Ano 1 - Volume 9
Capítulo 7: Todos os Bastidores
ESSA PARTE DA HISTÓRIA voltava para a sexta‑feira, 11 de fevereiro — o dia em que aquelas cartas afirmando que Ichinose era uma criminosa foram deixadas em nossas caixas de correio. Depois de ver o quanto Ichinose havia sido afetada por elas, e de Kamuro ter entrado em contato comigo para falar sobre seu passado como ladra de lojas, decidi posicionar minhas peças com antecedência para me preparar para a estratégia de Sakayanagi.
Para executar esse plano, liguei para uma certa aluna e pedi que viesse me encontrar no meu quarto.
A hora marcada chegou, e ouvi leves batidas na porta, em vez da campainha. Como a porta já estava destrancada, simplesmente a abri. O leve perfume de flores tocou meu nariz ao mesmo tempo que senti o ar frio vindo do corredor.
— Boa noite, Ayanokoji‑kun.
Como já era quase meia‑noite, Kushida falou em tom baixo.
— Desculpe por chamar você tão tarde. Se não se importar, por favor, entre.
— Tem certeza?
— Ficaria frio se ficássemos aqui na porta, não acha?
— Sim, é verdade. Obrigada.
Entrar no quarto de um garoto no meio da noite. E ficarmos sozinhos, ainda por cima. Qualquer um acharia suspeito, mas Kushida veio até meu quarto sem hesitar.
— É um pouco cedo, mas isto é para você, Ayanokoji‑kun.
Ela tirou uma caixa de chocolates embrulhada com uma fita rosa. Devia estar guardando dentro do casaco.
— Tem certeza de que quer me dar isso? — perguntei.
— Tenho vários para entregar no dia 14, então, se posso adiantar para alguém, tenho feito isso.
Como era esse o caso, aceitei de bom grado. Não havia motivo para recusar.
— Então… sobre o que você queria falar comigo? É um pouco incomum você me chamar a essa hora da noite.
Se fosse uma conversa casual, eu poderia procurá‑la pela manhã ou à tarde. Era natural que ela desconfiasse.
— Há algo que quero discutir com você.
— Hm… — Kushida pareceu surpresa. — Eu achava que você me odiava, Ayanokoji‑kun. E que não gostaria de discutir nada comigo.
— Eu realmente não a odeio. Na verdade, se alguma coisa, achei que você é que preferiria me evitar. Certo?
— Ahahahaha! Entendo. Bom, suponho que você tem razão.
A risada que ela soltou não era a de sua persona habitual, mas também não era a verdadeira Kushida escondida por baixo. Era algo entre as duas.
— Mas você não tem a Horikita‑san? Ela não é muito mais confiável do que alguém como eu? — perguntou.
— Para isso, só posso contar com você, Kushida.
— Bom, não sei se posso ajudar tanto assim, mas não me importo de ouvir, pelo menos. Mas o que você quer dizer com "só você pode me ajudar"? — perguntou ela, inclinando a cabeça em aparente confusão.
— Quero informações pessoais de alguns alunos do primeiro ano. Coisas que os deixariam envergonhados se viessem à tona. Em outras palavras, quero que me conte seus segredos.
— Como assim? — Kushida ainda sorria, mas seus olhos já não acompanhavam o sorriso.
— Você mesma disse antes, não disse? Que já tem informação suficiente para arruinar uma classe inteira. E não estava falando apenas da nossa. Você tem informações das outras também.
Kushida sempre se esforçava para manter sua imagem de pessoa popular, confiável. As pessoas a procuravam para contar de tudo, o tempo todo. Ela talvez não tivesse tantas informações sobre as outras classes quanto tinha sobre a Classe C, mas eu apostava que havia algo útil.
— E por que você quer saber esse tipo de coisa, Ayanokoji‑kun? — perguntou ela.
— Sabe que a Ichinose está sofrendo por causa de alguns rumores que estão circulando, certo?
— Sei, sim. E também teve aquelas cartas horríveis que apareceram hoje…
— Estou fazendo isso para pôr um fim a isso — respondi.
— Hm. Não entendo muito bem. Essa é realmente a sua intenção, Ayanokoji‑kun? Ou seria—
— Não tem nada a ver com a Horikita.
— Hm? Uau, você é bem compassivo, então. Bom, você salvou o Sudou‑kun naquela época também, suponho. — Naturalmente, Kushida sabia das ações que eu havia tomado para impedir a expulsão de Sudou pouco depois de começarmos as aulas. — Então você está dizendo que saber informações pessoais das pessoas tem relação com impedir esses rumores?
— Sim.
— Não entendo. Se você começar novos rumores que machuquem outras pessoas, a situação não vai piorar? Ou está dizendo que tudo bem, contanto que desvie a atenção da Ichinose‑san?
Ela talvez tivesse assumido que minha estratégia era salvar uma pessoa sacrificando várias. Embora fosse uma estratégia lógica, estava enganada quanto às minhas intenções.
— Sou bem próxima da Ichinose‑san — continuou Kushida. — Então, se houver algo que eu possa fazer para ajudar, eu quero ajudar. É verdade que talvez eu saiba mais segredos do que a maioria das pessoas. Mas isso não significa que posso simplesmente revelá‑los para você. Especialmente porque só me contaram depois de eu prometer que não contaria a ninguém.
Outra reação natural. Dificilmente alguém reagiria bem ao ver seus segredos mais íntimos expostos. Pode‑se pensar que o mais seguro é nunca contar nada a ninguém — mas seres humanos não funcionam assim. Todos confiam seus segredos à família, a amigos próximos, a amantes. Todos querem compartilhar seus sentimentos com alguém.
— Não posso trair meus amigos. Além disso, mesmo que eu coopere por causa da Ichinose‑san, eu não acabaria sendo descoberta como a pessoa que espalhou os rumores? — perguntou.
— Teríamos que tomar precauções para impedir que isso aconteça, é claro.
Não podíamos usar segredos tão sérios a ponto de terem sido confiados apenas a Kushida. Por outro lado, segredos triviais, conhecidos por todos os amigos da pessoa, também não serviam. Precisávamos de segredos no equilíbrio perfeito: conhecidos por alguns, mas não por muitos.
— Você realmente acha que vou ajudar a executar um plano que eu nem entendo direito? Um plano que me pede para trair meus amigos desse jeito? — ela perguntou.
— Convencê-la não vai ser fácil, suponho.
Se eu não soubesse sobre o lado oculto de Kushida, nossas negociações já teriam acabado ali mesmo. Não havia chance de que Kushida — que se esforçava tanto para interpretar o papel de um anjo — ajudasse em algo que causaria caos entre outras pessoas.
Mas eu conhecia sua verdadeira natureza. Isso significava que ainda havia espaço para diálogo.
— Se você me der informações adequadas, estou preparado para compensá-la de forma apropriada — eu disse.
— Compensar?
— Pretendo trabalhar para lhe dar aquilo que você deseja, Kushida, dentro do que estiver ao meu alcance.
— Está dizendo que vai conseguir o que eu quero?
— Sim, de certa forma. É exatamente isso que farei.
— Não há garantia de que vai cumprir sua palavra. Você é aliado da Horikita-san, Ayanokoji-kun.
— Então considere esta conversa o seu seguro.
— Como assim?
— Você sabe muito bem o que quero dizer. Não preciso dizer em voz alta, preciso? — Baixei o olhar por um instante, lançando um rápido olhar para o bolso de Kushida.
— Hm?
Ela ainda estava fingindo, então decidi avançar um passo mais direto.

— Mesmo que eu não diga explicitamente, você deveria entender. Um celular ou um gravador de voz. Ou talvez os dois?
— Então você sabia, hein? Que eu estava gravando isso.
— Achei que você faria pelo menos isso para ter uma garantia. — Era óbvio que ela tentaria usar nossa conversa como vantagem. — Quero dizer, eu esperava isso de você, Kushida.
— Mas você tinha absoluta certeza, não tinha? — Ela ainda tentava escapar pela fala, provavelmente achando que eu queria atraí-la para uma armadilha.
— Uma gravação perde muita credibilidade se você começar a cortar as partes que te incomodam — expliquei. — Você gostaria de usar os dados na forma bruta, sem edições, se possível. E, para isso, precisa ser cuidadosa com o que diz e faz.
Desde que chegara ao meu quarto, Kushida vinha escolhendo cada palavra com extremo cuidado, educada ao ponto do exagero. Ela estava se certificando de que não houvesse nenhuma falha em seu comportamento durante toda a conversa — caso algo acontecesse.
— Hm, para você ter tanta certeza só por isso… Nada mal.
Kushida tirou o celular do bolso e me mostrou a tela, provando que havia parado a gravação.
— Pronto. Terminei de gravar. Ugh, isso foi tão desconfortável — disse ela. A aura graciosa e gentil que ela vinha exibindo desapareceu completamente. — Bem, talvez você já esperasse isso de mim, mas eu sabia que era você quem estava ajudando a Horikita-san, no fim das contas.
— Admito que dei algumas ideias para a Horikita.
— Bem, tanto faz, não é grande coisa. Posso sempre perguntar mais sobre isso no futuro — disse Kushida, indo direto ao ponto. — Então… como exatamente você pretende usar informações pessoais de outras pessoas para parar os rumores sobre a Ichinose-san?
Ela se inclinou para a frente, pronta para ouvir.
— Envolvendo a escola, que tem observado tudo em silêncio.
— Envolver a escola…?
— Até agora, a Ichinose não tomou nenhuma atitude a respeito dos rumores. Então, naturalmente, a escola também não fez nada.
— Dá mesmo para assumir isso? Que a escola vai agir por causa da Ichinose-san?
— De certa forma, sim. Mesmo que o professor encarregado ouvisse o que está acontecendo, nada está sendo feito porque a própria Ichinose ainda não pediu ajuda oficial. É por isso que precisamos escalar a situação a um ponto em que a escola não possa mais ignorá-la.
Por mais isolada que fosse do mundo exterior, esta escola não poderia se dar ao luxo de ignorar difamações e rumores que pudessem levar a desistências — ou, no pior cenário, ao suicídio de algum aluno. Se esse se tornasse um ambiente onde calúnias corressem soltas, o prestígio da instituição entraria em colapso.
A escola não deixaria algo que pudesse evoluir para bullying aberto passar despercebido. Naturalmente, Sakayanagi estava mantendo suas táticas no limite do aceitável. Nesse caso, eu a empurraria discretamente para além desse limite. Ao fazer isso, forçaria a situação a entrar em colapso — e depois desaparecer.
Esse era meu objetivo.
— Nem todo mundo consegue ficar calado como a Ichinose-san. Então as pessoas acabariam indo chorar para a escola. É isso que está dizendo?
— Exatamente. E mesmo que ninguém vá até a escola, as provas finais estão chegando. Isso, somado aos rumores, vai criar um clima tenso. Podem acontecer discussões, talvez até brigas.
— E quando isso acontecer, a escola vai ser forçada a agir… não é?
Espalharíamos informações contendo uma mistura de verdades e mentiras sobre alguns alunos de cada classe. Muito provavelmente, mais da metade dos alunos mencionados negaria tudo. Talvez todos negassem. Mas o fato de que alguns rumores tinham elementos reais acabaria emergindo naturalmente.
— Se surgirem mais rumores agora, a Classe A será a primeira a ser suspeita. Isso joga a nosso favor.
A facção da Sakayanagi, que havia começado tudo para atingir a Ichinose, perceberia que esses novos rumores vinham de terceiros. Mas mesmo que percebessem, não poderiam fazer nada. Por mais que tentassem negar envolvimento com os novos boatos, não poderiam negar que ajudaram a espalhar os sobre a Ichinose. E isso já bastaria para que fossem considerados culpados antes de qualquer outro.
Agora que Kushida entendia isso, parecia ter captado o cerne do meu plano.
— Mas como você pretende espalhar tantos rumores assim? Isso não é fácil.
— Como? Vamos usar os murais da escola.
— Espera… os murais? Quer dizer aqueles do aplicativo da escola? Mas ninguém usa aquilo! E além disso, se a escola resolver agir, não vai punir quem postou? Mesmo que dê para postar anonimamente, eles não conseguem rastrear imediatamente quem fez?
Ela me bombardeou com perguntas.
— Naturalmente, já considerei todos esses riscos.
— Está dizendo que está preparado para o pior cenário, Ayanokoji-kun? De ser descoberto?
— Sim. E, claro, se isso acontecer, não direi uma palavra sobre sua participação.
Eu já tinha contramedidas em mente, mas não havia garantias absolutas. Contudo, não pretendia postar nada que pudesse ser rastreado até mim.
— Ainda assim, isso é perigoso para mim — disse Kushida.
— É verdade. Seria completamente estranho eu saber tanto sobre os segredos pessoais de outras pessoas. Se descobrissem que fui eu, poderiam achar que obtive essas informações de alguém — respondi.
Era importante não agir de forma perfeita demais diante de Kushida — eu precisava deixá-la pensar que havia brechas, e que ela estava no controle.
— Então, para nossa segurança, precisamos ser extremamente seletivos quanto ao conteúdo desses rumores.
— Certo. Eu entendo qual é o seu objetivo, Ayanokoji-kun. Vou considerar cooperar com você.
Em outras palavras, ela ainda não tinha decidido se realmente o faria.
— Então está dizendo que cooperará se eu aceitar suas condições. É isso?
— Exatamente.
Sem Kushida, executar essa estratégia seria difícil. Eu poderia inventar um monte de mentiras, mas mentiras puras não causariam o impacto necessário. Era justamente a mistura entre verdade e mentira que deixaria as pessoas em pânico — e esse pânico se espalharia como fogo.
— Certo então, quais são suas condições? — perguntei. Se fossem inaceitáveis, tudo iria por água abaixo.
— A expulsão da Horikita Suzune.
— Inaceitável.
— Imagino que sim, hm? — Esse era o desejo mais profundo de Kushida. Ela sabia que eu recusaria, mas perguntou mesmo assim, só por garantia. — Imagino que pedir que você abandone a escola também seja inaceitável, Ayanokoji-kun?
— Isso seria ainda mais inaceitável do que expulsar a Horikita.
— Ahahaha. — Kushida pareceu achar minhas respostas divertidas. — Mas não há nada mais que eu queira.
— Nesse caso, posso fazer uma sugestão? — resolvi fazer minha própria oferta.
— Certo. O quê?
— Eu lhe dou metade. Metade de todos os pontos privados que eu ganhar daqui em diante.
— O quê? Isso parece o acordo que o Ryuen fez…
Claro que ela já sabia de todos os detalhes do acordo entre Ryuen e a Classe A.
— Sim, é praticamente a mesma coisa. Naturalmente, compartilho meus extratos com você, se necessário, mostrando todos os depósitos e retiradas. Assim você pode garantir que não estou enganando. No total, até a formatura, você acabaria recebendo centenas de milhares — talvez milhões — de pontos. É um preço excepcional pelas informações que me fornecerá.
Houve um breve silêncio enquanto ela pensava.
— Não é uma oferta ruim, de fato. Mas, infelizmente, não estou passando necessidade de pontos privados. É melhor ter mais dinheiro do que menos, claro, mas estou bem com o que tenho agora.
Kushida tinha conseguido uma grande quantia durante o exame no navio. Mesmo gastando bastante, ainda deveria ter uma reserva sólida. Ainda assim, dinheiro era a forma mais direta e eficaz de negociação.
— Talvez você tenha pontos suficientes para gastar à vontade, mas nunca é ruim ter uma reserva para emergências — eu disse. — Chabashira-sensei comentou isso também, se não me engano. Que pontos privados podem ser necessários para se proteger.
Se encarados como uma apólice de seguro pessoal, acumular o máximo possível era simplesmente racional.
— Não importa por qual ângulo eu olhe, essa sua proposta parece colocá-lo em desvantagem, Ayanokoji-kun. Se você dissesse que está em risco de expulsão, eu até entenderia. Mas a ideia de que está disposto a abrir mão de metade da sua própria alma para salvar a Ichinose-san me parece… estranha.
— Eu gosto da Ichinose.
— Poupe-me das piadas.
Achei que ela fosse rir, mas aparentemente não achou graça nenhuma.
— Vou te dizer a verdade — falei. — Sim, vai doer perder metade dos meus pontos privados. Mas, fazendo isso, vou conseguir me proteger.
— Do que você está falando?
— Eu sou uma das pessoas que você quer expulsar. Não tem como saber quando você vai me apunhalar pelas costas. Em outras palavras, este é o meu plano de defesa.
— Você está dizendo que, se me fornecer seus pontos privados, vai se tornar um recurso valioso para mim, Ayanokoji-kun? É isso?
— Exatamente. Ter você como inimiga é um problema de que eu não preciso. Acho que vale a pena te dar metade dos meus pontos para evitar isso.
A oferta de pontos privados consolidaria esse arranjo. Enquanto nenhum de nós abandonasse o outro, ela continuaria ganhando pontos privados — o que não era nada mau.
— Entendo.
Depois de pensar por um momento, Kushida chegou a uma conclusão.
— Certo. Eu vou aceitar o seu plano. Mas isso significa que você está de acordo com a condição exata de que eu não faça nada para te antagonizar, Ayanokoji-kun — e só você? Não quer incluir algum tipo de garantia envolvendo a Horikita-san também?
— Não sou tão ganancioso. Além disso, seria mais problemático para mim se nosso acordo desmoronasse porque eu tentei proteger a Horikita também. São condições extremamente boas para você.
— Se você não se sente confortável com um acordo verbal, que tal colocarmos isso por escrito? — perguntei.
— Não, isso não vai ser necessário — disse Kushida, tirando algo do bolso.
Dessa vez não era o celular, mas um gravador de voz. Aparentemente, ela não estava gravando só pelo telefone; tinha uma cópia de segurança rodando também.
— Tenho todas as provas de que preciso aqui. Se você me trair, de qualquer forma… Você sabe o que vai acontecer, não é?
— Sei.
Se eu quebrasse o acordo, no pior cenário possível ela poderia falar com a escola. E então me sangraria até a última gota sem que ninguém percebesse.
— Você é mesmo impressionante, Ayanokoji-kun. Completamente diferente da Horikita-san.
Dar e receber. Não se podia pedir que alguém confiasse apenas com base em emoção. Emoções eram intangíveis, mas números eram concretos.
O método da Horikita não estava errado. Relacionamentos construídos sobre emoção podiam ser mais fortes do que os baseados em números e acordos. Mas, neste caso, seria difícil vender essa ideia. Eu poderia tentar persuadir Kushida a engolir seu ressentimento, mas isso teria sido um erro.
— Você tem certeza de que está bem em me dar metade dos seus pontos?
— Não achei que uma quantia menor realmente fosse te atrair.
Claro que seria um grande desgaste para mim continuar pagando pontos privados.
…Mas eu tinha certeza de que esse problema seria resolvido em breve.
— Bem, agora que estamos na mesma página, pode me dizer o que eu quero saber? — perguntei.
— Claro. O que você quer saber?
— Maldades ou histórias embaraçosas do passado das pessoas já servem. Basicamente, qualquer coisa que as deixaria desconfortáveis se viesse a público.
— Entendi… Certo, vou te contar algumas coisas.
Kushida, aparentemente se divertindo com a situação, começou a revelar os segredos que vinha guardando. Começou falando de quem gostava de quem ou de quem não gostava, e depois passou para informações sobre situações familiares dos alunos ou seus históricos de delinquência juvenil.
A voz dela estava entusiasmada, envolvida. Havíamos chegado a esse ponto, e ela ainda não entendia meu verdadeiro objetivo. Salvar Ichinose. Responder à provocação da Sakayanagi. Desviar a atenção do Hashimoto de mim. A ameaça do Nagumo. Tudo isso eram apenas componentes de um plano maior.
Entre tudo o que estava acontecendo, havia uma coisa que eu particularmente queria confirmar: a quantidade e qualidade das informações que Kushida Kikyou possuía. Tudo o que eu tinha feito era para confirmar isso… e para expulsá-la da escola.
Claro, não seria tão fácil. Se eu errasse o método, seria eu o prejudicado. Precisava estimar o poder explosivo do arsenal dela — em outras palavras, sua esmagadora rede de informações — e então analisá-lo.
Quem havia contado aqueles segredos para ela? E quantas outras pessoas os conheciam? Seu domínio sobre as personalidades e características dos estudantes era assustador. Eu podia afirmar com certeza que ninguém naquela escola tinha tanto conhecimento quanto ela, ao menos entre os alunos do primeiro ano.
Esse era o poder da Kushida. A habilidade que ela cultivara para se proteger e para fazer os outros a reconhecerem como um farol brilhante.
— Entendo…
— Isso aí te foi útil?
Claro que as informações que ela tinha me passado agora não eram nem de longe tudo o que sabia.
— Para a Classe C, quero divulgar informações sobre duas pessoas — falei. — Hondou e Satou.
— Acho que tudo bem. A antipatia da Satou-san pela Onodera já é bem conhecida. Ou seja, provavelmente era só questão de tempo até a Onodera descobrir mesmo. — Ela suspirou. — Eu não sou a pessoa mais gentil do mundo… mas talvez seja bom você lembrar que garotas são assim mesmo.
Kushida pegou o celular e me mostrou o aplicativo de mensagens. O tamanho da minha lista de amigos nem chegava aos pés da dela. Ela também estava em um monte de grupos de conversa.
— Por exemplo — disse —, olha este grupo que fiz com algumas meninas da nossa classe. Este é o Grupo A. Dá para ver que há seis pessoas nele, certo? Mas, na verdade, existe outro grupo, o Grupo B, formado pelas mesmas integrantes… exceto uma. Uma pessoa foi excluída do Grupo B. É uma garota chamada Nene, aliás.
Mori Nene. Ela era uma das garotas do grupo de amigas da Kei.
— Então você está dizendo que as pessoas não gostam da Mori?
— Exatamente. Se no Grupo A as garotas mostram seus sentimentos de fachada, no Grupo B elas dizem o que realmente guardam lá no fundo. Às vezes, elas se reúnem no Grupo B só para falar mal da Nene. Claro, eu jamais seria descuidada a ponto de fazer algo assim… mas, de qualquer forma, as pessoas podem até agir como se se dessem bem e sorrirem na superfície, mas, em segredo, sempre existe alguém de quem elas não gostam. É normal falar mal dos outros pelas costas. E não é como se houvesse apenas um ou dois exemplos de grupos públicos e ocultos como esses. Eu conheço dezenas e dezenas.
Kushida se levantou, parecendo satisfeita por ter conseguido falar sobre algo que normalmente não podia.
— Está tarde. Vou voltar para o meu quarto agora. Estou ansiosa para ver o resultado do nosso acordo, Ayanokoji-kun — disse ela, calçando os sapatos perto da entrada, de costas para mim.
— Kushida.
— Hm?
— Você me ajudou muito hoje.
— Ah, não foi nada. Bem, então, boa noite, Ayanokoji-kun. Espero grandes coisas do futuro.
Este era o momento ideal para perguntar à Kushida sobre sua proximidade com Nagumo. Mas decidi deliberadamente não tocar no assunto. Kushida e Nagumo terem se encontrado fora de hora era só coincidência, nada mais… mas isso não significava que eu não pudesse usar isso a meu favor.
E assim, usando a informação da Kushida como fonte, comecei a preparar os "boatos" sobre cada classe para lançar ao mundo.
*
14 DE FEVEREIRO. Dia dos Namorados. Foi o dia em que decidi lidar com Hashimoto, que vinha me seguindo continuamente durante o almoço e após as aulas.
Eu previa que a Kei fosse me dar chocolates de Dia dos Namorados, então decidi tirar vantagem disso. Minha aposta era que ela tentaria fazer isso cedo pela manhã ou tarde da noite. Não havia chance de fazer isso no meio do dia, enquanto estávamos na escola. Ela tinha acabado de terminar com o Hirata e não tinha motivo para andar com chocolate na bolsa. Além disso, só o fato de ela estar dando chocolates a alguém já causaria um enorme rebuliço se vazasse.
Por isso, desliguei meu celular na noite anterior ao Dia dos Namorados. Não havia chance de nos encontrarmos casualmente, mas ainda assim o desliguei, só para não ter que inventar desculpas sobre não ser conveniente nos encontrarmos pela manhã. Quando nos encontrássemos, tinha que parecer natural.
Hashimoto devia estar ficando bem impaciente a essa altura, já que não tinha obtido nenhum resultado significativo ao me seguir. E foi exatamente por isso que decidi dar a ele uma dica de que algo iria acontecer. E o que aconteceu foi o nosso encontro secreto — eu e Kei — e eu aceitando os chocolates dela.
O motivo de eu ter marcado para às cinco horas é que Hashimoto me seguia até por volta das seis. Como era de se esperar, ele estava observando as câmeras de vigilância do saguão para ver o que eu faria. Esta foi a primeira oportunidade inexplicável que ele viu desde que começou a me seguir, e então se aproximou sem hesitar e falou diretamente com nós dois. Bem, os resultados teriam sido praticamente os mesmos mesmo se ele tivesse só ficado observando.
Hashimoto ficou satisfeito com a resposta de que a Kei poderia ser a pessoa com quem eu estava em contato frequente. No dia seguinte, ele parou de me seguir. Tinha voltado sua atenção à preparação para o exame de fim de ano.
E assim, naquele dia, finalmente pude me mover livremente.
Fui para o prédio da escola com os chocolates da Kei ainda na minha mochila. Depois, encontrei Shiina Hiyori na biblioteca. A maior parte da nossa conversa foi sobre livros bobos, mas eu tinha outro motivo. Nossa conversa era apenas uma preparação para os inúmeros boatos que eu começaria a espalhar no dia seguinte.
Eu havia decidido plantar a semente da ideia de que a Classe A poderia estar fazendo mais do que apenas iniciar rumores sobre a Ichinose. Essas sementes começaram a florescer alguns dias depois. Deliberadamente escolhi Ishizaki e Ibuki — ambos voláteis e briguentos — como alvos desses boatos, porque sabia que poderiam perder a cabeça.
Mas isso era só um bônus. Mesmo que a situação nunca degenerasse em violência, não faria diferença no final. O que realmente importava era quando e como essas mensagens seriam postadas nos quadros de avisos.
Entrei em contato com a pessoa que escolhi para resolver esse problema por mim: o vice-presidente Kiriyama. Um aluno da Classe B do segundo ano, que trabalhava pela queda de Nagumo.
Quando terminei de conversar com Hiyori na biblioteca, encontrei Kiriyama no prédio da escola, em um horário em que já não havia muitas pessoas. Revelei todo o meu plano a ele. Minha estratégia para salvar Ichinose.
— Entendo. Então você está me pedindo para postar os boatos usando meu próprio celular? Eu não tenho absolutamente nada a ganhar com isso.
— Não é verdade. Você tem muito a ganhar atuando como meu intermediário nisso, vice-presidente Kiriyama. Veja, isso estabelece uma relação entre você e eu. Se eu continuasse esperando você agir, essa relação nunca avançaria.
De fato, Kiriyama ainda não tinha me pedido para fazer absolutamente nada desde que nos conhecemos.
— Isso é natural — ele disse. — Ainda tenho minhas dúvidas sobre suas habilidades.
— Entendo. E é exatamente por isso que, em vez de pensar nisso como um pedido de ajuda, quero que pense como eu lhe devendo um favor. No improvável caso de as coisas darem errado, isso tornará mais fácil para você depender de mim. Além disso, postar nos quadros de avisos não seria algo totalmente ruim para você, vice-presidente Kiriyama.
— Como assim?
— Ichinose Honami é uma adição valiosa ao conselho estudantil. Seria uma pena perdê-la. Se conseguirmos envolver a escola espalhando boatos nos quadros de avisos, isso ajudará a protegê-la.
— Mas, se eu postar esses boatos sobre os alunos do primeiro ano, as pessoas podem começar a questionar a credibilidade do conselho estudantil.
— E por que isso seria ruim?
— O quê…?
— Se o conselho estudantil perder credibilidade, quem mais sai prejudicado é o presidente Nagumo. Se você deseja a queda dele, acho que deveria acolher essa ideia de braços abertos.
— Isso é ridículo. Seria péssimo para mim se a escola descobrisse que fui eu quem postou os boatos. Não só eu seria punido, como existe a possibilidade de o Nagumo me destituir do cargo de vice-pres…
— Você é capaz de tomar medidas evasivas suficientes para evitar que isso aconteça, não é? Sinceramente… quero dizer, você está enfrentando o presidente Nagumo, não está? Ou talvez você não tenha o que é preciso para se opor a ele?
— O que um calouro como você poderia saber…?! — Kiriyama me lançou um olhar cheio de raiva.
— Segundo informações que obtive com a ex-presidente do conselho estudantil, o presidente Nagumo entrou em contato com Kushida.
— Como você… Horikita-senpai realmente confiou muito em você, pelo visto.
— Ela é uma das pessoas mais informadas de toda a nossa escola, independentemente do ano. Então é possível que toda essa situação possa ser explicada como uma estratégia do presidente Nagumo, em que ele teria vazado informações obtidas por meio dela através das postagens nos quadros de avisos. Você poderia facilmente apresentar um cenário inventado assim como se fosse o que realmente aconteceu.
Essa sequência imaginária de eventos começou a tomar forma lentamente. A ideia de que Kushida deu informações a Nagumo, que por sua vez instruíra Kiriyama a usá-las para salvar Ichinose.
— Você pensou tão à frente nisso antes mesmo de me contatar? — Kiriyama refletiu, provavelmente imaginando o que poderia acontecer se postasse esses boatos nos quadros de avisos. Mas, pelo rumo da conversa até agora, ele ainda não estava pronto para cooperar.
— Se você me disser "não" aqui, terei que concluir que isso significa que você cedeu ao Nagumo. Ou talvez… eu vá adiante e informe à ex-presidente do conselho estudantil que Nagumo já te conquistou para o seu lado?
O que eu disse poderia ser interpretado como uma ameaça, mas foi o fator decisivo para que Kiriyama aceitasse cooperar comigo.
— Então você fará isso por mim? — perguntei.
— Quando devo postá-los?
— Aqui e agora. Imediatamente.
Se eu desse a ele tempo para adiar, existia o risco de que ele postasse a mensagem usando o celular de outra pessoa. Não me incomodaria muito se isso acontecesse, é claro, mas queria eliminar qualquer chance, por menor que fosse, de meus planos darem errado mais tarde. Mais importante ainda, precisava considerar a possibilidade de Kiriyama vazar a informação para terceiros.
— Certo. Mas você vai me dever uma boa por isso.
— Muito obrigado.
Mostrei a Kiriyama a tela do meu celular, que exibia os boatos que eu havia preparado para cada classe. Em seguida, pedi que ele os escrevesse todos à mão. Depois de cerca de dez minutos, todo o processo foi concluído. Duvidava que os alunos percebessem as postagens de imediato, mas faria com que fossem o assunto do dia seguinte.
*
E assim, a base estava pronta. Tudo o que restava eram os retoques finais nos meus planos. Destruir o espírito de Ichinose Honami era o último item da minha lista de afazeres… já que eu sabia que Sakayanagi acabaria fazendo isso em breve de qualquer jeito.
O plano de Sakayanagi tinha dado certo com perfeição. Ichinose continuava ausente das aulas, mesmo depois de se acreditar que ela havia se recuperado da doença. Era 18 de fevereiro, o dia em que as Classes A e D entraram em conflito. Faziam cinco dias desde que ela havia ficado doente, e Ichinose ainda não voltara às aulas.
Eu tinha certeza de que ela havia se recuperado fisicamente, mas o mesmo talvez não se aplicasse às suas feridas emocionais. Sabendo que ela estava ausente novamente, decidi entrar em contato. Mas, se eu tentasse vê-la após a aula ou em um dia de folga, havia grandes chances de ser visto por alguém. Então, optei por visitá-la em uma tarde de dia de semana, quando quase todos os dormitórios estavam vazios.
Não a contatei por telefone antes. Não planejei dar uma saída para ela. Simplesmente apareci à sua porta e toquei a campainha.
— Oi, quero conversar um pouco com você. Pode sair? — perguntei.
Pouco depois, veio uma resposta de dentro do quarto.
— Sinto muito, Ayanokoji-kun. Peço desculpas por recusar sua visita, já que você se esforçou para vir me ver, mas poderia voltar mais tarde? — respondeu ela.
Pelo tom de voz, parecia que ainda estava desanimada. Mas parecia seguro presumir que já havia se recuperado completamente do resfriado.
— Essas cartas realmente foram tão importantes para você, Ichinose? — perguntei. Ela não respondeu.
Sentei-me encostando as costas na porta dela.
— Você vai voltar às aulas na segunda-feira? — perguntei.
— Desculpe. Não sei.
Parecia que ela estava disposta a responder perguntas que não tocassem no âmago da questão, por enquanto.
— Tenho algum tempo até o fim do intervalo para o almoço — disse. — Então acho que vou ficar aqui um pouco.
Fiquei ali, quieto, até o último minuto possível antes do intervalo terminar.
— Certo — disse. — Acho que vou voltar para a aula.
— Eu… só preciso de mais um pouco de tempo. Quando me sentir um pouco mais inteira, aí voltarei para a aula. Então, por favor, não venha mais aqui, ok…? — ouvi Ichinose dizer, com a voz tensa.
Voltei para a sala de aula.
*
O fim de semana tinha passado, e agora era dia 21. Era segunda‑feira, e as provas de fim de ano começariam na sexta, mas Ichinose continuava desaparecida. Kanzaki, Shibata e algumas outras garotas próximas a ela tentavam ligar, mandar mensagens e e-mails, fazendo tudo ao seu alcance para entrar em contato. Mas eu não os via indo até o quarto dela depois da aula — o que só podia significar que Ichinose lhes pedira para não irem mais, assim como pedira a mim.
No intervalo do almoço, deixei o prédio da escola e fui até o quarto de Ichinose. Bati levemente na porta e a chamei sem esperar resposta.
— Ouvi dizer que você vai faltar hoje também? — perguntei.
Era um movimento imprudente da minha parte. Ela tinha me dito para não voltar mais, e eu estava ignorando seu pedido.
Desta vez, Ichinose não disse nada do outro lado da porta. Eu também não disse mais nada. Apenas me sentei diante da porta até o último minuto possível, como tinha feito na semana anterior.
*
A mesma coisa aconteceu na terça-feira. Depois de confirmar que ela havia faltado mais uma vez, fui ao seu quarto. Não preciso repetir tudo.
Se eu fosse um de seus colegas de classe, ela provavelmente não conseguiria ficar verdadeiramente brava comigo. Mas eu não era. E, justamente por pertencer a outra classe, não seria um grande incômodo para mim caso Ichinose decidisse cortar todos os laços comigo. Esse era o principal motivo de eu estar agindo de forma tão insistente.
Não restava muito tempo até a prova de fim de ano. Se as coisas continuassem assim, era possível que Ichinose faltasse até no dia da prova. Bem, mesmo que ela aparecesse, os alunos da Classe B estavam passando por intenso sofrimento emocional. Era possível que suas notas fossem afetadas por esses problemas inesperados. Mesmo que ninguém acabasse expulso, isso ainda teria um grande impacto nos pontos da classe.
Ichinose precisava voltar à aula na quinta-feira, e os alunos da Classe B precisavam se sentir aliviados. A margem para que isso acontecesse terminaria no dia seguinte: quarta-feira.
*
O fim dessa margem chegou num piscar de olhos. Quando vi, já era quarta-feira. Eu segurava uma lata de café que havia comprado na loja de conveniência. Soltei um suspiro, minha respiração visível no ar frio.
Eu não ia pressionar Ichinose naquele dia, mesmo estando sem tempo. Porque era impossível que ela mesma não soubesse que aquele era o seu último dia. Ela certamente tomaria alguma atitude. Eu tinha certeza disso.
— Fevereiro já está quase no fim. Se conseguirmos passar pela prova especial do mês que vem, teremos oficialmente chegado ao segundo ano. Dizem que "depois de se salvar do afogamento, até esquece de rezar", mas eu me pergunto se isso é realmente verdade — falei, sozinho.
O Exame da Ilha Deserta. O Exame do Navio de Cruzeiro. O Embaralhamento de Provas. Vez após vez, fomos submetidos a exames absurdos.
— Quando estivermos no segundo ano, será que as provas especiais vão ficar ainda mais estranhas do que são agora? — acrescentei.
— Ei. Posso… te perguntar uma coisa meio estranha…? — disse Ichinose, em voz baixa, quase como se estivesse falando consigo mesma. Era a primeira vez em muito tempo que ela respondia.
— Claro. Se você está bem em falar comigo pela porta, pode perguntar o que quiser — respondi, receptivo. Mas ela não respondeu imediatamente.
— Por que você não me disse nada, Ayanokoji-kun? Não perguntou nada?
— Tipo o quê?
— Meus colegas de classe e meus amigos de outras turmas vieram tentar me convencer a voltar. Todos dizem que querem que eu fale sobre o que está me incomodando. Mas você… você vem aqui todo dia e nunca diz nada assim… Por quê?
Provavelmente ela não queria que eu me preocupasse com ela, assim como não queria que os outros se preocupassem. Ela não conseguia entender por que eu escapava da escola todos os dias e desperdiçava meu intervalo de almoço só para vir até aqui.
— Bem, isso é porque esses outros alunos estão realmente, realmente preocupados com você, Ichinose. A insistência deles para te convencer… isso é algo que eu jamais conseguiria fazer. Minha capacidade de me conectar com as pessoas é tão limitada que, se eu tentasse apelar às suas emoções com as minhas, duvido que te tocaria de verdade.
Ouvi passos suaves dentro do quarto. Tive a sensação de que ela estava sentada do outro lado da porta agora. Apenas a porta nos separava.
— Talvez eu esteja vindo aqui todos os dias porque estou esperando você simplesmente desabafar e me contar tudo — falei.
— Esperando eu… desabafar e te contar tudo?
Decidi, pela primeira vez, derrubar as paredes ao redor do coração de Ichinose.
— Eu sei qual foi o crime que você cometeu.
…!
— Bem… digo isso, mas não conheço os detalhes ou o contexto. Mas o fato de Sakayanagi ter cavado tão fundo nisso, e espalhado tanto a ponto de te fazer faltar às aulas… isso mostra o peso que isso tem para você, Ichinose. Mas acho que não adianta nada eu te dizer isso.
— Como… você sabe disso?
— Isso não é tão importante agora. Não pretendo me aprofundar mais nisso.
Se Ichinose não quisesse falar sobre o assunto, nossa conversa terminaria ali mesmo.
— Você provavelmente não é muito boa em se abrir com os outros sobre seus próprios problemas, Ichinose. Mesmo sendo capaz de salvar os outros, você não consegue se salvar. É esse tipo de pessoa que você é. É por isso que estou aqui agora.
Os sentimentos que eu queria transmitir tinham que chegar à Ichinose, aos poucos.
Houve um breve silêncio. É difícil querer soltar suas emoções, mas não ter ninguém para recebê-las. Eu tinha visto inúmeras crianças sofrerem do mesmo jeito na Sala Branca. Eventualmente, elas quebravam e desapareciam. Tornavam-se pessoas destruídas, sem esperança de recuperação.
— Eu sou a sua porta agora. Não consigo ver seu rosto e não posso estender a mão para te tocar. Sou apenas uma porta. Ninguém vai rir de você se revelar sua fraqueza para uma porta.
Ouvi um leve clique ao colocar a lata de café no chão.
— Então, o que você vai fazer, Ichinose? Este momento, aqui e agora, é o seu momento da verdade.
Todas as amigas de Ichinose Honami eram pessoas reservadas e gentis. Não era difícil imaginar que elas ofereceriam uma enxurrada de palavras reconfortantes para sua líder confiável. Mas isso não funcionaria. Poderia parecer o caminho certo para lidar com quem apoiava Ichinose, mas você não podia tratar essa situação como se fosse um problema a ser resolvido. Bastava aplicar pressão suficiente para fazê-la ceder.
— Mesmo alguém tão patético quanto eu… Eu realmente posso…?
— Quem tem o direito de te negar isso? — perguntei.
— Uma criminosa como eu… pode realmente ser perdoada…?
— Todos têm o direito de ser perdoados.
Eu havia batido na porta do coração dela. Agora só restava ver como Ichinose reagiria. Do outro lado da porta, Ichinose abriu lentamente a boca para falar.
— Eu… eu furtei uma coisa. E depois perdi meio ano de escola no terceiro ano do ensino fundamental, porque estava com tanta dor. Não conseguia falar com ninguém sobre isso. Só me culpava. Me trancava em um quarto pequeno, assim como estou fazendo agora…
Ichinose começou a falar, finalmente afastando as mãos da ferida em seu coração que tentava cobrir há tanto tempo. Falou sobre o que havia feito, sobre sua fraqueza, sobre como se recolhera e se escondia.
Falou sobre como contou essa história a Nagumo, e somente a ele. Sobre como Sakayanagi a abordara pedindo conselhos sobre uma colega e mencionou que havia um furto na escola. Ichinose percebeu então que não podia ser coincidência. Sabia que Sakayanagi provavelmente descobrira seu passado através de Nagumo. Sem espaço para mentir, tudo o que ela podia fazer era confessar.
Ichinose havia mantido uma aparência corajosa, incapaz de se permitir ser fraca. Você sabe o quão difícil e assustador é admitir seus próprios crimes? Muitos jovens imaturos já furtaram… não, cometeram algum tipo de "crime" pelo menos uma vez na vida. Mas se você dissesse isso para um grande grupo, provavelmente todos diriam algo como: "Eu nunca faria isso".
E isso era natural. Admitir crimes próprios é aterrorizante, assim como falar sobre eles em público. Nossa sociedade aplica punições severas em nome da justiça. Esse é o destino trágico de um criminoso. Por isso eles se escondem. Por isso nunca falam de seus crimes, enterrando-os profundamente dentro de si. Por isso tentam viver sob a aparência de pessoas boas.
Ichinose, dominada pela consciência pesada, passou meio ano completamente sozinha. E então, finalmente, foi libertada de suas algemas… não, quebrou-as. Mas a culpa a seguiria, não importando onde estivesse. Estaria com ela até o dia em que morresse.
Na verdade, a própria culpa estava em seu caminho naquele momento, atacando seu coração. Era por isso que ela não tinha escolha a não ser enfrentá-la.
Quando terminou de me contar toda a sua história, o intervalo do almoço já havia terminado, mas isso não importava. Mesmo com as aulas da tarde já começando, fiquei ali sentado, ouvindo tudo o que Ichinose tinha a dizer, sem tentar consolá-la ou repreendê-la.
Ichinose chorava baixinho do outro lado da porta, tentando conter as lágrimas. Eu não ofereci palavras de conforto, porque isso seria inútil naquele momento. Desde o início, estava claro quem era o verdadeiro oponente nessa batalha: ela mesma.
Tudo dependia de ela conseguir encerrar isso sozinha, aceitando o que tinha feito. Pouquíssimas pessoas são capazes de encarar seus crimes de forma honesta. Mas quando enfrentamos nossos próprios erros… podemos crescer e dar um passo à frente.
E essa foi a conversa que Ichinose e eu tivemos, antes que ela se abrisse completamente e contasse a seus amigos tudo o que estava passando. Tudo.
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