Ano 2 - Volume 2
Capítulo 1: Uma Vida Escolar em Transformação
A CLASSE 2-D estava vivendo uma situação bizarra, algo que nunca havia experimentado antes. Yukimura Teruhiko olhava repetidamente para a porta da sala de aula, enquanto sua perna tremia involuntariamente em pequenos espasmos nervosos.
— Por que você não relaxa um pouco? Nem faz cinco minutos que o Kiyopon saiu. Além disso, foi o professor que chamou ele, né? Tenho certeza de que isso vai demorar um pouco — disse uma das colegas e amigas próximas de Yukimura, Hasebe Haruka.
Sakura Airi e Miyake Akito também estavam presentes, permanecendo ali como se estivessem acompanhando Hasebe.
— Eu estou calmo… Não se preocupe — respondeu Yukimura, interrompendo o tremor involuntário depois de falar.
No entanto, não pareceu levar muito tempo até que ele perdesse a compostura novamente. Era possível ouvir o som discreto de sua perna direita balançando para cima e para baixo, roçando na calça.
Yukimura havia tentado conversar com Ayanokoji logo após a aula naquele dia, mas desistiu quando Horikita apareceu. Depois, ouviu dela que Ayanokoji havia sido chamado por Chabashira para algum lugar, então agora esperava seu retorno na sala de aula.
Hasebe soltou um profundo suspiro, como se expressasse resignação, e olhou pela janela. Como sabia que Yukimura normalmente não tinha esse hábito de balançar a perna involuntariamente, entendeu rapidamente que não adiantava insistir para que ele se acalmasse.
Um ar pesado e sufocante pairava sobre a Classe 2-D. Hasebe pensou que o céu de maio, trazendo consigo a primavera, parecia vibrante e bonito. Então voltou a pensar em como haviam acabado naquela situação.
Tudo começou por causa do exame especial de abril, no qual os alunos do primeiro e do segundo ano formaram duplas. E seu amigo, Ayanokoji Kiyotaka, havia tirado nota máxima na seção de matemática da prova escrita, a quinta matéria do exame.
Se fosse uma prova comum, não seria estranho ver um aluno tirar nota máxima. Regularmente havia estudantes que conseguiam pontuações perfeitas, e Yukimura, que liderava a turma em termos acadêmicos, costumava abrir caminho nisso. Claro, também havia ocasiões em que um aluno inesperado conseguia uma nota perfeita, o que sempre surpreendia. Isso podia ser resultado de muito estudo ou apenas coincidência, quando o conteúdo da prova acabava sendo justamente algo em que o aluno era especialmente bom.
Mas, desta vez, a situação era completamente diferente. Mesmo que Hasebe não tivesse plena consciência disso, ela havia percebido algumas coisas. Ayanokoji fora a única pessoa da turma a conseguir nota máxima naquele exame especial, e isso em qualquer matéria. Não era algo que pudesse ser explicado simplesmente pelo fato de ele ter estudado muito antes da prova, nem por mera coincidência.
— Ainda só se passaram seis minutos… Acho que ele ainda não vai voltar — comentou Hasebe.
Como amiga de Yukimura, ela não conseguia simplesmente deixá-lo sozinho naquele estado de inquietação, então pensou em puxar um assunto totalmente diferente. Mas, no fim, decidiu acompanhar o tema que ele queria discutir. O principal motivo era porque achava que isso poderia distraí-lo um pouco daquela ansiedade, mas também porque a própria Hasebe queria saber mais, já que era incrível Ayanokoji ter conseguido nota máxima em matemática.
— Quero dizer… as questões eram tão difíceis assim? — perguntou Hasebe.
Yukimura assentiu imediatamente, sem a menor hesitação.
— Não era só questão de serem difíceis. Eu nem entendia o que algumas perguntas estavam tentando dizer — respondeu ele, explicando que não era apenas um caso de não conseguir resolver os problemas da prova, mas sim de as próprias questões serem incompreensíveis para ele. — Depois que a prova terminou, procurei as questões da melhor forma que consegui lembrar e descobri que algumas delas estavam totalmente fora do escopo do que um estudante do ensino médio saberia. Em outras palavras, eram perguntas que nem deveríamos ser capazes de responder.
— O quê? Que diabos é isso? Será que as pessoas que administram essa escola enlouqueceram? Fugir tanto assim do conteúdo da prova… isso já é outro nível — disse Hasebe.
— É certamente absurdo, sim. Foi por isso que minhas notas caíram drasticamente em todas as matérias. No entanto, muitas das outras questões da prova não eram tão difíceis quanto a Chabashira-sensei havia dito que seriam — respondeu Yukimura.
Além das perguntas extremamente difíceis que haviam sido inseridas na prova para pegar todos de surpresa, também havia várias questões fáceis misturadas. Isso significava que o exame fora elaborado de tal forma que era praticamente impossível tirar nota máxima, mas também difícil tirar uma nota muito baixa.
— Então eles colocaram algumas dessas questões por consideração com a gente? Para aumentar a média da turma? — perguntou Hasebe.
— Isso é porque essa prova poderia ter levado alunos à expulsão. No que diz respeito à nossa turma, foi muito bom que eles tenham feito isso — disse Yukimura.
Isso, por si só, era algo para se comemorar. Mas, para Yukimura, naquele momento, era uma questão trivial.
— Ayanokoji tirou nota máxima, algo que ele não deveria ter sido capaz de fazer. Eu… sinto como se estivesse vendo algum tipo de truque de mágica.
A irritação de Yukimura podia ser percebida pelo fato de ele ter se referido deliberadamente a Ayanokoji pelo sobrenome, em vez do primeiro nome.
— O K-Kiyotaka-kun é incrível, não é? Quero dizer… c-conseguir resolver questões daquele tipo… — comentou Sakura, com um sorriso cauteloso, tentando aliviar a tensão no ar.
No entanto, pareceu surtir o efeito contrário. A expressão de Yukimura ficou ainda mais severa, carregando um ar mais profundo de resignação.
— Ao longo do último ano, tenho trabalhado para avaliar, até certo ponto, as habilidades acadêmicas de todos da nossa turma. Fiquei chocado com os resultados dessa prova justamente porque eu já havia concluído que não havia como alguém resolver aquelas questões — disse Yukimura.
— Conta mais — pediu Shinohara, uma de suas colegas de classe. Ela estava ouvindo a conversa do Grupo Ayanokoji e quis participar.
Muitos dos outros colegas também haviam notado a discussão e estavam prestando atenção no que Yukimura dizia.
— Vocês mesmos podem confirmar isso nos tablets. Existe alguém da nossa turma que tenha conseguido nota máxima em ao menos uma matéria? Bem, não… na verdade, vocês vão entender ainda melhor se olharem também para fora da nossa turma. Vejam o ano inteiro. Nem uma única pessoa tirou nota máxima. Nem Ichinose, nem Sakayanagi — explicou Yukimura, apresentando a todos a realidade da situação, como se quisesse provar seu ponto.
Pelos tablets, os alunos podiam visualizar os resultados das outras turmas além da Classe 2-D.
— Eu nem tinha percebido isso. Hã? Então dá pra ver as notas das outras turmas também? Por quê? — perguntou Shinohara, surpresa, pegando o tablet que lhe foi entregue e deslizando pelas páginas exibidas com curiosidade nos olhos.
— Quem sabe? Talvez seja por causa da introdução do aplicativo OAA, ou talvez exista outro motivo. De qualquer forma, seja lá qual for a razão, só vamos descobrir quando anunciarem a próxima prova — respondeu Yukimura.
— Ai, meu Deus, isso é horrível! Um monte de gente vai poder descobrir minhas notas! Que saco! — resmungou Karuizawa Kei, a líder das garotas da turma.
Então ela continuou, voltando ao assunto principal:
— Talvez o Ayanokoji-kun seja um gênio só em matemática, ou algo assim? Sabe, tipo aqueles protagonistas de dramas de TV que resolvem assassinatos usando matemática? — sugeriu Karuizawa.
Isso era diferente do que Sakura havia dito. Sakura tentara aliviar a tensão da situação, enquanto Karuizawa simplesmente não percebia o clima pesado. Depois de ouvir o que ela falou, Yukimura rejeitou a ideia, exasperado.
— Mas, se fosse verdade, por que ele nunca tirou nota máxima em nenhuma das provas anteriores de matemática? Se ele consegue resolver questões como as dessa prova, então não faz sentido que não tenha conseguido notas perfeitas, ou quase perfeitas, em todos os testes até agora — rebateu Yukimura, elevando um pouco a voz, como se dissesse que Karuizawa estava ignorando completamente o ponto principal.
— Cara, qual é o sentido de me perguntar isso? Eu não sei. Talvez ele tenha estudado pra caramba nas férias de primavera ou algo assim? — argumentou Karuizawa.
Yukimura estava ficando cada vez mais frustrado com as respostas sem sentido dela.
— Não estamos falando de algo que pudesse ser feito em um curto período de tempo. Mesmo que ele pudesse aprender coisas tão avançadas que eu nem consigo imaginar, isso ainda não explica como foi capaz de resolver questões que estão fora do alcance do que um estudante do ensino médio aprende. Se você não entende isso, então fique calada — disparou Yukimura.
Karuizawa, irritada com a resposta sarcástica dele, estava perto de perder a paciência.
— Olha, eu não entendo nada dessas coisas mesmo. Então por que você não para de agir desse jeito? Você está realmente me irritando.
— É, exatamente. Não é estranho você descontar isso na Karuizawa-san? — interveio Maezono, retrucando Yukimura e defendendo Karuizawa.
Agora com uma aliada ao seu lado, Karuizawa voltou a atacar Yukimura, usando contra ele o que havia sido dito antes.
— Você fala como se soubesse de tudo, mas talvez seja só você que não consegue entender, Yukimura-kun. Não é? Talvez seja apenas porque você realmente não conseguiu resolver aquelas questões sozinho, e elas nem sejam tão difíceis assim — disse Karuizawa.
No fundo, ela sabia que aquilo não soava muito convincente. Ainda assim, não podia mudar sua atitude, justamente porque sentia que precisava representar o papel da "idiota" naquela situação. Porém, a tensão continuava crescendo, e as suspeitas sobre Ayanokoji também aumentavam, gostasse ela disso ou não.
— Você já esqueceu o que eu acabei de dizer? Eram questões que nem Sakayanagi ou Ichinose conseguiram resolver perfeitamente — respondeu Yukimura.
— Então talvez ele simplesmente soubesse especificamente as respostas daquelas questões difíceis? — sugeriu Karuizawa.
— Escuta aqui—
Yukimura já havia ultrapassado a raiva e chegado à exasperação. Então começou a explicar tudo de novo, falando como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos e compreender toda aquela situação.
— Eu… Certo, então… em outras palavras, isso significa que ele… Bem, acho que isso quer dizer que ele sempre foi absurdamente bom em matemática, desde o começo.
— Tá, e isso não é uma coisa boa? Isso é praticamente o que eu disse antes, sobre ele ser um gênio da matemática, não é? — disse Karuizawa.
— Você ainda não entendeu o verdadeiro ponto aqui. Se ele realmente é um gênio, então ele—
— Ah, com licença. Eu acabei de pensar numa coisa…
Minami Setsuya interrompeu Yukimura, entrando na conversa justamente quando ela começava a tomar um rumo inesperado.
— Realmente é muito estranho que o Ayanokoji tenha simplesmente aparecido com uma nota máxima do nada. O que Yukimura está dizendo faz sentido também. Mas chamar ele de gênio da matemática não parece precipitado demais? Quero dizer, ele nunca tirou notas incríveis assim antes — argumentou ela, apoiando as palavras de Yukimura enquanto levantava novas dúvidas sob outro ponto de vista. — E foi exatamente por isso que eu pensei… talvez o Ayanokoji tenha feito alguma coisa meio suspeita ou algo assim?
O pensamento que começava a se formar nas mentes de Yukimura e de muitos outros alunos era: "Ayanokoji é um gênio da matemática." Agora, porém, surgia uma possibilidade oposta, que rejeitava completamente essa ideia. E se ele não tivesse resolvido aquelas questões usando a própria habilidade?
— Ei, isso pode ser verdade. Talvez ele tenha visto o gabarito ou algo assim. Espera, não aconteceu uma coisa parecida no nosso primeiro ano? Ah, é mesmo! Cara, teve uma prova antes em que todas as questões eram iguais às dos anos anteriores! — gritou Ike Kanji em voz alta, como se tivesse acabado de se lembrar do ocorrido.
Na primavera do ano passado, um dos colegas de turma havia conseguido as respostas de uma prova com um aluno do terceiro ano. Era um exame extremamente difícil, mas qualquer um poderia tirar uma nota alta se simplesmente memorizasse as respostas.
— Mas, se as questões dessa prova fossem exatamente iguais às dos anos anteriores, não seria estranho ninguém ter passado essa informação para nós? E, além disso, também é estranho que ninguém das outras turmas tenha percebido isso — explicou Miyamoto calmamente, sem concordar com a teoria de Ike.
— Tá, então… talvez ele soubesse as perguntas e respostas com antecedência? Tipo, conseguiu essa informação de um jeito que não podia simplesmente sair contando como fez…? Sei lá, talvez ele tenha colado — disse Ike.
— E exatamente como ele teria colado? — rebateu Shinohara, que estava ao lado dele, agarrando-se àquela suposição vaga.
— Tipo… talvez ele tenha hackeado o sistema da escola e roubado as respostas ou algo assim! Isso é totalmente possível! — exclamou Ike.
— Bem, isso basicamente acaba dando na mesma coisa que a Karuizawa sugeriu antes… sobre ele ser um gênio…
A cabeça de Yukimura começou a doer ao ver o espetáculo desastroso de sua turma perdendo completamente o controle. Ainda assim, de forma estranha, o tempo parecia passar rápido enquanto os alunos se envolviam profundamente naquela discussão.
O ponto central do debate era se Ayanokoji poderia ter obtido as respostas da prova por algum meio, em vez de realmente resolvê-la sozinho. E essa discussão estava ficando cada vez mais acalorada. Isso provavelmente era um desenvolvimento natural, afinal Ayanokoji nunca havia tirado notas tão altas antes.
Foi então que Sudou Ken, que permanecera ouvindo em silêncio até aquele momento, dissipou aquelas suspeitas. Quando se levantou, exibindo toda a sua altura de mais de um metro e oitenta e seis, os olhares de todos se voltaram para ele.
— Vocês estão ficando exaltados demais com isso tudo, mas não existe nenhuma prova de que o Ayanokoji colou, existe? Não saiam tirando conclusões quando a pessoa de quem vocês estão falando nem está aqui — disse Sudou.
O que Sudou acabara de dizer era perfeitamente razoável. Ainda assim, toda a turma não conseguiu esconder a surpresa pelo fato de justamente ele ter dito aquilo. Ike, amigo próximo de Sudou e com quem ele normalmente andava, parecia especialmente descontente.
— Cara, que diabos, Ken? Você tá falando sério? Vai mesmo ficar do lado do Ayanokoji? — retrucou Ike.
— Não é isso. Quero dizer, não é como se alguém pudesse conseguir aquelas respostas tão facilmente assim, né? …Eu só acho mais provável que ele tenha tirado nota máxima por mérito próprio, só isso — respondeu Sudou, de maneira menos eloquente do que antes, murmurando um pouco enquanto expressava sua opinião.
— Ah, para com isso. Você falou de mérito próprio, mas a nota de habilidade acadêmica dele no OAA mês passado era menor que a minha. É óbvio que ele fez alguma coisa suspeita, senão não teria conseguido — rebateu Miyamoto, que havia conferido o aplicativo OAA assim que ele foi atualizado depois das aulas, insistindo mais uma vez que Ayanokoji devia ter trapaceado.
— Mas nós não somos mais os mesmos do primeiro ano. A gente tá amadurecendo — disse Sudou.
— O Sudou-kun está completamente certo nisso. Quero dizer, vocês não acham? Além disso, o Sudou-kun já até ultrapassou você em habilidade acadêmica também, Miyamoto-kun — acrescentou Karuizawa.
Miyamoto pareceu um pouco envergonhado ao ouvir aquele comentário certeiro. Não seria exagero dizer que Sudou estava entre os alunos com pior desempenho do ano anterior, mas sua pontuação de habilidade acadêmica no aplicativo OAA havia subido rapidamente para cinquenta e quatro pontos após a atualização. Isso significava que, ainda que por apenas um ponto, ele havia superado os cinquenta e três pontos de Miyamoto.
— T-Tá bom, tudo bem. O Sudou estudou muito, e eu reconheço que ele amadureceu bastante, mas… mas, no caso do Ayanokoji, a diferença foi grande demais! — argumentou Miyamoto.
— Então talvez seja possível que ele só estivesse escondendo as habilidades dele até agora. Igual ao Koenji — disse Sudou.
E foi nesse ponto que uma teoria parecida com a que Karuizawa havia mencionado antes — a de que Ayanokoji seria um gênio apenas em matemática — voltou à tona. O debate claramente estava andando em círculos e, a essa altura, a situação começava a piorar.
— Mas, nesse caso, isso não seria ainda mais problemático? Isso significa que ele não vinha contribuindo para a turma — argumentou Ike.
Ou seja, havia notas que ele poderia e deveria ter conseguido, mas não conseguiu. Era verdade que, se Ayanokoji estivesse escondendo suas capacidades, então a afirmação de Ike não estava errada. Sudou e seus amigos sempre foram um grupo muito unido, mas agora se viam diante de um conflito interno.
Um aluno concluiu que não podia simplesmente assistir à situação continuar fervendo daquele jeito. Então decidiu intervir para mediar a discussão.
— Ei, pessoal, vamos nos acalmar um pouco. Não é algo que possamos resolver ficando exaltados aqui e agora, de qualquer forma — disse Hirata Yousuke, interrompendo a discussão justamente quando o clima na sala continuava a piorar.
Hirata normalmente tomava a iniciativa de agir como pacificador, mas até então havia permanecido em silêncio. Ele queria entender o que seus colegas estavam pensando e sentindo para então tentar resolver a situação a partir disso.
Agora, dirigiu-se primeiro a Sudou, falando com uma voz gentil e amigável.
— Sudou-kun, não está na hora das atividades do clube? — perguntou Hirata.
— Hã? A-Ah, agora que você falou… é mesmo.
Sudou voltou ao normal, como se tivesse acabado de ser puxado de volta à realidade.
— Enfim, eu entendo que vocês estejam curiosos sobre o que está acontecendo, mas ainda há muita coisa que não sabemos. Não acho uma boa ideia deixar especulações saírem tanto do controle a ponto de atrapalhar as atividades dos clubes. Tenho certeza de que vocês entendem que "vou me atrasar só desta vez" não vai funcionar como desculpa, certo? — disse Hirata.
Hirata havia decidido que sua prioridade naquele momento era diminuir o número de pessoas na sala de aula. Sudou e os outros, que estavam exaltados e haviam até esquecido seus compromissos com os clubes, recuperaram silenciosamente a compostura.
Com a introdução do aplicativo OAA, o número de alunos preocupados com suas próprias pontuações havia aumentado drasticamente.
Sudou era um desses alunos. Com a bolsa na mão, ele lançou um breve olhar para as costas de Suzune antes de deixar silenciosamente a sala de aula. Durante toda aquela confusão, ela não havia dito uma única palavra. Os demais alunos que também tinham atividades de clube fizeram o mesmo e saíram da sala.
— Eu também tenho que ir. Foi mal, mas vou deixar o Keisei nas suas mãos.
— Sim. Até mais, Miyacchi — respondeu Hasebe.
Akito, outro integrante do Grupo Ayanokoji, pegou suas coisas e saiu da sala para ir ao clube de arco e flecha. Hasebe e Sakura o observaram partir.
A sensação de inquietação ainda pairava no ar. Mais alunos começaram a sair aos poucos, retornando para os dormitórios. Ainda assim, mais da metade da turma permaneceu na sala de aula.
*
Nós, os alunos da Classe D, acabávamos de sobreviver ao primeiro exame especial do segundo ano. Minha mão esquerda havia acabado ferida graças ao meu pequeno confronto com Housen, mas consegui eliminar com sucesso o risco de expulsão. Eu entendia perfeitamente que levaria algum tempo para o ferimento — o preço que paguei pelos meus esforços — cicatrizar completamente, mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso.
Saí da sala de recepção, com Tsukishiro me observando partir, e soltei um pequeno suspiro ao fechar a porta atrás de mim. Agora eu poderia voltar à minha vida cotidiana tranquila e despreocupada de estudante…
Bem, não. Na verdade, não.
As coisas já haviam chegado a um ponto em que eu nem sequer podia mais alimentar pensamentos tão ingênuos.
Além disso, meu ambiente atual já estava muito longe do que se poderia chamar de uma vida cotidiana comum. Ser convocado pelo diretor interino para uma conversa era um acontecimento extremamente incomum, algo que deixaria a maioria dos alunos completamente confusa.
Mesmo pensando nisso, aceitei resignado a realidade da situação, reconhecendo que não havia nada que eu pudesse fazer. Eu havia fugido para esta escola. Não tinha outra escolha além de aceitar que coisas assim me seguiriam para sempre. A única maneira de me libertar das correntes que me prendiam seria sendo expulso.
— Parece que a conversa acabou.
— Sim, parece que sim — respondi.
Chabashira, que estava esperando por mim a certa distância da sala de recepção, aproximou-se como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Fiquei um pouco decepcionado ao vê-la, mas não deixei isso transparecer no rosto.
Tsukishiro não sabia que eu estava trabalhando em conjunto com Chabashira, a professora responsável pela nossa turma, e com Mashima-sensei, o professor encarregado da Classe 2-A. Levando isso em consideração, era extremamente estranho que Chabashira continuasse ali me esperando depois que Tsukishiro me chamara.
O fato de Tsukishiro ter usado Chabashira para me levar até sua sala era perfeitamente compreensível, considerando o papel dela como minha professora responsável. Ainda assim, eu não podia descartar a possibilidade de ele estar usando essa oportunidade para armar uma armadilha. Era exatamente por isso que eu queria que ela fosse embora sem voltar a entrar em contato comigo.
Se alguém pensasse em como seria uma relação normal entre professor e aluno, era totalmente antinatural que uma professora ficasse parada esperando daquele jeito.
Se a situação estivesse um pouco mais calma, Chabashira talvez percebesse isso. Eu tinha certeza de que sua decisão fora influenciada pelo fato de eu ter tirado nota máxima na parte de matemática do exame e revelado minhas verdadeiras habilidades para alguns colegas. Eu entendia por que tudo aquilo a deixava inquieta, mas sua atitude havia sido precipitada.
Bem, suponho que, se havia algo que eu podia dizer em defesa dela, era que tínhamos opiniões completamente diferentes sobre Tsukishiro.
Da perspectiva de Chabashira, ele apenas tinha alguma ligação com o pai de um aluno. Um aluno cuja turma ela supervisionava. Isso não era surpreendente, já que ela desconhecia informações de bastidores, como a existência da Sala Branca. Naturalmente, isso significava que havia uma diferença enorme entre o nível de cautela que demonstrávamos diante de Tsukishiro e nossas atitudes em relação a ele.
E foi exatamente por isso que eu não pretendia dizer nada naquele momento. Tudo o que eu podia fazer agora era ir embora o mais rápido possível, então continuei andando.
— Você virou uma pequena celebridade agora — comentou Chabashira.
Eu me perguntava o que ela diria ao abrir a boca. Então foi isso que ela decidiu mencionar, hein?
— Não estou feliz com isso, mas foi uma medida necessária. Acho que só preciso aceitar como algo dentro de limites toleráveis.
— Mas, mesmo deixando de lado os alunos das outras turmas, como pretende explicar isso para seus próprios colegas? Até agora você vinha interpretando ao máximo o papel de estudante discreto e sem destaque. Agora que tirou nota máxima na prova de matemática — apesar da dificuldade absurda de algumas questões — seus colegas não vão simplesmente deixar isso passar. Você já tomou alguma providência para lidar com isso? — perguntou ela.
Enquanto deixava as perguntas de Chabashira entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, sem realmente prestar atenção, pensei no que faria dali em diante. Eu havia deixado minha bolsa na sala de aula, então precisava voltar para buscá-la.
— Não havia como eu me preparar para isso antecipadamente. Vou ter que começar a lidar com isso agora — respondi.
Além disso, seria completamente insano sair por aí anunciando deliberadamente para todos que eu tiraria nota máxima na parte de matemática do próximo exame especial.
— Você vai enfrentar dificuldades. É melhor se preparar para uma enxurrada de perguntas — disse Chabashira.
— Eu sei.
Se você já faz ideia do que vai acontecer a seguir, então eu realmente preferiria que me deixasse ir embora o mais rápido possível.
— Tudo bem se nos separarmos aqui? Se me virem andando sozinho com a professora responsável pela minha turma, vou acabar atraindo atenção desnecessária — falei.
— Sim, sim, eu entendo — murmurou Chabashira, antes de seguir em direção à sala dos professores.
Eu tinha certeza de que ela estava tentando conter suas emoções o máximo possível, mas era fácil perceber que estava transbordando de alegria. Ela podia agir de maneira mais distante do que os outros professores responsáveis, mas, na realidade, Chabashira provavelmente era a mais próxima de seus alunos.
Era justamente por carregar arrependimentos e sentimentos mal resolvidos de sua própria época como estudante que emoções tão intensas transbordavam dela.
Seu rosto inexpressivo era convincente o bastante para esconder isso diante de alunos comuns, mas… bem, do meu ponto de vista, ela era completamente transparente. Num nível quase cômico.
O fato de ela ser fácil de manipular era uma vantagem, mas, naquele momento, ela apenas estava me atrapalhando. Ainda assim, não havia motivo para desperdiçar mais energia com ela agora, então decidi simplesmente esquecê-la por enquanto.
Peguei meu celular e tentei ligar para Horikita. Mas, embora a chamada chamasse, ela não atendeu. Também tentei mandar uma mensagem rápida, mas ela nem chegou a visualizá-la.
— Bem, acho que eu tentei.
Horikita provavelmente era a pessoa mais útil que eu poderia recrutar para me ajudar a superar aquela situação naquele momento, considerando nossa pequena aposta sobre a prova de matemática e toda a questão envolvendo o conselho estudantil ao longo do último ano. Com uma pequena explicação do que estava acontecendo, eu tinha certeza de que conseguiria fazê-la cooperar comigo até certo ponto.
Eu teria gostado de preparar o terreno com antecedência, se possível, mas parecia que teria de lidar com tudo improvisando no momento.
Minha sala de aula entrou no meu campo de visão. Fiquei me perguntando como o restante da turma estaria reagindo agora que eu havia tirado nota máxima em matemática. Teria sido bom se quase todos os alunos já estivessem voltando para os dormitórios, como de costume.
Com essa esperança no coração, retornei à sala de aula — e encontrei uma cena bem diferente da que desejava.
Levou menos de meia hora para eu voltar à sala depois da conversa com Tsukishiro. Normalmente, a maioria dos alunos já teria deixado o prédio da escola a essa altura. Mas, embora os únicos estudantes restantes fossem aqueles que não participavam de atividades de clube, ainda havia bastante gente ali.
E, claro, só podia haver um motivo para isso: eu.
Isso ficou evidente no instante em que senti o clima da sala e os olhares voltados para mim.
Horikita, a mesma pessoa que não havia atendido o telefone momentos antes, também estava ali. Parecia que ela entendia melhor a situação em que eu me encontrava do que eu imaginava. No entanto, eu nem tive tempo de demonstrar gratidão, porque, no instante em que coloquei os pés na sala, os alunos vieram em minha direção, ansiosos para me bombardear com perguntas.
A primeira pessoa a se aproximar foi justamente um dos integrantes do Grupo Ayanokoji: Keisei. Diferente de Chabashira, que parecia radiante de felicidade, a expressão de Keisei demonstrava certa irritação.
— Desculpa pelo que aconteceu antes, quando você tentou falar comigo — falei.
Keisei havia tentado conversar comigo logo após o fim das aulas, mas fora interrompido pela chegada de Horikita. Precisava começar me desculpando por aquilo.
— Não é nada demais. Mais importante… agora é um bom momento? Tenho várias perguntas para te fazer — disse Keisei.
Haruka e Airi, outras integrantes do Grupo Ayanokoji, também se aproximaram imediatamente. Akito não estava por perto, provavelmente por causa das atividades do clube, como eu já havia mencionado antes.
Mesmo assim, havíamos atraído uma grande audiência, e muita gente escutava atentamente nossa conversa.
— Você… o que significa isso de ter tirado cem em matemática? Eu conferi o ranking do nosso ano inteiro no OAA. Nem Ichinose nem Sakayanagi tiraram nota máxima. Você foi a única pessoa do ano inteiro que conseguiu isso — disse Keisei.
Normalmente, tirar nota máxima em uma prova — mesmo superando ligeiramente os outros — não causaria uma comoção desse nível. Mas aquela prova era diferente.
Os alunos academicamente mais avançados entendiam isso especialmente bem. Quanto melhor o estudante, melhor compreendia o quão absurdo era conseguir nota máxima naquele exame. Até mesmo os alunos menos dedicados aos estudos provavelmente já começavam a perceber que havia algo estranho, considerando a reação de todos ao redor.
— Bem, sobre isso… — comecei, hesitando.
Enquanto falava, meu olhar vagou pela sala. Então fixei os olhos em Horikita, que estava sentada perto da frente da sala, buscando sua ajuda.
— Muito bem. Eu posso explicar — disse Horikita.
Normalmente, ela já estaria voltando para o dormitório naquele horário, mas aparentemente decidiu permanecer depois de perceber que os outros alunos também haviam ficado na sala. E aquela tinha sido a decisão certa.
Como ela já estava olhando em minha direção, nem precisei confirmar que havia permanecido ali para me ajudar a controlar a situação. Para garantir que a atenção dispersa da turma se concentrasse em um único ponto, Horikita se levantou de onde estava sentada e caminhou até mim, posicionando-se ao meu lado.
— Eu estou… perguntando ao Kiyotaka.
Keisei pareceu incomodado com a presença dela, aparentemente considerando Horikita uma intrusa desnecessária que havia se metido na conversa.
— Sim, eu sei. Mas, Yukimura-kun, sou eu quem tem as respostas que você procura — respondeu Horikita.
— O que isso quer dizer….?
Ao escolher deliberadamente uma forma tão intrigante de se expressar, Horikita conseguiu atrair sozinha a atenção de Keisei e de todos os outros colegas.
— Essa é uma nota que nem você nem eu conseguiríamos alcançar, Yukimura-kun… Na verdade, não. Era uma pontuação impossível para qualquer aluno do nosso ano. Tenho certeza de que vocês estão se perguntando como Ayanokoji-kun conseguiu tirar nota máxima, certo? É algo realmente intrigante, não é? — disse Horikita.
Ela havia direcionado especificamente a pergunta para Keisei, mas provavelmente era algo que toda a turma queria saber.
— Sim… Pra ser sincero, eu simplesmente não consigo entender isso. Quero dizer, eu já tinha comentado antes, mas as questões do final da prova pareciam impossíveis de resolver. Eu simplesmente não consigo compreender como o Kiyotaka conseguiu resolver aquilo como se não fosse nada demais — disse Keisei.
Eu realmente me lembrava dos comentários surpresos feitos por algumas pessoas da turma logo após a prova ser entregue. Começando por Keisei e Yousuke, os alunos com as melhores notas haviam discutido sobre as questões absurdamente difíceis que apareceram no exame. O assunto também surgiu dentro do Grupo Ayanokoji. Eu lembrava que, quando me perguntaram sobre aquilo, respondi de forma vaga, sem deixar claro se havia conseguido resolver as questões ou não.
— O Kiyotaka sabia que eram problemas que ninguém da nossa turma conseguiria resolver. E, mesmo assim, nunca se gabou por ser capaz de resolvê-los. Isso não é estranho? Eu nem consigo imaginar o que significa tudo isso… Me sinto culpado só de pensar nisso, mas, se ele sabia as respostas desde o começo, então isso me faz pensar que só pode ter sido porque, bem… vocês sabem — disse Keisei.
— Então você está sugerindo que ele trapaceou… Sim, bem, suponho que não seja surpreendente que alguém pense isso numa situação dessas — disse Horikita.
Keisei havia formulado suas palavras de maneira propositalmente ambígua, mas Horikita foi direta e expressou claramente o que ele estava insinuando. Mesmo Keisei desviando o olhar, aparentemente constrangido, Horikita não recuou e continuou pressionando o assunto.
— É completamente compreensível ter dúvidas numa situação assim. Se eu fosse uma aluna que não soubesse de nada do que está acontecendo aqui, provavelmente suspeitaria de irregularidades por parte do Ayanokoji-kun, assim como Yukimura-kun suspeitou. No entanto, a verdade é que as coisas não são o que parecem — disse Horikita.
Ela fez uma pausa, respirou fundo e lançou um breve olhar para os colegas, todos atentos a ela.
— Pretendo dar essa mesma explicação para as pessoas que não estão aqui em outro momento. Mas, de qualquer forma, para resolver o mistério de como Ayanokoji-kun conseguiu nota máxima, preciso levar vocês de volta ao começo da primavera do ano passado — disse Horikita.
O começo da primavera do ano passado. Em outras palavras, logo depois de começarmos na escola.
— Nós mudamos os lugares recentemente, mas tenho certeza de que todos se lembram de que Ayanokoji-kun e eu sentávamos um ao lado do outro até pouco tempo atrás, certo? Assim que cheguei a esta escola, comecei a conversar com Ayanokoji-kun. Isso me levou a descobrir, por acaso, que ele era um aluno excepcionalmente capaz… até mais do que eu — disse Horikita.
— Espera, mais do que você? Um segundo. Eu lembro que as notas do Kiyotaka eram todas medianas desde que entramos na escola. Desculpa, mas realmente não parecia haver nada de especial nele. Na verdade, no OAA, a habilidade acadêmica dele está classificada como C — completamente mediana —, certo? — argumentou Keisei.
Keisei havia relembrado o passado com precisão. Ainda assim, Horikita não se abalou com a contestação dele.
— Claro. Isso porque minha estratégia já estava em andamento desde a nossa primeira prova — disse Horikita, afastando-se de mim e caminhando até a frente da sala.
Ela fazia aquilo para manter os olhares de todos concentrados nela, provavelmente tentando desviar a atenção de mim. Eu já esperava que ela me ajudasse, mas ela estava lidando com a situação ainda melhor do que eu havia imaginado.
— Ele sempre teve o conhecimento necessário para conseguir notas máximas em matemática. Como eu sabia disso antes de qualquer outra pessoa, pensei em uma pequena estratégia — disse Horikita.
— Uma estratégia? — perguntou Keisei.
Eu apostava que ele devia ter várias dúvidas quanto a esse ponto. Provavelmente estava se perguntando como diabos eu havia adquirido aquele tipo de conhecimento. Mas Horikita evitou essa questão por enquanto e continuou focada no ponto principal. Não em como eu havia adquirido aquele conhecimento, mas no motivo pelo qual ela escondera minhas habilidades acadêmicas.
Ela transformou especificamente essa pergunta no centro da conversa e direcionou toda a atenção da turma para ela.
— Em abril do ano passado, nós, os alunos da Classe D, ficamos nas nuvens depois de recebermos uma grande quantia de dinheiro em nossas contas. Tenho vergonha de admitir, mas eu fui uma dessas pessoas. Porém, tive um pressentimento de que algo inesperado poderia acontecer. Então, como uma espécie de experimento, pedi um favor ao meu colega de carteira, Ayanokoji-kun. Pedi que ele deliberadamente se contivesse nas provas. Acho que vocês podem dizer que eu queria mantê-lo como uma unidade de reserva… ou como um trunfo. Claro, pedi que ele garantisse que permaneceria em um nível que não prejudicasse a turma. Ou seja, exatamente no nível que a escola considera como um "C" em habilidade acadêmica — explicou Horikita.
Até aquele momento, minhas notas haviam sido completamente comuns. Horikita estava dizendo que aquilo fora intencional e fazia parte de uma estratégia elaborada por ela.
Claro, se alguém refletisse cuidadosamente sobre o que havia acontecido um ano atrás, tudo aquilo pareceria extremamente estranho. Existiam vários pontos que poderiam gerar questionamentos, como o fato de Horikita não ser exatamente o tipo de pessoa que tinha um bom relacionamento com os outros naquela época, ou ainda a questão de como e quando ela percebeu minhas habilidades acadêmicas, entre outras coisas.
Mas, para muitos deles, um ano era muito, muito tempo. Aquelas memórias já estavam distantes. Diferente de um acontecimento tão intenso a ponto de ficar gravado profundamente no hipocampo, o que Horikita sugeria era fácil de aceitar justamente porque nada daquilo havia sido particularmente marcante ou memorável, tornando tudo ainda mais vago. Pouquíssimos alunos seriam capazes de se lembrar claramente daqueles dias.
A maioria provavelmente apenas pensaria: "Ah, então era isso?", preenchendo as lacunas por conta própria.
Claro, alguém como Keisei, cujos sentimentos de desconfiança já estavam profundamente enraizados naquele ponto, não aceitaria aquilo tão facilmente. Ele atacou justamente as partes mais difíceis de explicar, sem deixar Horikita escapar.
— Eu acho tudo isso difícil de acreditar. Se você tinha dúvidas sobre como essa escola funcionava, teria sido mais benéfico para a turma pedir para ele tirar notas altas desde o começo. Se ele consegue tirar nota máxima numa prova dessas, então não é impossível que tivesse uma classificação A ou até A+ em habilidade acadêmica. Mesmo que estivéssemos falando da pontuação de uma única pessoa, os Pontos de Classe teriam aumentado, pouco a pouco, mas de forma constante — argumentou Keisei.
Ele estava dizendo que não conseguia enxergar as vantagens de me manter como uma espécie de "reserva".
— Sim, suponho que você tenha razão. Isso seria ótimo… se estivéssemos pensando apenas em Pontos de Classe a curto prazo. Mas e se ele tivesse dado tudo de si desde o começo…? O que você acha que teria acontecido com Ayanokoji-kun até agora? Melhor dizendo… que tipo de futuro você teria previsto para ele? — perguntou Horikita.
Diante da desconfiança de Keisei, ela não fugiu nem se esquivou; encarou suas dúvidas de frente e improvisou. Não hesitou nem por um instante, e as palavras simplesmente fluíam de sua boca naturalmente. Era quase como se ela tivesse planejado tudo aquilo desde o começo.
— Que tipo de futuro eu teria previsto pra ele…? — repetiu Keisei, sem entender o sentido da pergunta.
Horikita então começou a explicar o que queria dizer.
— Vamos supor, apenas por hipótese, que Ayanokoji-kun tivesse usado todo o potencial de suas habilidades logo de cara, desde abril, como você sugeriu, Yukimura-kun. Nesse caso, o nome dele provavelmente já teria chegado aos ouvidos de Sakayanagi-san, Ichinose-san e Ryuen-kun. Quando se trata de matemática, ele talvez seja o melhor aluno do nosso ano. Se uma pessoa assim fosse deixada livre, as outras turmas a veriam como um obstáculo. Não seria estranho se começassem a colocar planos em prática para eliminá-lo — disse Horikita.
— Então você está dizendo que ele poderia ter virado um alvo? — perguntou Keisei.
— Sim. Isso não seria nada surpreendente, não acha? Afinal, qualquer coisa pode acontecer nesta escola. Na verdade, a escola chegou ao ponto de aplicar um exame especial em que um aluno foi expulso por meio de uma votação dentro da turma. E, na realidade, Ayanokoji-kun esteve temporariamente em risco de expulsão por causa da estratégia da Sakayanagi-san. Embora ele ainda fosse considerado apenas um aluno comum naquela época e tenha sido usado como bode expiatório naquela situação, eu tinha receio de que Sakayanagi-san o enxergasse como uma ameaça real e estivesse tentando eliminá-lo — explicou Horikita, dizendo que, dependendo de como as coisas tivessem acontecido, talvez eu tivesse sido expulso no lugar de Yamauchi.
— Espera aí, isso não faz sentido. Se o Kiyotaka estivesse se esforçando desde o começo, então, mesmo comparando ele com o Yamauchi, o resultado teria sido óbvio — argumentou Keisei.
— Não tenho tanta certeza disso. O Yamauchi-kun poderia ter agido de forma mais cuidadosa para evitar a expulsão, e a estratégia da Sakayanagi-san talvez tivesse se tornado mais complexa e mais difícil de perceber por nossa parte. Além disso, Yamauchi-kun tinha muito mais amigos próximos do que Ayanokoji-kun. Tudo depende exatamente do que você está comparando — respondeu Horikita.
Como a discussão agora já estava entrando num debate circular e sem sentido, Keisei não conseguia insistir muito mais naquele ponto. Mesmo que trouxesse outros exemplos de provas passadas, Horikita provavelmente responderia da mesma forma.
— Tudo bem então. Mas por que agora? Se o Ayanokoji começar a exibir suas habilidades de forma descuidada agora, vamos ter o mesmo problema, não é? Ele chamou a atenção de todo mundo fazendo esse alarde repentino. Então pode acabar virando alvo daqui pra frente — disse Keisei.
Ele basicamente afirmava que não havia diferença de risco entre eu começar a me destacar um ano atrás ou fazer isso agora. Mas parecia que essa resposta já estava completamente dentro das expectativas de Horikita. Ela não demonstrou o menor sinal de nervosismo.
— Não, existe uma diferença enorme entre ele mostrar suas capacidades há um ano e mostrá-las agora. Nosso senso de união como turma cresceu imensamente ao longo deste último ano. Cada um de nós amadureceu. Também nos tornamos capazes de tomar as decisões corretas — disse Horikita.
Ao olhar para como todos nós éramos um ano atrás, até mesmo Keisei provavelmente conseguia perceber a verdade nas palavras dela.
— E isso não se limita apenas ao Ayanokoji-kun. Por exemplo… hm… sim. Ele não está aqui agora, mas acho que Sudou-kun é um exemplo fácil de entender. No ano passado, ele era um aluno terrível. Sem dúvida alguma, o maior fardo da nossa turma. Mas e agora? Embora ainda existam alguns resquícios de seu temperamento bruto, ele demonstrou uma melhora incrível. Suas notas, em particular, melhoraram drasticamente. Somando isso ao seu talento atlético já elevado, sua habilidade geral no OAA atualmente é superior à sua, Yukimura-kun, considerando os dados de maio — disse Horikita.
A avaliação de Keisei havia subido em abril, mas, depois dessa última prova, Sudou o ultrapassou. Horikita apresentou a Keisei um fato que ele não podia contestar: o valor numérico da habilidade geral de alguém no OAA.
— Além disso, não tenho certeza se eu ou você realmente tínhamos a capacidade ou a vontade de proteger Sudou-kun quando entramos nesta escola. Você não concorda, Yukimura-kun? — acrescentou ela.
Ela estava sugerindo que era questionável se os mesmos alunos que haviam defendido que Sudou deveria simplesmente ser deixado de lado, e que nem sequer pensaram em ajudá-lo, seriam capazes de proteger seriamente seus colegas de classe. Porém, se Sudou se metesse em problemas agora, até mesmo Keisei provavelmente ajudaria todos a pensar com cuidado e elaborar a melhor estratégia para ajudá-lo.
— Se alguém resolvesse mirar em Ayanokoji-kun agora, poderíamos trabalhar juntos para protegê-lo. Foi a essa conclusão que cheguei. E é exatamente por isso que fiz Ayanokoji-kun mostrar do que é capaz agora: para começar a elevar o nível geral da nossa classe — disse Horikita.
Alguns dos alunos presentes começaram a parecer convencidos, como se pensassem: "Ah, entendi, faz sentido." No entanto, mais da metade ainda tinha dúvidas sobre a situação. Ainda assim, Horikita provavelmente não tinha material suficiente para convencer todos completamente. Se a história dela já estivesse recheada de mentiras, inevitavelmente haveria falhas, não importava o que tentasse fazer.
Claro, ela ao menos conseguiria encerrar o assunto temporariamente. Mas, se tivesse apoio suficiente, a história seria diferente.
Depois de se certificar de que quase todos estavam olhando para Horikita, voltei meu olhar para Yousuke — o rapaz em quem nossa classe depositava confiança absoluta. Embora estivesse voltado para Horikita, Yousuke ocasionalmente fingia olhar ao redor para observar o que acontecia comigo. Então, quando concluiu que não chamaríamos atenção, cruzou o olhar comigo.
Assim como acontecia com os outros colegas, havia muitas coisas que eu nunca tinha contado a Yousuke. Se ele fosse qualquer outro aluno, eu tinha certeza de que teria dúvidas e suspeitas, assim como Keisei e os demais. Não seria estranho se começasse a me bombardear com perguntas incisivas. Mas, considerando que estávamos falando de Yousuke, eu não precisava me preocupar com nada disso.
Yousuke sempre pensava no que era melhor para os colegas de classe. Essa era sua prioridade acima de tudo. Ele também compreendeu o papel que lhe havia sido atribuído naquela situação sem que eu precisasse explicar.
— Acho que entendo, pelo menos um pouco, o significado da sua estratégia de manter Ayanokoji como uma carta na manga. Mas tenho uma pergunta: matemática é a única coisa em que Ayanokoji é excepcionalmente bom? — perguntou Keisei.
— Não posso responder a essa pergunta neste momento — respondeu Horikita calmamente. — O aluno conhecido como Ayanokoji-kun está demonstrando tudo aquilo de que é capaz? Ou não está? De qualquer forma, ao mantermos a verdade escondida, garantimos que ele continue sendo um espinho no lado das outras turmas.
— Isso é—
Yousuke vinha observando o comportamento de Keisei. Rapidamente interveio em apoio a Horikita, interrompendo-o antes que pudesse retrucar.
— Entendo. Acho que consigo compreender o que Horikita-san quer dizer — disse Yousuke.
Ele caminhou lentamente até ficar ao lado de Horikita.
— Não entendo completamente tudo o que está acontecendo, então fiquei apenas ouvindo até agora. Mas isso faz sentido para mim. É verdade que um inimigo cujas habilidades você não consegue avaliar concretamente pode ser bastante inquietante. As outras turmas provavelmente vão tentar reunir informações, porque vão querer saber mais. Mas, se ninguém da própria classe realmente souber da verdade, então não importa o quanto investiguem — disse Yousuke, preenchendo as lacunas do argumento de Horikita e complementando-o com informações fáceis de compreender para todos os presentes.
Horikita, tendo decidido que Yousuke era um aliado, acompanhou o raciocínio dele e assentiu.
— Sim. Se vamos atrair atenção no futuro de qualquer maneira, então devemos tirar o máximo proveito disso. É melhor fazer nossos inimigos pensarem que ele é uma incógnita. Não me surpreenderia se houvesse alunos parados do lado de fora da sala neste exato momento, tentando escutar nossa conversa. Esse é o tipo de escola em que estamos — disse Horikita.
Por um instante, todos voltaram o olhar para o corredor. O aluno chamado Ayanokoji era habilidoso apenas em matemática? Ou também era bom em outras coisas? Ao fazer as classes inimigas se perguntarem qual era exatamente o nível de Ayanokoji e o quanto deveriam temê-lo, elas acabariam perdidas. A história de Horikita, entrelaçada com os comentários adicionais de Yousuke, começou a soar muito mais convincente e profunda.
— Uau, a Horikita-san é incrível mesmo, não é? Sinceramente, estou até um pouco emocionada agora, de verdade — comentou Kei casualmente, reforçando ainda mais a história. — Você não acha também, Shinohara-san? — acrescentou, voltando-se para a amiga em busca de concordância.
Ela provavelmente estava tentando desviar a atenção, fazendo todos se concentrarem em como Horikita era extraordinária, em vez de focarem em mim e nas minhas habilidades. Mesmo sem eu ter dado qualquer sinal a Kei, como fiz com Yousuke, ou qualquer instrução, ela entendeu intuitivamente qual papel poderia desempenhar ali e agiu imediatamente de acordo.
— Eu também acho. Quer dizer, sinto que vejo Horikita-san e Ayanokoji-kun conversando em segredo há bastante tempo. Acho que eles estavam pensando em como ajudar nossa classe — disse Shinohara.
Quando Horikita chegou à escola, ela mal falava com alguém além de mim. Esse fato acabou jogando a nosso favor naquele momento. Suponho que isso também dava certa credibilidade ao que ela dizia.
As intervenções impecáveis de Yousuke e Kei também foram incrivelmente eficazes. A mentalidade coletiva de "Bem, se Yousuke e Kei pensam assim, então deve ser verdade" estava funcionando com força total. Até mesmo Keisei, que vinha duvidando até então, não foi exceção.
— Então era uma estratégia para esconder as verdadeiras habilidades dele, hein… Bem, suponho que seja verdade que as outras turmas provavelmente também estejam bastante surpresas agora — comentou Keisei.
— Embora eu não entendesse perfeitamente como as coisas funcionavam nesta escola, achei melhor termos ao menos uma garantia. Para o bem ou para o mal, Ayanokoji-kun também parece ter dificuldade para se comunicar com os outros e não gosta de ser o centro das atenções. Foi por isso que pedi que ele escondesse suas habilidades — explicou Horikita, afirmando que tudo aquilo só era possível porque nossos pensamentos estavam alinhados.
Então ela desviou o olhar de Keisei e se dirigiu a toda a turma.
— Esse é o segredo de como Ayanokoji-kun conseguiu nota máxima em matemática. Desculpem por assustar todos vocês desse jeito.
Mesmo tendo apenas uma única chance, sem possibilidade de recomeçar, Horikita conduziu tudo de maneira brilhante do começo ao fim. Mas, se deixássemos os alunos conversando livremente por muito tempo, as dúvidas poderiam voltar a surgir.
— Acho melhor considerarmos esse assunto encerrado por enquanto. Como Horikita-san disse antes, não sabemos se alguém pode estar ouvindo — disse Yousuke.
Yousuke encerrou a conversa habilmente, explicando os riscos de permanecer ali discutindo aquilo naquele momento. Quanto mais inteligente fosse o aluno, mais dúvidas ainda teria — mas, ao mesmo tempo, os alunos mais inteligentes também perceberiam rapidamente que aquele não era o lugar nem a hora para continuar discutindo. A prova disso era que a longa sequência de perguntas de Keisei havia terminado, e ele permanecia em silêncio.
Eu podia dizer que aquela reunião havia desviado, até certo ponto, as suspeitas deles. Além disso, graças à atuação de Horikita — que superou em muito minhas expectativas —, seria mais fácil para mim agir no futuro. Mesmo que eu demonstrasse minhas habilidades fora da área da matemática, Horikita já havia criado a base para simplesmente explicarmos tudo dizendo que eu também estava escondendo essas capacidades. Isso era crucial.
Sinceramente, eu era bastante grato a ela por conseguir fazer tudo aquilo sem que sequer tivéssemos nos encontrado antes para combinar os detalhes.
*
AS COISAS FINALMENTE chegaram ao fim. Os alunos se dispersaram, seguindo seus próprios caminhos como costumavam fazer depois das aulas, embora hoje tivesse sido mais tarde que o normal. Achei que provavelmente seria uma boa ideia agradecer a Horikita e Yousuke outro dia.
Talvez Horikita tivesse percebido o que eu estava pensando, porque se levantou antes de qualquer outra pessoa. Yousuke sempre ia embora conversando alegremente com um grupo de garotas, tendo Kei no centro da roda. Misturando-me a eles, peguei minha bolsa e saí para o corredor.
E assim meu dia terminava…
Bem, não. As coisas não seriam tão simples assim.
Mesmo que o que acabara de acontecer tivesse sido suficiente para fazer a maioria entender o panorama geral, os problemas pessoais que isso me causaria eram uma história completamente diferente.
Alguns alunos começaram a me seguir logo depois que fui embora. Claro, eu nem precisava pensar em quem eram. Eram os membros do Grupo Ayanokoji. Os passos do aluno que vinha à frente, aproximando-se de mim por trás, eram especialmente pesados e altos.
Eu nem precisava olhar para trás para entender o quão frustrado Keisei estava. Enquanto continuava andando, fingindo não perceber nada, ouvi uma voz me chamar.
— Kiyotaka.
Depois de ouvir meu nome ser chamado, parei lentamente. Quando me virei e olhei para os três ali parados, vi que realmente tinham expressões sombrias no rosto.
— O quê? Você simplesmente ia embora sem nem falar com a gente? Isso é meio cruel, não acha? — disse Haruka, a integrante mais direta do grupo, dirigindo-se a mim com um tom firme.
Ela falou em nome de Keisei, que estava à frente do grupo com uma expressão severa, e também de Airi, que permanecia atrás, parecendo preocupada. Talvez as palavras de Haruka tenham surtido algum efeito em Keisei, porque, embora ele tivesse aberto a boca para falar, aparentando estar irritado, acabou fechando-a novamente.
Ele fez uma pausa, respirou fundo e então recomeçou.
— Por que você não nos contou tudo isso antes? Se era realmente para esconder informações, como Horikita disse, isso significa que você não confia em nós? — perguntou Keisei.
Mesmo parecendo relativamente convencido com tudo o que fora dito na sala de aula, Keisei ainda demonstrava insatisfação. E isso era perfeitamente natural. Afinal, eu praticamente havia ignorado os sentimentos dele, mesmo depois de ele ter levado tudo tão a sério e ter sido gentil o suficiente para me ajudar a estudar. Era justamente por entenderem isso que Haruka e Airi o tinham seguido, preocupadas.
A saída mais simples seria colocar toda a culpa em Horikita. Porém, eu não conseguia me imaginar fazendo algo assim, especialmente depois do papel crucial que ela desempenhara para me ajudar naquela situação mais cedo.
Bem, não. Acho que nem havia necessidade de recorrer a esse tipo de argumento emocional. Eu precisava pensar no futuro.
Keisei era um aluno extremamente inteligente, e de forma alguma um dos mais lentos da turma quando se tratava de avaliar uma situação. Mas, se eu não lidasse diretamente com aquilo, provavelmente continuaria pesando bastante em sua mente. E, se Keisei deixasse de funcionar adequadamente, isso prejudicaria nossa classe. Também atrapalharia Horikita, que havia assumido o comando da turma e agia como sua líder.
— Eu confio em vocês. Mas decidi que o melhor era não contar a ninguém, considerando o que poderia acontecer no futuro. Fiquei tentado a contar, porque somos próximos. Mas resolvi suportar isso e permanecer calado.
Expliquei que havia tomado essa decisão por vontade própria, sem colocar a culpa em ninguém. Embora Keisei tivesse abordado o assunto de forma agressiva, o que Haruka disse antes o fizera hesitar um pouco antes de dizer tudo o que queria. Ao afirmar que a decisão havia sido minha, forcei-o a recuar ainda mais dessas emoções.
— Entendo perfeitamente por que você está tão chateado comigo, Keisei. Você fez mais por este grupo do que qualquer outra pessoa e, além disso, estava se esforçando para me ajudar a estudar. Me desculpe.
Ninguém ficaria feliz ao descobrir que a pessoa que estava tutorando escondia o fato de ser melhor do que ela. Eu tinha certeza de que Haruka e Airi, ao lado dele, sentiam algo parecido. Haruka ficou ali ouvindo meu pedido de desculpas. Tirando o que dissera no início, não abriu mais a boca. Talvez porque tivesse decidido que Keisei precisava refletir e resolver aquilo sozinho primeiro.
— Para ser sincero, eu ainda estou irritado. Se você não precisava que eu te ajudasse a estudar, devia ter dito isso desde o começo. Podia simplesmente ter falado que conseguiria passar nas provas sem dificuldade sozinho — disse Keisei.
— É verdade — respondi.
Do ponto de vista de Keisei, minhas circunstâncias, passado e tudo mais não importavam. Era natural que ele quisesse que eu tivesse sido honesto desde o início.
— E além disso, pelo que Horikita disse, você vai continuar se segurando e sendo vago no futuro, não é, Kiyotaka? Se você não pode nos dizer em quais matérias é realmente capaz e em quais não é, nunca vou conseguir confiar totalmente em você — disse Keisei.
Keisei continuaria carregando dúvidas. Em quais matérias eu realmente era bom? E em quais eu precisava de ajuda? Para alguém que me tutorava, certamente seria desconfortável lidar com alguém assim.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não pensei em falar… "Quero sair do grupo", sabe? — disse Keisei.
— Espera, você está falando sério, Yukimuu?! — exclamou Haruka, que permanecera em silêncio até então.
Acho que não havia como ela continuar quieta depois de ouvir algo assim.
— Sim, estou. Até ouvirmos toda aquela explicação da Horikita agora há pouco, eu realmente estava planejando sair do grupo. Porque achei que não conseguiria mais confiar no Kiyotaka. Mas… bem, depois de tanto tempo juntos, tem uma coisa que eu entendo. Sei que Kiyotaka não é uma pessoa ruim. E, se ele estava escondendo isso pelo bem da turma, então faz sentido não contar para ninguém. E mesmo que pudesse ter recusado minha ajuda nos estudos dizendo que não precisava, consigo entender como alguém como o Kiyotaka, que não é bom em se comunicar, não conseguiria simplesmente dizer isso diretamente.
Keisei cerrava os punhos enquanto falava, expressando seus sentimentos honestamente.
— É só que… Bem, é só que… Acho que estou precisando de um tempo para organizar meus pensamentos — acrescentou, soltando um longo suspiro de propósito logo em seguida. — Acho que não adianta prolongar isso mais. No fim das contas, o que eu quero dizer — o que eu queria dizer — é que não me importo se você esconde suas verdadeiras habilidades do resto da turma. Não é como se estivesse prejudicando todo mundo, como o Koenji, e também não é como se alguém tivesse o direito de reclamar disso. E, se eu tentar te acusar por causa dessas coisas, só vou acabar piorando a situação entre nós.
Era justo dizer que toda aquela situação deixara Keisei mais insatisfeito e incomodado do que qualquer outra pessoa. E, ainda assim, ele estava tentando engolir esses sentimentos e mantê-los para si.
Pelo bem do Grupo Ayanokoji. E pelo bem dos colegas de classe.
— Eu entendo tudo isso, mas não consigo evitar me sentir estranho em relação a essa situação. Por isso, me desculpe. Por enquanto, vou considerar que as habilidades que você mostrou para nós são reais. E vou assumir que você continua sendo apenas razoável em todas as matérias além da matemática, então continuarei te ajudando a estudar. …Tudo bem para você? — perguntou Keisei.
Considerando que não teria sido estranho se aquela situação tivesse encerrado nossa amizade de vez, fiquei extremamente grato pela proposta dele. Não havia motivo para recusar, então assenti em concordância.
— Obrigado, Keisei — respondi, expressando minha gratidão.
Depois de assistir toda a conversa, Airi reuniu coragem para falar.
— E-Então… que tal vocês dois apertarem as mãos… para fazer as pazes? Ou algo assim? — sugeriu Airi.
— Boa ideia! Isso mesmo, façam as pazes com um aperto de mão — acrescentou Haruka, concordando imediatamente com a sugestão dela.
Keisei, sentindo que a tensão entre nós começava a desaparecer, balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Ah, qual é. Peguem leve. Isso é constrangedor.
Apesar de ele rejeitar a ideia, Haruka rapidamente segurou a mão direita de Keisei. Então, quase ao mesmo tempo, pegou também a minha mão direita.
— Certo, façam as pazes! — exclamou ela, juntando nossas mãos à força na tentativa de nos fazer apertá-las.
Nenhum de nós estava exatamente preparado para aquilo, então nossas mãos apenas acabaram batendo uma na outra de maneira estranha.
— Não vou soltar vocês até apertarem as mãos direito, entendeu? — disse Haruka.
— T-Tá bom já…! — exclamou Keisei.
Talvez por achar que ficar ali com nossas mãos grudadas daquele jeito fosse mais constrangedor do que simplesmente apertá-las normalmente, Keisei acabou cedendo. Nós dois apertamos as mãos, sinalizando oficialmente nossa reconciliação.
— Bem, eu já estou de boa agora, mas o Akito ainda não sabe de nada — comentou Keisei.
— O Miyacchi provavelmente vai ficar tranquilo também. Aposto que ele vai aceitar o Kiyopon normalmente, como sempre. Né? — disse Haruka.
Keisei pensou nisso por um instante, mas, considerando o que sabia sobre Akito, pareceu concordar com a conclusão dela.
— Bem, acho que sim.
— Ufa, ótimo! Finalmente tudo voltou ao normal. Parece até que tiraram um peso das nossas costas, né? — disse Haruka, trocando olhares com Airi.
As duas pareciam completamente de acordo.
— Enfim, parece que você virou uma celebridade de repente, Kiyopon. Não acha? Espera…
Ela interrompeu a frase no fim e enrijeceu, me encarando fixamente, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa. Nós três aguardamos que ela continuasse falando, mas parecia que não iria dizer nada.
— O que foi, Haruka-chan? — perguntou Airi, preocupada com Haruka, que havia congelado completamente.
Nesse instante, Haruka voltou a se mover, como se tivesse acabado de sair de um transe.
— A-Ah, nada, não foi nada demais. Enfim, agora que você virou uma celebridade, as coisas vão ficar bem complicadas pra você, hein? — disse ela, voltando-se para mim.
— Não acha que tirar nota máxima foi um pouco exagerado? A segunda maior nota do nosso ano foi da Sakayanagi, com noventa e um pontos — comentou Keisei, passando a se preocupar com outra questão depois de resolver as coisas comigo.
— Espera, falando na Sakayanagi-san… se bem me lembro, ela também tirou notas próximas disso em todas as outras matérias, não foi? — disse Airi, tentando recordar.
Noventa e um pontos em matemática.
E, além disso, ela havia conseguido notas igualmente altas em todas as outras matérias. Considerando o nível elevado de dificuldade dessas provas, não havia dúvidas de que ela era realmente excepcional nos estudos. Eu tinha certeza de que, depois de mim, ela era a melhor do nosso ano.
O mais impressionante era o fato de ela ser tão talentosa sem ter recebido uma educação em um ambiente extraordinário como a Sala Branca.
Não era à toa que ela se considerava um gênio. Porque ela realmente era.
— Eu já sabia que ela era inteligente, mas, desde que introduziram o OAA, sinto que as habilidades dela ficaram ainda mais evidentes — disse Keisei.
Embora houvesse certa frustração em sua voz, Keisei reconhecia aberta e honestamente as capacidades de Sakayanagi. Apesar de já não termos dúvidas de que ela sempre tirava notas altas, agora ela parecia ainda melhor.
Será que estava deliberadamente se segurando antes? Ou teria começado a estudar fora do horário das aulas? De qualquer forma, era absolutamente certo que ela se tornaria uma adversária ainda mais problemática no futuro — e alguém que precisaríamos derrotar mais do que nunca.
— Ei, para comemorar que vocês fizeram as pazes, que tal todo mundo se encontrar no Keyaki Mall depois que o Miyacchi terminar as atividades do clube? — sugeriu Haruka.
Ninguém recusou a ideia.
*
EU ESTAVA PARADO em frente ao Keyaki Mall. Tinha chegado mais cedo e aguardava silenciosamente a chegada dos meus amigos. Havíamos combinado de nos encontrar às sete da noite e, como eu era o responsável por ter causado toda aquela confusão mais cedo, achei melhor não deixar ninguém esperando. Especialmente hoje.
— Hm. Acho que realmente cheguei cedo demais… — murmurei para mim mesmo.
Ainda eram pouco mais de seis e meia. Mesmo assim, esperar não me parecia particularmente doloroso. Se fosse para dizer, talvez até pudesse ser considerada uma das minhas poucas habilidades especiais. Era agradável ter um tempo apenas para ficar parado daquele jeito, clareando a mente sem pensar em nada específico.
Ainda assim, embora eu não diria que paguei um preço alto por isso, as coisas estavam começando a ficar um pouco complicadas para mim.
Mais especificamente, o fato de eu estar sozinho acabava atraindo atenção de forma estranha.
Mesmo que meus resultados tivessem sido divulgados para todos, exceto os alunos do terceiro ano, não demoraria para que eu começasse a chamar atenção de estudantes de todas as séries. Os olhares curiosos tanto dos veteranos quanto dos novatos provavelmente continuariam voltados para mim por um bom tempo.
Fiquei ali sem fazer nada por um tempo. Então meu celular começou a vibrar. Havia uma mensagem no grupo do Ayanokoji Group. Airi avisava que estava saindo dos dormitórios naquele momento. Vi que todos os outros já tinham lido a mensagem, mas como eu não havia contado que já estava ali, apenas li as mensagens deles sem responder nada.
— Ayanokoji-kun, está esperando alguém?
Eu não estava prestando atenção ao redor, pois olhava para o celular, mas ergui a cabeça ao ouvir Ichinose me chamar. Ao lado dela estava Kanzaki, colega de classe dela. Embora a escola tivesse um campus bastante amplo, os lugares que os alunos costumavam frequentar eram extremamente limitados. Se alguém estivesse parado na entrada do Keyaki Mall, era quase certo que encontraria algum conhecido.
— Vou jantar com alguns amigos daqui a pouco. E vocês? — respondi honestamente, sem esconder nada.
Ichinose e Kanzaki responderam em perfeita sincronia, sem sequer trocarem olhares antes.
— Vamos fazer algo bem parecido. Não é? — disse Ichinose.
— É — respondeu Kanzaki.
Uma resposta bem curta da parte dele. Seu olhar, no entanto, parecia muito mais focado em Ichinose do que em mim.
Algo parecido, hein? Mas eu tinha certeza de que existiam muitas coisas que apenas pareciam semelhantes sem realmente serem.
— Ah, isso me lembra… Eu vi os resultados da prova. Tirar nota máxima em matemática? Isso é incrível! — exclamou Ichinose.
— Mas, pelo que vi no OAA do ano passado, você não demonstrava ter aptidão para conseguir notas perfeitas — observou Kanzaki.
Em contraste com Ichinose, que não me fez nenhuma pergunta sobre o fato de eu estar escondendo minhas habilidades, Kanzaki não fazia o menor esforço para esconder sua desconfiança.
— Bem, existem alguns motivos por trás disso. Depois de conversar com meus colegas de classe, ficou decidido que eu esconderia o fato de que sou bom em matemática — respondi.
Mesmo explicando apenas isso, eu tinha certeza de que Ichinose e Kanzaki entenderiam parte da situação. Eles usariam a imaginação para preencher as lacunas e completar a história por conta própria. Normalmente, isso já seria mais do que suficiente. Porém, o brilho afiado nos olhos de Kanzaki permaneceu inabalável.
— Então isso significa que você esteve escondendo isso todo esse tempo. Parece que você é um adversário mais perigoso do que eu imaginava — disse Kanzaki.
— Ah, qual é, Kanzaki-kun, não fala desse jeito. Toda turma tem suas próprias ideias e estratégias, você sabe disso — respondeu Ichinose.
Kanzaki aceitou o comentário dela naturalmente.
— Isso é verdade. E não é como se ele estivesse usando truques covardes como o Ryuen. Mas há algumas coisas de que simplesmente não gosto. Como você sabe, Ichinose, não é fácil tirar nota máxima em uma prova com questões avançadas daquele nível. E mesmo dizendo que fez isso seguindo instruções dos colegas de classe…
— Ayanokoji-kun não é nosso inimigo.
Ichinose o interrompeu, demonstrando clara insatisfação com a atitude hostil dele.
Era realmente incomum ver Kanzaki agir daquela forma. Mas, se me perguntassem quem estava fazendo a coisa certa naquela situação, eu teria que dizer que era a pessoa que se mostrava mais cautelosa abertamente.
Ou seja, Kanzaki.
— Nossa aliança com eles já foi desfeita. A Classe 2-D é, sem dúvida alguma, nossa inimiga — afirmou Kanzaki.
— Isso… Bem, mesmo assim não há necessidade de discussões desnecessárias — retrucou Ichinose.
— Não estamos discutindo. Mas precisamos entender quais são as verdadeiras forças do nosso adversário — disse Kanzaki.
— Sim, Ayanokoji-kun escondeu o fato de ser bom em matemática. Essa era uma verdade que ele ocultava — admitiu Ichinose.
Kanzaki deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós até ficar mais próximo de mim do que Ichinose.
— Nesse caso, o que mais existe? Ser bom em matemática é a única coisa que ele escondeu? Não, eu não acho. Provavelmente ele esconde outras habilidades também. A velocidade impressionante que demonstrou no festival esportivo do ano passado também foi escondida por instruções dos colegas? O pior cenário para nós, para a Classe B… quero dizer, Classe C, seria se ele ainda tivesse outras habilidades ocultas — disse Kanzaki.
— Mas notas em provas têm um limite. Não importa o quão capaz alguém seja academicamente, só pode tirar até cem pontos por matéria, e a maior avaliação possível é A+. Mesmo que ele tirasse nota máxima em tudo, a diferença entre ele e Sakayanagi-san, que ficou em segundo lugar no nosso ano, ainda seria relativamente pequena — argumentou Ichinose.
De fato, a diferença entre minha nota e a de Sakayanagi em matemática era de apenas nove pontos. Mesmo espalhando essa diferença pelas cinco matérias da prova, isso totalizaria apenas quarenta e cinco pontos.
Ichinose dizia que isso não representava uma ameaça tão grande assim.
— Em termos de pontuação geral, nossa classe ainda está na frente. Vai ficar tudo bem se todos da nossa turma trabalharem duro para compensar a diferença, cobrindo os pontos que Ayanokoji-kun consegue quando se esforça ao máximo — acrescentou ela.
— Talvez isso seja verdade se estivermos falando apenas de provas escritas. Mas…
— Vamos parar de falar sobre isso, Kanzaki-kun. Você entende que este não é o momento nem o lugar para discutirmos tão acaloradamente, certo? — disse Ichinose, interrompendo-o mais uma vez.
Ichinose, que sempre se esforçava para agir de forma pacífica, temia que eles acabassem chamando atenção se continuassem aquela discussão em público, bem em frente ao Keyaki Mall.
— Sim, suponho que você tenha razão. Eu realmente perdi a calma um pouco — admitiu Kanzaki.
Talvez percebendo que nada seria resolvido naquele momento, mesmo que continuassem discutindo, ele se calou e desviou o olhar resignadamente.
— Vou indo na frente — disse Kanzaki.
E, com essas breves palavras de despedida, desapareceu rapidamente para dentro do shopping, deixando Ichinose para trás. Nós dois observamos silenciosamente enquanto ele se afastava.
— Me desculpe. Mas… bem, considerando a situação atual, Kanzaki-kun está se sentindo pressionado — disse Ichinose.
Eles haviam mantido sua posição como Classe B, mas agora haviam caído para a Classe C. Não era difícil entender por que Kanzaki se sentia pressionado, já que estava sendo forçado a mudar de estratégia ao perceber que os métodos usados até então não estavam mais funcionando.
Por outro lado, também se podia dizer que Ichinose, que ainda me tratava gentilmente mesmo naquela situação, continuava sem mudar seu jeito de agir. Kanzaki provavelmente acreditava que ela deveria abandonar esse tipo de ingenuidade — e ele não estava errado.
— Eu estou errada…? — perguntou Ichinose.
Não era como se ela não entendesse os pensamentos de Kanzaki. Mesmo compreendendo o que ele queria dizer, ela ainda insistia em permanecer fiel a si mesma. Havia uma enorme diferença entre isso e seguir em frente sem perceber nada.
— Você se lembra do que eu te disse antes? — perguntei.
— Sim. Você me disse para continuar seguindo em frente junto dos meus colegas de classe, o mais longe que conseguíssemos ir — respondeu Ichinose.
— No futuro, talvez apareçam outros alunos como Kanzaki, que vão tentar mudar sua classe. Ou alunos insatisfeitos com você, Ichinose, mas que guardam esses sentimentos para si. Talvez até existam estudantes que traiam sua turma. Isso não seria tão surpreendente, considerando a situação. A classe que você tinha no ano passado, aquela segura e protegida apenas por você, já não existe mais.
O que eu acabara de dizer provavelmente afetaria Ichinose mais do que qualquer outro aluno da turma dela.
— Não importa o que aconteça daqui para frente, quero que continue lutando enquanto prioriza confiar nos seus amigos e protegê-los.
— Não se preocupe. Eu definitivamente vou proteger meus colegas de classe. Se algum dia chegar o momento em que alguém da nossa turma precise ir embora, então acho que eu serei a primeira a desaparecer — disse Ichinose com firmeza.
Ela não estava fingindo. Ichinose realmente faria isso, se fosse necessário. Assumiria a responsabilidade pela queda de sua classe e escolheria ser expulsa antes de qualquer outra pessoa.
— Bem, fico aliviado em ver que você está tão decidida, mas tenho uma reclamação sobre isso — falei.
— Uma reclamação…? — repetiu ela, inclinando a cabeça confusamente, sem entender aonde eu queria chegar.
— Eu nunca vou permitir que você seja expulsa.
Eu precisava lembrá-la da coisa mais importante de todas. Era extremamente importante que Ichinose continuasse avançando sem parar ao longo daquele ano. Olhei diretamente em seus olhos e acendi um fogo intenso dentro dela, despertando a determinação escondida em seu interior. Não era escuridão aquilo que ela deveria carregar.
Era uma luz que jamais deveria se apagar. E, se existisse a possibilidade de ela direcionar essa luz para o caminho errado, então eu a arrancaria dela.
— I-Isso… Hm… Tá bom… Eu vou… definitivamente continuar aqui — murmurou ela, olhando para mim enquanto falava, aparentemente constrangida com alguma coisa. Então desviou os olhos, como se tentasse mudar de assunto.
— V-Você realmente é incrível, Ayanokoji-kun… Quero dizer, tirar nota máxima numa prova tão difícil e tudo mais…
— Talvez matemática seja a única coisa em que eu realmente sou bom — respondi.
— Mesmo assim, você é incrível. Isso só significa que você possui uma habilidade especial. Algo em que ninguém jamais vai conseguir te superar.
— Eu poderia dizer o mesmo de você, Ichinose. Você também possui uma habilidade especial. Algo em que ninguém jamais vai conseguir te superar.
— Eu gostaria que isso fosse verdade, mas…
A questão era apenas que não existiam muitas pessoas capazes de usar bem essa habilidade específica. Isso não significava que Ichinose não tivesse bons colegas de classe. O problema estava na única desvantagem da habilidade especial dela: o potencial de apagar a individualidade dos colegas.
Sua tolerância criava um ciclo vicioso, em que os outros alunos acabavam dependendo tanto de Ichinose que, como consequência, perdiam sua própria individualidade.
— Bem, acho melhor eu ir agora. Tenho certeza de que vamos acabar chamando atenção se eu continuar te incomodando aqui, e eu me sentiria mal se deixasse Kanzaki-kun esperando por muito mais tempo — disse Ichinose.
Respondi com um leve aceno de cabeça e observei enquanto ela se afastava. Pensando que já devia estar na hora de encontrar os outros, peguei meu celular novamente para conferir.
— O que você tava conversando com a Ichinose-san? — perguntou Haruka, falando comigo de certa distância.
Quando olhei na direção dela, vi que Akito, Keisei e Airi estavam juntos. Parecia que todos os outros membros do grupo haviam se reunido enquanto eu conversava com Ichinose.
— Sobre minha nota máxima em matemática — respondi.
No instante em que dei essa explicação razoável, Keisei pareceu imediatamente convencido de que era verdade.
— Não é surpresa nenhuma. Quanto mais inteligente alguém é, maior a chance de perceber uma coisa dessas — comentou Keisei.
Haruka, porém, não parecia totalmente convencida. Ainda assim, não insistiu muito no assunto e, pouco depois, sua expressão voltou ao normal.
Amanhã, 2 de maio, começaria a Golden Week.
Os alunos provavelmente pretendiam descansar e relaxar durante o feriado, considerando que haviam acabado de passar por uma prova especial.
*
A GOLDEN WEEK PARECEU passar em um piscar de olhos, nos jogando de volta à rotina habitual da escola. A paisagem ao redor permanecia a mesma de sempre, mas, pouco a pouco, nosso cotidiano começava a mudar.
— Ei….
Sudou foi a primeira pessoa que encontrei naquela manhã, quando o feriado terminou e voltamos à escola. Tínhamos nos esbarrado perto dos armários de sapatos. Era apenas um encontro casual com um colega de classe, mas também um exemplo de como nossa rotina começava a mudar.
— Parece que você passou por umas coisas complicadas ultimamente. Tá tudo bem agora? — perguntou Sudou.
— Sim, tá tudo certo. Nada muito incomum aconteceu durante a Golden Week. Foi bem tranquila.
— Entendi. Cara, mas o feriado acabou num instante, hein? — comentou Sudou, caminhando ao meu lado enquanto seguíamos juntos em direção à sala de aula.
Sudou havia saído da sala para participar das atividades do clube antes de ouvir a explicação de Horikita, então provavelmente ficou sabendo dos detalhes depois, por pessoas como Ike ou Hondou. Ele devia entender bem a situação sem que eu precisasse explicar nada.
— Então você tava escondendo que manda muito bem em matemática por causa da estratégia da Suzune, né? — disse Sudou.
Respondi com um leve aceno de cabeça, indicando que ele estava certo. Sudou então desviou os olhos de mim, fazendo um pequeno bico, antes de voltar a olhar para frente.
— Bem, acho que vocês dois sempre foram bem próximos desde que a escola começou e tal. Mesmo que seja tarde pra dizer isso agora, acho que finalmente entendi.
— Não é como se fôssemos próximos. Se fosse para dizer alguma coisa, eu diria que preferíamos manter certa distância um do outro — respondi.
— Sério? Desculpa, mas não parecia isso pra mim não — disse Sudou.
Isso provavelmente acontecia porque Sudou enxergava Horikita através do filtro de vê-la como alguém do sexo oposto. Mas apontar isso não ajudaria em nada, então deixei passar.
— A propósito, Yousuke me contou depois que você me ajudou a me cobrir naquela hora — falei.
— Sei lá se eu chamaria isso de te cobrir ou algo assim. Eu só tava falando os fatos.
— Você diz que eram fatos, mas naquela hora ainda não sabia a verdade.
— Sim, claro que eu sei disso — respondeu Sudou, parecendo levemente irritado e fazendo bico novamente. — Parece que o fato de você ser um gênio da matemática é segredo. Então… o fato de você ser muito bom em luta também é segredo do mesmo jeito?
Para Sudou, havia grandes chances de aquilo importar muito mais do que minhas habilidades em matemática.
— Não sei do que você tá falando — respondi, fingindo não entender.
Mas Sudou não era do tipo que desistiria por causa disso.
— Para de se fazer de idiota, cara. Eu lutei com o Housen, então eu sei. Aquele cara é absurdamente forte. E ele se move mais rápido do que qualquer um com quem já lutei. Pra falar na real, ele é um monstro.
Ele dizia compreender perfeitamente justamente porque tinha enfrentado Housen pessoalmente.
— Foi a primeira vez que senti medo numa briga. Até agora, aquele sorriso dele tá gravado na minha cabeça — acrescentou, parando de andar e batendo algumas vezes na própria têmpora com o dedo indicador esquerdo para enfatizar o ponto.
— Então você ficou com medo? Mesmo assim, parecia que estava lutando bravamente. Pela Horikita.
— Bem, eu tinha que fazer isso, cara. Não tinha outra escolha. Aquele maluco tem problema na cabeça — disse Sudou.
Não dava para negar isso. Depois de vê-lo de perto, eu compreendi a obsessão de Housen pela violência.
— Mas ainda assim acho que você tinha chance de vencer — falei.
O motivo de Sudou ter sido derrubado por Housen naquele dia foi porque levou um golpe baixo quando estava distraído. Numa situação em que precisava manter os olhos no adversário, Housen usou Horikita como isca e deixou Sudou indefeso.
Aquele instante acabou sendo fatal, e a luta terminou com a derrota de Sudou.
— Não tenho tanta certeza disso, não… Se a gente fosse cair na porrada de verdade, numa luta séria, acho que eu não conseguiria vencer ele — disse Sudou.
Sudou estava longe de ser fraco. Se alguém com a força e o físico dele falava tão bem de Housen, isso só significava que Housen era alguém com quem não se devia brincar.
Mesmo que eu escolhesse a dedo pessoas extremamente capazes, como Manabu, o irmão mais velho da Horikita, que treinava artes marciais, ou Albert, que nasceu com um físico impressionante, eles provavelmente não teriam chance contra Housen numa luta.
— Não, peraí, não é disso que eu quero falar agora — disse Sudou.
Ele então se virou para mim.
— Você… Você tava no mesmo nível daquele monstro do Housen. Ou talvez fosse até mais forte que ele. Você parou ele. Tô certo, não tô?
Mesmo que eu dissesse algo como "na hora eu só consegui reunir mais força do que o normal por causa da adrenalina", isso não convenceria Sudou.
Era natural que ele ligasse os pontos, pensando que, se eu conseguia tirar nota máxima em matemática, não seria estranho também ser excepcional em outras áreas. E havia outras coisas que ele percebia justamente por causa do interesse que tinha por Horikita.
— Tem certeza de que não foi só um mal-entendido, Sudou? Ou você realmente viu daquele jeito? — perguntei.
— Sim, vi.
Sudou segurou meu bíceps com a mão direita e apertou levemente algumas vezes, como se estivesse conferindo minha musculatura por conta própria.
— Eu já desconfiava desde que te vi na piscina ano passado. Você não participa de clube nenhum nem nada, mas tem um corpo muito definido. Quando tá de roupa é difícil perceber, mas seus músculos são absurdamente bem trabalhados… Não tem como alguém ficar assim sem treinar pra caramba — disse Sudou.
Sudou treinava regularmente para melhorar o próprio físico. Já não fazia sentido tentar enganá-lo por mais tempo. Eu até poderia dizer que apenas me exercitava sozinho depois de acordar de manhã, mas não havia chance de ele acreditar nisso.
Ele não estava enxergando a verdade apenas com os olhos. Ao tocar meu braço daquele jeito, era o próprio corpo que revelava a verdade para ele.
— Ah, isso me lembra… Quando fizeram aquelas medições antes do festival esportivo, sua força de pegada deu por volta de sessenta, né? — acrescentou ele.
Sudou começava a se lembrar gradualmente dos acontecimentos do ano anterior.
— Quer dizer, na época eu já achei aquilo impressionante pra caramba… Mas você tava se segurando. Qual é sua força de verdade?
— Não faço ideia. Sinceramente, não sei.
— Não sabe? — repetiu ele.
— Não me lembro de já terem medido minha força de pegada de verdade antes.
— Como assim, cara? A gente faz exames físicos várias vezes no fundamental e no ginásio, não faz?
Eu honestamente não tinha lembrança de nada assim.
Claro, nossos corpos eram examinados periodicamente na Sala Branca. E eu tinha certeza de que coletavam uma quantidade absurda de dados sobre nós, incomparavelmente superior aos exames físicos feitos em escolas normais.
Porém, aqueles dados eram conhecidos apenas pelos instrutores. Eles não se davam ao trabalho de informar os alunos sobre seus resultados, e os próprios estudantes também não tinham muito interesse nos números, que mudavam diariamente.
Eles viam aquilo apenas como números. Números que subiam ou desciam.
Ainda assim, embora eu mantivesse uma rotina diária para conservar minha forma física, tinha certeza de que minhas capacidades físicas estavam lentamente diminuindo em comparação ao que eram na Sala Branca.
— Você realmente não sabe — disse Sudou, olhando nos meus olhos, provavelmente percebendo que eu não estava mentindo.
— Naquela época, ouvi dizer que a média da força de pegada para um aluno do primeiro ano do ensino médio era em torno de sessenta. Então ajustei minha força de propósito para marcar algo próximo disso. Eu tentava ser o mais discreto possível — respondi.
Mais tarde, descobri que sessenta estava acima da média. Lembro de ter ficado surpreso com isso.
— Afinal, quão incrível você é de verdade? Quero dizer… o verdadeiro você — perguntou Sudou.
Uma mente curiosa também carregava coisas como inveja e ciúme.
— Quão incrível, hein… — repeti.
A resposta para essa pergunta — e a forma de abordá-la — dependia do critério usado para definir "incrível".
Pensei nisso por alguns instantes, mas então—
— Espera, na verdade não precisa responder isso. Esquece.
Sudou retirou a pergunta, como se recusasse minha resposta. Mesmo que eu resolvesse contar toda a minha história de vida, ninguém conseguiria compreendê-la de verdade. Não era algo que pudesse ser explicado claramente em poucas palavras.
— Acho que, mesmo que você seja absurdamente forte ou não, isso não vai significar nada pra mim até eu ver com meus próprios olhos — disse Sudou.
Ele soltou meu braço. Parecia que, assim como Keisei, Sudou também começava a aceitar aquela situação.
— Mas, de qualquer forma, eu entendi que você é tipo… um cara completamente absurdo. Você é incrível mesmo, Ayanokoji — disse Sudou.
— Te incomoda o fato de eu ter escondido isso? — perguntei.
— Bem, quer dizer, no começo eu fiquei tipo: "Que porra é essa?". Entendo como o Yukimura se sente. Não é muito legal achar que você é o cara e depois descobrir que tinha alguém muito melhor escondido por perto. Mas também não é como se eu não entendesse você, Ayanokoji. Você não gosta de chamar atenção sem motivo, né? Acho que acabei entendendo isso, mais ou menos — respondeu Sudou.
Então ele acrescentou algo que eu não esperava.
— Quer dizer, eu estaria mentindo se dissesse que não tenho várias coisas na cabeça por causa disso tudo, mas vou continuar me esforçando e tentando crescer do meu próprio jeito. Não importa o que os outros caras pensem. Decidi enxergar as coisas assim.
Focar em si mesmo, em vez de focar nos outros. Era isso que Sudou queria dizer. Ele estava fazendo o que era melhor para si próprio.
— Além disso, não importa o quão incrível você seja, eu ainda sou muito melhor no basquete — declarou Sudou, exibindo pela primeira vez naquele dia um sorriso grande e confiante.
Ele falou aquilo com absoluta certeza, sem precisar de confirmação. E, claro, era um fato inegável. Mesmo que jogássemos algumas partidas, o resultado seria óbvio como a luz do dia. Não havia como eu vencê-lo.
— Ei, cara, se estivermos falando de basquete, eu aceito te enfrentar quando quiser — acrescentou ele.
— Passo. Não tô muito afim de servir de saco de pancadas, foi mal — respondi.
— Hahahahahaha! Beleza então, você entendeu, né?
Era fácil para as pessoas relaxarem e se sentirem à vontade quando tinham algo em que fossem melhores do que os outros — mesmo que fosse apenas uma única coisa.
— De qualquer forma, não vou contar pra ninguém o que aconteceu com o Housen. Acho que toda essa conversa acabou dando uma volta enorme só pra chegar nisso, mas era isso que eu realmente queria te dizer hoje — disse Sudou.
— Entendi.
Aquilo foi extremamente atencioso da parte dele. Sinceramente, eu me senti verdadeiramente grato.
— Ah, hm… então, acho que já terminei de falar sobre o Housen por hoje e tudo mais, mas… posso te perguntar só mais uma coisa? — perguntou Sudou.
— Claro, se for algo que eu possa responder.
— Você não achou que eu fosse contar pra alguém sobre a luta com o Housen?
Era inevitável que essa pergunta surgisse em algum momento da conversa.
Mesmo que Sudou tivesse testemunhado o que aconteceu, havia uma boa chance de eu ter tomado medidas para garantir que ele ficasse quieto. Eu até considerei conversar com Horikita e pedir que ela o proibisse de comentar qualquer coisa, só por precaução.
Mas tanto o olhar de Sudou naquela noite quanto a expressão dele ao descobrir minha nota máxima em matemática já tinham me dado uma boa ideia de como ele lidaria com isso.
— Se fosse o antigo você, tenho certeza de que eu teria tomado algumas precauções. Provavelmente teria pedido para Horikita garantir que você mantivesse a boca fechada — respondi.
— Se fosse o antigo eu? — repetiu Sudou.
— Como qualquer um consegue perceber olhando os índices gerais de habilidade no OAA, você está entre os melhores da classe quando o assunto é potencial de crescimento. Tenho certeza de que agora consegue analisar situações de forma calma e racional, diferente de antes, quando era só um cabeça-quente impulsivo. Foi por isso que não fiz nada.
Minha decisão foi baseada na minha própria análise do aluno chamado Sudou Ken. Se alguém como Ike ou Hondou tivesse presenciado a luta contra Housen… bem, aí a história teria sido completamente diferente.
— Parece até que tô ouvindo um olheiro de time profissional falando comigo — comentou Sudou, soltando um suspiro que misturava irritação e admiração. — Mas tô totalmente convencido. E, sinceramente, não é nada ruim ouvir alguém como você dizendo que eu sou foda.
Depois disso, Sudou se aproximou mais, trazendo o rosto perigosamente perto do meu.
— Tem mais uma coisa que eu quero te perguntar. Sobre você e a Suzune, vocês—
— Nós não estamos namorando — respondi, interrompendo-o.
Respondi rápida e firmemente, deixando claro que estava dizendo a verdade — enquanto, ao mesmo tempo, me afastava um pouco dele, porque seu rosto estava perto demais do meu.
— Tá bom….
Depois de ouvir minha resposta, Sudou desviou o olhar, parecendo um pouco constrangido.
— Ah, bem, é que… eu não tô dizendo que vocês não podem namorar nem nada assim. A Suzune é… livre pra sair com quem ela quiser, quando quiser. Seja você, eu ou qualquer outro cara. Isso é problema dela. Mas, tipo… se vocês estivessem juntos e escondendo isso, eu não pegaria leve com você não — disse Sudou.
— Sim, sim, eu sei. Se por algum milagre isso acontecer algum dia, eu te conto imediatamente. Pode ser?
— Tá, beleza. Espera, não, não tá beleza! …Ah, esquece — respondeu Sudou.
Ele soltou um longo suspiro, provavelmente porque finalmente tinha dito tudo o que queria ouvir e falar.
— Isso pode soar frio vindo de mim, como amigo do Haruki, mas fico muito feliz que você não tenha sido expulso naquela votação da classe. Sem dúvida nenhuma, você é alguém de quem a gente precisa se quiser alcançar a Classe A. Bom, até mais, Ayanokoji.
Ele seguiu em direção à sala de aula, andando um pouco mais rápido do que antes.
Será que estava fazendo isso por consideração comigo, para que as pessoas ao redor não percebessem que estivemos conversando?
— "Alguém de quem precisamos para alcançar a Classe A", hein… — repeti.
Nunca imaginei que chegaria o dia em que receberia tantos elogios vindos de Sudou. No entanto, eu não era o tipo de pessoa de que nossa classe precisava naquele momento. Na verdade, eu não tinha dúvidas de que Sudou era quem realmente era importante para a nossa turma.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag
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