Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 3 - Volume 3

Capítulo 7: Batalha Decisiva

O JOGO DE SOBREVIVÊNCIA na ilha desabitada — programado para durar, no máximo, três noites e quatro dias — finalmente havia chegado à sua manhã final. A Classe A, que havia garantido suprimentos de forma ampla por toda a região norte, e a Classe B, favorecida pelo aparecimento constante de alimentos nas zonas ocidentais, conseguiram — por pouco — manter a saúde de seus alunos em um nível minimamente aceitável. Talvez por isso, cada uma tivesse perdido apenas um único aluno por desistência.

Em contraste, a Classe C, encurralada pela Classe B logo após o início do exame, fora deixada em um estado de semi-destruição. A redução no número de alunos contava apenas parte da história; a escassez de suprimentos havia sido igualmente severa. Mesmo após formar uma aliança com a Classe D, as parcas provisões apenas se tornaram ainda mais insuficientes.

O horário agora passava um pouco das 8h40 da manhã.

Desde cedo, Horikita já havia se certificado de que todas as tendas estavam desmontadas e os equipamentos devidamente organizados, garantindo que estivessem prontos para se mover a qualquer instante.

Uma tensão palpável pairava no ar, um contraste marcante em relação aos três dias anteriores. Com mais da metade da ilha agora fora dos limites, as quatro classes estavam convergindo, a poucos metros umas das outras.

A Classe A havia encerrado o dia anterior em G8.

A Classe B permanecia em E12.

A aliança C–D havia se estabelecido em H10.

Às nove horas em ponto, a batalha final de estratégias teria início.

Eles atacariam primeiro — ou se agarrariam à defesa até o último segundo?

Horikita percorreu lentamente os colegas de classe com o olhar.

Alguns estavam inquietos, incapazes de ficar parados. Outros demonstravam uma irritação maior do que o habitual. Essas reações ainda eram administráveis. Mais preocupantes eram os alunos cujo estado físico havia claramente se deteriorado — o cansaço finalmente vindo à tona após quatro dias de sobrevivência.

— Mas há um problema ainda mais urgente — murmurou Horikita, quase para si mesma.

Uma voz próxima respondeu, carregada de apreensão.

— Então… o que vamos fazer, Suzune… quanto a ele?

Sudou se aproximou silenciosamente de Horikita enquanto ela permanecia absorta em pensamentos, baixando a voz ao falar. Seguindo a direção do olhar dele, Horikita também olhou à frente.

Não havia nada nele que sugerisse desconforto — nenhuma tensão, nenhuma inquietação. Com calma e método, ele desmontava sua tenda individual, como se fosse apenas mais um aluno cumprindo uma tarefa rotineira da manhã.

Ayanokoji Kiyotaka.

Para Horikita, até pouco tempo atrás, ele havia sido a pessoa em quem mais confiava, em quem mais se apoiava, e a mais—

Ela interrompeu o pensamento antes que pudesse se completar. Ao redor deles, a maioria da turma não fazia esforço algum para esconder a hostilidade. Os olhares cravados em Ayanokoji transbordavam ressentimento, alguns até mesmo com repulsa aberta. O que ele fizera pouco antes das seis da tarde do dia anterior estava muito além de qualquer coisa que tivessem previsto.

Fingindo retornar à sua força principal, ele havia encurtado a distância de uma forma que nenhum aluno comum conseguiria, explorando sua habilidade física excepcional. Derrubara vários colegas com tiros de tinta — e então, com precisão implacável, usara as regras do horário final do exame para forçar novas eliminações por violações técnicas.

— Ontem eu fiquei suando frio — murmurou Sudou, a voz baixa enquanto revivia a cena. — Se o Ayanokoji não tivesse se escondido atrás daquela árvore — bem onde minha linha de tiro ficou bloqueada — eu poderia ter sido eliminado, igual ao Ike e aos outros…

— É compreensível — disse Horikita em voz baixa. — Um ataque surpresa vindo de uma única pessoa — ainda por cima, um ex-colega habilidoso. Por alguns minutos, todos na classe perderam a compostura. Ele escolheu o momento perfeito para atacar.

Os dois voltaram o olhar para Ayanokoji, relembrando brevemente os acontecimentos do dia anterior.

— Parece que todo mundo está à flor da pele — observou Hirata ao se aproximar, com um tom gentil, porém sério.

— E dá pra culpar alguém? — resmungou Sudou. — Ele avançou sozinho e causou um estrago enorme.

— E o fato de ter sido um ex-colega só torna tudo mais difícil de aceitar — acrescentou Hirata.

— É…

Hirata lançou um olhar para Horikita.

— Você está bem?

—Acho que sim — respondeu ela após uma breve pausa.

A presença de Ayanokoji a abalara muito mais profundamente do que queria admitir — não apenas no aspecto estratégico, mas emocional também. Hirata esboçou um pequeno sorriso tranquilizador.

— Vamos tentar enxergar isso de forma positiva. Por pura coincidência, os que foram eliminados eram apenas guardas.

— Neste exame especial, o pior dano possível é perder um VIP — disse Hirata calmamente. — Considerando que todos foram pegos de surpresa, o simples fato de termos evitado isso já é algo pelo qual devemos ser gratos.

— É verdade — concordou Horikita em voz baixa. — Ele eliminou pessoalmente três pessoas. Não teria sido estranho se um VIP estivesse entre elas.

Como ela estava afastada do acampamento principal durante o ataque, não havia testemunhado o caos diretamente.

— Ao que parece, algumas pessoas reagiram instantaneamente e se coordenaram para proteger os três VIPs — continuou Hirata. — Pelo visto, todo aquele treinamento deu resultado.

Sudou assentiu, e Horikita permitiu-se um pequeno aceno de reconhecimento. Pelo menos algo havia dado certo.

— Há uma última coisa que eu gostaria de conferir antes das nove — disse Hirata. — Você se importaria?

— Pode falar — respondeu Horikita.

Hirata abriu o mapa. Todas as áreas que haviam se tornado inutilizáveis estavam cuidadosamente marcadas com um X, formando um padrão cada vez mais claustrofóbico.

— Como discutimos ontem, as coisas não estão se desenrolando de uma forma particularmente favorável para nós — disse ele.

A Classe A estava atualmente acampada em G8. Até ontem, eles haviam concluído eventos com segurança ao norte, mas agora todo aquele setor havia se tornado território proibido.

— Eu não ficaria surpreso se o evento das onze horas forçasse todos ainda mais em direção ao centro — acrescentou Hirata.

A expansão constante das zonas proibidas, somada às previsões sobre onde os suprimentos poderiam surgir a seguir. Diante da possibilidade iminente de conflito, Horikita pressionou os lábios.

— A essa altura, os suprimentos não passam de um bônus — disse ela. — Já reunimos munição suficiente e, daqui em diante, não acho que valha a pena correr riscos desnecessários apenas para buscar comida.

— Concordo — disse Hirata. — Assim que os combates começarem, perderemos alunos de qualquer forma — isso equilibrará naturalmente o consumo de alimentos. No pior dos casos… teremos apenas que aguentar até a noite sem comer. Dá para suportar. — Ele fez uma pausa. — E quanto às nossas táticas restantes? Você ainda pretende usá-las como discutimos?

— Sim. Isso não mudou — respondeu Horikita. — O que importa mais agora é onde vamos nos posicionar em seguida.

Com as classes aliadas ocupando H10 e a Classe B controlando E12, eles precisavam de flexibilidade. Qualquer que fosse a direção para a qual a próxima zona proibida se expandisse, precisariam estar prontos para se adaptar.

— Se formos muito para o oeste, damos de cara com a Classe B — murmurou Sudou. — Muito para o leste, e é a aliança C–D. Uma dor de cabeça de qualquer jeito.

— E não podemos simplesmente torcer para que a área sul encolha — acrescentou Horikita. — Não precisar se mover pode parecer atraente, mas também significa perder rotas de fuga. Dependendo de como as coisas se desenrolem, podemos acabar encurralados em um ataque em pinça.

— Acho que deveríamos ser ousados e ir direto de G8 para E9 — disse Hirata. — O que acha?

— Não é uma má ideia. Na verdade, pode ser a melhor jogada. Eu estava pensando exatamente nisso — respondeu Horikita.

Se tivessem de escolher um único oponente, a Classe B fazia mais sentido. Ambas as classes ainda mantinham seus VIPs intactos. Ambas tinham um número de guardas relativamente equivalente. Eram concorrentes diretas pela primeira colocação e, melhor ainda, a Classe B já havia gasto sua tática de bloqueio de GPS. Isso dava à Classe A uma vantagem crucial.

— Então finalmente vamos enfrentar aquele desgraçado do Ryuen de frente — disse Sudou, estalando os dedos.

— Se eles nos enfrentarem — disse Horikita — estarão colocando tudo em uma única aposta de tudo ou nada. Não há como terem fôlego para enfrentar as classes aliadas depois disso. Por isso quero acreditar que eles não vão se precipitar… mas.

Um impasse entre quatro lados teria sido administrável — um equilíbrio tenso, porém relativamente estável. Mas agora havia se tornado uma disputa entre três forças. A formação repentina de uma aliança tão grande havia forçado a mão de Horikita. Ela precisava tomar decisões difíceis.

Depois de revisar a estrutura tática uma última vez, um breve silêncio se instalou entre eles. Mas a conversa ainda não havia terminado.

— Até este ponto, tudo correu mais ou menos como esperado, exceto pela questão envolvendo o Ayanokoji-kun. O momento decisivo deste exame especial é hoje, neste último dia. O fato de as áreas inutilizáveis estarem convergindo para o centro também era algo que eu já havia previsto. Deixar nossa tática de "bloqueio de GPS" sem uso até agora certamente será útil para nós.

O que Horikita identificava como o ponto central deste exame especial não era superar e derrotar os oponentes da forma que Ryuen faria, mas garantir que o maior número possível de VIPs e guardas permanecesse até o fim.

Por isso, a tática de bloqueio de GPS nunca foi pensada para ataque — seria usada exclusivamente para defesa. Essa foi a primeira decisão crítica tomada por Horikita, e a estratégia que ela compartilhou com a classe.

Quanto à tática de confirmação de identidade, ela só havia sido usada em Morofuji. Horikita suspeitava que talvez nunca mais fosse necessária. O GPS de Ayanokoji, é claro, já havia sido permanentemente marcado por meio de Matsushita.

— Você acha mesmo que vai sair dessa? — disparou Hondou, incapaz de permanecer em silêncio por mais tempo, avançando em direção a Ayanokoji com o rifle de assalto em mãos.

— Hondou! — gritou Sudou, alarmado.

Mas já era tarde demais. Como se todos estivessem apenas esperando que alguém desse o primeiro passo, vários rapazes e garotas o seguiram, erguendo as armas enquanto se espalhavam, fechando o cerco ao redor de Ayanokoji.

— Esse traidor da classe precisa ser punido! — rosnou Hondou. — Não tem como deixarmos ele fazer o que quiser por mais tempo. Aqui e agora, eu vou garantir que o Ayanokoji seja eliminado de vez.

— Pare com isso, Hondou-kun! — ordenou Horikita, cortando o caos crescente. — Cercá-lo à força não vai levar a nada. Bloquear o caminho dele, mesmo que indiretamente, será considerado contenção ilegal. Isso é absolutamente proibido.

— M-Mas então o quê?! — rebateu Hondou. — Vamos simplesmente deixá-lo ir embora?!

A irritação no ar tornou-se palpável, vários alunos armados voltando sua frustração também contra Horikita.

— Não é isso que estou dizendo — respondeu ela, firme apesar da pressão. — Deixá-lo escapar é uma ameaça para nós. Portanto, é evidente que devemos derrotá-lo aqui. Mas não podemos fazer isso da maneira errada. Mantenham uma distância adequada e esperem até às nove da manhã.

Um único metro seria suficiente.

Desde que Ayanokoji tivesse um caminho estreito, porém desobstruído, por onde pudesse caminhar, não haveria violação das regras. Esse foi o julgamento de Horikita. Após trocarem olhares, os colegas de classe lentamente se afastaram, criando um corredor fino entre sua formação.

Ayanokoji olhou para o caminho aberto e então voltou o olhar para Horikita e os demais.

— Essa é a decisão correta — disse ele calmamente. — A administração monitora o GPS de cada aluno em tempo real, vinte e quatro horas por dia. Eles sabem que estou em território inimigo. Sabem que estou sendo cercado neste exato momento. Se o meu GPS parasse de se mover e eu fosse eliminado no instante em que desse nove horas, a escola investigaria imediatamente. Eu alegaria que meu movimento foi completamente bloqueado — que fui contido. Há uma grande chance de que isso fosse considerado uma infração.

Ontem, depois das seis horas, quando Ayanokoji foi atingido, a equipe da escola interveio. Os alunos que dispararam fora do horário do exame não foram considerados mal-intencionados — mas, ainda assim, todos foram desclassificados por violação das regras.

Ela não podia permitir que algo assim se repetisse.

Por mais capaz que Ayanokoji fosse, se às nove horas chegassem daquela forma, escapar seria impossível. Na melhor das hipóteses, ele poderia disparar simultaneamente e derrubar uma pessoa junto com ele — mas nada além disso.

— Tch… droga! — gritou Hondou, cerrando os punhos. — O inimigo está bem na nossa frente, e a gente não pode fazer porcaria nenhuma! Maldição!

Presos às regras, obrigados a assistir o alvo se preparar para fugir — o tormento psicológico era quase físico.

Ayanokoji voltou a falar, com um tom quase didático.

— Em um campo de batalha real, esse tipo de combate não funcionaria. Mas isto é um exame especial. É uma luta que só existe por causa das regras — porque você pode explorá-las e porque elas também o protegem. Se algum dia tiver a chance, deveria tentar.

As palavras carregavam um leve tom de provocação. Talvez ele estivesse esperando que alguém agisse por impulso. Por precaução, Horikita repetiu sua ordem: nenhum disparo antes das nove.

À distância, Karuizawa observava a cena se desenrolar, as mãos firmemente cerradas.

E o tempo passou das 8h50 da manhã.

— Faltam dez minutos! — alguém gritou. — Não vamos deixar você escapar! Nem pensar!

Com o início da fase final se aproximando, Ayanokoji deu um passo à frente em silêncio. Uma onda de tensão percorreu a Classe A. Dedos se apertaram nos gatilhos, os canos das armas acompanhando cada movimento dele.

— O que você está planejando fazer, Ayanokoji-kun? — perguntou Horikita.

— Não há nada para planejar. Você me deu um caminho, então eu vou andar.

E ele andou. À medida que Ayanokoji avançava, os alunos da Classe A se moveram junto com ele — acompanhando seu ritmo, sem nunca encurtar a distância, sem jamais desviar a mira. Dezesseis guardas ao todo, entre rapazes e moças.

Precisamos derrotá-lo aqui.

Era isso que Horikita havia dito — o que dissera a todos eles. E, ainda assim, no fundo, ela não queria mandar nenhum deles atrás dele.

— Eu vou também—

Sudou avançou a partir do lado dela, mas Horikita segurou seu ombro e o deteve.

— Não vá — disse ela em voz baixa. — Isso não vai mudar nada.

— O que você quer dizer com isso, Suzune?

— Se ele pretendesse lutar às nove horas, nós poderíamos vencê-lo. Mas ele não vai lutar. Vai colocar toda a energia que tem em fugir.

Naquela floresta densa, o número de alunos capazes de acompanhar a capacidade física de Ayanokoji era ínfimo. Sudou era um dos poucos. O que significava que, assim que a perseguição começasse de verdade, até mesmo dezesseis pessoas seriam despistadas em questão de minutos.

Era essa confiança que explicava por que Ayanokoji passara a noite calmamente armando sua tenda no meio de território inimigo.

— Mas eu tenho certeza de que consigo acompanhá-lo — insistiu Sudou. — Ele também está carregando muita bagagem.

— É exatamente por isso que eu não posso deixar você ir — disse Horikita.

Às nove da manhã, existia a possibilidade de, no pior dos cenários, ocorrer um duelo um contra um entre Ayanokoji e Sudou.

Se isso acontecesse, o resultado seria incerto.

Na improvável hipótese de Sudou perder e Ayanokoji escapar, a Classe A sofreria um golpe ainda maior.

— Mas, desse jeito, a gente vai acabar jogando exatamente do jeito que o Ayanokoji quer, do começo ao fim… não é? — murmurou Sudo.

— Eu sei — disse Horikita em voz baixa. — Mas, como ele mesmo disse, está transformando a estrutura de regras do exame em uma arma contra nós. Esta não é uma situação que se resolva com força bruta.

Além disso, quaisquer guardas que o perseguissem apenas se esgotariam para as batalhas que ainda estavam por vir. Ela não os havia impedido apenas por estratégia — mas porque, no fundo, sabia que não podia.

Exatamente às nove horas, a floresta explodiu em caos — gritos, o estalo seco das armas de paintball, o estrondo de várias pessoas atravessando o mato fechado.

Não demorou muito para que os perseguidores retornassem. Voltaram em pequenos grupos, carregadores vazios, corpos exaustos, rostos marcados pela frustração. Cada um deles havia perdido sua presa nas profundezas da floresta.

*

 

Um pouco depois das dez da manhã, no instante em que meu relógio de pulso confirmou que eu havia despistado a Classe A e cruzado para H10, duas figuras familiares surgiram à minha frente — Takemoto e Hashimoto.

Aquele era o ponto de encontro que eu havia definido com antecedência, o local onde eu lhes dissera para esperar caso conseguisse retornar em segurança.

— Yo! — Hashimoto foi o primeiro a me cumprimentar. — Quando recebemos o relatório de que você tinha sido eliminado bem no final de ontem, eu realmente achei que estávamos acabados. Aí descobrimos que foi depois das seis, então não contou? Cara, você manda umas jogadas completamente malucas.

Apesar do comentário, Hashimoto sorria o tempo todo e parecia incrivelmente animado.

— Esse idiota aqui ficou empolgado desde que soube que você derrubou vários alunos da Classe A e os provocou a atacar fora do horário do exame — acrescentou Takemoto, balançando a cabeça com exasperação. — Ele não parou mais de se gabar.

Mesmo assim, Takemoto bateu de leve no meu ombro.

— Bom trabalho. Sério mesmo.

— Como é que eu não ia ficar empolgado? — retrucou Hashimoto. — Você correu direto para o coração do território inimigo. Qualquer um apostaria que você não conseguiria escapar — e olha você aqui. Você realmente é fora do comum.

— Eu perdi pontos demais logo no começo — respondi. — Só quis recuperar o máximo que fosse possível.

— Mais do que o suficiente — disse Hashimoto de imediato. — Sinceramente, o único arrependimento é que você não conseguiu eliminar um VIP.

— Sobre isso — falei. — Quero passar algumas instruções imediatamente.

Ainda escoltado por Takemoto e Hashimoto, comecei a caminhar de volta em direção ao grupo principal, onde Kanzaki e os outros estavam aguardando.

— Que tipo de instruções? — perguntou Hashimoto.

Quando ouviram os detalhes, Hashimoto e Kanzaki trocaram um breve olhar — surpresos, mas apenas por um instante — antes de começarem imediatamente a organizar quem precisaria se mover, quem ficaria para trás e como executar o plano.

Eles não perderam tempo questionando minha intenção. Em vez disso, colocaram a mente para trabalhar. Isso, mais do que qualquer coisa, foi reconfortante. Havia algo que eu não tinha dito em voz alta — algo que percebi enquanto estava dentro do acampamento da Classe A.

Eles careciam de um certo fio de corte. Uma falta sutil, mas inconfundível, de tensão.

Muito provavelmente, isso se devia ao fato de Horikita ter declarado abertamente, logo no início, que usaria um Ponto de Proteção caso algo desse errado — tranquilizando seus colegas de classe de que a própria turma seria preservada mesmo em uma derrota.

A turma de Ryuen, por outro lado, era diferente. Mesmo com Kaneda possuindo um Ponto de Proteção, ninguém ali contava com isso.

Eles lutavam como se não houvesse rede de segurança alguma. Acredito que esse fosse um dos fatores decisivos que, no fim das contas, separariam a vitória da derrota — a diferença de determinação, a lacuna silenciosa, porém evidente, na motivação.

Em pouco tempo, todos se reagruparam. A partir daí, selecionamos os alunos que seriam enviados em direção à Classe B. Desta vez, porém, o risco era grande demais. Nenhum VIP seria envolvido. Enviamos apenas duas pessoas: um aluno preparado para ser sacrificado, se necessário, e um batedor. Nada além disso.

O restante de nós aguardou.

Onze horas. De acordo com o tablet do analista, a área ainda habitável havia encolhido para uma grade de cinco por cinco, estendendo-se de D8 até H12. Os suprimentos apareceram em D12, E8, F10, G9 e H12.

Mas esses detalhes não eram a parte mais importante. Até então, as zonas restritas vinham sendo anunciadas de forma gradual a cada evento. No último dia, porém, todas as restrições restantes foram reveladas de uma só vez. Às 13h00, a área utilizável seria reduzida para dezesseis quadrantes, de D9 até G12 Às 15h00, ela encolheria ainda mais — para apenas quatro quadrantes, de D11 até E12. Às 15h30, restariam apenas E11 e E12. E, às 16h00, o exame chegaria ao fim.

Quando o campo de batalha se limitasse a apenas duas zonas, sobreviver sem ser eliminado se tornaria praticamente impossível. Um confronto total seria inevitável. E, como se isso não fosse suficiente, havia ainda um último golpe.

A partir das 15h00, o período de tolerância para permanecer em uma área proibida deixaria de ser de uma hora. Em vez disso, entrar em uma zona restrita acionaria um limite cumulativo de sessenta segundos — ao ultrapassá-lo, o aluno seria eliminado à força.

Uma regra implacável, adicionada exclusivamente para forçar o confronto.

— Isso é insano… — murmurou Hashimoto. — Se ao menos um guarda inimigo sobreviver até esse ponto, pode significar aniquilação total.

Ele não estava errado. Não haveria nem espaço nem tempo para escapar. Ainda assim, ficar remoendo o desfecho final não nos ajudaria agora. Ele balançou a cabeça uma vez, retomando o foco da discussão.

— Desta vez, só há cinco pontos de suprimentos — continuou Hashimoto, examinando o tablet. — E, tirando E8, os outros quatro são todos de comida. H12 é praticamente garantido.

Avaliei a situação, pesei as variáveis e tomei minha decisão. Por meio de Hashimoto e Kanzaki, transmiti as ordens para todo o grupo.

— Vou explicar o plano agora.

Ao ouvir essas palavras, a atmosfera mudou instantaneamente. Não apenas a Classe C, mas também a Classe D, endireitaram a postura e se concentraram, as expressões se tornando firmes, carregadas de determinação.

*

 

Preparada para a possibilidade de um confronto com as classes aliadas, a Classe A garantiu os suprimentos que surgiram no setor sul de G9 e, sem demora, avançou para F9. O horário era meio-dia em ponto. Eles fizeram apenas uma breve parada ali, aguardando uma atualização de Matsushita.

— Agora há pouco, um aluno da Classe C foi eliminado entre E12 e F11 — relatou Wang, com a voz carregada de confusão. — O aluno restante parece estar recuando. Não sei o que isso significa.

Diante disso, Horikita e Hirata trocaram um olhar.

— Será que tentaram recuperar os suprimentos em F10 sem um VIP? — ponderou Hirata em voz alta. — E acabaram sendo abatidos pela Classe B ao se afastarem demais?

— Não sei — respondeu Horikita em voz baixa. — Mas não há dúvida de que esse movimento foi dirigido pelo Ayanokoji. Diga à Matsushita para identificar o aluno em retirada usando uma tática.

— S-Sim!

Wang transmitiu imediatamente a instrução à comandante. Menos de um minuto depois, a resposta de Matsushita chegou.

— O aluno em retirada é a Nishi-san, da Classe C, e a função dela é batedora!

— Uma batedora… — murmurou Horikita. — Então provavelmente podemos descartar uma tentativa de coleta de suprimentos.

— Eles usaram dois alunos como isca para atrair a Classe B? — Hirata voltou a pensar em voz alta. — Não… isso não seria muito eficaz.

— Só perderiam um guarda à toa — concordou Horikita. — E nem mesmo uma batedora tem garantia de voltar em segurança. A verdadeira intenção deles ainda não está clara, mas vamos permanecer aqui e observar ambas as classes — enquanto garantimos um terreno de onde possamos lutar, se necessário.

Foi apenas dez minutos depois que Horikita e os outros perceberam que algo estava errado. O motivo ficou claro quando Matsushita entrou em contato rapidamente com Wang, a VIP.

— Horikita-san! A Classe C e a Classe D começaram a se mover para o norte! Mais precisamente, todos os sinais de GPS estão se deslocando para noroeste, de H10 em direção a G9!

De pé ao lado, Kushida abriu rapidamente o mapa. Horikita se inclinou para frente, acompanhando o movimento com os olhos.

— Nessa fase, mover-se para G9… — disse Kushida lentamente. — Isso não significa que eles estão nos mirando?

— Sim — concordou Horikita. — Se vão eliminar alguém, mirar na Classe A em vez da Classe B é a escolha mais natural—

— E-E há mais um relatório! — interrompeu Wang. — A Classe B, que estava mantendo posição em E12, também começou a avançar para o norte!

As palavras caíram como um peso. Ambas as classes haviam começado a avançar quase simultaneamente, cinco minutos antes — como se tivessem coordenado o momento.

— Não me diga que a Classe D se aproximou da Classe B exatamente por esse motivo…?

— É possível. Talvez tenham proposto um ataque em pinça — esmagando a Classe A pelos dois lados.

Enquanto Kushida analisava a situação calmamente ao seu lado, Horikita imediatamente transmitiu as informações aos colegas de classe.

— E-Espera, sério!? O que a gente faz!? — alguém disparou. — Não tem como vencer três classes ao mesmo tempo!

— Se eles realmente vierem atrás da gente, ficar aqui só significa ser cercado. Talvez recuar seja uma opção? Se a gente se retirar, eles podem acabar colidindo entre si em vez disso.

Fosse um conselho ou apenas a única opção realista restante, Kushida murmurou o pensamento em voz alta, quase como um solilóquio.

Eles estavam sendo forçados a escolher — antes mesmo que qualquer certeza tivesse tempo de surgir.

— Vamos nos mover — disse Horikita com firmeza. — Enfrentaremos a Classe B em E10.

Por mais forte que fosse uma posição defensiva, ela não significaria nada diante de um confronto triplo. Se essa vantagem desapareceria no instante em que todos os lados convergissem, então escolher um único oponente era o único caminho racional. Entre eles, a Classe B oferecia as melhores probabilidades.

As mochilas foram erguidas às pressas. A turma girou como um só corpo e imediatamente começou a avançar em direção a E10.

Na atualização seguinte do GPS, foi confirmado que a Classe B havia entrado em E11. Quase ao mesmo tempo, as classes aliadas estavam se movendo para G9. A Classe A pressionou em direção a E10 — mas, após mais duas atualizações, cerca de dez minutos depois, a situação mudou novamente.

O movimento antecipado deles havia sido notado. Percebendo a intenção da Classe A de forçar um confronto decisivo, a Classe B interrompeu o avanço e começou a recuar, retornando para E12. Enquanto isso, as Classes C e D abandonaram o avanço para o norte e desviaram para o oeste.

— Eles perceberam que estávamos tentando uma resolução rápida e recuaram — disse Horikita, verbalizando a conclusão. — Mas isso já era esperado. Vamos continuar desafiando a Classe B para um combate.

Ainda assim, uma inquietação persistia em seus pensamentos, um desconforto que ela não conseguia afastar. Era como se estivessem sendo levados por uma corrente poderosa — uma que não permitia resistência.

A aluna da Classe C enviada até a Classe B.

Se aquela aluna tivesse ido preparada para ser eliminada — apenas para propor cooperação, para convencer a Classe B a se juntar a um esforço para derrubar a Classe A — então toda aquela sequência de movimentos só podia significar uma coisa.

Este campo de batalha estava sendo moldado por Ayanokoji. O ideal teria sido manter a posição, esperar pacientemente e observar até o fim. E, no entanto, a partir de uma única incursão solitária de um aluno no dia anterior, eles haviam permitido que o fluxo da partida fosse manipulado — passo a passo.

— Esta é a fraqueza da Classe A, Horikita-san — disse Kushida em voz baixa. — Sempre soubemos que isso era um risco — que, quando o objetivo é derrubar o topo, os interesses de todos podem se alinhar contra nós.

— Sim — respondeu Horikita, soltando um suspiro lento. — E é exatamente por isso que este é o momento decisivo. A partir daqui, é aqui que mostramos nossa força.

Confiando que suas decisões ainda os conduziriam à vitória, Horikita seguiu em frente.

*

 

13h00. A notificação do evento chegou.

Nenhum suprimento apareceu. Isso, por si só, deixou a situação perfeitamente clara: a fase de coleta havia terminado.

No momento, a Classe A estava posicionada em D11, a Classe B em D12 e o grupo aliado C–D em E10. Após um ciclo repetido de avanços e recuos, a situação havia evoluído a tal ponto que, embora ainda não tivesse ocorrido contato direto, todas as classes agora pressionavam perigosamente próximas umas das outras.

Relatórios do analista começaram a chegar em rápida sucessão. Em resposta, os alunos da Classe A elevaram as vozes, transmitindo a todos as novas zonas restritas designadas. Pouco depois das 13h05, Yukimura — o VIP — recebeu novas instruções do comandante e ordenou imediatamente que todos parassem.

A cerca de cinquenta metros à frente. A Classe B, avançando para o norte como soldados disciplinados, também se imobilizou. Nenhuma palavra foi dita enquanto ambos os lados congelavam no lugar. Dando um meio passo à frente, Katsuragi falou em voz baixa e firme, direcionada apenas aos seus colegas.

— A Classe A está logo à nossa frente. A distância é de apenas algumas dezenas de metros. Fiquem atentos. Todos vocês.

— Prestem atenção — a voz de Ryuen cortou a tensão como uma lâmina. — Cada um de vocês derruba pelo menos um inimigo antes de cair. Eu não dou a mínima para quantos vocês eliminaram no primeiro dia. Quem se mostrar inútil aqui, vai para a lista de expulsão.

A ameaça pairou no ar como fumaça. Em seguida, ele fez um gesto brusco, mandando-os avançar Impulsionada por esse peso, a Classe B voltou a se mover lentamente.

Um passo. Depois outro. A terra rangia sob os pés. Folhas e galhos estalavam sob as botas.

— Mesmo assim — murmurou Ishizaki, quebrando o silêncio —, será que foi mesmo certo deixar um dos VIPs da Classe A escapar daquele jeito?

Ele se referia a um incidente ocorrido momentos antes. Um sinal de GPS anômalo havia se separado do agrupamento principal da Classe A — duas coordenadas se afastando sozinhas. Ryuen imediatamente queimara um recurso tático para identificá-las.

O resultado: Miyake Akito, um guarda — e Wang Mei-yu, uma das VIPs da Classe A.

Katsuragi respondeu com calma.

— Se os três VIPs caírem, é aniquilação total. Deixá-los escapar foi a forma mais segura de evitar esse risco em um confronto caótico — disse ele. — Para enviar perseguidores atrás deles, precisaríamos de pelo menos duas pessoas também — um VIP e um guarda. Mas, em uma situação de dois contra dois, o resultado é imprevisível. O Miyake também não é fraco fisicamente. E, mais importante, a Classe A não é a única ameaça por perto. As Classes C e D também estão se aproximando. Dividir o grupo agora seria perigoso demais.

Ishizaki estalou a língua, mas não disse mais nada. É claro que, se fosse possível, Ryuen os teria esmagado sem hesitação. Ninguém duvidava disso. Mas enviar um pequeno destacamento nessas condições significaria apostar o destino de toda a classe. Era por isso que Ryuen não havia dito uma palavra sobre o assunto.

A Classe B avançaria como uma única unidade, e seus VIPs seriam protegidos a qualquer custo.

— Tem algo errado — disse Katsuragi, com a expressão se fechando, o vinco entre as sobrancelhas se aprofundando.

— Hã? O que você quer dizer com errado? — rebateu Ishizaki.

Eles ainda não haviam entrado em contato com a Classe A. Isso, por si só, já era o problema. Considerando a distância e a forma como ambos os lados vinham avançando, o confronto já deveria ter acontecido. Ainda assim, a floresta permanecia estranhamente silenciosa, o tempo se arrastando sem colisão alguma.

— Já deveríamos ter trombado com eles — murmurou Katsuragi. — Esse atraso é… inquietante.

A partir da posição atual, a Classe A tinha três direções disponíveis — todas, exceto a rota ao sul, onde a Classe B estava posicionada. Evitar contato seria trivial. Se eles já tivessem fugido, persegui-los seria a resposta lógica. Mas esse era justamente o problema. As informações só eram atualizadas a cada cinco minutos.

Até que o próximo relatório de posição chegasse, não havia como saber para onde o inimigo tinha ido — nem como persegui-lo ou interceptá-lo. Tudo o que podiam fazer era avançar com cautela, seguindo a um ritmo controlado entre as árvores.

Cinco minutos depois, o comandante transmitiu as posições mais recentes — e foi então que descobriram a verdade problemática.

A Classe A não havia se movido para o norte, sul, leste ou oeste. Ela não havia se movido de forma alguma.

— R-Ryuen-kun… os sinais de GPS… o GPS da Classe A e o nosso… eles estão sobrepostos…!

— Então eles usaram isso aqui — disse Ryuen, de forma seca.

Pelos trinta minutos seguintes, a Classe A não pôde mais ser rastreada. Era um cenário que eles haviam previsto, mas antecipá-lo não diminuía o impacto. Para qualquer outra classe, essa janela de cegueira representava uma desvantagem esmagadora.

Katsuragi reagiu imediatamente. Sem elevar a voz, ele emitiu uma série de sinais manuais rápidos, ordenando que a formação se fechasse ao redor dos VIPs. Perder sequer um deles seria catastrófico. Perder os três significaria aniquilação total.

Valeu a pena Katsuragi tê-los treinado exatamente para essa contingência — ensinando comandos silenciosos, ensaiando respostas para momentos em que gritar só traria desastre.

Recuar com os VIPs era uma opção. Mas era uma opção falha. Sem os VIPs, a Classe B perderia sua capacidade de acompanhar o campo de batalha como um todo. E, se os guardas fossem eliminados aos poucos, os VIPs acabariam encurralados de qualquer maneira. No fim, mantê-los próximos — protegidos no núcleo da formação — era a escolha mais eficiente.

Pelo menos, esse era o julgamento de Ryuen.

Eles recuariam — ou atacariam?

Ninguém falou. Cada aluno prendia a respiração, os ouvidos atentos a qualquer perturbação, por mínima que fosse. Um galho quebrando, um passo deslocado — qualquer coisa que denunciasse movimento na floresta ao redor.

Após receber novas informações do comandante, um dos VIPs retirou silenciosamente um pequeno papel de anotações preparado exatamente para momentos como aquele. Com um toque cuidadoso, quase delicado — leve o suficiente para não rasgar a folha — ele rabiscou rapidamente uma curta mensagem. Ao terminar, ergueu o papel para que Ryuen pudesse ver.

"C e D estão avançando pela frente."

Então até mesmo as classes aliadas estavam se aproximando.

Se a Classe A desaparecida tivesse dado a volta para flanqueá-los enquanto C e D avançavam de frente, a Classe B corria o risco de ser pega em uma formação de pinça. O caçador poderia se tornar a presa em questão de instantes.

Não havia tempo para hesitar. Ryuen decidiu recuar para o sul, erguendo o braço para dar a ordem.

— ATRÁS DE NÓS!

O grito de Isoyama rasgou o silêncio. Tiros de paintball explodiram pela retaguarda, uma chuva de cores cortando o meio das árvores.

— Eles deram a volta por trás! Recuem enquanto revidam o fogo! C e D estão vindo — mexam-se, AGORA!

Nesse ponto, sinais manuais eram inúteis. Katsuragi elevou a voz, emitindo ordens simultâneas de combate e retirada enquanto o caos explodia atrás deles. Um tiroteio começou contra o inimigo que havia se infiltrado em seu ponto cego.

— Não tem dúvida — é a Classe A! — gritou Ishizaki. — Eu vi o Sudou!

— Ha, hahaha—!

Diante disso, Ibuki soltou uma risada aguda e inquietante — feroz demais, ansiosa demais para a situação.

— Que porra é essa risada assustadora? — murmurou Ishizaki, encostando as costas em uma árvore ao lado dela. — Você tá me dando arrepios.

— Quer saber? — Ela ejetou o carregador da submetralhadora, confirmou que ainda tinha muita munição e o encaixou de volta com um estalo metálico. — Eu nunca liguei para aquele ataque do primeiro dia contra a Classe C. Nada daquilo importava. — Ela continuou: — É porque finalmente encontrei a oponente que eu tenho que derrotar.

— Uau… isso sim é motivação — disse Ishizaki, com um sorriso torto. — Então a Classe A é o verdadeiro prêmio, é?

— Hã? Não seja idiota — rebateu Ibuki. — Isso não importa nem um pouco.

Os olhos dela ardiam enquanto se inclinava para frente, o dedo se apertando no gatilho.

— Eu só quero ver a cara da Horikita quando eu esmagar ela. Eu estava doida por isso.

Dizendo isso, Ibuki disparou uma rajada implacável de tiros de tinta com sua submetralhadora. Um alarme agudo soou quase imediatamente — alguém a mais de dez metros havia sido atingido.

O carregador esvaziou. Sem hesitar, ela o arrancou e encaixou um novo. Mesmo agora, ainda tinha sete carregadores reserva presos ao equipamento — munição mais do que suficiente para continuar atirando até o campo de batalha se esvaziar.

— Todas as mágoas que eu venho carregando… vou pagar tudo aqui e agora! — rosnou ela.

— E-Ei… é, tá, empolgação é legal e tal, mas — disse Ishizaki, já começando a recuar. — Esse lugar vai virar uma zona de morte, então eu vou dar uma recuada por um segundo— hã? Que diabos…?

Ele tentou dar um passo para trás, sabendo muito bem que aquela posição logo se tornaria uma área mortal — mas Ibuki agarrou seu braço e o puxou de volta.

— Você é o meu apoio.

— Hã!? Me dá um tempo! Eu tenho que proteger o Ryuen-san!

— Esquece ele. Você não precisa proteger um cara desses. Você é o meu escudo.

— NEM FERRANDO!

— Você tem uma arma tão chique, é só avançar.

— Isso é praticamente pedir pra levar um tiro!

— Desde que eu consiga derrubar a Horikita, é tudo o que importa!

— Claro que não é!

As vozes exaltadas ecoaram entre as árvores, e a Classe A percebeu imediatamente a presença escondida atrás do grande tronco. Tiros de tinta martelaram a madeira sem piedade, um deles passando assobiando bem pela ponta do cabelo de Ishizaki.

— PUTA MERDA! Essa foi por pouco!

O suor brotou em sua testa enquanto Ibuki lançava a ele um olhar cortante.

— Ficar aqui não vai nos salvar — vamos acabar sendo eliminados de qualquer jeito. Agora vai, Ishizaki! Vai! Anda logo!

— Aaargh, TÁ BOM! Mas vê se acompanha!

Ishizaki saiu da cobertura em disparada, usando seu corpo grande como um escudo em movimento. Ibuki grudou logo atrás dele, sincronizando seus passos com o ritmo dele enquanto avançavam juntos.

No flanco oposto, a manobra da Classe A já havia dado resultado. Tendo usado suas táticas para dar a volta e atacar pela retaguarda, eles estavam atravessando a formação da Classe B sem dificuldade. Entre eles, Sudou acabara de garantir sua quinta eliminação.

— Sem munição — alguém me passa um carregador!

Graças às suas capacidades físicas abençoadas e às habilidades que havia lapidado durante os treinos a um nível incomparável entre seus colegas, ele demonstrava sem piedade um desempenho digno de um ás.

Yukimura, que estava escondido nas proximidades, entregou a Sudou um carregador completamente cheio. Como VIP, Yukimura não podia atacar, mas fornecer apoio daquela forma não violava as regras.

Sudou encaixou o carregador com força, sem tirar os olhos do campo de batalha.

— A Classe B caiu para treze! Tenho quase certeza de que o Sudou acabou de eliminar um dos VIPs deles!

Informações sobre alunos eliminados chegavam constantemente pelo rádio.

— O quê, sério? Aí sim — faltam só mais dois!

— Espera, não— nós também perdemos um! A Mii-chan foi eliminada!

A alegria durou pouco, já que a contagem de VIPs imediatamente passou para dois contra dois.

— Situação das Classes C e D? — perguntou Sudou, o tom voltando à concentração total.

— O Hirata está segurando eles. Exatamente como a Horikita previu, ela superou a contra estratégia deles.

— Heh… imaginei — murmurou Sudou, um sorriso orgulhoso puxando seus lábios. — Essa é a Suzune—

Mas, naquele instante, ele ouviu — vários conjuntos de passos correndo em direção à posição deles pela frente.

— Eles estão avançando. Yukimura — fique escondido!

Ele empurrou Yukimura de volta para a cobertura e então se inclinou à frente, erguendo a arma em direção aos alunos da Classe B que se aproximavam. Mas havia algo estranho. Eles haviam notado Sudou — ainda assim, nenhum deles apontou a arma para ele. Em vez disso, todos os canos estavam direcionados para outro lugar.

Sudou atirou mesmo assim.

Uma bala de tinta atingiu Nomura em cheio no abdômen, o relógio em seu braço disparando um alarme enquanto ele caía. Mas os outros não desaceleraram. Passaram por Sudou à força, atravessando a brecha ao lado dele.

— Nem ferrando que eu vou deixar vocês passarem! — rosnou Sudou.

Ele girou, derrubou um com um tiro limpo nas costas — mas os dois restantes desapareceram na mata densa, galhos e sombras engolindo-os antes que ele conseguisse alinhar um disparo preciso.

— Tch— cubram esta área! — ordenou, deixando alguns alunos para proteger Yukimura enquanto partia em perseguição.

— A Satou está logo à frente! — alguém gritou. — Derrubem a Satou — AGORA!

Naquele instante, as intenções se alinharam. Classe C. Classe D. Classe B.

Os três lados apontaram suas armas para Satou ao mesmo tempo.

Os gatilhos foram puxados. E, no instante seguinte, Satou desapareceu do campo de visão.

— Kyaa!

Não foi por ação da própria Satou.

Um braço se enlaçou em sua cintura, puxando-a com força para fora da linha de tiro, exatamente no momento em que as balas de tinta rasgaram o espaço que ela ocupava.

— Você está bem?!

Sudou a puxou para perto, protegendo o corpo dela com o seu, tendo arrancado Satou de uma eliminação certa no último instante possível.

— S-Sim… obrigad—!

Antes mesmo de Satou conseguir concluir a frase, outra saraivada de balas de tinta rasgou o ar ao redor deles, passando a centímetros com força brutal.

— Eles estão vindo com tudo — cuspiu Sudou, cerrando os dentes. — O quê? Estão planejando despejar cada última bala bem aqui?!

Ele respondeu com alguns disparos, mais como ameaça do que por precisão, apenas para manter os inimigos abaixados. Mas, no instante em que percebeu o quanto sua mira estava comprometida enquanto protegia Satou, tirou o dedo do gatilho sem hesitar.

— Não te parece estranho? — murmurou.

— E-Estranho? — Satou repetiu, ainda sem fôlego.

— Olha em volta — disse Sudou em voz baixa, os olhos correndo de árvore em árvore, seguindo os respingos de tinta cravados na casca e no solo. — Tem canos demais apontados pra cá. Isso é esquisito pra caramba.

Ele estreitou os olhos.

— Ainda tem um monte dos nossos escondidos por aí. Mesmo assim, o número de armas apontadas pra nós — pra você — é alto demais.

Sudou falou enquanto lançava um olhar para as árvores espessas a pouca distância de ambos os lados. Atrás dos troncos largos, conseguia distinguir os contornos de Inogashira e Okitani, pressionados contra a cobertura.

As evidências eram claras. Havia manchas de tinta espalhadas pela área — sinais de que, no começo, os tiros tinham sido disparados sem critério. Mas isso havia mudado. Agora, quase todos convergiam para um único ponto.

Eles.

— N-Não é porque você está aqui, Sudou-kun? — Satou perguntou, hesitante.

— Não. Já estava assim antes de eu aparecer — respondeu ele em tom baixo. — O que significa que eles já sabiam antes mesmo da luta começar. Que você é a VIP.

— O-O quê…? Como eles poderiam—? Isso é mesmo possível?

— Provavelmente — disse ele, sombrio. — Eles estão obcecados demais em te derrubar. Estão praticamente ignorando os guardas.

Se a atenção estivesse voltada para ele, Sudou tinha certeza de que daria conta. Confiava na própria força, na capacidade de atrair fogo e sobreviver. Mas isso era diferente. Era uma estratégia que sacrificava eficiência em troca de certeza. Se o inimigo estivesse disposto a perder dois, talvez três alunos só para garantir a eliminação de Satou, havia um limite para o que até ele poderia fazer.

— Eles podem ter descoberto quem é a VIP — murmurou. — Droga… talvez todo mundo já saiba.

— Isso é possível…? V-Você acha que o Ayanokoji-kun percebeu quando apareceu mais cedo?

— Pensei nisso — admitiu Sudou. — Alguém protegendo a VIP sem perceber… isso acontece. Mas onde você estava quando aquilo rolou?

— Ah… eu estava dentro da barraca — respondeu Satou em voz baixa. — Eu fiquei com medo, então fiquei escondida o tempo todo…

No instante em que ela disse isso, um suor frio escorreu pelas costas de Sudou. Uma possibilidade se encaixou em sua mente. Mas, certa ou errada, isso já não importava.

— Eu não acho que consigo fugir — disse Satou, a voz trêmula, mas firme. — Pelo menos… você devia correr, Sudou-kun. Vá proteger os outros VIPs—

— Se for isso que precisa pra vencer, talvez eu devesse — disse ele. Então cerrou o maxilar. — Mas eu não vou deixar eles te eliminarem tão fácil assim. Não aqui.

Ele ergueu a arma, os olhos ardendo.

— Não tem outra escolha — temos que fazer isso.

A precisão dos tiros que vinham não era grande coisa. Pelo som e pelo espaçamento dos impactos, Sudou percebeu — quem estava atirando neles não era particularmente habilidoso.

Aquela era a brecha. Se ele se movesse agora — avançando antes que eles conseguissem ajustar o foco — havia uma chance.

Uma única chance. Tudo ou nada. Ele sairia da cobertura e acabaria com eles antes que Satou fosse atingida. Com a decisão tomada, Sudou explodiu para fora da proteção, lançando-se direto para a linha de fogo inimiga.

*

 

A troca feroz de tiros que se iniciou foi impossível de ignorar. O barulho por si só se espalhou longe o bastante para que as Classes C e D entendessem a situação quase de imediato. Ao mesmo tempo, chegou a informação do Comandante: a Classe A provavelmente havia ativado uma de suas táticas, e os primeiros relatórios de eliminações já estavam chegando.

Oito da Classe B. Cinco da Classe A. Os números indicavam que a manobra da Classe A — dar a volta para atacar pela retaguarda — estava surtindo efeito. Em pouco tempo, um desequilíbrio sutil, porém inegável, começava a se formar.

— Então a Classe A deu a volta e atacou a Classe B por trás — murmurou Hashimoto.

— É… se continuarmos avançando assim, dá pra prensar a Classe B entre nós—

— Mas você sabe que não foi isso que mandaram a gente fazer — interrompeu Hashimoto. — As instruções que recebemos do Ayanokoji foram…

— Eu sei — respondeu Kanzaki imediatamente.

Com um único aceno de cabeça, Kanzaki se virou e saiu correndo para a retaguarda. Reuniu rapidamente os membros que já havia instruído antes, e o grupo começou a se mover sem demora. Só depois de vê-los desaparecer é que voltou sua atenção para a frente.

— Já faz uns cinco minutos desde que os tiros começaram, né? — murmurou Hashimoto, meio para si, meio para quem caminhava ao lado. — Para um tiroteio desse nível, os números não caíram tanto quanto eu esperava.

Caminhando ao seu lado, Takemoto concordou com um aceno.

— Isso provavelmente significa que os dois lados estão priorizando a defesa enquanto lutam — disse ele. — Ninguém está se expondo demais.

— Nesse caso… acho que chegou a nossa vez — disse Hashimoto, endireitando-se da posição agachada.

No instante em que começou a se levantar, um som seco cortou o ar. Quase ao mesmo tempo, uma bala de tinta atingiu o ombro de Matoba, ao lado de Hashimoto.

— !?

O alarme no relógio de Matoba soou estridente, declarando sua eliminação sem margem para dúvidas. Hashimoto reagiu instantaneamente, percebendo o perigo de permanecer ali, e saiu em disparada.

— Classe A! — gritou Matoba, encarando a direção de onde o tiro havia vindo. — Hashimoto — o Hirata está aqui!

— Hirata?! — gritou Hashimoto enquanto corria. — Ele não devia estar atrás da Classe B?!

A compreensão o atingiu em pleno movimento. A Classe A não havia comprometido todos os seus membros no ataque pela retaguarda. Eles dividiram suas forças — enviando apenas parte do grupo para pressionar a Classe B, enquanto deixavam um contingente para lidar especificamente com a aliança das outras classes.

— Então eles estão tentando nos derrubar com uma unidade pequena? — murmurou Hashimoto, incrédulo. — Eles enlouqueceram de vez?

No momento, a Classe A ainda tinha algo entre dezesseis e dezenove guardas restantes. Mesmo que metade tivesse sido enviada contra a Classe B, isso deixaria apenas oito ou nove para conter uma aliança de quase quarenta alunos.

Não era realista. As poucas balas de tinta que vinham em sua direção eram esparsas, quase como sondagens. E, quando respondiam ao fogo, não havia um contra-ataque avassalador.

— Que diabos está acontecendo…?

Hashimoto murmurou as palavras quase sem som. Ele havia presumido que o campo de batalha tivesse se dividido claramente em duas frentes — mas agora tudo parecia muito mais fragmentado. Talvez as forças não estivessem apenas divididas em dois blocos, mas espalhadas em unidades ainda menores, sobrepostas, colidindo de maneiras que impediam qualquer visão clara da situação.

No início, o plano fora simples. A Classe B e as classes aliadas pressionariam juntas, encurralariam a Classe A e a empurrariam para o último lugar.

Essa era a premissa por trás da movimentação deles. Mas, no momento em que a Classe A ativou sua tática e o GPS geral ficou às cegas, tudo se distorceu. Parte da Classe A escorregou para trás da Classe B, contornando-os sem ser vista. A aliança, indiferente a quem estivesse do outro lado — Classe A ou Classe B — continuou avançando, pronta para mudar o alvo se fosse necessário.

E, ainda assim, o inimigo bem à frente deles agora era inconfundivelmente a Classe A. Quando essa constatação se assentou, vozes fracas chegaram aos ouvidos de Hashimoto vindas da direção oposta — para onde Kanzaki havia ido, e não de onde Hirata o aguardava.

— Droga… eu não consigo mais entender o que está acontecendo…! Quem está lutando com quem agora…?

A frustração naquela voz refletia exatamente os pensamentos de Hashimoto. O campo de batalha havia se tornado opaco. O VIP já não estava por perto. Sem ele, não havia como compreender o estado geral da batalha. A informação — antes a arma mais poderosa — havia desaparecido. Ao perceber isso, Hashimoto se forçou a abandonar completamente a visão do todo.

Tudo bem, então. Se ele não podia enxergar o tabuleiro inteiro, só restava uma coisa a fazer.

Vencer a luta diretamente à sua frente. Agora, tudo o que podia fazer era encarar Hirata e os alunos da Classe A de frente. Mas isso era mais fácil falar do que fazer.

Hashimoto atirou sem hesitar, gastando balas de tinta livremente na tentativa de manter o oponente sob pressão. Todas as vezes, porém, Hirata mudava de posição no momento exato, escapando do campo de visão. O alvo nunca permanecia parado tempo suficiente para ser travado.

Ao mesmo tempo, o fogo de resposta vinha implacável e preciso. Cada bala de tinta passava raspando por Hashimoto — perto o bastante para ele sentir o deslocamento do ar, perto o bastante para acelerar seu pulso.

— Você é bom, Hirata… — murmurou Hashimoto, o suor frio escorrendo pelas costas. — Bem melhor do que eu imaginava. Sem hesitação. Sem misericórdia na mira.

Ele sempre soubera que Hirata era atlético. Esse não fora o erro de cálculo. O que o pegara desprevenido era outra coisa completamente diferente. A hostilidade nua e crua.

Aquilo não era a postura controlada de um aluno exemplar se defendendo. Era intenção pura — uma determinação clara de que, mesmo que terminasse em destruição mútua, Hirata garantiria que o oponente cairia junto. Essa resolução vinha embutida em cada bala de tinta disparada contra Hashimoto.

— Hah.

Ele soltou o ar lentamente, forçando a respiração a se estabilizar enquanto o coração martelava no peito. Mesmo sob fogo, buscava desesperadamente uma saída para aquele impasse. Pelo que conseguia avaliar, Hirata tinha um leve ímpeto a mais — mas, em termos de habilidade pura, estavam equilibrados.

A quantidade de munição em seu carregador já havia caído para menos da metade. E havia grandes chances de Hirata ainda ter carregadores reserva guardados. Só essa diferença já inclinava a balança.

Tentar explorar o terreno — dar a volta e atacar pelo flanco — era a opção óbvia, mas contra um oponente assim, não seria fácil. Hirata não era descuidado a ponto de deixar algo tão simples funcionar.

— Olhando por qualquer ângulo — murmurou Hashimoto, meio para si — essa é uma mão péssima.

Se fosse assim, talvez aceitar uma eliminação mútua não fosse o pior desfecho. Não — ele afastou esse pensamento. Essa conclusão ainda podia esperar. Havia uma coisa, ao menos, em que ele sabia que tinha vantagem.

Sua lábia. E ainda não era tarde para usá-la. As posições de ambos já estavam expostas; sutileza não existia mais ali. Levantar a voz não traria  risco adicional agora.

— Então é essa a cara que você faz quando está desesperado! — gritou Hashimoto em meio às árvores. — Primeira vez que vejo isso! O quê — ser descartado pelo Ayanokoji te deixou tão puto assim?

Era uma provocação deliberada — uma tentativa de abalar o controle do adversário, fazer a mão de Hirata vacilar o suficiente para criar uma abertura. Sua voz ecoou brevemente entre as árvores e então foi engolida pela floresta, deixando para trás um silêncio inquietante.

— Que tal assim? — continuou Hashimoto. — Eu falo com o Ayanokoji por você. Vejo se consigo te transferir para nossa classe. Você é capaz, popular com as garotas — talvez até consiga um lugar à mesa, sabe?

Ele se lançou por completo na guerra psicológica, convencido de que a chave da vitória estava ali. Se conseguisse provocar uma reação — qualquer reação — a vantagem viraria a seu favor.

Era nisso que ele acreditava. Mas, por mais que esperasse, a voz de Hirata não veio.

— O quê? Vai ficar em silêncio? — zombou Hashimoto. — Qual é, fala alguma co—

Ele se interrompeu. Da direção onde Hirata provavelmente estava escondido, veio o som inconfundível da grama sendo afastada.

— Tch…!

Hirata havia se movido primeiro. Mas Hashimoto não foi lento para reagir. Sua resposta veio no tempo exato. Consciente da munição cada vez mais escassa em seu carregador, ele leu instintivamente as linhas de tiro, acompanhando os movimentos de Hirata com os seus próprios.

Os disparos cortaram o ar. Troncos de árvores absorveram tinta com estalos opacos. Corpos se torciam de lado, ombros se afinando, entrando e saindo da cobertura. Avanços curtos, recuos abruptos — cada movimento imediatamente respondido pelo outro.

As miras colidiram e se anularam; nenhum dos dois conseguia acertar um golpe decisivo. As balas de tinta desenhavam arcos finos e altos pela floresta, cortando o espaço entre eles enquanto o duelo se estreitava, respiração após respiração.

— Ufa, por pouco!

Hashimoto puxou o rosto de volta para trás da árvore no exato instante em que a bala de tinta se chocou contra o tronco, explodindo numa mancha vívida de cor. O impacto veio com um estalo seco, perto o bastante para ser sentido nos ossos.

Um único acerto significaria eliminação imediata. Essa consciência levou seus nervos ao limite.

O confronto entre os dois havia se reduzido a um duelo brutal, de curtíssima distância — uma sequência ininterrupta de choques rápidos e violentos. Balas de tinta arrancavam lascas da casca das árvores, pulverizavam folhas caídas sob os pés. Hashimoto torceu o corpo num ângulo acentuado, tentando escorregar até o flanco de Hirata.

Mas Hirata já havia previsto isso. Abaixando o centro de gravidade, ele disparou um único tiro do quadril. A bala raspou o ombro de Hashimoto, deixando para trás uma marca viva de tinta.

— Tch…!

O som que escapou dele não foi de dor. Foi frustração — fria, cortante, a frustração de um erro de leitura, de um único lapso de julgamento que fez o gelo subir pela espinha.

— Não tenho tempo pra ficar preso com um cara só… — murmurou.

Ele ergueu a arma na vertical, repassando a luta na cabeça — contando os disparos. Mais de quarenta tiros já tinham sido feitos. Mesmo que ainda restassem alguns, não passariam de meia dúzia.

Recarregar agora ou esvaziar o carregador primeiro?

Hirata também não havia recarregado; provavelmente estava com uma quantidade semelhante de munição. Os dois pairavam à beira do esgotamento, cada um ameaçando sutilmente uma recarga que nenhum se comprometia a fazer. A existência de carregadores reservas tornava tudo mais complexo, apagando a linha entre ataque e defesa.

Recuar ali significava derrota. Avançar significava vitória.

Mas metade daquela luta não tinha nada a ver com pontaria. Era um diálogo de mentes — em outras palavras, guerra psicológica. Ritmo da respiração. O tremor num dedo. Até a forma como o peso se deslocava pelas solas das botas. Tudo era informação.

Hashimoto escorregou completamente para a sombra da árvore, baixou a voz e colocou seu próximo movimento em ação.

— O Ayanokoji me disse uma coisa — chamou ele. — Disse que se sentia mal pelo que fez com você.

As palavras rolaram pela floresta como cascalho solto. Por uma fração de segundo — quase imperceptível — o olhar de Hirata vacilou.

Isso foi o suficiente. Apostando nessa mínima perturbação mental, Hashimoto avançou num salto, puxando o gatilho com tudo o que tinha.

Dois disparos voaram — limpos, rápidos — mas erraram. E então, de forma cruel, o terceiro nunca veio.

Ele estava sem munição.

Hirata reagiu instantaneamente, entrando num contra-ataque fulminante. O disparo de resposta explodiu perto do ouvido de Hashimoto — bang! — a tinta se espalhando para fora, respingando na borda dos óculos de proteção.

A cor invadiu sua visão periférica. Cegueira parcial. Uma desvantagem fatal.

Hashimoto mergulhou, rolando de volta para trás da cobertura, as botas rasgando a terra ao impulsionar o corpo. Com apenas uma fração da visão restante — não mais que um terço — distância era a única resposta. Ele zigzagueou entre as árvores, recuando o suficiente para se recompor.

Hirata teve um tiro limpo nas costas de Hashimoto, expostas por um instante. Mas, naquele exato momento, sua própria arma fez um clique seco.

Sem arriscar perdê-lo, Hirata avançou na perseguição, forçando a luta a mudar novamente — terreno diferente, mesma proximidade sufocante. Eles se fecharam outra vez num impasse tenso, o ar entre ambos esticado a ponto de se romper.

Um único erro agora encerraria tudo. Jogando a cautela fora, Hashimoto empurrou os óculos para a testa, arrancou o carregador do fuzil e encaixou um novo com velocidade treinada. Esfregou com os dedos a tinta espalhada pelas lentes, desesperado para limpar a visão.

Quase não adiantou. Sem opção melhor, puxou os óculos de volta para os olhos.

— Então é isso que se sente quando se está encurralado…!

Hashimoto apertou o fuzil com força. Ainda tinha cinquenta disparos — o bastante para lutar, mas não para desperdiçar. Quando acabassem, seria o fim. Quantos tiros Hirata ainda tinha? Ele não sabia. E, claro, Hirata estava na mesma situação. Nenhum dos dois sabia o quão perto o outro estava de ficar sem munição.

Havia a possibilidade de Hirata não ter nenhum carregador reserva, de que a última troca o tivesse deixado completamente seco. Se fosse assim, encurtar a distância antes que Hirata pudesse se afastar talvez fosse a escolha certa.

Uma luta prolongada os drenaria de formas que resistência física não mede. Não seria o corpo a falhar primeiro, mas a mente. A pergunta era simples: forçar um confronto curto e decisivo — ou estender aquilo até que um deles cometesse um erro.

As respirações se sobrepunham no silêncio, ásperas e irregulares. A luz pálida da tarde filtrava-se pelas árvores, traçando linhas finas na penumbra da floresta, como se o próprio mundo prendesse a respiração junto com eles.

Qual dos dois daria o passo fatal?

Hashimoto, o peito arfando, deixou o cano do fuzil escapar um pouco além da cobertura da árvore.

O suor escorreu por sua mandíbula e pingou na terra. No limite de sua visão turva, a sombra de Hirata se moveu.

É agora. Tudo ou nada.

Hashimoto avançou com tudo, comprometendo-se por completo, devorando a distância entre eles num único impulso. Dois tiros ecoaram pela floresta ao mesmo tempo.

As balas de tinta passaram uma pela outra, rasgando o ar com um estalo violento.

…!

Um calor súbito floresceu no peito de Hashimoto.

Ele olhou para baixo. A tinta se espalhava pelo uniforme, abrindo-se lentamente numa mancha inconfundível.

O disparo de Hirata — feito quase ao mesmo tempo — havia acertado primeiro. Pela margem mais estreita possível.

O relógio apitou estridentemente. Não era nada além de um som mecânico, mas enviou um arrepio gelado direto pela espinha.

— Droga—!

A força abandonou suas pernas, e ele caiu de joelhos, o impacto arrancando o ar de seus pulmões. A respiração saiu irregular e seca, a garganta queimando como se tivesse engolido fogo.

A luta havia acabado. Ele entendia isso racionalmente — mas o coração demorou a acompanhar, ainda batendo forte, como se o combate pudesse continuar a qualquer momento.

Hashimoto ergueu o olhar para Hirata, um sorriso torto forçando caminho em seu rosto.

— Você foi assustador lá fora, Hirata. Sério mesmo.

Ele soltou o ar devagar, a tensão finalmente deixando seus ombros.

— Essa foi minha derrota.

Hashimoto elogiou Hirata com uma voz rouca, desgastada. Era uma derrota conquistada lutando com tudo o que tinha. Hirata não respondeu. Apenas abaixou a arma, lentamente, como se o peso dela só agora tivesse alcançado seus braços.

Então — o movimento parou. Seu olhar permaneceu fixo em Hashimoto, que ainda estava ajoelhado sobre um dos joelhos, incapaz de desviar os olhos. O fuzil voltou a subir.

— Ei… Hirata…?

Hashimoto prendeu a respiração ao encontrar o olhar dele. Agora dava para ver claramente — o dedo pousando sobre o gatilho.

A partida já havia terminado. Hashimoto estava eliminado. O resultado estava decidido, sem qualquer margem para discussão. Se Hirata atirasse agora, as consequências para a Classe A seriam graves.

— Isso não tem graça nenhuma, sabia?

O cano encostou em sua testa. Era à queima-roupa. Tão perto que, se o gatilho fosse puxado com força, poderia causar um ferimento sério — mesmo num jogo de paintball.

Ele podia atirar. O pensamento atravessou a mente de Hashimoto antes que ele pudesse contê-lo — um medo absurdo, impossível.

E então, no instante em que o gatilho começou a ceder. O dedo de Hirata parou.

O silêncio caiu. O vento passou pela floresta, farfalhando as folhas e carregando consigo o cheiro forte de tinta e terra úmida. O tempo pareceu se esticar até ficar fino demais. Sem dizer uma palavra, Hirata baixou a arma, virou-se e foi embora. 

Em outro ponto, a Classe A e a Classe C ainda estavam travadas em combate. Hirata tinha apoio a oferecer — não havia tempo para permanecer ali.

Deixado para trás, Hashimoto continuou ajoelhado, o eco de um tiro que nunca veio ressoando infinitamente em seus ouvidos.

— Talvez eu tenha forçado demais o aluno exemplar.

O medo permaneceu — agudo, penetrante. Quase como se ele tivesse sido atingido mais uma vez.

*

 

Sob a pressão do tempo que se esgotava, os combates espalhados pela ilha finalmente começaram a convergir para o desfecho final.

— O efeito da tática se encerrou. As posições da Classe A reapareceram no mapa — informou Shiraishi com calma. — No momento, quarenta e três alunos ainda permanecem no jogo. Quanto à divisão por classe—

Sua voz não carregava urgência alguma, apenas uma enumeração precisa dos fatos.

— Exatamente como Ayanokoji-kun previu — acrescentou após uma breve pausa —, a batalha se tornou extraordinariamente caótica.

— Isso era inevitável — respondi. — Estabelecer um comandante, coletar suprimentos, manter distância, ler os movimentos do inimigo, evitar confrontos desnecessários e lapidar a estratégia para o embate final. Até esse ponto, tudo pode ser executado sem grandes dificuldades. Mas no momento em que os disparos começam, ninguém consegue manter a compostura de verdade. Especialmente sem um VIP por perto — você não consegue nem saber onde o inimigo está, muito menos localizar com precisão sua própria posição. Vai para a esquerda ou para a direita? Avança ou recua? Enquanto hesita, tromba com outra classe, e a cadeia de eliminações começa. Os que estão lutando ali não são soldados treinados, nem veteranos de jogos de sobrevivência. São apenas estudantes do ensino médio.

A chave nunca foi força bruta. O que realmente importava era mergulhar o campo no caos — sacudi-lo violentamente, até que a ordem colapsasse e os números começassem a cair por conta própria.

Dê mais um pouco de tempo, e os números diminuiriam ainda mais. Quando esse momento chegasse, o curso de ação já estava decidido: deixar os VIPs escaparem. Evitar a aniquilação total a qualquer custo e entrar em modo de sobrevivência até o relógio zerar.

Horikita e Ryuen haviam chegado exatamente à mesma conclusão.

— Parece que Kanzaki-kun e dois VIPs da Classe D acabaram de chegar a G11 — continuou Shiraishi. — O GPS Jam global será suspenso em breve. Você acha que os perseguidores vão se mover imediatamente para atacar os três?

— Cinquenta por cento — respondi. — O campo de batalha já está muito fragmentado. Mesmo que alguém perceba, não há garantia de que um VIP consiga transmitir informações precisas aos seus guardas. De qualquer forma, no instante em que algo suspeito acontecer, usamos nossa tática e deixamos que escapem — exatamente como planejado.

— Entendido.

Com um aceno, Shiraishi ergueu o rádio e instruiu Shimazaki a preparar o desligamento individual de GPS. Os alvos não eram os VIPs da Classe C, mas os dois VIPs da Classe D que estavam em fuga.

Não existia nenhuma regra que determinasse que as táticas de uma classe só poderiam ser usadas em seus próprios membros. Desde que o uso em si não violasse os regulamentos, aplicá-las a qualquer pessoa — independentemente da classe — não representava problema algum. A única ressalva era que apenas o comandante da classe que ativasse a tática poderia ver as posições afetadas. Essa limitação exigia cautela.

O que importava agora era simples: impedir que alguém percebesse onde os VIPs da Classe D em fuga realmente estavam.

— E mais uma atualização — continuou Shiraishi. — O segundo VIP da Classe A — Yukimura-kun — acaba de ser eliminado. Isso deixa apenas Satou-san.

— Ao que tudo indica.

— Imagino que a Classe A esteja em completo choque agora — disse ela em voz baixa. — Tentando entender como os três VIPs foram identificados… e por que estão sendo caçados de forma tão implacável. Não por uma classe, mas pelas três.

No último dia, a Classe A já havia cometido um único erro decisivo. Tudo remontava à noite do terceiro dia — quando apareci no acampamento de Horikita.

Naquele momento, o GPS Jam individual ainda estava ativo. Eu cheguei — e não ataquei de imediato.

Em vez disso, observei. Estudei com cuidado as posições dos meus antigos colegas de classe antes de fazer meu movimento. Meu objetivo não era acumular eliminações. Era mais simples — e muito mais importante.

Eu queria saber quem eram os VIPs. Quando a Classe A foi atacada de forma inesperada, o raciocínio deles inevitavelmente se dividiu em dois caminhos: eliminar o invasor ou proteger os VIPs.

Ao longo de vários dias, a ideia de que perder todos os VIPs significava derrota imediata foi martelada neles até se tornar instinto. Assim, os guardas reagiram de imediato — correndo para proteger as mesmas três pessoas quase ao mesmo tempo.

Wang Mei-Yu.

Satou Maya.

Yukimura Teruhiko.

— Vocês não consideraram a possibilidade de uma encenação? — perguntou Shiraishi.

— Se tivessem previsto uma batalha, talvez tivessem armado algo do tipo — respondi. — Mas o ataque ocorreu quando todos acreditavam que o dia já havia terminado. Nessas condições, agir deliberadamente seria muito mais difícil. As chances de uma atuação planejada eram baixas.

E essa informação — eu a repassei à Classe B naquela manhã. Saber quem eram os VIPs tornava a luta imensamente mais fácil. Mesmo que a Classe B optasse por não acreditar em mim, não havia desvantagem real. Informação assim não custa nada e só pode ajudar.

É claro que enviar alguém para perto da Classe B era arriscado. Qualquer um que se aproximasse de forma descuidada seria alvejado.

De fato, o aluno que enviei foi eliminado quase imediatamente. Mas isso não importava. Mesmo após ser eliminado, desde que não estivesse no meio de um combate, ainda era possível manter comunicação limitada. A informação chegou à Classe B de qualquer forma.

Ela serviu a dois propósitos ao mesmo tempo: apertou o cerco em torno da Classe A — e funcionou como a faísca que empurrou a Classe B para uma agressão aberta.

— Então, no fim das contas — disse Shiraishi em voz baixa —, a Classe A foi habilmente superada apenas por Ayanokoji-kun.

— Mesmo sabendo que estavam sendo caçados, acho que a Classe A se moveu bem o suficiente — respondi. — Se conseguirmos dar fim ao que resta da Classe B, este exame especial termina aí.

Não importava o quão capazes fossem os lutadores restantes — alunos como Sudou ou Hirata —, uma vez que o VIP caísse, a resistência organizada ruiria.

— Com licença. Shimazaki-kun está chamando — disse Shiraishi, erguendo o rádio. Sua expressão se contraiu levemente.

Algo estava errado.

— Em várias zonas de combate, a Classe B parece estar ganhando vantagem. Como resultado, o número de eliminações do lado da nossa aliança está aumentando rapidamente. Há combates especialmente intensos em F11.

Eu esperava deixar as coisas seguirem seu curso por mais algum tempo, mas parecia mais sensato intervir — ao menos parcialmente.

— Somente se a Classe A for eliminada primeiro — disse — e, se conseguir estabelecer contato, venha me encontrar depois das três horas.

— Entendido. E você, Ayanokoji-kun — o que pretende fazer agora?

— Ajustes.

Confiando Shiraishi aos cuidados de Yamamura, virei-me e comecei a caminhar em direção a F11 em um ritmo tranquilo.


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