Ano 3 - Volume 3
Capítulo 6: O Verdadeiro Objetivo
A CLASSE B HAVIA armado suas barracas ao longo da orla da área E12, passando a noite com o mar a poucos passos de distância. Mesmo de dentro da lona, o som das ondas chegava até eles em um ritmo constante e ininterrupto.
Dentro de uma barraca individual montada um pouco afastada do grupo, Ryuen estava deitado de costas, encarando o teto baixo. Enquanto permanecia imerso em pensamentos, passos esmagaram a areia do lado de fora, e uma sombra tênue deslizou sobre o tecido da barraca.
— Já passou das nove.
Ao ouvir o relatório discreto de Katsuragi, Ryuen se levantou sem dizer nada e saiu para o ar livre. Vários alunos que aguardavam sua saída começaram a cumprimentá-lo um após o outro. Ryuen ignorou todos, seguindo direto até Katsuragi, que já havia estendido um mapa sobre uma superfície improvisada.
Ibuki e Ishizaki também estavam ali, com expressões tensas enquanto aguardavam.
— Desde ontem à noite até esta manhã, nem a Classe C nem a Classe D perderam um único aluno — começou Katsuragi, sem rodeios. — Mais importante: as duas classes estão densamente agrupadas. As forças deles estão completamente misturadas.
— Então resolveram se unir, é? — Ryuen zombou.
— Achei estranho não haver sinais de confronto quando eles se encontraram — continuou Katsuragi. — Mesmo assim… não esperava que acabasse assim.
— Para a Classe C, era o único caminho para sobreviver depois de termos praticamente dizimado eles — Ryuen analisou o mapa com frieza. — E houve relatos de uma interação estranha entre Ayanokoji e Ichinose. Pelo visto, isso vinha sendo preparado há um bom tempo.
Agora que a aliança havia realmente se concretizado, parecia ser a jogada ideal para a enfraquecida Classe C.
— E a luta com o Koenji ontem não ajudou — acrescentou Katsuragi. — Perder nove alunos é um golpe sério. A única consolação é que o Morofuji conseguiu voltar sem ser eliminado.
— Teria sido melhor se aquele desgraçado tivesse se chocado direto com as Classes C e D — resmungou Ishizaki.
— Sem chance — respondeu Katsuragi, balançando a cabeça. — As rotas se cruzaram, e o grupo do Komiya agiu de forma imprudente. A responsabilidade está aí. Se tivessem ficado na deles sem provocá-lo, havia uma boa chance de evitarem o combate por completo.
Ele falava após revisar cuidadosamente o relatório frenético que Morofuji havia apresentado ao retornar à força principal.
— Ah, mas Ryuen-san! — Ishizaki se animou. — Aquele cara, o Koenji, se aposentou há pouco tempo.
— Parece que ficou satisfeito depois de caçar uns peixinhos — Ryuen bufou. — Egoísta até o fim.
— Sofremos perdas pesadas, mas ao menos uma grande ameaça foi neutralizada — disse Katsuragi, fazendo uma pausa significativa. — O que só torna o fracasso do Komiya ainda mais frustrante.
— Mas espera — interrompeu Ibuki. — O grupo do Morofuji não tentou entrar em contato com o Kaneda antes da luta com o Koenji?
Ishizaki saiu em defesa deles.
— Tentou, sim! O rádio estava ocupado justamente porque a Classe C estava atacando para garantir suprimentos. Não acho justo colocar toda a culpa no esquadrão do Komiya. Eles só deram azar.
Katsuragi recebeu aquelas palavras em silêncio e então voltou o olhar para Ryuen antes de falar.
— Azar… você realmente acha que foi só isso?
— Não. O timing foi perfeito demais — respondeu Ryuen. — Se a Classe C realmente quisesse tomar os suprimentos de frente, poderia ter chegado mais cedo. O fato de terem se atrasado só um pouco me faz pensar que buscavam outra coisa — talvez preparar deliberadamente o terreno para que a unidade do Komiya cruzasse com o Koenji.
Força principal e unidade destacada — quando era preciso priorizar as comunicações via rádio, a escolha era óbvia. Se Ryuen estivesse falando diretamente com Kaneda, poderia ter enviado um aviso ao grupo do Komiya quase sem atraso. Mas, com o VIP servindo de intermediário, discrepâncias inevitáveis de tempo e informação surgiram.
— Você está dizendo que o Ayanokoji planejou tudo isso? — Ibuki franziu a testa. — Isso já é exagero, não acha? Não consigo engolir isso.
Katsuragi cruzou os braços, reconsiderando os acontecimentos do dia anterior.
— Concordo com a avaliação do Ryuen. Há pouca dúvida de que Ayanokoji arquitetou a sobreposição entre o grupo do Komiya e o Koenji. Ainda assim, duvido que ele esperasse um confronto de verdade. É mais razoável supor que ele buscava um dano colateral — um bônus enquanto avançava em direção aos suprimentos.
Se o grupo do Komiya tivesse mantido a calma e alterado a rota, ou simplesmente ficado escondido por um tempo, o choque talvez nunca tivesse ocorrido. Pelo que Koenji disse depois a Morofuji, a luta não era inevitável.
Ryuen e Katsuragi chegaram à mesma conclusão. Mesmo que estivessem errados, concordavam em uma coisa: Ayanokoji era o tipo de oponente capaz de orquestrar estratégias tão complexas e em múltiplas camadas.
— Ei, Ryuen-san… — Ishizaki coçou a cabeça. — Sobre a aliança entre as Classes C e D… como eles decidiram quem ficaria com a classificação mais alta? Normalmente isso seria impossível de resolver, né?
— Isso é simples. A Classe C obviamente cedeu — Ibuki zombou. — Não importa como você olhe, sozinhos eles iam direto para o último lugar. Já consigo imaginar o Ayanokoji implorando para a Classe D: "Fiquem com a glória, só nos salvem, por favor".
— Ahhh, entendi! — Ishizaki bateu o punho na palma da mão. — Faz todo sentido!
— Esse é o ponto central — disse Katsuragi em voz baixa. — A disputa por classificação — que destruiria uma aliança entre iguais — torna-se viável justamente por haver um desequilíbrio de poder. Foi um movimento extremamente problemático. Como resultado, eles agora somam quase cinquenta pessoas e, com a perda do grupo do Komiya, nos superam em mais de vinte. O jogo virou completamente.
Era uma avaliação sombria, que deixava pouco espaço para otimismo. Ainda assim, Ishizaki bateu o punho na mão mais uma vez, com os olhos brilhando como se tivesse tido uma ideia.
— Então por que não nos aliamos à Classe A? Assim teríamos sessenta pessoas!
— E ceder o primeiro lugar à Classe A no processo? — a resposta de Katsuragi foi cortante. — Seríamos nós, em desvantagem numérica, fazendo concessões.
— Hã? Bom, quer dizer… isso não seria inevitável? — Ishizaki hesitou e depois fez uma careta. — Não… é, isso é ruim. Não daria certo.
Alianças, por natureza, não surgiam facilmente — certamente não entre duas classes disputando o topo. Nem mesmo um único ponto de classe era algo que qualquer uma delas estivesse disposta a sacrificar.
Mais fundamentalmente, tal aliança quase não oferecia vantagens à Classe B. Não havia confiança alguma, nenhuma garantia de que o acordo se manteria e, mesmo que se mantivesse, não havia certeza de que conseguiriam derrotar a coalizão C-D. Em vez de assumir tantos riscos por ganhos incertos, seria mais sensato para a Classe B atacar diretamente a Classe A e garantir ao menos o terceiro lugar.
— Se isso tivesse acontecido logo no início — continuou Katsuragi —, teríamos opções. Mas uma aliança formada no terceiro dia é muito mais problemática do que prevíamos.
Até mesmo o caminho direto de derrubar a Classe A havia sido comprometido. A perda da unidade do Komiya criara uma disparidade numérica que só pioraria quando a área utilizável começasse a encolher. Quando isso acontecesse, a desvantagem seria impossível de ignorar.
— Então o que fazemos, Ryuen? — perguntou Katsuragi. — O que decidirmos hoje pode determinar o resultado de todo este exame.
O peso da liderança pairou no ar. Katsuragi, Ibuki e Ishizaki voltaram seus olhares para Ryuen.
Sem que ninguém percebesse quando isso ocorreu, a iniciativa começara a escapar de suas mãos — indo parar com adversários que antes estavam em desvantagem. A possibilidade de a aliança das classes inferiores atacar primeiro a Classe A ou a B já não podia ser descartada.
Ryuen soltou uma risada baixa.
— Agora isso está ficando interessante.
Ao menos uma coisa era certa: não havia muito tempo sobrando. Mesmo assim, ele ainda não conseguia chegar a uma conclusão.
Mandando os companheiros aguardarem, Ryuen deu as costas aos três e começou a caminhar em direção à praia.
*
Depois disso, Ryuen permaneceu sozinho à beira da água, com o olhar fixo no mar ondulante. As ondas avançavam até seus pés e recuavam enquanto ele repassava a situação em sua mente. Ele enfiou a mão no bolso e abriu um mapa.
Dada a posição em que a Classe B se encontrava agora, qual curso de ação realmente os levaria à vitória?
A resposta mais racional e direta era óbvia. Antes que a aliança das classes inferiores avançasse sobre seu território, eles poderiam lançar um ataque total contra a Classe A e esmagá-la de forma decisiva. Se fossem fazer isso, talvez o melhor momento fosse agora — ainda no terceiro dia, antes que o tabuleiro mudasse ainda mais.
No entanto, havia outra opção. Com a força que restava, poderiam apostar tudo em um ataque cirúrgico — mirando exclusivamente nos VIPs do Ayanokoji.
— Não gosto disso — murmurou Ryuen.
Escolher esse caminho significava permitir que uma aliança improvisada de classes inferiores ditasse suas decisões. Significava que o lado que havia tomado a iniciativa com uma emboscada bem-sucedida agora o forçava a reagir.
Uma onda de irritação tomou conta dele. Não havia como deixar Ayanokoji ter tudo exatamente como planejara. Se fosse assim, talvez existisse uma terceira opção — muito mais agressiva. Voltar toda a força contra a própria aliança das classes inferiores.
Eles provavelmente presumiam que a Classe B não ousaria desafiar uma coalizão que já somava cinquenta membros.
— Hah. Como se ele fosse tão ingênuo assim.
Seja um ataque à Classe A ou à aliança, ambas as possibilidades já estariam previstas. Não importava a escolha: Ayanokoji já teria simulado cada movimento de Ryuen em sua cabeça.
— Então o que eu quero…? — murmurou Ryuen. — Não. O que é que eu desejo?
Além do objetivo óbvio de levar a Classe B à vitória, havia algo mais que ele almejava com a mesma intensidade.
Derrotar Ayanokoji.
Que escolha lhe traria a satisfação que buscava? Que caminho lhe permitiria reivindicar essa vitória? Ele se virou, afastando-se do mar — e, nesse instante, seu olhar captou uma figura solitária caminhando pela orla. Sozinha, ela sorria suavemente enquanto as ondas gentis tocavam seus pés.
Enrolando o mapa com cuidado, Ryuen o guardou no bolso traseiro do uniforme de ginástica e começou a caminhar em direção a ela.
— Aproveitando a manhã sozinha por aqui, Shiina?
— Oh, bom dia, Ryuen-kun.
Shiina respondeu com uma saudação breve, virando-se para ele com um sorriso leve e alegre.
— O mar está tão bonito — disse ela suavemente. — Achei que valia a pena dar uma pequena caminhada.

Após responder, Shiina percebeu a severidade na expressão de Ryuen e pareceu intuir o que se escondia por trás dela.
— Ouvi dizer que há uma grande chance de a Classe C e a Classe D terem se unido. O que você pretende fazer?
Shiina caminhava lentamente pela praia vazia, e Ryuen acompanhou seu ritmo ao lado dela.
— Não há nada para planejar — disse Ryuen, de forma seca. — Vou vencer este exame especial com a minha própria força. Nada além disso.
As palavras foram ditas com firmeza, como se ele quisesse garantir que nenhum traço de hesitação escapasse.
— Sim — respondeu Shiina suavemente. — Nós acreditamos nessas suas palavras, Ryuen-kun. Viemos seguindo você até aqui e continuaremos fazendo isso.
Ao ver o sorriso gentil dela, Ryuen correspondeu — ainda que de forma quase imperceptível.
— Tire mais trinta minutos — disse ele. — Faça o que quiser.
Ele deu as costas e começou a caminhar em direção às barracas. No entanto, antes que desse mais do que alguns passos, Shiina o chamou.
— Ryuen-kun… quando você lê um romance que começa de forma sombria e sem esperança, que tipo de final imagina?
Era uma pergunta estranha. Se viesse de qualquer outra pessoa, ele teria zombado e ignorado. Em vez disso, Ryuen parou. Ele refletiu seriamente e, quase de imediato, uma resposta tomou forma em sua mente.
— Não gosto de histórias que começam de maneira deprimente — disse. — Mas a maioria das narrativas é escrita assim por conveniência, não é? Quando esse é o caso, geralmente as coisas acabam melhor no final.
— É verdade — concordou Shiina. — Os leitores costumam sentir as emoções mais intensas quando a história transita da escuridão para a luz. Um começo triste muitas vezes se torna a base para temas como redenção, expiação ou cura. Por outro lado, histórias que começam de forma luminosa costumam terminar em tragédia.
Ela fez uma pausa e continuou em voz baixa:
— Ainda assim, o mundo é vasto. Existem muitas obras-primas que permanecem trágicas do início ao fim.
— Onde você quer chegar com isso? — perguntou Ryuen.
— Que, independentemente do que aconteça, é melhor estar preparado mentalmente — respondeu ela. — Não apenas para este exame especial, mas também para o que vier depois.
Uma prova que você acha que vai perder pode, de repente, revelar um caminho para a vitória. Uma prova que você acredita que vai vencer pode esconder a derrota. E, às vezes, a realidade se recusa a seguir qualquer um desses padrões.
— Então, no fim das contas — disse Ryuen —, você está dizendo que o futuro é imprevisível.
Ela soltou uma pequena risada.
— Talvez.
— Não importa — respondeu ele. — Eu vou forçar o caminho. Se for isso que for preciso para derrotar o Ayanokoji.
— Acho que está tudo bem assim — disse Shiina.
Ryuen estudou o rosto dela e então a fitou com um olhar afiado e inquisidor, como se estivesse testando o peso de sua determinação.
— Mesmo que isso signifique exigir algo cruel de você algum dia? — perguntou. — Não importa o quão desumana seja a escolha?
Ele sabia que era uma pergunta maliciosa. Uma que não deveria ter feito. Ainda assim, Shiina sustentou o olhar dele sem vacilar.
— Se isso realmente servir aos interesses de todos — disse calmamente. — E da Classe B, que é tão importante para mim.
Ela sorriu enquanto falava.
— Então não hesitarei. Não importa quem fique no caminho. Não importa como termine.
— Bom.
Após manter o olhar por mais alguns instantes, Ryuen se virou e seguiu de volta para as barracas, onde Katsuragi e os outros o aguardavam.
*
Dia Um. Dia Dois.
Cada classe fizera tudo o que podia para evitar confrontos diretos, concentrando-se em garantir suprimentos. Observavam-se mutuamente. Testavam os limites. Corriam de ponto em ponto, reunindo o que conseguiam.
Os únicos momentos verdadeiramente explosivos — repetidamente mencionados — haviam sido o ataque surpresa da Classe B e a breve troca de tiros no segundo dia, quando tentamos tomar suprimentos. Apenas alguns minutos frenéticos. Ainda assim, mesmo com a ilha aparentemente calma, as zonas proibidas continuavam se expandindo de forma constante.
Por enquanto, apenas o perímetro externo de dois quadrantes havia sido selado. Isso significava que cada classe precisava apenas recuar da costa e se deslocar ligeiramente para o interior — um ajuste administrável, que ainda permitia bastante espaço para evitar confrontos em larga escala.
A partir do terceiro dia, porém, esse luxo desapareceria.
Em nossa base no setor K13, os representantes da aliança entre as Classes C e D haviam se reunido para uma reunião estratégica, cercados por vários alunos de ambas as classes.
— Onde diabos você esteve a manhã inteira? — gritou Hashimoto ao me ver chegar. — Eu até passei na sua barraca para te procurar.
— Foi mal. Tive um pequeno assunto para resolver — ergui a mão direita em um gesto casual de desculpa.
Os olhos de Hashimoto se estreitaram ao se fixarem na minha mão.
— Sua mão não está suja?
— Nada sério. Não se preocupe com isso — afastei a preocupação dele com um gesto. — Mais importante: me atualize.
— Hm? Ah, certo — disse ele. — Kanzaki, por favor, continue.
Kanzaki assentiu, com uma expressão grave.
— Estávamos discutindo o quão crítica a nossa situação se tornou. Já consumimos a maior parte dos nossos suprimentos e, nesse ritmo, estaremos completamente sem nada até o meio-dia. Além disso, Sumida e Minamikata não estão se sentindo bem desde esta manhã. Eles insistem que estão bem, mas duvido que aguentem até o fim do exame.
Considerei cuidadosamente o relatório sobre os alunos da Classe D.
— Se eles fossem VIPs, isso seria um problema. Mas, como são guardas, talvez seja mais prudente que se retirem agora. Acima de tudo, diga a eles para não se forçarem. Insistir enquanto fingem estar bem só causará danos maiores mais adiante.
— É — disse Kanzaki em voz baixa. — Ouvir isso provavelmente vai tranquilizá-los.
Ele se virou para um de seus colegas.
— Moriyama, desculpa pedir isso, mas você pode transmitir a mensagem do Ayanokoji para eles?
— Entendido.
Moriyama assentiu e saiu correndo em direção às barracas que estavam sendo desmontadas.
— Mas é óbvio que estamos ficando sem suprimentos — murmurou Hashimoto, abatido, pressionando levemente o estômago. — Aqui só tem gente faminta também.
— Concordo — disse Kanzaki, em tom igualmente sombrio. — E já estamos no terceiro dia. Não podemos continuar mantendo distância enquanto vasculhamos por recursos por muito mais tempo. Isso significa que… as disputas por suprimentos estão prestes a começar de verdade.
Ele se virou para mim, expectante.
— Qual é a sua avaliação da nossa estratégia daqui para frente?
Assenti lentamente, organizando meus pensamentos.
— Existem duas formas fundamentais de definir um curso de ação — comecei. — Uma é decidir o que queremos alcançar e traçar o caminho até lá. A outra é identificar o que o inimigo está tentando fazer — e impedir isso.
Abri o mapa entre nós, ajustando-o para que tanto Hashimoto quanto Kanzaki pudessem ver claramente.
— No primeiro dia, a Classe B — ou, mais especificamente, Ryuen — lançou aquele ataque surpresa contra a Classe C. O que vocês acham que motivou essa decisão?
Hashimoto deu de ombros.
— Não é óbvio? Ele achou que um ataque furtivo causaria um dano enorme ao inimigo. Assumiu um risco calculado e deu certo.
— Mas e se o sorteio tivesse sido diferente? — perguntei. — Se a classe ao lado dele fosse a Classe A, você acha que ele teria atacado da mesma forma?
Kanzaki soltou um murmúrio baixo, refletindo por um momento antes de responder.
— Se pensar bem, a Classe A teria sido o alvo ideal, não? Seguindo essa lógica, atacar eles primeiro faria ainda mais sentido.
— Eu vejo de outra forma — disse. — Se Ryuen não tivesse conseguido emboscar a Classe C, acho que ele não teria usado sua carta na manga logo no início. A questão não é por que ele atacou, mas por que precisou ser a Classe C. A resposta é simples — porque, para Ryuen, eu represento um dos obstáculos mais problemáticos entre ele e a vitória.
Hashimoto soltou uma risada curta e seca.
— Para o Ryuen, você já virou praticamente o arqui-inimigo dele. Faz sentido querer te eliminar com um golpe sujo enquanto tinha a chance.
— Entendo o que você quer dizer — respondeu Kanzaki, ainda pouco convencido. — Mas mesmo assim, não compro a ideia de que ele não teria atacado se fosse a Classe A. Ideal ou não, jogá-los para o último lugar teria aproximado bastante a Classe B do topo.
A lógica dele era direta. Se a Classe A caísse, o caminho da Classe B se abriria drasticamente.
— No início do exame — disse eu —, a Classe A ainda tinha uma variável imprevisível. Uma que você conhece muito bem: Koenji. Não havia como saber, naquele momento, se ele pretendia participar seriamente ou não. E, na verdade…
Olhei para Kanzaki.
— Isso também te deixava inquieto, não deixava?
— Sim, é verdade — admitiu ele em voz baixa.
— Mesmo que Koenji não tivesse intenção de participar seriamente — continuei —, ele ainda se movia junto da Classe A nas primeiras horas. Lançar um ataque surpresa nessas circunstâncias poderia acordar um leão adormecido e criar complicações desnecessárias.
— Ah, entendi… — a compreensão surgiu no olhar de Kanzaki. — Se Koenji se sentisse ofendido pela emboscada e decidisse cooperar com a própria classe em retaliação, a situação inteira poderia ter saído completamente do controle.
O olhar de Kanzaki se desviou para baixo, provavelmente lembrando dos relatórios que haviam chegado por meio de Ichinose.
— E, na prática — acrescentou —, os alunos da Classe B que cruzaram com o Koenji acabaram sendo eliminados… Entendo. Isso explica muita coisa.
De fato. Ninguém poderia negar isso. Mesmo sozinho, Koenji possuía potencial latente suficiente para fazer todos hesitarem — para acreditar que um único indivíduo poderia desequilibrar todo um campo de batalha.
— No fim das contas — continuei —, depois de pesar as opções, Ryuen executou o ataque surpresa e garantiu uma vantagem significativa sobre a Classe C. No entanto, em comparação com a Classe A, ele perdeu quatorze Guardas e, além disso, queimou sua carta mais valiosa — o bloqueio total de GPS.
Tracei lentamente uma linha pelo mapa.
— Agora que as áreas proibidas estão se expandindo, o valor dessa tática só aumenta com o tempo.
— Exato — concordou Hashimoto. — Se o GPS do inimigo trava no momento em que a luta começa, mesmo que seja só por trinta minutos, você perde toda a informação sobre posição e movimentação. Fica completamente paralisado, sem conseguir reagir direito.
Ryuen havia demonstrado na prática, com seu próprio ataque surpresa, o quão devastadores podiam ser até mesmo breves momentos de vantagem.
— Então, qual é a sua leitura? — insistiu Hashimoto. — Ryuen vai partir para o ataque ou vai se fechar na defesa?
— Ele vai esperar — respondi com convicção. — Não vai se precipitar em outro ataque. Em vez disso, vai ganhar tempo até o último instante possível — quando as zonas proibidas tiverem se expandido a ponto de não haver mais fuga, e as quatro classes forem forçadas a se aproximar, queiram ou não.
Essa era a aproximação mais próxima de uma estratégia ideal. A verdadeira questão era se Ryuen conseguiria, de fato, escolhê-la. Se deixasse a impaciência levá-lo a atacar a Classe A ou a aliança cedo demais, a Classe B poderia desaparecer do tabuleiro muito antes do que ele imaginava.
— Então… deveríamos adotar a abordagem oposta e partir para o ataque? — perguntou Kanzaki.
— Não — respondi. — Neste momento, evitar o confronto é a nossa melhor opção. Assim como no Dia Um e no Dia Dois — priorizamos a defesa.
O tempo estava do nosso lado. O fim do exame era fixo; chegaria independentemente de alguém correr em sua direção ou não.
E quando a área jogável encolhesse até o limite, quando não restasse espaço algum para cautela ou recuo, uma troca indiscriminada de tiros inevitavelmente explodiria dentro daquele espaço confinado.
Aquele momento.
Aquele caos.
Era exatamente o cenário que estávamos esperando.
*
11:00 da manhã
O anúncio veio com precisão mecânica. Novos suprimentos haviam surgido por toda a ilha e, ao mesmo tempo, a expansão das zonas restritas foi divulgada. Uma hora depois, a área utilizável seria reduzida a um quadrado que ia de D4 a L12 — uma grade de 9×9, totalizando oitenta e um quadrantes.
Os suprimentos estavam espalhados por onze pontos: D4, D8, D10, E6, F6, G7, H10, I12, J5, K10 e L10.
Alguns eram claramente inalcançáveis. Outros pareciam possíveis apenas por um triz. E, como se estivessem zombando dos estudantes, as caixas mais difíceis — aquelas posicionadas no limite do viável — apresentavam uma probabilidade visivelmente maior de conter comida.
— Eles estão jogando sujo agora… — murmurou Hashimoto com um sorriso torto. — J5 e K10? Isso é puro sadismo. São completamente impossíveis.
Ele acenou com as duas mãos em sinal de rejeição, como se estivesse empurrando a ideia para longe. A partir da nossa posição atual, era óbvio. Para o evento das onze horas, a escolha sensata era abandonar a ganância e focar apenas em avançar para dentro — em direção ao centro.
— Perder esses suprimentos de comida dói — reconheceu Kanzaki antes mesmo que eu chegasse à mesma conclusão —, mas não temos alternativa.
— Concordo — respondi. — Forçar demais agora só aumenta o risco de exaustão ou ferimentos. A maior força dessa aliança é o número de pessoas. Não podemos desperdiçar isso escolhendo rotas ruins.
Estávamos em falta de quase tudo — mas este era justamente o momento de aguentar.
— Ainda assim — acrescentei após uma breve pausa —, quero enviar um pequeno grupo à frente para tentar alcançar H10. Se não tentarmos nada, o déficit vai acabar nos alcançando.
Caminhar não seria suficiente — a margem era curta demais. Mas, se mantivessem uma corrida leve e constante desde o início, talvez — só talvez — conseguissem chegar a tempo.
Hashimoto estalou o pescoço, como se estivesse esperando exatamente por isso.
— Então chegou minha vez. Vou correr até lá e ver se consigo pegar os suprimentos. O Takemoto também deve estar pronto para se mover.
— Vamos designar alguns Guardas do nosso lado para acompanhá-los — interveio Kanzaki. — Não podemos facilitar demais a identificação do VIP. Além disso, sempre existe a possibilidade de a Classe B usar a tática individual de bloqueio de GPS para uma emboscada.
Kanzaki fez um gesto para vários alunos e rapidamente explicou o plano. Em poucos instantes, o grupo estava formado e partindo, enquanto os colegas observavam suas silhuetas desaparecerem entre as árvores.
— O resto de nós vai avançar em um ritmo sustentável — disse eu.
Precisávamos de flexibilidade — a capacidade de nos adaptar independentemente de quando ou como a próxima expansão das zonas proibidas ocorresse. As duas classes começaram a avançar em conjunto em direção ao corredor H10–H12, movendo-se como uma unidade coordenada.
Nos momentos seguintes, voltamos ao ritmo já familiar dos dois dias anteriores: checagens dos VIPs a cada cinco minutos, vigilância constante dos movimentos inimigos e atenção redobrada às linhas de conflito em mudança. A possibilidade de a Classe B mirar H10 ainda existia, mas a distância jogava contra eles. Como esperado, o grupo de Ryuen concentrou seus esforços nos setores ocidentais, onde a obtenção de suprimentos era praticamente garantida.
— Sua previsão parece estar correta até agora — observou Kanzaki. — Ryuen não demonstra nenhuma intenção de atacar em nenhuma das frentes.
— Verdade. Mas isso não significa que a agressividade seja, por si só, a escolha errada.
— Espera, como assim?
— Tudo depende do que ele decide priorizar. A ordem dos alvos muda com base nisso. Se o objetivo principal for diminuir a diferença para o topo, então atacar a Classe A agora e eliminar seus três VIPs seria a jogada ideal. Ou ele poderia se mover cedo para tomar G8, forçando a Classe A a desviar por terrenos difíceis ou pelas colinas. Essa abordagem também tem mérito.
— Quer dizer… se eles esmagarem a classe da Horikita, perder para nós uma vez não faria tanta diferença no panorama geral, certo?
Uma pergunta interessante. A inércia de Ryuen — seria porque derrotar a aliança era mais importante para ele do que vencer a Classe A? Ou porque, em seus próprios cálculos, aquele era o caminho com maior probabilidade de levá-lo à vitória?
Talvez fosse uma declaração deliberada de intenção: evitar o combate ao máximo, guardando cada grama de energia para o confronto final inevitável.
A questão permaneceu no ar, sem resposta.
Não muito depois, uma mensagem chegou do comandante aos nossos VIPs — confirmação de que os suprimentos haviam sido obtidos com sucesso.
*
Como planejado, garantimos a Área H12 e nos estabelecemos ali para aguardar.
O evento da uma hora veio e passou sem nenhuma expansão das zonas restritas. Ainda assim, nem a Classe A nem a Classe B fizeram qualquer movimento decisivo, e a situação permaneceu suspensa em um equilíbrio tenso enquanto nos aproximávamos da atualização das três horas. Foi então que Shiraishi recebeu uma mensagem do comandante — o anúncio de novas áreas designadas como proibidas.
Hashimoto e Kanzaki trocaram um olhar no instante em que ouviram a notícia e, quase ao mesmo tempo, voltaram seus olhos para mim.
— Então essa é a primeira vez que o padrão muda — murmurou um deles.
Até então, as zonas restritas haviam avançado de forma previsível — um anel completo das áreas externas por vez, apertando gradualmente para dentro.
Essa regra finalmente havia sido quebrada.
Desta vez, a quarta e a quinta fileiras, juntamente com todas as colunas K e L, foram eliminadas de uma só vez. Em termos práticos, isso significava que a nova zona segura havia se deslocado drasticamente — deixando de ser centralizada e passando a se inclinar para o Sudoeste.
A Classe A, que estava posicionada em F5, não teria outra escolha senão avançar rapidamente em direção a G8.
A Classe B, por outro lado, provavelmente manteria sua posição por enquanto. Avançar às pressas rumo ao centro trazia o risco de ser pega em um cerco em pinça — um resultado que eles não podiam se dar ao luxo de enfrentar.
Se Ryuen acabaria se arrependendo de sua cautela — desejando ter agido antes — ou se estava calmamente executando um plano completamente diferente, isso provavelmente decidiria o destino da Classe B a partir daquele momento.
— Ainda estamos dentro da zona segura — refletiu Hashimoto, examinando o mapa com o cenho franzido. — Mas chegar perto demais do centro parece arriscado. Se tudo seguir como ontem, provavelmente também não haverá redução às cinco horas. Talvez ficar onde estamos seja a melhor opção?
— Entendo o que você quer dizer — respondeu Kanzaki —, mas esperar bem na beira de uma zona restrita também tem seus perigos. Se a próxima atualização colocar inimigos à nossa frente, podemos perder completamente nossas rotas de fuga.
— Tudo bem, mas vamos mesmo avançar uma área inteira? — retrucou Hashimoto. — No máximo, isso nos dá dez minutos de diferença. Isso mal faz diferença alguma.
— Existe uma posição melhor que podemos assumir agora — disse Kanzaki, tocando o mapa. — Se nos movermos para H10, teremos muito mais flexibilidade — norte, sul, leste, oeste. Não ficaremos encurralados.
Ele apontou para um ponto ligeiramente ao sul do centro da área restante. Hashimoto franziu a testa, pouco convencido.
— Certo, mas isso não nos tornaria um alvo mais fácil também? Estaríamos no ponto mais acessível de todo o mapa. — Ele se virou para mim. — O que você acha, Ayanokoji?
— Não posso afirmar com absoluta certeza — respondi —, mas considerando que as zonas restritas se expandiram a partir do nordeste desta vez, as chances de as áreas montanhosas permanecerem abertas são extremamente baixas. Avançar um pouco agora provavelmente é a opção mais segura. H10 não é uma má escolha.
Inclinar-se demais para o norte ou para o oeste apenas aumentaria a probabilidade de atrair outras classes até nós.
Com isso decidido, ajustamos nosso objetivo ligeiramente mais ao norte. Por sorte, suprimentos haviam surgido tanto em H10 — nosso destino pretendido — quanto em J12, então decidimos limitar nossos esforços de coleta apenas a esses dois locais.
— Formem uma equipe de recolhimento — instruí. — Enviem um pequeno grupo para J12. O restante vai se deslocar para H10. Essa provavelmente será nossa posição final do dia.
À medida que o terceiro dia entrava em sua segunda metade, optamos mais uma vez por aguardar — observando atentamente quais seriam os próximos movimentos das Classes A e B.
*
Mesmo quando o relógio passou das três e meia, depois das quatro horas, a Classe B permaneceu imóvel. Eles continuavam ancorados na Área E12 desde a manhã, com uma presença teimosamente estática. Não houve grandes manobras — apenas o envio ocasional de pequenas equipes, assim como as nossas, para coletar os suprimentos disponíveis. Enquanto isso, a Classe A, empurrada para o sul pela expansão das zonas restritas, recuava de forma constante e agora estava prestes a entrar em G7.
Se o ritmo continuasse assim, aquela área provavelmente se tornaria o ponto final deles naquele dia — ou, no máximo, avançariam mais um passo até G8. De qualquer forma, esse trecho marcaria o limite de seu avanço. A distância entre nós havia diminuído a ponto de que, em apenas algumas dezenas de minutos, qualquer um dos lados poderia alcançar a base do outro.
Mas eu não tinha intenção de deixar as coisas simplesmente se arrastarem até o dia seguinte.
— Vamos precisar fazer um pequeno ajuste — eu disse.
— Um ajuste? — repetiu Hashimoto, franzindo a testa. — O que você quer dizer com isso?
A situação não havia se desenrolado exatamente como prevíamos — mas isso não significava que estivesse fora de controle. Se o equilíbrio havia mudado, tudo o que precisávamos fazer era corrigi-lo por conta própria.
— Kanzaki! Aqui, rápido!
Tínhamos acabado de chegar a H10 e começávamos a nos acomodar quando o grito de Watanabe cortou o acampamento. Ele acenava freneticamente, com uma expressão tensa no rosto. A urgência em sua voz deixava claro, de imediato, que algo estava errado. Kanzaki e eu nos dirigimos até ele sem hesitar. Sob a sombra das árvores, Ninomiya estava caída no chão, sua respiração fraca e irregular.
Amikura estava ajoelhada ao lado dela, com uma mão pressionada suavemente contra sua testa. Ela ergueu o olhar para nós, com a preocupação estampada no rosto.
— Ela não está bem desde esta manhã — relatou Amikura, com a voz tensa. — Mas agora está com febre. Eu acho… acho que ela chegou ao limite.
Os olhos de Ninomiya se abriram brevemente, mas ela não tinha sequer forças para nos tranquilizar. A cada poucos instantes, uma crise de tosse sacudia seu corpo, seu rosto se contorcendo de desconforto.
— Ela precisa se retirar imediatamente — disse, sem hesitação. — Peçam para a escola enviar alguém para buscá-la.
Kanzaki concordou com um aceno, e Watanabe correu imediatamente em direção ao VIP.
— Notei que alguns outros também estavam tossindo esta manhã — acrescentou Kanzaki em voz baixa. — É possível que tenhamos mais desistências até hoje à noite ou amanhã.
Aquilo não era apenas cansaço isolado. Havia uma chance real de algum tipo de resfriado estar se espalhando. Mesmo ao ar livre, os alunos vinham operando em proximidade constante por três dias seguidos.
Reforcei que, como regra geral, não deveríamos forçar ninguém a se esforçar além do limite. A decisão de dividir os suprimentos alimentares limitados com a Classe C — que vinha enfrentando dificuldades para garantir seus próprios recursos — provavelmente havia contribuído para o problema. A falta de nutrição adequada podia facilmente desregular o sistema nervoso autônomo, enfraquecendo a imunidade e tornando doenças mais prováveis.
— Desculpem interromper tudo isso — disse Hashimoto, olhando para o céu —, mas já está quase na hora do último evento de hoje.
Deixando Kanzaki encarregado da situação, voltei com Hashimoto para onde Shiraishi e Sanada aguardavam.
Pontualmente às cinco horas, o tablet do analista foi atualizado. No instante em que o novo mapa apareceu, Hashimoto soltou um assobio baixo. Mais uma vez, as zonas restritas haviam se expandido. A área habitável fora reduzida a uma grade de 6x6, estendendo-se de D7 até I12.
— Isso significa menos suprimentos também… oito locais desta vez — murmurou Hashimoto. — Parece que vamos dormir ainda mais famintos do que ontem. Os mais próximos que conseguimos alcançar realisticamente são G9 e H12—
— Eu fico com G9 — interrompi. — Takemoto… vou precisar de mais umas seis pessoas.
Avistando Moriyama por perto, chamei-o e pedi que reunisse membros adicionais. Com isso, colocamos o plano em andamento e nos preparamos para sair em busca dos suprimentos.
— Você vai também, Ayanokoji? — perguntou Hashimoto, me observando com atenção. — Você poderia poupar suas forças para o último dia, sabia?
— Há algo que preciso fazer. Explico os detalhes ao Takemoto no caminho. Depois, peça para o Shimazaki repassar as informações a você.
— A-Ah, entendi. Tome cuidado.
Dei à equipe três minutos para se preparar enquanto reunia meu próprio equipamento: uma arma, cantil, rações portáteis e uma barraca individual. Com Takemoto, Moriyama e os outros comigo, apressamo-nos rumo ao norte, em direção a G9.
Encontramos a caixa de suprimentos imediatamente. Dentro, havia sete refeições individuais. Para uma aliança de quase cinquenta pessoas, aquilo era como uma gota no oceano — ainda assim, extremamente bem-vinda.
Olhei para o relógio. Eram quase 17h25. Pedi que Takemoto verificasse a situação das Classes A e B. A Classe A já havia concluído a coleta de suprimentos e estava prestes a entrar na área G8. A situação da Classe B permanecia inalterada desde a manhã.
— Está ficando tarde — murmurou Moriyama. — E estamos perto demais para o meu gosto. Vamos voltar rápido.
Takemoto e eu concordamos, e nós três começamos imediatamente a retornar em direção a H10. Após cerca de dez minutos de caminhada, chamei Takemoto.
— A Classe A está se movendo exatamente como o esperado — disse em voz baixa. — Entre em contato com o comandante agora. No momento em que ocorrer a próxima atualização de GPS, peça para ele desativar o meu sinal pessoal.
Os olhos de Takemoto se arregalaram.
— Aquilo que você mencionou antes… você vai mesmo levar isso adiante?
— Não vou voltar para a base hoje à noite. Você se lembra do plano de contingência, não é?
— Sim. — A expressão dele estava tensa, mas ele assentiu. — Eu e o Shimazaki revisamos tudo: o que fazer se você for eliminado e o que fazer se não for. Não se preocupe conosco.
Vendo isso, Moriyama interveio e passou um braço de forma descontraída pelos ombros de Takemoto.
— Deixa o caminho de volta comigo — disse ele, com um sorriso tranquilo. — Vou garantir que todo mundo volte em segurança.
Ele ergueu o polegar com confiança. Retribuí o gesto.
Pois bem. Não restava muito tempo antes das seis horas. A partir dali, eu precisaria me mover rápido.
*
As sombras do entardecer se estendiam pela floresta quando Horikita e sua equipe concluíram a coleta de suprimentos, chegando ao setor G8 às 17h25. Eles haviam atrasado deliberadamente a chegada. Sempre cautelosos quanto a uma emboscada, mantiveram aberta até o último momento a opção de descer para o sul pela rota E6–E8. Cinco minutos antes, haviam recebido a confirmação de que a Classe B e a aliança C–D estavam mantendo distância de G8.
— E aqueles oito sinais de GPS em G9? — perguntou Horikita, com a voz carregada do peso da repetição constante, confirmando por meio do VIP Wang com Matsushita.
— Todos os oito foram vistos retornando para H10 às 17h25.
— Que droga… — disse Sudou. — Então o grupo do Ryuen não fez nada, mesmo enfrentando um número pequeno de pessoas?
Eles esperavam que, se um lado se movesse, o outro reagisse para impedir. Ainda assim, nenhum confronto ocorreu. Como resultado, os oito alunos da aliança C–D conseguiram garantir seus suprimentos sem resistência.
— Não havia o que fazer — disse Horikita, em tom contido. — Ninguém poderia prever que o Koenji-kun derrotaria nove pessoas.
— É, pois é… — Sudou fez uma careta. — Uma coisa é certa: ele não estava lutando por nós. O desgraçado ainda passou pela praia depois e se retirou. Isso aqui não é brincadeira.
Horikita assentiu uma vez, concordando. Koenji havia se envolvido em um confronto com dez alunos da Classe B durante a coleta de suprimentos e eliminara nove deles. Todos os nove eram guardas; o VIP não estava entre eles. Ainda assim, uma coleta precisa exigia coordenação perfeita entre analista, VIP e comandante. No instante em que soube do confronto, Horikita autorizou o uso da tática de identificação, confirmando a única sobrevivente como Morofuji Rika — e, mais importante, confirmando seu papel como VIP.
— Agora vamos focar em nós mesmos, não nas outras classes — disse Horikita, varrendo a área com o olhar. — Duvido que ataquem com apenas oito pessoas por perto, mas avisem a todos para permanecerem alertas.
Com apenas dez a quinze minutos de distância em linha reta entre eles, um ataque usando desativação individual de GPS ainda não estava completamente fora de questão. Por isso, Horikita instruiu Matsushita a manter vigilância constante.
A tensão só começou a se dissipar quinze minutos depois. Após três atualizações consecutivas do GPS, o grupo da Classe C que permanecia ao norte de G9 concluiu sua coleta e começou a se mover para sudeste. Passaram rapidamente por G10 e então se aproximaram da fronteira de H10, a poucos instantes de se reunirem novamente com o grupo aliado que aguardava ali.
Ao confirmar o quase completo reagrupamento, Horikita finalmente se permitiu respirar aliviada.
Restavam vinte minutos. Nem a Classe B nem a aliança C–D poderiam alcançá-los naquele tempo.
— Bom trabalho, pessoal — disse Horikita, com alívio na voz. — Vamos poder descansar aqui esta noite.
Com essas palavras, a tensão acumulada durante toda a tarde finalmente se desfez. Um a um, seus colegas baixaram as armas e começaram a retirar as barracas das mochilas. A floresta era densa demais para montar tudo em um único local, então cada aluno se espalhou, escolhendo o pouco espaço disponível e trabalhando por conta própria.
Foi exatamente nesse momento—
— Uwah!
Um grito agudo ecoou. Era Hondou, um dos rapazes.
O coração de Horikita disparou, mas a causa ficou clara quase de imediato. Um galho baixo havia perfurado a lateral da barraca dele, abrindo um pequeno rasgo no tecido.
— Droga… não tem espaço nenhum para montar isso direito aqui — resmungou Hondou, estalando a língua.
— Não há o que fazer — respondeu Horikita, mantendo a voz firme. — Pensando no amanhã, esta ainda é a melhor posição. Apenas tenham cuidado enquanto trabalham.
Cerca de cinco minutos depois, ela terminou de montar seu próprio espaço para dormir. Endireitando as costas, espreguiçou-se lentamente, sentindo toda a rigidez acumulada de uma só vez.
— Isso está pesado…
Até então, haviam conseguido evitar confrontos, mas a comida continuava escassa e a água nunca era suficiente. Agora, na terceira noite, o desgaste acumulado era impossível de ignorar. Seu corpo já emitia alertas silenciosos — uma fadiga que ia além do simples cansaço. Era mais severa do que qualquer exame na ilha desabitada que enfrentara nos últimos dois anos.
Seu olhar se desviou um pouco mais adiante, onde Karuizawa e outras duas garotas haviam acabado de montar suas barracas. Lembrando-se de algo que pretendia perguntar mais cedo naquele dia, Horikita se aproximou.
— Você tem um momento? — perguntou.
— Hm? O que foi, Horikita-san?
Karuizawa parecia visivelmente exausta — ainda mais do que a própria Horikita —, mas mesmo assim conseguiu erguer levemente os cantos da boca em um sorriso.
— Tem uma coisa que eu gostaria de te perguntar — disse Horikita. — É um pouco constrangedor falar disso aqui, então…
Ela pediu licença rapidamente a Shinohara e Onodera, que estavam por perto, e conduziu Karuizawa alguns metros adiante, até um ponto onde as árvores se tornavam mais espaçadas, oferecendo um mínimo de privacidade.
A floresta ao redor mergulhava no silêncio do entardecer, quebrado apenas pelo farfalhar suave das folhas e pelos sons distantes dos colegas se preparando para a noite.
— Você queria falar comigo? Algo que não quer que outras pessoas ouçam, né? — perguntou Karuizawa.
— Sim. Algo assim.
Uma brisa fresca passou entre as árvores, envolvendo suavemente as duas. Como se acompanhasse esse suspiro do vento, Horikita ergueu a mão e retirou os óculos de proteção. Já estava quase seis horas. Tecnicamente, elas deveriam mantê-los até o início do horário de descanso — mas alguns minutos a mais ou a menos não fariam diferença. Ao vê-la fazer isso, Karuizawa também retirou os seus.
— Nossa, isso esquenta mesmo quando a gente fica usando o tempo todo — comentou Karuizawa, soltando um leve suspiro enquanto virava o rosto para o vento, claramente apreciando o alívio.
— Pode perguntar — acrescentou, com leveza. — Somos amigas, não somos?
Horikita hesitou por mais um instante, então se decidiu.
— É sobre as Classes C e D. Já chegamos à terceira noite sem ver uma queda significativa no número de sinais de GPS de nenhum dos dois grupos. A aliança entre eles é inegável a essa altura.
— É, não tem como negar. É mais fácil para classes em desvantagem se unirem.
Isso já vinha sendo discutido pela turma desde a noite anterior. Não era algo que justificasse chamar Karuizawa à parte. O que significava que Horikita pretendia ir além. Karuizawa percebeu isso de imediato.
— O que não sai da minha cabeça é quando eles decidiram formar essa aliança — continuou Horikita. — Quando recebemos as explicações do exame especial, não era possível haver contato entre as classes. E, no começo, as posições deles estavam separadas — com a nossa classe no meio.
Se nem mesmo os comandantes podiam se comunicar entre si, não havia como ter ocorrido contato naquele momento.
— A Classe D é… peculiar — prosseguiu ela. — Ao ver a Classe C em um estado tão comprometido, talvez tenham sentido empatia. Mas, ainda assim, aceitar um inimigo meio destruído de forma tão repentina não deveria ter sido fácil. Formar uma aliança sem coordenação prévia… era de se esperar muita resistência.
— É verdade — concordou Karuizawa, pensativa. — O Hirata-kun e os outros estavam dizendo a mesma coisa. Coisas como talvez a Classe C tenha desistido da vitória e entregue pontos privados, ou algum outro tipo de acordo. Todo mundo tem feito suposições.
Enquanto Karuizawa falava, Horikita assentiu — e então apresentou uma possibilidade diferente.
— Desde que ele saiu da classe, também se aproximou da Ichinose-san… — disse ela. — "Aproximou" talvez não seja a palavra certa, mas tive a sensação de que a distância entre os dois vinha diminuindo.
A cerimônia de abertura. O dia da transferência dele. Naquela mesma tarde, Ayanokoji havia se encontrado não apenas com alunos da Classe C, mas também com Ichinose. Talvez as bases dessa aliança tivessem sido lançadas já naquela ocasião.
Era isso que Horikita precisava confirmar. Foi por isso que ela procurou Karuizawa.
— Entendo… — a resposta de Karuizawa veio rápida e segura. — É, acho que você está certa. Na verdade, tenho certeza.
— Então você chegou à mesma conclusão — disse Horikita em voz baixa.
— Uhum. A relação entre a Classe C e a Classe D definitivamente se aprofundou mais do que antes.
Karuizawa assentiu com firmeza. Ao ouvir isso, Horikita fez uma anotação mental para rever suas premissas estratégicas dali em diante.
— Ei… sobre mais cedo — continuou Karuizawa, com a voz suavizando. — Você meio que desviou da pergunta da última vez, mas… posso perguntar algo de forma mais direta agora?
— Desviei? Não sei do que você está falando — respondeu Horikita, confusa.
— Mesmo agora — quando você e o Ayanokoji-kun estão claramente em lados opostos — você ainda gosta dele?
— O quê?! É-I-Isso que você quis dizer com "direta"?! — Horikita disparou, surpresa.
— É importante para mim — disse Karuizawa, simplesmente.
— Eu já te disse — nunca gostei de ninguém desse jeito — respondeu Horikita, num ritmo incomumente acelerado.
— Mas você ficou nervosa — apontou Karuizawa.
— Isso é um argumento absurdo. Qualquer um ficaria abalado se fosse perguntado de repente se gosta ou não de alguém.
Horikita segurou os óculos atrás das costas, desviando o olhar e quebrando o contato visual.

— Então, e quanto ao Sudou-kun? — perguntou Karuizawa com leveza. — Você gosta dele?
— Claro que não. Ele é apenas um colega confiável — respondeu Horikita sem hesitar.
— Viu só? Resposta instantânea — disse Karuizawa, apontando para ela com um sorriso malicioso. — Mesma pergunta, reação completamente diferente.
— I-Isso é—
Horikita vacilou. Não podia negar. Sempre que o assunto envolvia Ayanokoji, seus pensamentos travavam, como se sua mente perdesse o equilíbrio por um instante.
Não era a primeira vez que percebia isso. Nem era a primeira vez que se questionava. E, ainda assim — mesmo agora —, ela não tinha chegado a uma resposta clara sobre o que sentia.
— Se você está se contendo por minha causa, então não faça isso — disse Karuizawa com suavidade. — Eu não acho que gostar da mesma pessoa seja algo errado. E além disso…
Seu sorriso vacilou. Por um breve momento, uma sombra atravessou sua expressão.
— Além disso… o quê? — Horikita insistiu, sem conseguir evitar.
— Não somos só você e eu — continuou Karuizawa em voz baixa. — Não somos as únicas que gostam do Ayanokoji-kun. A Ichinose-san também gosta.
— Ela gosta? — murmurou Horikita. — Não posso dizer que estou surpresa, mas… isso é mesmo verdade?
— É verdade. E acho que o relacionamento deles é mais profundo do que você imagina, Horikita-san.
— Mais profundo…? — os pensamentos de Horikita dispararam. — Quer dizer que os dois estão namorando?
Se fosse assim, aquilo explicaria perfeitamente uma das razões por trás da aliança, pensou ela. Mas Karuizawa balançou a cabeça lentamente.
— Não acho que estejam oficialmente juntos, mas… é algo próximo disso, talvez.
— Me desculpa — disse Horikita. — Eu não entendo muito bem o que você quer dizer—
Ela estava prestes a pedir um esclarecimento quando uma agitação repentina surgiu na direção do acampamento. Karuizawa também percebeu. Seus olhares se cruzaram instintivamente.
Por um segundo, tudo ficou em silêncio. Então o barulho voltou — mais alto desta vez, crescendo em vez de diminuir. Misturado às vozes, havia um som fraco, mas inconfundível.
Um estalo seco. De novo. E mais uma vez.
— Alguém está… atirando? — perguntou Karuizawa, incerta. — Ou eu estou imaginando?
Essa era a questão. Mas os estalos secos continuavam vindo da direção das barracas.
— Não — murmurou Horikita. — Não tem como se enganar.
Era o som de disparos de munição de tinta. Elas já tinham ouvido aquilo antes durante os treinos — nada raro por si só. Ainda assim, um arrepio desconfortável percorreu a espinha de Horikita.
Seu relógio marcava 17h57. Tecnicamente, o exame ainda não havia terminado. Mesmo assim… aquilo não fazia sentido. Elas haviam recebido relatórios de que todos os oito sinais de GPS restantes nas proximidades já estavam a caminho de seu grupo principal. A partir daquele ponto, mesmo que alguém tivesse mudado de direção imediatamente rumo à Classe A, não haveria tempo hábil para chegar.
Era impossível. E, ainda assim.
Os estalos secos e ecoantes continuavam a ressoar pela floresta.
— Vamos voltar.
As duas começaram a correr em direção à origem do som. Horikita se agarrou desesperadamente à esperança de que fosse apenas fogo irresponsável — alguém brincando, nada mais.
Mas essa esperança se despedaçou no instante em que chegaram às barracas. A primeira pessoa que ela viu foi Ijuin, parado como uma estátua, o rosto completamente sem cor. Ao notar Horikita e Karuizawa, ele se virou para elas, os olhos arregalados de choque.
— E-Eu fui atingido!
Ele segurava o abdômen, tinta espessa espalhada pelo uniforme, enquanto o relógio em seu pulso emitia o alarme estridente de eliminação. O olhar de Horikita se desviou — apenas para encontrar outro corpo entre as barracas.
Mori estava caída no chão, tinta se espalhando pelas costas.
— Quantos inimigos?! — exigiu Horikita.
— E-Eu não sei! Veio do nada, de dentro da floresta! M-Mas o Sudou e os outros foram atrás deles, por ali!
Ijuin apontou freneticamente. Mesmo naquele momento, era possível ver vários alunos à frente, armas em punho, correndo atrás do atacante invisível. Por uma fração de segundo, Horikita pensou em voltar à barraca para pegar equipamento mais pesado — mas não. Cada segundo contava.
Sem hesitar, ela partiu em perseguição aos colegas. Enquanto corria, colocou os óculos de volta no rosto. E do coldre na perna, que nunca havia removido, sacou sua pistola, vasculhando a floresta que escurecia em busca de qualquer sinal de movimento — amigo ou inimigo.
Dois disparos ecoaram à frente. Depois, um terceiro.
Ela havia disparado aquela arma algumas vezes durante o treinamento. Mas aquilo era combate real. Era a primeira vez que enfrentava algo assim. E não era só ela. Os colegas trocando tiros à frente estavam na mesma situação, completamente pegos de surpresa. O pensamento fez o pânico cravar-se em seu peito.
Isso é igual à Classe C… igual à emboscada que eles sofreram.
— Onde… onde eles estão?!

Se houvesse vários atacantes, ela já deveria ter visto ao menos um deles. No entanto, não havia nada — nenhum vulto, nenhum movimento, apenas o chão revolvido sob seus pés e folhas esmagadas ao caminhar.
Então ela viu uma figura. Horikita ergueu a arma instantaneamente—
Mas parou. Não era um inimigo. Era Onodera.
Ela estava caída no chão, atingida pelas costas. Ao ouvir os passos de Horikita, levantou o rosto, os dentes cerrados de frustração, e imediatamente estendeu o braço, apontando para o nordeste.
— Não se preocupe comigo — é por ali!
— Obrigada!
Horikita passou por ela, arma em punho, e disparou na direção indicada. Ao atravessar a vegetação densa, a floresta à frente se abriu um pouco, revelando um grupo de estudantes atirando sem parar contra um único ponto.
— Encurralem ele! Ele está aqui!
— Ele foi por ali!
Misturando-se aos gritos, Horikita analisou a cena e chamou Miyamoto, que estava firme, segurando uma espingarda.
— Onde está o inimigo? Quantos são?
— É o Ayanokoji — Ayanokoji! Ele veio sozinho!
…!
Naquele momento, vários colegas avançaram pelos dois lados, tentando fechar o cerco atrás de uma árvore gigantesca.
— Então é ali…?
Miyamoto assentiu. Mesmo com um rápido olhar, Horikita percebeu — Ayanokoji estava completamente cercado. Não havia rota de fuga. Ele já tinha sido empurrado para um beco sem saída. Tiros de tinta martelavam o tronco da árvore. Não havia como permanecer escondido sob aquele bombardeio.
Não era só Horikita e Miyamoto à frente — havia guardas à esquerda, à direita e até atrás. Garotos e garotas. Um cerco perfeito.
Uma investida suicida. Atacar o acampamento da Classe A sozinho era pura insanidade. Ele já havia derrubado vários guardas — mas isso valia o preço de Ayanokoji Kiyotaka?
O risco não compensava. A pergunta atravessou a mente de Horikita, mas não havia tempo para respondê-la. Três segundos. Talvez quatro. Era tudo o que faltava para aquilo acabar.
Antes que o cerco se fechasse por completo, Ayanokoji se moveu.
Ele deu meio passo para fora de trás da árvore, fixando o olhar em um único alvo: Ike. E ergueu a arma.
Se ele vai cair… pretende levar pelo menos um com ele?
Mas os alunos da Classe A foram mais rápidos. Dedos se apertaram nos gatilhos, armas apontadas sem hesitação.
— FOGO—!!
Hondou gritou a ordem, como se selasse o destino de Ayanokoji. Tudo estava pronto. Aquilo era uma eliminação garantida.
E ainda assim—
Naquele instante, Horikita entendeu. Ela viu — o verdadeiro objetivo por trás da investida de Ayanokoji. Por que ele tinha vindo sozinho. O que ele realmente pretendia fazer.
— PAREM! NÃO ATIREM!
O grito dela cortou o ar, quase se sobrepondo ao primeiro estalo de um disparo. Era tarde demais. Quatro estudantes já haviam atirado. As balas de tinta acertaram em rápida sucessão — a mão direita de Ayanokoji, a perna direita e, em seguida, o lado do corpo. O alarme estridente de seu relógio ecoou de forma inconfundível, declarando sua eliminação.
— Isso! Pegamos ele! — Ike pulou, comemorando, alheio à ordem de cessar-fogo de Horikita. — Eu derrubei o Ayanokoji! Bem feito, seu traidor!
As baixas somavam três — Ijuin, Onodera e Mori. Uma troca de um por três. Mas quando o oponente era Ayanokoji, essa conta mudava completamente. Para os alunos, parecia uma vitória decisiva. Eles haviam derrubado o líder inimigo. Num momento em que comemorar seria natural, Horikita apenas fechou os olhos com força.
— Não… ele não está fora.
— Hã? Do que você está falando? Ele foi atingido direitinho! O relógio dele está tocando, não está?!
Cumprimentos com as mãos se espalharam. Vozes animadas se sobrepunham, incapazes de conter a empolgação. Ainda assim, a pessoa mais calma ali — a única que não havia vacilado nem por um segundo — era justamente o homem que deveria estar eliminado.
— Desculpa, Ike — disse Ayanokoji, com voz neutra, sem qualquer emoção. — Parece que quem está fora não sou eu. É você.
— Que diabos isso quer dizer? Eu não tô entendendo—
— Já são seis horas. Passou das seis.
Horikita dobrou o braço esquerdo e conferiu o relógio.
18:00:32.
— Hã…? O quê…?
— O exame diário termina no exato instante em que o relógio marca seis horas — explicou Ayanokoji, de forma clínica, completamente monótona. — Todas as eliminações feitas depois disso são anuladas. Em vez disso, o estudante que dispara é quem é eliminado. Essa era a regra, não era, Horikita?
Um ataque solitário, cronometrado para explorar uma breve falha de vigilância. A raiva ao ver colegas sendo abatidos. A tentação de eliminar um suposto traidor em um único momento decisivo. Levados pelo impulso, os estudantes haviam perdido completamente a noção do tempo.
Bastava que um único segundo tivesse passado das seis da tarde para que todas as eliminações se tornassem inválidas. O sinal que ecoara no relógio de Ayanokoji registrava isso com clareza.
Ele estava a salvo.
— Você avançou sozinho sabendo que seria atingido… — a voz de Horikita mal era audível. — E usou isso contra nós.
— Exatamente. — Os olhares dos dois se cruzaram por um breve instante antes de Ayanokoji desviar o olhar. — Peço desculpas.
Pouco depois das sete da noite, funcionários da escola chegaram ao local. Ayanokoji recebeu um novo conjunto de roupas de educação física e, após relatos voluntários, quatro estudantes foram declarados retirados por terem disparado e acertado tiros fora do horário permitido do exame.
Uma única pessoa havia se infiltrado sozinha — e, ao fazê-lo, provocado uma sequência de erros que resultou na eliminação de sete adversários.
Mesmo com o local ainda tomado por agitação e vozes exaltadas, Ayanokoji começou silenciosamente a montar uma barraca.
— E-Ei! Por que você está armando uma barraca aqui?!
— Achei que fosse permitido montar barracas em qualquer lugar. Estou atrapalhando?
— Claro que está!
— Espere, Hondou-kun. — A intervenção de Hirata foi calma e ponderada. — Não devemos expulsar o Ayanokoji-kun.
— Hã? O que isso quer dizer, Hirata? Você quer que a gente durma ao lado do inimigo?
— Lutar é proibido fora do horário do exame. Se o Ayanokoji-kun violar as regras, ele será automaticamente retirado. O que estou dizendo é que, se o mantivermos longe, será mais fácil para ele escapar. Além disso, às nove da manhã, ele obrigatoriamente terá que começar na mesma área que nós.
— Ah… certo. — A compreensão surgiu no rosto de Hondou. — Então isso quer dizer… que a gente pode descarregar tudo nele logo de manhã…!
— Você percebeu isso também, não foi? — disse Hirata, voltando-se para Ayanokoji. — Foi por isso que decidiu montar sua barraca aqui.
— Se eu tentasse acampar em outro lugar esta noite, vocês simplesmente me cercariam pela manhã de qualquer forma — respondeu Ayanokoji, com calma. — É melhor que todos economizem energia.
— Francamente… — Shinohara lançou-lhe um olhar cortante, o ressentimento pela eliminação de Ike evidente. — Você não percebe que está preso dentro da jaula do inimigo?
— Talvez.
Sem negar. Sem demonstrar preocupação. Ayanokoji respondeu de forma indiferente e desapareceu dentro da barraca.
Horikita permaneceu imóvel, incapaz de dizer qualquer coisa, limitando-se a encarar o tecido que agora os separava.
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