chega. Não é como se tivéssemos decidido que a Pessoa Impopular vai ser alguém da Classe C ou algo assim.

Suas palavras estavam carregadas de subtexto mal disfarçado. O que ele realmente queria dizer era: Você vai ser a Pessoa Impopular, então uma divisão de votos nem vai acontecer.

— Eu também não gostaria de voltar a esse assunto — interveio Sanada, provavelmente percebendo que aquela era sua única oportunidade. — Mas... nesse caso, qual você acredita ser a solução correta, Ayanokoji-kun?

Era possível praticamente sentir a irritação emanando das outras turmas. Esse era um assunto que elas queriam desesperadamente varrer para debaixo do tapete.

— É um problema difícil — respondi sem hesitar. — A realidade é que ser escolhido como Pessoa Impopular traz apenas desvantagens severas.

— E é precisamente por isso que estamos realizando uma votação aberta e igualitária — declarou Katsuragi. — Se isso resultar em um empate e várias pessoas acabarem sofrendo a penalidade, então simplesmente não haverá o que fazer.

O olhar afiado de Katsuragi se fixou no meu. Suas palavras carregavam um desafio silencioso e inequívoco: Mostre-me como pretende escapar dessa situação. Vamos ver como pretende virar o jogo.

— Concentramos nossos votos em Kushida, que naturalmente desperta o menor número de objeções como "Pessoa Popular", tanto no nome quanto na prática. Isso garante dois tokens para cada um dos quinze integrantes do grupo. Até aí, não há problema — comecei, estabelecendo primeiro a premissa.

— A questão está no voto restante para Pessoa Impopular. Se os votos se dispersarem, existe uma chance real de dois ou três alunos acabarem perdendo metade de seus tokens cada um. Para evitar isso, precisamos determinar uma única Pessoa Impopular desde o início, da mesma forma que fizemos com a votação da Pessoa Popular.

— Hã? Estamos tendo essa conversa justamente porque não dá para fazer isso — zombou Ike. — O que você está...

— Ainda não terminei — interrompi, voltando-me para o grupo. — Portanto, nossa turma assumirá voluntariamente o papel de Pessoa Impopular.

Em vez de confiar nosso destino a alguma ilusão superficial de igualdade, eu estava deliberadamente me oferecendo para assumir a penalidade. Ao fazer isso, poderia conduzir a situação a uma conclusão que parecia semelhante à anterior, mas que era fundamentalmente diferente.

— Ao aceitar antecipadamente a penalidade de Pessoa Impopular, podemos estabelecer uma estrutura em que as outras turmas tenham garantia absoluta de não sofrer nenhuma baixa — expliquei.

— Bem, é verdade. Concordo, concordo totalmente! Não é, Satsuki?

— Sim, acho que tudo bem. Se a Classe C está se oferecendo voluntariamente, não tenho nenhuma reclamação.

Como Ike e Shinohara já haviam, em suas mentes, destinado seus votos de Pessoa Impopular para mim, nenhum dos dois levantou qualquer objeção.

— No entanto, em troca de assumir o prejuízo, quero que Kushida transfira dois tokens para o nosso lado após o término da tarefa — acrescentei. — Ela receberá cinco por ser a Pessoa Popular. Mesmo entregando duas, ainda ficará com três, o que significa que sua parcela individual continuará sendo a maior entre todos aqui.

— Bem, se a Classe C vai assumir a penalidade, eu não me importo com essa condição, mas... — começou Kushida, demonstrando sua intenção de concordar, apenas para ser imediatamente interrompida por Ike.

— Espera aí! Por que a Kikyo-chan tem que arcar com isso? Isso é totalmente injusto!

— Não há nada de injusto nisso — retruquei calmamente. — Estamos nos sacrificando para garantir que múltiplas penalidades de Pessoa Impopular não sejam acionadas. Estou apenas pedindo uma pequena compensação para amenizar nossos prejuízos.

Como a ideia de que eu seria a Pessoa Impopular já estava completamente consolidada na cabeça de Ike, não era surpresa que ele enxergasse essa cobrança sobre Kushida como um peso sem sentido.

— A lógica parece sólida — ponderou Katsuragi. — Na prática, mesmo que a Classe C receba dois tokens como compensação, ela não terminará com saldo positivo. A quantidade de tokens que cada aluno possuía no início varia, mas mesmo supondo que os quatro membros da Classe C tenham começado com o mínimo de dois tokens, somando a recompensa anterior, cada um teria agora três ou mais. No momento em que esse total for reduzido pela metade, perderão pelo menos dois tokens. O saldo líquido é zero. E, se começaram com mais do que isso, a perda será ainda maior.

Como nenhum dos alunos mais perspicazes havia iniciado esse exame especial com apenas dois tokens, provavelmente nem lhes ocorreu que alguém pudesse manipular matematicamente a penalidade para transformá-la em um saldo final neutro.

— Mas tem alguma coisa estranha nisso! Pode ser uma armadilha! — protestou Ike.

— Não me importo se você duvida das minhas intenções — respondi. — Mas, se não gosta da proposta, Ike, fique à vontade para assumir o papel de Pessoa Impopular. Naturalmente, você também terá direito a dois tokens extras como compensação.

— I-Isso... é impossível! Não tem como eu fazer isso! — Ike recuou imediatamente, rejeitando a oferta com veemência.

E com razão. Quase certamente, Ike possuía mais tokens do que a compensação proposta seria capaz de cobrir. Se ainda terminasse com prejuízo após ter seus tokens reduzidos pela metade e receber as duas extras, não havia chance alguma de aceitar.

Durante o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência, alunos como Katsuragi e Ike conseguiram permanecer por bastante tempo sem serem eliminados. Como consequência, iniciaram o exame atual com uma reserva confortável de tokens. Era perfeitamente compreensível que a possibilidade de alguém ter três tokens ou menos naquele momento tivesse simplesmente escapado à atenção deles.

Como não havia um único aluno nas outras turmas disposto a aceitar a redução pela metade de seus próprios tokens, era praticamente impossível rejeitarem a condição que eu havia proposto.

— Eu estava curioso para ver como você resolveria esse impasse — disse Katsuragi, com um leve traço de respeito relutante na voz. — Entendo. Então havia essa perspectiva também.

Mesmo que as outras turmas quisessem reclamar por mera insatisfação, não podiam se oferecer como substitutas. Tampouco podiam afirmar abertamente que eu acabaria sendo a Pessoa Impopular de qualquer forma sem expor a própria conspiração. Eu havia eliminado completamente qualquer possibilidade de contra-ataque.

— Nesse caso, acho que eu assumo o papel de Pessoa Impopular — anunciou Yoshida, erguendo a mão como se estivesse esperando exatamente por aquele momento. — Kushida, vou contar com esses dois tokens depois.

Diante daquela oferta casual demais, a atmosfera congelou por um instante. 

Logicamente, todos compreendiam a ideia de alguém assumir uma perda pelo bem do grupo, mas era raro ver alguém se oferecer de forma tão direta. Ainda mais em uma situação de alto risco, na qual o resultado implicava uma perda imediata de tokens próprias.

— Ei, se alguém precisa fazer isso de qualquer jeito, é melhor decidir logo e seguir em frente — disse Yoshida, olhando diretamente para Ike e Shinohara, que haviam demonstrado a maior resistência até então. — Além disso, do ponto de vista da nossa turma, não teria graça nenhuma se o Ayanokoji acabasse acumulando todos os votos de Pessoa Impopular por alguma coincidência absurda.

Embora sua oferta sugerisse discretamente que ele possuía uma quantidade confortável de tokens para desperdiçar, ela funcionava como um poderoso fator de dissuasão.

— Bem, considerando quem realmente seria a "Pessoa Impopular", talvez eles não estejam errados — murmurou Shinohara. — Ainda acho muito mais natural simplesmente deixar cada um votar como quiser e aceitar o resultado.

Seu desejo de me atingir enquanto tinha a oportunidade era completamente transparente; ela nem sequer tentava esconder.

— Achei que um grupo deveria cooperar sempre que possível, não? — provocou Yoshida com leveza, dando de ombros. — Se simplesmente deixarmos tudo ao acaso aqui, e por uma coincidência incrível uma certa pessoa acabar recebendo doze votos inteiros... bem, isso vai parecer muito mais uma votação coordenada do que uma coincidência. E, sinceramente, eu odiaria ver nosso relacionamento cooperativo desmoronar por causa disso.

Não havia o menor traço de seriedade em sua postura. Ele não parecia alguém coagido a assumir o papel; pelo contrário, transmitia perfeitamente a imagem de alguém que estava assumindo o fardo por livre e espontânea vontade em benefício de sua turma.

Como os interesses das quatro turmas jamais se alinhariam perfeitamente, situações em que alguém precisaria ceder eram inevitáveis. Mas, uma vez que alguém havia se oferecido voluntariamente para se sacrificar, qualquer justificativa restante para prolongar a discussão desapareceu por completo.

— Você tem razão. Se esse é o acordo, não tenho objeções — disse Katsuragi, assentindo discretamente.

Sonoda, Minamikata e os demais alunos da Classe B trocaram olhares, mas nenhum deles expressou oposição significativa. Mesmo que não estivessem totalmente satisfeitos com o resultado, provavelmente concluíram que, sem alternativas melhores, não tinham escolha a não ser aceitar o compromisso.

Ibuki também apenas deu de ombros de leve, sem fazer qualquer tentativa de intervir. Ela sabia perfeitamente que insistir mais naquele assunto corria o risco de fazer a ponta da lança se voltar contra ela.

Quanto à Classe A, mesmo que Ike e Shinohara insistissem em votar em mim como Pessoa Impopular naquele momento, não havia garantia de que eu acabaria recebendo mais votos do que Yoshida. Se dois ou três votos dispersos recaíssem sobre mim de forma descuidada, isso apenas despertaria suspeitas e acabaria destruindo a frágil relação de cooperação que havíamos construído.

— Tá bom, já entendi — resmungou Ike. — Então é só votar no Yoshida, certo?

E assim, os alvos foram oficialmente definidos: Kushida, em quem o grupo confiava, e Yoshida, que havia se oferecido como bode expiatório.

Nem todos ficaram satisfeitos com o resultado, mas ele se situava exatamente na linha mínima aceitável para as quatro turmas. Era um equilíbrio frágil, sustentado pelo entendimento mútuo de que avançar sequer um passo além daquele ponto faria toda a discussão desmoronar.

Seguindo as instruções do supervisor, todos baixamos o olhar para nossos smartwatch. O processo de votação era extremamente simples: um voto para a Pessoa Popular e um voto para a Pessoa Impopular.

Durante o breve intervalo antes da confirmação dos resultados, um silêncio pesado envolveu o local; ninguém ousou dizer uma palavra. E assim, a tarefa chegou ao fim.

Quando os resultados foram confirmados e a tensão sufocante finalmente se dissipou, Yoshida lançou casualmente um olhar em minha direção. Nossos olhos se encontraram por apenas um instante, e ele ergueu o polegar discretamente.

Para qualquer observador, aquilo poderia facilmente ser interpretado como o pequeno gesto satisfeito de alguém que acabara de assumir um prejuízo para proteger o líder de sua turma. Para o restante do grupo, a atitude de Yoshida parecia um genuíno — ainda que modesto — sacrifício pessoal. Mesmo que presumissem que ele possuía poucos tokens, sabiam que, matematicamente, ele não tinha como lucrar com a troca.

Mas a realidade era exatamente o oposto. Yoshida, na verdade, estava saindo daquela situação com lucro líquido. Isso porque, após alguns ajustes feitos discretamente nos bastidores, eu já havia reduzido a quantidade de tokens de Yoshida ao mínimo absoluto: uma única ficha.

De acordo com as regras, qualquer pessoa que possuísse apenas um token estava isenta da penalidade de redução pela metade. Portanto, mesmo após ser oficialmente escolhido como Pessoa Impopular, Yoshida não perdeu absolutamente nada. Pelo contrário: como agora receberia com certeza os dois tokens compensatórias de Kushida, toda a manobra não carregava qualquer risco oculto.

Pouco antes do início daquela tarefa, enquanto ainda estávamos dentro da barraca, Yoshida e eu testamos repetidamente o sistema de transferência de tokens. Descobrimos alguns detalhes importantes.

Primeiro, a condição básica para uma transferência exigia que ambas as partes operassem seus relógios inteligentes e os encostassem fisicamente um no outro, o que normalmente acionava um som de notificação. No entanto, percebemos que esse alerta podia ser facilmente silenciado simplesmente reduzindo o volume do relógio para zero.

Se as transferências pudessem ser realizadas apenas encostando dois relógios, a possibilidade de desativar o som representaria uma enorme falha de segurança. Mas, como ambas as partes precisavam inserir seus PINs pessoais para autorizar a transação, não havia risco de roubo secreto de tokens. Por isso, a escola tornou o alerta sonoro opcional.

Em seguida, testamos a velocidade e a frequência das transferências. Embora o sistema exigisse a inserção do PIN novamente após cada transação concluída, praticamente não havia atraso. Depois de pegarmos o jeito, descobrimos que era possível realizar transferências consecutivas em cerca de dez segundos. Era possível enviar tokens uma a uma ou transferir tudo de uma só vez.

Durante esses testes, também descobrimos que o sistema emitia um aviso crítico caso alguém tentasse iniciar uma transferência quando seu saldo já estivesse reduzido a uma única ficha.

O fato de este exame especial incluir o risco de reduzir tokens a zero implicava que as regras permitiam que elas fossem retiradas por meio dos desafios, e não apenas através de transferências entre alunos.

Contudo, se a escola introduzisse logo de início um desafio capaz de remover três ou quatro tokens, os alunos que começaram com apenas duas estariam imediatamente condenados.

Minha análise dos padrões da escola indicava exatamente isso. Se pretendiam introduzir um elemento negativo tão cedo, optariam por um mecanismo como a "redução pela metade", garantindo que um saldo zerado fosse impossível. Ainda assim, imaginar que eu conseguiria explorar precisamente essa mecânica tão cedo no exame... as coisas haviam dado certo até demais.

*

 

A tarefa anterior mal havia terminado quando o supervisor começou a mexer em seu tablet, sem demonstrar qualquer intenção de nos dispensar.

— Registrei oficialmente os resultados e distribuí os tokens correspondentes — anunciou. — Agora faremos um breve intervalo de cinco minutos, após o qual iniciaremos a última tarefa individual do dia. Agradeço pela cooperação de todos.

— Tá brincando, né? Tem mais uma?

Os primeiros gemidos de insatisfação vieram das garotas, que claramente haviam presumido que seguiríamos diretamente para o tempo livre antes de dormir. Refletindo esse mesmo sentimento, murmúrios de descontentamento começaram a se espalhar também entre os rapazes.

Era um exame especial de quatro dias e três noites. O dia seguinte provavelmente seria o principal, mas mesmo para um dia focado principalmente em discussões, a programação estava sendo exaustiva.

Cumprindo sua palavra, Kushida transferiu dois tokens para Yoshida. Enquanto alguns alunos aproveitaram o curto intervalo para verificar seus saldos nos smartwatch, não demorou para que o exame fosse retomado.

— Agora explicarei a tarefa final — começou o supervisor. — Esta atividade se aproxima mais de uma aposta, dependendo fortemente de fatores de sorte. Vocês podem considerá-la um jogo simples. No entanto, devido à sua natureza, preciso primeiro confirmar se cada um de vocês deseja participar. Caso optem por jogar, deverão apostar dois tokens, que poderão perder em caso de derrota.

— Então a participação é totalmente voluntária... certo? — perguntou Sanada cautelosamente.

O supervisor assentiu brevemente.

— Sim. Por exemplo, se você possui dois tokens ou menos neste momento, pode optar por não participar. Da mesma forma, se simplesmente não deseja correr o risco de perder, tem todo o direito de recusar. Contudo, escolher não participar implica uma penalidade: será necessário pagar um token como compensação.

Estávamos diante de uma escolha: arriscar perder dois tokens em busca da vitória ou pagar um token fixa para garantir a própria segurança.

— Quer dizer, o normal seria jogar, não? Não é completamente idiota gastar um token só para não participar? — zombou Ike.

— Eu não teria tanta certeza — contrapôs Katsuragi. — É verdade que, se seu único objetivo for acumular tokens pessoais, maximizar sua participação é a decisão matematicamente correta. No entanto, se sua prioridade absoluta for evitar a expulsão a qualquer custo, pagar um token para evitar uma possível perda de duas também é uma estratégia perfeitamente válida.

Era um tema recorrente naquele dia: dilemas para os quais simplesmente não existia uma única resposta objetivamente correta. De qualquer forma, a dura realidade era que pouquíssimos alunos do nosso grupo podiam se dar ao luxo de desperdiçar um token apenas para permanecer à margem. No fim, todos decidiram participar.

O supervisor anunciou a recompensa do vencedor — generosas cinco tokens — e a tarefa teve início oficialmente.

— Tenho aqui dezesseis papéis dobrados — disse o supervisor, exibindo-os. — Existem exatamente dois papéis para cada número entre um e oito. Vocês enfrentarão o aluno que tirar o mesmo número que vocês. Explicarei as regras em breve; por enquanto, venham à frente e retirem seus números. Não abram o papel até meu sinal.

Sem qualquer ordem definida, os alunos mais próximos avançaram primeiro. Eu fui o sexto a retirar um papel dobrado e voltei ao meu lugar.

— Agora podem verificar seus números — instruiu o supervisor. — Recolherei os papéis em seguida, portanto evitem rasgá-los ou amassá-los.

Banhados pela pálida luz da lua, os dezesseis integrantes do Grupo 3 abriram simultaneamente seus papéis. Olhei para a palma da minha mão. O número escrito era 4.

— Sentem-se de frente para seus respectivos oponentes, organizados em ordem numérica, começando pela dupla número um. Agora recolherei os papéis.

Enquanto recolhia os pedaços de papel, o supervisor distribuiu cinco cartas de baralho para cada aluno.

Os versos apresentavam um padrão comum e uniforme, mas as faces eram peculiares: cada carta exibia apenas um número ímpar — 1, 3, 5, 7 e 9 — organizados em sequência em nossas mãos. Ao observar discretamente os alunos à minha esquerda e à minha direita, confirmei que eles possuíam exatamente o mesmo conjunto de cartas.

Os confrontos ficaram assim:

Dupla 1: Katsuragi e Morishita.

Dupla 2: Ibuki e Morofuji.

Dupla 3: Minamikata e Sonoda.

Dupla 4: eu e Wang.

Dupla 5: Ike e Kushida.

Dupla 6: Amikura e Shinohara.

Dupla 7: Yoshida e Sumida.

Dupla 8: Sanada e Moriyama.

— Hum... Ike-kun e eu somos da Classe A — disse Kushida, levantando a mão timidamente. — Ainda assim teremos que jogar um contra o outro?

— Sim. As afiliações de classe são completamente irrelevantes para esta tarefa — respondeu o supervisor secamente.

Diante daquela explicação mínima, Kushida piscou, confusa, mas assentiu obedientemente.

— As regras são simples — continuou o supervisor. — Em cada rodada, ambos os jogadores escolherão uma carta de suas mãos e a colocarão virada para baixo. Em seguida, as revelarão simultaneamente. Quem jogar o número mais alto vence a rodada. Se os números forem iguais, a rodada termina empatada. Uma vez utilizada, a carta é descartada e não poderá ser usada novamente. O primeiro aluno a conquistar duas vitórias será declarado vencedor geral. O vencedor receberá cinco tokens, enquanto o perdedor perderá os dois tokens apostados inicialmente. No raro caso de todas as cinco cartas serem utilizadas sem que haja um vencedor definido, as cartas serão devolvidas às mãos dos jogadores e uma prorrogação será disputada até que alguém consiga uma vitória. Excluindo a prorrogação, procurem concluir a partida em aproximadamente cinco minutos.

Ao estabelecer um limite flexível de cinco minutos, em vez de um prazo rígido, a escola estava implicitamente alertando contra atrasos deliberados ou excesso de reflexão. Se uma partida se estendesse por sete ou oito minutos, provavelmente isso não resultaria em desclassificação imediata, mas também não seria surpreendente se alguma penalidade fosse aplicada ao jogador que estivesse fazendo o tempo correr.

— E-Eu espero que tenhamos uma boa partida.

Com uma expressão extremamente nervosa, Mii-chan fez uma pequena reverência do outro lado. Ela apertava suas cinco cartas contra o peito; naturalmente, da minha posição, os números estavam completamente ocultos.

— Igualmente — respondi com tranquilidade.

Então, ao sinal do supervisor, as oito partidas começaram simultaneamente. Não hesitei. Instantaneamente retirei o 7 da minha mão e o coloquei virado para baixo no chão.

— F-Foi rápido — gaguejou Mii-chan, claramente surpresa.

— Afinal, é apenas um jogo de sorte. Acho melhor terminarmos isso rapidamente — respondi calmamente.

Eu podia ouvir alguns dos outros alunos já começando a conversar, tentando envolver seus adversários em jogos mentais para arrancar alguma pista dentro do tempo disponível. Eu não tinha intenção de fazer isso.

— C-Certo... hum... então eu vou…

Com base apenas na personalidade de Mii-chan, era impossível deduzir se ela começaria com uma carta fraca ou partiria logo para uma forte. Simplesmente não havia dados suficientes para isso. No entanto, conhecendo sua natureza tímida, era extremamente fácil prever exatamente como minhas palavras e ações a influenciariam.

Ao declarar logo de início que aquilo era um jogo puramente baseado na sorte e ao encerrar ativamente qualquer tentativa de estratégia verbal, eu a forcei a aceitar inconscientemente que precisava jogar da mesma maneira. É verdade que ela não era do tipo que se destacava nesse tipo de duelo psicológico, mas minha postura acabou selando completamente seus lábios. Além disso, como seu adversário havia jogado uma carta instantaneamente, ela foi subitamente atingida por uma crescente pressão para se apressar e acompanhar meu ritmo.

As pontas de seus dedos pairaram hesitantes sobre as cartas. Mas ela não podia se dar ao luxo de demorar. Sua mão avançou rapidamente, pegando a carta exatamente no centro do leque que segurava e colocando-a virada para baixo.

— Vou escolher esta...

— Então vamos virar.

— S-Sim.

Sem sequer parar para perguntar se ela queria trocar a carta, iniciamos a primeira rodada. Éramos, de longe, a dupla mais rápida entre as oito partidas. A velocidade absurda do nosso confronto foi tão estranha que chegou a atrair a atenção de Shinohara e dos outros alunos sentados por perto.

As cartas foram reveladas. Naturalmente, a minha era o 7. A de Mii-chan era um 5.

— Ah...

— Vamos direto para a próxima rodada — disse eu, interrompendo qualquer reação emocional à vitória ou à derrota.

Em seguida, coloquei imediatamente minha carta 9 virada para baixo. Diante do meu ritmo implacável, o raciocínio de Mii-chan pareceu travar por um instante. No momento em que venci a rodada inicial esmagando seu 5 com meu 7, a balança da partida se inclinou pesadamente a meu favor. Desde que meu 9 não fosse neutralizado por um empate, minha vitória geral estava matematicamente garantida.

Visivelmente nervosa, Mii-chan engoliu em seco antes de colocar sua próxima carta virada para baixo no chão com determinação. No instante em que sua mão deixou a carta, retirei meu 9, trocando-o por outra carta da minha mão e colocando-a virada para baixo.

— Você... mudou de carta? — perguntou ela, piscando surpresa.

— Não existe nenhuma regra dizendo que eu não posso trocar minha carta antes da revelação — observei. — Se quiser trocar a sua também, Mii-chan, fique à vontade.

— Eh? Hum... não, está tudo bem assim...

— Então vamos virar.

Depois de obter seu consentimento, revelamos as cartas. Meu número era 1. O de Mii-chan era 9. Com isso, estávamos empatados com uma vitória para cada lado. Entretanto, como ela acabara de gastar sua carta mais forte, minha vitória estava completamente assegurada no momento em que eu jogasse meu 9.

— Auu... eu perdi... — percebeu Mii-chan, deixando os ombros caírem.

— Vamos jogar a rodada final corretamente, apenas por formalidade.

— Tá bom….

Diante de uma Mii-chan completamente paralisada, coloquei rapidamente minha terceira carta virada para baixo. Naturalmente, era o 9. A carta que Mii-chan revelou, em total desespero, foi um 7.

— Terminamos — informei ao supervisor em tom neutro. Naquele momento, a maioria das outras duplas ainda estava concluindo suas primeiras rodadas. Agora, Mii-chan provavelmente lamentava sua falta de sorte, convencida de que tudo não passara de um azar infeliz.

Mas isso não era verdade. Justamente porque o jogo era absurdamente simples, era muito fácil ignorar uma falha fatal na configuração inicial: a organização padrão das cartas.

Quando o supervisor distribuiu as cinco cartas, elas estavam perfeitamente organizadas em ordem numérica. Desde o exato momento em que as cartas chegaram às mãos de Mii-chan, eu observava atentamente a forma como ela as segurava.

Se ela tivesse embaralhado as cartas ou escondido a mão atrás das costas para reorganizá-las, seria impossível rastrear suas posições. No entanto, ela as manteve exatamente na ordem em que foram distribuídas.

Em circunstâncias normais, assim que a partida começasse, ela provavelmente teria embaralhado as cartas por puro hábito. Mas, ao jogar instantaneamente e pressioná-la sem dar tempo para pensar, eliminei completamente a ideia de "embaralhar" da mente dela.

Ao fazê-la sentir que reorganizar as cartas era inútil, já que seu oponente estava esperando, eu a esmaguei sob a pressão de simplesmente jogar uma carta imediatamente. A partir daí, o restante aconteceu quase automaticamente. Como eu sabia exatamente onde cada número estava em sua mão, bastava observar qual carta ela escolhia e trocar a minha para garantir a maior probabilidade possível de vitória.

Se ela tivesse conseguido se livrar da pressão na segunda rodada e embaralhado as cartas, eu simplesmente teria mudado de estratégia e usado a conversa para tentar obter pistas sobre suas escolhas.

Aconteceu apenas que, desta vez, nem isso foi necessário. Pouco depois do término da nossa partida, as demais duplas também começaram a concluir seus confrontos uma após a outra.

Embora algumas disputas tenham se estendido para a prorrogação, os vencedores finais foram Katsuragi, Morofuji, Minamikata, Ike, Amikura, Yoshida e Sanada.

 

 

 

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag

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