Ano 3 - Volume 3
Epílogo: Mostre do Que é Capaz
EXATAMENTE às três da tarde, meu relógio de pulso soou ao registrar a mudança do limite de F11 para E11. Com isso, a Classe A, tendo perdido todos os seus três VIPs, foi eliminada à força em sua totalidade. Todos os membros restantes foram desclassificados, e sua presença desapareceu do campo de batalha.
Afastei lentamente o dedo do gatilho e continuei observando os arredores em silêncio.
Do silêncio entre as árvores, cinco figuras surgiram — Yamamura, Shiraishi, Kanzaki e os dois VIPs da Classe D. Ninguém falou de imediato. Apenas a respiração deles já dizia o quão perto tudo havia chegado do limite.
— Então os guardas restantes foram eliminados? — perguntei.
— Sim — respondeu Shiraishi, ainda levemente ofegante, mas composta o suficiente para relatar. — Enquanto recuávamos, dois alunos da Classe B nos emboscaram. Segundo a Ichinose-san, ambos estavam com o GPS individual desativado — fomos completamente pegos de surpresa. Usamos a tática que você havia autorizado com antecedência para escapar, mas… se você não tivesse nos ganho tempo, não teríamos conseguido.
— Dê-me os detalhes.
Yamamura parecia querer falar, mas sua respiração ainda não havia se estabilizado. Em vez disso, Kanzaki abriu um mapa e apontou.
— A Classe B ainda tem Ryuen e Ibuki. Também Yamashita e Yoshimoto. A última localização confirmada deles foi D11—
— Então agora restam três — interrompi calmamente. — Acabei com o Yoshimoto ali há pouco.
Kanzaki fez uma pausa. Ele ainda não havia recebido o relatório atualizado de seu comandante.
— Então os sinais que desapareceram no caminho até aqui… foi tudo você, Ayanokoji-kun?
— Eliminei tudo o que estava ao meu alcance. Mas ainda restam dois problemáticos.
Do nosso lado, a Classe C havia sido reduzida a mim, Yamamura Miki e nossa VIP, Shiraishi Asuka. Já a Classe D tinha Kanzaki como guarda, com os VIPs Beppu e Himeno.
Convertendo em pontos, as Classes B e C estavam com 102, enquanto a Classe D possuía 201.
Se o exame terminasse naquele momento, o primeiro lugar já estaria decidido. O segundo e o terceiro seriam resolvidos por morte súbita.
— Confirmamos o VIP da Classe B — acrescentou Shiraishi. — É o Yamashita-san. O Shimazaki-kun acabou de repassar a informação.
— Faz sentido — respondi. — Não haveria vantagem alguma em fazer da Ibuki a VIP.
Com a Classe A presa ao último lugar, o risco de expulsão havia desaparecido — mas o segundo e o terceiro ainda não estavam definidos.
Neste ponto, o fator decisivo não era o número de VIPs.
Era o número de guardas. Com uma hora restante, se ao menos um guarda de qualquer classe sobrevivesse, ele poderia decidir o resultado unilateralmente.
Deveria deixar o Beppu aqui, já que ainda tinha resistência — ou a Himeno?
— Como você acha que eles vão agir? — perguntou Kanzaki.
— Mesmo com o campo encolhendo, eles vão permanecer juntos — respondi. — Talvez ainda tenham um GPS individual desligado, mas com apenas um, não conseguem nos rastrear sem um VIP. Isso não é o mais preocupante. Mais importante: quanta munição vocês dois têm?
— Eu… estou cheia — disse Yamamura em voz baixa. — Não atirei nenhuma vez. Tenho dois carregadores reserva também. Desculpe…
— No meu caso é o oposto — disse Kanzaki, seco. — Estou quase sem munição. Talvez dez, no máximo vinte disparos restantes.
— Então fique com estes.
Alcancei a mochila e entreguei a Kanzaki os dois carregadores sobressalentes que eu havia guardado.
— Agradeço, mas… — Kanzaki hesitou ao olhar para os carregadores em minha mão. — Isso não viola as regras?
— Não é confisco nem roubo — respondi com calma. — Apenas uma transferência.
— Mesmo assim… e você? Tem munição suficiente?
— Tenho vinte e dois disparos restantes. Mais do que o bastante.
Kanzaki franziu a testa.
— Então não posso aceitar. Você faria um uso melhor deles do que eu.
— Não há motivo para preocupação — disse, colocando os carregadores em suas mãos. — O que importa agora não é poder de fogo, mas ter um guarda capaz de proteger o VIP e sobreviver até o final. Além disso… há situações em que carregar menos é, na verdade, uma vantagem.
Se alguém entrasse nesta fase final com cem ou duzentos disparos, não seria uma luta justa. É justamente em uma situação tão apertada quanto esta que a disputa se torna digna de ser apreciada — quando o resultado ainda pode pender para qualquer lado.
Com uma colocação mínima de terceiro lugar já garantida, não havia mais necessidade de cálculos excessivos. Eu podia finalmente eliminar o ruído e me dedicar apenas ao jogo de sobrevivência em si.
Ryuen, sem dúvida, preferiria não me enfrentar diretamente. Se pudesse, atacaria Shiraishi, Beppu ou Himeno — qualquer um, menos eu. Mas o tempo jogava contra ele. A área restante continuaria a encolher, até que o confronto se tornasse inevitável.
— Então… — perguntou Shiraishi. — O que… vamos fazer agora?
— Ryuen não ficará satisfeito em deixar o exame terminar assim — respondi. — Se ele não fizer nada, ficará preso ao segundo ou terceiro lugar. Mas se lutar — e vencer — o primeiro lugar ainda está ao alcance.
Cinco minutos se passaram. O GPS foi atualizado.
Relatórios chegaram tanto de Shimazaki quanto de Ichinose: todas as mudanças de posição haviam sido mínimas. Todos estavam praticamente no mesmo lugar, e ninguém havia ativado qualquer tática.
Um impasse deliberado.
— Desculpa, Beppu — eu disse. — Vou precisar de você por um tempo.
— O que você está planejando?
— Não tenho intenção de deixar isso se arrastar até a morte súbita — respondi. — Se não houver movimento nos próximos dez minutos, pretendo tomar a iniciativa.
Instrui Yamamura e Shiraishi a permanecerem onde estavam, junto de Kanzaki e Himeno. Caso surgisse qualquer anomalia, por menor que fosse, no GPS, eles deveriam se deslocar imediatamente.
Então comecei a me mover, com Beppu ao meu lado. Era certo que Ryuen já havia investigado e marcado o sinal de GPS da unidade solitária que havia investido contra a Classe A na noite do terceiro dia — ou talvez ainda naquela mesma manhã.
Isso significava que meu movimento não passaria despercebido. E Ryuen não era tolo o bastante para não entender o que aquela movimentação significava.
*
15h20.
Com apenas quarenta minutos restantes até o fim do exame, avancei em direção ao centro de E11, mantendo contato com Beppu em intervalos regulares para confirmar a posição do inimigo.
— Eles estão vindo — sussurrou Beppu. — Os três estão muito perto agora. Bem na nossa frente… Se o Ryuen e a Ibuki se separarem, o que eu faço? O que eu devo fazer?
— Isso é improvável — respondi com calma. — A Yamashita não é muito atlética e provavelmente já está perto do limite. Ela não conseguiria acompanhar o ritmo que você imporia se corresse, e considerando o atraso de cinco minutos do GPS, rastrear você não seria fácil.
— Espero que você esteja certo — disse Beppu, soltando uma risada fraca. — Pra ser sincero, eu também estou no meu limite absoluto.
Quatro dias. Quase todo esse tempo em movimento constante pela ilha. Correndo, andando, se esquivando — as pernas dele finalmente começavam a protestar de verdade.
— Se chegar a isso — eu disse —, tudo o que você pode fazer é se esconder e rezar para não ser visto.
— É… eu realmente preferia não depender de oração.
Com o tempo restante, ser descoberto quase certamente significaria ser eliminado.
— Você está aí, não está, Ayanokoji?! Eu vim até aqui só pra lutar com você, então é melhor ser grato!
A voz de Ibuki ecoou à frente, cortando o silêncio entre as árvores.
— Isso foi algum tipo de declaração tsundere? — murmurou Beppu. — Bom, nesse caso, vou me retirar.
Ele ergueu uma das mãos de leve, num meio aceno de despedida, e desapareceu com silêncio experiente, recuando para dentro da vegetação. Observei por um breve instante, depois voltei meu olhar para a frente e segui sozinho.
Com tantos alunos já eliminados e retirados, a ilha parecia mais vazia do que nunca. O silêncio agora era mais cortante; cada som — folhas roçando, passos distantes, o ranger de galhos — ecoava com clareza pelo ar.
Até então, apenas avistar um inimigo significava troca imediata de tiros, sem perguntas. Essa sempre fora a natureza desse jogo de sobrevivência. Mas agora era diferente. À medida que avançava, as árvores se abriram o suficiente. À frente, entre as frestas da mata, Ryuen e Ibuki surgiram à vista, em posição aberta. E atrás deles — fraca, mas inconfundível — também consegui ver Yamashita.
— Hah. Passamos todo esse tempo pensando sério, duvidando de cada movimento, jogando esse exame como se ele realmente importasse — disse Ryuen, com um sorriso torto. — E no fim? Todo esse esforço mental foi jogado fora. Todo mundo se esgotou num único tiroteio espalhafatoso. É estúpido — mas, sendo assim, faz sentido que alguém como a Ibuki, burra mas ainda em movimento, tenha sobrado de pé, não acha?
Pelo tom da voz, não havia como confundir a irritação — suavizada apenas por uma aceitação silenciosa.
— Parece que você se saiu bem — respondi com calma. — Quantos você eliminou?
— Não sei. Perdi a conta — retrucou Ibuki antes que Ryuen pudesse responder. — E é isso que me deixa furiosa! A Classe A perdeu todos os três VIPs, e por causa disso eu nunca pude acabar com a Horikita!
A frustração era evidente — sua voz carregava um fio cortante, mal disfarçado.
— Por mais irritante que seja — continuou Ryuen, mantendo os olhos fixos em mim —, tudo isso só funcionou por causa das informações que você nos passou. Acho que dá pra chamar isso de interesse mútuo.
Pelo quão equilibrado tudo havia sido, era difícil negar. Sem aquela informação, talvez fosse a Classe A — e não a Classe B — que ainda estaria de pé ali.
— A Classe A não podia vencer — disse de forma neutra. — Se isso acontecesse, as outras três classes estariam em apuros. Você sabe disso.
— Sei — concordou Ryuen. — Mas, pessoalmente? Eu também gostaria de colocar uma derrota na sua conta. O tempo está quase acabando. Então vamos resolver isso aqui e agora… e decidir as colocações.
As palavras caíram pesadas e baixas entre nós. Enquanto Yamashita recuava sem dizer nada, Ryuen e Ibuki se dissolveram entre as árvores, suas silhuetas sendo engolidas pelas sombras irregulares da floresta.
Uma situação de dois contra um. Naturalmente, nenhum dos dois considerava isso injusto.
Se fosse uma luta normal, eles avaliariam as chances, perceberiam que não havia vitória garantida e recuariam. Mas isso não era uma luta normal.
Aqui, um único disparo de tinta bastava. Não me escondi. Em vez disso, continuei avançando de forma deliberada, atento à reação deles. A menos de dez metros, um instante de descuido seria fatal — mas ainda estávamos separados por mais de vinte. Se eu visse o cano da arma, ainda conseguiria reagir a tempo.
Mais importante ainda, eu não podia me dar ao luxo de uma troca prolongada. Não com a munição que me restava. Balas sempre favorecem quem tem mais delas — mas vantagem não garante vitória. Meus disparos restantes giravam em torno de vinte.
Cada movimento a partir dali precisava ser intencional — calculado, preciso. Sem inspirar fundo, organizei calmamente as variáveis à minha frente, uma a uma: distância, ângulos de cobertura, os hábitos agressivos da Ibuki, a linha de tiro do Ryuen.
— MORRE, Ayanokoji!
Ibuki gritou de propósito, a voz atravessando as árvores — crua, imprudente e familiar. Por um instante, a imagem de Ishizaki avançando pelo telhado cruzou minha mente. Quase imediatamente, o cano de uma submetralhadora surgiu entre as árvores, e uma rajada solta rasgou o sub-bosque.
Não era para me atingir.
Era isca.
O objetivo não era me derrubar, mas me forçar a buscar cobertura — cegar minha visão e entorpecer minha audição tempo suficiente para que a posição de Ryuen desaparecesse do meu radar. Uma submetralhadora não carregava tantas balas. Ela pretendia gastar tudo de uma vez. No instante em que os trinta disparos se esgotaram, impulsionei-me do chão e encurtei a distância.
Ibuki percebeu o movimento e girou em uma ação fluida, deslizando baixa entre as árvores como uma sombra cruzando o chão da floresta. Abaixando meu centro de gravidade, respondi com rajadas curtas e controladas. Uma folha, depois outra, foram despedaçadas quando os disparos cortaram a vegetação. A trajetória oscilou o suficiente para que um tiro raspasse seu ombro — mas a tinta não se rompeu. Nenhum alarme soou em seu relógio.
Ela me lançou um olhar feroz, dentes cerrados em algo que quase parecia um sorriso. Então desapareceu atrás do tronco de uma árvore e começou um recarregamento deliberado.
Sem saber onde Ryuen estava, eu não podia me estender demais. Flanquear Ibuki significava me expor a um ângulo invisível — um risco que ainda não podia assumir.
Um leve ruído plástico chegou aos meus ouvidos. Aquilo bastou. Desloquei-me alguns passos para o lado, alterando o ângulo o suficiente para distorcer qualquer disparo preparado, e espiei pelas frestas estreitas entre os troncos.
Mais fundo na floresta, a silhueta de Ibuki se moveu. No instante em que a borda de um cano entrou no meu campo periférico, meu corpo reagiu por instinto, abaixando-se. O projétil de tinta sibilou ao passar pela minha orelha, cortando o ar, e explodiu inofensivamente contra a casca da árvore atrás de mim.
Antes mesmo que eu pudesse confirmar o erro, Ryuen já estava se movendo — deslizando para uma nova posição. Eu quis acompanhá-lo, travar sua rota, mas Ibuki havia terminado de recarregar e voltara à ação. Arranquei meu olhar de Ryuen e me concentrei novamente nela.
— Ela é rápida — murmurei.
De porte pequeno, Ibuki ziguezagueava entre os troncos como um animal selvagem, leve nos pés, claramente acostumada a atirar em movimento. As bolas de tinta chacoalhavam para fora de sua submetralhadora, espirrando contra o tronco espesso que me servia de cobertura.
Antecipando um flanqueamento, recuei vários passos e mudei de posição mais uma vez.
Galhos se agitaram. Folhas explodiram no ar. Prevendo a linha de movimento, disparei duas rajadas rápidas. Os projéteis se chocaram contra o tronco à frente de sua rota, fazendo a casca e lascas de madeira explodirem para fora.
Nenhum acerto.
Mas foi o suficiente para interromper o avanço de Ibuki por um único batimento do coração.
— Onde é que você está mirando, afinal? — a voz de Ibuki saltou entre as árvores, afiada de deboche. — Você acha mesmo que tiros tão mal feitos vão me acertar? Você é péssimo.
Era apenas provocação. Nada além disso. Não respondi. Apenas desacelerei a respiração e deixei o ruído se dissipar.
Ibuki se mostrou novamente. Havia até um sorriso em seu rosto agora — confiança, talvez, ou descuido. De qualquer forma, seus movimentos permaneciam limpos e decisivos. E, por causa disso, também eram previsíveis.
A altura do olhar quando ela saltava para fora. A posição do quadril no instante em que se comprometia com o movimento.
Tudo era consistente.
Então Ryuen se moveu outra vez.
Disparos de tinta vieram de um ângulo diferente, forçando minha atenção a se desviar. Um único acerto encerraria tudo. Abandonei qualquer ideia de contra-ataque e me concentrei apenas em evadir, deslizando para trás da cobertura enquanto a casca da árvore explodia ao meu redor.
Respondi com três tiros de advertência na direção de Ryuen, forçando-o a recuar. Isso me comprou dois… talvez três segundos. Foi o suficiente.
Girei o corpo e os olhos para o ponto onde Ibuki havia se escondido por último.
— Te peguei!
O grito não veio dali — mas de duas árvores ao lado.
Ela deve ter presumido que eu não havia notado sua mudança de posição. Confiante, Ibuki saiu completamente para o campo aberto e apontou a arma diretamente para mim.
— Tch— o quê?!
Ela estava certa em uma coisa: meu corpo ainda estava angulado na direção do local onde ela havia se escondido momentos antes.
Mas havia uma coisa que não estava.
O cano da minha arma já a acompanhava.
Senti o gatilho sob meu dedo, a resistência, o exato ponto em que ele cederia.
Então puxei.
O disparo cortou o ar em uma linha reta, sem hesitação. Ibuki girou por instinto, tentando escapar — mas já era tarde demais. A bola de tinta atingiu sua coxa direita e se rompeu, a cor se espalhando por sua perna. Uma fração de segundo depois, o alarme inconfundível soou, ecoando pela floresta.
Os olhos de Ibuki se arregalaram em descrença quando seu equilíbrio se perdeu. Ela caiu com força no chão, rolando uma vez enquanto o alarme continuava a ecoar.
— Aaaagh! Vai acabar assim de novo!? Que inferno!! Foi por isso que eu disse que não queria fazer isso!
O desabafo amargo de Ibuki ecoou atrás de mim — mas eu não tinha tempo para me dar ao luxo de ouvir seu ressentimento.
O ar atrás de mim mudou. Virei-me instantaneamente e puxei o gatilho contra Ryuen, que já estava me alinhando — mas minha arma respondeu com silêncio. Um clique seco. Vazia. No mesmo instante, Ryuen disparou enquanto fluía o corpo para o lado, o tiro passando a um fio de cabelo do meu ombro.
— Então é isso… sem munição, hein?
Segurando a arma com uma mão, arranquei numa corrida em direção ao sul. Atrás de mim, a perseguição veio sem hesitação. O que parecia calmo na superfície carregava a pressão de uma fera segundos antes de saltar sobre a presa.
Esse era o preço de gastar munição demais em ajustes pequenos demais. Quando finalmente derrubei Ibuki, meu carregador havia sido esvaziado por completo, até a última bala.
Não restava um único disparo de tinta no meu fuzil de assalto. Mesmo assim, ergui a arma enquanto corria, blefando — mas Ryuen não diminuiu nem por um segundo. Ele perseguia com total intenção, aceitando o risco da derrota como parte da caçada.
O relógio em meu pulso piscou — E12. A área havia mudado. Embora eu não tivesse o luxo de confirmar isso.
Corri o mais reto que pude, escolhendo instintivamente o caminho mais curto, mas a floresta densa se recusava a facilitar. Raízes agarravam meus pés, galhos arranhavam meus braços. Desviei à direita, depois à esquerda, às vezes quase tropeçando enquanto o próprio terreno conspirava para me atrasar.
Direita. Esquerda. E então, de baixo. A natureza atacava sem piedade, negando-me uma corrida limpa. Disparos de tinta sibilavam às minhas costas.
Sem espaço para manter aparências, arremessei o peso morto em minha mão direita no chão e continuei correndo de mãos vazias. A floresta se abriu de repente. O que surgia à frente era areia aberta — uma faixa de praia que se estendia ampla, completamente exposta. Sem árvores. Sem pedras. Sem qualquer tipo de cobertura.
Depois de correr cerca de vinte metros sobre o terreno instável, parei.
— Eu me rendo.
Ergui ambas as mãos e falei para Ryuen, que estava atrás de mim com a arma apontada diretamente para minhas costas.

— Então, nem você consegue desviar aqui, hein? — perguntou ele, respirando com dificuldade, mas soando mais calmo do que eu esperava.
— Não — respondi com honestidade. — Aqui não há como desviar.
Se fosse concreto sólido em vez de areia puxando minhas pernas, eu teria conseguido resistir um pouco mais? Talvez.
Não — provavelmente não. Se ele estivesse nos últimos um ou dois disparos, a equação poderia ter mudado. Mas essa esperança desapareceu no instante em que ouvi—
Ka-shunk.
O som inconfundível de um carregador sendo trocado. O último fiapo de possibilidade sumiu junto com ele.
— Se for você, Ayanokoji — disse Ryuen, a voz carregando um tom baixo e deliberado —, eu seria idiota se não fosse ainda mais cauteloso. Você concorda comigo, não?
— Talvez. — Mantive as duas mãos erguidas, a postura inalterada. — Mas por que decidiu me enfrentar diretamente? A Ibuki não parecia nada entusiasmada com a ideia.
Ryuen soltou um riso nasal.
— Mesmo dois contra um, não havia garantia de vencermos você num tiroteio direto. Do ponto de vista dela, fazia mais sentido apostar tudo em eliminar o VIP.
Ainda com as mãos levantadas, virei apenas o pescoço, olhando por cima do ombro.
— E você pensou diferente?
— Não exatamente — ele disse. — Se vencer fosse a única coisa que importasse, eu concordaria com ela. Aquela era a jogada mais inteligente.
Houve uma breve pausa antes de ele continuar, o tom ficando ligeiramente mais sombrio.
— Mas depois de chegar até aqui, decidir tudo fugindo daquele jeito? Isso não me cai bem. Está muito longe de ser uma vitória — não do tipo que eu quero.
Vitória, para Ryuen, não era apenas um resultado. Talvez fosse o acúmulo de derrotas passadas — o peso das perdas empilhadas uma sobre a outra — que o empurrava a forçar esse confronto. Um dois contra um nascido não da eficiência, mas da obsessão.
— Entendo o seu motivo — eu disse. — Mas então me diga uma coisa. Você já terminou de recarregar. Por que ainda não atirou? Se a vitória que você quer é a minha derrota, ela já está ao alcance da sua mão. Aperte o dedo. Puxe o gatilho. Acaba aqui.
Tudo o que seria necessário era a pressão na ponta do dedo. Um único puxão no gatilho.
Não havia engano nessa avaliação. Se ele fizesse essa escolha, eu estaria fora.
De maneira imediata e incontestável.
E ainda assim… ele não atirou.
Porque o que ele queria não era apenas vencer. Era certeza — a prova de que aquela vitória era real. Mesmo em uma posição de vantagem esmagadora, ele ainda não conseguia acreditar completamente que a vitória já era sua.
— Ha… é, você está certo — disse Ryuen, soltando uma risada curta. — Eu costumava ver cenas assim em filmes e dramas e ficava irritado toda vez. "Se tem tempo pra conversar, então atira logo", esse tipo de coisa.
— Essa é a resposta correta — respondi com calma. — Enquanto ficamos aqui parados, a Yamashita pode já estar na mira de outra pessoa.
— Talvez — Ryuen admitiu. — Mas há coisas que você só entende de verdade quando é você quem está aqui, encarando o fim.
Ele sorriu enquanto falava — mas nem por um instante baixou a guarda. Mesmo com a vitória praticamente garantida, Ryuen se recusava a saboreá-la.
— Eu só quero saber — disse ele. — Isso é mesmo rendição? Ou você ainda acha que existe uma saída? Quero ver como alguém que eu acreditava não poder vencer escapa de um beco sem saída como este — se é que você acha que pode escapar. Se houver a menor chance que seja, eu quero testemunhar isso. Estou disposto a arriscar a minha própria derrota por isso.
Após uma respiração medida, Ryuen se moveu sem alterar a postura, recuando meio passo.
— Nem você consegue desviar de todos os tiros que eu disparar — continuou. — Isso é óbvio, certo?
— Eu já disse — é impossível — respondi. — A velocidade do projétil dessas armas de tinta é de cerca de noventa metros por segundo. O tempo de reação humano médio fica entre 0,2 e 0,3 segundos. A vinte metros, ainda existe alguma margem. A essa distância, não há nenhuma. Mesmo que eu evitasse alguns disparos por acaso, desviar de todos até que seu carregador se esgote é matematicamente impossível.
Enquanto falava, olhei ao redor, expondo a situação com frieza clínica.
— Se isso fosse um combate sem regras, talvez houvesse uma opção mínima — encurtar a distância naquele breve intervalo, entrar na sua guarda, desarmá-lo, subjugá-lo. Mas desarmar um oponente é explicitamente proibido. E se eu tivesse uma pistola, ao menos poderia tentar um contra-ataque — exceto que pistolas devem ser usadas visivelmente em um coldre na perna. Não há como ocultá-las. Com supressão e contra-ataque fora de questão, a única opção que me resta é a evasão.
O olhar de Ryuen caiu brevemente sobre minhas pernas, confirmando por si mesmo. É claro, eu não carregava uma pistola.
— É — disse ele. — Exatamente. Não importa como você olhe para isso, você já era.
— Você me encurralou com tanta perfeição — eu disse — e ainda assim quer que eu lhe mostre uma saída?
— Eu gostaria — Ryuen admitiu. — Mas, se não houver, então não há o que fazer. Vou te eliminar e depois caçar o VIP e os guardas restantes. Você está apostando tudo no seu último guarda, não é?
Ele voltou a apoiar o fuzil no ombro, a voz baixando um tom enquanto o ar ao redor se tornava tenso. Dado o tempo restante, ele não podia se dar ao luxo de esperar muito mais. Se fosse me finalizar, precisava ser agora, antes de retornar à floresta.
— Apostar tudo no último guarda, hein — murmurei. — Não é uma sugestão ruim.
— Os restos são Kanzaki e Yamamura, certo? — Ryuen zombou. — Desculpa, mas não pretendo perder para peixe pequeno.
— Tem certeza? — perguntei em voz baixa. — Isso depende das condições.
Algo no meu tom o fez franzir a testa.
— Ande para frente — ele ordenou. — Mais alguns metros. Isso… pare aí.
Enquanto obedecia, ele avançou até o ponto onde eu estivera segundos antes e cravou o calcanhar na areia, esmagando-a.
— Então você não me atraiu até aqui para enterrar uma arma — murmurou. — Faz sentido.
Ainda assim, ele precisava eliminar até aquela chance de um por cento.
— A ideia de te atrair não é ruim — eu disse, de forma neutra. — Mas deixe-me perguntar algo. Quando fiquei sem munição e joguei minha arma fora, eu estava realmente fugindo… ou aquilo era tudo o que havia para fazer?
— Hã?
— Não lhe parece estranho — continuei calmamente — que eu entrasse em pânico, perdesse totalmente o senso de direção, saísse da floresta e corresse direto para a praia? A área utilizável já está limitada. Você realmente acha que eu entraria na fase final deste exame sem memorizar o mapa? Se fugir fosse o objetivo, ficar rodando pela floresta seria cem vezes mais eficaz. Lá fora, ao menos eu teria cobertura. Aqui… sem obstáculos, terreno instável, nenhum lugar para se esconder, nenhum para desviar. Correr para a areia aberta não oferece vantagem alguma.
— Na floresta, a cobertura está por toda parte — murmurou Ryuen. — Isso é verdade. Mesmo assim, não entendo. Por que você me traria para um lugar que só me beneficia?
— É uma questão de perspectiva — respondi. — Um lugar sem cobertura me torna vulnerável… mas também torna você vulnerável. Em um ambiente como este, até um atirador medíocre consegue acertar se puxar o gatilho à queima-roupa.
A testa de Ryuen se franziu ainda mais. Aquela lógica o favorecia, não a mim. E era exatamente por isso que o incomodava.
— E há mais uma coisa — continuei. — A floresta é silenciosa demais. Qualquer galho quebrado, qualquer passo em falso entrega sua posição. Mas aqui? Vento. Ondas. Ruído ambiente constante. Menos sons secos sob os pés. É um ambiente ideal para alguém se aproximar por trás sem ser notado.
— Por trás…?
Ryuen não ousou desviar o olhar de mim. Eu quase podia sentir o arrepio subindo por sua espinha. Continuei falando, pressionando a lâmina devagar.
— Você estava me perseguindo. De forma obsessiva. Mas, ao mesmo tempo, eu estava dando instruções ao meu último guarda. Disse o seguinte: se um um contra um for confirmado, atrairei o Ryuen até este local. Aproxime-se por trás e finalize.
— E você acha que eu não perceberia algo assim?
— Será mesmo? — perguntei em voz baixa. — Todo o seu foco estava em mim. Foi uma perseguição no limite da obsessão. Mas você pode dizer honestamente que sua percepção do que estava atrás de você era perfeita? Mesmo agora… você não percebe que pode já haver uma arma apontada para as suas costas, a poucos metros de distância?
— Não me faça rir — retrucou Ryuen. — Isso é blefe.
— Você acha que com certeza perceberia se alguém se aproximasse? — retruquei. — Mas um dos guardas que ainda estão conosco é a Yamamura. Ela é leve, silenciosa, excepcionalmente boa em apagar a própria presença. Pode não ter grande capacidade atlética, mas para uma aproximação silenciosa? Ela é uma das melhores opções possíveis.
O som das ondas vinha e voltava, constante, ininterrupto. Ryuen aguçou a audição, forçando-se a captar qualquer coisa fora do lugar. Mas distinguir a respiração de alguém parado, completamente imóvel, fundido ao ambiente, estava longe de ser fácil.
— Se a Yamamura realmente estiver atrás de mim — disse Ryuen lentamente —, então por que não mandar ela atirar?
— Pela mesma razão pela qual você ainda não puxou o gatilho — respondi. — Você queria todas as respostas primeiro.
— Kuku… — Uma risada baixa escapou dele. — É isso que torna tudo interessante. Eu achei que tinha nos levado a uma situação em que não havia absolutamente nenhuma ameaça para mim… e, ainda assim, você consegue levantar um "e se". Vamos supor — só por argumento — que a Yamamura realmente esteja atrás de mim. E então? Se eu me virar e contra-atacar antes que ela atire, ela está fora. E no tempo que você levaria para pegar a arma dela, eu já teria colocado um disparo em você.
— Isso pode acontecer — eu disse com tranquilidade. — Ou pode não acontecer. Se estiver curioso, sinta-se à vontade para tentar.
Foi então que eu vi — a inspiração aguda que ele não conseguiu conter. Diferente de momentos atrás, a atenção dele se fragmentou. Um peso se instalou por trás de seus olhos, não mais fixo apenas em mim, mas puxado irresistivelmente para o espaço invisível às suas costas.
E se a Yamamura estiver realmente ali. Se ela estivesse atrás dele naquele instante… como último guarda, isso significaria o fim do jogo.
Ryuen pensou com afinco. Ele realmente havia sido seguido sem perceber? Quis descartar a ideia de imediato — mas quanto mais analisava sua própria perseguição, menos certeza tinha.
No fim, se ela estava ali ou não deixava de importar. O que importava era que agora ele precisava agir como se estivesse. Se se virasse rápido o bastante e acertasse antes que Yamamura atirasse, a situação ainda poderia ser salva. Mas se sequer uma fração de segundo desse errado — se o disparo dela fosse feito antes que o sinal de eliminação fosse registrado — então Ryuen teria de desviar daquele tiro com perfeição.
E isso não seria fácil. Mas mirar em mim primeiro não fazia sentido. No instante em que o fizesse, Yamamura atiraria em suas costas. Eu quase conseguia ver os cálculos se desenrolando por trás de seus olhos. Ignorar a ameaça às suas costas já não era uma opção.
E como eu estava desarmado, a única escolha viável que lhe restava era a evasão. Se esse era o caso, então gastar uma fração de segundo para olhar para trás não trazia risco imediato.
Se não houvesse ninguém ali, ele poderia voltar a mirar em mim em menos de um segundo. Em uma praia aberta como aquela, com areia solta sob os pés, eu não conseguiria escapar nem se tentasse.
Ryuen soltou um suspiro quase imperceptível. E naquele instante infinitesimal.
Ele girou a cintura, levando o cano da arma junto ao se virar. O que preencheu seu campo de visão foi apenas distância — a linha escura da floresta ao longe e a faixa vazia de areia entre eles.
Não havia ninguém atrás dele. Uma sensação fugaz de alívio o atravessou.
Tudo o que restava era virar-se mais uma vez e disparar contra o oponente desarmado à sua frente. A vitória seria decidida em um instante.
Mas antes que seu olhar pudesse retornar por completo.
Apertei a mão direita. Era verdade: eu não tinha nenhuma arma. Também era verdade: não havia meio algum de fuga.
E, ainda assim. Eu ainda possuía uma forma de lutar.
Girei o corpo junto com ele, virando bruscamente de volta para Ryuen, cujo dedo jamais havia deixado o gatilho, pressionando-o agora um pouco mais fundo.
Eu não conseguiria evitar todos os disparos. Mas esse nunca foi o plano.
Entre o polegar e o indicador da minha mão direita, eu segurava uma única bolinha de paintball, amassada e desgastada. Com toda a força que consegui reunir, arremessei-a contra Ryuen, como um arremessador lançando a bola direto na luva do receptor. No exato instante em que o disparo de Ryuen me atingiu, a tinta explodiu sobre meu abdômen.
Ao mesmo tempo, exatamente a mesma cor se espalhou pelo corpo dele.
— O quê—!?
O zumbido baixo do motor de disparo ainda pairava no ar. Quase simultaneamente, nossos relógios de pulso soaram estridentemente — o veredito mecânico declarando que ambos estávamos fora.
Derrota mútua.
A paintball que eu havia lançado não era, em essência, diferente daquelas carregadas no carregador.
Exceto por um detalhe crucial. Em condições normais, nem mesmo um acerto direto lançado por uma pessoa faria com que ela se rompesse.
Foi por isso que eu a testei.
De novo.
E de novo.
Quanta força era necessária para que a cápsula quebrasse?
Que tipo de superfície causava a ruptura?
Qual combinação de ângulo, velocidade e dureza produzia o resultado mais confiável?
Quão danificada precisava estar a membrana que protegia a tinta para que, finalmente, cedesse?
Ao longo dos últimos três dias, repeti esses experimentos inúmeras vezes, marcando cuidadosamente a cápsula — apenas o suficiente para que não estourasse antes da hora, mas para que se despedaçasse no instante em que atingisse o alvo com intenção.
Uma única munição frágil, meticulosamente preparada.
— Você… jogou isso…? — murmurou Ryuen, a descrença tornando sua voz áspera.
— Não há nada nas regras que proíba isso — respondi com calma. — Usar uma arma é apenas mais confiável e conveniente. Ninguém é obrigado a usá-la, só isso.
O alarme estridente do relógio dele continuava gritando, muito mais alto do que o necessário. Ryuen lançou-lhe um olhar irritado antes de cravar a arma na areia.
— Então é isso? — rosnou. — Você prolongou tudo isso só para exibir um truque desses? Se eu tivesse puxado o gatilho sem hesitar, você não teria tido o luxo de contra-atacar desse jeito.
— A partir do momento em que eu te atraí para a praia, sua vantagem esmagadora já estava garantida — respondi. — Eu esperava, com uma probabilidade bastante alta, que você não atirasse de imediato. E além disso… eu também tinha meus próprios motivos. Parte disso foi simplesmente porque eu quis aproveitar a partida. Mas, no fim das contas — perder aqui não teria feito diferença para mim. Meu objetivo já havia sido alcançado.
— Objetivo? — Ryuen repetiu, estreitando os olhos.
Deixei a palavra pairar por um instante antes de responder.
— Vou oficializar agora — disse. — A Classe D, Ichinose e eu formamos uma aliança. Não vou dizer quão profunda ela é, nem quanto tempo vai durar — mas concordamos em mirar o topo juntos. Ainda assim, alianças são fáceis de declarar e difíceis de aceitar. Especialmente para a Classe C. Convencer todos apenas com palavras nunca funcionaria. Por isso, a prioridade máxima era forçar uma situação em que a aliança se tornasse a única escolha racional.
Ryuen soltou um suspiro curto, sem humor.
— Então era isso. Quer dizer que meu ataque surpresa funcionou porque—
— Sim — interrompi. — Neste exame especial, os momentos mais perigosos surgem quando as classes estão agrupadas. Com exceção do final, a fase inicial é a mais volátil. Todos correm para criar distância das outras classes. Dependem constantemente das atualizações de GPS do comandante, checando repetidas vezes se já há separação suficiente. Se a Classe C tivesse se afastado imediatamente em velocidade máxima, você nem teria cogitado usar sua tática logo no início.
Mas, na realidade, a Classe C fez o oposto. No momento em que confirmamos que as outras classes haviam se afastado, nós paramos.
— Mudamos nosso foco — continuei. — Treinamento com armas, reuniões estratégicas. Criamos deliberadamente a impressão de que estávamos entrando em uma fase de preparação, não de movimentação. Isso tornou o ambiente ideal para uma emboscada.
O olhar de Ryuen se aguçou.
— Então você deixou sua classe exposta — disse lentamente. — Deixou todos vulneráveis… para atrair o ataque?
— Exatamente — respondi. — Infelizmente, vencer confrontos armados nunca foi meu objetivo principal. O que eu queria era bem mais simples. Criar uma situação em que a Classe C não tivesse escolha senão depender da Classe D, gostando disso ou não.
Até mesmo alunos como Hashimoto e Morishita — que compreendiam a situação melhor do que a maioria — haviam demonstrado ceticismo aberto quanto a qualquer aliança. Aquela reação era natural. Na visão deles, a Classe D quase não apresentava feitos relevantes. Associar-se a ela parecia carregar mais desvantagens do que benefícios visíveis. Chamar isso de aliança não tornava a ideia mais atraente. Ninguém a aceitaria de bom grado.
Mas o desespero muda a equação. Quando a própria sobrevivência está em jogo, quando não há caminho adiante sem ajuda externa, a conversa muda. Quando a estrada leva apenas ao último lugar, qualquer desvio — por mais incerto que seja — que possa terminar em segundo ou terceiro passa a valer a pena.
Foi assim que aconteceu. Encurralados, foram os alunos da Classe C que se aproximaram da Classe D, vozes baixas, orgulho engolido, pedindo cooperação por vontade própria.
— Claro — continuei —, poderíamos ter forçado uma aliança sem sofrer um único acerto. Mas pense no que teria acontecido se a Classe C e a Classe D tivessem se unido completamente intactas. Nem mesmo alguém tão ousado quanto você se atiraria contra quase oitenta alunos. Uma coalizão desse tipo é simplesmente forte demais.
Fiz uma pausa, deixando a implicação assentar.
— Já uma aliança ferida é outra história. Uma coalizão C–D enfraquecida ainda inspira cautela, mas já não parece intocável.
A mesma lógica se aplicava à Classe A.
— Eles também sentiriam isso. Se tudo permanecesse como estava, as Classes A e B acabariam presas numa disputa pantanosa pelo último lugar. A partir daí, outra ideia surge naturalmente — por que não cooperar apenas neste exame? Uma trégua temporária entre A e B para esmagar as classes inferiores primeiro, e depois resolver tudo entre si.
Espelhar o movimento do oponente e restaurar o equilíbrio. Ryuen permaneceu em silêncio, claramente mapeando o campo de batalha em sua mente, recalculando cada possibilidade como se estivesse revivendo o exame desde o início.
Não teria sido fácil. Diferente das Classes C e D, A e B talvez nunca alcançassem uma unidade completa. Mas mesmo uma cooperação superficial — o suficiente para não lutarem entre si enquanto pressionavam a aliança C–D pelos dois flancos — era perfeitamente plausível.
— Nunca imaginei que alguém aceitaria deliberadamente uma emboscada — admitiu. — Acho que isso significa que eu não deveria ter dado o primeiro passo.
— Isso era inevitável — respondi. — Mais cedo ou mais tarde, algo teria acionado tudo isso. O ataque à Classe B no segundo dia — aquilo também foi intencional. Eu queria reduzir ainda mais nossa própria força. Existem inúmeras formas de quebrar a moral de um grupo.
A derrota do segundo dia havia sido o ponto de virada. Quando a Classe C percebeu que não havia como seguir sozinha, ela mesma procurou a Classe D.
— No fim — disse Ryuen, amargamente —, Ibuki foi quem chegou mais perto da verdade. Eu fiquei obcecado demais em te derrotar… e foi isso que me trouxe até aqui.
Era uma admissão clara de derrota — mas, diferente da encenação vazia que ele fizera na sala de aula, aquela tinha peso.
— Agora eu entendi — continuou. — Seu processo. A forma como você transforma qualquer ambiente em uma arma e espreme a vitória até o fim. Daqui em diante, não vou me conter. Nem um pouco.
— Ah, é? — respondi com ironia. — Então você estava se contendo até agora? Que gentileza da sua parte.
Ryuen se abaixou lentamente e recolheu sua arma. Sem me lançar sequer mais um olhar, desviou o olhar para o mar, mantendo-o ali como se estivesse medindo uma distância muito além da linha da costa. Sem responder a nenhuma das minhas palavras, virou-se e começou a caminhar pela areia, as botas afundando levemente a cada passo.
Observei suas costas até que a distância suavizou seu contorno; então, deliberadamente, virei-me na direção oposta. Voltei pelo mesmo caminho para recuperar a arma que havia descartado de propósito mais cedo, sacudindo a areia das palmas das mãos antes de colocá-la novamente no lugar. Feito isso, segui de volta ao quartel-general em um ritmo tranquilo, chegando visivelmente mais tarde do que a maioria.
Já a bordo do navio, fomos instruídos a esperar. O anúncio veio de forma casual: até o encerramento oficial do exame especial, estávamos livres para fazer o que quiséssemos. Na prática, mal havia tempo para fazer qualquer coisa, e logo a hora programada chegou sem alarde.
Nenhum resultado oficial havia sido anunciado ainda, mas o desfecho já era óbvio.
A Classe A havia sido completamente eliminada. A Classe B perdera todos os seus guardas restantes. Só isso já tornava o ranking claro: Classe A em último lugar, Classe B em terceiro, Classe C em segundo, e a Classe D conquistando o primeiro lugar. Graças aos Pontos de Proteção mantidos por Horikita e Koenji, a Classe A evitaria a expulsão apesar da derrota.
Enquanto Hashimoto se aproximava para dizer algumas palavras de agradecimento, um anúncio ecoou pelo navio, instruindo-nos a desembarcar. Ao que parecia, os resultados seriam divulgados do lado de fora.
À medida que caminhávamos juntos em direção à saída, captei fragmentos de conversas dos estudantes ao redor — reclamações, suspiros, comentários murmurados sobre o quão brutal havia sido o exame. E, de fato, em comparação com outros, ele fora severo: confinamento prolongado, grandes oscilações nos pontos de classe e a ameaça constante de expulsão — ainda que mitigada pelos Pontos de Proteção — tornaram essa prova mais pesada do que a maioria.
Descemos em direção ao píer, onde vários tipos de garrafas plásticas rotuladas haviam sido organizadas com cuidado. Um professor nos instruiu a pegar uma livremente. Todas continham apenas água, indistinguível no gosto, então peguei uma ao acaso e pisei na areia.
Não havia necessidade de formar filas por classe. Fomos orientados a esperar onde quiséssemos.
Meus olhos procuraram instintivamente por Hiyori. Durante todo o exame da ilha desabitada, eu não a havia visto sequer uma vez. Após alguns instantes, avistei-a à distância, conversando em voz baixa com Kaneda, da mesma classe. Ela parecia bem, sem sinais de ferimentos ou doença.
Deveria ir até ela e falar?
A pergunta cruzou minha mente, mas antes que eu pudesse agir, Yoshida notou Hashimoto e eu. Ele veio correndo, com um sorriso largo no rosto, cutucando meu ombro como se fôssemos velhos amigos, comemorando com entusiasmo irrestrito nosso segundo lugar.
E assim, o momento passou.
Sem conseguir me mover com a liberdade que gostaria, nós três permanecemos onde estávamos, deixando o tempo de espera escorrer em silêncio, enquanto o som das ondas e das vozes distantes preenchia o espaço entre os pensamentos.
Os professores se moviam com uma urgência incomum.
Para algo que deveria ser apenas o anúncio dos resultados de um exame especial, o ar parecia opressivamente pesado. Não eram as expressões dos alunos que soavam estranhas — eram os próprios professores. Havia algo errado em sua postura.
Até mesmo a professora Hoshinomiya, que normalmente estaria lutando para conter um sorriso travesso em um momento como aquele, não demonstrava qualquer relaxamento. Sua expressão permanecia rígida.
Algo definitivamente estava errado.
Hashimoto percebeu isso um momento depois, seguido logo em seguida por Yoshida. A inquietação se espalhou silenciosamente entre eles — primeiro sem palavras, depois impossível de ignorar. Cada vez mais caixas de papelão eram trazidas para o local — todas lacradas, intocadas.
— Você não tem a sensação — murmurou Hashimoto — de que algo realmente ruim está prestes a acontecer?
— Engraçada coincidência, Hashimoto — respondeu Yoshida em voz baixa. — Eu estava prestes a dizer exatamente a mesma coisa.
Eles não estavam imaginando coisas. Ambos compreenderam instintivamente que algo novo já havia começado a se mover sob a superfície.
Não muito depois, Yamamura e os demais — aqueles que sobreviveram até o fim — foram escoltados de volta ao quartel-general pelos professores. Seus rostos estavam marcados pelo cansaço, os corpos mal se sustentando. Ainda assim, no momento em que chegaram, não lhes foi concedida sequer uma breve chance de descanso. Foram imediatamente alinhados na praia junto com todos os outros.
A diferença era gritante. Os alunos eliminados mais cedo ainda tinham cor no rosto, enquanto aqueles que resistiram até o final pareciam drenados até os ossos. Ainda assim, não havia qualquer sinal de consideração.
Ou talvez até essa disparidade fosse intencional. Talvez também não passasse de uma preparação para o que viria a seguir.
O professor Mashima deu um passo à frente enquanto os alunos observavam em silêncio tenso. Ele ergueu um megafone, levou-o à boca e falou:
— O Exame Especial do Jogo de Sobrevivência na Ilha Desabitada está oficialmente encerrado—
Normalmente, o que se seguiria seriam os resultados. Mas, em vez disso, suas palavras seguintes confirmaram a tensão opressiva que pairava sobre todos nós.
— Com efeito imediato, iniciaremos agora o Exame Especial da Ilha Desabitada.
Aquelas palavras proclamaram o início de uma nova batalha — uma que claramente se distinguia do "leniente" jogo de sobrevivência, que não passara de uma extensão de brincadeira sob a forma de punição.
Com isso, a cortina se ergueu para a batalha da "confiança" e da "traição" — o verdadeiro crivo da escola, criado para determinar quem realmente era digno de alcançar a formatura.
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