A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 2 - Volume 2

Capítulo 2: Os Dias que Passam

ABRIL, UM MÊS em que várias situações difíceis de entender aconteceram, havia chegado ao fim. Já fazia duas semanas desde o começo de maio.

Como de costume, o aluno da Sala Branca ainda não mostrava sinais de fazer qualquer grande movimento contra mim. Parecia que ele havia saído do controle de Tsukishiro, mas o que exatamente estava pensando?

De qualquer forma, eu não tinha reclamações, desde que me deixassem viver meus dias em paz. Numa manhã de meados de maio, iria encontrar Horikita no saguão. A enorme atenção que atraí por causa dos resultados da prova começava finalmente a diminuir. Até mesmo meus colegas que passavam por mim no lobby já não lançavam olhares estranhos nem nada do tipo.

Claro, eu tinha certeza de que ainda havia muitos alunos com pensamentos próprios sobre o assunto, mas, por enquanto, parecia que a situação havia se estabilizado em grande parte.

Enquanto esperava Horikita, abri o aplicativo do OAA, que acabara de ser atualizado com novos dados. O OAA era um sistema que refletia nosso desempenho mensalmente e mostrava como seria a nova hierarquia no segundo ano.

Eu havia tirado nota máxima em matemática, mas minha pontuação total nas cinco matérias foi de 383 pontos. Como resultado, em termos de desempenho acadêmico geral, minha avaliação ficou em A-, um pouco acima do que eu esperava.

O restante das minhas notas era semelhante ao que eu tinha no primeiro ano.

2-D — Ayanokoji Kiyotaka
Resultados do Segundo Ano

Habilidade Acadêmica: A- (81)
Habilidade Física: B- (61)
Adaptabilidade: D+ (40)
Contribuição Social: B (68)
Habilidade Geral: B- (62)

Alunos que já tinham avaliação A em habilidade acadêmica no ano anterior, como Horikita e Mii-chan, praticamente não mudaram, mantendo suas notas.

Provavelmente, estudantes que alcançaram 400 pontos ou mais na prova receberam avaliações A ou superiores.

O sistema OAA mostrava claramente que houve melhora perceptível nos resultados de praticamente todos os alunos e, como eu já havia comentado anteriormente, Sudou era um dos exemplos mais evidentes disso. A evolução dele, mesmo comparada aos demais alunos do nosso ano, era impressionante.

2-D — Sudou Ken
Resultados do Segundo Ano

Habilidade Acadêmica: C (54)
Habilidade Física: A+ (96)
Adaptabilidade: C- (42)
Contribuição Social: C+ (60)
Habilidade Geral: B- (63)

Considerando que, no primeiro ano, sua habilidade geral era um C com apenas 47 pontos, seu crescimento era espantoso. Suas avaliações, impulsionadas ainda mais por sua habilidade física excepcional, melhoraram drasticamente em todos os aspectos.

Mesmo sendo apenas a avaliação do OAA, sua habilidade geral já superava a de Keisei e Akito. Se no futuro ele continuasse melhorando sua habilidade acadêmica e contribuição social, talvez pudesse alcançar alunos como Yousuke e Kushida.

Esse era o verdadeiro potencial de um estudante com talento genuinamente excepcional. Por outro lado, embora tivéssemos sido informados de que nossas avaliações seriam reiniciadas, no caso das notas de adaptabilidade e contribuição social, parecia que as coisas… Bem, para ser mais preciso, era seguro assumir que a escola ainda utilizava parte dos dados do ano anterior como critério de avaliação.

Afinal, amizades e habilidades de comunicação não mudavam completamente apenas porque um aluno avançava de série. Ainda assim, se Sudou continuasse se esforçando diligentemente pelo próximo mês — ou pelos próximos seis — suas notas de contribuição social certamente melhorariam de maneira justa.

Além de Sudou, muitos outros alunos também haviam evoluído significativamente em habilidade geral comparado ao ano anterior. Em sua maioria, eram estudantes que antes tinham dificuldades em adaptabilidade, contribuição social ou ambos, mas era seguro dizer que haviam evoluído enormemente.

— Desculpe por fazer você esperar — disse Horikita ao descer para o saguão, chegando ligeiramente antes do horário combinado.

— Eu nem estava esperando há tanto tempo — respondi.

Não havia necessidade de conversar ali no lobby, então começamos a caminhar em direção à escola. Conversar do lado de fora era mais fácil, porque as discussões costumavam fluir naturalmente, independentemente do assunto.

— Preciso te agradecer mais uma vez. Graças à sua rapidez de raciocínio, não acabei atraindo atenção demais da nossa classe. Também tive a impressão de que a história se espalhou para as outras turmas de forma semelhante — falei.

As outras classes provavelmente ficaram mais cautelosas, mas, sinceramente, isso quase não teve impacto. Sakayanagi, da Classe A, já sabia sobre mim há muito tempo, e Ryuen havia experimentado pessoalmente uma surra minha, então sabia que matemática não era minha única habilidade.

Quanto a Ichinose, tive a sensação de que ela já acreditava que eu não era alguém comum, pelo que havia dito.

— Não foi nada demais. Só fiz o que achei que beneficiaria nossa classe no futuro. Se eu tivesse contado para todos que você estava simplesmente escondendo suas habilidades por egoísmo próprio, aquilo não teria sido muito bem aceito, teria? Aliás, o que você teria feito se eu não estivesse lá? — perguntou Horikita.

— Sei lá. Quem pode dizer? — respondi.

Desviei da pergunta, mas, no fim das contas, provavelmente teria tentado conduzir a situação de maneira parecida com a dela. Primeiro, daria uma desculpa para escapar do assunto naquele dia, dizendo que fazia parte de uma estratégia da Horikita.

Depois, em outra ocasião, retomaria o tema e explicaria algo semelhante. Mesmo assim, Horikita parecia ter entendido tudo sem que eu precisasse explicar verbalmente.

— Bem, digamos então que você me deve um favor — disse Horikita.

— E eu aceitarei silenciosamente que agora estou em dívida com você. Obrigado — respondi.

Horikita então lançou um olhar para minha mão esquerda.

— Sua mão está melhor? — perguntou.

— Está melhorando. Ainda vai levar um tempo para cicatrizar completamente, mas como não é minha mão dominante, não chega a ser um grande problema — respondi.

— Bem, nesse caso, ótimo, mas… você teve algum contato com Housen-kun desde então? — perguntou Horikita.

— Não, não exatamente. Cruzei com Housen e Nanase uma vez, mas não chegamos a conversar.

Tanto Housen quanto Nanase olharam para mim, mas nenhum dos dois tentou dizer uma palavra sequer.

— Mesmo sem terem pedido desculpas nem nada, será que no fundo eles perceberam que fizeram algo errado? — perguntou Horikita.

— Não sei. Honestamente, não tive a impressão de que pensavam assim.

— Nenhum dos dois?

— É.

Completamente indiferentes à audácia absurda do que haviam feito… aqueles alunos do primeiro ano realmente tinham coragem.

— Será que aquilo que disseram sobre receber vinte milhões de pontos caso consigam expulsar você é verdade? — perguntou Horikita.

— No momento não temos provas concretas. Mas é improvável que eles fizessem algo assim sem algum tipo de recompensa desse nível — respondi.

Seria impensável correr o risco de sofrer ferimentos graves ou até expulsão por algo tão sem sentido, a menos que houvesse uma recompensa envolvida. A única outra possibilidade seria que fossem estudantes enviados pela Sala Branca.

— Se é verdade ou não, vamos descobrir com o tempo — acrescentei.

— Mas isso… isso é um desenvolvimento bem desagradável. Mesmo sendo uma ideia completamente absurda, se isso realmente fosse uma prova especial, então as quatro classes do primeiro ano provavelmente saberiam, certo? — perguntou Horikita.

— Nanase também disse algo parecido. Ela comentou aquilo justamente para nos fazer prestar atenção em todas as classes do primeiro ano.

Isso significava que havia pelo menos três pessoas — uma em cada uma das outras turmas — que sabiam da minha existência.

— Amasawa-san, da Classe A… Nós devemos um agradecimento a ela por ter feito dupla com Sudou-kun, mas não há dúvidas de que ela era cúmplice do Housen-kun, certo? — disse Horikita.

Respondi com um leve aceno de cabeça.

Amasawa Ichika, aluna da Classe 1-A, era quase certamente uma das pessoas que sabiam sobre a suposta prova especial dos vinte milhões de pontos. Porém, ainda não sabíamos quem eram os alunos das Classes B e C envolvidos nisso.

— Então, até agora, apenas três pessoas tentaram agir para expulsar você? — perguntou Horikita.

— Pelo que consegui perceber, sim.

— Se for assim, isso é um pouco estranho, não acha? …Housen-kun não parece exatamente popular entre os alunos do próprio ano, para dizer o mínimo. Você realmente acha que os outros estudantes ficariam apenas assistindo ele pegar os vinte milhões de pontos sozinho? — perguntou Horikita.

Isso também me incomodava. Mas era difícil determinar a razão. Será que acreditavam que Housen e Nanase não conseguiriam me expulsar…? Ou talvez nunca tivessem pretendido participar desse "exame especial" desde o início?

Talvez sequer acreditassem que aquilo era legítimo. Horikita, caminhando ao meu lado, provavelmente também não tinha resposta para essas perguntas. Então resolvi mudar um pouco a direção da conversa.

— Por que você acha que não existem sinais de os alunos do primeiro ano estarem compartilhando informações? — perguntei.

Como acabaríamos falando sobre isso de qualquer forma, decidi ouvir a opinião dela.

— Sim… Imagino que, se o primeiro ano inteiro tivesse sido informado de que expulsar você fazia parte de um exame especial, seria apenas questão de tempo até os alunos do segundo e terceiro anos descobrirem também. Se nossa classe soubesse de um exame absurdo desses, tenho certeza de que protestaria fortemente. Então provavelmente estão tentando impedir que isso se torne público… Certo? — analisou Horikita.

Aquilo estava absolutamente correto. Mas existia algo além dessa resposta lógica — algo mais profundo e preocupante.

— Será que a administração da escola realmente aprovou uma prova especial tão absurda assim…? — perguntou Horikita.

— Boa pergunta. Tentei confirmar indiretamente isso com nossa professora, Chabashira-sensei, mas ela não demonstrou saber de nada — respondi.

Na verdade, eu nem sequer havia perguntado diretamente a ela, mas tinha quase certeza de que realmente não sabia.

— Partindo disso, existem duas possibilidades que podemos considerar. A primeira é que tudo o que Nanase e Housen disseram foi completamente mentira. Nesse caso, nunca existiu um exame especial envolvendo minha expulsão. Mas, como eu disse antes, é difícil imaginar que eles fariam algo tão arriscado sem recompensa alguma, então podemos praticamente descartar essa hipótese.

— Sim — concordou Horikita.

— A outra possibilidade é que talvez isso nem seja realmente um exame especial. Em termos mais precisos, alguém pode ter oferecido vinte milhões de pontos aos alunos do primeiro ano em troca da minha expulsão.

— Entendo. Se alguém colocou uma recompensa pessoal pela sua cabeça, então essa história começa a fazer muito mais sentido — disse Horikita.

O que essas pessoas estavam fazendo era questionável, mas eu tinha certeza de que não violava diretamente as regras da escola. E também sabia que, conforme Horikita organizasse as peças da situação, ela acabaria chegando a uma conclusão específica.

Horikita continuou analisando o cenário, aproximando-se gradualmente da verdade.

— Então você está dizendo que alguém do nosso ano… ou de um ano superior… ofereceu essa quantia enorme de pontos com esse objetivo? — perguntou Horikita.

Como ela não possuía nenhuma informação que a levasse a suspeitar de Tsukishiro, suas hipóteses naturalmente eram limitadas.

— Embora não possamos descartar completamente a possibilidade de isso ter sido algum tipo de jogo criado pelos próprios alunos do primeiro ano, é difícil acreditar que eles conseguiriam organizar algo desse porte logo após entrarem na escola. Eles ainda não possuem confiança nem capital suficientes para isso. Acho improvável.

— Então estamos procurando alguém que tenha capacidade de pagar vinte milhões de pontos… e que também tenha a confiança dos alunos do primeiro ano.

Enquanto Horikita seguia essa linha de raciocínio, uma pessoa específica provavelmente surgiu em sua mente.

— O presidente do conselho estudantil…. — concluiu ela.

As palavras que saíram de sua boca se encaixavam surpreendentemente bem na situação.

— O presidente Nagumo não pode realmente ter algo a ver com isso… pode? — perguntou Horikita.

— Não tenho tanta certeza. Embora eu saiba que ele não gosta nem um pouco de mim, duvido que estivesse disposto a gastar vinte milhões de pontos para me expulsar da escola. Além disso, usar alunos do primeiro ano sem conhecer suas personalidades ou habilidades? Isso também parece estranho.

Se ele realmente quisesse usar alguém para me expulsar, teria sido muito mais vantajoso usar um dos alunos do terceiro ano, que estavam sob seu controle.

— Embora seja possível que ele tenha alguma ligação com isso — acrescentei.

Eu não tinha informações suficientes para afirmar com certeza que ele não estivesse envolvido de alguma forma. E, por carregar o título de presidente do conselho estudantil, os alunos do primeiro ano não duvidariam dele nem por um instante.

— Talvez você tenha despertado o ciúme dele sem nem perceber. O presidente do conselho estudantil, Nagumo, era obcecado pelo meu irmão mais velho. Mas meu irmão sempre falava de você, Ayanokoji-kun. Não seria estranho se ele tivesse sentimentos conflitantes em relação a isso… assim como eu — disse Horikita.

Se Nagumo estivesse envolvido, provavelmente essa seria a única conexão.

— Bem, embora tenha demorado para chegarmos a este ponto, vou finalmente falar sobre o principal motivo pelo qual queria conversar com você. Hoje, depois das aulas, vou ao conselho estudantil. Pretendo me encontrar com o presidente Nagumo e pedir para entrar no conselho — disse Horikita.

— Entendo.

Depois de tantas idas e vindas, finalmente estávamos avançando na questão envolvendo Nagumo, o último arrependimento deixado por Manabu, o irmão de Horikita.

— Mas, se o presidente Nagumo não aprovar minha entrada, você não pode me responsabilizar por isso, certo? — disse Horikita.

— Eu já te disse antes. A posição do presidente é não rejeitar ninguém que venha até ele — respondi.

— Sim, acho que você realmente disse isso.

Horikita estava extremamente abalada emocionalmente quando Manabu se formou, mas parecia se lembrar da nossa conversa. Embora Nagumo tivesse afirmado que não recusaria ninguém que o procurasse, eu tinha certeza de que não era só isso. Ela era a irmã mais nova de Horikita Manabu, alguém que sempre o seguia por toda parte. Seria impensável ignorar uma pessoa tão preciosa para ele.

— O motivo de você querer que eu entre para o conselho estudantil… Você disse que era para monitorar o presidente Nagumo, mas não quer simplesmente que eu fique observando ele sem fazer nada, certo? — perguntou Horikita.

Ela estava pedindo instruções sobre o que deveria fazer depois de entrar para o conselho.

— Tenho certeza de que você já percebeu isso até certo ponto, mas seu irmão e Nagumo têm formas de pensar completamente diferentes. Seu irmão, justamente por valorizar a tradição, não concordava com as reformas de Nagumo. Antes de partir, ele me disse algo. Disse que a turma é uma unidade, e que todos compartilham o mesmo destino. E que não queria que essa estrutura mudasse — respondi.

— É verdade que o atual presidente do conselho está tentando fazer exatamente o oposto disso — disse Horikita.

— Mas eu não estou julgando qual dos dois está certo. O que posso dizer com certeza, neste momento, é que tenho interesse em ver as reformas que Nagumo está tentando implementar.

Isso mesmo. A maneira de pensar de Manabu não estava errada, mas a de Nagumo também não era necessariamente errada.

— Então é por isso que você não me deu instruções específicas? — perguntou Horikita.

— Isso.

— Então por que ainda quer que eu faça parte do conselho estudantil? Se você só quer observar o que ele pretende fazer, não há necessidade de eu entrar no conselho e monitorá-lo, há?

— Se Nagumo acabar conduzindo as coisas na direção errada, alguém vai precisar detê-lo, não vai? — respondi.

E a pessoa que deveria fazer isso não era eu, mas Horikita Suzune, a irmã mais nova de Horikita Manabu. Claro, era uma imposição bastante unilateral, e foi justamente por isso que coloquei essa condição em nossa aposta anteriormente.

— Ainda existem algumas coisas de que não gosto, mas vou considerar isso uma vantagem no geral — disse Horikita.

Eu tinha certeza de que isso estava relacionado ao assunto da recompensa mencionada por ela mais cedo. Entrar para o conselho estudantil aumentaria suas chances de conseguir informações sobre aquilo.

— Acho que não estou em posição de impor condições depois de perder nossa aposta, mas… você poderia ir comigo? — perguntou Horikita.

— Ir com você? — repeti.

— Sim. Quero que você venha comigo para poder provar que me encontrei diretamente com o presidente Nagumo — disse Horikita.

Ou seja, ela queria provar que não estava mentindo caso, na improvável hipótese, sua entrada no conselho fosse recusada.

— Se o presidente Nagumo estiver de alguma forma envolvido com a questão da recompensa pela sua cabeça, talvez consigamos arrancar alguma reação dele — acrescentou Horikita.

De fato. Talvez conseguíssemos obter alguma pista sobre os vinte milhões de pontos.

— Tudo bem. Então, depois das aulas? — respondi.

Depois de combinar isso com Horikita, nosso dia finalmente começou.

*

 

As aulas já haviam terminado naquele dia, e Horikita e eu seguimos juntos para a sala do conselho estudantil.

— Você marcou horário? — perguntei.

Mesmo que aparecêssemos de surpresa, não havia garantia alguma de que Nagumo estaria na sala.

— Claro. Passei pela Chabashira-sensei e pedi que ela nos ajudasse a marcar uma reunião com o presidente do conselho estudantil, Nagumo, então não há problema. Esse é mais um motivo pelo qual adiei isso até hoje. Mas provavelmente foi bom ter esperado tanto. Graças a isso, sinto que minha motivação para entrar no conselho estudantil aumentou um pouco — disse Horikita.

— Por causa da recompensa de que falamos? — perguntei.

— Isso mesmo. O conselho estudantil é uma entidade que deveria permanecer absolutamente neutra. Se eles estiverem fazendo algo injusto, algo que imponha um fardo apenas à nossa turma, então… Bem, se isso for verdade, é um problema que precisa ser combatido, e com todas as forças.

Lancei discretamente um olhar de lado para o rosto de Horikita, percebendo algo semelhante à determinação.

— É ótimo ver toda essa disposição, mas não se empolgue demais. Ainda não existe prova de que Nagumo esteja envolvido em alguma coisa. E, além disso, mesmo que esteja, ele não é o tipo de adversário que pode ser derrotado tão facilmente — avisei.

Mesmo que fosse verdade, eu duvidava que Nagumo retirasse a recompensa pela minha cabeça só porque pedíssemos.

— Claro. Não vou fazer nada imprudente. Vou esperar até ter absoluta certeza antes de agir — disse Horikita.

Fiquei aliviado ao perceber que, embora estivesse motivada, ela ainda mantinha um grande autocontrole. Pouco depois, chegamos à sala do conselho estudantil e abrimos a porta.

— Com licença — disse Horikita ao entrarmos.

Assim que entramos na sala do conselho, vimos que a pessoa sentada na cadeira do presidente era, obviamente, Nagumo. Ele cruzou as pernas e cumprimentou Horikita como se fosse um rei. E, de alguma forma, aquilo não parecia nem um pouco estranho. O fato de o papel combinar tão perfeitamente com ele era prova de que possuía uma certa imponência natural.

Além disso, tive a impressão de que Nagumo parecia ainda mais calmo e sereno do que antes. Talvez porque a única pessoa que era seu igual — ou talvez até superior — Horikita Manabu, já não estivesse mais ali. Ao seu lado estava o vice-presidente, Kiriyama. Ele lançou um rápido olhar em minha direção antes de voltar sua atenção para Horikita.

— Ouvi dizer que queria falar comigo sobre algo — disse Nagumo.

— Sim. Muito obrigada por reservar um tempo para nós — respondeu Horikita.

Kiriyama nos indicou que nos sentássemos, e obedecemos sem protestar.

— Ah, não precisa se preocupar com isso. Minha agenda está relativamente livre no momento, de qualquer forma — disse Nagumo.

Mesmo comigo ali diante dele, Nagumo parecia agir como sempre. Ainda que houvesse o menor resquício de culpa, seria natural que isso aparecesse em sua atitude, mas…

— Enfim, sobre o que queria falar comigo? Imagino que não tenha vindo aqui só para bater papo, certo? — disse Nagumo.

Embora fosse um gesto de boas-vindas, também era a forma dele pedir para Horikita ir direto ao ponto.

— Tenho certeza de que seu tempo é valioso, então serei direta. Gostaria de entrar para o conselho estudantil — declarou Horikita, sua voz ecoando por toda a sala.

Ao ouvirem aquilo, os dois membros do conselho reagiram de maneira parecida. Não pareciam nem receptivos nem contrários ao que tinham acabado de escutar; apenas demonstravam surpresa.

— Você quer entrar para o conselho estudantil? — repetiu Nagumo.

Sua expressão mudou então de surpresa para algo próximo de expectativa.

— Ora, ora… Isso certamente é uma reviravolta curiosa. Embora eu admita que não me sinto inclinado a simplesmente dizer "sim" de imediato — disse Nagumo.

— Isso significa que não pretende me aceitar no conselho? — perguntou Horikita.

— Não foi isso que eu disse. Basicamente, minha posição é não rejeitar ninguém que venha até mim. Se alguém quiser entrar para o conselho estudantil, eu permito, desde que haja vagas disponíveis. Não me interessa o motivo pelo qual a pessoa quer entrar. Seja por causa do OAA, pensando no futuro profissional ou por algum senso de justiça, tudo isso é aceitável — respondeu Nagumo.

Esse era o tipo de pensamento típico de Nagumo que, ao contrário de Manabu, era aberto a qualquer pessoa.

— Mas você é especial, Horikita Suzune. Então vou permitir sua entrada no conselho estudantil sob uma única condição — disse Nagumo.

— E qual seria essa condição? — perguntou Horikita.

— Quero que me diga por que deseja entrar para o conselho estudantil justamente agora — respondeu Nagumo.

Será que ele estava incomodado por eu estar ali junto com Horikita? Não… no bom sentido, Nagumo não era o tipo de pessoa que se preocupava com detalhes insignificantes. Ele genuinamente queria saber por que a irmã mais nova de Manabu queria entrar para o conselho estudantil.

Claro, Horikita não diria que era porque havia perdido uma aposta comigo. Sendo honesta, ela provavelmente ainda conseguiria entrar no conselho dessa forma, mas seria só isso. Muito provavelmente jamais conquistaria a confiança de Nagumo.

— Existe certa rivalidade entre meu irmão e eu, então vim para esta escola para resolver esse conflito. Mas, mesmo depois de entrar aqui, a relação entre nós não mudou — disse Horikita.

Nagumo ouviu atentamente as palavras dela, pronunciadas devagar e com clareza.

— Eu não havia crescido nem um pouco. Não havia como meu irmão me reconhecer daquele jeito. No fim, passei um ano inteiro sem conseguir sequer conversar com ele. Isso até pouco antes de sua formatura — continuou Horikita.

Parecia que Horikita havia escolhido cuidadosamente algumas verdades do seu passado para contar a Nagumo.

— Então, vocês conseguiram se reconciliar? — perguntou Nagumo.

— Sim. Foi literalmente no último momento possível, mas conseguimos nos acertar. Foi aí que comecei a me interessar pelo conselho estudantil, ao qual meu irmão mais velho dedicou toda a sua vida escolar. Foi um caminho longo e cheio de obstáculos para mim, mas quero seguir a mesma estrada que meu irmão trilhou — respondeu Horikita.

Originalmente, ela não tinha intenção alguma de entrar para o conselho estudantil. Então, se me perguntassem se tudo o que acabara de dizer refletia exatamente seus sentimentos, eu diria que não, nem tudo. Ainda assim, ao misturar suas palavras com várias pequenas verdades, ela conseguia obscurecer a capacidade de Nagumo de discernir a autenticidade de sua história.

— Seguir o caminho do seu irmão, hein? Que história admirável — comentou Nagumo.

No entanto, justamente porque percebeu que ela havia feito algo para turvar sua percepção, Nagumo parecia manter certa cautela em relação a Horikita.

— Isso significa que posso assumir que você pretende eventualmente se tornar presidente do conselho estudantil? — perguntou Nagumo.

Independentemente da resposta de Horikita, provavelmente nada o impressionaria facilmente. Esse era o tipo de situação em que uma mentira simples não causaria uma boa impressão.

— Sim. Como mencionei antes, desejo seguir o mesmo caminho que meu irmão percorreu, então também pretendo me tornar presidente do conselho estudantil — respondeu Horikita.

Horikita havia escolhido, de maneira bastante ousada, impor a si mesma uma meta extremamente difícil. E suas palavras também não pareciam ser mentira. Agora que decidira entrar para o conselho estudantil, parecia realmente preparada para seguir os passos de Manabu.

— Entendo. Mas Honami já vem trabalhando arduamente há um ano como membro do conselho estudantil, ainda que nos bastidores. Você entende que isso significa que está atrás dela na disputa pelo cargo de presidente do conselho, certo? — disse Nagumo.

— Não acredito que a diferença seja grande a ponto de eu não conseguir alcançá-la — respondeu Horikita, com mais rapidez e firmeza do que em qualquer uma de suas falas anteriores.

Kiriyama, que permanecera em silêncio até então, voltou-se para Nagumo e falou:

— Mesmo que elas não se pareçam muito, suponho que ela realmente seja a irmã mais nova do Horikita-senpai.

— Ainda assim, me sinto um pouco estranho chamando você de Horikita. Acho que já a chamei pelo primeiro nome algumas vezes, mas só para confirmar… tudo bem se eu passar a chamá-la de Suzune de agora em diante? — perguntou Nagumo.

— Fique à vontade — respondeu Horikita.

— Sabe, isso já vinha me incomodando um pouco. Ainda não temos nenhum aluno do segundo ano no conselho além da Honami.

Depois de ouvir diretamente de Horikita suas verdadeiras intenções, Nagumo concordou em permitir sua entrada no conselho estudantil. Ele se levantou de sua cadeira e caminhou até ela, estendendo a mão esquerda. Horikita se levantou também e apertou a mão dele sem hesitar.

— Bem-vinda ao conselho estudantil. A partir de hoje, quero que trabalhe como membro deste conselho sem se conter, Suzune — disse Nagumo.

— Claro — respondeu ela.

— Para comemorar sua entrada no conselho, vou lhe contar algo interessante. Todos os presidentes anteriores do conselho estudantil, sem exceção, se formaram pela Classe A. Isso é um fato. Então, tenha isso em mente enquanto busca alcançar voos mais altos — disse Nagumo, em palavras que pareciam destinadas a acender uma chama sob Horikita, que ainda permanecia presa à Classe D.

— Não precisa se preocupar. Não tenho absolutamente nenhuma intenção de me formar em qualquer turma que não seja a Classe A — respondeu Horikita.

— Nesse caso, prove para mim que isso não é apenas conversa — disse Nagumo.

Com isso, eles finalmente encerraram o longo aperto de mãos.

— Eu sou Kiriyama. O vice-presidente.

— É um prazer trabalhar com você — disse Horikita.

Depois de trocar cumprimentos e apertar a mão de Kiriyama também, Horikita tornou-se oficialmente membro do conselho estudantil. A partir dali, ela seria capaz de ver com os próprios olhos a forma como Nagumo conduzia as coisas. Um sistema escolar meritocrático, que priorizava o indivíduo acima do coletivo.

Como Horikita reagiria a esse novo sistema, tão diferente daquele que seu irmão mais velho tentava proteger?

Bem, era seguro dizer que já havíamos ultrapassado o ponto em que eu teria qualquer influência sobre isso. Especialmente porque, no fim das contas, eu não havia conseguido encontrar nenhuma pista sobre a recompensa colocada sobre mim.

Decidi procurar o momento certo para sair dali, mas, justamente quando pensava em como me retirar discretamente…

— A propósito, você também pretende entrar para o conselho estudantil, Ayanokoji? — perguntou Nagumo.

— O que está fazendo, Nagumo? Vai convidá-lo para o conselho estudantil? — disse Kiriyama, surpreso, como se considerasse a sugestão incomum.

— Não é tão estranho assim. Ayanokoji era alguém que Horikita-senpai observava com atenção. Não há motivo para recusarmos alguém assim. Além disso, parece que ele foi a única pessoa a tirar nota perfeita em uma matéria naquele exame especial outro dia — respondeu Nagumo.

Foi a primeira vez, durante toda a conversa, que Nagumo pareceu realmente prestar atenção em mim. Ao que tudo indicava, ele já conhecia informações que haviam sido divulgadas apenas aos alunos do primeiro e do segundo ano.

— Receio que não. Não acho que eu tenha perfil para fazer parte do conselho estudantil — respondi.

— Ha, imaginei que diria isso — disse Nagumo.

Ele imediatamente desviou a atenção de mim, como se tivesse feito o convite apenas por educação. Eu não fazia ideia do que estava pensando, mas então voltou a olhar diretamente para mim outra vez.

— Ayanokoji.

Depois que Nagumo pronunciou meu nome, nós dois ficamos apenas nos encarando em silêncio por alguns instantes.

— Fazer parte do conselho estudantil dá ainda mais trabalho do que eu imaginava. É praticamente uma montanha de tarefas, para ser sincero. Mas as coisas estão começando a se estabilizar. Estou pensando em passar um tempo com meus veteranos e calouros durante o verão — disse Nagumo.

O que exatamente aquela declaração significava? Sem que eu sequer precisasse pressioná-lo, Nagumo decidiu dizer aquilo por conta própria.

— Vou brincar com todos vocês, então é melhor aguardarem ansiosamente por isso — disse Nagumo.

Aquilo não era exatamente uma declaração de guerra ou algo do tipo. Era mais parecido com uma lição dada pelos fortes aos fracos.

— Tenho certeza de que Sakayanagi, Honami e Ryuen vão derramar lágrimas de alegria — acrescentou Nagumo.

Depois de dizer o que queria, Nagumo voltou a me ignorar completamente — e dessa vez, de verdade. Justamente quando a conversa parecia finalmente ter chegado ao fim, ele trouxe outro assunto à tona.

— A propósito, Kiriyama, por que exatamente decidiu se envolver nessa curiosa situação de hoje? — perguntou Nagumo.

— Como assim? — retrucou Kiriyama.

— Outro dia, quando aqueles alunos do primeiro e segundo ano vieram dizendo que queriam entrar para o conselho estudantil, você não pediu para participar da conversa comigo. Mas desta vez, quando foi informado de que Horikita queria se encontrar comigo, decidiu aparecer. Não acha isso estranho? — disse Nagumo.

Era quase como se estivesse trazendo aquilo à tona especificamente para que eu ouvisse, justamente quando eu estava prestes a sair. Esse ataque surpresa de última hora pareceu interromper completamente o fluxo da conversa.

Claro, eu não tinha como saber por que Kiriyama estava presente naquela reunião, mas era evidente que ele havia ficado abalado.

— Eu apenas fiquei curioso porque ela é a irmã mais nova do Horikita-senpai. O que há de errado nisso? — respondeu Kiriyama, tentando manter a calma.

Mas sua voz carregava um leve tom de tensão. Talvez Nagumo tivesse achado aquilo divertido, porque respondeu de maneira descontraída:

— Não, não, nada demais. Não se preocupe com isso.

Ele não insistiu mais no assunto, como se a resposta de Kiriyama tivesse sido suficiente.

— Enfim, Suzune, gostaria de começar imediatamente e apresentá-la aos outros membros do conselho estudantil além do Kiriyama. Fique aí por um instante — disse Nagumo.

— Entendido.

Não havia mais motivo para eu continuar ali, já que havia recusado entrar para o conselho estudantil. Deixei Horikita com Nagumo e saí da sala.

*

 

Ao deixar a sala do conselho estudantil, segui em direção à entrada da escola.

Kiriyama vinha lutando desesperadamente para tentar derrubar Nagumo. Ele apoiava Manabu e tentava colocar diversos planos em prática, chegando até mesmo a entrar em contato diretamente comigo quando eu ainda era um aluno do primeiro ano. E, justamente quando parecia prestes a desistir, a irmã mais nova de Manabu apareceu querendo entrar para o conselho estudantil. Imaginei que ele pudesse ter pensado em tomar algum tipo de atitude.

Mas, pelo que havia visto hoje, parecia que a disputa entre Nagumo e Kiriyama já estava decidida. A diferença entre os dois parecia tão grande que não havia esperança alguma de superá-la. Bem, se Kiriyama ainda não desistiu, então alguma coisa acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde.

— Então é isso… — murmurei para mim mesmo.

Eu estava exausto. Não queria mais usar o cérebro naquele dia, então pensei em voltar direto para o dormitório e apenas relaxar pelo resto da tarde. Tirei o celular do bolso e conferi as horas.

"Ei, se você não tiver nenhum compromisso… se importa se eu for visitar seu quarto?"

Eu não tinha percebido antes, já que estava observando toda aquela situação na sala do conselho estudantil, mas havia recebido uma mensagem da Kei. Já fazia mais de trinta minutos desde que ela tinha enviado aquilo, mas como a mensagem não havia sido apagada e não existiam outras em seguida, era possível que ainda estivesse esperando uma resposta.

Como eu não tinha planos para o resto do dia, resolvi responder.

Mesmo namorando, ainda não havíamos tornado nosso relacionamento oficial. Existiam pouquíssimos lugares onde poderíamos ficar sozinhos sem que ninguém descobrisse. Ainda assim, os dormitórios também não eram exatamente seguros. Na verdade, bastaria sermos vistos juntos uma única vez para isso se tornar um golpe decisivo. Achei que simplesmente teríamos que encontrar uma solução juntos quando esse momento chegasse.

Enviei uma mensagem dizendo: "Quer vir para o meu quarto?"

Menos de um segundo depois, vi que ela havia lido. Será que já estava mexendo no celular? Ou ficou esperando minha resposta o tempo todo?

"Sim!" respondeu ela, curta e direta. "Posso ir agora mesmo?!"

As mensagens chegaram uma atrás da outra. Respondi dizendo que estava voltando para o dormitório naquele momento e que chegaria em cerca de vinte minutos, então ela poderia aparecer a qualquer hora depois disso. Bastava ir até meu quarto da maneira habitual. Mesmo que houvesse alguém no corredor, Kei conseguiria lidar com isso até certo ponto.

Voltei ao meu quarto cerca de dez minutos depois. Deixei a porta destrancada e aproveitei o tempo extra para arrumar um pouco o ambiente. Então ouvi três batidas fortes.

Kei e eu havíamos combinado vários sinais para nossos encontros secretos. Normalmente usávamos a campainha, mas em situações de pequena emergência eu havia pedido para ela bater três vezes na porta. Com a enorme quantidade de alunos entrando e saindo o tempo todo, às vezes não tínhamos tempo para abrir e fechar a porta calmamente.

Foi assim que decidimos agir. Além disso, em situações extremamente urgentes ou perigosas, permitíamos que o outro entrasse sem usar qualquer sinal.

— Estou entrando! — disse Kei, em pânico, enquanto escorregava rapidamente pela porta.

Ela fechou a porta com força atrás de si e soltou um longo suspiro, tentando se acalmar.

— Quase morri do coração quando percebi que o elevador tinha parado no quarto andar! — exclamou.

Talvez por causa da adrenalina, Kei levou a mão ao peito. Bem, considerando como era difícil passar pelas pessoas no corredor, não era surpresa ela estar tão nervosa.

— É impossível escondermos isso para sempre — falei.

— Eu sei, mas…

Guardei os sapatos da Kei no armário da entrada. Depois, só por precaução, tranquei a porta e também fechei a trava de segurança em formato de U. Assim, mesmo na improvável hipótese de alguém tentar me visitar, poderíamos garantir que ninguém entrasse e dispensar a pessoa do lado de fora.

Ainda assim, não era exatamente natural usar a trava tão cedo. Originalmente eu não pretendia chegar a esse ponto, mas isso mudou por causa do precedente criado com Amasawa. Era melhor agir assim do que permitir descuidadamente que alguém entrasse no meu quarto e me encontrasse sozinho com Kei.

Além disso, mesmo que alegassem ser algo urgente, tudo ficaria bem desde que eu estivesse preparado para sair do quarto em vez de deixá-los entrar. Bastaria dizer que meu quarto estava bagunçado, pedir que esperassem do lado de fora e sair imediatamente. Depois, enquanto eu fosse embora junto com o visitante, Kei poderia deixar o quarto discretamente.

— Ufa… Que alívio… — disse Kei, sentando-se na cama e dando leves tapinhas no peito.

— Que bom ouvir isso.

Afinal, os dormitórios ficavam cheios de alunos voltando para seus quartos, especialmente no início da noite. Mas os riscos de convidar alguém para o quarto durante a madrugada eram ainda maiores. Justamente por haver menos pessoas circulando naquele horário, seria um grande problema se descobrissem que uma garota tinha ido ao meu quarto no meio da noite. Por isso, as tardes dos dias de folga ou os fins de tarde durante a semana eram opções melhores, já que poderíamos inventar desculpas plausíveis. Mesmo que nosso relacionamento fosse descoberto, ainda pareceria algo saudável e natural.

— Quer beber alguma coisa? — perguntei para Kei depois que ela finalmente se acalmou.

Mas, assim que fiz a pergunta, ela saiu correndo da sala para a cozinha.

— Eu cuido disso!

— Hm… Isso é inesperado. Você normalmente não faz esse tipo de coisa — comentei.

— Bem, imagino que esteja difícil para você agora, com essa mão machucada. Além disso, até eu consigo ferver água, pelo menos — respondeu Kei.

Pelo jeito, ela estava se oferecendo para ajudar por preocupação com meu ferimento.

— Tudo bem, então. Vou deixar isso com você…

— Ótimo. Eu vou querer chá preto. E você, Kiyotaka?

— Hm, deixa eu ver… Acho que vou querer o mesmo que você.

Eu tinha decidido pedir a mesma coisa porque achei que seria menos trabalhoso para ela, mas aparentemente isso teve o efeito contrário, porque Kei fez uma expressão claramente insatisfeita.

— Você não confia em mim? — retrucou.

— Tudo bem... Nesse caso, vou querer café.

— Certo, deixa comigo. Você guarda as coisas nessa prateleira aqui, né? — disse Kei, abrindo os armários da cozinha.

Ela deve ter percebido que eu estava observando, porque me mandou voltar para a sala e esperar. Só causaria mais problemas se eu a irritasse, então resolvi apenas assistir TV em silêncio enquanto aguardava.

Mas, assim que peguei o controle remoto, ouvi a voz de Kei vindo da cozinha.

— Ah, falando nisso… Tem uma coisa que eu queria te contar hoje. Sabe, agora você tem uma responsabilidade bem grande, Kiyotaka.

— O que foi isso, do nada? — perguntei.

— O fato de você ter tirado nota perfeita em matemática vai deixar ainda mais difícil assumirmos publicamente que estamos namorando — disse Kei.

Então era disso que ela estava falando. Bem, suponho que realmente fosse verdade que, se revelássemos nosso relacionamento agora, havia uma boa chance de isso causar uma enorme comoção…

— Eu sinceramente não faço ideia do que aconteceria se a gente assumisse isso agora…

— Isso quer dizer que vamos continuar desse jeito por mais um tempo? — perguntei.

— Bem… não tem muito o que fazer… Sei lá, eu só me sinto meio estranha com isso. Parece que estou saindo com você por causa do seu status — disse Kei.

— É tão errado assim sair com alguém por status?

— Bem, não… Quer dizer, eu não diria que é errado, mas…

— Por exemplo, não é uma questão de status um cara sair com uma garota bonita? Não seria meio injusto dizer que não quer algo assim? — perguntei.

Claro, preferências de aparência variavam de pessoa para pessoa. Não existia uma verdade absoluta. Ainda assim, eu já havia aprendido que, de modo geral, a maioria das pessoas funcionava assim.

Mesmo depois de eu apresentar uma opinião diferente sobre essa questão de buscar status, Kei não respondeu imediatamente. Fiquei imaginando qual argumento ela preparava quando lentamente levantou a cabeça para olhar para mim.

— V-Você acha que eu sou bonita? — perguntou.

Aparentemente, ela não pretendia discutir comigo. Parecia ter ficado presa justamente na parte em que mencionei sair com uma garota bonita.

— Você acha que eu iria querer namorar alguém que não fosse bonita? — retruquei.

Estranhamente, os lábios de Kei tremeram levemente. Ela tentou desviar o olhar, como se quisesse escapar do contato visual que havíamos acabado de estabelecer. Enquanto isso, a água da chaleira começou a ferver, emitindo um leve som borbulhante.

Não era apenas a aparência física que tornava alguém bonito. Personalidade, corpo, voz, gestos, origem, criação… existiam inúmeros fatores capazes de fazer alguém parecer adorável.

— Eu… Bem… também acho você muito bonito, Kiyotaka.

Mesmo sem eu ter pedido uma opinião sobre minha aparência, foi isso que ela respondeu antes de voltar rapidamente para a cozinha.

Depois que a água ferveu completamente, ouvi o som do líquido sendo despejado nas xícaras enquanto eu passava os canais da TV distraidamente. Pouco depois, Kei voltou para a sala e colocou uma xícara de café sobre a mesa com uma expressão orgulhosa no rosto. Além disso, apesar de ter dito que tomaria chá preto, ela havia preparado um café com leite para si mesma.

— Obrigado — falei.

— De nada — respondeu Kei.

Espalhamos sobre a mesa os livros didáticos do nosso primeiro ano.

Também deixamos cadernos e canetas à mostra para montar a cena de que estávamos estudando. Assim, mesmo que algo inesperado acontecesse, teríamos uma desculpa pronta. Ainda assim, eu preferia evitar essa situação, se possível.

Tudo o que organizei desde o momento em que Kei entrou no meu quarto fazia parte de uma estratégia defensiva que elaborei depois do incidente com Amasawa.

De qualquer forma, Kei e eu passamos um tempo conversando sobre coisas triviais. Começamos falando sobre quando nos vimos na escola naquele dia, depois relembramos momentos anteriores. Conversamos sobre as pessoas com quem esbarramos durante a Golden Week e sobre os programas de TV que assistíamos. Kei me mostrou algumas fotos que tirou, e assim fomos apenas deixando o tempo passar.

Os assuntos da nossa conversa variavam bastante; alguns se prolongavam, outros acabavam rápido. Às vezes mudávamos de tema de repente. O tempo que passávamos juntos poderia ser visto como perda de tempo, mas de forma alguma aquilo era ruim.

De algum modo, eu começava a entender, pouco a pouco, o que era o amor. Eu estava em um encontro caseiro com Kei, que me mostrava todo tipo de expressão — desde risadas até irritação.

Conforme íamos esgotando vários assuntos, naturalmente começaram a sobrar cada vez menos coisas para dizer. As conversas casuais foram diminuindo, e os momentos de silêncio passaram a surgir com mais frequência.

A atmosfera do quarto claramente já não era mais a mesma de antes. Nós dois começávamos a sentir algo um pelo outro. E também começávamos a perceber isso. Bem… não, não era apenas "alguma coisa". Nós dois já sabíamos exatamente o que era.

Sentimentos de querer tocar um ao outro, sentimentos de desejar a presença do outro, começavam a surgir dentro de nós. Mas não eram emoções verbalizadas. Estávamos nos comunicando apenas através do olhar.

Ainda assim, dar o primeiro passo estava longe de ser algo fácil. Por mais que você acreditasse compreender a outra pessoa, ainda precisava considerar os riscos improváveis. Mesmo achando que ambos seguiam na mesma direção, ainda existia a possibilidade de não ser verdade.

E então emoções negativas começavam a emergir.

"E se ela me rejeitar?"

Mesmo assim…

Continuei sustentando o olhar de Kei, sem permitir que ela desviasse os olhos.

"Tudo bem fazer isso? Mas… mas…"

Esses sentimentos colidiam dentro de nós. Por fim, Kei pareceu desistir de resistir. Ela já não tentava mais fugir. Enquanto eu sentia aquela sensação percorrer meu corpo, lentamente… tão lentamente que parecia que o tempo estava parando…

Aproximamos nossos corpos. Depois, nossos rostos. A distância entre nós foi diminuindo aos poucos.

Até que chegamos perto o suficiente para sentir a respiração um do outro sobre a pele. Consegui perceber o leve aroma de leite e café vindo do hálito de Kei.

Em mais dois segundos… Não, em apenas mais um segundo, nossos lábios se tocariam.

Ding-dong!

Nosso momento a sós foi interrompido sem piedade pelo som da campainha. Nossos lábios estavam separados por meros centímetros — tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.

Minha consciência, que parecia prestes a se desprender da realidade, foi violentamente puxada de volta.

— Ah… u-um… a porta…? — gaguejou Kei.

Suas bochechas estavam completamente vermelhas enquanto ela se afastava de mim às pressas. Mas eu não tinha tempo para ficar admirando isso por muito tempo.

Vamos ver…

Havia um visitante. Não alguém esperando lá embaixo no saguão, mas alguém que já estava do lado de fora da minha porta.

O interfone também indicava claramente que a campainha vinha diretamente da entrada do meu quarto.

Diferente do saguão, não existiam câmeras nas portas individuais dos quartos, então era impossível saber quem estava me visitando.

Eu poderia simplesmente fingir que não estava em casa, mas, se essa pessoa tivesse visto Kei entrando no meu quarto, isso seria problemático. Provavelmente seria melhor descobrir exatamente quem tinha vindo aqui e por quê.

— Espere aí — falei para Kei.

— O-Okay… — respondeu ela, assentindo nervosamente.

Pensando no que havia acontecido da última vez com Amasawa, eu já tinha guardado os sapatos de Kei no armário da entrada.

Assim, à primeira vista, pareceria que eu estava sozinho. No entanto, esse método nem sempre era vantajoso. O ideal seria resolver a situação rapidamente pela fresta da porta. Mas, se o visitante pedisse para entrar, a situação poderia piorar rapidamente, e eu acabaria parecendo suspeito.

Porque isso criaria a impressão de que eu havia trazido uma garota para meu quarto e escondido deliberadamente os sapatos dela para evitar ser descoberto. No fim, foi uma boa decisão ter deixado a trava em formato de U fechada, só por precaução.

Desse jeito, mesmo que o visitante tentasse forçar a entrada, não conseguiria ver os sapatos de ninguém ali dentro. Além disso, também não conseguiria entrar tão facilmente no quarto.

Eu ainda poderia ganhar tempo inventando alguma desculpa para a porta estar trancada daquele jeito. Assim, poderia sugerir conversar em outro momento ou até mudar de local. Mas afinal, quem era a pessoa que tinha vindo diretamente ao meu quarto?

Horikita?

Ou algum cara?

Enquanto tentava imaginar quem poderia ser, olhei pelo olho mágico para confirmar a identidade do visitante.

A primeira coisa que apareceu diante dos meus olhos foi um cabelo vermelho.

— Senpai!

E então veio aquela voz doce. Era quase como se ela soubesse que eu estava observando pelo olho mágico.

— Sou eu!

Pelo tom que usava do outro lado da porta, ela parecia completamente convencida de que eu estava em casa. A visitante, vestida com roupas casuais, carregava um largo sorriso no rosto. Também parecia não ter trazido nada consigo, já que estava de mãos vazias.

Destranquei a porta lentamente e a abri.

Eu não tinha mais lidado com Amasawa Ichika, da Classe 1-A, desde o fim de abril. Aquela visita era bastante inesperada, já que eu presumira que não teria mais nenhum contato com ela.

Agora que eu sabia que ela havia sido cúmplice dos planos de Housen — afinal, fora ela quem pegara a faca do meu quarto para que ele a usasse depois — imaginei que manteria certa distância de mim.

Mas Amasawa, parada bem diante de mim mais uma vez, não demonstrava o menor sinal de culpa ou vergonha. Ela não podia realmente acreditar que eu ainda não tivesse descoberto seu envolvimento naquela situação, podia? Não… o papel de Amasawa no plano de Housen praticamente ficou evidente no momento em que tudo aconteceu.

— Como entrou no prédio? — perguntei.

— Tinha outro senpai entrando bem na hora, então aproveitei para entrar junto. Achei que seria uma surpresa divertida — respondeu Amasawa.

Se ela tivesse me chamado pelo interfone do saguão, sua identidade teria sido revelada imediatamente. Então resolveu usar outro estudante para evitar isso, hein?

— Então? — perguntei.

— Eu queria saber se sua mão está bem. Fiquei preocupada com você, então vim visitar — disse Amasawa.

Não havia chance alguma de a esperta Amasawa ser ingênua a ponto de achar que seu envolvimento no plano de Housen tivesse passado despercebido. Na verdade, a forma como agia agora parecia quase uma provocação, como se insinuasse deliberadamente sua participação.

Ela ergueu o dedo indicador da mão direita e tocou a trava em formato de U da porta, batendo nela devagar, de maneira proposital.

— Pode destrancar isso? — perguntou.

Amasawa, com um sorriso diabólico no rosto, lançou um olhar para a entrada do meu quarto, observando os sapatos que estavam ali.

Será que ela havia deduzido que havia alguém no quarto só por causa da trava em formato de U? Ou talvez…

— Já está anoitecendo. Não podemos deixar isso para amanhã? Acho que seria problemático trazer uma kouhai para o meu quarto sem motivo algum — falei.

Se ela realmente tivesse vindo apenas para saber como minha mão estava, então deveria ir embora depois de ouvir isso. No entanto, Amasawa não se moveu nem um centímetro.

Ela levou a mão esquerda até o rosto, colocando um dedo nos lábios enquanto fingia pensar em algo.

— Sabe… você parece estar sozinho agora. Então pensei que talvez pudesse me dar algo para comer — disse Amasawa.

Ela mudou de assunto numa tentativa de encontrar uma forma de entrar no meu quarto.

— Afinal, eu tenho o direito de pedir que cozinhe para mim, não acha? Ou esqueceu do que fiz por você quando me juntei ao Sudou-senpai? — acrescentou.

Então era assim que ela pretendia forçar a entrada. Nesse caso, tudo o que eu precisava fazer era acompanhar o jogo e encontrar uma resposta convincente.

— Desculpe. Estou sem ingredientes no momento. Não tem nada na geladeira — respondi.

— Ah? É mesmo? Que pena. Então trate de reabastecer — disse Amasawa, demonstrando uma insatisfação estranhamente ambígua, como se estivesse irritada e divertida ao mesmo tempo.

— Se isso realmente precisa acontecer hoje, então posso me arrumar e nós dois vamos comprar ingredientes juntos — sugeri.

Isso significaria o fim do meu encontro com Kei, mas ao menos evitaria problemas desnecessários.

Como Amasawa já tinha conhecido Kei antes, eu não queria que descobrisse que ela vinha frequentemente ao meu quarto.

— Hm, entendi. Sem ingredientes. Que pena — comentou Amasawa com um sorriso divertido. — Só não feche a porta, okay?

Então ela saiu brevemente do meu campo de visão. Logo depois, ouvi um som de sacola sendo arrastada. Ela pegou uma sacola plástica que aparentemente havia deixado no chão do corredor e a mostrou para mim pela abertura da porta.

Eu tinha certeza de que ela estava de mãos vazias quando olhei pelo olho mágico momentos antes. Mesmo que tivesse deixado algo perto dos pés, ainda estaria minimamente visível. Ou seja, ela havia deliberadamente escondido a sacola cheia de ingredientes em algum ponto fora do meu campo de visão.

Ela percebeu exatamente qual rota de fuga eu tentava usar. Agora minha desculpa de que não tinha comida não funcionaria mais. Eu sabia que Amasawa era inteligente, mas parecia ainda mais esperta do que eu imaginava.

Bem… agora que as coisas chegaram a esse ponto, eu deveria admitir que menti e tentar encontrar outra maneira de dispensá-la? Se eu dissesse que não estava me sentindo muito bem hoje e que menti apenas porque não queria recusá-la diretamente, talvez funcionasse.

Eu havia preparado várias contramedidas depois da experiência anterior com Amasawa, mas nunca imaginei que a primeira pessoa em quem eu precisaria testá-las seria justamente ela mesma.

Embora outra questão completamente diferente fosse saber se ela cairia nessas desculpas. Eu tinha confiança de que conseguiria enganar outros estudantes, mas Amasawa sabia sobre mim e Kei.

— Você mentiu porque não quer que eu entre no seu quarto? — perguntou Amasawa.

Em menos de um segundo de silêncio, ela me encurralou sem deixar qualquer rota de fuga. Nesse caso, não era coincidência ela ter aparecido justamente hoje.

— Você não está sozinho aí dentro, está, senpai? — perguntou.

— O que faz você pensar isso? — retruquei.

Então ela já estava convencida de que Kei tinha vindo ao meu quarto e vinha agindo com base nisso. Provavelmente Kei havia sido observada de algum lugar.

— Porque eu estava observando ela. Observei a Karuizawa-senpai o tempo tooodo. Desde o momento em que ela voltou para o dormitório — disse Amasawa, confirmando minhas suspeitas.

Imagino que ela tenha saído para comprar comida depois de confirmar secretamente que Kei havia entrado no meu quarto. Mesmo precisando correr o risco de atravessar duas vezes as portas automáticas do dormitório, aquela foi a estratégia que decidiu usar.

— Considerando que você escondeu os sapatos da sua namorada para fingir que ela não está aqui… isso quer dizer que vocês dois estavam fazendo alguma coisa indecente? — provocou Amasawa.

— Eu escondi os sapatos dela apenas por precaução, porque ainda não contamos a ninguém sobre nosso relacionamento. Só isso — respondi.

— Ah, então finalmente admitiu, hm? Bem, não é como se eu não entendesse por que vocês querem esconder isso, mas eu já sei tudo sobre vocês dois, então não precisa mentir pra mim, okay? — disse Amasawa.

Ela fez um leve bico, como se estivesse insatisfeita por eu ter tentado esconder aquilo dela.

— Sabe, tenho guardado seu segredo por pura bondade do meu coração, mas… quem sabe eu não resolva espalhar tudo?

Ao que parecia, Amasawa havia investigado até o ponto de descobrir que meu relacionamento com Kei ainda não era público. Se não soubesse disso, não estaria usando essa informação como moeda de troca agora.

Ou seja, toda aquela conversa era praticamente uma formalidade. Se eu recusasse, havia uma chance real de ela contar tudo. E, se revelasse que Kei e eu estávamos namorando, isso poderia prejudicar Kei no futuro.

O ideal seria nós mesmos revelarmos isso, voluntariamente. Nesse caso… acho que eu não tinha escolha senão ceder. Permanecer na defensiva só me colocava em desvantagem.

Então admiti a derrota.

— Espere um instante. Vou destrancar a porta — falei.

— Okey dokey! — respondeu Amasawa.

Fechei a porta e lancei um olhar para Kei, que observava tudo ansiosamente do lado de dentro, tentando transmitir que ficaria tudo bem. Se Amasawa estava disposta a ir tão longe para entrar descaradamente no meu quarto, então não tínhamos escolha a não ser enfrentá-la de frente.

Retirei a trava em formato de U, abri a porta e deixei Amasawa entrar. No instante em que os olhos de Amasawa encontraram os de Kei — que acabara de aparecer — ela abriu um sorriso travesso. Kei, por outro lado, encarava Amasawa com uma expressão amarga, como se tivesse acabado de engolir um inseto.

— Ora, ora… isso não pode acontecer~~. Um rapaz e uma garota, sozinhos, com a porta trancada? — provocou Amasawa, parecendo até animada enquanto tirava os sapatos.

— Não é como se a gente não pudesse ficar sozinho. Tem vários casais que fazem esse tipo de coisa o tempo todo — rebateu Kei.

— Bem, suponho que isso seja verdade. Só que, quando olho para vocês dois, tenho a sensação de que tem alguma coisa suspeita acontecendo aqui — disse Amasawa.

Eu gostaria que ela apresentasse alguma prova antes de dizer isso, mas considerando que nós estávamos prestes a nos beijar momentos atrás, eu não podia exatamente me irritar com a observação dela.

Assim que entrou na sala, Amasawa lançou um olhar atento para a cama.

— As roupas de vocês não estão bagunçadas. E a cama também não parece desarrumada… Acho que isso quer dizer que vocês não estavam fazendo nada afinal — comentou.

— C-Claro que não estávamos! E, afinal, por que você entrou aqui do nada?! — rebateu Kei, irritada.

A aparição de Amasawa fez com que Kei, que até então estava dócil e tranquila, ficasse realmente nervosa. Provavelmente aquela irritação vinha acompanhada de certa ansiedade também. Ela devia ter ouvido Amasawa insinuar que poderia revelar nosso relacionamento caso a contrariássemos.

— E eu aqui achando que vocês estavam envolvidos em algum caso ilícito… Quer dizer, achei que estavam transando — disse Amasawa.

Até então, Amasawa vinha apenas rondando a linha do aceitável. Agora, ela a ultrapassou deliberadamente ao tocar diretamente no assunto sexo. E, além disso, aquela provocação não foi direcionada a mim, mas sim a Kei.

Kei ficou sem palavras. Mais do que corar, ela ficou completamente vermelha. Virou-se para mim com uma expressão desesperada, como se perguntasse: "O que ela está falando?!"

Durante todo aquele encontro, Amasawa parecia estar nos testando. E, toda vez que fazia isso, observava cuidadosamente a reação de Kei. Depois de perceber que não conseguiria arrancar nada de mim, passou a usar Kei para coletar informações.

Sem querer deixar Kei carregar esse peso sozinha por mais tempo, resolvi intervir.

— Isso é proibido pelas regras da escola — falei.

Minha intenção era tranquilizar Kei, respondendo às provocações de Amasawa da forma mais calma possível. No entanto, Amasawa não pareceu se abalar nem um pouco com minhas palavras.

— Regras da escola? Isso é só formalidade, não é? Apenas palavras num papel. Tem um monte de alunos namorando por toda a escola, se agarrando e tudo mais. E, se você for à loja de conveniência, até encontra contraceptivos. Pra falar a verdade, eu mesma tentei comprar alguns uma vez. E sabe o que aconteceu? O atendente fingiu que nem viu. Acho que, numa situação em que dizem "isso é proibido", "aquilo também", enquanto um monte de jovens fica por aí fazendo o que quer… bem, seria um problemão se alguma estudante acabasse grávida, não seria? — disse Amasawa.

Então ela colocou a mão esquerda dentro da sacola plástica, tirou uma caixa de preservativos e a colocou sobre a mesa. Pelo jeito, aquilo servia para provar que realmente tinha ido comprar.

Bem, era verdade que, sem produtos como aqueles, o resultado de um relacionamento sexual escondido poderia acabar sendo uma gravidez. Talvez isso significasse que existia uma espécie de regra não escrita naquela escola: embora sexo fosse oficialmente proibido, se alguém decidisse fazer mesmo assim, precisava ao menos garantir que não seria pego — e usar proteção.

Kei estava completamente sem palavras agora. Seu olhar alternava entre Amasawa, eu e os preservativos sobre a mesa.

— Aqui. Considerem isso um presente meu… Ou melhor, um pedido de desculpas — disse Amasawa.

— Não me lembro de você ter feito nada pelo qual precise se desculpar — respondi.

— Ah, qual é. O ferimento na sua mão. Eu estive envolvida nisso, lembra? Cooperei com o Housen-kun — disse Amasawa, sem qualquer traço de culpa ou vergonha na voz.

Então, ao invés de me fazer arrancar a verdade dela, resolveu admitir tudo espontaneamente.

— I-Isso é verdade? — perguntou Kei, claramente abalada pelo que acabara de ouvir.

Eu realmente esperava que Kei evitasse fazer comentários desnecessários naquele momento. Com apenas uma reação surpresa, ela já acabava entregando informações para Amasawa. Amasawa agora podia avaliar o quanto eu contava para Kei e decidir se ela era alguém com quem valia a pena conversar.

— Ayanokoji-senpai, acho que talvez você tenha entendido errado quem eu sou — disse Amasawa.

— Entendido errado? — repeti.

— Eu não sou sua inimiga, Ayanokoji-senpai.

— Pelo que você já deve ter percebido sobre mim, acho difícil acreditar nisso.

— Sério? Só porque eu coloquei uma ideia na cabeça do Housen-kun? — respondeu Amasawa.

Se Amasawa não tivesse me procurado, as coisas provavelmente teriam tomado um rumo bem diferente. Seria difícil responsabilizar-me pelo ferimento autoinfligido de Housen, e todo o incidente acabaria apenas como mais um caso de autodestruição dele.

Claro, Housen provavelmente teria inventado outra coisa sozinho. Ainda assim, não havia dúvida de que foi a participação de Amasawa que transformou aquela ideia em um plano viável.

— Deixa eu adivinhar o que você está pensando agora, senpai. "Amasawa modificou os planos do Housen-kun para aumentar as chances de me expulsarem. E agora uma pessoa dessas vem dizer que não é minha inimiga? Ah, faça-me rir." Acertei? Sabe, acho que você realmente me subestimou, Ayanokoji-senpai — disse Amasawa.

— Não me lembro de ter subestimado você. Acho que dei o devido valor às suas capacidades — respondi.

— Ah, é? Tem certeza? Porque eu não acho isso.

Kei ainda estava atordoada, mas recuperou um pouco da compostura ao ouvir nossa conversa.

— E-Espera aí, segura um segundo. Alguém estava tentando expulsar o Kiyotaka…? Hã? O que você quer dizer com isso? — perguntou Kei, confusa.

Ela sabia sobre o ferimento na minha mão, mas não conhecia os detalhes. Ao ver a reação agitada de Kei, Amasawa abriu um sorriso largo, claramente interessada.

— Oh? Ayanokoji-senpai, então você não contou para sua namorada. Isso quer dizer que também não falou sobre os vinte milhões?

— O-O que ela está falando? Vinte milhões de quê? — perguntou Kei.

Era seguro assumir que Amasawa havia iniciado aquela conversa deliberadamente para testar meu relacionamento com Kei.

— Você pode pedir os detalhes para o seu namorado depois, certo, senpai? — disse Amasawa, voltando-se para mim ao final.

Agora que ela tinha mencionado aquilo, eu inevitavelmente teria de explicar tudo para Kei depois.

— O Housen-kun e eu íamos usar aquela faca para expulsar o Ayanokoji-senpai da escola. Tenho certeza de que você percebeu isso quando fomos às compras juntos, não foi, senpai? — continuou Amasawa.

Depois de revelar aquilo, ela passou a tentar mudar minha opinião sobre ela.

— Foi a primeira vez que vi utensílios de cozinha nesta escola. Mesmo assim, eu não hesitei nem um pouco ao escolher a faca. E então, alguns dias depois, você confirmou com o atendente da loja que outra pessoa tentou comprar exatamente a mesma faca. Foi por isso que conseguiu tomar uma decisão rápida e impedir o Housen-kun de se ferir… Não foi isso?

A resposta à qual eu havia chegado era exatamente aquela para a qual Amasawa deixara pistas me guiando. Mas eram pistas que ela havia deixado propositalmente, sem tentar escondê-las.

Ela presumiu que eu chegaria à conclusão correta e impediria Housen de executar o plano antes que ele conseguisse levá-lo adiante. E era verdade que, se Amasawa tivesse desempenhado seu papel perfeitamente e apagado todos os rastros, as coisas poderiam ter terminado de maneira diferente.

— Você é bondosa demais — falei.

— Eu só achei que seria triste. Você ser expulso sem sequer entender o motivo, tudo por causa de uma recompensa pela sua cabeça — respondeu Amasawa.

Eu me perguntava se um estudante normal do ensino médio seria capaz de pensar tão longe assim. Sinceramente, eu duvidava. Amasawa Ichika. Considerando sua forma de pensar, se alguém me dissesse que ela era a estudante da Sala Branca, eu acharia perfeitamente plausível.

Mas, se esse fosse realmente o caso, então revelar tudo isso para mim equivalia praticamente a entregar sua identidade. Qual seria a vantagem em me deixar saber disso agora? Ou talvez ela fosse apenas um gênio como Sakayanagi, alguém que refinou suas habilidades em um ambiente completamente diferente da Sala Branca.

De qualquer forma, Amasawa subiu consideravelmente na minha lista mental de pessoas perigosas.

— Ah, estou com bastante sede. Acho que quero um café ou alguma coisa assim — disse Amasawa, exigindo uma bebida num tom manhoso, como se estivesse mimada.

Kei fez uma expressão de puro desgosto ao ouvir aquilo, sem sequer tentar esconder sua irritação com a atitude de Amasawa.

— Ei, vá preparar um café para Amasawa — falei para Kei.

— Hã? Eu?! — gaguejou ela.

— Se não quiser, eu posso fazer. Aí você fica aqui conversando com a Amasawa.

— Eu faço…

Diante da escolha entre preparar café ou conversar com Amasawa, Kei pareceu avaliar as opções e escolher a menos pior. Quando ela se levantou e começou a ir em direção à cozinha, Amasawa ainda acrescentou um pedido especial, falando nas costas dela.

— Com açúcar e leite, por favor!

— Ngh! Tá bom, tá bom! — respondeu Kei, inflando as bochechas de raiva.

Mas Amasawa ainda tinha mais uma coisa a acrescentar.

— Ah, e por favor, não coloca lixo dentro só porque você não gosta de mim, okay?

— Eu não faria uma coisa dessas! — gritou Kei.

Amasawa soltou uma risadinha divertida. Ela claramente tinha feito aquele comentário apenas para provocá-la. Sem dúvida alguma, era uma pequena diabinha… Não, na verdade, dava até para tirar o "pequena".

Ela era um demônio completo. Kei saiu momentaneamente do nosso campo de visão, deixando apenas eu e Amasawa na sala. Era só nós dois agora. Amasawa lançou um olhar para os livros e cadernos espalhados sobre a mesa.

— Uau… isso parece tão forçado, não parece? Quero dizer, esses livros e materiais de estudo colocados aqui. Tá na cara que é armação.

— Acho que, como você já estava enviesada desde o começo, acaba enxergando desse jeito.

Como Amasawa já desconfiava de tudo que Kei e eu fazíamos desde o início, não fazia sentido tentarmos esconder alguma coisa.

— Hmm, o que é isso aqui? Vamos ver… "Qual foi a convenção adotada pela UNESCO em 1972?" — leu Amasawa em voz alta, olhando uma das questões do livro. Ela pegou uma lapiseira com a mão direita e escreveu cuidadosamente no espaço em branco do caderno:

"Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural."

— Ding ding ding! Resposta correta! — disse Amasawa, batendo palmas para si mesma.

Curiosa sobre o que estava acontecendo, Kei espiou da cozinha para a sala.

— Ei, espera um pouco! Não sai escrevendo no meu caderno assim! — reclamou ela, repreendendo Amasawa por fazer aquilo sem permissão.

— Ah, qual é, tudo bem, não é? Só um pouquinho? — respondeu Amasawa.

— Não, não está tudo bem! — gritou Kei, furiosa, antes de voltar para a cozinha.

— Uau, senpai… sua namorada parece ter um temperamento meio explosivo — sussurrou Amasawa casualmente no meu ouvido.

Seria ruim se Kei nos visse naquela posição… Mas, de alguma forma, conseguimos evitar isso. Kei voltou da cozinha com uma xícara de café na mão, sem fazer o menor esforço para esconder seu descontentamento. Ela tinha colocado açúcar e leite exatamente como Amasawa pediu.

— Aqui. Está — resmungou Kei.

— Muuuito obrigada, Karuizawa-senpaaaai! — respondeu Amasawa com um sorriso enorme.

Mas então ela simplesmente se levantou sem sequer provar o café.

— Bem, agora que já entreguei meu presente de desculpas, acho que vou indo embora. Fiquem à vontade para usar aquela comida — disse Amasawa.

Parecia que ela já tinha feito tudo o que queria ali. Virou-se de costas para nós, pronta para sair.

— Hã? Espera, o quê?! Você nem vai beber?! Mas me fez preparar isso pra você! — reclamou Kei.

— Bem, eu não me importaria de ficar aqui relaxando mais um pouco… mas é isso que você quer? — perguntou Amasawa.

— Bem, quer dizer… eu prefiro que você vá embora — respondeu Kei.

— Yep, imaginei. Então tá, estou indo agora!

Então ela realmente fez Kei preparar o café só por diversão. Acho que era isso que significava não ter medo de absolutamente nada. Amasawa se levantou e saiu tão rápido quanto o vento.

Assim que foi embora, o quarto voltou imediatamente ao silêncio. Mas a atmosfera doce de alguns minutos atrás havia desaparecido completamente, deixando no lugar um clima pesado e desconfortável.

— Kiyotaka, o que foi aquela garota?! — exclamou Kei.

— Isso é algo que eu também gostaria de saber.

— Ugh! Ela me irrita demais!

Kei claramente ainda estava muito abalada, mas não fazia sentido continuar falando de Amasawa para sempre. Ela mesma provavelmente queria mudar de assunto o mais rápido possível, porque logo trouxe outra questão à tona.

— Ei, me explica uma coisa. O que é essa recompensa de vinte milhões de pontos? Isso tem alguma relação com o ferimento da sua mão, Kiyotaka? — perguntou.

Eu não estava escondendo aquilo porque queria manter segredo ou algo assim. Na verdade, eu apenas não queria causar preocupações desnecessárias para Kei. Mas, depois de tudo o que aconteceu, não havia mais como evitar o assunto. Então decidi contar a Kei o que realmente estava acontecendo.

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