Ano 3 - Volume 3
Capítulo 3: Pressão Invisível
TUDO ACONTECEU em menos de uma hora desde o início do que deveria ser um exame especial longo e cansativo. Havia aqueles que cerravam os dentes, frustrados. Aqueles que ainda não conseguiam compreender o que havia acontecido. Aqueles que jaziam estendidos no chão, incapazes de se levantar. E aqueles que encaravam de volta, como se ardessem de ressentimento.
Aquilo era o semi-colapso da Classe C — provocado pelo ataque surpresa da Classe B, liderada por Ryuen. Enquanto observava de cima os alunos da Classe C exibindo uma variedade de expressões, Ryuen soltou um suspiro baixo.
Desde o momento em que decifrou as regras do exame e soube, pelo sorteio, que a Classe C começaria em uma área adjacente (vizinha), ele já havia decidido executar uma única estratégia, sem hesitação. Uma estratégia direcionada exclusivamente a Ayanokoji. Para derrotá-lo.
Em uma provação de três noites e quatro dias, táticas com limites rígidos de uso deveriam ser preservadas. Todos, instintivamente, buscavam evitar confrontos precoces. Ryuen explorou exatamente esse instinto. Aquilo não fora uma aposta inconsequente para decidir tudo na primeira hora. Pelo contrário — segundo os cálculos de Ryuen — tratava-se da contramedida mais eficaz contra Ayanokoji.
Um corpo além dos limites comuns. Uma mente igualmente excepcional.
Quanto mais o exame se prolongasse, mais tempo Ayanokoji teria para pensar. Para analisar. Para aplicar de forma brutalmente eficiente cada tática ao seu alcance. Ele leria o pensamento de Ryuen — o de Horikita e o de Ichinose também.
Portanto, a resposta era simples: atacar antes que Ayanokoji pudesse formular um plano concreto. E esse julgamento dera frutos. Enquanto Ryuen avaliava os resultados da emboscada, Katsuragi aproximou-se silenciosamente ao seu lado.
— Confirmei os números com Kaneda por meio do VIP — relatou. — Perdemos três. Eles perderam quinze. Entre os eliminados estão Kitou — um dos nossos alvos principais — e Nishikawa, o VIP designado deles.
Ele fez uma pausa, deixando o peso dos números se assentar.
— Sem dúvida, é um sucesso enorme. Melhor do que projetávamos. Além disso, parece que a Classe C se separou de três membros durante a retirada. Eles ainda estão vagando por perto. Se conseguirmos eliminá-los antes que nossa tática expire… — lançou um olhar a Ryuen. — Imagino que isso seja aceitável?
— Sim — respondeu Ryuen. — Se der certo, dá dezoito. Nada mal.
— No entanto, há um problema… — Katsuragi, carregando uma leve preocupação, enrijeceu a expressão. — Kondou e Komiya perseguiram os membros da Classe C que fugiram e ainda não retornaram. Kondou deve alcançá-los rapidamente, caso não tenha tomado um caminho errado, mas Komiya se afastou bastante e agora está isolada.
O relatório veio acompanhado de um detalhe desagradável.
— Seria melhor se Kondou não alcançasse ninguém — disse Ryuen. — Mesmo que avance sozinho, não imagino que consiga fazer algo contra um Ayanokoji em alerta. Deixe-o.
— Entendido. Então devo enviar Yamashita para buscar Komiya? Se houver preocupação em deixar uma garota sozinha, posso designar mais um guarda masculino.
Buscar alunos separados não era algo que qualquer um pudesse fazer. Era essencial alguém capaz de se coordenar com o comandante.
— Sim, isso serve.
Ryuen inicialmente concordou com o plano de Katsuragi de enviar o mínimo necessário. Mas apenas por um instante.
— Não — mande dez.
Ele imediatamente voltou atrás e revisou a ordem, aumentando drasticamente o número de pessoas.
— Dez pessoas? O risco de confronto parece baixo. Isso é apenas precaução? — Katsuragi franziu a testa. — Não me oponho à cautela, mas isso vai desgastar o grupo sem necessidade.
— Eu quase esqueci disso — a voz de Ryuen baixou, fria e deliberada. — Andar em um grupo pequeno é o mesmo que dar uma pista àqueles desgraçados.
Katsuragi ficou em silêncio por um momento. Então, a compreensão surgiu em seu rosto.
— Entendo. Claro. A tática de bloqueio de GPS está prestes a expirar. Isso significa que nossa posição ficará exposta para as outras classes ao mesmo tempo, certo?
— Exatamente. Eles vão perceber que há um VIP misturado entre os enviados.
A tática de Identificação de Pessoa existia justamente para isso — permitia que uma classe verificasse de quem era o sinal de GPS observado. Se o tempo e os padrões de movimento fossem claros demais, o inimigo poderia identificar o status de Yamashita sem muito esforço.
No entanto, se se movessem em um grupo de dez, mesmo que o VIP estivesse entre eles, a chance seria de um em dez. Ryuen julgou que nenhuma classe gastaria uma tática valiosa com probabilidades tão baixas. A barreira psicológica, por si só, já os faria hesitar.
Katsuragi assentiu lentamente.
— Pode ser… mas tem certeza? Isso pode interferir nos nossos planos futuros.
Em vez de responder à preocupação, Ryuen mudou o foco.
— Mais importante: quantas rodadas ainda restam?
— Aproximadamente metade. Com certeza precisaremos reabastecer nos próximos eventos, mas, por enquanto, ainda conseguimos lutar conforme o planejado.
Mesmo após receber o relatório, a expressão de Ryuen não suavizou. Pelo contrário, sua cautela aumentou. Por qualquer métrica razoável, os resultados haviam sido excepcionais — tão bons que pedir mais seria ganância. E, ainda assim, Ryuen não conseguia comemorar.
— Seu plano funcionou perfeitamente — disse Katsuragi, querendo entender o motivo. — Mas você não parece nem um pouco satisfeito.
Antes que Ryuen respondesse, Ishizaki apareceu correndo, ofegante.
— Ryuen-san! Vamos atrás da Classe C agora e esmagá-los! Estamos totalmente prontos!
Alunos confiantes em sua força física se reuniram atrás dele, ansiosos. Com uma única ordem, a perseguição poderia começar.
— Não. Vamos parar por aqui.
No entanto, Ryuen não ordenou o ataque como planejado originalmente, mas mandou recuar. As palavras cortaram o ímpeto como uma lâmina.
— Hã!? C–Como assim!? Funcionou, não funcionou!?
Antes da emboscada, Ryuen havia deixado claro: se o inimigo fugisse, eles pressionariam. E, como a operação superara as expectativas, Ishizaki assumira que a perseguição era inevitável.
Katsuragi também pareceu inquieto com a contenção inesperada de Ryuen.
— Você realmente não vai persegui-los? — perguntou, confuso. — Se deixarmos a Classe C se afastar agora, talvez nunca mais tenhamos uma chance como esta.
O raciocínio de Katsuragi era sólido. Naquele momento, ainda era possível encurtar a distância. Porém, quando o bloqueio de GPS expirasse, ataques surpresa se tornariam quase impossíveis. Se havia um momento para atacar, era aquele.
— Algo está te incomodando? — perguntou Katsuragi, tentando acompanhar o raciocínio dele.
— Se a emboscada tivesse sido perfeita — respondeu Ryuen —, eu os teria levado à aniquilação total.
— Então isso não foi um sucesso para você?
— Ele ofereceu mais resistência do que eu esperava.
Ryuen murmurou, fixando o olhar em uma única figura à distância — Kitou, que, agora eliminado, seguia de volta ao ponto inicial.
— Nós certamente gastamos algum tempo, mas nossas perdas foram mínimas.
— Esse não é o ponto — retrucou Ryuen. — O problema é que não derrubamos quem realmente precisávamos. Se tivéssemos congelado Ayanokoji naquela emboscada, eu teria feito exatamente o que você e o Ishizaki queriam — esmagado o lixo restante. Mas enquanto o desgraçado mais problemático ainda estiver de pé, não me surpreenderia se ele virasse o jogo mesmo contra o dobro de números.
Avançar demais e perseguir com ganância poderia entregar ao oponente uma posição superior — e convidar um contra-ataque. Ou pior: levar direto a uma armadilha.
Pesando esses riscos contra os ganhos, Ryuen escolheu interromper a perseguição.
— B–Bem, é verdade que o Ayanokoji é um monstro — gaguejou Ishizaki, apertando a arma com mais força. — Mas isso não é uma luta de socos, certo? Com isso aqui, até eu conseguiria derrubá-lo.
Enquanto falava, Ishizaki ergueu a espingarda que segurava.
— Talvez — respondeu Ryuen, sem sequer olhar. — Se o cercarmos ou o encurralarmos em um lugar sem saída. Aí, sim.
Seu olhar se voltou para as profundezas da floresta — a direção para onde Ayanokoji e os sobreviventes da Classe C haviam fugido.
A visibilidade ali era ainda pior. O terreno, irregular e traiçoeiro. As árvores altas cresciam densas o suficiente para oferecer cobertura infinita, inúmeras oportunidades para se reagrupar, se esconder, planejar.
Além disso, havia o panorama geral a considerar. Se as três classes restantes optassem por evitar mais conflitos, o último lugar da Classe C estaria praticamente garantido.
— Com um VIP já eliminado, Ayanokoji não pode mais se dar ao luxo de jogar na defensiva — disse Ryuen. — Ele será forçado a agir. E isso significa que não há motivo para nos lançarmos contra ele primeiro.
Após ouvir tudo, Katsuragi assimilou a estratégia de retirada de Ryuen à sua maneira.
— Não nego que dá vontade de dizer que você está sendo excessivamente cauteloso com Ayanokoji — admitiu. — Mas, assumindo vigilância máxima… recuar agora pode ser a decisão certa. O simples fato de a emboscada ter funcionado já é um ganho líquido. Nós, sem dúvida, quebramos o ímpeto inicial da Classe C. E, mais importante — provamos que Ayanokoji não é invencível. Só isso já tem valor.
— Exatamente — disse Ryuen.
Na verdade, o que Ryuen havia obtido com aquela emboscada não se limitava à eliminação física de metade da Classe C — incluindo seu VIP e Kitou. Mais importante do que qualquer outra coisa era esta simples verdade: nem mesmo Ayanokoji era absoluto.
Se ele fosse realmente onipotente, teria previsto a emboscada. No momento em que as zonas iniciais foram anunciadas, teria antecipado o movimento de Ryuen, se afastado imediatamente da Classe B e escapado ileso. Mas não foi isso que aconteceu.
O fato de que até mesmo o inimigo mais formidável possuía fissuras em sua armadura — por menores que fossem — era, para Ryuen, uma grande salvação.
— Ótimo. Então não vamos perder tempo — disse Katsuragi. — Vou organizar um grupo de busca com dez pessoas, incluindo Yamashita, e enviá-los imediatamente.
Ele chamou Nomura, explicou a situação de forma breve e colocou tudo em movimento sem demora. Ishizaki e alguns outros ainda fervilhavam com a adrenalina não gasta, a euforia da vitória azedando em frustração por serem contidos. Mesmo assim, reprimiram aquelas emoções persistentes.
Pois a decisão de Ryuen — se nada mais — era absoluta.
E, assim, eles a aceitaram.
*
Quando a reorganização e a redistribuição do pessoal foram concluídas, Hashimoto voltou a me chamar.
— Parece que não há problemas. Estamos prontos para nos mover a qualquer momento, para qualquer lugar.
Quase uma hora havia se passado desde o início do exame especial. Com apenas algumas dezenas de segundos restantes até o relógio marcar dez horas, o primeiro grande evento — aquele que finalmente colocaria o movimento em larga escala em ação — estava prestes a começar.
A ilha havia sido dividida em zonas de um único quadrado, cada uma cuidadosamente marcada de A1 a O15. Em algum ponto entre essas incontáveis seções, eventos começariam a surgir, forçando todas as classes a se moverem.
Como este era o primeiro evento, era importante compreender sua escala e mecânica antes de se comprometer demais — tratá-lo como uma oportunidade de calibrar nossos instintos.
O que já se sabia era limitado e claramente especificado no livro de regras: nenhum evento ocorreria nas três zonas onde estavam posicionados os comandantes e instrutores — E14, F13 e F14 — nem em zonas compostas inteiramente por mar aberto.
Hashimoto abriu o mapa completamente, mantendo Shiraishi por perto, com o rádio em mãos. Próximo dali, Sanada também estava a postos, os olhos fixos no tablet de análise, aguardando o sinal.
Então — exatamente no horário previsto — as atualizações chegaram.
— Parece que há dez eventos no total para a primeira rodada — anunciou Sanada com calma. — Vou começar listando apenas as localizações: B7, D14, E5, G7, G13, H9, J12, L14, M4—
Ele fez uma breve pausa antes de concluir.
— E, por fim, N7.
Enquanto Sanada recitava cada uma com precisão, Hashimoto marcou imediatamente as localizações no mapa. Outros dois alunos, já de prontidão, copiaram as informações à mão em seus próprios mapas, rabiscando rapidamente para não perder nada.
Cada evento permaneceria ativo por exatamente uma hora a partir daquele momento. Assim que essa janela se fechasse — nem que fosse por um único segundo — as senhas reveladas se tornariam inválidas. Essa limitação, por si só, reduzia drasticamente o número de locais que poderíamos alcançar de forma realista.
— Do ponto onde estamos — disse Hashimoto, traçando linhas pelo mapa aberto com a ponta da caneta —, o alvo mais rápido é G13, logo à nossa frente. Se falarmos de algo que possamos garantir com segurança, D14 é a segunda melhor opção. H9 e J12 são tecnicamente alcançáveis dentro de uma hora… mas H9 é outra história. A Classe A e a Classe B têm uma vantagem enorme ali.
— Os suprimentos de H9 são comida, certo? — alguém comentou. — Se houvesse ao menos uma chance de colocarmos as mãos nisso, seria o ideal, mas…
A realidade era cruel. Enquanto estaríamos forçando o limite de tempo, as duas classes do topo conseguiriam chegar a H9 em meros dez a quinze minutos. Mesmo que, por algum milagre, chegássemos lá, a caixa de suprimentos quase certamente já estaria vazia.
— Isso é como meter a mão no fogo para pegar castanhas — murmurou Hashimoto. — No pior dos casos, acabamos em um tiroteio entre três classes. Ou — inferno — se A e B começarem a lutar entre si, talvez possamos entrar pelas costas?
Ele fez uma pausa, o dedo apoiado no queixo, simulando cenários em sua mente enquanto a caneta deslizava levemente pela grade do mapa. Mas agora estávamos reduzidos à metade. Qualquer movimento agressivo carregava um risco desproporcional.
— Se eu estivesse liderando a Classe A — interveio Morishita, com calma, entrando na discussão —, abandonaria H9 sem hesitação. Avançar só porque é perto faria a Classe B atacar por trás. É óbvio.
Sanada assentiu e apresentou um contraponto.
— Nesse caso, eles não poderiam considerar dividir a classe em dois grupos e montar uma linha defensiva? Mesmo a Classe B não avançaria se soubesse que está entrando em uma emboscada—
— Duvido — respondeu Morishita. — Com o ímpeto que eles têm agora, não me surpreenderia se avançassem mesmo assim. E, em vez de apostar em um impasse perigoso, é mais inteligente capitalizar o que a Classe A já conquistou. Eles foram os primeiros a romper para a área norte. Garantir G7 e, depois, seguir para E5 seria a rota mais segura e confiável.
Provavelmente ficariam insatisfeitos por abandonar os suprimentos de comida tão próximos, mas essa podia ser chamada de uma rota sólida e avessa a riscos.
Também não conseguia imaginar Horikita querendo entrar em um confronto feroz com a Classe B naquele estágio. E, a julgar pelo que o comandante transmitira por meio de Shiraishi, abandonar H9 era a decisão correta.
— Vamos começar garantindo G13 e D14 — eu disse, com firmeza suficiente para encerrar o debate.
— Direto e simples — concordou Hashimoto, aliviado.
G13 continha munição. D14 trazia itens de necessidade diária.
Quanto à comida — empurraríamos esse problema para a próxima janela de eventos.
— A unidade principal seguirá para G13 — continuei, os olhos fixos no mapa. — Vamos separar uma equipe secundária — com quatro guardas e o VIP Takemoto à frente, capaz de receber atualizações de posição em tempo real do comandante.
Se o analista não fosse acompanhá-los, tornava-se ainda mais importante manter o comandante totalmente informado.
— É… faz sentido — murmurou Hashimoto. — O relógio de pulso só diz se você está dentro da área certa ou não.
D14 parecia, por ora, sem contestação, sem outras classes à vista. Mas a localização de um evento nunca ficava fixa no centro da área — podia estar em qualquer ponto daquele quadrante — e, sem um tablet, teríamos de vasculhá-lo a pé. Se essa busca se prolongasse, perderíamos minutos preciosos.
Para maximizar nossas chances de sucesso, a presença do VIP era indispensável.
— Coordenem-se de perto com o Comandante e tragam esses suprimentos de volta.
— Os cinco? — Hashimoto ergueu uma sobrancelha. — O Takemoto não daria conta sozinho?
— Chegar à área não é o problema — respondi. — Mesmo que D14 esteja segura, precisamos evitar situações em que não encontremos o local do evento ou em que os suprimentos sejam numerosos demais para carregar. Não podemos nos dar ao luxo desse tipo de erro.
— Ah… certo — Hashimoto assentiu. — Temos que pensar em trazê-los de volta também.
Ainda havia muitas incógnitas. Depois de desbloquear uma caixa com a senha, seria possível retirar seu conteúdo mesmo após o fim da hora? Poderíamos descarregar tudo e deixar em algum lugar?
As regras eram vagas, e quando as regras eram vagas, a abordagem mais segura era eliminar todo erro evitável. Ao mesmo tempo, enviar pessoas demais só drenaria a stamina sem necessidade. Forçar deslocamentos desnecessários era apenas outra forma de nos enfraquecer.
Esse equilíbrio entre certeza e conservação dependeria, no fim, das condições das próprias caixas de suprimentos — algo que teríamos de ajustar conforme aprendêssemos mais.
Por ora, aquela era a distribuição ideal.
— Cinco pessoas serão suficientes — disse Takemoto, assentindo, com um tom firme. — E, se não houver inimigos por perto, não devemos ter problemas. Deixe conosco. Quando nos reagruparmos, voltamos para cá?
— Sim — respondi. — A base é fácil de identificar, então F13 serve. Enquanto vocês garantem D14, nós passaremos rápido por G13 e, ao mesmo tempo, vamos vigiar a área de F12 ou G12. Precisamos garantir que a Classe B não comece a avançar para o sul.
Se muitos de nós nos deslocássemos para D14 ao mesmo tempo, Ryuen provavelmente redirecionaria uma grande parte de seus guardas em direção à base. E, se isso acontecesse, seríamos empurrados diretamente para um beco sem saída — sem rota de retirada.
Enquanto todos começavam a se preparar para partir, notei Yamamura parada à margem do grupo, a expressão rígida de inquietação.
— O que foi? — perguntei, parando ao seu lado. — Se há um problema, diga.
— Ah— não, não é isso… — disse ela rapidamente, balançando a cabeça. — É só que…
— Só que?
— É assustador — admitiu em voz baixa. — Se nos separarmos, não vamos saber onde estão nossos aliados… nem onde o inimigo está, certo?
Talvez ouvir a troca entre o VIP e o Comandante tivesse deixado sua imaginação correr solta.
A Classe C perdera Nishikawa logo no início do exame — o que, na prática, nos custara um terço da mobilidade desde o começo. Não era surpresa que até pequenas incertezas a corroessem.
— E não é como se eu realmente pudesse ajudar… — acrescentou, a voz se apagando.
— Isso não é verdade — disse com firmeza. — Um julgamento meu ruim fez a classe ser reduzida à metade — mas foi só à metade. O fato de ainda estarmos aqui significa que ainda temos chance de vencer. Se você, Yamamura, conseguir permanecer no jogo nem que seja um segundo a mais sem ser eliminada, só isso já estará ajudando a classe.
— Só isso… já basta? — perguntou ela, erguendo o olhar.
— Basta — respondi sem hesitar. — Mesmo que você não consiga atirar, desde que não seja atingida, isso já é um saldo positivo para a classe. Lembre-se disso — o seu valor não muda. É igual ao de todos.
Mesmo que percamos mais colegas daqui para frente, basta continuar sendo uma das últimas a permanecer de pé. Yamamura refletiu por um instante, o olhar baixo. Então assentiu, pequeno — mas inegavelmente decidida. E, com isso, o grupo começou a se mover.
*
Horikita inclinou-se sobre o tablet de Shinohara, confiado a ela em seu papel de analista, confirmando cuidadosamente as localizações das novas áreas de evento que haviam surgido. A grade luminosa refletia de leve em seus olhos enquanto ela absorvia as informações em silêncio.
Quase imediatamente depois, estendeu a mão para Matsushita, a comandante, solicitando as atualizações mais recentes de GPS. A resposta veio rápido — precisa, clínica e suficientemente tranquilizadora para orientar o próximo movimento.
— Acho que devemos continuar avançando para o norte sem hesitação — disse Hirata, quebrando o silêncio com uma convicção tranquila. — Se nos enfiarmos de forma imprudente na área central, em torno de H9, corremos o risco de entrar em choque com a Classe B… ou possivelmente até com a Classe C.
Ninguém contestou. Perder o contato com os aliados por suprimentos cuja quantidade e valor ainda eram desconhecidos seria imprudente. Nenhuma recompensa valia fraturar o grupo tão cedo.
Hirata, fiel à sua natureza, defendeu uma abordagem defensiva sem a menor sombra de dúvida.
— Concordo — acrescentou Horikita, cruzando os braços enquanto falava. — Neste exame especial, quanto mais rápido você perde colegas, menos opções estratégicas lhe restam. É como uma asfixia lenta. Já conseguimos enxergar isso com clareza.
Ela lançou mais um olhar ao tablet antes de continuar.
— Nós nem sequer sabemos a quantidade desses suprimentos iniciais. Assumir um risco grande por algo tão incerto seria irresponsável.
Acima de tudo, foi justamente para evitar esse tipo de confronto que ela escolhera começar em G12 quando o sorteio lhe concedera o direito de seleção. O objetivo fora simples: avançar diretamente para o norte, tomar a rota mais curta possível até a área setentrional e evitar conflitos desnecessários por completo.
Mesmo que um evento surgisse por perto, correr atrás dele de forma imprudente seria tolice — a menos que fosse esmagadoramente seguro. Manter todos os membros da classe intactos pelo maior tempo possível era a forma mais simples e segura de garantir uma boa colocação neste exame especial.
Eles haviam parado brevemente para confirmar a situação, mas logo Horikita retomou a caminhada, com Hirata seguindo ao seu lado, enquanto se dirigiam a G7.
— Cara, o Ayanokoji mereceu essa — a voz de Ike veio de trás, carregada de risadas. — Foi completamente esmagado pelo grupo do Ryuen e correu direto de volta pro ponto inicial. E um dos VIPs deles já foi eliminado, né? Mesmo que fiquem correndo por aí, já estão praticamente garantidos em último lugar quando isso acabar.
Ike e os outros continuaram rindo, ainda se divertindo com o desastre que se desenrolava. Perto dali, Sudou havia ouvido a conversa. Ele cruzou os braços, assentiu pensativo e acelerou o passo para caminhar ao lado de Horikita.
— Suzune. Aquela luta entre a Classe B e a Classe C agora há pouco… sinceramente, fiquei chocado.
— Eu também — respondeu Horikita, sem diminuir o ritmo. — Usar uma tática logo no início para lançar um ataque total… mesmo que a ideia passe pela sua cabeça, é preciso muita coragem para realmente executá-la. Ainda mais quando ninguém sequer pegou o jeito dessas armas ainda.
Ela fez uma breve pausa, escolhendo as palavras.
— Ainda assim… em termos de timing, pode ter sido uma das melhores escolhas. Logo após o início do exame, até nós estávamos focados em montar estratégias, parados e expostos. A possibilidade de alguém usar uma tática imediatamente e armar uma emboscada não foi algo que consideramos seriamente.
Ela admitiu isso sem rodeios: sua atenção estivera totalmente voltada para alcançar a área norte.
— É — concordou Sudou. — Mas, mesmo assim… eu não achei que o Ayanokoji cairia tão fácil.
— Nem eu — disse Horikita em voz baixa.
Todos sabiam disso. Enfrentar Ayanokoji de frente era extraordinariamente difícil. Desde o momento em que todos começaram em condições iguais, a Classe C fora aquela que ela menos queria enfrentar. Ela sempre estivera certa de que qualquer ataque descuidado contra eles resultaria apenas em um contra-ataque devastador.
— O que você acha disso, Horikita-san? Do fato de ele ter perdido — perguntou Hirata, voltando o olhar para ela enquanto caminhavam lado a lado.
— "Isso realmente acabou de acontecer?" — essa é a minha reação sincera — respondeu ela. — Fiquei surpresa com a ousadia de usar uma carta na manga logo na abertura. Mas nunca imaginei que ele sofreria um golpe tão esmagador.
— Eu sinto o mesmo — disse Hirata em tom baixo.
— O Ayanokoji-kun é… como posso dizer… — ela fez uma pausa, buscando palavras. — Ele não é o tipo de pessoa que baixa a guarda em uma batalha como essa.
E era exatamente por isso que — assim como Sudou — tudo o que ela sentia era incredulidade, avançando muito à frente de qualquer pensamento racional. A suposição de que ele não poderia perder sem um motivo obscurecia seu julgamento.
Era um estado mental perigoso. Uma convicção que beirava a fé — ou até a veneração. A crença de que ele simplesmente não podia perder criara raízes silenciosas dentro dela, tornando a aceitação difícil agora.
— Se ele tivesse previsto o ataque preventivo — disse Hirata —, não há como as coisas terem terminado desse jeito. Ele teria recuado imediatamente… ou revidado e, no mínimo, mantido o equilíbrio.
Ainda assim, a realidade era inegável. Uma derrota esmagadora — e uma retirada completa.
O número de alunos da Classe C que haviam desaparecido do GPS deixava isso dolorosamente claro — não havia como negar.
Aquilo fora uma brecha momentânea que Ayanokoji permitira — pequena, talvez, mas um fato que não podia ser ignorado.
— Mas e se isso tudo fizer parte do plano do Ayanokoji? — a voz de Sudou flutuou até eles. — Tipo… sei lá, reduzir o trabalho de juntar comida? Ou algo assim.
— É verdade que ter menos pessoas facilitaria o problema da comida — respondeu Hirata. — Mas o mesmo poderia ser feito fazendo com que as pessoas se retirassem mais tarde, quando os suprimentos realmente se tornassem um problema. Não há vantagem nenhuma em reduzir seus números logo no começo. E, além disso, eles perderam o VIP — agora a eficiência deles para coletar suprimentos também vai cair.
O raciocínio de Hirata era sólido. Completamente lógico. E, ainda assim… Horikita não conseguia aceitá-lo. Não — era mais do que isso. A sensação de não querer aceitar só ficava mais forte.
— Talvez eu… simplesmente não queira admitir — murmurou Horikita. — Que o Ryuen-kun levou a melhor sobre ele.
Ela se concentrou em manter distância, virando deliberadamente as costas para um inimigo formidável. Mesmo sabendo que aquela era a escolha lógica — a escolha que garantia a vitória — havia algo de humilhante nisso.
— Não se preocupe, Hirata-kun — continuou, recompondo-se. — Eu não vou rir da derrota dele, nem vou ficar descuidada por causa disso. Se nós — ou até a Classe D — estivéssemos na posição da Classe C, há uma grande chance de que o resultado fosse o mesmo.
Ela falou novamente, quase para si mesma.
— Quando vi o GPS deles se afastando… eu fiquei aliviada.
Então soltou um suspiro suave.
— Mas devemos aceitar o resultado pelo que ele é. No momento, a situação pendeu um pouco a nosso favor.
— É — acrescentou Sudou. — E com a diferença no número de pessoas, também temos uma vantagem em pontos.
A Classe C, tendo sofrido as maiores perdas, havia caído para o último lugar. A Classe B, apesar do ataque bem-sucedido, perdera quatro guardas no processo. Com isso, os pontos entre a Classe A e a Classe B haviam se igualado.
Se conseguissem evitar mais batalhas até o final, um desempate por morte súbita pelo segundo lugar seria acionado. Não era um desdobramento ruim.
— Mas provavelmente deveríamos calcular nossa própria pontuação como um ponto a menos — resmungou Sudou, meio irritado, meio resignado. — Porque vai saber… o Koenji pode se retirar a qualquer momento. Se ao menos ele usasse as balas que demos e derrubasse alguém antes de cair fora, já seria alguma coisa… mas é, isso provavelmente não vai acontecer.
Ele bufou, o som pairando entre irritação e incredulidade.
Pouco depois do início do exame, Koenji ignorara completamente as instruções de Horikita. Declarando que iria "aproveitar a ilha e fazer um pouco de exercício", saíra andando sem olhar para trás.
Para ele, aquilo não era um exame especial. Era férias. E, se o comportamento dele de dois anos atrás fosse algum indicativo, no momento em que ficasse entediado, ele voltaria calmamente para o navio sem pensar duas vezes.
— Desde que ele não atrapalhe o resto de nós, isso já é o suficiente — respondeu Horikita com frieza. — Infelizmente, não estamos em posição de esperar algo mais dele agora.
Ela economizara pontos privados por um longo período, administrando cuidadosamente sua vida diária. Mesmo assim, fora forçada a fazer um gasto enorme no exame especial anterior apenas para garantir a cooperação de Koenji. Em um exame de longa duração como este, o preço facilmente dobraria — ou triplicaria. E, mesmo assim, não havia garantia de que ele aceitaria.
— Mesmo excluindo o Koenji-kun — continuou ela —, a situação não é ruim.
— Nossa prioridade máxima é romper para o norte o mais rápido possível — disse Hirata, assentindo em concordância. — Isso nos permite manter a vantagem sem correr riscos desnecessários. Por enquanto, só nos resta torcer para que a Classe B e a Classe C continuem ocupadas uma com a outra.
— É, mas mesmo assim… — Sudou franziu a testa, coçando a cabeça. — Por que, mesmo com a Classe C em apuros, eu não consigo me sentir aliviado?
— Eu sinto o mesmo — admitiu Horikita em voz baixa. — Mesmo estando à frente… ainda é inquietante.
Ela enrijeceu a expressão; a leveza casual de momentos antes desapareceu por completo.
— É porque o Ayanokoji ainda está lá.
As palavras de Sudou ficaram suspensas no ar. Em resposta, Horikita assentiu de leve, de forma deliberada. Enquanto Ayanokoji permanecesse no jogo, subestimá-lo estava fora de cogitação.
Se fosse o caso, ela esperava justamente o oposto — que ele já estivesse arquitetando alguma estratégia pouco ortodoxa para apagar esse revés e recuperar tudo o que havia perdido. Era exatamente por isso que precisavam alcançar a área norte. Criar distância suficiente para que nenhuma tática, nenhuma emboscada, pudesse alcançá-los.
— Mesmo com o número deles reduzido à metade — disse Horikita em voz baixa —, não consigo me livrar dessa sensação de pressão invisível.
Ela sabia, racionalmente, que não havia inimigos por perto. Os arredores estavam calmos, as trilhas da floresta vazias. E, ainda assim, um fio tênue de inquietação continuava a puxá-la por dentro.
— Eu sinto isso também — admitiu Sudou. — Se é que tem um motivo, é justamente porque eles apanharam feio. É exatamente nessas horas que alguém tira uma jogada absurda da cartola para virar o jogo.
— O Ryuen-kun provavelmente sente o mesmo — respondeu Horikita. — É por isso que ele não os perseguiu mais. Ou melhor… por isso que ele não pôde.
Sudou hesitou por um instante. Então, quase com cautela, estendeu a mão e pousou-a sobre o ombro de Horikita.
— Ei. Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance. E, se acabar em uma luta direta — seja contra a Classe B, a Classe D… ou, droga, até contra o Ayanokoji — a gente manda eles pra fora. Certo?
Ao menos nisso, Sudou confiava mais na própria resistência do que na de qualquer outra pessoa. Estava pronto para suar, para se exaurir, para dar tudo de si em nome da classe.
Essa era sua determinação inabalável.
— Vamos seguir em frente — disse Horikita, dando um passo à frente com firmeza renovada. — Primeiro, rompemos para o norte. Depois, garantimos o maior número possível de eventos. Precisamos reunir suprimentos para evitar batalhas desnecessárias.
Sudou respondeu com um grunhido curto e decidido.
E juntos, a classe voltou-se para o norte — avançando sob o dossel farfalhante, carregando consigo tanto cautela quanto determinação.
*
SEGUIMOS CONFORME o planejado.
Nossa unidade principal garantiu os suprimentos do evento em G13 sem incidentes. Cerca de trinta minutos depois, o grupo de Takemoto chegou em segurança a D14 e, mais dez minutos depois, recebemos a confirmação do comandante — transmitida por Shiraishi, nossa VIP — de que todos os suprimentos haviam sido coletados. Com isso, asseguramos duas localizações no total.
O depósito de munição rendeu dois carregadores vazios para fuzis de assalto e um saco lacrado contendo cem projéteis de tinta. A caixa de necessidades diárias, por outro lado, continha apenas um isqueiro, três marmitas metálicas e três pares de hashis descartáveis. Mais de alguns alunos demonstraram clara decepção, mas o conteúdo revelou algo importante — simplesmente reunir comida não seria suficiente.
(N/SLAG: O item 飯盒 (hangō) é um tipo de recipiente portátil usado principalmente para cozinhar arroz, comum em acampamentos ou contextos militares. "Marmita metálica" é o equivalente mais próximo.)
Se uma caixa de comida acabasse contendo apenas arroz cru, as implicações eram óbvias. Os suprimentos precisariam ser obtidos em conjuntos — comida e necessidades diárias juntas — para que pudessem ser usados de fato.
Também obtivemos informações úteis com ambas as caixas. As duas compartilhavam o mesmo método de ocultação: estavam parcialmente enterradas no solo, posicionadas de modo que tropeçar nelas por acaso durante uma caminhada era praticamente impossível. No entanto, uma vez inserida a senha correta e aberta a tampa, os suprimentos podiam ser retirados diretamente — não havia necessidade de desenterrar a caixa. O tamanho do recipiente também parecia correlacionar-se diretamente com a quantidade de itens em seu interior, outro detalhe digno de nota para referência futura.
Quanto a H9 — a área onde um confronto parecia mais provável —, a Classe A de Horikita optou por garantir G7 e então avançar para a região norte.
Como esperado, eles não estavam dispostos a arriscar perder colegas em um confronto precoce.
Enquanto isso, a Classe B — liderada por Ryuen — dividiu suas forças em dois grupos. Um avançou em direção a H9, enquanto o outro seguiu para o distante B7. Saindo de C10 em direção à linha costeira e depois disparando para o norte em um único impulso, confiaram a tarefa a um pequeno grupo de elite confiante em sua resistência — e a aposta deu certo.
No fim, nessa primeira rodada de eventos, todas as classes conseguiram assegurar duas localizações de suprimentos. Em termos numéricos, foi um empate.
Com o passar do tempo, o segundo evento foi anunciado à uma da tarde, o terceiro às três. As quatro classes continuaram evitando confrontos diretos, repetindo o mesmo ciclo — coletando munição de tinta, comida e itens de necessidade diária — enquanto traçavam rotas cuidadosamente para minimizar riscos.
E, antes que percebêssemos, o relógio se aproximava das cinco da tarde do primeiro dia.
O evento final do Dia Um estava prestes a começar.
— Até agora, recuperamos cinco caixas de suprimentos no total — relatou Hashimoto, fazendo as contas. — Isso nos dá duzentas balas de tinta, dez go de arroz, oito enlatados variados, algumas nozes e frango, alguns itens básicos… e cerca de quinze litros de água. Dá pra chamar isso de mínimo indispensável.
(N/SLAG: Go (合) é uma unidade tradicional japonesa de volume, equivalente a cerca de 180 ml, usada principalmente para medir arroz e saquê. Para arroz japonês cru, 1 go pesa aproximadamente 150 g.)
Comparado às necessidades reais do corpo humano, era claramente insuficiente. E, considerando que até aquele momento trinta e nove caixas de suprimentos haviam surgido, estávamos longe de ter coletado tantas quanto esperávamos.
— Ficar sendo contido desse jeito é o pior — reclamou Morishita. — Eles já viraram praticamente stalkers. Stalkers, eu digo.
Desde a emboscada inicial, a Classe B havia estabelecido seu acampamento principal bem entre G9 e G10 — e não se mexera desde então. Isso, por si só, já bastava para nos manter presos nas proximidades da base, incapazes de avançar para as zonas ao redor.
Suprimentos surgindo a oeste? Deles. Suprimentos perto do centro? Deles. Tudo que aparecia ao alcance das mãos era recolhido sem resistência. Enquanto isso, nossas opções se limitavam às sobras — ou áreas costeiras ligeiramente a leste da base, ou zonas ao sul, ainda mais distantes.
A escolha de palavras de Morishita não estava muito longe da realidade. Mas, no fundo, aquilo era apenas a recompensa que a Classe B havia conquistado por executar uma emboscada bem-sucedida. Uma posição quase ideal — tanto estratégica quanto geograficamente.
— Ayanokoji Kiyotaka — a voz de Morishita baixou, quase teatral. — Você tem minha permissão para avançar sozinho e aniquilar as forças inimigas, sabia?
— Eu não sou o protagonista de um filme de ação americano — respondi secamente. — No máximo, derrubaria dois ou três antes de ser esmagado.
— Só isso? Que patético — zombou ela. — Se fosse eu — a Amazonas da selva — mandaria facilmente cem para o túmulo.
Se isso fosse verdade, eu a deixaria acabar com o exame agora mesmo e nos conduzir à vitória.
— Você não tinha se chamado de Amazonas da Floresta Densa antes?
— Ora, como você é exigente. "Selva" e "floresta densa" significam praticamente a mesma coisa. Se pensar bem, a escala até aumentou. Não acha que isso é melhor?
Eu não achava. Mas continuar discutindo só desperdiçaria tempo, então assenti e deixei passar.
(N/SLAG: Em um capítulo anterior, Morishita se chama de "Amazonas da Floresta Densa", usando o termo 密林 (mitsurin), que evoca uma floresta densa, porém caminhável. Neste capítulo, ela muda para "Amazonas da Selva", usando o empréstimo ジャングル (janguru), que sugere uma selva fechada e intransponível.)
— Deixando de lado a… sugestão colorida da Morishita — disse Matoba, incapaz de esconder a irritação enquanto batia repetidamente o pé direito no chão —, não existe algum jeito de romper esse cerco? E se forçássemos a saída?
A irritação dele era palpável.
— Seria complicado — respondeu Hashimoto de imediato. — Lançar um ataque a partir da nossa posição seria suicídio. E, mesmo que conseguíssemos furar, pra onde iríamos exatamente? Se avançarmos para o norte, a Classe A nos recebe. Para o leste, a Classe D. Acabaríamos espremidos entre eles e a Classe B vindo por trás — sem saída.
— Talvez a Classe A e a D não queiram se machucar e nos deixem passar… — murmurou Matoba, agarrando-se à ideia.
— Claro, eles preferem evitar uma briga — disse Hashimoto. — Mas pense bem: estaríamos invadindo eventos que eles estão garantindo com segurança. Você realmente acha que vão sorrir e dizer: "Ei, vamos dividir os suprimentos meio a meio como bons amigos"?
Se estivéssemos no lugar deles, eliminaríamos qualquer classe que se aproximasse demais — sem hesitar. Matoba pareceu chegar à mesma conclusão, estalando a língua com força.
— Droga… estamos realmente presos reagindo a tudo. Então o quê — só esperamos eles fazerem o próximo movimento?
— Se eles fossem gentis o bastante para atacar — respondi —, poderíamos usar o terreno a nosso favor. Mas não são burros a ponto de entrar em uma armadilha. Vão manter a vantagem numérica enquanto puderem.
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo enquanto a dura realidade se impunha. Tentando aliviar o clima antes que ficasse sufocante demais, Hashimoto lançou um olhar para a própria mochila.
— Ainda assim, esse cenário já é difícil até pra gente. Uma classe com quarenta pessoas estaria sofrendo muito agora.
Entre o que recebêramos no início e o que conseguimos juntar até ali, dava para sobreviver ao primeiro dia. Mas, a menos que os eventos do dia seguinte trouxessem significativamente mais suprimentos, a situação só tenderia a piorar.
— Bem… estar pela metade realmente facilita a questão da comida — murmurou alguém.
— Mesmo assim — disse Matoba —, isso não muda a desvantagem em que estamos. As outras três classes estão coletando suprimentos com tranquilidade.
No momento, a Classe D liderava com dez caixas de suprimentos, seguida de perto pelas Classes A e B, com nove cada. Mesmo considerando apenas comida, já estávamos mais de uma caixa atrás.
Às cinco da tarde, enquanto estávamos em G12, o último evento do dia foi anunciado.
Nove locais no total.
— Sério isso? O menor número do dia… logo no final?
— E eu definitivamente não chamaria essas localizações de convidativas para nós — disse Sanada, nosso analista, ajustando os óculos com uma mão enquanto apontava o mapa com a outra.
Analisamos as opções. Havia algum local que pudéssemos alcançar sem cair sob os olhos vigilantes da Classe B? Nenhum. As únicas possibilidades eram D12 e I10 — e ambas vinham carregadas de risco. A seguinte mais próxima era G8, o que significava passar raspando pelos nossos perseguidores.
Na prática, tínhamos exatamente dois alvos. E nenhum deles era seguro.
— A Classe B provavelmente não tem a menor intenção de nos deixar escapar. Esses são pontos onde certamente haverá disputa. Só ficamos em igualdade numérica se eles dividirem as forças. Se concentrarem tudo em um lado, não temos chance.
— E se corrermos para o leste e apostarmos na sorte? — sugeriu Matoba, ainda se agarrando à ideia de fugir da região sul. — A Classe D está em N12 agora, não está?
— Você percebe que, se formos pegos em um ataque em pinça, a situação fica ainda pior do que já está?
— É por isso que… bem, só nos restaria rezar para que isso não aconteça…
— Rezar não é estratégia.
Nossa situação já era ruim o bastante, mas a opção de fugir para o leste não era totalmente impossível.
O problema vinha depois. No instante em que fizéssemos esse movimento, a Classe B estaria logo atrás. E quando fosse preciso correr novamente, a única rota restante seria atravessar as montanhas — um terreno perigoso e traiçoeiro.
Quantos alunos da Classe C realmente conseguiriam cruzar aquilo e chegar ao nordeste? E, mesmo que conseguissem, o que os aguardaria lá? Que vantagem isso nos traria? Era um plano que desmoronava assim que era analisado com cuidado.
Deixando de lado a questão do posicionamento a longo prazo, o problema imediato eram os suprimentos. Os materiais que haviam surgido em D12 e I10 eram comida. Só isso já os tornava impossíveis de ignorar.
— Mantemos nossa posição na região sul — eu disse, quebrando o silêncio — e avançamos para garantir os suprimentos.
— Então estamos preparados para lutar — disse Matoba, soltando o ar lentamente enquanto sua expressão se endurecia.
— Se estivéssemos pensando apenas em hoje, evitar confronto seria aceitável — respondi. — Mas o evento mais cedo amanhã é só às onze da manhã. E não há garantia de que conseguiremos comida. Quero assegurar os dois pontos, se possível — ou, no mínimo, um deles.
— Entendido — disse Matoba. — Então qual é o plano?
Se fôssemos disputar suprimentos com concorrência, a cooperação com o comandante era vital. Mais do que nunca, a coordenação precisa definiria se isso seria um risco calculado ou uma aposta suicida.
Isso nos trouxe de volta à questão de como nos mover.
Uma opção era dividir nossas forças restantes igualmente, formando dois grupos equilibrados centrados nos VIPs — Shiraishi e Takemoto — mantendo comunicação direta com o comandante. A outra era muito mais simples e agressiva: concentrar tudo em uma única força e apostar tudo em um objetivo só.
Os alunos trocaram olhares inquietos, já prevendo para onde aquela discussão caminharia.
— Se vamos atrás de suprimentos disputados — disse alguém, verbalizando o que muitos pensavam —, então não vamos recuar fácil, certo? Nesse caso, não deveríamos concentrar nossa força? Já estamos com metade do efetivo. Mesmo que eles se dividam, ainda teriam o dobro do nosso número. Um choque frontal assim pode nos aniquilar.
Era natural. Com a Classe C já em desvantagem, a moral era frágil, e a ansiedade crescia mais rápido que a determinação. O clima ameaçava se dividir em dois lados — mas não tínhamos tempo para um debate prolongado. A janela do evento era de apenas uma hora.
A Classe B se moveria em breve — não, talvez já estivesse se movendo.
— Mesmo assim — eu disse, cortando os murmúrios —, vamos atrás dos dois pontos de suprimentos.
Um instante de silêncio atônito se seguiu.
— Você está falando sério? — retrucou Matoba. — Eles provavelmente vão atrás dos dois também. Se você acha isso, então deveríamos concentrar tudo em um só. Lutar não faz sentido se não estivermos ao menos em igualdade numérica.
Ele não estava errado nos números. Enfrentar o dobro de forças era imprudente por qualquer critério.
— Concordo com o Matoba-kun — outra voz se juntou. — Por que não jogar seguro e mirar apenas um ponto? Se formos como um grupo grande, nem o inimigo pode simplesmente atacar vinte pessoas. E, se reunirem a classe inteira, podemos recuar.
À primeira vista, era um argumento razoável. Focar em um único local aumentaria drasticamente nossas chances de sobrevivência. Para enfrentar uma Classe C compacta, o lado adversário teria de comprometer ao menos metade de seus membros — e, para garantir a vitória, provavelmente todos.
Mas esse era exatamente o problema.
Um movimento em larga escala assim, sem o uso de uma tática especial, seria impossível de esconder do comandante inimigo. No momento em que começássemos a nos aproximar, o VIP deles seria informado. Nossas intenções ficariam completamente expostas.
Era por isso que a proposta de Matoba soava lógica — e também por isso que falhava ao não considerar a perspectiva do inimigo.
— Se eu fosse o Ryuen — eu disse lentamente —, ou, sinceramente, se estivesse liderando qualquer classe, ver a Classe C se aglomerar daquele jeito seria um presente. Eu nem precisaria lutar. Assumiria que vocês escolheram a autodestruição.
Os olhares se voltaram para mim.
— Eu ignoraria completamente os suprimentos que vocês estão mirando e sairia coletando o máximo possível de outros eventos. Amanhã de manhã, a Classe C estaria faminta. A resistência cairia. O raciocínio ficaria lento. E então vocês seriam forçados a disputar eventos ainda mais difíceis, em condições ainda piores.
As palavras ficaram suspensas no ar.
— Entendo — murmurou Matoba.
— As outras classes precisam de suprimentos mais do que nunca agora — disse Hashimoto após um momento, coçando a nuca. — Se nos movermos como um bloco só, no fim estaríamos ajudando elas, né?
Assenti uma vez.
— Desculpem, mas estamos sem tempo. Não vou discutir isso mais. Esta é a minha decisão como líder provisório da Classe C. Se alguém ainda quiser se opor, está livre para apostar sua posição nisso.
Apostar a posição — em outras palavras, aceitar o risco de expulsão.
Não foi preciso esperar resposta; Matoba e os outros não tinham essa disposição.
— Tudo bem — disse Matoba por fim, soltando o ar pelo nariz. — Então como vamos nos dividir?
Com o relógio pressionando, a distância se tornou o fator decisivo. Quanto mais longe o destino, mais brutal teria de ser o ritmo. Os suprimentos em I10 ficavam em terreno montanhoso. Só isso já tornava o local problemático.
— Eu vou para I10 sozinho — eu disse. — Mesmo sem saber a localização exata dos suprimentos, o relógio tem bússola embutida e função de verificação de posição. Não é difícil chegar à área-alvo. O resto de vocês vai para D12.
A reação foi imediata.
— Sozinho? — disparou Hashimoto, arregalando os olhos. — Você está falando sério? Você sabe muito bem que o inimigo está se movendo com o VIP. Se avistarem alguém isolado, vão focar imediatamente.
Como o tempo era precioso, fiz um gesto para que os outros começassem a se preparar enquanto continuava falando.
— Essa decisão não vai mudar — eu disse, de forma seca.
— É, eu já imaginava — Hashimoto suspirou. — Se essa é a sua decisão, não vou discutir.
— Certo. Takemoto, Hashimoto — escutem com atenção.
Elevei a voz apenas o suficiente para atravessar a tensão que pairava no ar.
— Takemoto, Hashimoto, levem todos com vocês. Saíam imediatamente, localizem os eventos nos pontos designados e garantam os suprimentos. Depois disso, reagrupem-se em uma hora a uma hora e meia. O ponto principal de encontro será F12.
Continuei:
— Mesmo que se separem do VIP, a área próxima ao quartel-general é chamativa o bastante para que consigam se encontrar. Dito isso, F12 é uma faca de dois gumes. Se outra classe nos cercar ali, não há uma rota de fuga limpa. Por isso, se o comandante sinalizar perigo, mudem para o ponto secundário de encontro: H12.
No improvável caso de outra classe se aproximar do local de reagrupamento, teríamos de evitá-lo como ponto de encontro. Como o comandante sempre tinha uma visão clara dos movimentos das outras classes, poderíamos nos adaptar em tempo real.
— E se a classe da Ichinose vier atrás da gente? — alguém perguntou.
— Eles não vão — respondi sem hesitar. — Considerando a distância, a Classe D não tem incentivo algum para forçar um confronto.
Como o VIP valia cem pontos inteiros, era fácil focar demais nisso. Mas perder até mesmo um único ponto por redução de guardas podia se tornar um grande obstáculo no cálculo final do ranking.
— Mas não há garantia de que eles não ataquem — alguém insistiu. — Se virem uma chance de vencer, por que não aproveitariam?
— Enquanto não atirarmos primeiro, não seremos atacados — disse. — Partam dessa premissa.
Houve um breve silêncio.
— Acho que não temos escolha a não ser confiar nisso — murmurou Hashimoto. — E você? Como pretende se reagrupar? Você não vai ter atualizações em tempo real. Se se perder, isso é praticamente o inferno.
— Não se preocupem comigo — respondi, seco. — O que importa é o seguinte: se a Classe B atacar vocês enquanto estiverem garantindo suprimentos, só é permitido engajar se eles forem dez ou menos. No instante em que tiverem certeza de que são mais do que isso, recuem imediatamente.
Em uma ilha daquele tamanho, perseguir um inimigo em fuga era quase impossível. Essa era a nossa garantia. Quanto a este último evento do dia, prever como as outras três classes se moveriam não exigia muita reflexão. A decisão já estava tomada. Todos seguiriam para D12.
E eu, sozinho, me separaria — indo em direção a I10, desaparecendo na floresta cada vez mais escura enquanto o sol se punha no horizonte.
*
Pouco depois das seis da tarde, quando eu retornava, uma figura surgiu da linha das árvores à frente. Hashimoto — que havia notado minha aproximação primeiro pelo GPS — veio ao meu encontro, encurtando a distância.
— Impressionante como sempre, Ayanokoji — disse ele, com um leve sorriso. — Eu estava acompanhando tudo pelo tablet do analista. Confirmado: você chegou ao local do evento e pegou os suprimentos. Foi direto, sem se perder?
— Tive que procurar um pouco — respondi. — Mas eles tinham deixado tudo mais evidente do que eu esperava. Isso ajudou.
Continuei:
— Dentro da caixa havia cinco conjuntos pequenos de cozinha, cinco pacotes de arroz correspondentes, cinco garrafas de água de 500 ml e cinco pães simples e pequenos.
Para uma classe tentando sustentar quase quarenta pessoas, aquilo era uma gota no oceano. Os suprimentos de um único evento não chegavam nem perto do suficiente; era um lembrete de que precisávamos continuar nos movendo sem parar.
— É, já imaginava que não seria muita coisa — Hashimoto deu de ombros. — Quanto a nós… desculpa, mas recuamos imediatamente. Eles vieram com um grupo grande. O máximo que deu pra fazer foi puxar eles e ganhar tempo pra você.
Nosso número reduzido era uma desvantagem não só em pontos, mas também em combate.
Ainda assim, se havia um lado positivo enterrado em meio a tantas desvantagens, era esse: menos bocas para alimentar.
À medida que o crepúsculo caía, os alunos da Classe C começaram a montar as barracas, trabalhando de forma organizada para preparar os locais de descanso. As barracas maiores — capazes de acomodar três ou mais pessoas — ficaram com os meninos, enquanto as menores, de uma ou duas pessoas, foram usadas principalmente pelas meninas. Para manter a justiça, decidiram quem ficaria com qual barraca no pedra-papel-tesoura.
— Dá até pra se impressionar vendo eles trabalharem — comentou Hashimoto, genuinamente admirado, observando as garotas montarem barracas leves e o banheiro improvisado. — Eles se movem como se já tivessem feito isso uma dúzia de vezes. Sinceramente, até entre estudantes japoneses, a gente deve estar no topo quando o assunto é sobrevivência ao ar livre. Eu sempre achei isso inútil… mas está se mostrando bem útil agora.
Hashimoto parecia realmente impressionado — e com razão.
— Em um país propenso a desastres como o Japão — respondi —, se acostumar a viver em barracas e lidar com saneamento básico ao ar livre não é algo ruim. Na verdade, é uma habilidade que deveria ser incentivada daqui para frente.
Aquele era o terceiro ano — e a terceira vez — que o exame da ilha desabitada era realizado.
Quando foi introduzido pela primeira vez, realizá-lo com tanta frequência era algo raro. Mas, como preparação para um futuro incerto, a lógica era fácil de aceitar. Se algo acontecesse — se a eletricidade falhasse de repente ou a infraestrutura cotidiana entrasse em colapso — talvez experiências como essa permitissem que as pessoas reagissem com calma, em vez de entrar em pânico.
Quando o acampamento ficou totalmente pronto, reunimos toda a comida que havíamos trazido em um único monte e começamos a calcular como dividi-la entre os que restavam. Claro, continuaríamos coletando suprimentos nos próximos eventos sempre que possível, mas era essencial saber — o tempo todo — quantas calorias e quanta água poderíamos consumir de forma realista.
Esse conhecimento nos permitia evitar riscos desnecessários.
Se não houvesse necessidade urgente de buscar mais suprimentos, sair para um evento apenas aumentaria a chance de um confronto evitável — algo que não podíamos nos dar ao luxo de aceitar.
Para manter a equidade, toda comida obtida era dividida igualmente entre todos. E então, finalmente, os alunos se permitiram um momento de descanso. Sentaram-se em pequenos grupos, levando porções modestas à boca, relaxando após o cansaço do dia.
— Ei, posso perguntar uma coisa?
Matoba se aproximou, olhando para as rações com certa hesitação.
— Quando dividimos assim — comendo e bebendo em pequenas porções — isso realmente funciona? Não é como se estivéssemos só indo à esquina. A comida ocupa espaço. Não faria mais sentido comer logo quando temos a chance?
— Vou te dar um exemplo extremo — disse eu. — Compare comer uma única refeição grande por dia, se entupindo de uma vez, com pegar essa mesma quantidade de comida e dividi-la em três refeições menores. A segunda opção é esmagadoramente mais eficiente em termos de energia utilizável. O corpo humano tem um limite de quanto consegue armazenar de uma vez. Os carboidratos deixam isso bem claro — parte vai para o fígado e os músculos, mas o excesso é convertido em gordura. E até essa conversão consome energia. — Fiz uma pausa. — A água é ainda mais implacável. Se você beber demais de uma vez, o corpo simplesmente elimina o excesso pelo suor e pela urina. Ele não estoca. Além disso, o corpo se adapta à escassez. Uma redução gradual de calorias desacelera o metabolismo e reduz o consumo geral de energia.
Manuais de sobrevivência para pessoas perdidas no mar ou presas na natureza enfatizavam todos o mesmo princípio: consumir o mínimo possível, pelo maior tempo possível.
— Então a mesma comida dura muito mais se racionar, né.
Matoba assentiu lentamente, a lógica finalmente fazendo sentido. Carregar o peso extra era incômodo — mas valia a pena. Quando a refeição terminou, os alunos se dispersaram para aproveitar o tempo livre como quisessem.
Alguns pediram permissão para treinar tiro em preparação para o dia seguinte. Eu autorizei, com a condição de que o número de disparos fosse rigidamente limitado. Atirar fora de combate não era uma infração, desde que ninguém fosse alvejado. Pelo contrário, melhorar a habilidade agora era essencial.
Espalhei o mapa à minha frente e deixei o dia se repetir em minha mente.
Classe C, meio destruída por um ataque surpresa; Classe B, praticamente ilesa. As Classes A e D haviam mantido distância de outros grupos, priorizando a segurança e coletando suprimentos de forma metódica, sem incidentes.
Ser empurrados para a última colocação provisória pesava sobre todos. Havia poucos sorrisos entre meus colegas.
— Todo mundo parece bem abatido — murmurou Hashimoto, mastigando um bloco de alimento energético enquanto observava o acampamento. — Não dá pra culpá-los, depois de tudo que aconteceu hoje.
Ele lançou um olhar de lado para mim.
— Como líder, não tem algo que você possa dizer? Algo como: "Não se preocupem, nós com certeza vamos vencer"?
— Não posso dizer coisas sem fundamento. Se eu dissesse isso agora, eles só ficariam ressentidos, pensando: "Quem ele acha que é pra falar isso?"
Afinal, eu era o líder que falhou em prever a emboscada. Aquele que ficou ali, tranquilamente dando uma aula sobre armas, enquanto o desastre se aproximava. Os olhares. As acusações sussurradas. Era apenas questão de tempo.
— Para alguém nessa posição — disse Hashimoto, me observando de lado —, você parece até estar se divertindo.
— Parece?
— Um pouco. — Ele deu de ombros. — Falando sério… como você consegue se divertir numa situação dessas?
— Talvez porque eu não odeie o exame da ilha desabitada em si. — Deixei meu olhar percorrer o acampamento. — É uma experiência intensa. Algo que você nunca teria numa vida escolar comum. E dá pra ver lados dos colegas que você nunca veria de outra forma. Expressões que simplesmente não aparecem no dia a dia.
— Hm. — Hashimoto ergueu uma sobrancelha. — Então, no fim das contas, você está satisfeito com coisas que não têm nada a ver com ganhar ou perder.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não — admiti. — Mas isso não quer dizer que eu pretenda perder.
— Vou acreditar nessas palavras. — Ele estalou os dedos levemente. — Enfim… é justamente em momentos sombrios como esse que eu costumo brilhar.
Dito isso, ele bateu palmas com força, o som cortando o ar pesado, e caminhou até o grupo de colegas desanimados.
— Ei — chamou ele. — A gente ainda não perdeu o exame. Se ficarem assim pra baixo, vão acabar perdendo lutas que poderiam vencer. Que tal tentar aproveitar um pouco a vida na ilha?
Era difícil dizer se ele estava tentando animá-los ou provocá-los de propósito.
— Aproveitar? — alguém rebateu. — Isso é fácil de dizer se estivéssemos na liderança. Você espera mesmo que a gente se divirta enquanto está perdendo?
Para a Classe C — pouco acostumada à derrota —, a perda no exame especial do fim de ano, seguida pela derrota apertadíssima da última vez, e agora essa situação severa, pareciam uma sequência ininterrupta de má sorte.
A mente humana pesa a perda muito mais do que a vitória, e seu impacto costuma durar quase o dobro. E para uma classe que passou tanto tempo no topo, já abalada pela queda diante da Classe C, isso começava a se tornar um fardo pesado demais.
Eles eram o completo oposto da classe da Horikita — aqueles que haviam escalado desde o fundo.
E observá-los agora, vê-los assim… Do ponto de vista de um observador externo, era uma cena bastante interessante.
*
Quando o relógio passou das oito da noite, os alunos da Classe C começaram a entrar em suas tendas, um por um. Ainda era apenas o primeiro dia do exame especial. Tirando a emboscada inicial, não houvera sequer um confronto entre classes.
Mas, conforme o amanhã desse lugar virasse o dia seguinte, o cheiro de conflito inevitavelmente se aproximaria. Por enquanto, a escolha mais sensata era clara: evitar esforços desnecessários e focar na recuperação das forças.
Dentro da tenda grande que me fora designada, cinco de nós estavam reunidos. Surpreendentemente, o clima não era pesado. Em vez de ansiedade, o espaço estava cheio de risadas e conversas sem importância.
Sem dúvida, a presença de Hashimoto tinha grande influência nisso. Ele nunca deixava a conversa derivar para pensamentos de derrota. Um assunto levava a outro, sem dar tempo para que o pessimismo criasse raízes. Os outros também não eram tolos. Entendiam perfeitamente nossa situação e sabiam que, se a encarassem de frente, o ambiente ficaria naturalmente opressivo. Justamente por isso, se apoiavam na energia de Hashimoto, entrando na conversa um após o outro, quase como se fossem levados por ela.
Logo, o papo se afastou do exame e passou para histórias do passado. Quando Satonaka terminou sua anedota, todos os olhares se voltaram para Hashimoto, sentado ao lado dele.
— Certo, lembrei de uma agora — disse ele, sem perder o ritmo. — Acho que vou contar.
E começou imediatamente, claramente em seu elemento. Observando-o, fui lembrado mais uma vez de que ser genuinamente animado era, por si só, um tipo de talento.
— Isso foi no meu terceiro ano do ensino fundamental. Encontrei um cara que eu conhecia da infância, e fomos de bicicleta até um restaurante de ramen… ou talvez fosse udon, nem lembro direito. Enfim, era um lugar grande, com um estacionamento amplo e um monte de bicicletas já paradas. Tudo normal, exceto por uma bicicleta que estava torta no suporte e ocupando uma vaga de carro. A gente nem ligou muito — só estacionamos nossas bicicletas, uma de cada lado, e fomos pra entrada.
Hashimoto riu enquanto falava, claramente curtindo a lembrança.
— Aí, de repente, sai um cara de lá. Devia ser universitário. Total vibe de solitário. Quando passa por nós, começa a resmungar, encarando nossas bicicletas. Aí eu pergunto: "Tem algum problema?". E ele responde: "Não consigo tirar minha bicicleta porque as de vocês estão atrapalhando". Só que tinha espaço de sobra. Dava pra tirar tranquilo.
— Enfim, pensei "tanto faz" e fui mover a minha. Mas enquanto faço isso, ele solta: "Não estacionem em lugares assim, isso atrapalha". Aí foi quando eu fiquei meio irritado. — Hashimoto se inclinou para frente, saboreando o suspense. — Então eu disse: "Cara, quem estacionou numa vaga de carro foi você". Aí ele surtou — começou a retrucar rápido, gritando: "Mas vocês estacionaram duas bicicletas!" — como se isso fosse um argumento—
— Espera aí — interrompeu Matoba, sem emoção. — Se a sua bicicleta também estava na vaga de carro, você estava tão errado quanto ele.
Um golpe dolorosamente sensato.
— Tá, tá, eu sei — Hashimoto admitiu, acenando com a mão. — Mas vai… o jeito que ele agia como se fosse a vítima? Todo arrogante com dois moleques do fundamental? Se fosse um cara com cara de perigoso estacionado ali, ele não teria dito uma palavra. — Ele sorriu de canto. — Assim que a gente encarou ele de volta, só murmurou alguma coisa e saiu correndo.
Se Hashimoto estava certo ou errado era irrelevante. Provavelmente todo mundo carregava uma ou duas histórias assim da época anterior ao ensino médio.
— Certo — disse Hashimoto, virando-se para mim. — Sua vez, Ayanokoji. Não precisa ser nada especial. Algo bobo como a minha já serve.
Eu já esperava que os holofotes se voltassem para mim em algum momento. O problema era que eu não tinha uma única história divertida que valesse a pena contar.
— Desculpa — disse, me levantando. — Vou sair um pouco. Surgiu algo que preciso resolver antes de amanhã.
— Ah, é mesmo? Então não tem jeito.
Se envolvia o exame especial, ninguém — nem mesmo Hashimoto — iria discutir. Na verdade, ele já tinha começado a contar outra história engraçada de seu repertório, então saí da tenda sem peso na consciência. Podia parecer que eu estava fugindo da conversa, mas a verdade é que realmente havia algo que eu precisava resolver antes do exame recomeçar pela manhã. Esperava que eles me perdoassem por isso.
Quando passou das nove, todos pareciam estar dentro de suas tendas. Ainda assim, poucos dormiam de fato — um murmúrio baixo de vozes podia ser ouvido por toda parte. Na escuridão, a certa distância, várias tendas alinhadas brilhavam suavemente com a luz de lanternas. As entradas estavam abertas, mas o tecido de malha impedia a entrada de insetos, formando pequenos limites invisíveis.
Protegidos dentro desses espaços, os alunos pareciam estar tentando — sinceramente — aproveitar aquele ambiente estranho, mantendo a inquietação à distância.
— Parece que ainda têm alguma reserva mental — murmurei.
Ou talvez fosse justamente porque a pressão era tão grande que eles instintivamente se aproximavam uns dos outros, protegendo-se apenas pela proximidade. De qualquer forma, pelo menos até a manhã seguinte, isso não seria um problema.
A tenda da pessoa que eu procurava era uma tenda de duas pessoas, e sua entrada estava fechada.
— Shiraishi, gostaria de te pedir algo. Você tem um momento?
Ainda não era tarde o suficiente para que ela estivesse dormindo, mas mesmo assim falei com cuidado.
Ouvi o leve farfalhar do tecido, seguido da abertura da entrada. Uma lanterna surgiu primeiro, sua luz quente se espalhando suavemente pela noite.

— Boa noite, Ayanokoji-kun — disse ela. — Aconteceu alguma coisa?
Shiraishi, que estava usando a tenda de duas pessoas, colocou a lanterna brevemente em minhas mãos antes de sair silenciosamente, enquanto o ar noturno voltava a nos envolver.
— Eu gostaria de conversar um pouco — disse eu. — Você tem um momento?
— Conversar…? — Shiraishi piscou, exibindo um raro lampejo de surpresa.
Atrás dela, outro rosto apareceu — Hoashi, sua companheira de tenda, espiando com um sorriso que nem fazia questão de esconder.
— Oooh, ei, ei, cuidado aí. Talvez seja melhor garantir que nenhum outro garoto veja vocês dois escapando juntos. Isso poderia virar um baita escândalo — sussurrou Hoashi, com uma cautela exagerada.
— Não é isso — Shiraishi disse imediatamente, virando-se para mim como se buscasse confirmação. — Não é, Ayanokoji-kun?
— É — respondi sem hesitar. — Não é isso.
Não é isso… exatamente o quê?
O pensamento permaneceu por uma fração de segundo antes que rostos como os de Yoshida e Shimazaki surgissem involuntariamente na minha mente. Pensando bem, era difícil negar que chamar Shiraishi para fora da tenda tarde da noite — a sós — poderia parecer suspeito, caso alguém visse.
Olhei instintivamente para a fileira de tendas atrás de nós. A luz das lanternas tremeluzia por entre o tecido de malha aqui e ali, sombras se movendo suavemente enquanto vozes murmuravam no interior. Ninguém parecia prestar atenção em nós — por enquanto.
Ainda assim, o aviso de Hoashi não era totalmente infundado.
— Pode ficar tranquila — acrescentei. — É algo relacionado ao exame, a partir de amanhã.
Expliquei isso mais para benefício de Hoashi, mas seus olhos continuavam sorrindo. Portanto, se ela acreditou ou não, era questionável.
Sob o olhar divertido de Hoashi às nossas costas, caminhei com Shiraishi, afastando-nos da área das tendas. A lanterna balançava suavemente em sua mão, projetando um círculo de luz trêmulo e quente sobre o chão.
— Uma conversa confidencial? — ela perguntou.
— Algo assim.
A luz iluminava seu rosto, e qualquer hesitação passageira que ela tivesse mostrado antes já havia desaparecido. Em seu lugar, estava a mesma expressão de sempre — ou o que Yoshida gostava de chamar de ar misterioso. Serena, e indecifrável.
— Então — disse ela, virando-se para mim —, sobre o que você queria falar comigo?
— Quero saber se algo na minha liderança hoje te incomodou. A forma como dei ordens. As decisões que tomei. — Fiz uma pausa. — Estou começando a me sentir perdido sobre como avançar daqui em diante.
— Incomodou… e perdido?
Ela pareceu entender imediatamente por que eu a havia chamado até ali, mas sua mão livre foi até os lábios num pequeno gesto pensativo.
— É surpreendente ouvir isso de você, Ayanokoji-kun — disse ela após um instante. — Sempre achei que você fosse do tipo que pensa em tudo sozinho. Que chega às próprias conclusões. E faz isso sem hesitar.
Surpreendente. Uma única palavra, dita por Shiraishi, incluída casualmente na frase. Uma leve sensação de estranhamento começou a se agitar dentro de mim — algo que eu já havia sentido mais cedo, logo após a emboscada. Agora, crescia lentamente, mas de forma inconfundível.
Até Hashimoto estava preocupado com o resultado da batalha.
Mas Shiraishi?
Ela não demonstrara sequer um lampejo de dúvida. Nenhum momento em que parecesse considerar a possibilidade de derrota.
Guardei esse pensamento. Por ora, continuei a conversa.
— Se pareci um líder pouco confiável — disse —, então peço desculpas.
— Não é o caso de forma alguma — ela respondeu de imediato. — Pelo menos, não para mim. Eu confio em você. Acredito que, no fim, você corresponderá a todas as expectativas que recaem sobre você.
Ela sustentou meu olhar diretamente, respondendo sem a menor hesitação.
— E por isso — continuou —, não há absolutamente nada que me preocupe.
— Se você esperava críticas — acrescentou com suavidade —, então suponho que falhei em lhe dar o que queria.
— Se você não está questionando meu julgamento por não ter previsto a emboscada — disse eu —, então está tudo bem. Agora entendo que você confia em mim. Isso é o suficiente.
— Sim — ela respondeu, assentindo com a cabeça, oferecendo um sorriso mais aberto.
— Então farei uso dessa confiança sem reservas.
— Se houver algo em que eu possa ajudar, farei o que estiver ao meu alcance.
Com isso, nossa conversa chegou ao fim. Acompanhei Shiraishi de volta até sua tenda, onde Hoashi a recebeu com uma expressão de leve surpresa — já voltou? — uma expressão que permaneceu em minha mente mais tempo do que deveria.
No caminho de volta, sozinho, em direção à tenda onde Hashimoto e os outros me aguardavam, olhei por cima do ombro para a tenda que Shiraishi dividia com Hoashi.
Ela confia em mim, ela dissera. Sem hesitar. Sem o menor traço de dúvida. Havia ali uma divergência — uma lacuna entre o que eu sabia sobre a aluna chamada Shiraishi Asuka e o que acabara de testemunhar. E era justamente isso que parecia fora de lugar.
Ela era alguém que sabia elevar os outros. Se acreditasse que uma mentira gentil serviria melhor aos interesses de alguém, ela a diria sem hesitação. Pela mesma lógica, se achasse que a honestidade era necessária, não evitaria dizer a verdade.
E, no entanto, desta vez, ela não me repreendera em nada. Não dera sequer um indício de insatisfação. Dissera — sem reservas — que acreditava em mim. O dano causado pela emboscada fora significativo. Não era algo que pudesse ser descartado como um erro trivial. Qualquer estudante comum teria dúvidas. Isso era natural.
Lembrei-me da primeira vez em que conversamos a sós — de manhã cedo, com a sala ainda vazia, no meu segundo dia na Classe C. Aquele encontro fora fruto de pura coincidência, sem dúvida.
Mas… e tudo o que veio depois?
Ainda era junho. Eu havia passado pouco mais de dois meses com meus colegas da Classe C.
Claro, eu não era um completo estranho durante o primeiro e o segundo ano, mas o momento em que comecei a me expor e a dirigir as coisas abertamente era, por qualquer medida, muito recente.
Até Yoshida e Shimazaki — dois garotos que interagiam comigo com frequência — ainda não me compreendiam de verdade. Hashimoto, que agora agia quase como meu braço direito, provavelmente não era muito diferente.
Hashimoto. Matoba. Hoashi. Morishita. Todos eles haviam sentido, ao menos, um lampejo de ansiedade naquele dia. E isso era normal. Eles não me conheciam o suficiente para não duvidar. Era exatamente por isso que aquilo se destacava tanto.
Por que Shiraishi achara surpreendente que eu pudesse sentir incerteza ou hesitação como líder?
Ela não era ingênua. Muito pelo contrário. Um comentário daquele tipo — aquela surpresa casual, desprotegida — não surgia de apenas dois meses de convivência.
Só fazia sentido se ela soubesse — ou acreditasse saber — algo sobre mim antes mesmo de nos tornarmos alunos do terceiro ano.
— Uma ligação com Sakayanagi… ou alguém… algo assim, hein… — murmurei para mim mesmo.
De qualquer forma, não era algo que exigisse uma ação imediata. Ainda assim, fiz questão de não esquecer — de guardar aquilo cuidadosamente na memória.
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