Ano 2 - Volume 1
Capítulo 4: O Exame de Ichika
A QUARTA-FEIRA CHEGOU, marcando o terceiro dia do período especial de provas. Às oito da manhã, o aplicativo OAA foi atualizado pela segunda vez, e o número de opções de parceiros que tínhamos inevitavelmente diminuiu.
— Trinta e quatro novas parcerias foram decididas, hein?
Somando com as que haviam sido definidas na segunda-feira, isso totalizava cinquenta e seis parcerias. Considerando que havia um máximo de cento e cinquenta e sete pares possíveis, isso significava que cerca de 30% dos alunos já tinham se estabelecido em duplas.
O número de parcerias formadas ontem foi, em grande parte, impulsionado pela Turma 2-B, o que indicava que muitas delas tinham relação com Ichinose. Parecia que vários alunos do primeiro ano haviam analisado cuidadosamente suas opções após o encontro inicial e, em seguida, decidiram formar duplas.
Basicamente, pude confirmar que muitos estudantes do primeiro ano com baixo desempenho acadêmico haviam se associado a Ichinose e a outros da sua turma. Além disso, considerando que alguns nomes de alunos de alto desempenho já não apareciam mais na lista dos calouros, e que alguns nomes da Turma 2-C também haviam desaparecido, pude inferir que a Turma C havia negociado com sucesso algumas parcerias usando pontos ou algo do tipo.
Na minha própria turma, cinco parcerias haviam sido definidas, começando por Kushida. Verifiquei a página da Turma 1-B e vi que Yagami Takuya também já tinha um parceiro. Ele pode ter formado dupla com Kushida. Mas o estranho era que ninguém da Turma 1-D havia formado parceria ainda. Observando o conjunto de ambas as séries, isso era algo único. Se eu não saísse por aí e realmente tomasse uma atitude agora, provavelmente ficaria encalhado. Não havia um único aluno aqui que pudesse olhar minhas notas objetivamente e dizer: — Ei, vamos fazer dupla.
Era apenas natural que um estudante, independentemente de ser academicamente talentoso ou não, quisesse se juntar a alguém inteligente. Diferentemente dos alunos do segundo ano, que já haviam aprendido a agir em prol da turma, os do primeiro ano provavelmente não se importariam tanto com os outros. Era mais provável que vissem até mesmo os próprios colegas como rivais.
No mínimo, as pessoas deixariam de me considerar até que os alunos de alto desempenho fossem escolhidos. Era exatamente por isso que Tsukishiro devia ter instruído seu agente a não deixar essa oportunidade escapar. Naturalmente, qualquer aluno que viesse até mim buscando parceria, ou que aceitasse formar dupla comigo, levantaria minhas suspeitas. No entanto, se eu permanecesse indeciso para sempre e não escolhesse um parceiro, minhas chances de acabar emparelhado com o assassino de Tsukishiro aumentariam.
Eu precisava ter certeza de que meu parceiro não era o assassino de Tsukishiro, mas isso provavelmente não seria fácil. Na verdade, eu nem conseguia imaginar que tipo de atuação essa pessoa estaria fazendo para se passar por outra. Eu podia verificar o rosto, o nome e as notas de todos no aplicativo OAA, mas não havia pistas ali. Se todos os cento e sessenta alunos do primeiro ano fossem meus inimigos, então seria xeque-mate para mim. Sem nenhuma chance de escapar.
Era uma ideia absurda. Eu não achava que nem mesmo Tsukishiro fosse capaz de algo assim, mas...
Não, não era isso. O importante era encontrar uma forma de sobreviver, mesmo que todos fossem meus inimigos. Por ora, eu precisava escolher uma opção segura entre os cento e quatro alunos restantes disponíveis. Não havia distinção baseada em sexo entre os alunos criados na Sala Branca, o que tornava impossível reduzir a lista de suspeitos por esse critério, já que eles seguiam o princípio da igualdade de gênero.
Então, como eu deveria excluir pessoas como possíveis suspeitos? Uma maneira plausível seria com base no físico. As refeições servidas na Sala Branca eram rigorosamente controladas, nos mínimos detalhes. Era praticamente impensável que qualquer criança criada naquele ambiente se tornasse obesa. Isso significava que, se eu escolhesse um aluno obeso como parceiro, poderia evitar o agente da Sala Branca... Essa foi uma ideia simples que me veio à mente.
Mas isso não era uma garantia absoluta. Era totalmente possível que o estudante da Sala Branca estivesse se preparando para me expulsar há vários meses. Pensando assim, não seria impossível que ele engordasse ou emagrecesse conforme quisesse. Para alguém que suportou o currículo rigoroso da Sala Branca, isso seria fácil de realizar.
Ainda assim, mesmo deixando isso de lado, eu tinha dúvidas sobre escolher um aluno com físico abaixo do padrão. Claro, era difícil ter certeza, já que o aplicativo OAA não mostrava fotos de corpo inteiro. Havia apenas dois alunos claramente obesos, mas eu não podia descartar a possibilidade de que qualquer um deles tivesse sido enviado por Tsukishiro. Isso porque eu precisava considerar que o assassino talvez não fosse apenas alguém da Sala Branca, mas também um estudante comum. Eles poderiam ter recebido a promessa de ingressar em uma faculdade melhor após a formatura caso conseguissem me expulsar, por exemplo.
Minha próxima ideia foi tentar reduzir a lista com base na capacidade acadêmica. Isso também seria difícil. Se o estudante viesse da Sala Branca, não teria problema algum em tirar nota máxima no exame de admissão. Poderia facilmente obter uma classificação A ou A+ em habilidade acadêmica sem nem se esforçar.
Em outras palavras, ele poderia controlar livremente as notas que tirava. E eu tinha certeza de que esse agente sabia da implementação do aplicativo OAA. Não seria nem um pouco surpreendente se ele tivesse uma classificação E em habilidade acadêmica e estivesse apenas à espreita, esperando por mim.
Da mesma forma, seria impossível restringir a lista com base em terem sido alocados na Turma A ou na Turma D.
Eu entendia tudo isso, mas, naquele momento, não tinha nada em que me basear. Nenhuma forma de reduzir a lista de suspeitos, independentemente do ângulo pelo qual eu analisasse a situação. Havia algo que eu precisava fazer agora. Mais especificamente, eu precisava observar os alunos com meus próprios olhos e confirmar sua autenticidade. Se eu tivesse certeza de que não eram meus inimigos, poderia formar dupla com eles ou pedir que colaborassem comigo.
Estabeleci um objetivo. A partir de hoje, sempre que eu chegasse à sala de aula pela manhã, durante o almoço e após o fim das aulas, eu abordaria os alunos do primeiro ano que visse ao longo do dia, na ordem em que os encontrasse. Então, tentaria obter a cooperação deles. Não havia como Tsukishiro ter enviado alguém que eu pudesse identificar à primeira vista, então não me restava escolha senão lutar usando o fator acaso, algo no qual ele não poderia interferir.
Minha classificação de habilidade acadêmica, C, não era alta de forma alguma. Eu não poderia usar isso como uma arma. Mas também não era como se não houvesse nenhum aluno disposto a formar dupla comigo. Se eu procurasse um pouco, provavelmente encontraria algumas pessoas.
*
Saí dos dormitórios e segui em direção ao prédio da escola. No caminho, logo avistei duas garotas do primeiro ano caminhando juntas e conversando. Seus nomes eram Kurihara Kasuga e Konishi Tetsuko. Ambas eram da Turma A, mas, infelizmente, também eram alunas com alto desempenho acadêmico que já haviam firmado parcerias no primeiro dia. Seria impossível para mim pedir que qualquer uma delas fosse minha parceira.
Bem, suponho que o fato de elas já terem decidido suas parcerias não fosse um grande problema. Se fosse para dizer algo, isso até as tornava o tipo ideal de alunas para se tornarem colaboradoras.
O problema era… bem, era meio difícil para mim simplesmente ir falar com elas…
Mesmo levando em conta que eu me aproximaria sob o pretexto de precisar encontrar um parceiro para essa prova especial, como exatamente um aluno do segundo ano abordando duas garotas do primeiro ano pareceria para um observador? Não pude deixar de me perguntar. Eu definitivamente não tinha coragem de simplesmente chegar nelas e dizer: Bom dia! como o Yousuke faria. Também estava fora de cogitação eu me aproximar com confiança e pedir que me apresentassem a alguma amiga com quem eu pudesse formar dupla.
De qualquer forma, eu não podia me dar ao luxo de nem ao menos tentar. Desistir ali e naquele momento não seria nada inteligente. Certo. Exatamente isso. Eu já tinha me decidido.
Mas qual seria o melhor momento para agir? Em vez de me intrometer na conversa enquanto elas estavam animadamente conversando, achei melhor esperar até que o assunto delas desse uma esfriada. Enquanto eu observava as duas garotas, outra voz me chamou por trás.
— Bom dia, Ayanokoji-senpai.
Era Nanase Tsubasa, a garota que estava com Housen outro dia. Ela era agora a terceira aluna do primeiro ano que eu encontrava naquele dia, e me dirigia um sorriso radiante.

— Ah, oi. Bom dia.
Eu não esperava que alguém viesse falar comigo, então houve uma breve pausa constrangedora.
— Você precisa de algo daquelas duas garotas? Quer que eu fale com elas por você? — disse Nanase, sugerindo que entrasse em contato com elas no meu lugar.
Nanase também era uma aluna do primeiro ano. Se ela realmente chamasse aquelas garotas, era muito provável que eu acabasse conversando com as três ao mesmo tempo. Isso seria ainda mais problemático.
— Não, tudo bem — respondi.
— Ah, é mesmo? — disse Nanase, curiosa. Ela passou por mim, caminhando praticamente no mesmo ritmo.
Justo quando eu tentava descobrir como abordar aquelas duas garotas, acabei, inesperadamente, iniciando uma conversa com Nanase. Eu era extremamente grato por ela ter me poupado do esforço de tentar puxar assunto com alguém, mas…
Não havia como um aluno do primeiro ano vir falar comigo por pura coincidência. Era bem possível que ela estivesse esperando minha chegada à escola, escolhendo o momento exato para agir. E essa possibilidade não se aplicava apenas a Nanase, mas a qualquer aluno do primeiro ano que tomasse a iniciativa de vir falar comigo. Assim como Amasawa ontem, ela era alguém que se aproximou de mim, e não o contrário.
— Peço desculpas pela grosseria do Housen-kun outro dia — disse Nanase.
— Não precisa se preocupar. Ele não fez nada comigo. Não há necessidade de se desculpar — respondi.
— Ainda assim, isso não muda o fato de que ele causou problemas para você. Mesmo eu estando lá para impedir que o Housen-kun fizesse esse tipo de coisa, percebo agora, de forma bem clara, que sou… bem, impotente — disse Nanase.
Diferente do selvagem e agressivo Housen, ela era extremamente agradável e falava de maneira educada. Sua atitude, altamente favorável, combinada com o fato de possuir nota B em habilidade acadêmica, fazia dela uma excelente candidata a parceira. Não seria surpreendente se outras pessoas além de mim já a tivessem abordado. Ainda assim, já estávamos no terceiro dia do período de provas, e ela ainda não havia formado dupla com nenhum aluno do segundo ano.
Provavelmente, isso se devia à política da Turma 1-D. Além de sua habilidade acadêmica, ela tinha notas C+ ou superiores em capacidade física, adaptabilidade e contribuição social. Pontuações muito equilibradas. À primeira vista, não havia nada nela que sugerisse qualquer falha.
E isso levantava justamente a questão: por que Nanase Tsubasa havia sido colocada na Turma D?
Basicamente, a ideia por trás da Turma D era que os alunos designados para ela tendiam a ter algum tipo de problema. Por exemplo, pessoas como Yousuke e Kushida pareciam perfeitas à primeira vista, mas, ao olhar mais de perto, isso não era verdade. Ou seja, eu não podia descartar a possibilidade de que Nanase também tivesse seus próprios problemas ocultos. Por outro lado, não havia garantia de que a turma deste ano seguiria exatamente o mesmo padrão.
Pessoalmente, eu não me importava se alguém tivesse alguns problemas de personalidade ou valores. Independentemente de eu pedir que ela fosse minha parceira ou colaboradora, o único ponto importante era se Nanase estava ou não do lado de Tsukishiro. Eu estava intrigado com o olhar que ela me lançou quando a conheci, outro dia, quando estava com Housen, mas… agora aquilo havia desaparecido. O modo como ela me olhava parecia normal.
— Você já decidiu um parceiro para a próxima prova especial? — perguntei, decidindo avançar e tentar descobrir mais sobre a pessoa chamada Nanase.
— Eu? Não, ainda não decidi — respondeu ela.
— Então, outras pessoas já vieram falar com você sobre isso?
— Sim, vieram. Até agora, fui abordada por veteranos das Turmas A e C — disse Nanase.
Como esperado de alguém com nota B em habilidade acadêmica. Parecia que ela estava sendo bastante procurada.
— Por que você ainda não aceitou formar dupla com ninguém? — perguntei.
Eu não sabia se isso realmente tinha a ver com habilidade acadêmica ou com pontos, mas decidi insistir no assunto.
— Sinto muito, mas não posso responder isso — disse Nanase, abaixando a cabeça em sinal de desculpa.
— Não precisa responder nada que não queira. Não há motivo para se desculpar.
Não parecia provável que eu obtivesse respostas sobre se isso era um problema pessoal dela ou uma questão da Turma 1-D naquele momento. Sendo assim, decidi tentar abordar a situação por um ângulo um pouco diferente.
— Se estiver tudo bem para você, que tal fazermos nossas turmas cooperarem para encontrar parceiros adequados? Turma D com Turma D — sugeri.
A proposta que fiz incluía encontrar um parceiro para mim também. Horikita também considerava a Turma 1-D a chave para essa prova, e Housen parecia nutrir algum tipo de sentimento em relação à Turma 2-D. Provavelmente não era uma má ideia.
— Nossas turmas… cooperarem? — disse Nanase.
— Isso. Muitos alunos estão tentando se juntar a pessoas com alto desempenho acadêmico para tirar boas notas nessa prova. Mas, se fizerem isso, os alunos com dificuldades vão acabar não sendo escolhidos, e muitos ficarão de fora. Se esses alunos com dificuldades se juntarem entre si, estarão em risco de expulsão. Isso vale tanto para nós, do segundo ano, quanto para vocês, do primeiro — expliquei.
— Sim, eu entendo. Também gostaria de evitar que isso acontecesse, se possível — disse Nanase.
— Então, para garantir que isso não aconteça, precisamos de um equilíbrio adequado. Mesmo que não consigamos alcançar as primeiras posições, precisamos encontrar parceiros que assegurem que ninguém tire nota insuficiente.
Nós éramos da Turma D. Em termos de imagem pública, estávamos claramente na pior posição. Justamente por isso, a Turma 1-D, que ocupava o mesmo lugar na hierarquia, provavelmente estaria mais inclinada a aceitar essa proposta.
— O que você acha? — acrescentei.
— Concordo com você. Gostaria de cooperar, Ayanokoji-senpai, se for possível. Só que… — disse Nanase.
— Só que? — repeti.
— Não sei quantos dos meus colegas estariam dispostos a ajudar. E, além disso, alguns dos alunos mais confiantes em suas habilidades acadêmicas já estão decidindo seus parceiros em particular — explicou Nanase.
Muitos dos alunos que poderiam desempenhar papéis importantes nessa prova e realmente ajudar nossos esforços estavam, na verdade, procurando parceiros sólidos para si mesmos, visando alcançar as melhores notas. As duas garotas caminhando à minha frente se encaixavam perfeitamente nessa descrição. O motivo de alguns alunos ainda não terem formado parceria provavelmente estava relacionado a outros fatores, como pontos.
Afinal, o ponto mais importante dessa prova era que os 30% com melhor desempenho seriam recompensados. Ou seja, ajudar alunos com notas ruins significava abrir mão das próprias chances de obter essas recompensas.
— Também não precisamos que todo mundo coopere. Se coordenarmos bem as coisas, devemos conseguir passar por essa prova especial sem grandes problemas — eu disse.
Mesmo que alguns alunos já tivessem formado parcerias, isso não seria um grande obstáculo.
— É verdade. No entanto, não é como se não houvesse outros problemas — respondeu Nanase. Ela parecia concordar com a ideia central da minha proposta, mas havia uma expressão sombria em seu rosto. Eu não precisava pensar muito para entender o motivo. Era evidente.
— Você quer dizer… Housen, acho que era esse o nome dele, certo? Parece que ele tem bastante influência na Turma D — investiguei mais a fundo os assuntos internos da Turma 1-D, trazendo à tona algo do qual eu já tinha quase certeza, graças à minha interação com Shiratori outro dia.
— Sim. Muitos dos garotos e garotas da nossa turma já começaram a seguir obedientemente as ordens do Housen-kun — disse Nanase.
Então, o que antes era apenas especulação agora se tornava certeza. Parecia que Housen já havia assumido o controle da turma e estava tentando mantê-lo. Isso significava que a estratégia de dificultar a formação de parcerias talvez também tivesse partido dele. Se fosse esse o caso, então Housen não era apenas um aluno com grande força física — ele também possuía percepção, capacidade de observação e frieza para analisar a situação ao seu redor.
— Você ocupa uma posição meio especial ou algo assim, Nanase? Não tive a impressão de que você fosse tão submissa ao Housen.
— Isso porque eu nunca vou me render à violência — respondeu Nanase.
Suas palavras foram tão firmes que era difícil acreditar que vinham dela, considerando sua aparência. Não era algo dito de forma leviana. Havia um peso por trás daquilo. Tive a sensação de perceber algo — talvez convicção — refletido na franqueza de seus olhos.
— Senpai, o que… você acha da violência? — ela perguntou.
— O que eu acho? — repeti.
— Quero dizer, você é a favor ou contra a violência? — explicou Nanase.
Se ela estava buscando minha opinião sobre a maneira de agir do Housen, então havia apenas uma resposta que eu poderia dar.
— Acho que, se tivesse que escolher entre essas duas opções, diria que sou a favor — respondi, claramente.
Eu esperava algum tipo de reação imediata, mas fui recebido com silêncio. Quando voltei o olhar para Nanase para observar sua expressão, percebi que o semblante contido que ela tinha momentos antes havia desaparecido. Agora, seus olhos eram os mesmos de quando ela me encarou outro dia, ao se afastar junto de Housen.
Após alguns segundos, Nanase finalmente falou:
— Se eu tivesse que escolher, também diria que sou a favor.
Não consegui perceber nenhuma emoção por trás da resposta. O que ela disse podia ser tanto verdade quanto mentira. Será que Housen havia reconhecido a força da convicção dela de não se render à violência e, por isso, a manteve ao seu lado?
Não… não era só isso. Naquela ocasião, Housen reagiu fortemente quando Nanase mencionou "aquilo", fosse lá o que fosse.
Não havia garantia alguma de que Housen fosse necessariamente mais forte do que Nanase. Eu estava curioso sobre isso, mas provavelmente não era o momento certo para perguntar. Ela não parecia o tipo de pessoa que falaria desnecessariamente sobre assuntos que não deveriam ser revelados. Eu não devia agir de forma descuidada e torná-la ainda mais cautelosa.
Será que eu deveria recuar por enquanto? Provavelmente teria outra oportunidade de tentar, junto com Horikita.
— De qualquer forma, se é o Housen quem decide o que a sua turma faz, esse plano pode ser difícil de colocar em prática — comentei, enquanto começava a considerar a ideia de entrar em contato com outras turmas, mantendo ao mesmo tempo uma boa relação com Nanase, mas…
— Bem, com licença… se você não se importar… gostaria que eu tentasse ajudar a organizar uma reunião? — ofereceu Nanase, talvez por achar que minha proposta de cooperação entre as turmas era uma boa ideia.
— Agradeço muito a oferta, mas tem certeza de que está tudo bem?
— Sim. Mas não sei quantos alunos estarão dispostos a cooperar, então não posso fazer nenhuma promessa definitiva. No pior dos casos, talvez seja apenas eu. Tudo bem para você? — perguntou Nanase.
Deixando de lado, por um momento, o que eu pensava sobre Nanase, o importante agora era que Horikita e eu tivéssemos o máximo possível de oportunidades para criar conexões com a Turma 1-D, pelo bem dos nossos colegas.
— Claro. Tenho certeza de que a Horikita também ficará muito feliz.
— A Horikita-senpai é a líder da Classe 2-D?
— Sim. É ela quem está mantendo a nossa turma unida no momento.
Decidi contar à Horikita que seria uma boa ideia organizar uma reunião entre as duas Classes D, com a ajuda da Nanase. No entanto, eu não sabia qual seria a melhor forma de fazer isso, já que falar abertamente sobre o assunto na sala de aula certamente chamaria atenção.
— Ah, é... talvez eu não consiga te dar uma resposta imediatamente. Tudo bem? — disse Nanase.
— Sim, sem problemas. Vou tentar preparar as coisas do meu lado o mais rápido possível.
— Certo.
Em seguida, Nanase e eu trocamos contatos, combinando de falar novamente mais tarde.
*
Depois de confirmar que Horikita ainda não havia chegado à escola, decidi esperar perto da entrada. Achei que chamaria muita atenção se eu simplesmente começasse a falar com ela sobre esse assunto dentro da sala de aula.
Pouco tempo depois, Horikita apareceu. Ela me lançou um olhar confuso, nem sequer cogitando que eu pudesse estar ali esperando por ela.
— Bom dia. Está esperando alguém? — perguntou.
— Sim, algo assim. Essa pessoa acabou de chegar — respondi.
— Entendo — disse Horikita.
Ela virou-se brevemente e olhou por cima do ombro. Ao perceber que não havia mais ninguém por perto com quem eu parecesse ter alguma familiaridade especial, voltou a me encarar.
— Eu? — perguntou.
— Sim. Tem uma coisa que eu queria discutir com você rapidinho.
— Imagino que seja algo importante, já que você ficou parado aqui me esperando — disse Horikita.
Começamos a caminhar.
— Importante...? É, acho que sim. Pode ser importante. Por acaso, tive a oportunidade de conversar com a Nanase Tsubasa, da Classe 1-D, há pouco tempo. Então tentei propor uma pequena ideia para a turma dela — expliquei.
— Ah? E que tipo de proposta seria essa? — perguntou Horikita.
— Pensei em sugerir que nossas turmas trabalhassem juntas, Classe D com Classe D.
— Vindo de você, isso é um movimento bem ousado — disse Horikita.
Eu tinha certeza de que ela própria vinha quebrando a cabeça sobre como estabelecer uma relação com a Classe 1-D. Estava preparado para que ela ficasse irritada comigo por ter feito uma proposta sem sua permissão, mas...
— Você verificou a situação atual de parcerias da Classe 1-D? — perguntou Horikita.
— Sim. Nenhum deles firmou parceria ainda. Tenho certeza de que a Sakayanagi e o Ryūen também devem estar deixando eles como opções em segundo plano — respondi.
Era natural que eles priorizassem alunos de alto desempenho das turmas superiores, dispostos a cooperar por uma quantidade razoável de pontos, em vez dos alunos da Classe D que pediam uma quantia exorbitante.
— E não é só isso. Lidar com as políticas agressivas do Housen-kun exigiria um certo esforço. Do ponto de vista das turmas superiores, lidar com ele provavelmente consumiria muito tempo e energia — disse Horikita.
— Talvez.
— Você fez essa proposta à Nanase-san já ciente das dificuldades de enfrentar o Housen-kun? Ou tentou formar uma colaboração em segredo, para que ele não descobrisse? — perguntou Horikita.
— O que você acha? — retruquei.
Devolvi a pergunta de propósito, sem dar uma resposta direta. Se ela não pretendesse mais formar parceria com a Classe 1-D naquele momento, eu não teria problema em encerrar tudo ali.
— Reanalisei nossa situação nesta prova especial, à minha maneira. Quer ouvir? — disse Horikita.
— Não tenho muita confiança de que posso te dar algum conselho útil.
— Não estou esperando isso.
Aparentemente, ela só queria que eu ouvisse o que havia pensado. Provavelmente tinha relação com o que mencionei hoje sobre a Classe 1-D.
— Antes de mais nada, ao observar os alunos do primeiro ano como um todo, é evidente que os mais populares são aqueles com habilidade acadêmica excepcional — disse Horikita.
— Sim. Se bem me lembro, Shiratori disse que foi abordado tanto pela Classe 2-A quanto pela Classe 2-C para firmar um acordo usando pontos — respondi.
— Mas nem o Shiratori-kun nem seus amigos formaram parceria ainda. Acho justo assumir que não conseguiram chegar a um acordo em termos de pontos. De qualquer forma, a quantia que pediram de nós — quinhentos mil pontos — era alta demais — disse Horikita.
Considerando que a recompensa por ficar entre os cinco primeiros era de cem mil pontos, e por ficar entre os 30% melhores era de dez mil pontos, até mesmo pedir duzentos mil já seria exagerado.
— Fico pensando quantos pontos o Hashimoto-kun e os outros ofereceram a eles — disse Horikita.
— Quem sabe? Mas é seguro dizer que foi bem menos do que quinhentos mil — respondi.
Era impossível saber a resposta, a menos que você fosse uma das pessoas envolvidas na negociação.
— Eu diria que provavelmente não houve uma diferença tão grande entre as ofertas da Classe A e da Classe C. Se tivesse que arriscar, diria que a oferta da Classe A foi um pouco menor — disse Horikita.
Ela provavelmente chegou a essa conclusão verificando constantemente o aplicativo OAA até aquela manhã. Entre a Classe A e a Classe C, mais alunos da Classe C já haviam fechado parcerias.
— Em termos de imagem pública, a Classe A naturalmente tem vantagem sobre a Classe C. A maioria das pessoas escolheria a Classe A, a menos que houvesse uma diferença enorme na quantidade de pontos oferecida. Pensando assim, dá para supor que a Classe A está tentando atrair alunos do primeiro ano usando tanto pontos quanto o valor do seu status como Classe A. Já a Classe C, por outro lado, está oferecendo mais pontos para compensar sua imagem inferior e conquistar os alunos — analisou Horikita.
Assenti, mostrando que concordava com sua conclusão.
— Mas acho o raciocínio do Ryuen-kun um pouco estranho. Se você quer vencer essa prova, atrair os alunos com melhor desempenho é o mínimo necessário. Mas isso inevitavelmente significa competir com a Classe A por talento. E, se a Classe C disputar com a Classe A usando dinheiro, não consigo imaginar a Classe C vencendo. Tentar alcançar o primeiro lugar na pontuação geral parece imprudente — disse Horikita.
Ryuen havia dito que iria ameaçar as pessoas. Mas, na prática, sua turma não tinha chance de vencer esse tipo de disputa.
— Ele deveria focar nos alunos que a Classe A não quer, mesmo que isso signifique baixar um pouco o nível de exigência — respondi.
Alunos com nível acadêmico B- ou até C+ já seriam suficientes. Seria muito mais seguro mirar no segundo lugar geral.
— Bem, tentar entender o que ele está pensando provavelmente é inútil, mas… enfim, voltando ao assunto. A classe restante, a Classe B, está tentando construir relações baseadas em confiança com os alunos do primeiro ano, atraindo pessoas independentemente da habilidade acadêmica, para salvar os mais fracos. Tirando a Classe 1-D, podemos assumir que muitos alunos com nível D ou inferior foram "salvos" pela Ichinose-san — disse Horikita.
Ela olhou discretamente para trás para se certificar de que ninguém estava ouvindo nossa conversa. Depois de confirmar isso, continuou:
— Isso significa que nosso objetivo agora é abordar os alunos de nível intermediário em cada turma. Aqueles com habilidade acadêmica entre C+ e B-.
Esses alunos provavelmente não receberiam grandes ofertas, e muitos ainda deveriam estar disponíveis. Mirar neles enquanto a Classe A e a Classe C disputavam os melhores alunos era uma boa estratégia.
— Então isso quer dizer que você vai abandonar a ideia de formar parceria com a Classe 1-D? — perguntei.
— Não. Esse plano continua de pé. Na verdade, cada vez mais parece ser a melhor opção para nós — disse Horikita.
— Então você vai desistir de tentar recrutar os alunos medianos das outras turmas?
Isso certamente poderia ser considerado uma decisão drástica. Como estávamos atrás das outras turmas do nosso ano, precisávamos formar muitas parcerias o mais rápido possível.
— Não é como se fôssemos ficar parados, claro. Pode ser um pouco malicioso, mas pretendo fingir que estamos participando do jogo do dinheiro para ganhar tempo. Os alunos de nível médio acham que não vão receber propostas atraentes com grandes quantias, como os melhores alunos. Nesse caso, vamos dar a eles um gostinho de serem desejados. Vamos fazer com que achem que podem até negociar — explicou Horikita.
— Quer dizer que você quer fazer com que Sakayanagi e Ryuen gastem pontos não só com os melhores alunos, mas também com os intermediários?
— Não sei o quão eficaz isso será, mas acredito que posso ao menos desviar parte da atenção deles. E, enquanto isso, pretendo abrir caminho na Classe 1-D. É exatamente por isso que o que você me contou agora foi perfeito. Eu mesma estava pensando em entrar em contato com a Nanase-san — disse Horikita.
— Mas o Housen não é justamente o tipo de pessoa que quer jogar esse jogo do dinheiro?
— Sim, isso é verdade. Mas fico pensando: será que ele quer apenas pontos? Quando ele veio ao andar do segundo ano, disse, e cito: "Vocês nem conseguem formar duplas sem que a gente escolha. Então pensei: vou dar uma ajudinha para esses incompetentes sem cérebro." Ou seja, o alvo dele é a nossa turma. Será que ele falaria assim se estivesse interessado apenas em pontos?
Horikita afirmou que deveria haver espaço para negociação além dos Pontos Privados.
— O fato de ele ter dito "até mais" diretamente para mim antes de ir embora também parece indicar alguma coisa.
— Sim, faz sentido. Acho seguro dizer que o Housen está focado apenas na nossa turma — respondi.
Em troca de desistir de disputar as primeiras posições, Horikita estabeleceu três princípios centrais: "Ninguém será expulso", "Não vamos participar do jogo do dinheiro" e "Alcançar o terceiro lugar ou melhor na pontuação geral". Não era uma tarefa fácil, mas era justamente por isso que estávamos focando na Classe 1-D.
— De qualquer forma, lidar com o Housen-kun por métodos convencionais certamente não será fácil. Tenho um plano alternativo.
Ao que parecia, Horikita havia elaborado estratégias que eu desconhecia.
— Atualmente, estou negociando com algumas pessoas da Classe 1-B para estabelecer uma parceria colaborativa.
— Espera, falando da 1-B… você está falando daquele cara que estudou no mesmo ginásio que você e a Kushida? O Yagami? — perguntei.
Lembrei do que vi no aplicativo OAA naquela manhã, após a atualização: Kushida e Yagami haviam confirmado parceria.
— Kushida-san e Yagami-kun formaram dupla ontem. Infelizmente, não me lembro de ninguém mais novo do meu antigo colégio, mas ele pode ser importante. Ele parece confiar bastante na Kushida-san. E já estamos negociando com ele nos bastidores. Com sorte, se tudo correr bem, conseguiremos mais colaboradores — disse Horikita.
Embora fosse uma boa notícia, havia algo que me preocupava.
— Você está dando instruções à Kushida? — perguntei.
Considerando o quanto Kushida odiava Horikita, eu não tinha certeza de quão seriamente ela ajudaria.
— Sei muito bem o quão difícil isso seria para mim, dadas as circunstâncias. Por isso estou usando o Hirata-kun como intermediário — respondeu Horikita.
— Entendi. Nesse caso, acho que a Kushida não pode se dar ao luxo de relaxar.
Se as negociações de Kushida com Yagami trouxessem sequer alguns alunos para o nosso lado, já resolveríamos parte dos problemas de parceria e poderíamos focar mais nos estudos.
*
— Bom dia, Horikita-san. Você tem um minuto? — perguntou Yousuke, aproximando-se do lugar de Horikita depois que o primeiro período terminou e começou o intervalo. Eu podia mais ou menos ver o que estava acontecendo do meu próprio lugar.
— Ontem conversei com algumas pessoas, mas parece que não vai ser tão fácil conseguir alguém para trabalhar conosco, afinal. Teve uns alunos que disseram que poderiam considerar se juntar a nós, mas, bem… — disse Yousuke, sem terminar a frase.
Mesmo conversando com gente que jogava futebol, como ele, parecia que as coisas não tinham ido tão bem. Além disso, não importava o quão bom fosse Yousuke, seria difícil fazer com que alunos do primeiro ano, que acabaram de entrar no clube, realmente se abrissem.
— Os alunos do primeiro ano pediram pontos, não foi? — perguntou Horikita.
Yousuke assentiu, e Horikita continuou:
— Bem, eles têm a chance de se "vender" por um preço alto, então isso não é surpreendente.
Como imaginávamos, a ideia problemática de comprar alunos por pontos estava se espalhando por todo o ano.
— Disseram-me que a Classe 2-A os abordou, querendo fazer parceria. E que a Classe C também veio oferecer parceria em troca de pontos. Não foi só com os alunos que falei, não. Pelo que ouvi, quase todos os alunos que receberam convite da Classe A também receberam da Classe C — disse Yousuke.
— Isso é natural, considerando que a competição pelos alunos mais inteligentes é bem acirrada — Horikita já tinha previsto que isso aconteceria. Mas as próximas palavras de Yousuke não eram o que ela esperava.
— Mas, aparentemente, até alguns alunos com classificação C e D foram abordados. Ouvi histórias de que os convites vinham com ofertas de quantias bem generosas de pontos também — disse Yousuke.
— Quer dizer que eles não estão necessariamente priorizando os alunos mais capazes academicamente? — disse Horikita.
— Pelo que posso perceber, sim — respondeu Yousuke.
— Entendi. Se você lembrar de algum nome específico, poderia me dizer?
— Claro.
Yousuke começou a listar nomes de alunos do primeiro ano que sabidamente receberam convites da Classe A. Horikita conferiu os nomes no aplicativo OAA e rapidamente entendeu a situação. Os alunos convidados se destacavam em outras áreas, mesmo que suas habilidades acadêmicas não fossem tão boas. Eles eram valorizados por sua alta capacidade física, adaptabilidade ou contribuição social.
— Entendo… Na verdade, eu já esperava por algo assim — disse Horikita.
— Talvez eles estejam pensando no futuro, e não apenas nos resultados imediatos — disse Yousuke.
Não era necessariamente a única prova especial em que teríamos de cooperar com os alunos do primeiro ano. Se houvesse mais situações em que precisássemos trabalhar juntos, outras habilidades além da acadêmica seriam necessárias. Salvar os alunos com dificuldades acadêmicas e depois aproveitá-los em suas áreas de destaque — eu tinha certeza de que era isso que a Classe A estava pensando.
Dito isso, era interessante que até a Classe C, liderada por Ryuen, estivesse fazendo o mesmo. Eles não miravam apenas alunos com alto nível acadêmico. Seguiam os passos de Sakayanagi, bem atrás dela.
— Seria ótimo se pudéssemos fazer o mesmo, mas, bem… — disse Yousuke, deixando a frase no ar.
— Isso seria difícil, eu sei — respondeu Horikita, completando o raciocínio.
Nós éramos a Classe D. Sakayanagi era a Classe A. Mesmo os alunos que haviam acabado de chegar à escola já sabiam qual turma tinha melhor reputação. Ao considerar o futuro, era natural que preferissem a classe superior, que poderia ajudá-los mais.
— Obrigada. Pode continuar investigando isso para mim? — perguntou Horikita.
— Claro. Se eu descobrir alguma coisa, te aviso — respondeu Yousuke, sorrindo de forma alegre antes de voltar para seu lugar.
Pouco depois, recebi uma mensagem instantânea de Horikita: "Então, é isso." Parecia que Horikita percebeu que eu estava ouvindo sua conversa com Yousuke.
— Hirata-kun é realmente confiável, não é? — acrescentou.
— Com certeza — respondi.
Ele e Horikita haviam tido um desentendimento no passado, mas aquilo já era coisa do passado. Yousuke trabalhava incansavelmente pelo bem da turma, tornando-se extremamente confiável. Suas habilidades de comunicação e inteligência eram valiosas, mas sua maior força era a confiabilidade. Ele tinha histórico impecável. Se Yousuke estava envolvido, todos acreditavam que ele dava conta do recado. Era exatamente por isso que Horikita discutia sua estratégia tão abertamente com ele.
— Estamos em desvantagem só por sermos a Classe D. O caminho à frente vai ser difícil — disse Horikita.
— Mesmo assim, vamos nos virar. Boa sorte.
— Você sabe que também tem um papel a cumprir, certo?
— Quer dizer, a questão com a Nanase?
— Sim. Quero uma resposta o quanto antes. Diga a ela que estamos prontos para começar quando ela estiver.
Ou seja, ela queria que agíssemos rapidamente e fechássemos o acordo. Aproveitar o momento, como se diz. Afinal, se não fizéssemos isso, as outras turmas continuariam levando os melhores alunos.
— Provavelmente será depois de amanhã, no entanto. Preciso resolver outro problema primeiro — respondi.
— Claro. Eu sei disso — disse Horikita.
*
A AULA TERMINOU naquele dia, e ainda não tínhamos recebido uma resposta da Nanase. Mesmo que ela respondesse agora e dissesse que poderíamos ir hoje, Horikita e eu não conseguiríamos fazer nada. Havia um problema mais imediato que eu precisava resolver com urgência — ou seja, a promessa repentina que havíamos feito à Amasawa outro dia, de preparar uma refeição caseira para ela.
Se eu conseguisse uma nota de aprovação, poderíamos convencê-la a formar parceria com o Sudou. Uma oferta extremamente tentadora. Mas o obstáculo que eu precisava superar não era pequeno.
Quando cheguei à entrada do Keyaki Mall dez minutos antes do horário marcado para nosso encontro, parecia que Amasawa ainda não tinha chegado. Então fiquei ali parado, sem me preocupar em olhar o celular ou qualquer outra coisa, apenas observando de forma descontraída os alunos entrando e saindo. Alunos de todos os anos circulavam pelo shopping, conversando sobre isso ou aquilo.
A temperatura naquela manhã estava um pouco mais alta que o normal, mas, à medida que a noite se aproximava, foi ficando gradualmente mais fresca. Parecia que a temperatura cairia ainda mais à noite. Eventualmente, exatamente na hora que combinamos de nos encontrar, Amasawa apareceu.
— Perfeito, Ayanokoji-senpai — disse ela, aproximando-se com um grande sorriso, acenando com a cabeça várias vezes, como se estivesse satisfeita com algo.
— Do que você está falando? — perguntei.
— Você esperou no lugar combinado, antes de eu chegar. E nem sequer fez mais nada enquanto esperava — disse Amasawa.
Ela era surpreendentemente perspicaz. Ou melhor, ela entendia muito bem minhas ações, até mesmo as triviais. Quando disse que eu não fiz mais nada, provavelmente queria dizer que eu não fiquei mexendo no celular ou ligando para alguém enquanto esperava.
Em breve, Amasawa me colocaria à prova. Ou seja, eu teria que preparar a refeição para ela. Pensando nisso, eu poderia ter usado o tempo que fiquei esperando para pesquisar receitas diversas e tentar bolar um plano de última hora.
Mas, se eu precisasse explicar de forma simples, seria como ficar olhando atentamente para o livro didático até o sinal tocar no dia de uma prova escrita. Claro, procurar informações no celular não violaria nenhuma regra que Amasawa tivesse estabelecido. Mas provavelmente me faria parecer alguém inseguro na cozinha.
O mesmo valeria para ligar para alguém, o que faria ela pensar que eu estava pedindo ajuda. Portanto, decidi deliberadamente não fazer nada, para parecer calmo e confiante. Eu pretendia implantar essa impressão no subconsciente de Amasawa, mas ela percebeu imediatamente o que eu estava fazendo.
— Então, Ayanokoji-senpai, vamos? — disse Amasawa, posicionando-se ao meu lado e me puxando rapidamente para dentro do shopping.
— Para comprar os ingredientes, certo? — perguntei.
— Isso mesmo! Bem, isso também. Você precisa comprar os ingredientes para o que vai preparar para mim. Você tem dinheiro? — perguntou Amasawa.
— Uma quantia razoável.
Na verdade, eu não tinha muito. Mas não iria dizer nada exagerado na frente de uma caloura.
— Oba, ótimo! Então não vou ficar tímida. Hum, vamos ver… Acho que ouvi dos meus colegas que vendem tudo o que a gente precisa aqui, mas… onde será que ficam os cestos de compras? — disse Amasawa.
Em vez de ir direto para o supermercado, ela se dirigiu à loja "Humming", especializada em produtos para casa. Pegou um cesto azul que estava perto da entrada. O que ela disse antes, "isso também", ficou martelando na minha cabeça. Eu sabia que iria cozinhar para ela mais tarde, mas será que havia algo mais que eu precisaria fazer além de comprar os ingredientes?
Amasawa parou na seção de utensílios de cozinha. Quando comecei nesta escola, eu já tinha vindo algumas vezes comprar o que precisava. Além dos alunos, professores e outros adultos que trabalhavam no café ou na cantina também precisavam desses produtos, então a seção de utensílios era particularmente grande. Lembrei-me de não ter encontrado facilmente o que procurava quando vim pela primeira vez.
Parecia que vários produtos novos tinham surgido desde a última vez que estive ali, há algum tempo. Considerando que Amasawa parou nessa seção, pensei se ela planejava comprar algum utensílio ou equipamento especial. Havia inúmeros utensílios, como descascadores, raladores, pilões e almofarizes, entre outros. Alguns desses, é claro, eu não tinha.
O que achei estranho foi que Amasawa nunca perguntou que utensílios eu já possuía. Teria sido razoável ao menos discutir o que já tinha e o que faltava. Se ela estivesse preocupada em perder tempo, ainda teríamos conversado sobre isso enquanto caminhávamos, mas eu contive o impulso de perguntar, deixando Amasawa comandar a situação.
Em vez disso, tentei iniciar um assunto que não tinha relação com utensílios de cozinha:
— Você não cozinha para si mesma, Amasawa? — perguntei.
— Eu? Ah, acho que nunca cozinhei antes. Não sou do tipo que realmente cozinha. Prefiro ser alimentada do que alimentar alguém — explicou Amasawa.
Nesse momento, ela parou, aparentemente tendo chegado ao local que queria. Até então, o processo tinha sido incrivelmente tranquilo. Amasawa olhou para os produtos nas prateleiras, cruzou os braços e pensou por cerca de meio minuto, como se estivesse indecisa. Então, provavelmente tomando uma decisão, murmurou:
— Certo — e assentiu.
— Ok, então, primeiro vamos precisar de uma tábua de cortar, certo? Depois, uma faca de cozinha? Um bowl, um batedor e também, também, vamos precisar de uma panela e uma concha — disse Amasawa, jogando os itens no cesto enquanto os listava.
O último item que ela colocou no cesto foi uma grande colher. Pelo visto, era uma concha. Tive um pressentimento de que algo estava estranho.
— Espera, pera aí. Eu praticamente já tenho quase todos esses itens no meu quarto — disse apressadamente.
— Ah, não se preocupe! Estou só fazendo você comprar essas coisas para mim, para quando você for cozinhar — disse Amasawa.
Ela só queria que eu comprasse tudo para ela…? Até a tábua que ela escolheu era de muito melhor qualidade que a minha. Parecia feita de cipreste japonês e custava pouco mais de quatro mil pontos. O restante dos utensílios também era de alta qualidade.
Parecia que ela ainda tinha outros itens para riscar da lista, porque se dirigiu para conferir a próxima prateleira. Assim que chegou lá, pegou uma faca de frutas sem hesitar.
— Para alguém que diz ser bom cozinheiro, ter uma boa faca pequena é essencial, não é? — disse Amasawa, em um tom casual, antes de jogar o item no cesto.
Eu era um completo amador e nem sabia que facas de frutas eram chamadas de facas pequenas, ou petty knives. Ah, e a propósito, a faca pequena que ela escolheu também era cara, quase três mil pontos. Mesmo havendo opções mais baratas na prateleira ao lado, ela nem olhou para elas. Pelo que eu percebi, as únicas diferenças eram se vinham com capa e se eram feitas no Japão.
Mais uma vez, o produto que ela escolheu era bastante extravagante. Aparentemente, pessoas habilidosas na cozinha eram esperadas de dominar o manuseio de facas pequenas como aquela.
— Ei, só pra saber, mas quem vai pagar por isso…? — perguntei.
— Ah, claro que você, Ayanokoji-senpai! Obviamente — respondeu ela.
Eu já sabia disso. Mas o custo total de todos esses itens facilmente ultrapassava quinze mil pontos. Suponho que isso significava que eu poderia simplesmente descartar as coisas baratas que estava usando até agora. Pensar que poderia usar esses utensílios de alta qualidade quando cozinhasse para mim no futuro ajudava a engolir melhor o que estava acontecendo.
— Ah, e já te disse antes, mas lembra: você está comprando isso para usar só para mim, entendeu? Nada de usar no dia a dia — disse Amasawa.
— Você é algum tipo de demônio malvado? — perguntei, verbalizando meus pensamentos nada agradáveis.
O mais desagradável é que parecia que ela esperava que eu reagisse assim e dissesse algo rude.
— Se quiser desistir, tudo bem. Pode parar a qualquer momento, sabe — provocou, segurando a borda do cesto.
Ela estava aproveitando bastante a situação vulnerável em que eu me encontrava e que me impedia de recusar. Ainda assim, se eu encarasse aquilo como uma maneira de conseguir que Sudou fizesse parceria com uma aluna de rank A, então quinze mil pontos ou mais seria um excelente negócio. Eu só precisava pensar assim.
— Não, entendi. Aceito todas as suas condições, então pode escolher o que quiser que eu compro — disse.
— Você acha que sou uma garota má? — perguntou Amasawa.
— Não, não acho — respondi.
Amasawa me encarou intensamente. Então, sorriu. Não consegui dizer se era porque ela sabia de algo ou porque algo escapava à percepção dela.
— Então está tudo certo, senpai — disse Amasawa.
E assim tive que comprar tudo: da panela à concha e tudo mais. Com a condição assustadora de que tudo seria usado única e exclusivamente para Amasawa.
*
Depois, fomos ao supermercado para comprar os ingredientes, que era o principal motivo de termos vindo ao shopping. No final, a viagem me custou cerca de vinte mil Pontos Privados. Nem preciso dizer que era a primeira vez que eu comprava tanta coisa. As sacolas de plástico que carregava nas duas mãos eram tão pesadas que as alças cortavam meus dedos.
Por mais que eu tentasse, não conseguia adivinhar exatamente o que Amasawa queria que eu preparasse com aqueles ingredientes. Ela havia me feito comprar de tudo, de vegetais a carne e frutas. No entanto, alguns pratos eu conseguia imaginar como possibilidades. Por exemplo, o fato de ela ter me feito comprar molho de peixe e pimentas me deu algumas ideias.
O problema era que, bem… se ela pretendia que eu usasse todos aqueles ingredientes, tudo bem. Mas também era possível que ela tivesse misturado alguns itens apenas para me confundir, só para dificultar a situação. Considerando as coisas que Amasawa disse e fez hoje, não pude deixar de suspeitar dessa possibilidade. Provavelmente seria quase impossível eu adivinhar exatamente o que ela queria que eu fizesse nesse estágio.
— Tudo pronto, está tudo aqui! Então, vamos voltar para o seu quarto, senpai? — perguntou Amasawa.
Ela parecia tão empolgada quanto uma garota indo para o quarto do namorado. Mas não havia como eu sentir um pingo de entusiasmo. Afinal, se eu não conseguisse preparar um prato que a satisfizesse, esse arranjo provavelmente seria cancelado. Além disso, cozinhar algo delicioso para alguém era uma tarefa bastante abstrata. Se fosse um teste no qual ela já decidira me reprovar, acabaria sendo apenas um desperdício dos meus pontos e do meu tempo.
Ainda assim, não tive escolha a não ser aceitar a situação silenciosamente. Nunca imaginei que a decisão impulsiva de Horikita pudesse levar a algo tão exaustivo e incômodo. Eu não havia discutido o custo dos ingredientes com Horikita e Sudou antes, mas, considerando minhas despesas, pretendia comentar com eles depois. Por enquanto, guardaria esse pensamento para mim.
Para me ajudar a aceitar a situação o máximo possível, decidi perguntar a Amasawa algo que estava me intrigando:
— Ei, não é meio estranho querer pedir para um cara que você nem conhece cozinhar para você e te alimentar? Quero dizer, normalmente alguém não sentiria resistência a isso? — perguntei.
Era só minha opinião pessoal, mas eu achava que a maioria das pessoas se sentiria relutante. Você não só olharia para a comida, precisava colocá-la na boca e engolir. Preocupações com sabor e higiene eram naturais, e por isso a pessoa normalmente quer saber quem está preparando, como está sendo feito, e assim por diante. Com o tempo, à medida que você conhecia alguém, a confiança se estabelecia e essas preocupações diminuíam.
— Você acha? Mas não é meio como comer fora em um restaurante? Quero dizer, você não tem ideia do que acontece na cozinha de um restaurante, já que quem cozinha é um estranho — disse Amasawa.
Bem, era verdade que não sabíamos exatamente como a comida da cantina da escola era preparada. Mas, embora parecesse semelhante, a situação do restaurante e essa eram bem diferentes na prática.
— Mesmo que só estejam fazendo um onigiri, os restaurantes seguem regras rígidas de higiene. Isso é completamente diferente de deixar algum estranho cozinhar para você, não é?
— Sério? — disse Amasawa, argumentando. — Na verdade, eu prefiro estar em uma situação em que eu possa ver a pessoa cozinhando bem do meu lado. Aí você consegue perceber tudo sobre ela: como é a aparência, como se movimenta, como prepara as coisas, tudo. Dá pra até perceber o cuidado com a higiene. Já em alguns restaurantes, você nem vê a cozinha direito, não é? Tem lugares por aí que são super sujos. Tão insalubres que tem até insetos e tal.
Ela estava dizendo que, se pudesse realmente ver a pessoa, não se importava se fosse um estranho.
— Além disso, eu acho que já tenho uma noção geral de como as coisas funcionam nesta escola. No improvável caso de eu acabar com zero pontos, teria que economizar muito, certo? Mas não precisaria me preocupar com nada disso se o senpai cozinhar pra mim — continuou Amasawa.
Entendi. Ou seja, se eu conseguisse preparar algo gostoso para ela agora, ela planejava me fazer fazer de novo. Não era uma situação "uma vez e pronto". A intenção dela era garantir uma alimentação estável para emergências. Para mim, bem, supus que seria uma boa oportunidade para melhorar minhas habilidades culinárias. Mas tinha que me perguntar se ela estaria disposta a pagar pelos ingredientes.
— Então, consegue ver de onde estou vindo? — perguntou Amasawa.
— Mais ou menos — respondi.
Amasawa abriu um largo sorriso. Mesmo assim, eu ainda tinha dúvidas sobre se era realmente adequado ela pedir a um aluno mais velho, e ainda por cima do sexo masculino, para fazer algo assim para ela. Eu pensaria que seria muito mais fácil, no futuro, ela fazer esse tipo de pedido a uma colega ou alguém do mesmo sexo com quem tivesse amizade.
Bem, supus que não deveria reclamar, já que eu seria beneficiado.
— Enfim, eu sou super exigente com gosto, sabe? Então, se não ficar realmente bom, o combinado está cancelado, tá? — disse Amasawa.
— Sim, eu sei. Sei que só cozinhar algo não basta para atender aos seus requisitos.
Não era uma tarefa simples, mas eu só precisava fazer o melhor que pudesse. As habilidades culinárias que Horikita me ensinou em uma noite seriam vitais, embora eu me perguntasse quanto realmente conseguiria aplicar das técnicas que aprendi desde que aceitamos a proposta de Amasawa ontem.
Mesmo assim, Amasawa provavelmente não era uma adversária que eu pudesse enganar facilmente. Pelos ingredientes que ela me fez comprar, dava para perceber que estava ansiosa para testar minhas habilidades.
Pouco depois, chegamos ao prédio do dormitório. Amasawa colocou a palma da mão sobre a testa, tentando afastar o sol enquanto olhava para o prédio.
— Na verdade, estou um pouco nervosa de entrar no dormitório do segundo ano — disse Amasawa.
Apesar do que disse, não parecia nervosa. Pelo contrário, parecia estar se divertindo, como se estivesse saindo para se divertir normalmente.
— Ah, mas acho que o prédio é tipo igual ao nosso — disse Amasawa, compartilhando sua impressão depois de observar o exterior e, em seguida, o saguão ao entrarmos.
— Sim, provavelmente são — respondi casualmente, mesmo nunca tendo ido aos prédios dos outros anos antes.
Recebemos alguns olhares ao passarmos por estudantes das outras turmas. Era natural, afinal eu estava com uma garota do primeiro ano (sem contar que carregava várias sacolas). Amasawa acenou casualmente para os veteranos, mas isso só chamou mais atenção, então quis que ela parasse. Acelerei o passo e entrei no meu quarto com Amasawa atrás, antes que algum rumor estranho começasse.
— Obrigada por me receber! Uau, está super arrumado aqui. E bem limpo também! — disse Amasawa.
— Ah, eu só arrumei às pressas ontem à noite, já que ia receber uma caloura.
Fiz isso para que ela não percebesse nada que pudesse indicar que eu havia praticado culinária à noite. Agora, os próximos passos seriam extremamente importantes.
Depois de colocar minha mochila e as sacolas com os alimentos e utensílios no chão, em frente à cozinha, a primeira coisa que fiz foi ferver água na chaleira elétrica. Em seguida, fui para a sala com Amasawa e a incentivei a se sentar. Poderia tê-la colocado em um lugar onde não pudesse ver a cozinha, mas escolhi deliberadamente não fazer isso. Era importante que ela pudesse me observar pelo canto do olho.
— Vou preparar um café. Você pode assistir à TV enquanto espera, se quiser — disse.
— Obrigada, senpai — respondeu Amasawa.
Preparei o café com a água que havia fervido alguns minutos antes e pedi que ela esperasse um pouco antes de beber. Amasawa pegou o controle remoto na mesa e começou a trocar de canal aleatoriamente.
Embora não fosse um plano infalível, havia um motivo pelo qual o som da TV era extremamente conveniente para mim. Guiar sutilmente Amasawa para assistir à TV e deixar o controle remoto por perto tinha sido a decisão certa.
Dirigi-me à cozinha, mostrando que pretendia começar a trabalhar o quanto antes. Se ela tentasse casualmente ficar bem ao meu lado e monitorar o que eu fazia, teria que detê-la, mas, ao que parecia, isso não aconteceria.
— Ah, e consultar coisas no seu telefone é contra as regras, tá? — avisou Amasawa, olhando para mim.
— Cara, você é rígida. Hoje em dia muita gente consulta o telefone enquanto cozinha, sabia?
— Então você não está confiante? — provocou ela.
— Eu não disse isso.
— Que bom. Porque na minha cabeça, um bom cozinheiro é alguém que sabe as receitas de cor — disse Amasawa.
Mesmo sem ter explicado nada disso ontem, eu segui o fluxo casualmente. Já previa que isso seria algo que ela valorizaria.
— Nesse caso, vou deixar meu telefone ao lado da cama — disse a ela.
Conectei o cabo do carregador e coloquei o telefone ao lado da cama. Amasawa assentiu, com uma expressão de satisfação no rosto, e pegou sua xícara de café.
— Quero começar logo antes que fique muito tarde. Então, o que eu vou preparar? — perguntei.
— Certo, vou te dizer! O que você vai cozinhar, senpai, é… tom yum goong!
— Tom yum goong…? — respondi, surpreso.
Isso explicava por que ela havia me feito comprar molho de peixe e pimenta, itens essenciais na culinária tailandesa.
— Você consegue fazer? Por favor, senpai?
O prato que Amasawa me pediu para preparar era tom yum goong. Eu nunca tinha feito isso na vida, é claro. Na verdade, quase nunca tinha ouvido falar, muito menos provado. Não era um prato servido para nós na Sala Branca. Só sabia, por algum programa de TV, que era popular entre mulheres.
Se eu tentasse fazer agora, contando apenas com minhas habilidades atuais, provavelmente fracassaria. Eu não sabia os ingredientes específicos necessários nem quais passos seguir para prepará-los corretamente.
Então o que eu havia feito a noite toda, você pergunta? Bem, nada impulsivo como tentar decorar receitas de todas as cozinhas de todos os países e épocas. Também não tinha aprendido técnicas básicas de culinária. Considerando que Amasawa poderia permitir que eu consultasse receitas no telefone, seria inútil gastar tempo memorizando tudo.
Uma vez decidido que eu seria o responsável pela cozinha, Horikita havia colocado em prática dois planos de ação. A primeira parte consistia em me ensinar o básico: como manusear ferramentas fundamentais da cozinha, como facas, entre outras. Passei a maior parte do tempo praticando cortes, julienne, picar e fatiar — técnicas visuais que indicam habilidade na cozinha.
Claro, minhas habilidades estavam longe do nível de um profissional. Eu estava, no máximo, no nível de uma pessoa comum que sabia se virar um pouco na cozinha. É impossível dominar culinária em apenas meio dia, mas eu confiava na minha capacidade de aprender rápido. Pelo menos, cheguei ao nível de alguém que cozinha algumas vezes por semana.
Consegui isso porque não perdi um segundo tentando aprender receitas ou a preparar qualquer coisa. Claro, isso significava que eu não saberia fazer o prato que Amasawa me pediu.
Então entrava em cena o segundo plano de Horikita: um método para consultar a receita em tempo real, usando um telefone. Mas Amasawa havia me proibido de olhar o telefone, que agora estava "refém" ao lado da cama. Mesmo que eu tivesse um tablet escondido, havia chance de Amasawa perceber. De fato, ela ocasionalmente lançava olhares atentos na minha direção.
Tudo isso foi considerado no plano. Tirei algo do meu bolso direito, fora do campo de visão de Amasawa. À primeira vista, parecia um simples protetor auricular. Coloquei-o casualmente no ouvido direito, onde Amasawa não conseguiria ver, e limpei a garganta para dar o sinal.
A voz de Horikita veio através do pequeno fone de ouvido sem fio que eu havia colocado.
— Ouvi tudo claramente. Nunca imaginei que ela te pediria para fazer tom yum goong — disse Horikita.
A ideia era que Horikita, com acesso livre ao computador no quarto, pudesse me dar instruções de preparo em tempo real. O telefone de Sudou estava dentro da sacola no chão aos meus pés, transmitindo o áudio para o fone. Eu já estava em contato com Horikita desde antes de ir às compras com Amasawa.
Durante o tempo em que Amasawa e eu estávamos fazendo compras no shopping, Horikita voltou para seu quarto no dormitório e colocou tudo em ordem. O fone de ouvido sem fio era algo que tínhamos comprado ontem. No improvável caso de Amasawa se levantar e vir conferir como eu estava, eu poderia casualmente fingir coçar a cabeça, remover o fone e colocá-lo de volta no bolso. Como eu estava em uma posição em que Amasawa podia observar facilmente o que eu fazia, isso significava que eu também podia ver o que ela fazia.
Graças a isso, eu podia preparar o prato sem me preocupar com a receita. Já havíamos combinado vários sinais para usar em situações como se Horikita desse as instruções rápido demais ou se eu precisasse que ela repetisse algum passo. A partir desse ponto, a qualidade da comunicação entre Horikita e eu pelo telefone seria extremamente importante. Mesmo sabendo quais ingredientes e utensílios usar, eu não tinha referências visuais.
Eu tinha que cozinhar um prato chamado tom yum goong e, deixado por minha conta, estaria totalmente perdido. O que restava era ver quão bem Horikita conseguiria me dar instruções específicas pelo fone e quão bem eu conseguiria produzir algo a partir delas.
— A propósito, tem uma coisa que eu gostaria que você conferisse com a Amasawa-san primeiro — pediu Horikita, passando sua pergunta pelo fone.
Seria irritante se Amasawa pedisse algo extra depois, então fiz como Horikita instruiu e perguntei, repetindo a questão com minhas próprias palavras.
— Amasawa, você não precisa de um batedor para fazer o tom yum goong, nem precisa usar uma faca Petty. Se você vai me pedir para preparar algo além disso, gostaria que me dissesse agora — disse a Amasawa, lançando-lhe um olhar firme.
— Bem, eu ia pedir depois, mas estava pensando em te fazer descascar algumas maçãs — respondeu Amasawa. Aparentemente, ela pretendia fazer um pedido adicional. — O resto da comida é para você aproveitar depois, senpai. Ah, e quanto aos utensílios que você não usar desta vez, poderá usá-los na próxima vez que eu te visitar.
Pelo jeito, a faca Petty acabaria sendo usada hoje, embora eu duvidasse que precisasse dela. Mas alguns outros itens iriam para armazenamento por um tempo.
— Conferir de novo foi a decisão certa. Eu te ensinei a manusear a faca de frutas outro dia. Você consegue lidar, certo? — perguntou Horikita.
Eu não tinha ideia de quão bem conseguiria aplicar técnicas que aprendi em apenas uma noite, mas achei que provavelmente daria conta.
— Vamos mirar em uns quinze a trinta minutos de preparo, ok? — disse Horikita.
Agora, então, vamos ver quão bem consigo fazer isso.
*
Embora tenha levado um pouco mais de tempo que o esperado, consegui preparar o tom yum goong, exatamente como fui instruído. E agora era hora de servir o prato pronto para Amasawa. Nunca imaginei que serviria uma refeição caseira feita por mim para alguém que mal conhecia. E ainda por cima, uma garota.
Coloquei o tom yum goong na mesa e voltei com uma maçã na mão. Provavelmente precisava mostrar a Amasawa que eu sabia usar a faca Petty bem na frente dela.
— Normalmente uso uma faca de cozinha normal para descascar, então não estou muito acostumado a fazer assim. Posso errar um pouco — disse, colocando isso como um tipo de aviso antes de começar a descascar a maçã.
— Uau, incrível! Incrível! Você lida super bem! Você definitivamente manda bem nas habilidades com facas — disse Amasawa.
Eu estava longe de ser profissional, mas parecia que não era a primeira vez que pegava uma faca na vida. Coloquei as fatias de maçã que terminei de cortar.
— A propósito, quando penso em tom yum goong, geralmente penso em coentro. Você não gosta ou algo assim? — perguntei.
O coentro não estava entre os itens que ela me fez comprar hoje.
— Hm, bem, acho que sim? Mas pensei que, se te fizesse comprar coentro, você ia adivinhar que eu queria que você fizesse tom yum goong — respondeu Amasawa.
Pelo jeito, ela estava em alerta o tempo todo e deliberadamente decidiu não incluir o coentro. Suponho que fosse para me impedir de fazer qualquer truque. Eu entendia por que ela tentava evitar me dar oportunidades de explorar, mas ainda assim era meio exagerado.
— Você se importa se eu começar a limpar agora? — perguntei, levando a tábua de cortar e a faca Petty de volta para a cozinha.
— Ah, sim, me importo! Você vai ter que sentar bem aqui e esperar pelo meu veredicto — respondeu Amasawa, me direcionando a sentar em frente a ela.
Como eu não podia exatamente contrariar suas exigências, desisti de limpar por enquanto e voltei da cozinha para a sala de estar, como ela tinha me instruído.
— Certo. Hora de devorar! — disse Amasawa, levando lentamente uma colher de tom yum goong fumegante à boca.
Ela não parecia ter nenhum problema em ser observada enquanto comia. Mas eu supunha que era como ela nesse aspecto, já que também não me importava com pessoas por perto. De qualquer forma, quando terminou de comer, Amasawa juntou lentamente as mãos em um gesto de satisfação.
— Obrigada pela comida — disse ela.
Não parecia que tinha comido como um passarinho, considerando que a tigela parecia ter sido limpa com a língua. Mas, bem… embora eu tivesse provado o prato antes de servi-lo, não tinha ideia se o sabor estava certo. Eu não cometi nenhum erro nas medidas ou qualquer outra coisa, então não achava que houvesse problemas. Ainda assim, se Amasawa dissesse que não estava satisfeita, essa batalha estaria perdida. Terminaria em nossa derrota.
— Então, senpai, o seu tom yum goong está… — Amasawa fez uma pausa antes de dar seu veredicto. — É… mais ou menos. Não estava particularmente saboroso, mas foi bom o suficiente para que eu não me importasse de comer de novo — disse Amasawa.
Ela não tocou no que mais me preocupava no momento — se eu havia passado no teste dela.
— De qualquer forma, vou te ajudar a limpar — disse Amasawa, pegando a tigela e a colher que usara e indo para a cozinha. Ela não estava apenas limpando seus pratos, por algum motivo. Começou a me ajudar de verdade a limpar tudo.
— Eu cuido disso — disse eu.
— Não, não, eu cuido, sério! Além disso, eu te obriguei a fazer tudo isso para mim, então me deixe fazer pelo menos isso. Sente-se e relaxe, senpai. Eu definitivamente não sou nenhuma cozinheira, mas contribuo em casa ajudando minha mãe a limpar, então sou boa nessa parte — disse Amasawa.
— Tudo bem, então, vou deixar você fazer isso. Ah, a propósito, qual é a minha nota? Como me saí? — perguntei.
Amasawa ficou em silêncio por um instante enquanto continuava a limpar. Só se ouvia o som do telejornal da noite na TV.
— Ah, é verdade. Acho que preciso te dizer sua nota. Hm, não sei… — disse Amasawa, hesitante, parecendo fingir que estava refletindo. Ela devia não ter gostado de como a fita do lado direito do cabelo estava, porque continuava ajustando, conferindo o reflexo no celular, tirando a fita e colocando de volta. Pouco depois, terminou de ajustar a fita e então deu seu veredito.
— Como eu disse há pouco, foi mais ou menos. A execução não foi ruim, e o sabor também não — disse Amasawa.
— Então eu passei por pouco, né. Uau, pesado.
— Bem, eu sou muito exigente com comida, sabe — disse Amasawa, olhando para mim com um grande sorriso. — Acho que isso significa que se eu voltar aqui para comer de novo depende de quão duro você trabalhar, senpai.
Suponho que isso significava que minhas habilidades culinárias não estavam no nível que a faria querer voltar com frequência para que eu cozinhasse para ela. Ainda assim, "mais ou menos"… Foi pesado. Fiquei um pouco hesitante em perguntar se isso significava que tínhamos falhado, mas decidi ir em frente.
— Então isso significa que falhamos? Você não vai ajudar o Sudou? — perguntei.
— Bem, embora eu não possa dizer que você passou, é verdade que você consegue cozinhar. Ainda assim, preciso te recompensar, já que você comprou tudo isso para mim e me deixou comer de graça. Então vou me unir ao Sudou-senpai, em reconhecimento aos seus esforços, senpai — disse Amasawa.
Não parecia exatamente satisfeita, mas aparentemente eu tinha conseguido atender aos padrões dela por pouco. Justo quando eu começava a achar que as coisas ficariam difíceis, recebi boas notícias. Respirei aliviado.
— Vou terminar de limpar em um instante, então aguente mais um pouco, ok? — disse Amasawa.
Eu não podia simplesmente ficar sentado olhando para ela enquanto trabalhava, então apenas observei silenciosamente o telejornal na TV enquanto esperava. Amasawa saiu da cozinha pouco depois, então devia ter considerado que o trabalho estava feito de acordo com seus padrões. Então, começou a mexer no celular, mostrando a tela para mim o tempo todo. Ela enviou um pedido de parceria para Sudou. Contanto que Sudou respondesse até o final do dia, a parceria estava garantida.
— O Sudou está ocupado com atividades do clube agora, então vou avisá-lo depois. Tudo bem? — disse eu.
Claro, a verdade era que Sudou não poderia responder de imediato, já que eu tinha seu celular.
— Sim, totalmente certo. Bem, me sinto mal por ter demorado tanto, então vou voltar para meu quarto agora. Até mais, Ayanokoji-senpai — disse Amasawa.
Tudo havia transcorrido sem problemas. Ela se dirigiu para a saída, indo para seu quarto.
— Amasawa, agradeço por ter se unido ao Sudou. Você realmente fez um grande favor para ele, e também para a Horikita — disse eu.
— Tudo bem, sem problema. Mas você ainda pode me encher de agradecimentos, ok? — disse Amasawa, despreocupada, enquanto calçava os sapatos.
— Se você não se importar, há outra coisa que eu gostaria de pedir, já que você está aqui.
Justo quando eu ia falar, Amasawa, que havia terminado de calçar os sapatos, se virou para me olhar.
— Você quer saber se eu vou servir de intermediária entre nossas classes, né? — disse rapidamente, sem perder o ritmo.
Bem, não era à toa que ela estava na Classe A e tinha classificação acadêmica A. Ela era bastante perspicaz.
— Sim, exatamente. Tem muita gente na nossa classe com dificuldade de encontrar parceiros, como o Sudou. Se você pudesse nos apresentar pelo menos um estudante disposto a ajudar, seria muito apreciado — disse eu.
— Desculpe, mas acho que isso não vai dar — disse Amasawa, juntando as mãos e pedindo desculpas.
Ela rejeitou meu pedido de imediato.
— Ah, mas não é porque você ou a Horikita-senpai fizeram algo errado, ok? Eu acho que posso confiar em vocês. Mas, bem, eu não me dou muito bem com meus colegas. Quer dizer, quando nos encontramos ontem, eu estava sozinha, lembra? — disse Amasawa.
— Agora que você menciona, sim. Você tem razão.
Naquele momento, muitos estudantes estavam passeando pelo shopping com seus amigos. Mas Amasawa estava sozinha.
— Acho que é porque dizem que eu não tenho tato ou algo assim, ou que costumo ser bem direta. É meio difícil fazer amigos com esse tipo de personalidade. Por isso não consigo ajudar muito vocês. Desculpa, tá? — disse Amasawa.
— Nah, o fato de você estar se unindo ao Sudou por nós já é mais do que suficiente. Se tiver algum problema, me avise. Talvez eu consiga fazer algo para ajudar.
— Tá, obrigada! Então é isso. Até mais! Tchau tchau! — respondeu Amasawa animadamente.
Embora eu não tivesse conseguido estabelecer uma conexão com a Classe 1-A, isso provavelmente era suficiente por enquanto.
— Bem, acho que é isso — murmurei para mim mesmo. Pendurei o celular do Sudou, que ainda estava em chamada o tempo todo, e então liguei para Horikita usando meu próprio celular.
— Bom trabalho. Parece que tudo deu certo, de algum modo — disse Horikita, palavras de gratidão saindo quase assim que eu atendi a ligação.
— Tenho a impressão de que fomos salvos pelo julgamento bondoso da Amasawa.
— Mesmo assim, isso significa que o problema do Sudou-kun foi resolvido. Foi um excelente resultado — disse Horikita.
Era errado termos usado um truque tão sujo com Amasawa, mas, no fim, ajudou. Tudo o que precisávamos agora era garantir que Sudou aceitasse o pedido de parceria antes do prazo acabar. Considerando o horário, ele provavelmente apareceria a qualquer momento.
— Por que você pediu para a Amasawa-san agir como intermediária entre nossa classe e a 1-A, afinal? — perguntou Horikita. — Tirando a questão da personalidade dela e do número de amigos que tem, você não achou que seria difícil negociar com eles, já que somos a 2-D?
Horikita nunca tinha mencionado tentar trabalhar com a 1-A como parte de sua estratégia para este exame especial, simplesmente porque seria muito difícil construir uma parceria colaborativa com eles.
— Eu só pedi por formalidade. A verdade é que estamos com dificuldade de encontrar parceiros. Então teria sido suspeito se eu não tivesse dito algo nesse sentido — respondi.
Se parecêssemos não ter outras opções, passaríamos a impressão de que estávamos realmente agarrando em qualquer chance ao falar com eles e pedir ajuda. Se não passássemos essa impressão, e sim fizessemos parecer que tínhamos outras opções, eles poderiam suspeitar que tínhamos estratégias alternativas em andamento.
— Ou seja… você não queria que a Amasawa percebesse que desistimos da 1-A desde o começo, e que estávamos mirando B e D em vez disso? — disse Horikita.
Horikita nem havia considerado usar Amasawa para conquistar a classe dela para o nosso lado, já que havia decidido focar apenas nessas duas outras classes. Durante todo esse tempo, ela só esperava aproveitar a oportunidade inesperadamente favorável que caiu em nossas mãos e conseguir um parceiro para Sudou.
— Nenhum de nós realmente sabe como a Amasawa é de verdade. É exatamente por isso que o que aconteceu hoje pode acabar chegando ao resto dos calouros, ou até a todos do nosso ano. Eu levei isso em consideração. Talvez eu esteja me preocupando demais, porém.
Depois de me ouvir, Horikita ficou em silêncio por alguns momentos.
— O que foi? — perguntei.
— É só… seu processo de pensamento, é… Como posso dizer? É extremamente calculista e inteligente — disse Horikita.
— Não é grande coisa.
— Não, é sim. Claro, parece óbvio quando você explica assim, mas o fato de você ter pensado tão à frente é outra coisa totalmente diferente. Começo a entender por que meu irmão mais velho prestava tanta atenção em você, acho. Mas o velho você não teria explicado tudo tão claramente. O que aconteceu? — Horikita parecia preocupada com meu comportamento e a possibilidade de eu ter mudado.
— Não tenho realmente nenhum motivo oculto ou nada. De qualquer forma, a próxima questão é o que fazer com os alunos restantes. Avisarei quando ouvir algo da Nanase — respondi.
— Sim, você está certo. Vou esperar até ouvir de você então — disse Horikita.
Depois que desliguei com Horikita, decidi conferir como estava a cozinha. Tudo havia sido completamente arrumado. Não apenas os pratos tinham sido lavados, mas até a pia e os arredores haviam sido cuidadosamente limpos e secados. Tudo parecia tão bom quanto quando cheguei a esta sala há um ano. A tábua de cortar, os pratos, a faca de cozinha, a Petty knife, a panela, a concha, etc., que eu havia usado, estavam todos guardados de forma organizada. Tudo parecia perfeito.
Embora toda essa situação tivesse surgido de uma proposta da Horikita, esta era a primeira vez que eu interagia tão de perto com uma caloura. Se Amasawa tivesse vindo da Sala Branca, não seria surpreendente que ela tentasse alguma coisa, mas não vi sinais disso. Eu certamente estava bastante cauteloso, mas não pude deixar de me questionar.
Considerando a forma como ela falava e agia, parecia mesmo uma estudante normal do ensino médio. O tipo de conhecimento que ela tinha também parecia bem dentro do esperado. Se alguém tivesse acabado de sair da Sala Branca, provavelmente seria difícil se comportar como Amasawa.
— Mais importante, a Amasawa foi parceira do Sudou. Suponho que isso a elimina como suspeita da Sala Branca, né? — perguntei a mim mesmo.
Essa seria minha conclusão se eu tivesse que julgar com base nas informações disponíveis até agora, incluindo o que eu sabia sobre quais outros calouros já tinham definido parceiros. Provavelmente ainda era cedo demais para tirar conclusões assim, independentemente de quem estivesse sendo considerado.
Parecia que se associar a mim poderia me colocar no caminho rápido da expulsão, mas, dito isso, não era a única forma que um aluno da Sala Branca poderia usar para me fazer ser expulso. Era possível que, quem quer que fosse essa pessoa, estivesse intencionalmente deixando passar essa grande chance de me expulsar — este exame especial — para encontrar outra abertura a explorar. Alguém não conseguiria adquirir, da noite para o dia, o tipo de conhecimento que um estudante normal teria, mas seria diferente se tivesse mais tempo.
Além disso, não era como se não houvesse nada que me incomodasse na Amasawa. Algumas coisas que ela disse e fez chamaram minha atenção. Talvez não fossem preocupações sérias, mas seria melhor lidar com qualquer coisa que me desse motivo de suspeita.
E não me referia apenas à Amasawa. Também pensava em Housen e Nanase, com quem provavelmente teria contato no futuro. Entre os muitos estudantes do segundo ano ao redor, esses dois foram os primeiros a estabelecer contato visual comigo. Qualquer estudante que tivesse contato tão próximo comigo deveria ser considerado suspeito, independentemente de termos conversado ou não. A partir desse ponto, eu estava entrando em território perigoso ao procurar candidatos a parceiros.
Mais tarde naquela noite, recebi uma mensagem de Nanase. Dizia: "Vamos nos encontrar amanhã depois da aula."
*
Naquele mesmo dia, por volta da hora em que Ayanokoji estava cozinhando para Amasawa, três estudantes da Classe 2-A se reuniram em um lugar para discutir. Eram Sakayanagi, Kamuro e Kitou.
— Aconteceu de novo. Parece que os estudantes que procuramos receberam convites da Classe 2-C. E, além disso, parece que ofereceram dez mil pontos só para recusarem qualquer oferta da nossa classe, sem compromisso algum — disse Kamuro, transmitindo o que ouvia de Hashimoto pelo telefone. Acrescentou sua opinião: — Dez mil pontos só para decidir não se associar conosco? Que absurdo.
A Classe 2-C estava oferecendo cem mil pontos antecipadamente apenas para que aceitassem se tornar parceiros. Depois, ao confirmarem uma pontuação combinada de quinhentos e um pontos ou mais no teste, a Classe C ofereceria mais cem mil pontos, totalizando duzentos mil pontos.
— Fufu. Parece que o Ryuen-kun realmente pretende me desafiar — disse Sakayanagi.
— Então, o que vocês vão fazer? Querem contra-atacar usando pontos também? — perguntou Kamuro.
— Bem, se fosse uma disputa de poder financeiro, certamente ganharíamos. Mas você não acha que vencer usando a mesma estratégia do adversário carece de certa… qualidade artística? — disse Sakayanagi.
— Qualidade artística…? Mas se precisamos distribuir cem mil ou até duzentos mil pontos, não deveríamos entrar nessa também? Quero dizer, está claro que os novatos acham que os benefícios de ganhar pontos são enormes — disse Kamuro.
Já circulava pela escola que os calouros estavam em posição vantajosa neste exame. Um padrão havia sido estabelecido em que os alunos de honra pediam pontos em troca de se associarem a alguém. Após ouvir o comentário de Kamuro, Sakayanagi apenas sorriu, sem expressar concordância.
— Então, o que? Você aceita perder, então? Para o Ryuen? — disse Kamuro.
— Em primeiro lugar, há uma diferença significativa no nível acadêmico entre a classe do Ryuen-kun e a nossa. Se ele pretende compensar essa diferença com a ajuda dos calouros, precisará mobilizar bastante gente. E mesmo que consiga, não significa que a vitória dele seja garantida — disse Sakayanagi.
— É, talvez você esteja certa nisso. Mas isso não quer dizer que vamos ganhar com certeza, né? — respondeu Kamuro.
— Correto. Mesmo que Ryuen-kun reúna estudantes com nível acadêmico A, isso o deixaria apenas quase capaz de competir conosco, não acha? Mesmo que não fizéssemos nada, eu diria que nossas chances de vitória seriam de cinquenta por cento — disse Sakayanagi.
Por outro lado, isso também significava que havia cinquenta por cento de chance de perder. Não era que Kamuro estivesse se exaltando por querer ganhar a todo custo; era porque ela não conseguia acreditar que Sakayanagi, sentada bem à sua frente, ficaria parada sem fazer nada.
— O que você imagina que aconteceria se disséssemos que pagaríamos o mesmo valor? — perguntou Sakayanagi.
— O que aconteceria? Bem, o Ryuen pagaria ainda mais, né? — disse Kamuro.
— Exatamente. Tenho certeza de que ele provavelmente aumentaria a oferta para duzentos ou trezentos mil pontos — disse Sakayanagi.
— Mas se tentássemos superar a oferta dele, certamente conseguiríamos os estudantes mais inteligentes para o nosso time — retrucou Kamuro.
— E o custo disso seria um número considerável de pontos. Não há necessidade de arriscarmos deliberadamente perder milhões de pontos. Não concorda? — disse Sakayanagi.
— Então, o que, você está dizendo que podemos conquistar os estudantes mesmo oferecendo menos? Não consigo imaginar que os calouros compreendam profundamente a reputação da Classe A — retrucou Kamuro, ainda que Sakayanagi não desse sinais de que fosse entrar numa guerra de lances.
— Posso perceber claramente que Ryuen-kun está determinado a ganhar o primeiro lugar geral. Parece que ele mudou completamente sua política em relação ao ano passado, quando só buscava dinheiro, como fez com o Katsuragi-kun — disse Sakayanagi.
— Ele planejava economizar vinte milhões de pontos para vencer sozinho, certo? — disse Kamuro.
— Ele passou por uma mudança significativa de estratégia, ao que parece. Percebeu a importância dos Pontos de Classe. Bem, não… acho que deveria dizer que ele mudou de tática para garantir que sua classe vença — disse Sakayanagi.
Sakayanagi e Ryuen ainda não haviam tido um único contato presencial durante este exame especial. No entanto, quase parecia que estavam discutindo estratégias um com o outro.
— Então… você está de acordo com isso? Com não oferecer Pontos Privados? — perguntou Kamuro.
— Oh, minha nossa, Masumi-san. Não me lembro de ter dito sequer uma vez que não iria usar pontos, hm? — respondeu Sakayanagi.
— Hã? Mas você acabou de dizer que competir usando pontos carece de certa qualidade artística ou algo assim? — disse Kamuro.
— Quero que você passe uma mensagem para os calouros. Diga ao Hashimoto que estamos preparados para igualar a oferta de Ryuen-kun — disse Sakayanagi.
Kamuro franziu os lábios diante dessa ordem confusa.
— No entanto… mesmo que os calouros aceitem nossa oferta, não diga a eles que o acordo está fechado — acrescentou Sakayanagi.
— Hã? Espera, o quê? Sério, eu não estou entendendo nada aqui — respondeu Kamuro.
— Fufufu. Ryuen-kun, sua estratégia é realmente conveniente para mim — disse Sakayanagi, falando sozinha.
— Pelo amor de… eu não faço mais ideia do que está acontecendo — suspirou Kamuro.
— Ah, qual é, qual é o problema? Se a princesa diz que temos que fazer, então temos que fazer o que precisa ser feito, certo? — respondeu Hashimoto pelo telefone, em tom divertido, já que havia ouvido toda a conversa.
— Quer dizer, acho que tudo bem, tanto faz — disse Kamuro.
Sakayanagi havia instruído suas seguidoras a não confirmarem parcerias, mesmo que encontrassem calouros dispostos a aceitar a quantidade de pontos oferecida. Kamuro não conseguia entender o sentido de tudo, mas repassou as instruções a Hashimoto, palavra por palavra.
Sakayanagi olhou para Kamuro quase com ternura, parecendo sentir um pouco de remorso por ter sido muito rígida antes. Começou a explicar seu raciocínio, dando algumas dicas.
— A estratégia de Ryuen-kun de envolver-se em uma série de acordos extravagantes não é necessariamente ruim. Ao sair e negociar com tantos estudantes, ele conseguiu me forçar a entrar em uma guerra de lances. No entanto, focar nos mesmos estudantes que já havíamos contatado, nos fazendo competir diretamente por eles, foi um erro claro. Como a Classe C é inferior em habilidade geral, ele deveria focar apenas nos alunos com alto nível acadêmico — disse Sakayanagi.
No entanto, Ryuen não estava fazendo isso. Ele não estava apenas buscando os alunos de alto desempenho, mas também estudantes que a Classe A precisaria no futuro. Estudantes com habilidades além da área acadêmica.
— Isso significa que ele tem um monte de Pontos Privados guardados ou algo assim? — perguntou Kamuro.
— Bem, eu fico me perguntando sobre isso. Mesmo que ele tenha os pontos mínimos necessários para executar essa estratégia, o número de pontos que ele pode realmente usar pode não ser tão significativo. Entende? — respondeu Sakayanagi.
— Espera, não, isso seria loucura. Ele só consegue fazer oferta após oferta para todos esses alunos porque tem os pontos, certo? — disse Kamuro.
— Mas você pode fazer todas as ofertas que quiser, mesmo sem ter um único ponto. Ele só precisa fingir que tem os pontos disponíveis.
Kamuro não compreendeu de imediato o que Ryuen ganharia fazendo isso.
— Se não fosse por Ryuen-kun, poderíamos ter trazido com sucesso vários calouros talentosos para o nosso lado apenas com a reputação da nossa classe. No entanto, ele nos forçou a entrar em uma guerra de lances ao tentar comprar esses estudantes. E o que ele fará em seguida? Tentará elevar ainda mais a aposta. Tentará nos fazer pagar somas exorbitantes, tanto quanto conseguirmos gastar — disse Sakayanagi.
— Entendi… Huh, então é isso, né.
Mesmo que a Classe A acabasse conseguindo os alunos mais talentosos, o fato de serem forçados a pagar duzentos ou trezentos mil pontos jogaria a favor da Classe C na competição entre as classes do segundo ano.
— Mas estamos em desvantagem agora, não estamos? Quero dizer, ele está tendo sucesso após sucesso — disse Kamuro.
— Não há necessidade de pânico neste estágio. Alguns estudantes foram comprados por Ryuen-kun, só isso. Podemos deixá-lo sentir que está vencendo, que ganhou mérito. Ele cometeu alguns erros de julgamento. Principalmente, subestima o poder da reputação da Classe A. Ele pensa que pode ser anulado se tropeçarmos. E acredita erroneamente que pode conquistar qualquer número de colaboradores se oferecer dinheiro suficiente — disse Sakayanagi.
— Eu realmente não entendo, mas tudo vai dar certo contanto que façamos o que você nos disse, certo? — disse Kamuro.
— Sim. Isso será suficiente por enquanto — disse Sakayanagi.
— Não gosto disso. Sinto que estamos sendo forçadas a seguir os planos do Ryuen. Se continuarmos sendo arrastadas para os problemas que ele cria, não sei o que vai acontecer.
— Por favor, não se preocupe. Não será assim. Vamos vencer este jogo sem problemas.
Kamuro soltou um suspiro, mais uma vez incapaz de compreender totalmente o que Sakayanagi estava lhe dizendo.
— Não há sentido em tentar entender tudo agora, então, por favor, não se deixe levar pelo Ryuen-kun. Este exame especial é apenas um prelúdio. Estamos apenas sondando um ao outro, enquanto nos mantemos em cheque — disse Sakayanagi.
— Eu não consigo entender nada disso. Acho que estou quase pronta para desistir — disse Kamuro.
— Mas… se possível, eu preferiria que isso não terminasse na autodestruição do Ryuen. Não seria nada divertido encerrar tudo tão facilmente — disse Sakayanagi.
Ela olhou pela janela, rezando para que o inimigo que vinha atrás dela fosse digno de ser seu oponente.
*
Naquele mesmo dia, apenas duas horas depois da discussão entre Sakayanagi e Kamuro, Ryuen estava sentado com Ishizaki e Ibuki em uma das salas de karaokê.
— Parece que o estudante da Classe 1-B que queríamos conquistar por duzentos mil deixou nossa oferta em espera, Ryuen-san — disse Ishizaki, relatando a situação depois de conferir seu telefone.
— Que diabos? Duzentos mil não são o suficiente para satisfazê-los ou o quê? — disse Ryuen.
— Bem, parece que a Sakayanagi disse que a Classe 2-A vai oferecer a mesma quantia, então… — Ishizaki parou, sem completar a frase.
— Eles não querem perder para nós. Como vamos ganhar se continuarmos nesse jogo? Estamos em desvantagem — disse Ibuki.
— Acho que a Classe A tem um monte de pontos. Então sim, provavelmente estamos em grande desvantagem… — acrescentou Ishizaki.
Mesmo depois de ouvir essas notícias, Ryuen simplesmente ficou mexendo no celular. Não parecia estar preocupado de forma alguma.
— R-Ryuen-san? — perguntou Ishizaki.
— Relaxem. Eu já sei tudo o que eles estão tramando — disse Ryuen.
Ele lançou um olhar para seu copo vazio, o que fez Ishizaki se apressar em preenchê-lo com água.
— Digam a esses garotos que vamos pagar cem mil de entrada, e mais duzentos mil depois do exame — disse Ryuen.
— C-Cara, sério? — Ishizaki ficou pasmo.
Um total de trezentos mil pontos. A quantidade de pontos em jogo aumentava ainda mais.
— Mas a maioria dos calouros provavelmente não vai tomar uma decisão agora. Eles vão esperar pela contra oferta da Sakayanagi — disse Ryuen.
— Espera, não estamos basicamente nos prejudicando com isso? — disse Ibuki.
Se ficassem sem fundos, não teriam mais o que fazer.
— Talvez seja inútil competir contra a Sakayanagi… Talvez devêssemos tentar o segundo lugar… — acrescentou Ishizaki.
— Eu também acho. Mesmo que tivéssemos o mesmo número de pontos para oferecer, perderíamos em termos de reputação da classe — disse Ibuki.
Depois de ouvir Ishizaki e Ibuki analisarem a situação, Ryuen riu.
— Ha! Aposto que a Sakayanagi deve estar com aquele sorriso convencido no rosto agora, achando que já ganhou.
— Ela percebeu exatamente o que você está fazendo. Mesmo se você pudesse competir com ela usando Pontos Privados, ainda existe a diferença de reputação — disse Ibuki.
— Meh, a reputação da Classe A agora é só aparência, nada mais. Considerando o quanto esses caras dependem da reputação deles, a quantidade de confiança que vão perder quando ela ruir será incalculável — disse Ryuen.
— Ok, mas mesmo que isso seja verdade, e os pontos? Quero dizer, se as ofertas chegarem a trezentos ou quatrocentos mil, até que não seria tão ruim, mas não temos como pagar todo mundo — retrucou Ibuki.
— Não há necessidade de pagar. Não pretendo dar nada para esses garotos que ficam pedindo cada vez mais, como se o céu fosse o limite — disse Ryuen.
— Hã?
— Não vou ceder nenhum ponto. Estou apenas avaliando exatamente que tipo de pessoas são esses calouros. Sabe o que dizem — dinheiro fala. Mas as pessoas dispostas a cooperar se você colocar a grana são as que podem ser trazidas para o seu lado a qualquer momento. Quando você realmente precisar de ajuda, é só pagar, e pronto. Os verdadeiramente importantes são os que entendem intuitivamente coisas além dos pontos — disse Ryuen.
— Desculpa, mas eu não estou entendendo nada disso… — disse Ishizaki.
— A Sakayanagi provavelmente acha que estou atrás do primeiro lugar geral. Mas nunca planejei disputar um número tão insignificante de Pontos de Classe desde o início. Se vamos esmagar a Classe A completamente, só precisamos esperar o momento certo. O momento em que os Pontos de Classe realmente vão flutuar descontroladamente, muito mais do que agora — disse Ryuen.
— Então quer dizer que você fez tudo isso só para descobrir quais calouros aceitariam pontos? — disse Ishizaki.
— Desde o começo era óbvio que poderíamos pescar os garotos com pontos, se oferecêssemos mais. Mas já existem alguns alunos que se associaram a nós. Por que acha que eles escolheram a Classe C? — perguntou Ryuen.
— Hã… É, na verdade, agora que você mencionou, tenho que me perguntar. Por quê? — disse Ishizaki.
A primeira oferta que Ryuen fez foi de cinquenta mil pagos antecipadamente, e mais cinquenta mil depois do exame. Mesmo que a oferta não fosse alta, alguns estudantes já haviam aceitado e se aliado à Classe C.
— Isso me lembra… você sempre se encontrava um a um com as pessoas quando firmava parcerias de verdade… Você as ameaçava ou algo assim? — perguntou Ibuki.
— Bem, sim, um pouco. Você está certa nesse ponto — disse Ryuen.
Ou seja, os estudantes, atraídos por uma soma generosa de trezentos ou quatrocentos mil pontos, acabariam cedendo após serem entrevistados por Ryuen. No final, o valor acordado era muito menor do que parecia superficialmente.
— Estou avaliando os calouros para ver se eles conseguem perceber que eu sou melhor que a Sakayanagi — disse Ryuen.
Ele estava selecionando pessoas capazes de identificar instintivamente a classe vencedora, sem levar em conta pontos ou reputação. Esses eram os estudantes que Ryuen realmente buscava neste exame especial. Ele estava olhando muito à frente, além do próximo ano. Seu objetivo era derrotar Sakayanagi e o restante da Classe A.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag
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