A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 2 - Volume 1

Capítulo 3: O Problemático Grupo do Primeiro Ano

HAVIA DEZENAS DE ALUNOS do primeiro e do segundo ano reunidos no ginásio. A maioria das pessoas ali não era do segundo ano, mas sim do primeiro. Suponho que muitos estudantes viam esse encontro como uma oportunidade importante.

Como, naquele momento, eu não conseguia distinguir facilmente quem era do primeiro ano, decidi começar identificando quais alunos do segundo ano estavam participando do evento.

A líder da Classe A, Sakayanagi, não estava em lugar nenhum. E, embora eu não soubesse se poderia chamá-lo exatamente de substituto dela, vi Hashimoto Masayoshi. Sakayanagi tinha uma deficiência que afetava suas pernas, o que limitava sua mobilidade e a tornava lenta. Hashimoto desempenhava um papel importante ao cobrir essa limitação.

Pelo que pude perceber, ele era o único da Classe A ali. Além disso, não parecia estar tentando conversar com alguém específico. Provavelmente estava apenas observando quem entrava em contato com quem naquele encontro.

Como organizadora do evento, cerca de metade dos alunos da Classe B estava presente — tanto meninos quanto meninas, incluindo Ichinose. Kanzaki também estava lá, ao lado dela, dando apoio. No entanto, não tive a impressão de que os alunos presentes da Classe B fossem necessariamente os melhores academicamente ou os mais preocupados com seu desempenho. Parecia que a Classe B havia simplesmente escolhido enviar seus membros mais sociáveis.

Por outro lado, depois de dar uma rápida olhada ao redor, não vi ninguém da Classe C. Era como se tivessem considerado esse encontro totalmente opcional desde o início. Só com esse evento já dava para perceber, de certa forma, as intenções de cada turma do segundo ano.

No entanto, não eram os alunos do segundo ano que importavam para Horikita hoje. Ela estava focada nos calouros — pessoas que mal conhecíamos. Eu tinha certeza de que os alunos do primeiro ano, que tinham acabado de chegar, ainda não faziam ideia do que estava acontecendo. Muitos provavelmente estavam confusos com a situação de alunos do segundo ano pedindo para formar duplas com eles. Recuavam diante dos outros no evento, agarrando-se aos colegas — ou seja, às pessoas com quem já tinham alguma proximidade.

Ao perceber isso, Ichinose fez o possível para ampliar o círculo deles, iniciando apresentações e conversas casuais, sem mencionar diretamente o exame especial. Claro, não era como se todos fossem se abrir imediatamente. Sabendo disso, ela não forçava nada; aproximava-se aos poucos, com um sorriso gentil. Aos poucos, os corações endurecidos — congelados como gelo — começaram a derreter.

Depois de apenas alguns minutos observando o encontro, já tinha uma noção geral de como as coisas iriam se desenrolar dali em diante.

— Em vez de priorizar o exame especial, ela está focando primeiro em construir relações baseadas na confiança mútua. Isso é bem típico da Ichinose-san. Uma estratégia admirável — e que nem todo mundo consegue aplicar — disse Horikita, dando sua primeira impressão do evento.

Era incerto até que ponto a Classe B utilizaria essa estratégia, mas, ainda assim, ela era extremamente importante. O que Ichinose estava fazendo só podia beneficiar tanto os alunos do primeiro quanto do segundo ano. Horikita a chamou de "admirável" por colocar esse plano em prática. Observando seu perfil, consegui imaginar a estratégia que ela mesma devia estar considerando.

— Você está pensando em algo parecido? — perguntei.

— Sim. Uma estratégia baseada no uso de pontos privados é difícil demais para a Classe D. Por isso, achei que seria importante construirmos relações de confiança com os calouros. No entanto, não temos como competir com a Ichinose-san nesse aspecto. Ou melhor, esse tipo de estratégia é a especialidade dela — respondeu Horikita.

Se você quisesse que alguém aceitasse ser seu parceiro, precisava oferecer algo em troca. Esse "algo" podia assumir várias formas: pontos, confiança, amizade ou até um favor a ser pago depois.

— Ichinose Honami, da Classe 2-B, já é bem conhecida entre muitos calouros. Eles conhecem seu nome e seu rosto. Tenho certeza de que os alunos mais ansiosos vão se aproximar dela — e ela corresponderá às expectativas — acrescentou Horikita.

— É, também acho — respondi.

Eles não viriam até nós, da Classe 2-D, pessoas que não conheciam.

— Mas, mesmo que não possamos replicar os métodos admiráveis dela, ainda há coisas que podemos fazer — disse Horikita.

Aparentemente, ela havia tido alguma ideia ao observar o evento. O ponto central dessa ideia provavelmente tinha relação com o fato de ela estar constantemente analisando os calouros com o aplicativo OAA aberto. Ela não demonstrava intenção de ir embora tão cedo, continuando a observá-los.

Eu não era o único ao lado dela assistindo à cena. Uma figura grande se aproximou de nós.

— Mas, sabe, todos eles parecem uns fracotes. Todos, sem exceção — resmungou Sudou, ficando ao lado de Horikita e compartilhando sua opinião sobre os calouros.

Sudou originalmente planejava ir direto para as atividades do clube depois das aulas. Mas, como o pedido de Ichinose para realizar esse encontro foi aceito e decidiram usar o ginásio até às cinco horas, ele se ofereceu para acompanhar Horikita. Ela recusou de imediato, dizendo que não era necessário, mas aparentemente acabou permitindo, já que ele iria ao ginásio de qualquer forma.

— Não fique encarando eles sem motivo. Não ganhamos nada assustando-os — disse Horikita.

— Eu nem tô encarando. Essa é só a minha cara mesmo. Mas, falando sério, tá tudo bem a gente ficar aqui parado assim? Os alunos mais inteligentes não vão acabar sendo levados pela Ichinose? Qual o problema de ir lá falar com eles? — disse Sudou, impaciente, sugerindo que deviam agir logo.

Mesmo que um aluno do nosso ano, que não fosse da Classe B, tentasse abordar um calouro, Ichinose não ficaria irritada. Pelo contrário, eu tinha certeza de que ela ficaria feliz com isso.

— O que você pretende fazer? — perguntei a Horikita, já que também estava curioso.

— Você realmente acha que podemos superar a Classe 2-B em um lugar como esse, quando se trata de socializar? — respondeu Horikita.

No momento, Ichinose parecia priorizar tranquilizar os calouros, em vez de garantir a vitória da própria turma. Pelo que dava para ver, nenhum aluno da Classe B havia ido embora ainda, e todos pareciam empenhados em conhecer melhor os calouros e aprofundar amizades. Aposto que os calouros também perceberam esse entusiasmo.

— É… não consigo imaginar que conseguiríamos — respondi.

Se Yousuke ou Kushida estivessem aqui, talvez tivéssemos alguma chance de nos enturmar. Talvez. Mas Horikita, Sudou e eu definitivamente não tínhamos essa habilidade social. Eu tinha certeza de que Horikita sabia muito bem disso ao vir para cá.

Justo quando a discussão estava prestes a começar de verdade, Horikita tomou uma decisão.

— Vamos — disse ela.

Em vez de participar do encontro, estávamos nos retirando. Ou seja, desde o início, Horikita não tinha a intenção de conquistar nenhum calouro ali.

— Tem certeza disso, Suzune? — perguntou Sudou.

— Mais da metade dos alunos convidados não veio a este encontro. São esses alunos com quem vou negociar — respondeu Horikita.

Ou seja, ela pretendia focar nos calouros que ignoraram a proposta de Ichinose. Ao mesmo tempo, isso também indicava que seria difícil conquistá-los. Talvez acreditassem que conseguiriam encontrar parceiros por conta própria, confiando em suas habilidades, sem aceitar ajuda. Ou talvez não tivessem coragem de comparecer ao encontro. Pode até ser que já tivessem alguma estratégia em mente. Seja como for, era razoável assumir que muitos deles seriam um tanto excêntricos — e difíceis de lidar.

— Por enquanto, quero ouvir sua justificativa para seguir por esse caminho — eu disse.

— Dois motivos. Pelo que pude perceber há pouco, uma porcentagem inesperadamente alta dos alunos que vieram ao encontro era composta por pessoas preocupadas com seu desempenho acadêmico. O que estamos procurando agora — e com certa urgência — são alunos que tenham pelo menos nota B− ou superior em capacidade acadêmica. Ou seja, alunos que tenham confiança suficiente para competir sem precisar vir ao encontro — disse Horikita.

Entendo. Sendo assim, fazia sentido termos saído do encontro.

— Nossa prioridade não deve ser juntar dois alunos de nível A. Trata-se de atrair para o nosso lado alunos com capacidade suficiente para compensar os mais fracos da nossa classe, garantindo que absolutamente ninguém seja expulso — continuou Horikita.

No entanto, mesmo que a Classe 2-B salvasse muitos calouros, naturalmente ainda sobrariam vários. Além disso, Ichinose provavelmente daria prioridade aos alunos menos capazes, em vez dos mais talentosos. Era possível que pudéssemos recrutar alguns dos "restantes" do encontro — alunos razoavelmente bons. Presumi que o segundo motivo dela estivesse relacionado a isso.

— Além disso, havia um certo viés entre os alunos que participaram do encontro, independentemente da habilidade acadêmica — acrescentou Horikita.

— Viés? — perguntei.

— O fato de que nenhum aluno da Classe 1-D compareceu — respondeu Horikita.

Nenhum deles participou? Entendo… isso realmente era um viés interessante.

— Parece que você também entendeu — disse Horikita.

— Entendeu o quê? O que significa o fato de ninguém da Classe 1-D ter aparecido? — perguntou Sudou, interrompendo.

Ele inclinou a cabeça, sem compreender a importância da ausência deles.

— Há quarenta alunos em uma classe. Entre eles, existem alunos com notas baixas e outros que não são muito bons em se comunicar. Ainda assim, nem uma única pessoa da Classe 1-D participou. O fato de ninguém ter vindo é claramente um reflexo da vontade da turma — explicou Horikita.

Era evidente que alguém estava controlando a classe inteira e havia instruído todos a não participarem do encontro. Isso era, sem dúvida, algo incomum, considerando que o semestre havia começado há poucos dias.

— Então você tá dizendo que já existe um líder na turma deles, e essa pessoa impediu todo mundo de vir…? — disse Sudou.

— Se existe alguém com quem possamos negociar e que represente toda a classe, então não precisamos mais negociar individualmente — respondeu Horikita.

Em outras palavras, a estratégia dela era fazer com que as turmas 1-D e 2-D se apoiassem mutuamente.

— Tá, isso é tudo muito bonito. Mas, se fizermos isso, não vamos ter nenhuma chance de vencer, vamos? — questionou Sudou.

Não era uma ideia ruim para evitar expulsões. Porém, provavelmente tornaria impossível superar as outras classes na pontuação geral.

— Você está certo. Nesse sentido, não pretendo competir com as outras classes desta vez — disse Horikita.

— Eu nem tô muito em posição de falar disso, mas… você tem certeza que é isso que quer? — perguntou Sudou.

— Sim. Sem a menor dúvida — afirmou Horikita, de forma clara e firme.

Embora sua abordagem fosse diferente, a ideia geral por trás da estratégia dela parecia semelhante à de Ichinose. Em outras palavras, estavam abrindo mão de uma oportunidade valiosa de ganhar Pontos de Classe naquele exame especial.

Hashimoto, da Classe A, já estava deixando o ginásio — talvez por já ter terminado de observar o encontro organizado por Ichinose. Horikita o seguiu em direção à saída.

Sudou e eu fomos atrás dela. Mas, pouco antes de sair, olhei brevemente para trás, na direção de Ichinose.

Sem perceber minha presença, ela conversava com um aluno do primeiro ano, sorrindo. Eu tinha certeza de que ela não hesitaria em estender a mão, independentemente da capacidade acadêmica daquele estudante — mesmo que fosse D ou E.

Ela estava lutando para evitar que qualquer pessoa de sua classe fosse expulsa, abrindo mão da ideia de vitória nesse exame especial. Era, de certa forma, parecido com o que Horikita tentava fazer — embora por um caminho diferente. Ou será que era mesmo? Será que, no fundo, suas estratégias eram realmente iguais?

— Ei.

Assim que saímos do ginásio, Hashimoto nos chamou, como se estivesse esperando por nós.

— Cara, ela continua a mesma de sempre, não é? Quero dizer, a Ichinose — disse ele.

— Parece que ela está priorizando salvar seus colegas e os calouros, sim — respondeu Horikita.

— É, com certeza. Não parece que a Ichinose seja uma ameaça agora. Será que ela não percebe a desvantagem de aceitar um monte de inúteis? Cara, é como se ela estivesse jogando a partida fora — disse Hashimoto, exasperado.

Não havia como ele perceber que Horikita estava buscando praticamente o mesmo objetivo — provavelmente porque nem conseguia imaginar a possibilidade de ela desistir de tentar vencer.

— Talvez seja porque ela já sabia disso sobre os calouros que conseguiu organizar um encontro como aquele desde o início — disse Horikita.

— Ah, sim, entendi. Faz sentido — respondeu Hashimoto.

— Vocês da Classe A… A Sakayanagi-san entendeu tudo sem nem precisar ver o encontro. O motivo de ela não ter participado foi porque já antecipava que tipo de alunos apareceriam ali — disse Horikita.

— Bom… talvez — respondeu Hashimoto.

Ainda assim, ela provavelmente o enviou sozinho como um observador.

— Então, como vocês pretendem atrair os melhores alunos para o seu lado? — perguntou Horikita.

— Isso depende totalmente da princesa. Eu só sigo as ordens dela.

Depois dessa resposta, Hashimoto começou a se afastar, talvez satisfeito com a breve conversa que tivemos.

— Não confie em uma palavra daquele idiota do Hashimoto, Suzune.

— Não precisa me dizer isso. Espera… você conhece o Hashimoto-kun? — perguntou Horikita.

— Não, nem um pouco — respondeu Sudou, com orgulho.

— Entendo. Bem, a Classe A já tem uma grande vantagem só por ser a Classe A. É natural que algumas pessoas acabem sendo atraídas por ela — disse Horikita.

Depois de ingressarem na escola, os novos alunos acabariam percebendo que a Classe A estava no topo. Mesmo que ainda não soubessem disso, a informação logo se espalharia.

— Enfim, vamos nos apressar. Os alunos da Classe D do primeiro ano ainda devem estar pela escola a essa hora — disse Horikita, seguindo em direção às salas dos calouros.

Íamos verificar como estavam as coisas na Classe 1-D. Ao que parecia, ela estava aproveitando a oportunidade enquanto todos os outros estavam focados no encontro.

*

 

Seguimos até o andar onde ficavam os alunos do primeiro ano — o mesmo andar que frequentávamos regularmente até o mês passado. Não parecia haver muitos alunos por ali, já que vários tinham ido ao ginásio. Observamos ao redor e vimos alguns estudantes, das Classes A até C. Mesmo sem abordá-los, quando nos notavam e percebiam que éramos veteranos, desviavam o olhar, como se a situação fosse desconfortável.

Era natural que não fôssemos recebidos de braços abertos assim tão facilmente, depois de aparecermos de repente no andar dos calouros. Alguns não pareciam se importar, mas a maioria claramente se sentia desconfortável com a nossa presença. Provavelmente isso continuaria no dia seguinte — e nos próximos também.

Eu tinha certeza de que alguns alunos, tentando encontrar um parceiro o mais rápido possível, abordariam calouros a qualquer momento do dia, de manhã ou à tarde. Mas isso era um risco que poderia acabar saindo pela culatra. Ainda assim, havia alunos conversando e rindo alegremente nas salas em que espiávamos. Talvez achassem que não havia motivo para pânico em relação a esse exame especial — ou simplesmente ainda não o levassem tão a sério.

— Bem, parece que muitos dos alunos que ficaram não estão tão preocupados assim — comentou Horikita.

— Que bom pra eles… e eu aqui surtando — resmungou Sudou.

Os calouros só teriam o pagamento de Pontos Privados suspenso por três meses caso tirassem quinhentos pontos ou menos no exame. Ainda era uma perda grande, claro, mas como o depósito inicial já devia ter sido feito logo após a cerimônia de entrada, provavelmente não sentiam um perigo imediato.

Quando estávamos terminando de observar a Classe 1-C, Horikita ouviu uma voz familiar chamá-la.

— Kuku. Você chegou bem tarde, Suzune.

O dono da voz era ninguém menos que Ryuen Kakeru, da Classe 2-C, olhando para nós sem qualquer receio. Logo à frente, estava a sala da Classe 1-D. Parecia que Ryuen havia acabado de sair de lá.

— Você também veio observar os calouros, Ryuen-kun? Não me lembro de ter visto você no encontro — disse Horikita.

— Era só um bando de idiotas reunidos no ginásio, não era? Nem precisei ir lá pra saber disso — respondeu Ryuen.

Ele veio atrás dos alunos que não participaram do encontro, exatamente como Horikita havia planejado fazer. Pelo jeito, estava interessado nos melhores alunos do primeiro ano. A diferença entre nossos horários tinha sido de apenas vinte ou trinta minutos, mas…

Com esse tempo, era possível que ele já tivesse conseguido recrutar alguns alunos. Só poderíamos confirmar isso às oito da manhã seguinte, quando o aplicativo fosse atualizado com as parcerias formadas.

— Relaxa. Ainda não fechei com ninguém — disse Ryuen.

Claro que as duas pessoas comigo não acreditariam nele tão facilmente. Só o aplicativo poderia confirmar isso depois.

— Parece que você não acredita em mim — zombou Ryuen.

— Digamos que levo tudo o que você diz com certa desconfiança — respondeu Horikita.

— Hah, é mesmo? Parece que você ficou bem cautelosa comigo, hein?

— Ah, é? Não me lembro de alguma vez não ter sido cautelosa com você — retrucou ela.

— Kukuku! É… acho que você tem razão — disse Ryuen.

Sudou lançou um olhar ameaçador para Ryuen, claramente incomodado com o tom provocador dele. Uma pessoa comum recuaria só com aquele olhar, mas isso não funcionava com Ryuen.

— Parece que você arranjou um guarda-costas. Mas escolheu um bem burro, hein — provocou Ryuen.

— O que foi que você disse? — retrucou Sudou, irritado.

Ele parecia pronto para explodir, mas Horikita o conteve com um leve gesto de mão.

— Ah, então precisa de cérebro para ser guarda-costas? Que ironia… — disse Horikita.

Sem desviar o olhar de Ryuen, ela rebateu calmamente, mantendo a mão erguida para impedir Sudou de avançar.

— Você está planejando assustar os calouros? Receio que adotar esse tipo de atitude vá acabar se voltando contra você — disse Horikita.

Eles certamente recuariam se vissem Ryuen andando por aí como se fosse o dono do lugar.

— Achei que, se eu desse uma ameaçada de leve, eles iam concordar em cooperar na hora — respondeu Ryuen.

Até então, Horikita vinha respondendo à altura, devolvendo na mesma moeda tudo o que ele dizia. Mas, dessa vez, Ryuen fez o oposto e simplesmente confirmou o que ela havia sugerido.

— Você está brincando, certo? Acha mesmo que esse é um jeito aceitável de agir? — perguntou Horikita.

— Aceitável ou não, quem se importa? Qual é o problema se alguém se sentir um pouco ameaçado? Disseram que não podíamos forçar ninguém a tirar uma nota mais baixa nem nada assim, mas não tinha nada nas regras sobre não usar ameaças para arrumar parceiro — disse Ryuen.

— Isso porque deveria ser óbvio que não é aceitável, sem precisar estar escrito nas regras. Se houver qualquer problema, você vai se dar mal — retrucou Horikita.

— Então me mostra onde está o problema. Eu também não sou idiota a ponto de fazer algo que possa ser rastreado até mim — respondeu Ryuen.

Ele continuava tão arrogante e confiante quanto sempre. Não só dizia que era muito provável que colocasse suas ameaças em prática, como também afirmava, com total convicção, que a verdade nunca viria à tona. Verdade ou não, Horikita provavelmente percebeu mais uma vez que Ryuen sempre optaria por governar com mão de ferro, como um ditador.

— Nesse caso, faça o que quiser. Mas, se surgir qualquer evidência, levantarei a questão sem hesitar. Ou piedade — disse Horikita.

O aviso dela provavelmente tinha a intenção de servir como dissuasão, mas não pareceu afetar Ryuen.

— E aí? Acha que vai conseguir trazer alguém pro seu lado? — provocou ele.

Horikita deve ter decidido que não valia a pena responder, pois permaneceu em silêncio.

— Você percebeu alguma coisa enquanto estava bisbilhotando no encontro, né? E aí veio correndo pra cá ver quem tinha sobrado. Acertei? — disse Ryuen.

— Talvez o mesmo valha para você?

— Kuku. É, talvez.

Ryuen continuou falando com Horikita, como se quisesse apenas manter a conversa interessante.

— Nesse caso, vou te contar uma coisa útil, já que estamos pensando parecido. Os calouros deste ano são bem tranquilos, mesmo tendo acabado de chegar. Isso significa que há uma boa chance de alguém da escola estar explicando como as coisas funcionam para eles, pelo menos até certo ponto — disse Ryuen.

Se isso fosse verdade, era uma informação bastante inesperada. Lá em abril, nós não fazíamos ideia do que estava acontecendo e, por isso, todo mundo simplesmente fazia o que queria. Claro, os alunos da Classe A e da Classe B eram mais controlados, mas isso provavelmente se devia à diferença de origem entre os estudantes.

Além disso, Ryuen não estava falando de uma turma específica, mas de todo o ano. Talvez fosse uma medida adotada por causa da necessidade de formar dupla com alunos do segundo ano logo no início? Ou a escola tinha outras intenções?

— Não é possível que os calouros deste ano sejam apenas mais perspicazes, enquanto nós éramos particularmente lentos? — rebateu Horikita.

— Dá pra ver sinais de que alguns deles já estão se organizando como turma desde agora. É cedo demais pra isso.

Mesmo que tivessem começado a se unir assim que o exame especial foi anunciado, não teriam conseguido tão rápido. O que Ryuen dizia era que isso só seria possível se o processo tivesse começado bem antes — logo após entrarem na escola.

— Que tipo de joguinho covarde você está tentando fazer ao me contar isso? — perguntou Horikita.

— Nada, nenhum truque. Você não pode simplesmente esmagar seus oponentes nesse exame especial. Não é assim que funciona. Mas, se quiser vencer no geral, provavelmente vai ter que puxar alguns fios por trás — disse Ryuen.

Não seria fácil expulsar alunos de outras turmas nesse exame. Havia um forte elemento de anonimato — ninguém sabia ao certo quem estava formando dupla com quem. Seria extremamente difícil descobrir essas parcerias pelo aplicativo, a menos que os próprios alunos tornassem isso público ou alguém tivesse grande habilidade em coletar informações.

Mesmo que conseguisse fazer alunos fracos academicamente formarem dupla com estudantes de classes rivais — ou até designar alguém especificamente para isso — seria praticamente impossível fazê-los errar de propósito na prova.

Se alguém tirasse uma nota baixa — incompatível com o nível de habilidade acadêmica que deveria ter — ficaria evidente que foi intencional, e essa pessoa seria expulsa independentemente do ano. No fim das contas, a diferença entre vitória e derrota se resumia a dois fatores: a capacidade dos alunos da própria turma e a dos calouros. Em termos de estratégia, o que restava era conquistar o maior número possível de calouros academicamente talentosos.

Não seria fácil para a Classe C sair vitoriosa nesse exame, considerando seu baixo nível geral. Não havia como competir financeiramente com a Classe A, e as habilidades acadêmicas entre as duas turmas estavam em patamares completamente diferentes. Não importava quanto dinheiro oferecessem aos calouros para atraí-los, os resultados dificilmente seriam bons. Nesse caso, o ideal seria abandonar a ideia de ficar em primeiro lugar geral e focar na competição individual, que premiava os 30% melhores.

Claro, Horikita não mencionou nada disso. Afinal, seria um problema para nós se a Classe A e a Classe C não entrassem em confronto direto pelos pontos gerais. Em vez de deixar a Classe A garantir facilmente o primeiro lugar, eu esperava que A e C se enfrentassem intensamente, desgastando-se mutuamente, nem que fosse um pouco.

— Faça o possível para acompanhar — provocou Ryuen.

— Acho que posso dizer o mesmo. Suas preocupações são completamente desnecessárias — respondeu Horikita.

— Kuku. Foi mal, então.

Em seguida, Ryuen foi embora imediatamente, deixando o andar dos calouros. Ele havia ficado pouco tempo — pouco demais para ter terminado o que pretendia.

— Os calouros podem resistir muito mais do que eu imaginava — disse Horikita.

Se eles já soubessem que estavam, essencialmente, em uma disputa desesperada contra outras turmas, então era natural que hesitassem em negociar conosco.

— Nesse caso, não deveríamos tentar negociar com eles o quanto antes? — sugeriu Sudou.

— Sim… claro que devemos. Mas…

Horikita voltou o olhar para o fim do corredor — na direção da sala da Classe 1-D.

— Então vamos logo — disse Sudou.

— Não acho que vai ser tão simples assim — respondeu Horikita.

Aparentemente, ela já havia percebido algo enquanto conversava com Ryuen. Durante todo o tempo em que ele esteve ali — desde que saiu da sala até ir embora — nenhum aluno havia deixado a sala. E, enquanto nos aproximávamos, também não ouvimos nenhum som vindo de dentro.

Quando finalmente chegamos à porta e a abrimos, nossas suspeitas se confirmaram.

— Cara… que diabos tá acontecendo aqui?! — gritou Sudou, em pânico, olhando a sala de ponta a ponta.

— Negociar com a Classe 1-D pode ser muito mais difícil do que eu esperava — disse Horikita.

A sala estava completamente vazia. Não havia uma única pessoa. Os quarenta alunos — que também não tinham comparecido ao encontro — pareciam ter simplesmente desaparecido sem deixar vestígios.

Ainda assim, não podíamos ficar ali parados, consumidos pela ansiedade. Precisávamos agir antes que as outras turmas começassem a se mover de verdade. A competição começaria no dia seguinte. A batalha de Horikita teria início no momento em que ela entrasse em contato com a Classe 1-D. Quanto a mim, pretendia voltar ao dormitório e memorizar todos os nomes e rostos dos novos alunos pelo aplicativo OAA. Horikita tinha sua batalha — e eu, a minha.

E, no fim das contas, no próprio dia em que o exame especial foi anunciado, um total de vinte e duas duplas já havia sido formado.

*

 

A situação tomou um rumo repentino e inesperado perto do fim do intervalo de almoço no dia seguinte. Algo aconteceu depois que terminamos de comer, enquanto estávamos na sala, esperando tranquilamente o início das aulas da tarde.

— E-Ei! Galera! Tem uns calouros vindo pra cá! — gritou um colega de classe, Miyamoto.

Esse exame especial dependia da cooperação entre alunos do primeiro e do segundo ano. À primeira vista, isso não deveria ser algo tão surpreendente, mas aparentemente era.

— Uau… eles são bem corajosos pra subir até o andar dos veteranos — comentou Yousuke, enquanto eu refletia sobre a situação. — Quer dizer, se a gente resolvesse ir até o andar do terceiro ano, teríamos que tomar muito cuidado pra não chamar atenção.

— É… verdade…

Seria diferente se eles tivessem muitas amizades próximas com veteranos, mas não era o caso dos calouros deste ano. Muitos deles deviam sentir que estavam entrando em território inimigo. Nesse sentido, o fato de alguns aparecerem ali realmente era algo surpreendente.

Yousuke disse que iria dar uma olhada, então eu o segui até o corredor. Horikita e Sudou vieram logo atrás de nós. A primeira coisa que chamou minha atenção foi um garoto de porte especialmente grande. Havia vários motivos para ele se destacar — um deles era o fato de ter praticamente a mesma altura de Sudou. Mas, mais do que isso, era a impressão forte que ele causava ao caminhar com confiança pelo centro do corredor. Os outros alunos do segundo ano evitavam passar por ele, andando pelas laterais — o oposto do que normalmente se esperaria.

Um pouco atrás dele vinha uma garota. Ao perceber que eles não estavam ali apenas procurando parceiros, Horikita avançou e bloqueou o caminho do rapaz. Sudou permaneceu ao lado dela.

Quando ficaram frente a frente, a garota fez contato visual comigo por algum motivo, mesmo eu estando um pouco afastado. Logo depois, desviou o olhar e voltou sua atenção para Horikita. Puxei da memória as informações que havia decorado no OAA no dia anterior. Parecia que Horikita estava prestes a fazer contato com aquela turma de uma forma inesperada.

— Quem é essa aí? — perguntou o garoto.

— Um momento, por favor… já encontrei — disse a garota.

Depois de mexer no celular por alguns instantes, ela mostrou a tela para ele.

— Classe 2-D. Horikita Suzune. Habilidade acadêmica A-, é? — disse ele, com um tom áspero.

A garota falava de maneira educada, ao contrário dele, o que tornava a dupla um tanto incomum. Em seguida, voltaram o olhar para Sudou, ao lado de Horikita. E, como antes, ela mostrou a tela do celular.

— Sudou Ken… Heh.

Após ver os dados de Sudou, o garoto soltou um riso de deboche.

— Olá, meu nome é Nanase, da Classe 1-D. Ele também é da mesma turma. Este é—

— Housen — interrompeu ele.

Eles se apresentaram apenas pelo sobrenome. Para referência, o garoto grande se chamava Housen Kazuomi, e a garota, Nanase Tsubasa. Ambos eram realmente alunos da Classe 1-D, exatamente como disseram — a mesma turma com a qual tentamos falar no dia anterior, mas não conseguimos.

Embora a chegada repentina deles fosse inesperada, aquilo era ao mesmo tempo uma sorte e um problema para Horikita. Afinal, não podíamos simplesmente começar a negociar com a Classe 1-D ali, em público, sob os olhares atentos das outras turmas.

— Para dois calouros, vocês fizeram algo bem ousado. Admiro a coragem de vocês — disse Horikita.

— Hã? Coragem? Não vem pagar de superior comigo, mulher — retrucou Housen, irritado.

— Ela não tá se achando, não. Quem tá se achando aqui é você, moleque — rebateu Sudou.

Housen respondeu de forma agressiva a Horikita, e Sudou imediatamente retrucou. Apesar de terem quase a mesma altura, Housen tinha um porte físico mais robusto, o que fazia Sudou parecer um pouco menor em comparação.

— Ei, sua nota é E+. Pelo visto você é tão burro quanto parece — disse Housen.

— O que foi que você disse?! — gritou Sudou.

— Ah, tanto faz. Pra mim tá ótimo. Parece que esse lugar tá cheio de restos da Classe D mesmo. Perfeito.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Horikita.

— Já falei. Vocês da Classe D são só um bando de rejeitados, sobras. Nem conseguem formar dupla sem que a gente escolha vocês. Então pensei: vou dar uma ajudinha pra vocês, seus incompetentes sem cérebro. Entendeu? — disse Housen.

Era como se ele estivesse testando Horikita.

— Quer dizer que você quer formar dupla conosco. E está fazendo esse pedido com uma atitude bastante arrogante — respondeu ela.

— É óbvio. Vocês é que deviam estar implorando pra gente formar dupla. Eu até me dei ao trabalho de vir até aqui — retrucou Housen, deixando claro que, na visão dele, não estávamos nem no mesmo nível. — Vai lá. Implora. Diz "por favor, façam dupla com a gente" e começa a se curvar.

Horikita, ainda contendo Sudou para que ele não perdesse a cabeça, respondeu com firmeza crescente, apesar da diferença de tamanho entre ela e Housen:

— Você está entendendo errado. Nossas posições são iguais.

— Iguais? Só aquele seu amigo idiota ali deveria estar falando besteira desse tipo — disse Housen.

— Você está na Classe D, assim como nós. Não há diferença entre nós — afirmou Horikita.

— Você não entendeu. Tem várias coisas que a gente pode fazer com vocês, se quiser. Sacou? Vocês não querem problema, né? Então é melhor saberem o lugar de vocês e começarem a implorar.

Aparentemente, esse tal de Housen já havia percebido que os calouros tinham uma espécie de "arma secreta" a seu favor.

— E que coisas seriam essas que vocês podem fazer contra nós? — perguntou Horikita.

Ela provavelmente já sabia a resposta, mas perguntou de propósito para fazê-lo dizer em voz alta.

— Qual é, você sabe. O que tô dizendo é que a gente pode tirar notas ruins de propósito — respondeu Housen.

Ao ouvir isso, Horikita mordeu o lábio com força.

— Hã?! Já chega, seu pirralho! Se você for mal de propósito, vai ser expulso! — gritou Sudou.

— Pare. Não perca a cabeça tão rápido, Sudou-kun. Esse é um mau hábito seu — disse Horikita.

— Mas…

Era compreensível que Sudou quisesse descarregar a raiva depois de ouvir aquilo. No entanto, o que Housen dizia não era mentira.

— É verdade que, se você for mal de propósito, é expulso. Mas a penalidade por não conseguir um parceiro a tempo é diferente. Isso só afeta vocês, certo? — disse Housen.

As regras diziam que, se o tempo acabasse sem que você encontrasse um parceiro, um seria designado aleatoriamente. Além disso, haveria uma penalidade de 5% na pontuação total. E, para os alunos do segundo ano — que podiam ser expulsos —, esse prejuízo era ainda mais sério.

— I-Isso é verdade mesmo?! — exclamou Sudou, incrédulo.

Ele olhou para Horikita em busca de confirmação. A única resposta possível era "sim".

— Mas isso não seria como colocar uma corda no próprio pescoço? Você realmente pretende começar a escola já aceitando uma desvantagem? — perguntou Horikita.

Com uma penalidade dessas, as chances de alcançar 501 pontos ou mais cairiam drasticamente.

— Comparado a vocês, não é como se isso fosse nos prejudicar tanto assim. Não é? — disse Housen, olhando para Nanase atrás dele.

— Sim, está correto. Ficaríamos três meses sem receber Pontos Privados, mas isso representaria no máximo duzentos e quarenta mil pontos. Não acredito que seja um prejuízo fatal — respondeu Nanase.

— Entendeu agora, Horikita-senpai?

Housen a encarava como se fosse superior, mesmo ela sendo veterana. Ao ver isso, Sudou finalmente perdeu a paciência e se colocou à frente dela, intimidando-o — ainda sem partir para agressão.

— Quer brigar? — disse Housen, sem hesitação.

— Não se ache demais, seu idiota — respondeu Sudou.

— Não perca a cabeça, Sudou-kun. Você sabe como as coisas funcionam nesta escola, não sabe? — disse Horikita.

Não era estranho que os calouros não soubessem, mas os corredores eram rigidamente monitorados pelos funcionários. As câmeras de vigilância registravam tudo, então qualquer problema poderia ser facilmente verificado.

— Eu sei… — respondeu Sudou.

Depois de ser repreendido várias vezes, ele recuou, ainda irritado. Era um problema ele perder a cabeça tão facilmente, mas, pelo menos, bastava uma palavra de Horikita para contê-lo.

Foi então que, enquanto Sudou estava distraído com Horikita, Housen avançou com a mão e o empurrou no peito.

— Quê—?!

No instante seguinte, Sudou perdeu o equilíbrio e caiu para trás, apoiando-se com as mãos.

— Hah, a única coisa grande em você é a altura, perdedor. Só um empurrãozinho já foi suficiente? — zombou Housen.

O que Housen acabou de fazer foi tão imprudente que até os outros alunos do segundo ano, que observavam a cena, não conseguiram esconder o desconforto. Pela forma como aconteceu, não seria estranho considerar aquilo um ato de violência.

Qualquer um que entendesse o quão arriscado era agir com violência naquela escola evitaria esse tipo de atitude.

Nós tínhamos pensado que os calouros deste ano entendiam melhor como as coisas funcionavam ali do que os de anos anteriores. Se a informação que recebemos de Ryuen fosse verdadeira, então o que Housen fez agora era extremamente imprudente.

Será que, na verdade, eles não entendiam tão bem assim? Não… não parecia ser esse o caso. Então…

— Seu desgraçado!

Sudou, já recuperado do susto e entendendo o que tinha acabado de acontecer, parecia pronto para explodir toda a raiva acumulada. Mas, antes que isso acontecesse, outro aluno — que observava a situação de longe — interveio.

— Ei, que diabos você tá fazendo?!

Era Ishizaki Daichi, da Classe 2-C. Ele também era do tipo que perdia a cabeça facilmente e podia ser considerado um delinquente, mas tinha um lado compassivo. Parecia que havia chegado ao limite ao ver alguém do próprio ano sendo tratado daquela forma.

— Cara, esses fracassados não param de aparecer, um atrás do outro… igual barata — disse Housen, com um sorriso debochado, como se estivesse se divertindo. A garota que havia se apresentado como Nanase se aproximou para contê-lo.

— Housen-kun, pensei que viemos aqui para conversar. Se foi só para você agir com violência, então eu vou embora — disse ela.

— Violência? Eu só encostei no cara, como se estivesse fazendo carinho num gato. Mas enfim… foi mal aí, Sudou — disse Housen, chamando-o sem qualquer respeito, como se estivesse cuspindo nele.

— Ei, você tá passando dos limites! Para com essa merda! — gritou Ishizaki, avançando para agarrar Housen pela gola.

No momento em que viu o braço de Ishizaki se aproximando, Housen esboçou um leve sorriso.

— É melhor pensar duas vezes, Ishizaki… a não ser que queira morrer.

Ishizaki parou a centímetros de agarrá-lo. Quem o havia alertado era ninguém menos que Ryuen, que também observava a situação.

— P-Por que você me parou?! — reclamou Ishizaki, confuso.

Ibuki, colega deles, também ficou surpresa.

— O que você acha que tá fazendo? Quero dizer, por que impediu ele?

Ryuen normalmente incentivava brigas. Era o tipo de pessoa que não fugia de confusão. Não importava se havia câmeras — quando queria lutar, ele lutava. Por isso era tão estranho vê-lo impedir um confronto. Ele mandou Ishizaki recuar e então se aproximou de Housen.

— Então é você que vai ser meu oponente? Hm… você parece bem mais fraco que aquele idiota do Sudou — provocou Housen.

Ryuen não era exatamente alguém grande ou musculoso, então era natural que Housen o julgasse assim.

— Eu te conheço bem, sim. Lembro de ouvir falar desse tal de Housen como uma espécie de "celebridade" na minha cidade. Mas não imaginei que fosse um idiota completo — respondeu Ryuen.

Como Housen vinha insultando Sudou o tempo todo, Ryuen devolveu na mesma moeda. Algo bem típico dele. Normalmente, Ryuen era inimigo de todas as outras turmas, mas, naquele momento, foi reconfortante vê-lo enfrentando Housen. Sudou, inclusive, conseguiu conter a raiva graças à mudança no clima.

— V-Você conhece esse cara, Ryuen-san? — perguntou Ishizaki.

— Espera… Ryuen, você disse?

Ao ouvir o nome, a expressão de Housen mudou. Em seguida, abriu um sorriso largo e divertido.

— Ora, ora… que coincidência. Isso só pode ser destino. Sinceramente, ouvir seu nome o tempo todo já tava me irritando, Ryuen — disse Housen.

— Nossa, então você tem neurônios suficientes para lembrar o nome de alguém? — respondeu Ryuen.

Aparentemente, os dois já sabiam um do outro há algum tempo. Housen, da Classe 1-D, parecia vir de uma região próxima à cidade de Ryuen.

Observando a relação entre Ryuen, Ishizaki e Ibuki, dava para perceber que ele havia retomado o controle da turma. Mesmo tendo se afastado temporariamente, estava assumindo novamente sua posição de liderança.

— Mas sério… o lendário Ryuen parecer tão fraco assim… que decepção — provocou Housen.

— E você é exatamente o brutamontes que eu imaginei — retrucou Ryuen.

— Sabe, eu dei umas voltas pelos seus antigos territórios porque queria te arrebentar de vez. Mas acho que nunca te encontrei porque você tava com medo e se escondendo, né? Ou foi isso? Ficou fugindo e mandando seus capangas fazerem o trabalho sujo? — disse Housen.

— Kuku. Eu diria que foi a sorte que salvou você, Housen. Se tivesse me encontrado naquela época, não estaria bancando o fodão agora. Dá até pra dizer que você teve sorte de ainda não ter perdido pra mim — respondeu Ryuen.

— Na verdade, acho que você só fugiu com o rabo entre as pernas. Se não for isso, que tal a gente resolver isso aqui e agora?

Housen fechou o punho, confiante. Se ele conhecia Ryuen da época do ensino fundamental, a imagem que tinha dele não devia ser muito diferente da nossa. Talvez não o visse como alguém a ser subestimado…

— É, vou passar. Não tenho interesse em lutar com um gorila como você sem ganhar nada com isso — disse Ryuen.

Mesmo diante da provocação, ele recusou. Claro, lutar ali seria impossível — mas Ishizaki e Ibuki provavelmente esperavam que ele aceitasse e levasse a briga para outro lugar.

— Espera… esse cara é tão perigoso assim? Quer dizer, ele é maior que o Sudou, mas… — disse Ishizaki.

— Quem sabe? — Ryuen não parecia disposto a responder diretamente. Em seguida, com um sorriso, deu uma ordem: — Vamos.

— Você vai mesmo deixar um calouro te desrespeitar assim? — perguntou Ibuki.

Ela sabia que Ryuen era do tipo que enfrentava qualquer um sem hesitar — e justamente por isso não conseguiu deixar de questioná-lo.

— Heh. A gente pode resolver isso a qualquer hora. Pra que tanta pressa? — respondeu Ryuen, calmo.

Teria sido ótimo se tudo tivesse terminado ali, mas Housen começou a avançar, encurtando a distância entre eles.

— Aquela garota ali é uma das suas soldadinhas também? — perguntou Housen, lembrando da discussão anterior.

— É, algo assim — respondeu Ryuen.

— Hã? Do que você tá falando? Não vem bancar meu chefe — retrucou Ibuki.

— Então você até usa garotas como soldados, é isso, Ryuen? — provocou Housen.

— Posso dizer o mesmo de você. Foi você que trouxe aquela bonitinha ali, não foi? — respondeu Ryuen.

Assim como Ryuen estava com Ibuki, Housen tinha Nanase ao seu lado.

— Ela não é minha. Mas tanto faz, não ligo pra isso. Vamos nos divertir, Ryuen — disse Housen.

— Já falei. Tô fora.

Por mais que Housen tentasse provocá-lo, Ryuen não cedia. Como se deixasse claro seu desinteresse, virou as costas, decidido a encerrar ali.

— Ah, é? Então…

Parecendo achar aquilo entediante, Housen moveu o braço de forma casual — e repentina. Ele tentou agarrar Ibuki. Ela tentou afastá-lo… Mas—

No instante seguinte, ele aumentou a força do movimento e a agarrou pelo pescoço, erguendo-a no ar.

— Ngh?!

Ibuki tentou desesperadamente se soltar, como se seu corpo reagisse por instinto. Mas Housen apenas sorriu, firme como aço, sem ceder um centímetro.

Ryuen se virou ao perceber o que estava acontecendo. Ibuki lutava para se libertar, usando braços e pernas com habilidade, mas Housen não se movia.

— Hah. Tenta escapar disso. Ou vocês aí, assistindo, podem vir também — provocou Housen.

Pela expressão dele, não era ausência de medo — era pura confiança absoluta. Ainda assim, eu sabia que não podia intervir. Se a situação escalasse ali, a escola certamente interviria imediatamente.

Quem não parecia se preocupar com isso era Ryuen. Com um ar irritado, avançou — provavelmente para salvar Ibuki, não para atacar. Aproximou-se pelo espaço entre os dois, na altura do peito de Housen. Mesmo assim, Housen manteve o aperto no pescoço de Ibuki. E, mesmo limitado, desviava dos chutes de Ibuki com facilidade.

— Desgraçado! — gritou Ishizaki.

Antes contido, ele finalmente entrou na briga. A confusão começava a crescer — algo impensável nos corredores daquela escola.

— Isso! É disso que eu gosto! Ainda bem que vim pra essa escola — disse Housen, animado.

Uma luta real podia começar a qualquer momento. Nesse instante, Nanase, que observava tudo desde o início, falou:

— Por favor, pare, Housen-kun.

Mesmo segurando Ibuki, Housen parecia pronto para lutar contra Ryuen e Ishizaki — mas parou ao ouvir a voz dela.

— O que foi que você disse?

Ele parecia mais irritado com a interrupção do que disposto a ouvi-la.

— Os veteranos já estão preocupados com as câmeras de vigilância há algum tempo. Analisando a situação, concluí que não há nada a ganhar com violência aqui — disse Nanase.

— Eu sei, já sei. Só tava me divertindo com eles — respondeu Housen, afirmando que já entendia a situação das câmeras.

Se era assim, então tudo o que ele fez até agora parecia ainda mais estranho. Ignorando o aviso, parecia prestes a continuar — então Nanase falou novamente, agora com mais firmeza:

— Se você entende, então pare. Se pretende continuar perdendo tempo aqui, tenho uma ideia própria. E estou considerando compartilhar isso com todos aqui.

Ao ouvir isso — seja lá o que ela quis dizer — Housen parou novamente. Então, com expressão entediada, soltou Ibuki, deixando-a cair no chão, tossindo.

— Nada mal, Nanase. Mas saiba que, se você não corresponder às minhas expectativas, não vou pegar leve. Nem por você ser garota, entendeu? — disse Housen.

— Quando esse momento chegar, aceitarei as consequências — respondeu Nanase.

Mesmo sendo ameaçada, ela permaneceu calma, como se aquilo não a afetasse em nada — mesmo estando cercada por veteranos. Ainda assim, esse Housen não era alguém comum. Havia muitos alunos fortes no meu ano — como Ryuen, Sudou e Albert — mas, mesmo sendo calouro, ele demonstrava um nível impressionante. Eu não poderia derrotá-lo facilmente. E, como só vimos um vislumbre de sua força, era impossível prever o resultado de um confronto real.

Provavelmente foi por isso que Ryuen impediu Ishizaki antes — ele percebeu que uma simples briga seria desvantajosa. Esse era, sem dúvida, um calouro problemático.

— Certo, já chega. Resolvi o que precisava. Vamos, Nanase — disse Housen.

— Uma decisão sensata — respondeu Nanase.

Housen, aparentemente satisfeito com tudo — exceto pela falta de uma luta — lançou um último olhar para Ryuen.

— Se você se ajoelhar pra mim, não me importo de fazer dupla contigo. E aí, Ryuen-paisen?

— Foi mal, cara. Eu só trabalho com seres humanos. Não tenho planos de formar equipe com um gorila selvagem.

— Ah, que pena — respondeu Housen.

Mas aquilo ainda não tinha acabado. Além de Housen e Nanase, havia outro calouro ali, que observava tudo desde o início. Talvez incomodado com isso, Housen voltou sua atenção para ele.

— Ei, vai ficar só escondido assistindo, seu merdinha?

— Você conhece o provérbio "o homem prudente evita o perigo"? — respondeu o garoto, enfrentando o olhar de Housen com elegância. — Conversar amigavelmente é uma coisa, mas causar tumulto aqui não vai te trazer nenhum benefício, Housen-kun. Acho melhor recuar por enquanto. Estou errado?

Ao mesmo tempo, ele oferecia um conselho quase amistoso — com uma postura surpreendentemente madura.

— O que você está fazendo, Housen?

Um homem de terno apareceu, como se tivesse surgido do nada, interrompendo a situação. Muitos alunos do segundo ano que assistiam à cena se dispersaram rapidamente.

— Housen, eu entendo que você esteja inquieto. Mas tenho certeza de que as regras da escola já foram tão bem explicadas que sua cabeça deve estar prestes a explodir — disse o adulto.

— Tá, tá, eu sei — respondeu Housen.

— Se sabe, então disperse imediatamente. Nada de brigas nos corredores.

— Isso nem foi uma briga de verdade — resmungou Housen.

Com um riso desdenhoso, enfiou as mãos nos bolsos e se virou, recuando com surpreendente facilidade. Em seguida, ordenou que Nanase o acompanhasse.

— Bom, até mais, Horikita.

Ele fez questão de mencionar o nome dela antes de sair — ou talvez estivesse se dirigindo à Classe 2-D como um todo.

— Pedimos desculpas pelo transtorno — disse Nanase, curvando-se levemente.

Com isso, a situação foi praticamente contida. Porém, ao erguer a cabeça, ela cruzou o olhar comigo mais uma vez — o mesmo olhar investigativo de antes, como se quisesse descobrir algo.

Mas, assim que percebi, ela desviou os olhos e seguiu Housen.

— Preciso me desculpar com todos vocês. Lamento muito. Meus alunos causaram bastante problema — disse o professor, dirigindo-se a Horikita.

— Não, está tudo bem…

— Já que estamos aqui, permitam-me me apresentar. Sou Shiba Katsunori, responsável pela Classe 1-D. Acabei de assumir meu cargo nesta escola. Espero trabalhar bem com todos vocês.

Após a breve apresentação, o professor foi embora atrás de Housen. Em seguida, como se fosse sua vez, o garoto calmo de antes se aproximou e se curvou.

— Parece que meu colega Housen-kun causou muitos problemas aos nossos veteranos. Em nome dos alunos do primeiro ano, peço humildemente desculpas.

Diferente de Housen, ele era extremamente educado.

— Nós, do primeiro ano, ainda não entendemos bem esses exames especiais. Pedimos desculpas por qualquer inconveniente e agradecemos pela ajuda de vocês.

Após se apresentar — seu nome era Yagami —, ele se preparava para sair, mas notou algo: um grupo de quatro garotas da Classe D voltando do almoço — Matsushita, Kushida, Satou e Mii-chan.

Yagami olhou diretamente para Kushida, surpreso.

— Parece que houve uma confusão. O que aconteceu, Horikita-san? — perguntou Kushida, curiosa, mesmo percebendo a presença dele.

— Nada com que vocês precisem se preocupar — respondeu Horikita.

— Ah, é?

Após isso, Kushida e as outras começaram a voltar para a sala.

— Com licença… você por acaso é a Kushida-senpai? — chamou Yagami.

— Hm? — Kushida se virou.

Se ele sabia o nome dela, talvez se conhecessem?

— Você é…? — perguntou ela, confusa.

Não havia sinal de reconhecimento.

— Sou eu. Não se lembra? Bem, é natural… meu nome é Yagami Takuya.

Kushida pensou por um momento — então seus olhos se arregalaram.

— Yagami… Ah! Espera! Você é aquele Yagami-kun?!

— Sim, sou eu mesmo. Já faz bastante tempo, não é?

— Nossa, você também veio pra essa escola? Que coincidência incrível!

— Nunca imaginei que te encontraria aqui de novo, Kushida-senpai.

— Vocês se conhecem? — perguntou Satou, curiosa.

Kushida assentiu.

— Sim, mas nunca conversamos muito. Ele é Yagami Takuya-kun. Sempre foi muito inteligente. Como éramos de séries diferentes, só trocávamos cumprimentos.

— Você também conhece ele? — perguntei em voz baixa para Horikita.

— Não, nunca vi — respondeu ela imediatamente.

— Bom, você também não é muito boa em lembrar rostos, né?

— Não nego. Não tinha tempo para prestar atenção em pessoas que não me interessavam — respondeu Horikita.

Ao que parecia, Horikita não o reconhecia… ou melhor, ele simplesmente nunca chegou a ser registrado na mente dela. Considerando o tipo de pessoa que ela era, não surpreendia que não se lembrasse nem dos próprios colegas — quanto mais de alunos mais novos.

Ainda assim, mesmo que Kushida não se lembrasse dele, era bem provável que ele nunca tivesse conseguido esquecê-la. Isso só mostrava o quanto ela era cativante.

— Não acredito na minha sorte. Poder estudar na mesma escola que a admirada Kushida-senpai… — disse Yagami.

— Ah, não… você está exagerando, eu não sou nada disso… — respondeu ela, humildemente.

No entanto, se Yagami realmente havia estudado na mesma escola que Kushida no ensino fundamental, isso levantava algumas preocupações.

— Esse Yagami sabe…? — sussurrei para Horikita.

Eu me referia ao passado de Kushida. Na época do fundamental, ela havia levado sua própria turma ao colapso, fazendo com que todos se voltassem uns contra os outros. Por causa disso, considerava Horikita — que estudara na mesma escola e conhecia a verdade — como uma inimiga perigosa. Kushida queria eliminá-la justamente por saber demais.

Se Yagami também tivesse estudado lá, não seria estranho que soubesse disso…

— Não seria estranho se soubesse. Mas também não há garantia de que saiba — respondeu Horikita.

Nesse caso, a presença de Yagami ali não era nada reconfortante para Kushida. Já havia alunos no nosso ano que vinham das mesmas escolas, então não era impossível que alunos mais novos também tivessem vindo dos mesmos lugares.

— Sei que é repentino, mas… eu não teria nenhuma objeção em formar dupla com alguém como você, Kushida-senpai. Aceitaria ser minha parceira? — perguntou Yagami.

Mesmo tendo acabado de reencontrá-la, ele já estendeu a mão com um sorriso amigável, propondo parceria.

Aquilo era para mostrar que ele não sabia nada sobre o passado dela? Ou que, mesmo sabendo… não se importava?

— Você tem certeza de que quer mesmo fazer dupla comigo? Quero dizer, Yagami-kun… talvez fosse melhor você se juntar a alguém do seu nível acadêmico — disse Kushida.

Yagami Takuya tinha uma avaliação acadêmica extremamente alta: A. Nada desprezível. Não era à toa que Kushida estava sendo tão modesta. Horikita, ao meu lado, pegou o celular e verificou suas informações no aplicativo OAA, confirmando que ele era bem classificado.

— Eu ainda não conheço bem esse lugar. Então, prefiro fazer dupla com alguém em quem eu confie — disse Yagami.

O aplicativo mostrava a capacidade acadêmica, mas não o caráter de uma pessoa. Ele devia ter decidido que era melhor se unir a alguém conhecido, alguém em quem pudesse confiar para obter bons resultados.

— Bom… você pode me dar um tempo para pensar? — talvez por cautela, ou por outro motivo, Kushida resolveu adiar a resposta.

— Claro, sem problema algum. Vou evitar formar dupla com qualquer outra pessoa por enquanto e aguardarei sua resposta, Kushida-senpai.

Yagami aceitou esperar tranquilamente. Com uma avaliação A, ele não precisava se apressar para encontrar um parceiro.

— Caramba… deve ser bom demais. Se fosse comigo, eu já teria fechado na hora… — comentou Sudou, claramente invejoso.

— Então você deveria se esforçar mais — respondeu Horikita.

— É… vou melhorar minhas notas, com certeza.

Não era um comentário maldoso. A inveja de Sudou vinha do desejo de evoluir. Afastei-me um pouco de Horikita e dos outros quando vi Haruka me chamando. O resto do grupo Ayanokoji — Akito, Keisei e Airi — estava ali perto.

— E-Ele era assustador, né?

A primeira coisa que ouvi foi a impressão de Airi sobre Housen.

— Parece que esse ano também veio cheio de encrenqueiros, tipo o Sudou-kun e o Ryuen-kun — disse Haruka, meio exasperada após assistir à confusão.

Ao lado dela, Akito permanecia parado, olhando fixamente para o ponto onde Housen estivera.

— O que foi, Miyacchi? — perguntou Haruka.

— Um cara realmente perigoso entrou nessa escola. Pode apostar que as coisas vão ficar complicadas daqui pra frente. Aquele cara… nem Sudou nem Ryuen conseguem encarar — disse Akito.

— Espera… você conhece esse cara também, Miyacchi? — perguntou Haruka.

— Nunca encontrei ele pessoalmente. Mas o Ryuen e o Housen são bem famosos de onde eu venho — respondeu Akito.

Parece que ele morava perto das escolas onde Ryuen e Housen estudaram.

— Tinha um líder de gangue na minha escola… resumindo, ele era forte pra caramba e famoso pelas brigas. Mas um dia simplesmente sumiu. Virou um escândalo. Depois descobrimos que ele tinha sido espancado num duelo por um cara chamado Housen, que tava causando geral. E o mais louco é que o Housen era dois anos mais novo.

— L-líder de gangue? Isso parece coisa de mangá… dá medo — disse Haruka.

— O lugar onde eu morava sempre foi meio problemático, cheio de gente desse tipo — explicou Akito.

— Nossa… — Haruka parecia confusa com aquele mundo tão diferente.

— Depois disso, o Housen começou a dominar várias escolas da região, uma por uma.

— O Ryuen também é famoso, né? Mas parece que eles nunca se encontraram — disse Haruka.

— Acho que foi só falta de oportunidade mesmo — respondeu Akito.

— Aliás… você também era meio delinquente, Miyacchi? — perguntou Haruka.

— Eu… parei com isso. Agora tento ser um aluno decente.

— Então você era mesmo.

— Eu tinha um temperamento complicado até o segundo ano do fundamental. Depois disso, foquei tudo no arco e flecha.

— Mas então você era um bad boy de verdade, né?

Akito coçou a cabeça, irritado, enquanto Haruka insistia no assunto.

— E daí? Qual o problema nisso?

— Não, tipo… eu acho até legal? Quer dizer, você tem um passado meio incrível, né?

— Não tem nada de legal nisso — respondeu Akito.

Provavelmente era por isso que ele entendia tanto de luta. Dava para perceber que tinha reflexos rápidos e nervos firmes.

— Já que você era assim antes, não daria pra dar uma lição no Housen, se fosse preciso? — perguntou Haruka.

— Para com isso. Mesmo quando eu brigava, escolhia bem meus oponentes. E com o Housen… nem pensar.

Akito já levantava a bandeira branca antes mesmo de qualquer luta. Não por fraqueza, mas porque reconhecia a força do oponente. Ibuki também tinha habilidade em combate, e mesmo assim não conseguiu acertar um único golpe. A diferença física era enorme — e nem em velocidade ela conseguia competir.

*

 

DEPOIS QUE AS AULAS terminaram, Horikita veio falar comigo, como no dia anterior. Quando estávamos prestes a sair da sala juntos, Sudou insistiu em nos acompanhar. Horikita tentou recusá-lo, mas, assim como antes, acabou cedendo à sua vontade de ajudar — pelo menos até que ele encontrasse um parceiro. Ela permitiu que ele fosse, com a condição de que isso não interferisse em seus treinos ou estudos.

Era surpreendente ver Horikita sendo tão… flexível. Mas havia um motivo. Restavam cerca de dez dias até o exame especial. Considerando o nível de dificuldade da prova escrita, era essencial garantir tempo e foco para estudar — e, se Sudou ficasse preocupado com Horikita o tempo todo, não conseguiria se concentrar.

Ficava claro que ela queria encontrar um parceiro para ele o quanto antes.

Horikita entendia muito bem Sudou Ken — exceto por uma coisa importante: os sentimentos dele por ela. Ela não percebia que havia um motivo mais profundo por trás da vontade dele de estar sempre ao seu lado.

Claro, eu não tinha intenção de apontar isso.

Em vez de ir até as salas dos calouros, Horikita decidiu ir ao Keyaki Mall. Talvez por causa do tumulto que alguns alunos do primeiro ano causaram mais cedo. Ou talvez por causa de Housen. Assim que entramos no shopping, Sudou enfiou o dedo no ouvido, incomodado com o barulho.

— Cara, isso aqui tá barulhento demais. Esses calouros tão fazendo uma bagunça…

— Realmente há muitos alunos por aqui — respondeu Horikita.

Eles estavam por toda parte, conversando animadamente sobre compras e comida.

— Enquanto isso, a gente aqui desesperado atrás de parceiro… — resmungou Sudou.

Perder tempo escolhendo parceiro não era bom para ninguém. Mas havia uma grande diferença entre calouros e veteranos: a percepção do exame. Poucos calouros pareciam realmente preocupados.

— Normal. A gente era igual no começo — eu disse.

— É… verdade… — concordou Sudou.

Com o dinheiro recebido logo após a matrícula, os calouros estavam aproveitando a vida ao máximo. Independentemente da classe, todos estavam curtindo a escola. O mais irritante era a diferença nas punições. Nós podíamos ser expulsos. Eles só perderiam três meses de pontos.

— Olha só pra eles… nem aí pra nada — disse Sudou.

— Você não deveria falar isso, Sudou-kun. Já esqueceu como era há um ano? — retrucou Horikita.

— N-Não… só tô refletindo mais agora…

Provavelmente porque ele já tinha passado perto da expulsão.

— Por enquanto, vamos tentar falar com aquele grupo — disse Horikita, apontando para três garotos sentados num banco. Eram Kaga, Mikami e Shiratori, todos da Classe 1-D, com nível acadêmico B- ou superior. Horikita já havia conferido os dados deles no aplicativo.

— Com licença, vocês têm um momento? — perguntou Horikita.

— O que foi? — respondeu um deles.

Eles perceberam na hora que éramos veteranos. O clima leve sumiu, dando lugar à cautela.

— Estamos procurando parceiros para o exame especial. Vocês já encontraram alguém?

— Ah… não, ainda não — respondeu um deles.

— Se quiserem, podemos conversar sobre formar dupla.

— Sim, claro… tudo bem, né?

Os três concordaram rapidamente, como se já esperassem algo assim. Pareciam mais relaxados do que o esperado. Até Sudou ficou surpreso.

— Porém, nosso principal objetivo é encontrar—

— Alguém que ajude alunos com notas baixas a evitar expulsão, certo? — completou um deles.

A ideia já tinha se espalhado entre os calouros.

— Sim. Isso facilita a conversa — disse Horikita.

— Então… vocês querem que um de nós faça dupla com o Sudou-senpai?

Eles já tinham checado nossos perfis no aplicativo.

— Sim. Ele é um dos alunos para quem buscamos parceiro. Há outros também — explicou Horikita.

— Entendi… Sudou-senpai tem nível E+… isso realmente complica — disse o estudante.

Ele estava sendo diplomático, mas ainda assim ficava claro que estava apontando o quão baixa era a classificação de habilidade acadêmica de Sudou. Mesmo sendo verdade, Sudou pareceu irritado. Ainda assim, conseguiu se controlar por pouco e não deixou a insatisfação transparecer no rosto.

— Shiratori, você deve conseguir lidar com isso numa boa, certo?

Os outros dois alunos olharam para Shiratori, que estava sentado na ponta direita do banco.

— Minha classificação de habilidade acadêmica é A, pelo menos por enquanto — disse Shiratori.

— Sim, é o que parece. Se você estiver disposto a fazer dupla com ele, certamente não tenho do que reclamar — disse Horikita.

— Nesse caso… que tal isto aqui? — Shiratori levantou a mão com os cinco dedos estendidos, fazendo uma proposta em troca. Por um momento, Horikita não entendeu o que ele queria dizer, então olhou de volta para Sudou e para mim.

— Ora, ora. Você quer formar dupla, não é? Se for isso, acho que algo assim é óbvio, não? — disse Shiratori.

Quando ouviu isso, Horikita entendeu o que ele queria dizer.

— Imagino que esteja se referindo a Pontos Privados.

— Claro. Quero dizer, se alguém como eu fizer dupla com um aluno inteligente, posso mirar no primeiro lugar. Já que estarei abrindo mão da chance de obter as recompensas de alto nível ao me juntar com um aluno de baixa classificação acadêmica, é natural que eu peça algo em troca — disse Shiratori.

— Como é? Você quer pontos da gente?! E tá pedindo cinquenta mil…? Cara, isso é demais — disse Sudou.

Para alguém como Sudou, que vivia sempre sem dinheiro no dia a dia, aquilo era uma quantia absurda.

— Senpai, por favor, não brinque comigo. Não tem como eu aceitar cinquenta mil — disse Shiratori.

— Hã? — disse Sudou.

— Eu quis dizer quinhentos mil. Se puderem me dar quinhentos mil, faço dupla com vocês aqui e agora, sem problema — disse Shiratori.

— Q-Quinhentos mil?! — gritou Sudou.

— Seria bem complicado para vocês se um aluno fosse expulso da sua turma, não é? Fizemos algumas pesquisas, sabe — disse Shiratori.

Aparentemente, a turma de calouros deste ano era bem diferente de como nós éramos no ano passado. Eles já haviam começado a entender como a escola funcionava e, além disso, compreendiam o próprio valor. Entre o nosso ano e o deles, era difícil dizer quem eram os veteranos e quem eram os novatos. Observando a situação em que estávamos, dava até para interpretar o contrário.

— É natural querer algum tipo de compensação ao ser convidado para fazer dupla com alguém de baixa classificação acadêmica — disse Horikita.

— E-Ei, Suzune! Eu não tenho quinhentos mil, não, sabia? — disse Sudou.

— Eu sei. Fique quieto um instante — disse Horikita.

Os três alunos do primeiro ano exibiram sorrisos sarcásticos e irônicos ao ouvirem Sudou revelar descuidadamente sua situação financeira.

— É natural querer pontos, sim. No entanto, será que buscar ganhos de curto prazo é realmente uma boa ideia? — disse Horikita.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Shiratori, falando em nome dos três.

— Quero dizer que, se vocês se colocarem ao nosso lado agora, talvez possamos ajudá-los no futuro, em situações semelhantes — disse Horikita, explicando que poderia ser vantajoso para eles trocar favores de outra forma que não apenas Pontos Privados.

— Bem, deixando você de lado, Horikita-senpai, já que tem classificação A, não consigo imaginar como Sudou-senpai ou Ayanokoji-senpai poderiam nos ajudar muito. Não acha? — disse Shiratori.

— Isso não é necessariamente verdade. Esta escola não se resume apenas ao desempenho acadêmico. Há momentos em que a capacidade física também é necessária — disse Horikita.

Isso se aplicava especialmente a Sudou, já que ele era o único aluno do nosso ano com classificação A+ em habilidade física. Horikita pretendia usar isso como um trunfo na negociação, mas…

— Eu sei disso. Ainda assim, vocês continuam sendo Classe D no fim das contas, não é? Se fôssemos nos alinhar com alguém, seria com a Classe A ou Classe B — disse Shiratori calmamente, aparentemente já tendo chegado a uma conclusão objetiva. Ao ver isso, Horikita provavelmente entendeu.

— Entendo. Então é assim.

Considerando a naturalidade com que lidaram com nossa proposta e o valor que apresentaram como contraproposta, não era difícil perceber o que estava acontecendo ali.

— O-O que você quer dizer com isso? — perguntou Sudou.

— Antes de vocês chegarem, fomos abordados por alunos veteranos de outras turmas — disse Shiratori.

— E eles disseram para não venderem suas habilidades acadêmicas por pouco. Certo? — perguntou Horikita.

— Sim. Por favor, entendam que não faremos dupla com vocês se não oferecerem uma compensação adequada em pontos — disse Shiratori.

Diante de Shiratori e seus colegas, Horikita manteve a compostura e continuou falando.

— De fato, é verdade que vocês não devem se desvalorizar. No entanto, vocês realmente foram abordados por outros alunos do nosso ano? — disse Horikita.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Shiratori, irritado, como se seu orgulho de aluno com classificação A tivesse sido ferido.

— Vocês também são da Classe D, assim como nós. Não consigo imaginar alunos de classes superiores se aproximando de vocês com tanta facilidade — disse Horikita.

Horikita estava blefando. Desde que alguém tivesse alta habilidade acadêmica, seria útil neste exame, independentemente de estar na Classe D. Ela estava tentando confirmar quem havia falado com eles e até que ponto. Talvez por ter seu orgulho questionado, Shiratori rebateu em um tom um pouco mais áspero.

— Mas é verdade. Fomos convidados pelo Hashimoto-senpai da Classe 2-A. Além disso, também fomos abordados por alunos da Classe 2-C, que ofereceram uma boa quantidade de pontos para formar dupla com eles. Não foi? — disse Shiratori, olhando para os amigos, que imediatamente concordaram.

— E não fomos só nós. A maioria dos alunos inteligentes também foi abordada — acrescentou Shiratori.

Assim como Horikita havia previsto, a Classe 2-A e a Classe 2-C tinham adotado a estratégia de tentar "comprar" alunos.

— Entendo… Nesse caso, acho que não podemos atender às suas expectativas no momento — disse Horikita.

— Ah, mas enquanto vocês oferecerem pontos, não vamos recusar. Pretendemos observar a situação por cerca de uma semana. Se durante esse tempo nos oferecerem quinhentos mil pontos, ficaremos felizes em fazer dupla com qualquer pessoa, até mesmo com o Sudou-senpai — disse Shiratori.

Quinhentos mil pontos para evitar que alguém fosse expulso. Era uma quantia alta, sem dúvida, mas, por outro lado, podia ser vista como o preço da própria segurança. Ainda assim, não podíamos tomar uma decisão precipitada ali — e nem pretendíamos.

— A propósito… Quantos pontos o Hashimoto-kun e os outros ofereceram pela cooperação de vocês? — perguntou Horikita.

Ela queria descobrir o valor exato que havia sido oferecido, mas Shiratori e seus colegas não eram tão ingênuos.

— Prometemos não revelar isso. Só posso dizer que, por quinhentos mil pontos, ajudaremos vocês — disse Shiratori.

— Entendo. Vou levar isso em consideração. No entanto, gostaríamos de pedir um favor. Vocês estariam dispostos a nos apresentar a alguns colegas da Classe D? — perguntou Horikita.

— Apresentar? — repetiu Shiratori.

— Já nos preparamos, até certo ponto, para trabalhar com a sua turma. Mas abordar cada pessoa individualmente e explicar a mesma coisa repetidas vezes consumiria muito tempo e energia. Se possível, gostaríamos de reunir todos em um só lugar para ter uma discussão mais concreta — disse Horikita.

Ela insinuou a ideia de uma parceria, mas não especificou exatamente como seria. Os três alunos trocaram olhares, claramente desconfortáveis.

— Isso… bem, pedir algo assim pode ser meio complicado… não acham?

— É. Se fizermos isso sem permissão, o Housen-kun provavelmente vai ficar bravo. Não acha?

O nome "Housen" surgiu na conversa entre eles.

— Desculpe, senpai, mas poderiam pedir isso a outra pessoa…? — disse Shiratori.

Ao que tudo indicava, Housen era quem controlava a Classe 1-D. Horikita, percebendo a mudança no clima, decidiu não insistir.

— Obrigada. Entrarei em contato novamente se for necessário — disse ela.

— C-Certo. Estaremos esperando — respondeu Shiratori.

Nos afastamos do banco e começamos a seguir em direção ao café no segundo andar. Olhei discretamente para trás enquanto saíamos e vi Shiratori, com o celular na mão, aparentemente ligando apressado para alguém.

— Conseguimos algumas informações, mas é difícil dizer que fizemos algum progresso real. A única coisa certa é que, se oferecermos absurdos quinhentos mil pontos, eles concordariam em cooperar na hora — disse Horikita.

— Eles tão claramente tentando se aproveitar da gente, inflando o preço com essas exigências ridículas — resmungou Sudou.

— De fato, é uma quantia absurda. Mas também é verdade que eles não têm motivo para vender seus talentos por pouco — disse Horikita.

Ainda mais sendo alunos com classificação A em habilidade acadêmica. Era, sem dúvida, uma forma muito mais direta de ganhar pontos do que tentar alcançar a recompensa de cem mil pontos por tirar notas altas na prova.

— Então, no fim das contas, a única maneira de eu me salvar é pagando uma montanha de Pontos Privados pra alguém? — perguntou Sudou.

— Está cada vez mais difícil afirmar que existam alunos dispostos a ajudar de graça.

A ideia de que pontos seriam a chave para formar parcerias já havia se espalhado. Era melhor assumir que não apenas Shiratori e seus amigos pensavam assim, mas que todo o ano deles já sabia que deveria exigir pontos em troca.

Eu tinha certeza de que isso também fazia parte da estratégia de Sakayanagi e Ryuen. Normalmente, fazer coisas em troca de pontos era malvisto. Esse tipo de transação trazia consigo certo constrangimento, então costumava ser feito em segredo. Mas, ao conduzirem uma operação de "compra" em larga escala, eles basicamente fizeram os calouros perceberem que oferecer seus serviços de graça seria sair perdendo.

Mesmo assim, havia algo na conversa que tivemos com Shiratori e seus colegas que me incomodava. Apesar de já terem sido abordados por alunos de outras turmas, eles disseram que esperariam uma semana. Mesmo que fosse apenas para tentar conseguir mais pontos, o fato de os três parecerem completamente alinhados desde o início me chamou atenção.

Eu imaginaria que os alunos buscariam segurança formando dupla o quanto antes. Será que aqueles três eram apenas teimosos? Ou talvez…

— Mesmo que continuemos perguntando aleatoriamente assim, provavelmente vamos receber sempre as mesmas respostas, não é? — comentei.

Observar a Classe 1-D até que era interessante, mas o verdadeiro problema vinha depois. O comentário de Shiratori sobre Housen ficar irritado se agissem sem permissão ficou na minha cabeça. Pelo jeito que falavam, era evidente que Housen Kazuomi controlava toda a turma.

— O Housen provavelmente deu instruções aos colegas — acrescentei. — Algo como: "Vocês podem fazer dupla com quem quiserem, mas só podem decidir na hora se oferecerem quinhentos mil pontos. Se não oferecerem, deixem o pedido em espera, mesmo que seja alguém da Classe A", algo assim.

— Mas peraí, se eles fizerem isso, a Classe 1-D não vai acabar ficando pra trás? — perguntou Sudou.

— É exatamente isso que eles estão planejando. Eles pretendem ser os últimos — respondi.

— Hã? Não entendi — disse Sudou.

— Só nós, alunos do segundo ano, temos medo da penalidade por não encontrar parceiro. Ele provavelmente pensou em usar isso contra nós para arrancar o máximo possível de Pontos Privados no final — expliquei.

Se todos os alunos mais capazes fora da Classe 1-D já tivessem sido "comprados", eventualmente não teríamos escolha a não ser pagar para conseguir a cooperação dos alunos da Classe D — gostássemos ou não. Mesmo que isso significasse pagar um milhão ou até dois milhões de pontos.

— É uma estratégia extremamente imprudente, feita sem pensar absolutamente nada no que vai acontecer no futuro — disse Horikita.

— Então me diga de novo: como exatamente você pretende lidar com isso? — perguntei.

Já havíamos entendido o que a Classe 1-D estava planejando fazer. Considerando isso, eu queria saber o que Horikita tinha em mente. Ela tentaria se infiltrar entre as estratégias agressivas de compra da Classe 2-A e da Classe 2-C? Ou adotaria algo mais próximo do método de Ichinose, construindo relações de confiança ao aceitar vários alunos de classificação mais baixa, independentemente da turma, e apelando aos alunos de elite por cooperação?

— Decidi estabelecer três objetivos quando ouvimos o panorama deste exame especial — disse Horikita.

— Três objetivos? — perguntou Sudou.

Ele parecia interessado, inclinando-se para frente.

— O mais importante é não deixar ninguém da nossa turma ser expulso. Isso é óbvio — disse Horikita.

— É, com certeza — respondeu Sudou, assentindo.

— O segundo é alcançar o terceiro lugar ou melhor na pontuação geral, na competição contra as outras turmas — disse Horikita.

— Espera, terceiro? Quer dizer que a gente já vai desistir de tentar ficar em primeiro ou segundo logo de cara? — perguntou Sudou.

— Ninguém disse que vamos desistir dessas posições. Eu disse terceiro lugar ou melhor — respondeu Horikita.

De fato, ao dizer "terceiro lugar ou melhor", ela incluía tecnicamente o primeiro e o segundo. Mas aquilo não parecia exatamente o que ela queria dizer, e provavelmente estava ligado ao terceiro objetivo.

— Meu terceiro objetivo é evitar participar desses jogos de dinheiro. Pretendo conduzir essa disputa com esses três princípios em mente — disse Horikita.

— Hã…? M-Mas… — gaguejou Sudou.

— Eu sei o que você quer dizer. Que, se não competirmos usando Pontos Privados, não temos chance de vencer. No entanto, mesmo que tentemos competir usando os pontos que temos, a recompensa não compensa o risco. Mesmo que fiquemos em primeiro lugar geral, ganharíamos apenas cinquenta Pontos de Classe. Ou seja, ao longo de um ano, nossa turma receberia pouco mais de dois milhões de Pontos Privados — explicou Horikita.

Se recebêssemos cinco mil pontos por pessoa por mês (desconsiderando o depósito de abril, que já havia passado) e multiplicássemos pelos onze meses restantes, chegaríamos a dois milhões e cento e quarenta e cinco mil Pontos Privados.

— E, se pagarmos quinhentos mil pontos por pessoa, ficaremos no prejuízo após pagar por cinco pessoas. Não podemos ser ingênuos a ponto de achar que venceríamos apenas recrutando quatro ou cinco calouros com classificação A em habilidade acadêmica, certo? — disse Horikita.

Mesmo levando isso pelos dois anos seguintes — até a formatura —, ainda assim seriam apenas quatro milhões e quatrocentos e oitenta e cinco mil pontos. Isso cobriria, no máximo, oito recrutas. E tudo isso assumindo que conseguiríamos contratá-los por quinhentos mil ou menos e ainda garantir o primeiro lugar geral. Considerando os riscos, seria muito mais eficiente guardar os Pontos Privados para um próximo exame especial.

— Pontos Privados e Pontos de Classe não são equivalentes. Eu sei que há mais fatores envolvidos do que apenas o retorno imediato. Ainda assim, acredito que, mesmo investindo todos os nossos pontos neste teste, nossas chances de vitória seriam mínimas. Por isso, não devemos forçar. Estou errada, Ayanokoji-kun? — perguntou Horikita.

— De forma alguma. Sua decisão é a correta — respondi.

A diferença de capacidade acadêmica entre nós e a Classe 2-A já era evidente desde o início. Mesmo trazendo oito alunos, era difícil imaginar que isso nos daria uma vantagem significativa. Claro, Horikita era estratégica — provavelmente consideraria pagar Pontos Privados se encontrasse alunos dispostos a fazer dupla por cinquenta ou cem mil. Ela só não queria que essa disputa se resumisse ao saldo bancário.

— Para alcançar esses três objetivos, ainda acho que devemos negociar com a Classe 1-D — disse Horikita.

— M-Mas por quê? Os alunos deles não foram instruídos pelo Housen a não fazer dupla por menos de quinhentos mil? — perguntou Sudou.

— No caso dos alunos de alto desempenho, sim. Mas também há alunos na turma deles com classificação C ou inferior. O que você acha que aconteceria se eles fossem ignorados? — perguntou Horikita.

— O que aconteceria…? — repetiu Sudou.

— Alunos que normalmente estariam seguros também sofreriam penalidades, e sua posição ficaria em risco — respondi.

Horikita assentiu e continuou:

— Não há como esses alunos abrirem mão voluntariamente dos Pontos Privados que recebem mensalmente. Isso significa que, em algum momento, Housen-kun será forçado a abandonar sua estratégia atual.

Mesmo que os melhores alunos da 1-D tentassem se vender por quinhentos mil pontos, o restante da turma não poderia fazer o mesmo. Independentemente de alunos do segundo ano serem expulsos ou não, Housen acabaria ficando para trás na disputa entre os calouros.

— Se ele está buscando uma forma de vencer, certamente haverá uma brecha que podemos explorar — disse Horikita.

Parecia que ela estava determinada a lidar justamente com a Classe 1-D — a turma que todos os outros queriam evitar.

— Dito isso, seria perigoso que todos os trinta e nove de nós tentássemos negociar com a turma do Housen-kun. Precisamos minimizar os riscos ao máximo — disse Horikita.

Se as negociações falhassem, os alunos com menor capacidade acadêmica seriam os mais prejudicados.

— Considerando que o período do exame acabou de começar, não é estranho que alguns alunos estejam exigindo condições completamente absurdas para formar dupla — disse Horikita.

— Bom, espero que você esteja certa… mas, pra falar a verdade, acho que não tem ninguém por aí que vá querer fazer dupla comigo — disse Sudou.

— De qualquer forma, a única maneira de encontrar bons parceiros é abordando o maior número possível de pessoas — disse Horikita.

Enquanto subíamos as escadas em direção ao café do segundo andar, ouvimos uma voz vindo de trás.

— Ei! Se vocês estão procurando um parceiro talentoso, eu estou bem aqui, sabia?

Quando nos viramos, vimos uma aluna sozinha olhando para nós, com um sorriso largo de orelha a orelha. Assim que nossos olhares se encontraram, ela começou a subir as escadas lentamente. Horikita foi a primeira a demonstrar desconfiança no rosto.

— Você estava espionando a nossa conversa? — perguntou ela.

— Ah, não, imagina, senpai! Eu só falei porque acabei ouvindo por acaso o que vocês estavam dizendo. E, hum… — a garota respondeu sem sequer olhar para mim ou para Sudou, mantendo o olhar fixo em Horikita. — Senpai, qual é o seu nome e a sua classificação de habilidade acadêmica?

— Meu nome é Horikita. Sou da Classe 2-D. Minha classificação acadêmica é A-. Por quê? — perguntou ela.

— Uau, você é inteligente! — respondeu a garota.

— E o seu nome?

— Ichika Amasawa. Da Classe 1-A. Sou igual a você, Horikita-senpai. Tenho A em habilidade acadêmica.

Ela parecia o tipo de garota que só se preocupa com popularidade, mas, na verdade, era bastante inteligente. Para garantir, Horikita conferiu as informações dela no aplicativo.

— Se você quiser disputar o primeiro lugar, eu trabalho com você. Que tal?

Amasawa fez a proposta sem sequer perguntar nada sobre nós. Se alguém com A- e alguém com A formassem dupla, não seria impossível alcançar o primeiro lugar. No caso de Horikita, ela havia deliberadamente reduzido sua pontuação no passado por causa do Sudou, então, considerando isso, não seria injusto dizer que ela era, na prática, um A, e não um A-.

Embora fosse inesperado, Horikita poderia muito bem acabar escolhendo um parceiro para si mesma, e não para Sudou ou qualquer outro. Talvez fosse coincidência, mas uma aluna com classificação A acabara de abordá-la. Se Horikita dissesse que preferia que Amasawa fizesse dupla com alguém de classificação inferior, havia o risco de ela simplesmente ir embora.

— Agradeço sinceramente a oferta, mas, na verdade, não estou procurando um parceiro para mim no momento. Em vez disso, poderia considerar fazer dupla com ele… com o Sudou-kun? — perguntou Horikita.

Mesmo assim, Horikita assumiu o risco e apresentou Sudou à garota. Embora ele estivesse um pouco confuso com a situação, inclinou levemente a cabeça em cumprimento.

— Hum, deixa eu ver… qual é a classificação acadêmica do Sudou-senpai? — perguntou Amasawa.

— E+. Definitivamente não é uma boa nota — respondeu Horikita.

"Não é boa" era até um eufemismo. Na verdade, ele estava entre os piores de toda a série.

— Entendi. Então você está buscando ajuda, Horikita-senpai. Quer encontrar um parceiro para ele não ser expulso — disse Amasawa, compreendendo a situação, enquanto olhava para Sudou. — E+, hein… Se fizermos dupla, esqueça o primeiro lugar. Provavelmente ficaríamos um pouco abaixo da média.

— Sim, é verdade. Praticamente não há vantagem para você — disse Horikita.

Pensei que Amasawa fosse trazer à tona a questão dos pontos, mas não parecia que ela faria isso.

— Bom, ainda assim, já que está pedindo ajuda, eu não me importaria em dar uma mão — disse Amasawa.

A situação estava claramente mais favorável do que com aqueles três garotos de antes. Em seguida, Amasawa voltou seu olhar para mim.

— E ele? Também está procurando parceiro? — perguntou.

— A classificação acadêmica dele é C. Ele não é exatamente nossa prioridade. No entanto, se o Sudou-kun não for uma opção para você, ainda ficaríamos muito gratos se pudesse fazer dupla com o Ayanokoji-kun, como último recurso — disse Horikita.

— Espera aí, não, calma — interrompi.

Embora fosse um gesto de consideração da parte de Horikita, precisei cortar aquilo. Não podia simplesmente decidir um parceiro naquele momento sem pensar.

— Tem algo de errado com ela? — perguntou Horikita.

— Não, não é isso, é que—

— Ei, espera um pouco. Eu ainda nem disse com qual dos dois vou fazer dupla, sabia? — Amasawa interrompeu, percebendo que a conversa estava avançando sem o consentimento dela.

— Você tem alguma condição para aceitar fazer dupla com algum deles? — perguntou Horikita.

— Condições, condições, é… acho justo, né? Tenho direito a isso, não acha? — respondeu Amasawa.

Horikita decidiu tocar no assunto diretamente, para ver se Amasawa tinha alguma exigência. Ela não havia mudado sua política de evitar competir com outras turmas usando Pontos Privados, mas, se o "preço" de Amasawa fosse baixo, ainda havia margem para considerar. Eu só esperava que não fosse algo absurdo como os quinhentos mil que Shiratori e seus amigos pediram…

— Bom, eu gosto de pessoas fortes, sabe? — disse Amasawa, com um sorrisinho travesso, trazendo à tona algo que não tinha absolutamente nada a ver com o exame.

— Do que exatamente você está falando? — Horikita franziu a testa, desconfiada, já que esperava que a conversa fosse girar em torno de estudos ou pontos.

— Tipo assim, eu estava quebrando a cabeça pensando no que fazer nesse exame. Fiquei pensando: será que eu devia estudar pra valer, fazer dupla com alguém de nível A, tipo a Horikita-senpai, e tentar buscar o primeiro lugar?… Ou será que eu devia pegar leve e só tentar passar de boa? E, se for pra pegar leve, eu preferia fazer dupla com alguém de quem eu goste, sabe? — disse Amasawa.

Fazia sentido. Era certamente melhor do que trabalhar com alguém de quem você não gosta ou por quem não sente nada.

— Eu gosto de caras fortes — acrescentou Amasawa, repetindo o que já havia dito antes. Horikita parecia confusa, tentando entender onde aquilo ia dar.

— Quer dizer… você está perguntando se o Sudou-kun é forte ou não? — perguntou Horikita.

— Isso. E não tô falando de força mental nem nada assim. Quero saber se ele é forte fisicamente. Dá pra perceber só de olhar que você pratica esportes — disse Amasawa, apontando para Sudou, alguém que normalmente seria irrelevante para uma aluna com nota A.

Sudou tinha confiança na própria força. Mesmo um pouco envergonhado, assentiu.

— Quer fazer dupla comigo? — perguntou Amasawa, estendendo a mão e acariciando a bochecha dele.

— B-Bom… quer dizer, se eu tivesse nota A, seria bem melhor pra gente… você tem certeza que tá tudo bem comigo? — disse Sudou.

— Se você for realmente forte, então sim — respondeu Amasawa.

Ela deslizou o dedo fino pelo peito de Sudou, deixando-o completamente hipnotizado.

— E-Eu sou forte — disse ele.

— Eu não desgosto de caras confiantes — comentou Amasawa.

— O que exatamente você quer dizer com "se ele for realmente forte"? — perguntou Horikita, ainda responsável por resolver a situação de Sudou.

— É exatamente o que parece. Eu gosto de pessoas fortes, boas de briga. Por isso quero fazer dupla com alguém forte — disse Amasawa.

— Nesse caso, acho que o Sudou-kun está à altura. Posso garantir a força física dele — afirmou Horikita.

— Só palavras não são suficientes. Vou ter que confirmar com meus próprios olhos — disse Amasawa.

— Com seus próprios olhos? — perguntou Horikita.

— Tipo assim: reunir vários alunos fortes do segundo ano, fazer eles lutarem entre si… e aí eu faço dupla com o mais forte de todos — respondeu Amasawa.

— Você está brincando? Não tem como fazermos algo assim — disse Horikita.

— Por que não? Ei, eu tô falando sério desde o começo, sabia?

Sudou, que também não acreditava que ela estivesse falando sério, interrompeu:

— Vamos, Suzune. Ficar aqui é perda de tempo.

Soava como se ele estivesse se repreendendo por ter se deixado levar pelo charme dela, mesmo que por um instante.

— Ah, tanto faz. Se vocês quiserem fingir que essa conversa nunca aconteceu, tudo bem pra mim — disse Amasawa.

Para ela, aquilo não passava de diversão. Não havia motivo algum para fazer dupla com alguém de classificação E+ se não quisesse. Considerando sua turma e suas habilidades, certamente não faltariam pessoas dispostas a pagar para ficar ao lado dela.

Ainda assim, aquilo podia ser vantajoso para nós. Se aceitássemos, Sudou teria a chance de fazer dupla com alguém de nível A. E, mesmo que não desse certo, não perderíamos nada.

— Você não está dizendo isso só para tirar sarro da gente, certo? Está falando sério mesmo? — perguntou Horikita, com um olhar firme.

— Claro que estou falando sério — respondeu Amasawa.

— Entendo. Nesse caso, vamos levar isso a sério também e ouvir sua proposta — disse Horikita.

— Hã, Suzune? — disse Sudou.

— Relaxa! Eu quero fazer dupla com alguém forte, afinal — disse Amasawa.

— Certo. Nesse caso, Sudou-kun, você deve aceitar a proposta dela — afirmou Horikita.

— E-Espera aí, Suzune. A escola não vai simplesmente deixar a gente sair brigando por aí. Vai dar problema se a gente lutar, não vai? Tipo o que aconteceu ano passado… e hoje, no almoço, com aquele cara, o Housen — disse Sudou.

No ano passado, Sudou havia se envolvido em uma briga com vários alunos da turma do Ryuen, o que virou um grande problema. E, naquele mesmo dia, houve outra confusão quando Housen apareceu.

— É verdade que brigar não é algo louvável. Mas, se ambas as partes concordarem, não deve haver problema. Não acha, Ayanokoji-kun? — disse Horikita.

Pensei por um momento sobre a intenção dela ao me perguntar aquilo. Se a pergunta fosse se realmente não haveria problema, a resposta óbvia seria que sim, haveria. Independentemente do resultado, mesmo com consentimento, era praticamente impossível que a escola aprovasse algo que se assemelhava a um duelo. Ainda assim, Horikita respondeu como se aceitasse a ideia.

— Acho que você tem razão. Se a escola souber de uma briga, nunca permitiria. Mas, se todos os envolvidos concordarem, não parece que seria um grande problema — respondi de propósito, deixando claro que não via objeção.

— Qual é, Ayanokoji! — protestou Sudou.

— Além disso, não importa quem você escolha no nosso ano, ninguém conseguiria derrotar o Sudou-kun numa luta — disse Horikita.

— É verdade — confirmei.

Sudou não entendia o que estava acontecendo, mas Horikita e eu conduzíamos a conversa em conjunto. O importante não era realmente realizar uma luta, e sim provar que Sudou era o mais forte — sem precisar colocá-lo para lutar.

— Sinceramente, Sudou-kun, esta é uma oportunidade única. Pense bem. Normalmente, seria extremamente difícil te colocar em dupla com alguém de nível A. No entanto, Amasawa-san disse que está disposta a fazer isso. Entende? Além disso, ela condicionou isso a um teste de força — algo em que você é melhor do que qualquer um. Você deveria aceitar sem hesitar — concluiu Horikita.

Não havia como um aluno do segundo ano, familiarizado com as regras da escola, aceitar descuidadamente participar de uma luta dessas. Além disso, se o oponente fosse o Sudou, o resultado seria óbvio. Em outras palavras… mesmo que aceitássemos as condições dela ali, a luta poderia nem chegar a acontecer. E, na remota possibilidade de alguém aceitar o desafio, Sudou daria conta facilmente.

— Ooh, gostei! Gostei! Tô ficando até animada! — disse Amasawa. Como tinha acabado de entrar na escola, ela naturalmente não sabia de nada disso. Não tinha como entender o quão diferente aquele lugar era de uma escola comum.

— Mas, antes, você pode nos prometer uma coisa? Se ninguém aparecer para essa luta além do Sudou-kun, você concorda em fazer dupla com ele — disse Horikita, querendo garantir um ponto importante do acordo.

Se Amasawa não aceitasse essa condição, a conversa não iria adiante.

— Claro. Eu prometo. Se ninguém aparecer, ele vence por padrão — respondeu Amasawa.

Depois de ouvir isso, Horikita assentiu, satisfeita.

— Tudo bem, Sudou-kun?

— Tudo bem. Se você não vê problema, Suzune, então pra mim tá tranquilo — disse Sudou, cerrando os punhos e batendo-os um contra o outro com força.

Para Horikita, a proposta de Amasawa era tanto um golpe de sorte quanto uma oportunidade valiosa.

— Ok! Vou postar uma mensagem geral no aplicativo pra todo mundo ver. Vou dizer pra quem se achar forte mandar mensagem pra mim até o fim do dia se quiser participar — disse Amasawa.

— Heh. Não importa quem apareça, eu encaro — respondeu Sudou. Convenientemente, ele não parecia entender o que Horikita realmente pretendia. Provavelmente só estava empolgado com a ideia de lutar.

— Podemos escolher o local? Preferimos não deixar isso chegar aos ouvidos da escola por acidente — disse Horikita.

— Pode sim. Acho que vocês entendem melhor disso do que eu. Deixo essa parte com vocês — disse Amasawa.

Ela parecia já ter terminado de escrever a mensagem e olhou para nós para confirmar antes de enviá-la.

— Então, depois que eu mandar isso, a gente faz nosso testezinho de força, ok?

Horikita assentiu. Amasawa observou nós três lentamente, então desligou a tela do celular e guardou no bolso.

— Pensando bem… melhor não — disse ela.

Pensei que tivesse mudado de ideia de repente, mas não parecia ser o caso. Pela expressão dela, dava para supor que estava nos testando o tempo todo. Ainda assim, Horikita e Sudou ficaram confusos com a mudança brusca.

— O que foi? — perguntou Horikita.

— Mesmo que eu poste a mensagem, não parece que alguém iria aparecer. Pelo físico do Sudou-senpai e pela forma como vocês dois estão agindo, dá pra ver que ele é o mais forte do ano de vocês — disse Amasawa.

Ou seja, ela percebeu que não havia necessidade de colocar pessoas para lutar e comparar. Pelo visto, a encenação que Horikita e eu fizemos, somada à reação natural de Sudou, funcionou melhor do que o esperado. Se ela tivesse percebido isso só depois de enviar a mensagem, provavelmente Horikita não teria deixado ela voltar atrás.

Para não deixar transparecer que estávamos encenando, Horikita demonstrou insatisfação:

— Você está zombando da gente?

— Claro que não! Nada disso. É só que… não tem graça quando o resultado é tão óbvio. Eu só queria ver com meus próprios olhos e confirmar que ele é o mais forte. Então não fica brava comigo, senpai — disse Amasawa.

Ela levou o dedo indicador aos lábios, pensativa por um instante.

— Mas eu ainda vou dar uma chance pra vocês, então… me perdoa, vai? — acrescentou.

Horikita tentava manter o controle da conversa, mas era constantemente desestabilizada pelo jeito imprevisível de Amasawa. Claramente, ela não lidava bem com pessoas assim.

— Bom, além de caras fortes… eu também gosto de caras que sabem cozinhar — disse Amasawa.

— Cozinhar? — repetiu Horikita.

Mais uma vez, a sugestão não tinha nada a ver com o exame.

— Então, Sudou-senpai, né? Você faria uma comida caseira pra mim? Algo bem, mas bem gostoso mesmo? — perguntou Amasawa.

— U-Uma comida caseira?! — gaguejou Sudou.

Sudou, que até instantes atrás estava cheio de confiança, agora parecia completamente atônito diante do pedido inesperado.

— Quero dizer, tem que ser gostoso, claro. Isso é o mínimo. Mas você também tem que fazer exatamente o que eu pedir — disse Amasawa.

— E-Espera, eu nunca cozinhei na vida—

— É mesmo? Então acho que retiro o que disse sobre te dar uma chance — respondeu Amasawa, cortando-o.

Horikita entrou rapidamente na conversa, sem querer deixar a oportunidade escapar.

— Então posso fazer no lugar do Sudou-kun?

— Não. Eu já disse antes, não disse? Eu gosto de caras que sabem cozinhar. Além disso, se o cara com quem eu for fazer dupla não souber cozinhar, então nem tem sentido fazer dupla — disse Amasawa.

Ou seja, não importava o quanto Horikita fosse boa na cozinha. Sendo mulher, Amasawa simplesmente não se interessava.

— Bom, se o Sudou-senpai não serve, por que não desistem dele e procuram outro colega que saiba cozinhar? Ah, já sei… é porque, mesmo que encontrem alguém às pressas, eu não faria dupla com o Sudou-senpai, né? — disse Amasawa, exibindo um sorriso malicioso. — Talvez vocês devam transformar o Sudou-senpai em um mestre da culinária. Claro… resta saber se conseguem fazer isso a tempo, né? Eu sou bem popular, sabia? Se demorarem, provavelmente vou arrumar outro parceiro.

Aquilo não era uma ameaça vazia. Era bem provável que ela encontrasse alguém em pouco tempo. Havia muitos alunos talentosos além de Horikita. Não havia motivo para Amasawa correr o risco de fazer dupla com alguém como Sudou. Aquilo parecia mais um capricho momentâneo. Se ela mudasse de ideia, tudo acabaria ali.

Mas um colega homem, com notas baixas e que ainda fosse bom na cozinha? Ninguém vinha à mente. Talvez fosse melhor desistir dela e procurar outros alunos. Vendo que não respondíamos, Amasawa continuou:

— Tá bom, então vou dar um tratamento especial para vocês. Eu queria fazer dupla com um cara que cozinhasse bem, mas… se vocês conseguirem agradar meu paladar, eu topo fazer dupla com um bom lutador como o Sudou-senpai.

Ela estava propondo um meio-termo. Queria alguém que fosse bom de briga ou bom na cozinha. Nesse caso, talvez conseguíssemos atender à exigência.

— Seria como fazer dupla com um bom cozinheiro e um bom lutador ao mesmo tempo, né? — acrescentou.

Ou seja, ela aceitaria Sudou se outro rapaz satisfizesse seu critério. A questão era: quem? Não havia tempo suficiente para ensinar alguém a cozinhar do zero.

— Ayanokoji-kun. Se bem me lembro, você já me disse que é bastante habilidoso na cozinha, não é? — disse Horikita.

Mas o que ela estava pensando ao dizer algo assim tão abertamente? Eu nunca tinha dito nada parecido, muito menos me gabado disso. Ainda assim, negar agora poderia atrapalhar tudo. As chances de Sudou conseguir uma parceira de nível A eram baixíssimas.

— Não seria exagero dizer que cozinhar é a minha única especialidade — respondi.

— Entendo. Nesse caso, Amasawa-san, que tal o Ayanokoji-kun? — sugeriu Horikita.

— Desde que seja um cara, tanto faz. Mas ele cozinha bem mesmo? Falar qualquer um fala, mas eu vou julgar sem pegar leve, viu? — disse Amasawa.

— Sem problemas, certo? — disse Horikita, olhando para mim.

— Sim, acho que sim.

Assim que concordei, Amasawa bateu palmas animada.

— Ótimo! Então vamos começar agora e ver do que você é capaz!

As coisas estavam indo rápido demais. Aquilo soava como uma decisão imediata e, ao mesmo tempo, um ultimato. Ela queria evitar me dar tempo para aprender a cozinhar e testar se eu realmente era bom.

Como Horikita precisava sustentar a mentira, não podia aceitar aquilo de imediato. Mesmo que eu cozinhasse agora, com meu nível atual, dificilmente atenderia às expectativas dela.

— Gostaríamos muito, mas poderia nos dar um pouco de tempo? Eu e Ayanokoji-kun ainda estamos procurando parceiros para outros colegas do primeiro ano. Além do Sudou-kun, há vários alunos que precisam de ajuda. Se as outras turmas nos passarem na frente, estaremos em desvantagem. Neste exato momento, nossos rivais também estão buscando parceiros — explicou Horikita. — Se possível, gostaríamos de deixar isso para depois da aula de sexta-feira.

Ela recusou o pedido imediato e ainda sugeriu adiar por alguns dias.

— Entendo… bom, acho que faz sentido. Também não seria justo eu monopolizar o tempo de vocês. Mas… pode ser hoje à noite, então? Isso não seria problema, né? — propôs Amasawa.

— Uma aluna do primeiro ano ir ao dormitório de um aluno do segundo ano à noite — ainda mais no quarto de um garoto — seria totalmente inadequado — respondeu Horikita.

— Entendi. Mas esperar até o fim de semana é meio complicado pra mim. E eu perderia a chance de fazer dupla com outros senpais… não é?

Como esperado, a proposta de esperar até o fim de semana não funcionou.

— Mas, já que isso parece destino ou algo assim, vou dar só um dia. Se vocês disserem que não podem cozinhar pra mim amanhã depois da aula… então vamos fingir que nada disso aconteceu — disse Amasawa.

Aquilo provavelmente era o último compromisso que ela estava disposta a fazer. Ela estava traçando uma linha clara. Tive a impressão de que, se fôssemos gananciosos demais, Amasawa recuaria imediatamente. Se Horikita não cometesse nenhum erro na negociação, então…

— Você tem razão. Não posso negar que meu pedido seria um grande incômodo para você. Além disso, imagino que não queira nos dar tempo para praticar culinária descuidadamente, certo? — disse Horikita.

— Ah, não, imagina! Eu nem pensei tão longe assim — respondeu Amasawa.

— Certo. Então podemos fechar acordo nesses termos? — perguntou Horikita.

Tínhamos apenas um dia de preparação. Mas, se não aceitássemos, perderíamos Amasawa. A decisão de Horikita podia parecer um ato desesperado diante da pressão, mas, ainda assim, ela concordou com as novas condições.

— Então está combinado — disse Amasawa prontamente, sem objeções quanto a se encontrarem no dia seguinte após as aulas.

— No entanto, isso é considerando que você não volte atrás, como fez antes quando falamos da luta — acrescentou Horikita.

— Tudo bem, eu prometo. Se eu concluir que as habilidades culinárias dele são legítimas, faço dupla com o Sudou-senpai na hora — respondeu Amasawa, assentindo com sinceridade, mesmo sendo apenas uma promessa verbal.

— Por favor, eu tô te implorando, Ayanokoji! Usa suas "habilidades culinárias" para conseguir uma parceira pra mim, de qualquer jeito! — implorou Sudou.

Diante da situação, resolvi seguir o jogo. Mas nunca imaginei que as coisas chegariam a esse ponto.

— Então, que tal a gente se encontrar em frente ao Keyaki Mall às quatro e meia depois da aula amanhã? Tudo bem pra você, Ayanokoji-senpai? — perguntou Amasawa.

— No shopping? Não nos dormitórios? — retruquei.

— O que eu vou pedir pra você fazer é segredo! E, além disso, você vai precisar comprar os ingredientes e tudo mais, né? — disse Amasawa.

Entendi. Ela pretendia me avaliar desde a escolha dos ingredientes.

— Posso acompanhá-lo também? — perguntou Horikita, provavelmente querendo me orientar para que nossa farsa não fosse descoberta.

Mas nossa oponente não deixaria isso passar.

— Nada disso! Você poderia dar dicas com o olhar ou algo assim. Eu vou ser suuuper rigorosa na avaliação! — disse Amasawa.

Ou seja, eu teria que dar conta sozinho no dia seguinte.

— Você vai dar conta, né, Ayanokoji-senpai? — perguntou Amasawa.

— Sim, sem problemas.

Respondi de forma direta por ora, mas aquilo tinha se tornado um baita problema.

— Então, até amanhã. Tchauzinho! — disse Amasawa, descendo as escadas, aparentemente satisfeita.

— Horikita, você já deve saber, mas—

— Fique quieto por enquanto. Estou pensando em um plano — interrompeu Horikita.

Mesmo dizendo que pensaria em um plano, só tínhamos um dia. Até onde eu conseguiria chegar com minhas habilidades culinárias, que eram apenas básicas?

 

 


 

 

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag

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