Ano 3 - Volume 3
Capítulo 4: Coincidência
A AURORA DESPONTOU sobre o acampamento. Pouco depois das seis da manhã — um horário em que a maioria dos estudantes ainda dormia em suas tendas. O primeiro a sair de uma tenda individual para o ar frio da manhã foi Ryuen Kakeru, líder da Classe B.
O ar gelado tocava sua pele enquanto ele abria um mapa e o estendia ao lado da tenda. Em silêncio, estudou-o com atenção, refazendo mentalmente as posições de GPS registradas ao fim do dia anterior. Com a mente revigorada por algumas horas de descanso, absorvia as localizações marcadas de cada classe.
O que ocupara seus pensamentos durante toda a noite — e continuava a ocupá-los agora — era simples e ao mesmo tempo crucial: quem enfrentar. E como.
Para se colocar acima das outras três classes no final, qual seria o caminho correto?
Como agir naquele dia — essas decisões imediatas precisavam ser tomadas até as 9h da manhã. As primeiras a serem descartadas foram as Classes A e D, firmemente estabelecidas, respectivamente, nas regiões norte e leste. Suas posições eram estáveis, distantes e — por ora — pouco lucrativas para um confronto.
O que realmente importava era o Sudoeste.
A área ao redor da sede, onde dois agrupamentos haviam se formado: a sua própria classe e a Classe C.
Após a emboscada bem-sucedida, Ryuen despejara todos os recursos disponíveis nos eventos. Pressionara seus colegas ao limite, enviando-os repetidas vezes para garantir suprimentos, priorizando impulso em vez de descanso. Mesmo assim, a comida continuava cronicamente escassa.
Para sustentar o número total de estudantes, a participação ativa nos eventos era inevitável. E embora a Classe C tivesse sofrido uma grande redução em seu efetivo, o fato de não ter conseguido garantir suprimentos suficientes significava que sua situação não era muito melhor.
Isso, Ryuen sabia, não era coincidência. Era um ajuste deliberado por parte da escola. Um aperto lento — projetado para causar desgaste, para fazer a fome e o cansaço corroerem o julgamento, empurrando os estudantes em direção à agressividade. Ao conflito.
Ainda assim, os alunos não eram tolos. Eles pesavam o perigo do combate contra o conteúdo incerto das caixas de suprimentos, e muitos optavam pela resistência em vez do risco. Perder um VIP ou vários guardas era um preço alto demais. Pelo menos no primeiro dia, a contenção prevalecera.
Mas… e no segundo?
Tudo dependia das novas zonas restritas — onde surgiriam e quanto território engoliriam.
A Classe C estava atualmente entrincheirada perto da sede, evitando confrontos. Mas, se a área utilizável fosse reduzida à força, sua rota de fuga acabaria desaparecendo. Encurralados, talvez finalmente se resolvessem a lutar com tudo.
Os lábios de Ryuen se curvaram levemente.
— Estamos com sua cabeça presa — murmurou. — Então… o que você vai fazer, Ayanokoji?
Uma coisa, ao menos, era certa.
Ryuen não tinha a menor intenção de jogar na defensiva para sempre.
Idealmente, queria lançar um ataque decisivo contra a Classe C — esmagá-los completamente, empurrá-los direto para o último lugar. Com Ayanokoji ainda de pé, não seria fácil, mas, nas condições atuais, Ryuen estimava suas chances de vitória em noventa e nove por cento.
Mas essa confiança vinha com uma ressalva — somente se o exame especial terminasse logo depois.
Se a Classe C fosse eliminada agora, as forças restantes teriam de lidar com as Classes A e D em seguida. E enfrentá-las com números reduzidos estaria longe de ser simples.
— Eu poderia esmagar aquela aberração da Classe A primeiro… mas isso só deixaria os fracassados felizes.
Se duas classes se destruíssem entre si, as outras duas lucrariam sem mover um dedo. Era uma verdade simples.
— Você acordou cedo.
Percebendo o movimento, Katsuragi saiu da tenda e se aproximou, falando baixo para não acordar os demais. Parou ao lado de Ryuen, seguindo seu olhar.
— Ainda decidindo qual classe atacar?
Ryuen soltou uma risada curta, carregada de calor, não de humor. Katsuragi sentiu isso claramente — não era mera contemplação. Havia cheiro de sangue no ar, e Ryuen o apreciava.
— Algo assim — respondeu Ryuen. — Embora meu alvo real não tenha mudado. Sempre foi a Classe C.
— Ser agressivo é uma coisa — disse Katsuragi, cruzando os braços —, mas considere isto: se ficarmos parados, o tempo trabalhará por nós. A escassez de suprimentos combinada com a redução das áreas utilizáveis inevitavelmente forçará todos ao combate. Ganhamos uma vantagem enorme com a emboscada de ontem contra a Classe C. Por que desperdiçá-la com agressividade prematura?
Ryuen não respondeu de imediato. Em vez disso, lançou um olhar às provisões dispostas diante da tenda — o pouco que haviam conseguido, apesar de todos os esforços.
— Você não está errado — disse por fim. — Manter nossa vantagem numérica não é uma má ideia. Inferno, temos a iniciativa a partir daqui. Mas há um porém.
Ergueu o olhar, os olhos afiados.
— Ontem usamos nossa principal carta tática para tomar a iniciativa. Isso significa que a Classe C ainda tem a deles. Enquanto isso for verdade, eles podem fazer a mesma coisa que nós fizemos. Atacar antes que isso aconteça é uma opção. E mesmo que Ayanokoji decida que não pode lutar e queime sua estratégia só para fugir? Ainda assim, é uma vitória para nós.
Ryuen fez um gesto quase desdenhoso em direção aos suprimentos.
— E a fome não liga para estratégia. Quando ela se instala, a resistência cai, goste você ou não. Ver um bando de idiotas perder a única coisa em que são bons — a vantagem física — é frustrante.
A Classe B não carecia de comilões. No momento, sua força física transbordava. Mas Ryuen entendia melhor do que a maioria o quão rápido essa vantagem podia se esvair.
Quanto mais isso se arrastasse, mais fina essa margem se tornaria.
Katsuragi ouviu em silêncio, braços cruzados, destrinchando cuidadosamente o raciocínio de Ryuen. Ele via a lógica ali — nada era irracional, mesmo que pendesse para a agressividade.
— Verdade — disse afinal. — Assim que separarmos os suprimentos do café da manhã, o que estocamos estará quase esgotado. Ao mesmo tempo, mandar estudantes buscar mais comida enquanto estão com fome também traz riscos. Ainda assim, é exatamente por isso que acredito que o Dia Dois deva priorizar a recuperação por meio dos eventos.
Katsuragi havia chegado à mesma conclusão após discutir o assunto com Ryuen na noite anterior. Essa avaliação não mudara pela manhã. Mesmo agora, ele acreditava que o curso deveria permanecer fundamentalmente defensivo — e expressou essa convicção sem hesitar.
— A única classe que deveria estar sob pressão agora é a Classe C — disse Katsuragi com calma. — Não há necessidade de se expor demais. Observe as outras — isso também fazia parte do seu plano original, não fazia?
Ele compreendia melhor do que muitos que Ryuen não era cego aos riscos de atacar. Imprudência não era o problema. O que impedia Katsuragi de apoiar totalmente uma ofensiva era a fixação anormal de Ryuen na Classe C.
Mais especificamente, sua obsessão em esmagar Ayanokoji. Essa determinação unilateral carregava o perigo de se fechar em si mesma — de se tornar um fim em si, em vez de um meio para a vitória.
— É estranho… — murmurou Ryuen, mantendo os olhos fixos nos marcadores ao sul do mapa. — Eles foram duramente atingidos — metade da turma foi eliminada naquela emboscada. E, ainda assim… olhando para isso, não consigo enxergar nenhum sinal de enfraquecimento do Ayanokoji.
Katsuragi seguiu o olhar dele e assentiu uma vez, lentamente.
— O medo de um inimigo invisível. Quanto mais forte o adversário, mais a sua mente cria ameaças que talvez nem existam. Você começa a imaginar manobras, saídas, possibilidades que jamais consideraria contra qualquer outro.
Ryuen aceitava parte dessa avaliação. Ele sabia que havia um certo excesso de cautela ali. Mas anos de batalhas — dois anos inteiros de testes e confrontos incessantes — haviam gravado nele uma lição de forma dolorosamente clara.
(N/SLAG: a expressão japonesa 「嫌というほど思い知らされている」é fortemente enfática, indicando que essa realização foi inculcada de forma quase desagradável, impossível de esquecer.)
Um plano podia funcionar. Dano podia ser causado. Ainda assim, isso não significava que o oponente estivesse acabado. A emboscada dera certo. Provara que Ayanokoji tinha fraquezas. Mas eram mínimas — fissuras tão estreitas quanto um fio de cabelo.
Explorá-las novamente não seria nada parecido com o primeiro golpe. A dificuldade nem sequer era comparável.
— De qualquer forma, não fique obcecado demais com a Classe C — insistiu Katsuragi. — Se você realmente não consegue conter a vontade de lutar, então redirecione isso… por enquanto… para a Classe A. Não podemos nos tornar a Classe A sem derrubar aqueles que estão acima de nós.
— Talvez você esteja certo — disse Ryuen.
Por fim, ele desviou o olhar do mapa e ergueu a cabeça, observando as copas das árvores, que começavam a ser banhadas pelos primeiros raios do sol da manhã. A floresta estava silenciosa, quase serena — um contraste perturbador com os cálculos que fervilhavam sob aquele dossel.
*
Eram exatamente nove horas da manhã do segundo dia.
Com a retomada oficial do exame, o primeiro relatório chegou do comandante Shimazaki, repassado pela VIP, Shiraishi. Das seis da noite até as nove daquela manhã — período oficialmente fora do horário do teste — todos os dados de GPS haviam permanecido suspensos.
Ainda assim, não havia motivo imediato para alarme. Os estudantes eram obrigados a retomar o exame a partir da mesma área em que estavam às seis da tarde do dia anterior. Portanto, a menos que uma turma inimiga tivesse deliberadamente escolhido permanecer na mesma zona, não havia perigo iminente.
— Parece que todas as posições de GPS foram atualizadas — relatou Shiraishi com calma. — Sem nenhuma pessoa desaparecida, ao que tudo indica todos permaneceram dentro de suas respectivas áreas, com apenas movimentações mínimas registradas. O Koenji-kun, que está separado da Classe A, também continua presente — ele está em D6.
Eu esperava, ao menos em parte, que alguém reclamasse de exaustão ou mal-estar depois do primeiro dia. Mas parecia que todos haviam conseguido atravessar a noite sem incidentes.
— Então ele realmente atravessou montanhas e rios em um único dia, hein… — murmurou Hashimoto. — E agora está só… curtindo por aí. Não tem como ele ter comida extra. Do que será que ele está sobrevivendo? Não me diga que ele está vivendo do que encontra na natureza.
Não sou especialista nas plantas nativas dessa ilha desabitada, mas não vi muitas que pudessem fornecer nutrição significativa. Pescar no mar seria uma opção, mas desta vez não havia varas de pesca entre os itens fornecidos. Isso significaria algo que ele pudesse encontrar na praia — mas, pelo que observei ontem, as coordenadas de GPS dele nem sequer chegaram à costa.
— Bom, de qualquer forma, sem saber nenhuma senha, ele não consegue obter suprimentos adicionais — continuou Hashimoto. — É melhor simplesmente deixá-lo em paz.
Não estava claro se ele se tornaria ou não uma ameaça, mas era certo que não havia absolutamente nenhum benefício em nos envolvermos com ele.
— Koenji, é… — murmurei.
Confesso que esperava, em segredo, que ele tivesse desistido voluntariamente durante o intervalo. Pelo visto, não aconteceu.
— Tem algo te incomodando? — perguntou Shiraishi, inclinando levemente a cabeça. — Como o Hashimoto-kun disse, não seria melhor simplesmente ignorá-lo?
— Essa é a nossa conclusão comum, sim — respondi. — Mas ainda há algo nisso tudo que parece… estranho. Não entendo por que ele ainda não se retirou.
— Você sempre achou que ele não levava o exame a sério, não é?
— Seria mais preciso dizer que era assim que eu o via — corrigi. — Por isso esperava que ele tivesse desistido até esta manhã. Ou, no mínimo, que tivesse se aproximado da sede durante a noite.
Em vez disso, sua posição atual o colocava profundamente dentro da ilha, longe da base.
— Ele provavelmente acha que isso é algum tipo de férias — deu de ombros Hashimoto. — Ele é esse tipo de pessoa.
— E, ainda assim, este local é o mesmo do exame do ano passado — disse em voz baixa. — Não deveria haver nenhuma novidade aqui para ele.
Será que ele realmente cooperaria com a Horikita e levaria este exame especial a sério…? Não era impossível. Mas, mesmo agora, as chances pareciam baixas. Essa era a minha linha de raciocínio, baseada na análise que eu fazia do estudante Koenji Rokusuke.
— Não estamos só perdendo tempo pensando nisso? — disse Hashimoto, dando de ombros de novo. — Mesmo se — e isso é um grande "se" — ele ficasse sério de repente, não teríamos como saber. Ele é só um cara. Desde que não trombemos com ele, não é exatamente um problema, certo?
Era uma visão razoável.
Sem contato com o comandante, Koenji não tinha como saber nem as posições aliadas nem as inimigas. Mesmo que tivesse vontade de lutar, procurar ativamente adversários seria praticamente impossível. Desse ponto de vista, bastava acompanhar sua posição no GPS. Enquanto soubéssemos onde ele estava, dava para tratá-lo como um fator irrelevante.
Em princípio, essa lógica se sustentava. Mas havia exceções — que não podiam ser ignoradas.
Encontros acidentais, por exemplo. Esses eram inevitáveis por natureza. E havia outra possibilidade: mesmo que Koenji não tivesse motivação agora, Horikita poderia tentar movê-lo mais tarde, puxá-lo para o fluxo do exame.
Descartá-lo como "apenas uma pessoa" seria um erro. Ele era alguém que precisava ser mantido em mente o tempo todo.
— E como está todo mundo? — perguntei, mudando de assunto.
— Sinceramente? Eu não diria que está ótimo — respondeu Hashimoto. — Quer dizer, estou com fome. Muita fome.
Ainda restava comida do que havíamos conseguido ontem. Se quiséssemos, poderíamos consumir tudo e encher o estômago temporariamente. Mas esse alívio de curto prazo viria ao custo do amanhã — e do dia seguinte. Qualquer consumo desnecessário agora só apertaria o laço depois.
— A menos que outra turma comece a fazer movimentos suspeitos — disse —, vamos permanecer em espera até o próximo evento.
Com essa política provisória definida, reforcei mais uma vez — de forma clara e deliberada — tanto para Shiraishi quanto para Takemoto a importância de manter uma coordenação rigorosa entre o comandante e os VIPs.
*
Por volta das onze horas da manhã, a Classe D chegou a um ponto de inflexão silencioso.
A intenção de evitar conflitos o máximo possível — postura que mantinham desde o início — começou a se fragmentar a partir daquele momento. Kanzaki estava ao lado de Andou, encarando o tablet que o analista operava, e percebeu que prendia a respiração sem nem notar.
Os novos pontos de suprimentos anunciados surgiam na tela em texto limpo e implacável:
E4, E9, G8, G11, H5, J8, J13, K3, M12, N9, O14.
E então havia outra coisa. Algo claramente diferente de ontem. Grandes porções do mapa — muitas demais para serem ignoradas — estavam sobrepostas em cinza.
Até mesmo O14, um dos pontos recém-anunciados, encontrava-se parcialmente coberto.
— Ei, Kanzaki — murmurou alguém ao seu lado, incapaz de esconder o tremor na voz. — Isso significa… o que eu estou pensando, não é?
— Ainda é cedo demais para cravar qualquer coisa — respondeu Kanzaki, embora seu tom carecesse de convicção. — Mas, se o mesmo mecanismo se repetir da próxima vez, a probabilidade aumenta… e muito.
Segundo dia. Onze horas da manhã. O quinto evento no total.
A suposição tácita — de que o dia de hoje apenas repetiria o padrão de ontem, com mais quatro eventos se desenrolando da mesma forma — agora tinha uma luz amarela piscando insistentemente ao lado.
O mapa era dividido em uma grade de 15×15. Naturalmente, a maioria dos blocos mais externos era oceano. E agora fora anunciado que todos esses blocos periféricos se tornariam áreas restritas dentro de uma hora.
Quando essa hora se esgotasse, o cinza se tornaria um preto absoluto. Entrar nessas zonas ativaria uma regra que não deixava margem para erro: permanecer ali por cinco minutos significava eliminação. Se fosse só isso, seria administrável. Um incômodo, nada mais. Mas a verdadeira questão estava duas horas à frente — no próximo evento.
E se a mesma coisa acontecesse de novo? Se o anel externo fosse novamente restringido? Isso significaria que, a cada evento, o mapa encolheria silenciosa e inexoravelmente — uma camada de cada vez, sendo descascada das bordas para o centro.
Hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Excluindo este, ainda restavam dez eventos.
Era improvável — talvez até irracional — supor que o perímetro diminuiria em todas as ocasiões. Mas, se a regra subjacente não mudasse, mais cedo ou mais tarde as quatro turmas seriam empurradas para o centro. E quando isso acontecesse, o inimigo deixaria de ser um ponto distante na tela.
Estaria perto o suficiente para ser tocado.
— Não há mais como evitar o combate — murmurou Kanzaki.
Uma sombra pesada caiu sobre a Classe D. O objetivo principal deles sempre fora simples: permanecer na região leste, manter distância das outras três turmas e sobreviver até o fim.
Agora, esse plano começava a apodrecer pelas bordas.
— Se as áreas restritas se expandirem mais uma ou duas vezes hoje — continuou Kanzaki, pensando em voz alta —, teremos de considerar seriamente uma grande realocação.
Voltar do norte para as zonas centrais exigiria um desvio longo. Pior ainda: a Classe A estava posicionada ao norte, o que introduzia o risco de emboscadas. Mas avançar cedo demais para o sul também trazia problemas; o terreno ali não era ideal para coletar suprimentos de eventos com eficiência.
Não havia solução limpa. Kanzaki não conseguia desgrudar os olhos do tablet enquanto seus pensamentos giravam em círculos, sem chegar a lugar algum.
— Kanzaki-kun.
Seu ombro foi sacudido levemente. Ele piscou, percebendo que seu nome fora chamado mais de uma vez.
— Desculpa — disse, erguendo a cabeça. — O que foi?
— Acabei de ouvir a Honami-chan — respondeu Andou. — Ela disse que vai pensar no plano por conta própria, então não precisamos nos preocupar.
O timing era quase assustador. Como se Ichinose tivesse sentido à distância a confusão crescente de Kanzaki, a mensagem chegara exatamente quando seus pensamentos ameaçavam entrar em colapso.
— Ela quer que foquemos — antes de qualquer coisa — no evento imediatamente à nossa frente.
— É — respondeu Kanzaki após uma breve pausa. — Faz sentido.
— E sobre o O14 — acrescentou Andou com cuidado, tocando a borda do tablet —, ela disse que não devemos nos forçar se houver o menor sinal de perigo.
Esse aviso tinha peso. A partir da posição atual deles, deslocar-se até O14 e depois procurar os suprimentos consumiria um tempo precioso. Um pequeno erro de cálculo poderia fazê-los permanecer dentro da área quando a restrição fosse ativada — e, nesse caso, a eliminação seria inevitável.
— Por enquanto, vamos garantir o que for possível — disse Kanzaki, firmando a voz. — O14 tem pouquíssima massa terrestre. Isso, na verdade, joga a nosso favor — o ponto de suprimentos deve ser mais fácil de encontrar.
Ficar parado só faria o tempo escorrer pelos dedos. Hesitar, ali, significava abrir mão de uma oportunidade antes mesmo que ela realmente começasse.
— Vamos nos dividir imediatamente em três grupos e sair para coletar os suprimentos.
A decisão não foi dramática. Não dependia de apostas ousadas nem de truques engenhosos. Mas era sólida. Eles repetiriam o que já havia funcionado, com cuidado e método, agarrando-se a um único objetivo imutável: reunir recursos suficientes para garantir que todos sobrevivessem ao dia.
*
Entre 11h28 e 11h29 da manhã, enquanto o ponteiro dos segundos avançava quase imperceptivelmente, a Classe B já estava em movimento.
Seguindo as ordens de Ryuen, eles se dividiram de forma limpa em três forças: duas equipes de dez pessoas enviadas para garantir suprimentos e a unidade principal encarregada de manter a Classe C sob pressão. Uma dessas equipes de suprimento — liderada por Komiya, com a VIP Morofuji acompanhando — avançava em direção ao ponto que surgira em E9.
Em circunstâncias normais, E9 era o mais próximo possível de um local "livre".
Ficava longe demais da Classe A e estava mal posicionado demais para que a Classe C o disputasse sem se estender em excesso. Do ponto de vista da Classe B, deveria ser uma aquisição fácil — quase uma formalidade.
Mas, pouco antes do relógio bater onze, uma única preocupação surgiu. Às nove horas daquela manhã, havia um sinal de GPS solitário — separado da Classe A — parado em D6.
E agora, por pura coincidência, esse mesmo sinal parecia estar se movendo na direção deles.
— R-Relatório — disse Morofuji, repassando a informação de Kaneda com um leve traço de incerteza na voz. — Aquele GPS solitário… parece que ainda está vindo para cá.
Komiya nem sequer diminuiu o passo.
— Vindo para cá ou não, é só uma pessoa, certo? — disse com leveza. — Eles não sabem onde estamos. E, se por acaso nos encontrarmos, atiramos. Simples.
Com nove guardas — dez pessoas no total, excluindo a VIP — não havia um cenário realista em que eles perdessem. Komiya falava com a confiança tranquila de alguém que acreditava que os números, por si só, resolviam a questão.
— M-Mas… não é provavelmente o Koenji-kun? — murmurou um dos estudantes. — Ele é… perigoso. Pelo menos, como pessoa.
— Não importa — cortou Komiya. — Isso não é uma briga de socos. É pega-pega de sobrevivência. Uma bala é uma bala — não importa quem atire. Não precisa pensar demais nisso. O que importa é pegar os suprimentos rápido e voltar para a unidade principal.
Ele lançou um olhar rápido na direção do Sudoeste, onde a força principal mantinha a Classe C sob controle.
— Se a Classe C se mexer de repente, a coisa pode ficar feia.
Os números entre a unidade principal da Classe B e a Classe C eram próximos demais para serem ignorados. Se Ayanokoji julgasse o momento certo, poderia aproveitar a oportunidade e transformar defesa em ataque num único movimento. Era exatamente por isso que Ryuen havia ordenado que eles retornassem assim que os suprimentos fossem garantidos.
— O-O que a gente faz, Oda-kun…? Tem certeza de que é mesmo okay deixá-lo assim? — perguntou Morofuji.
Chamado pelo nome, Oda hesitou por um breve instante. Avaliou a situação e então tomou sua decisão — instruindo-a a contatar Ryuen por meio de Kaneda e pedir ordens — antes de decidir seguir Komiya por conta própria.
Morofuji, incapaz de esconder sua inquietação, mexia no rádio repetidas vezes.
No entanto—
— Não dá… Ele deve estar falando com outra pessoa agora, porque não consigo contato de jeito nenhum.
O comandante era apenas uma pessoa. Quando as comunicações se sobrepunham às de um VIP, a linha simplesmente não conectava. Sempre que o comandante já estava ocupado, surgia uma lacuna inevitável — um silêncio morto em que nenhuma instrução podia ser recebida.
— Viu só? Você está se preocupando demais — disse Komiya com um sorriso largo. — Se a gente topar com ele, eu meto uma bala direto no coração. Essa belezinha aqui já derrubou quatro pessoas na emboscada!
Rindo alto, Komiya fez uma pose exagerada com a espingarda nas mãos, como se estivesse exibindo uma parceira preciosa.
— Onde você está, Koenji?!
Ele gritou para dentro das árvores, projetando deliberadamente confiança, e então começou a correr, balançando o cano da espingarda para a esquerda e para a direita.
— Aqui?! Ou talvez aqui?!
Bang!
Bang!
Dois disparos ensurdecedores ecoaram pela floresta escura à frente.
— Ei, não desperdiça tanta munição~.
— Heheheh, um pouquinho não tem problema, né? Vai que ele está mesmo escondido por aí.
Ainda sorrindo, Komiya retirou o carregador e começou a recarregar, com movimentos experientes e despreocupados.
— Ele está confiante demais — comentou Yamawaki com uma risadinha, inclinando-se em direção a Kinoshita enquanto caminhavam. — Isso aí é praticamente levantar uma bandeira da morte, não é?
Kinoshita suspirou baixinho.
— Homens são mesmo idiotas — murmurou, encarando o fuzil em suas mãos com um olhar frio. — Achando que esse tipo de coisa é divertido.
— E ainda assim — disse Yamawaki com um sorriso torto —, quando a gente avançou sobre a Classe C, você parecia estar se divertindo horrores puxando o gatilho. Eu vi com meus próprios olhos.
— I–Isso foi diferente! — protestou Kinoshita, visivelmente constrangida. — Quer dizer… como posso explicar… eu só me deixei levar pelo momento—
Percebendo que fora pega revelando um lado inesperado de si mesma, as bochechas de Kinoshita ficaram vermelhas. Ela ergueu a mão e deu um tapa seco no ombro de Yamawaki.
— Ai—?!
Um grito de dor ecoou.
— H–Hã?!
Kinoshita piscou. Ela não tinha batido com tanta força — ou pelo menos era o que pensava. Mas a voz não tinha vindo de Yamawaki.
Era Komiya.
O garoto que caminhava à frente de repente desabou, agachando-se como se as pernas tivessem falhado. Ao mesmo tempo, a espingarda que segurava escapou de suas mãos e caiu no chão com um baque seco. Por um instante, os estudantes atrás dele ficaram imóveis, incapazes de processar o que estavam vendo.
— E–Ei, Komiya, o que você está—
Antes que Yamawaki terminasse a frase, uma dor aguda atravessou o abdômen de Kinoshita.
Plaf.
O som veio primeiro, depois a sensação — um impacto se espalhando pelo estômago, seguido da sensação úmida e desagradável de líquido respingando em suas roupas.
— Ah—!
A força em si não era esmagadora. O que arrancou o grito de seus lábios foi o choque absoluto — algo que ela jamais havia antecipado.
Foi então que Yamawaki finalmente entendeu.
— T–Tiro…! A gente levou um tiro! Tem um inimigo aqui!!
O grito dele cortou a floresta como um sinalizador. Como se tivesse sido acionado por esse aviso, bolas de tinta também atingiram o flanco de Yabu, que estava ali, atônito. Outro disparo acertou a coxa esquerda de Sonoda, e o relógio em seu pulso emitiu um apito estridente, declarando sua eliminação.
Só então o pânico realmente se instalou. Os estudantes restantes ergueram às pressas suas armas de tinta, os olhos vasculhando freneticamente as árvores e o matagal à frente, tentando desesperadamente localizar o atacante. Mas, por mais que procurassem, não viam ninguém.
— I–Isso só pode ser o Koenji! — gritou alguém. — Ele está perto — tem que estar! Onde diabos está o Kaneda?! Por que ele não está nos avisando?!
O medo e a frustração transbordaram de uma vez, e a raiva se voltou contra o comandante que não os havia alertado de que o perigo já estava sobre eles.
— Ainda não conseguimos contato — nada conecta!!
— Que diabos está acontecendo?!
O pânico infiltrou-se nas vozes deles, mas, mesmo gritando, os guardas restantes se moveram por instinto, apertando a formação ao redor de Morofuji, a VIP, formando um escudo humano improvisado.
Mas, não importava o quanto procurassem — nenhum Koenji, nenhuma silhueta, nem o menor indício de presença.
— De onde isso está vindo?!
— Não faço ideia!
Um estalo seco cortou o ar e, quando alguém percebeu o som, outra bola de tinta já havia atingido a carne. Não havia disparos desperdiçados. Nenhuma hesitação. Cada tiro encontrava seu alvo com uma precisão arrepiante. Outro disparo veio — silencioso, repentino — e Yamawaki foi atingido de novo.
Usando o ponto de impacto como pista, os quatro estudantes ainda de pé viraram suas armas na direção presumida e revidaram numa saraivada desesperada.
Mas, mais uma vez, não havia nada. Nenhum movimento. Nenhuma sombra. Nenhum inimigo.
— Por que você está atacando a gente, Koenji?! — gritou Komiya, a voz rachando enquanto berrava para a floresta vazia. Ele já estava eliminado, mas a incredulidade transbordava. — Somos inimigos, tudo bem — mas… você não devia estar levando esse exame a sério.
A lógica pouco importava. O que mais os abalava era que isso simplesmente não deveria estar acontecendo.
— É só uma pessoa, não é? — murmurou Nishino, soltando o ar com força. — Não tem como a gente perder para um só.
Antes que alguém pudesse detê-la, ela se separou do grupo e disparou em direção ao local de onde achavam que os tiros vinham.
— Espera, Nishino—!
O aviso de Oda chegou um segundo tarde demais.
Uma bola de tinta a atingiu em plena corrida. Ela tropeçou, o choque desequilibrando seu corpo para frente, e caiu com força no chão.
Menos de trinta segundos. Foi só isso que levou. Seis estudantes já estavam fora.
A percepção atingiu a Classe B como um golpe contundente, enviando tremores visíveis pelos que ainda permaneciam de pé. Agora eles atiravam a esmo — já não miravam, apenas puxavam o gatilho. Tinta espirrava nos troncos das árvores, no chão, nas folhas, explodindo inutilmente contra a floresta.
— Onde você está?!
— Você está aqui — não está, Koenji?!
— E–Eu… eu já não sei mais!
Um a um, eles caíram.
Os oito guardas que haviam formado um anel ao redor de Morofuji foram eliminados em rápida sucessão, os relógios soando quase em tom de escárnio à medida que cada um era derrotado.
— O… o que está acontecendo…?
Suzuki permaneceu imóvel, encarando o cenário à sua frente — colegas tombando sem jamais terem visto o rosto de quem os atacava.

No exato momento em que a voz de Kaneda chegou pelo rádio até Morofuji, o ombro de Suzuki foi atingido em cheio, e o relógio em seu pulso começou a apitar estridentemente, anunciando sua eliminação.
A proteção ao redor da VIP se despedaçou num instante.
Morofuji se virou e saiu correndo em pânico cego, apenas para se enrolar com os próprios pés e cair com força no chão.
— M-Morofuji! Ele está aqui — ele está vindo! Corre!
Da direção daquele grito desesperado, Koenji surgiu.
Ele não correu. Não se escondeu. Apenas avançou caminhando, com a postura relaxada, como se aquilo não passasse de um passeio casual. Se debatendo no chão, Morofuji apanhou uma arma caída de um aliado derrotado e apontou na direção dele.
— N-Não chegue mais perto!
— Você é a VIP, não é? — disse Koenji com calma. — Se revidar, só será eliminada inutilmente.
Enquanto ele falava com uma serenidade irritante, Komiya forçou-se a se levantar e avançou na sua direção.
— Que diabos você está tentando fazer?!
— Não há nada a explicar — respondeu Koenji, sem qualquer sinal de irritação. — Eu sou da Classe A. Vocês são da Classe B. Somos inimigos.
— I-Isso é…! Mas você está sozinho! Como conseguiu nos encontrar?!
— Francamente… — suspirou Koenji. — Eu não tinha a menor intenção de cruzar com vocês. No entanto, quando se ouvem vozes tão deselegantes e tiros no meio de uma natureza tão grandiosa, é impossível não perceber. Ou estou errado?
Os gritos imprudentes de Komiya. Os disparos ecoando em bravata. Foram esses sons que o atraíram até ali.
— Eu já tinha passado um dia inteiro aproveitando esta ilha — continuou Koenji. — Estava prestes a voltar para o barco.
Ele ergueu o fuzil de assalto e sorriu.
— Mas achei que valia a pena testar antes. Só isso.
— Droga… isso é culpa sua, Komiya!
— D-Desculpa…
— Não o culpe com tanta severidade — disse Koenji, de forma quase agradável. — Graças a ele, eu me diverti bastante.
Ele apontou o fuzil na direção de Morofuji.
— Quando se experimenta de verdade, este jogo de sobrevivência é até bem divertido.
O cano da arma, empunhada por Koenji, estava apontado diretamente para ela, enquanto ele expressava tamanha gratidão.
Convencida de que aquele era o seu fim, Morofuji fechou os olhos. Mas o disparo nunca veio.
— Vocês vieram porque há suprimentos por aqui, correto?
— I-Isso…
— Sugiro que responda com honestidade. Isso lhe será mais útil.
— S-Sim. Há munição aqui… viemos recolhê-la…
— Entendo. Então vocês deveriam pegar os suprimentos e levá-los de volta para a Classe B.
— O… o que você quer dizer?
— Ser derrotados por mim não passou de um infortúnio — disse Koenji com leveza. — Seria cruel atormentar apenas a Classe B sem motivo.
— Não caia nessa, Morofuji! — gritou um dos estudantes já eliminados. — No momento em que você abrir a caixa, ele vai atirar pelas costas! O Koenji só quer a munição!
— S-Sim…! — Morofuji assentiu freneticamente, agarrando-se ao aviso como a uma tábua de salvação.
Observando a cena, Koenji soltou um suspiro baixo — leve, quase cansado.
— Francamente… — disse ele. — Isso está tão longe da verdade quanto é possível estar.
Sua voz não trazia qualquer irritação.
— Vencer ou perder este exame especial é algo que não tem a menor importância para mim. Não tenho interesse algum em eliminar a VIP daqui, nem em obter suprimentos.
Seu olhar desviou-se por um instante para Morofuji.
— No entanto, para você, os pontos da VIP são algo relevante, não são? O mesmo vale para os suprimentos.
Ele deu de ombros, de forma despreocupada.
— Bem, tanto faz.
Com isso, Koenji se virou e começou a se afastar.
— E-Espera…! — chamou Morofuji. — Você vai mesmo… me deixar ir?
— Você é bastante persistente — respondeu Koenji, parando apenas o tempo suficiente para olhar por cima do ombro.
— Se deseja tanto assim, devo eliminá-la aqui mesmo e mandá-la de volta para casa?
O fuzil de assalto ergueu-se com suavidade, o cano apontado diretamente para Morofuji. A resposta veio de imediato — ela balançou a cabeça com força, o pânico estampado no rosto.
— Muito bem — disse Koenji, abaixando a arma. — Então seguirei meu caminho.
Ele voltou a caminhar.
— Apenas certifique-se de não interferir comigo daqui em diante. Estava achando que já era hora de retornar ao navio.
Aquilo era, à sua maneira, a forma de misericórdia de Koenji. E, ao mesmo tempo, um aviso — absoluto, e impossível de ser ignorado.
*
Cerca de trinta minutos antes da súbita onda de eliminações atingir a Classe B.
Exatamente às onze da manhã, a Classe C entrou no primeiro período de eventos do segundo dia. No momento em que soubemos que todos os quadrantes ao longo do perímetro externo da ilha haviam sido designados como áreas proibidas, convocamos imediatamente uma nova reunião estratégica.
Mesmo levando em conta que grande parte do perímetro era composta por oceano, o número ainda assim caiu como um golpe: cinquenta e seis quadrantes, eliminados de uma só vez.
A percepção se espalhou pelo grupo, o choque evidente no rosto de todos.
— Então as áreas restritas podem continuar avançando para dentro…? — murmurou Hashimoto, formulando a hipótese em voz alta.
Morishita prontamente acrescentou:
— Não é um cenário improvável. Se continuar encolhendo até restar apenas uma única área, o confronto se tornará inevitável. Imagino que Ayanokoji Kiyotaka veja da mesma forma, certo?
Era um mecanismo simples — brutal em sua eficiência. Uma forma de forçar classes que haviam mantido cuidadosamente distância umas das outras a convergir, gostassem ou não.
— Sim — respondi de forma serena. — Mesmo que não avance diretamente para o centro exato, expandir as zonas restritas do perímetro para dentro faz todo o sentido. Do ponto de vista de um jogo de sobrevivência, cujo destino final são as balas de tinta e as eliminações, é uma das abordagens mais lógicas.
Se, a cada evento, todos os quadrantes restantes do perímetro fossem tornados inutilizáveis, mais quarenta e oito desapareceriam. Após a terceira ocorrência, quarenta quadrantes já teriam sido perdidos. Nesse ritmo, a ilha poderia encolher até um único quadrado já amanhã.
Considerando a estrutura do exame — três noites e quatro dias — a contração provavelmente seria mais gradual. Ainda assim, seria prudente assumir que, no último dia, o campo de batalha teria se reduzido a algo muito próximo disso.
Nordeste. Noroeste. Sudeste. Sudoeste. Ou talvez o próprio centro. A ilha quase certamente começaria a colapsar em torno de um determinado eixo — mas, por ora, era impossível determinar qual.
Mais importante ainda: a escola não facilitaria as coisas. Qualquer padrão óbvio o bastante para ser deduzido cedo demais anularia o propósito do exame. E assim, todas as classes ficaram presas ao mesmo dilema: continuar coletando os suprimentos dos eventos enquanto avaliavam, a todo instante, para onde deveriam se mover em seguida.
Se um padrão definitivo surgisse, dificilmente seria antes do terceiro dia — ou talvez apenas no quarto, quando a redução atingisse seu estágio mais severo.
— Neste momento, todos estão focados em se mover pela ilha, reunir suprimentos e manter a própria condição física — continuei. — Mas isso é apenas o prólogo. Quando o mapa nos forçar a lutar em espaços apertados, o posicionamento vai importar mais do que os estoques. A classe que conseguir aproveitar até a menor mudança de impulso pode acabar levando tudo.
— Então vai ser decidido por um jogo de sobrevivência puro? Se for assim, meus braços já estão coçando para lutar.
Morishita cerrou o punho, como se estivesse fazendo pose de coragem, mas o gesto produziu apenas um som seco e fraco. Na verdade, essa possibilidade estava se tornando cada vez mais real.
Não importava quantas balas alguém reunisse, nem o quão cuidadosamente racionasse comida — um único momento de descuido podia eliminar dez… vinte… estudantes num instante.
O que levantava uma questão desconfortável. Afinal, qual era o verdadeiro significado dessas três noites e quatro dias?
Sem dúvida, o sistema criava pequenas vantagens — ganhos marginais capazes de inclinar a balança. Mas a escala parecia excessiva se esse fosse o único objetivo.
A ilha existia para ensinar sobrevivência por meio da privação?
A comida das caixas de suprimentos nunca era abundante, e manter o próprio estado físico sob escassez constante exigia disciplina. Vivenciar esse tipo de pressão não era inútil. Mas…
Tratava-se de um jogo de sobrevivência que continha elementos de sobrevivência?
Ou de um treinamento de sobrevivência disfarçado dentro de um jogo de eliminação?
Ou talvez este exame especial fosse apenas um portal — algo que, a partir daqui, se conectaria a uma prova completamente diferente.
— Seria ótimo pra gente se as outras classes simplesmente se chocassem entre si na área reduzida. Se não diminuirmos nem um pouco a diferença de números, vamos ficar em clara desvantagem num tiroteio.
Enquanto meus colegas continuavam debatendo, desliguei-me da conversa, reduzindo os possíveis desdobramentos a um punhado de padrões. Um a um, sobrepus esses cenários ao mapa virtual que já havia construído na minha mente.
O confronto caótico no final era inevitável.
Se, por puro azar, os três VIPs fossem eliminados por fogo cruzado nesse caos, o jogo acabaria ali mesmo. Mas deixar apenas os VIPs recuarem também não era solução — isso romperia a coordenação com o comandante, nos privaria de informações sobre as posições inimigas e transformaria os próprios VIPs em alvos prioritários. A existência de táticas voltadas para isolar indivíduos provavelmente tinha sido pensada exatamente para situações como essa.
No fim das contas, por mais que refinássemos nossa estratégia, jamais conseguiríamos elevar as chances a cem por cento.
Ainda assim, aumentar nossas probabilidades nem que fosse em um único por cento já era motivo suficiente para construir a melhor estrutura possível.
Como as quatro classes reagiriam à expansão das zonas restritas?
Que conclusões tirariam — e de que forma essas conclusões moldariam seus movimentos?
Eu precisava montar a lógica e, então, prever vários finais possíveis.
Precisava pensar mais rápido do que qualquer outro sobre como intervir — como conduzir os acontecimentos ao desfecho mais favorável.
O papel dos VIPs. A movimentação dentro da floresta densa. O estado psicológico que cada classe alcançaria no momento da convergência.
As trajetórias futuras das Classes A e D. Até onde a Classe B pretendia manter a Classe C encurralada.
Levando tudo isso em conta, a primeira pergunta era simples: como esta classe deveria se mover a seguir?
E então havia a variável ainda não resolvida.
Koenji — movendo-se sozinho, livremente, sem restrições. A rota que provavelmente seguiria a partir daqui. Uma presença com a qual Horikita, sem dúvida, também estava lidando.
Eu deveria encarar isso como uma oportunidade? Uma chance de provocá-lo, observar sua reação e — se nada mais — tentar algum grau de controle, mesmo que fracassasse?
Enquanto sobrepunha as localizações dos eventos exibidas no tablet do analista com os relatórios que chegavam do comandante, finalmente ergui o olhar e observei meus colegas.
— Vamos sair imediatamente — disse. — Vamos atrás dos suprimentos de comida em G11.
Fugir só adiaria o inevitável. Um confronto viria de qualquer forma. Aquilo não era uma decisão de esperar — era uma decisão de atacar primeiro.
Os estudantes trocaram olhares, uma leve confusão passando por seus rostos.
— É ruim que os suprimentos não tenham surgido numa área segura de recuperação. Mas ir para G11 significa que vamos bater de frente com a classe do Ryuen, não é? E eles estão um pouco mais perto do que nós.
Matoba foi o primeiro a se opor, dizendo que não gostava da aposta — avançar só para chegar tarde demais e encontrar os suprimentos já tomados. Argumentou que talvez esse evento fosse melhor de observar do que disputar.
Rejeitei a ideia de imediato e deixei claro que partiríamos para a ofensiva.
— Chega de discussão — falei. — Justamente porque eles estão mais perto, precisamos chegar lá primeiro.
O grupo de Ryuen provavelmente chegaria em dez a quinze minutos. Nós, por outro lado, levaríamos de quinze a vinte.
Essa diferença de cinco minutos era decisiva — e fechá-la exigia ação imediata.
— O Ayanokoji é o líder — disse Hashimoto. — A gente confia nele e segue. É assim que funciona, certo?
— É. Acho que sim — respondeu Matoba, embora a inquietação em sua voz ainda não tivesse desaparecido por completo.
Essa inquietação não era infundada. Avançar para um local onde o inimigo já poderia estar à espreita beirava o suicídio. Mas não tentei tranquilizá-lo. Em vez disso, seguimos em frente.
Cinco minutos depois, na atualização seguinte do GPS, todo o nosso grupo cruzou para a área G12.
— A Classe B parece estar dividida em três grupos — veio o relatório pelo rádio. — Um grupo de dez está se dirigindo para E9. Outros dez estão em G8. Os membros restantes estão se aproximando de G11.
À medida que a informação chegava, atualizações sobre as outras classes vieram em rápida sucessão.
— Então é isso — murmurou alguém. — Uma luta de verdade, hein… Mesmo com mais de vinte já fora, finalmente está quase equilibrado. Ou melhor — deveríamos agradecer por estar equilibrado?
— Não necessariamente — rebateu outra voz. — Eles provavelmente já perceberam que estamos indo para G11. No pior cenário, recolhem todo mundo e vêm pra cima com força total. Se isso acontecer… o que fazemos?
— Isso não vai acontecer — disse eu. — Mesmo que pareça que estamos mirando G11, eles não conseguem saber o quão sérios estamos. Se eles chamarem de volta as equipes enviadas para coletar suprimentos, nós recuamos imediatamente. Eles sabem disso.
Por estarem mais próximos, a Classe B ganharia vantagem no momento em que alcançasse a área do objetivo.
Receber-nos em seus próprios termos — em um terreno que controlavam — era uma vantagem significativa. Só isso já lhes dava margem para esperar, sondar e avaliar o quanto estávamos realmente comprometidos em tomar os suprimentos.
Não havia necessidade de escalar para um confronto total enquanto não tivessem certeza.
Reorganizamos a formação com cuidado. A linha da frente e o meio foram reforçados com guardas, em sua maioria garotos. Os dois VIPs ficaram posicionados na retaguarda; eu me coloquei logo à frente deles, enquanto Hashimoto fechava a formação, ancorando a linha como se protegesse as costas dos VIPs com a própria presença.
— Até eu estou começando a ficar um pouco nervoso agora — murmurou Hashimoto.
Seja pelo peso do momento ou pela arma em si, o suor começou a se acumular em suas mãos. Ele ajustou a empunhadura, firmando a arma com a esquerda enquanto limpava a direita no agasalho. Um instante depois, repetiu o gesto com a outra mão.
Eram 11h15. Quando as informações mais recentes chegaram, soubemos que o agrupamento de GPS de Ryuen — os que estavam à espera — já estava praticamente ao alcance da mão. Como de costume, os relatórios sobre as posições das outras classes vieram em seguida.
— Eles estão logo à frente — sussurrou alguém. — Dois… talvez três minutos se continuarmos andando.
Ergui a mão, sinalizando para todos pararem.
— Vamos esperar aqui por cinco minutos.
— Cinco minutos? — alguém perguntou, a incredulidade transparecendo na voz. — Isso é mesmo uma boa ideia? Se hesitarmos, eles podem pegar os suprimentos primeiro.
— Eles não têm essa margem — respondi.
Eles estavam claramente posicionados para nos receber, firmes numa formação compacta. Se desviassem sequer uma parte da atenção para os suprimentos, a resposta inicial a um ataque seria atrasada.
Logo, o ambiente mergulhou em silêncio. Um silêncio para garantir que não perderíamos o som caso eles atacassem primeiro.
Restava apenas o som da nossa própria respiração — tensa, contida — ecoando suavemente entre as árvores. Os cinco minutos se estenderam de forma antinatural, parecendo mais uma hora do que minutos. Então Shiraishi falou, a voz pouco acima de um sussurro.
— Quase não há movimento. Eles estão completamente focados em nós, mantendo posição. O Shimazaki-kun disse para avisar a qualquer momento se quisermos usar uma tática.
— Não vamos usar — disse eu. — Enquanto não a usarmos, eles não conseguem relaxar. Essa tensão constante vale mais do que a própria tática. Mais importante — passe também os dados detalhados de GPS das outras classes.
Algumas pessoas me olharam, claramente se perguntando por que informações sobre as outras classes importavam naquele momento. Ignorando os olhares, pedi que Shiraishi transmitisse tudo o que conseguisse extrair do comandante, gravando cada detalhe na memória.
— Mais cinco minutos — falei.
— Sério? — alguém murmurou. Depois de um instante: — Tudo bem.
Como lutaríamos — se lutássemos — já estava decidido. Poderíamos ter avançado cinco minutos atrás. Poderíamos avançar agora. E o resultado também já era claro.
Mas, se fôssemos atacar, então seria melhor fazê-lo no momento ideal. Outro período de silêncio se seguiu. Quando ele se rompeu, o relógio já havia passado das 11h25. Por meio de Shiraishi, confirmei que o grupo à frente ainda não havia se movido e que os relatórios mais recentes sobre as outras classes haviam chegado.
Só então ergui o braço.
— Vamos avançar — disse. — Se avistarem o inimigo, não hesitem: ataquem. E durante o confronto, o comando será seu, Matoba.
— O quê? Você não vai assumir o comando, Ayanokoji?
— Pelo bem da coordenação dentro da classe — respondi —, faz mais sentido deixar isso com você na linha de frente.
— Entendi. — Matoba respirou fundo e então assentiu. — Certo. Eu assumo. Vamos!
Não era uma função que ele desejasse assumir, especialmente nessas circunstâncias — mas aceitou sem discutir. Um instante depois, Hashimoto se aproximou e murmurou:
— Ayanokoji, você fica aqui atrás protegendo os VIPs, beleza? Enquanto eles estiverem seguros, ainda acho que dá pra gente sair com a vitória.
Ele já pensava adiante — no que aconteceria se Matoba vacilasse.
— Entendido — respondi.
Matoba disparou em corrida para a linha de frente, gritando uma ordem curta e incisiva, tanto para se encorajar quanto aos outros, enquanto avançava.
E então—
Crack.
Em algum ponto além das árvores, um galho grosso se partiu com um estalo seco. A floresta respondeu imediatamente com tiros.
Uma rajada rasgou o ar, dilacerando-o com estampidos agudos. As balas de tinta passaram cortando, despedaçando folhas e espalhando cores pela vegetação. A linha de frente recuou instintivamente, os ombros se contraindo diante da violência repentina.
O inimigo havia atacado primeiro. A Classe B havia detectado nossa presença e lançado a primeira salva.
— Eles estão atirando! Respondam o fogo — sem poupar munição! — alguém gritou.
Aquilo já não era mais treino. Dedos se fecharam nos gatilhos e os estudantes despejaram fogo automático numa tempestade frenética. Os disparos atravessavam galhos finos em ângulos irregulares, respingando tinta nos troncos e na folhagem como explosões de sangue.
Ainda assim, nada acertava em cheio. A distância era grande demais — quinze, talvez vinte metros, no mínimo.
O inimigo estava entrincheirado entre árvores e rochas, expondo apenas fragmentos de si por vez. Um vislumbre de ombro, um lampejo de movimento — e então desapareciam de novo, recuando no instante em que eram vistos, apenas para responder com tiros cronometrados com precisão.
— Três — frente-direita, em diagonal! Tem mais um mais atrás!
— Fixem eles! Concentrem o fogo na base da árvore!
Ao comando de Matoba, a linha de frente abriu fogo em uníssono. As balas de tinta riscaram o ar em rápida sucessão, arrancando casca dos troncos e espalhando estilhaços.
Mas—
O alarme que deveria soar de um relógio atingido nunca veio. Em vez disso, o contra-ataque foi quase imediato.
Um disparo entrou em ângulo baixo, passando sob a linha de fogo e atingindo em cheio o peito de um dos avançados da Classe C. Tinta vermelha viva se espalhou pelo uniforme, seguida por um tom eletrônico agudo que cortou a floresta.
— Um fora! Recuem um pouco!
— Droga — de onde eles estão atirando?!
O pânico se espalhou num instante.
A Classe B não perdeu a oportunidade. O fogo irrompeu das sombras pelos dois flancos, tiros secos estalando — mais de uma dúzia em rápida sucessão. A formação se desfez, colapsando num caos difícil de encarar.
— Ugh—!
O segundo e o terceiro caíram quase em sequência. Sem conseguir se expor o suficiente para se defender, aqueles com as maiores áreas descobertas foram eliminados um após o outro.
Hashimoto levantou a voz imediatamente. Qualquer traço de sorriso havia desaparecido de seu rosto.
— Linha de frente, recuem para cobertura! Usem as árvores direito! Linha do meio — suprimam enquanto disparam!
Os estudantes obedeceram às ordens, mas a floresta jogava contra eles. As árvores estavam próximas demais, os campos de visão emaranhados e estreitos. O fogo da Classe B era claramente mais preciso. Eles liam nossas posições, ajustavam os ângulos e pressionavam a vantagem.
Ainda assim, um dos nossos disparos encontrou o alvo — quase por milagre. Um pequeno tom eletrônico soou no fundo da floresta, e um dos inimigos surgiu à vista. Nesse instante, o ar do nosso lado mudou — ainda que sutilmente.
— Acertamos um! Derrubamos um!
— Bom! Mantenham eles sob pressão!
Por um breve momento, o ritmo do nosso fogo se recompôs. Então o inimigo se adaptou.
Sincronizando-se ao som dos nossos disparos, eles responderam com precisão, como se mapeassem nossas posições apenas pelo ouvido. As balas de tinta cortaram por cima, espirrando violentamente nas árvores atrás de nós.
— Três à frente pela esquerda — em diagonal! Tem outro atirando mais fundo, na sombra das árvores!
— Não tentem flanquear — é perigoso demais! Abram distância!
A ordem foi dada, mas o estudante da direita reagiu uma fração de segundo tarde demais. Uma bala de tinta rasgou seu ombro, e o quarto alerta eletrônico ecoou pela floresta.
Quase imediatamente, outro disparo se seguiu — baixo e preciso — acertando em cheio a perna de um estudante que estava agachado atrás de uma árvore. O alarme inconfundível soou novamente.
Cinco fora.
Tinta vermelha espessa escorria dos uniformes, pingando no chão da floresta em gotas pesadas.
A troca durara apenas alguns minutos, mas carregava a densidade de algo muito mais longo. Os pulmões queimavam. Os dedos tremiam. O próprio ar parecia saturado de tensão.
— Estamos levando tiros! Eu nem consigo dizer se estamos acertando eles!
Um dos estudantes, já agachado para sair da linha de fogo, socou a terra em frustração.
— Não — eu acertei um! Tenho certeza! O meu disparo conectou!
— Lado direito — tem pelo menos cinco deles ali!
Inspirei fundo, uma única vez, e forcei o olhar além do caos, mantendo o foco à frente.
A Classe B permanecia entrincheirada, corpos engolidos pela sombra e pela casca das árvores. O ritmo de fogo deles jamais vacilava. Fosse pelo excesso de munição obtida em suprimentos anteriores ou simplesmente por disciplina superior, a diferença era inconfundível.
Mesmo observando de trás, estava claro. Os números talvez fossem próximos, mas em munição, impulso — e acima de tudo, frieza — a Classe B nos superava amplamente.
Enquanto nossas baixas se acumulavam, as deles eram mínimas. Um, talvez dois no máximo.
Continuar aquela troca só aprofundaria a ferida. O desfecho daquele confronto já estava decidido. Mantendo a voz firme e concisa, dei a ordem.
— Qualquer luta adicional só vai aumentar nossas perdas. Vamos recuar — agora.
— R-Recuar? Quer dizer… vamos recuar de verdade?!
Sinalizei para todos que ainda estavam de pé. A ordem se espalhou instantaneamente. A linha de frente começou a se retirar — sem dar as costas, recuando passo a passo, armas erguidas, cuidadosos para não provocar uma perseguição.
Morishita se desprendeu da linha do meio e disparou em direção à retaguarda.
Foi nesse instante que aconteceu. Um dos estudantes da Classe B avançou de repente dentre as árvores, rompendo a cobertura. O cano de sua arma subiu em um movimento suave e treinado, travando diretamente em Morishita.
— Cuidado, Yamamura Miki—!
Morishita gritou ao agarrar Yamamura pelos ombros e puxá-la violentamente para trás. No mesmo instante, uma bala de tinta se chocou contra as costas de Morishita.
— Ggh…!
O rosto dela se contorceu de dor. Sem sequer dar tempo para reagir, um segundo disparo a atingiu, seguido por um terceiro — cada um acertando em cheio suas costas expostas.
Hashimoto atirou em desespero, devolvendo fogo na direção das árvores, mas nenhum disparo encontrou o alvo. O estudante da Classe B recuou imediatamente, desaparecendo na floresta como se fosse engolido pelas sombras.
— Ugh…
Um gemido baixo escapou dos lábios de Morishita. Agora não havia mais dúvida — o alarme impiedoso de seu relógio de pulso soou, alto e definitivo.
— M-Morishita-san!
— Parece que… é até aqui que eu chego — disse ela, com voz fraca. — Pelo menos… você deve correr. Fuja…
— P-Por quê… por que você protegeria alguém como eu?!
Por um breve instante, uma possibilidade diferente cruzou minha mente.
Morishita realmente havia protegido Yamamura? A arma já estava apontada para Morishita desde o início. Do ângulo em que eu estava, quase parecia que ela havia percebido que era o alvo e, instintivamente, tentou puxar Yamamura para a linha de tiro — apenas para falhar.
Não. Nem mesmo Morishita faria algo assim…
…ou talvez fizesse.
— Acho que — murmurou ela, esboçando um sorriso fraco — ainda restava um resquício de bondade no meu coração. Só isso.
Qualquer que fosse a verdade, não havia tempo para pensar nisso.
— Viva, Yamamura Miki — disse Morishita em voz baixa. — E, no meu lugar… torne-se uma amazona—
De repente, seu corpo perdeu a força e cedeu.

— Morishita-san…? Morishita-san!
Os olhos dela haviam se fechado, e seu corpo pendia frouxamente apoiado em Yamamura — até que, de repente, eles se abriram de supetão.
— Você devia se apressar e ir embora — acrescentou. — Eles podem vir atrás de você.
— Eh— ah… s-sim… eu vou…
Então ela voltou o olhar para mim.
— Ayanokoji Kiyotaka — disse Morishita, encarando-me. — Deixo o resto com você. Acho que agora vou relaxar no navio.
Para alguém que acabara de ser eliminada, ela não parecia nem um pouco incomodada. Se é que algo transparecia, era satisfação — quase alívio — por ter saído tão cedo. E assim, a autoproclamada Amazona da Floresta Densa — que havia até se oferecido para atuar como guarda — foi retirada do jogo, desaparecendo da turma sem jamais ter feito uma contribuição decisiva.
No final, por um breve instante, uma atmosfera estranhamente tranquila pairou sobre nós, mas ainda assim continuamos nossa retirada apressada.
*
Nós nos desvinculamos da área G11 e recuamos até H12, o ponto de retirada designado em caso de derrota. Depois de ordenar que a turma descansasse e recuperasse o pouco de compostura que ainda tinha, afastei-me um pouco com Shiraishi e Hashimoto para conversar longe dos outros.
Yamamura estava ali sozinha. Ao notar nossa aproximação, hesitou, como se fosse se afastar, mas quando eu disse que não havia problema em ficar, ela assentiu em silêncio e permaneceu onde estava.
— Não parece que estamos sendo perseguidos — disse Shiraishi, após conferir os relatórios mais recentes. — Por enquanto, acredito que podemos nos considerar em segurança.
— Fomos completamente superados — murmurou Hashimoto, meio resignado. — Isso deixa bem claro o quão forte é quem sabe esperar. Comparados a nós, eles têm muito mais gente que é simplesmente… melhor em jogos de sobrevivência pura.
Havia, sem dúvida, uma diferença entre atacar e defender, mas mesmo levando isso em conta, a impressão dele não estava errada. Não achei que a diferença de habilidade bruta fosse esmagadora. O que se destacava era a intensidade — a pressão e o ímpeto da vontade deles. A liderança dominante de Ryuen e suas ordens incessantes estavam claramente conduzindo a Classe B na direção certa.
— Tenho uma boa notícia — disse Shiraishi, interrompendo com naturalidade. Ela continuara trocando informações pelo rádio mesmo depois de confirmar que a Classe B não estava avançando.
— Os sinais de GPS dos dez alunos da Classe B que se dirigiram a E9… todos, exceto um, desapareceram.
— Hã? — Hashimoto piscou. — O que isso quer dizer?
— Parece que a rota deles se sobrepôs completamente ao GPS do Koenji-kun — respondeu Shiraishi.
— Não me diga — Hashimoto falou devagar. — Você está dizendo que ele derrubou nove pessoas sozinho?
— Tudo indica que sim — respondi. — Se ele agiu por instrução da Horikita ou por puro capricho, não está claro. Pelo desenrolar dos acontecimentos, a segunda opção parece mais provável.
— Heh — Hashimoto sorriu. — Se isso for verdade, que reviravolta. Ryuen levou um golpe pesado.
Ele soava genuinamente satisfeito. E não estava errado — aquilo era quase certamente algo que Ryuen não havia previsto. Contra a Classe C, ele obtivera resultados quase ideais, trocando seis de nós por um ou dois deles. Mas, nos bastidores, havia perdido nove alunos.
Um dano desse porte não podia ser ignorado.
— Ainda assim — acrescentou Hashimoto —, enquanto nós mal conseguimos eliminar um ou dois, o Koenji derruba nove sozinho? Isso é uma troca absurda.
— O Koenji-kun não foi eliminado — continuou Shiraishi, calmamente. — Segundo o GPS, ele ainda está sozinho em E9.
Ou seja, além de eliminar nove adversários, ele o fizera sem ser derrotado.
— Um efeito colateral inesperado — murmurei. — Mesmo assim, a diferença entre a Classe C e a Classe B ainda é grande.
Sempre soube que Koenji era do tipo que esmagava qualquer inseto incômodo assim que ele aparecia. Se o contato ocorreu em uma área confinada e escalou para combate, isso por si só não era surpreendente. O que excedeu as expectativas foi o quão unilateral o resultado havia sido.
Ainda assim, duvidava que isso despertasse qualquer motivação real nele. Pelo contrário, parecia igualmente provável que, satisfeito depois de se divertir, ele simplesmente abandonasse tudo.
Era justamente por isso que eu não conseguia compartilhar do alívio simples e direto de Hashimoto ao saber que Koenji havia eliminado nove oponentes.
À primeira vista, parecia um ganho puro para nós — mas nada disso existia de forma isolada. O equilíbrio importava. Se as ações dele acabariam nos beneficiando ou desestabilizando ainda mais o campo era uma moeda ao ar, e uma que exigia cautela.
Enquanto Shiraishi, Hashimoto e eu continuávamos conversando, Matoba se aproximou vindo da linha de frente. Seu rosto estava tenso de exaustão, cada passo carregando o peso dos danos acumulados.
— Posso falar com você um momento? — perguntou em voz baixa.
— Se for para culpar o Ayanokoji pelo que aconteceu, poupe-nos disso — retrucou Hashimoto de imediato. — Ele está fazendo tudo o que pode com uma turma que já está meio destruída.
— Eu sei — respondeu Matoba, balançando a cabeça. — É justamente por isso que quero falar. Sobre ontem… não, sobre a conversa que interrompemos.
— A conversa que interrompemos? — inclinei levemente a cabeça, sem entender.
Após uma breve hesitação, Matoba falou novamente, com as palavras saindo rígidas, quase travadas.
— A aliança. Com a Classe D.
— Isso é algo que podemos discutir direito depois que este exame especial terminar — respondi com calma. — Mesmo que eu seja expulso, o acordo não será desfeito, então não se preocupe.
— Não — disse ele, agora com mais firmeza. — É justamente porque as coisas chegaram a esse ponto que eu quero falar disso agora. Sei que parece egoísta, mas depois daquela luta, finalmente caiu a ficha. Não estamos apenas deixando de avançar. Estamos perdendo a capacidade de nos mover. As áreas restritas com certeza vão continuar diminuindo. E quando isso acontecer, a Classe A e a Classe D podem decidir nos finalizar enquanto estamos fracos. Desse jeito… eu não vejo como sobreviver, muito menos vencer.
Enfrentar a Classe B de frente — e experimentar seu estilo agressivo e implacável — provavelmente o abalara mais do que ele queria admitir.
— É frustrante — admiti —, mas não posso negar. Acredito que estamos fazendo tudo o que podemos para vencer, mas não há garantia de que possamos reverter essa desvantagem.
— Eu sei — disse Matoba. — Por isso estou perguntando: podemos oficializar a aliança? Agora.
— Uma aliança?
— Se a Classe D estiver disposta a nos aceitar, quero unir forças imediatamente. Parece a melhor opção. Se a aliança se concretizar, teremos quase cinquenta pessoas juntas. Nesse ponto, nem seria mais uma recuperação. Seria uma ressurreição completa, não acha?
Era um pedido despido de orgulho, a tampa que ele mantivera fechada sendo finalmente arrancada. Ele falava como se não houvesse outro caminho.
Hashimoto respondeu de imediato, estendendo a mão e dando um tapinha no ombro de Matoba.
— Eu estava pensando a mesma coisa — disse Hashimoto. — Já avisamos a turma sobre a ideia da aliança. De qualquer forma, é só uma questão de tempo até a aliança C–D vir à tona, certo? Pode estar acontecendo um pouco mais rápido do que o planejado, mas sinceramente, acho que é a melhor forma de nos protegermos.
Até então, ele havia seguido minhas instruções sem reclamar, mas se existia um caminho mais seguro, era natural que quisesse escolhê-lo.
Um breve silêncio se instalou. Todos os olhares se voltaram para mim, respirações contidas, aguardando minha resposta.
— A razão de as coisas terem se deteriorado tanto é porque eu baixei a guarda — disse por fim. — Isso é responsabilidade minha. Mas justamente porque deixamos a opção da aliança em aberto, ela pode ser agora nossa última esperança. Se o Matoba — não, se todos na turma puderem aceitar isso, então acho que vale a pena apostar nela mais uma vez.
Matoba assentiu no instante em que terminei. Quase ao mesmo tempo, Hashimoto bateu as mãos em um aplauso seco.
— Vou explicar isso para os outros — disse ele. — Tudo bem por você?
— Sim. Conto com você.
— Certo. Deixa comigo.
Sorrindo, ele ergueu o polegar e saiu trotando em direção aos nossos colegas exaustos, sua energia destoando do cansaço geral.
Durante toda a conversa, Yamamura permanecera em silêncio, observando de lado. Agora, como se finalmente tivesse tomado uma decisão, olhou para mim com hesitação, claramente carregando algo no peito.
— O que foi? — perguntei. — Se tem algo te incomodando, diga.
— Ah — não, é só que… — ela tropeçou nas palavras, depois se forçou a continuar. — Fiquei um pouco surpresa, só isso. Você aceitou tão prontamente a proposta renovada do Matoba-kun, mesmo depois de ele ter recusado antes. Não pude deixar de pensar que… desculpa.
— Foi a decisão errada? — perguntei.
— N-Não, de forma alguma — ela se apressou em corrigir. — Dada a situação em que estamos, também acho que nos unir à Classe D é uma das melhores formas de proteger a turma agora. É só que… se isso iria acontecer de qualquer maneira, eu me perguntei se não teria sido melhor retomar a aliança antes. Se tivéssemos… talvez a Morishita-san não tivesse sido eliminada…
Nos olhos dela, parecia óbvio. Que, após a emboscada, eu poderia ter reaberto as negociações se realmente quisesse.
— A aliança foi algo que me pediram para abandonar — respondi de forma neutra. — Então não achei que fosse meu lugar trazê-la à tona novamente.
— Entendo. Você tem razão — disse ela em voz baixa. — Desculpa por dizer algo estranho.
Ainda assim, mesmo após ouvir minha resposta, Yamamura não pareceu aliviada — pelo contrário, uma sombra ainda mais profunda se instalou em seu rosto.
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