Ano 1 - Volume 9
Capítulo 4: O Segredo de Ichinose, o Segredo de Kamuro
HOJE ERA SEXTA-FEIRA. Quatro dias haviam se passado desde que Kanzaki entrara em contato com Hashimoto. Os rumores sobre Ichinose tinham se espalhado mais a cada dia, ao ponto de não ser exagero dizer que a escola inteira já os conhecia. No entanto, Ichinose ainda não havia reportado nada à escola. Ela parecia ignorar completamente os boatos, seguindo sua rotina como se nada tivesse mudado. Mantinha-se firme diante do assédio.
Algumas pessoas começaram a se manifestar em apoio a ela, dizendo coisas como "Rumores são só rumores, afinal". Mas tudo isso era cortina de fumaça. Nada além de mentiras.
Mas também rumores não duram para sempre.
O plano para difamar Ichinose tinha fracassado. Ela havia superado tudo mantendo o silêncio. Conforme mais e mais pessoas passavam a ver a situação dessa forma, suas atenções se voltaram para os estudos, afinal as provas finais de fim de ano se aproximavam.
Mas algo aconteceu durante esse período. Algo que reacendeu a fábrica de fofocas e espalhou um novo buchicho.
Quando voltei ao dormitório depois das aulas de sexta-feira, vi um grande grupo de pessoas reunido no saguão. Uma cena bastante familiar.
— Déjà vu, hein?
Por coincidência, Katsuragi estava exatamente no mesmo lugar da vez anterior. A diferença é que, desta vez, Yahiko estava ao seu lado. Como não havia mais ninguém por perto com quem eu pudesse falar, decidi me aproximar de Katsuragi.
— O que está acontecendo? — perguntei.
— Parece que colocaram uma carta nas caixas de correio. É parecido com o incidente anterior — murmurou Katsuragi, cruzando os braços em aparente desaprovação.
— Você também não recebeu uma? — disse Yahiko, olhando para mim com um leve aceno.
— Vou verificar.
Fui até minha caixa de correio, girei o disco do cadeado e examinei o conteúdo. Havia um pedaço de papel dobrado cuidadosamente em quatro, colocado lá dentro. Exatamente como antes.
Se fosse realmente o mesmo tipo de situação, deveria ser um papel impresso. Naturalmente, com tantas dobras, era difícil distinguir se era manuscrito ou não.
Abri o papel lentamente.
"Ichinose Honami é uma criminosa."
Era só isso. Mas, desta vez, o nome do remetente não estava incluído. O texto também estava digitado em uma fonte padrão, deixando tudo ainda mais simples. Como eu não conseguia imaginar alguém imprimindo isso na loja de conveniência, o remetente provavelmente usara uma impressora própria.
A frase imediatamente fazia lembrar os rumores que estavam começando a desaparecer. Mas a mensagem, agora, era diferente. Limitava-se a chamá-la de "criminosa". Nenhuma menção ao suposto crime.
— Imagino que Ichinose deve estar exasperada com esse tipo de brincadeira.
— Mas, falar algo assim tão descaradamente não vai gerar problemas? Quero dizer, fazer algo tão maldoso mais de uma vez. Isso vai dar confusão, não vai? — perguntou Yahiko.
— A situação é completamente diferente da anterior. A última carta apenas sugeria a possibilidade de que Ichinose tivesse acumulado pontos ilegalmente. Embora tenha sido determinado que ela não fez nada fraudulento, a escola reconheceu que ela realmente possuía muitos pontos e, por isso, fez um anúncio inédito confirmando sua legitimidade. Desta vez, porém, o conteúdo da carta é claramente feito para difamar Ichinose. Se reportarmos isso à escola e pedirmos providências, existe a possibilidade de identificarem o remetente.
— Caramba. Quem mandou isso é bem idiota, então.
— Bem, não sei se eu diria isso.
— Por quê?
— Acho que o culpado estaria ciente de algo tão simples.
— Hã…? Ei, você não saberia quem está espalhando esses rumores, saberia, Katsuragi-san?
— Não passa de um palpite.
Mesmo que Sakayanagi tivesse me contado seus planos com antecedência, ela negava publicamente sua participação. Era possível que Hashimoto estivesse agindo sozinho, ou sob ordens de alunos do segundo ou terceiro ano. Também era possível que outra pessoa completamente diferente fosse a responsável.
Mas Katsuragi dizia ter um palpite sobre a origem. Isso tornava Sakayanagi a candidata óbvia.
— Se a escola vai ou não agir dependerá da pessoa afetada: Ichinose.
Quem enviou essas cartas estava convencido de que Ichinose não reportaria nada à escola, assim como fez com os rumores anteriores. Estavam certos de que, independentemente do que acontecessem, ela permaneceria em silêncio. Se ela não tomasse nenhuma atitude, a escola também não poderia tomar.
Enquanto tudo isso acontecia, Ichinose chegou ao dormitório. Não — parecia que fora avisada pelos amigos da Classe B e correu para lá. Uma amiga entregou-lhe uma das cartas imediatamente, e ela começou a ler. Katsuragi, eu e mais dez estudantes observávamos.
…………
Ichinose não disse nada. Simplesmente ficou parada, olhando para o papel. Levava menos de um segundo para ler a frase impressa, mas ela ficou encarando aquelas palavras, relendo-as várias vezes, por dezenas de segundos.
— Isso estava nas caixas de correio?
— Sim… É horrível, não é? Provavelmente está na de todos os alunos do primeiro ano…
Uma das garotas da Classe B, Asakura Mako, aproximou-se de Ichinose e a abraçou.
— Ei, não precisamos mais suportar isso. Por que não conversamos com os professores? Isso é imperdoável.
— É mesmo! Se falarmos com os professores, com certeza eles descobrem quem fez isso!
Até agora, havia apenas rumores sem provas. Mas isso era diferente. Era uma evidência física — prova clara de que alguém estava atacando Ichinose com intenção maliciosa.
— Não se preocupem. Algo assim não me incomoda — disse Ichinose.
— M-Mas precisamos fazer alguma coisa! Se não fizermos, esses boatos horríveis sobre você vão continuar se espalhando, Honami-chan!
Não era surpresa que os colegas de Ichinose estivessem desesperados para convencê-la a agir. Mesmo que nove em cada dez pessoas ignorassem os rumores, bastava uma acreditar para que a reputação de Ichinose Honami começasse a se deteriorar.
Ichinose estava decidida a manter o silêncio, mas aqueles ao seu redor pensavam diferente. Todos buscavam uma forma de ajudá-la, de provar sua inocência e punir o culpado. No entanto, suas tentativas apenas a encurralariam ainda mais.
— Sinto muito, pessoal. Por fazer vocês se preocuparem comigo. Mas, de verdade, por favor, não deem importância a isso — disse Ichinose, sorrindo para as garotas da Classe B.
Não havia praticamente dúvida de que aquelas cartas tinham sido distribuídas no meio da noite, enquanto todos dormiam. Como ninguém costumava verificar a caixa de correio logo de manhã, elas só foram descobertas depois que os alunos voltaram ao dormitório, após as aulas. Depois disso, bastava esperar alguém encontrar a carta e avisar Ichinose.
Havia uma garota que observava atentamente as meninas agitadas da Classe B. Katsuragi olhava para ela com um brilho afiado nos olhos. Era Kamuro Masumi, da Classe A do primeiro ano. Geralmente estava ao lado de Sakayanagi, mas hoje parecia estar sozinha.
— Tem algo acontecendo com a Kamuro?
— Não… Não é nada.
Katsuragi não respondeu além disso. Ele jogou a carta no lixo próximo e apertou o botão do elevador. Seu rosto permaneceu rígido desde o momento em que chamou o elevador até o instante em que ele e Yahiko embarcaram, depois que a cabine desceu do primeiro andar. Observei o elevador subir novamente e decidi voltar ao meu quarto.
*
Meu quarto ficava no quarto andar do dormitório: quarto 401. Quando entrei no elevador, Kamuro entrou ao mesmo tempo.
— Qual andar? — perguntei, já que eu estava diante dos botões. Ela não respondeu. Ficou em silêncio até a porta se fechar. O elevador começou a subir, silencioso, até o quarto andar, onde eu desci. Kamuro saiu logo atrás, como se estivesse me seguindo.
Coincidência? Provavelmente ela estava indo encontrar algum garoto. Caminhei até minha porta e, um segundo depois, chamei Kamuro.
— Queria alguma coisa? — perguntei.
— Tenho algo para conversar com você.
— Teria preferido que tivesse dito isso antes.
— O quê, você tem planos?
— Não. Há algum problema se conversarmos aqui mesmo? — perguntei.
— Eu pego resfriado muito fácil. Se não se importar, pode me convidar para entrar? — ela pediu.
Se não se importar… mas aquilo soava quase como uma ameaça.
— Tudo bem, eu não me importo… — respondi, destrancando a porta e entrando.
Kamuro percorreu o quarto com os olhos, sem alterar a expressão.
— Que quarto mais simples.
— Essa é a primeira coisa que você diz depois de praticamente forçar a entrada no meu quarto? — falei.
— Forçar? Você me deu permissão para entrar, não deu? — respondeu Kamuro, sentando na minha cama.
— Bem, foi a forma como você conseguiu essa permissão… Deixa pra lá. O que foi?
— Me traz algo para beber. Vai ser uma longa conversa.
Uau. Que folgada.
— Certo. Vou preparar um chá ou café.
— Você não tem chocolate quente? — pediu ela, inesperadamente.
— Tenho. Tudo bem, chocolate quente então.
Puxei o assunto enquanto preparava a bebida.
— Então, sobre o que queria falar? Se está preocupada com o frio, poderíamos ter conversado no saguão — que estava aquecido.
— Lá, alguém poderia nos incomodar. Aqui é o melhor lugar.
— E então? — insisti. Para ser honesto, eu não estava interessado e não queria ouvir aquilo.
— Está na defensiva agora?
— Seria estranho se eu não estivesse. Uma garota com quem não tenho intimidade — que, além disso, é uma estudante inimiga da Classe A — entrou no meu quarto.
— Nossa, você é bem diferente do Yamauchi — disse Kamuro, ainda me encarando, como se me testasse. — Não está curioso?
— Nem um pouco.
— Ok. Então não toco mais nesse assunto. Tanto faz. Não importa.
Era possível que Kamuro estivesse armando algum truque, como gravar nossa conversa com o celular ou algo assim, mas também era verdade que sua posição era única. Já que Sakayanagi sabia sobre mim, Kamuro não precisava medir tanto as palavras. Sakayanagi poderia me atacar a qualquer momento, se julgasse necessário. O motivo de ela não fazer isso agora era simplesmente para não chamar atenção para mim.
— Sobre aquela carta, a da Ichinose — disse Kamuro. — O que você acha?
— O que eu acho… o quê?
— Exatamente isso. Você acredita que ela é uma criminosa, como dizia a carta?

— Quem sabe? Não estou interessado nisso.
— Mesmo não estando interessado, você deve ter alguma opinião. Você acha que Ichinose é uma boa pessoa ou uma pessoa ruim? — perguntou.
— Você não pode dizer que alguém é ruim só porque é um criminoso, nem que é bom só porque não é. "Bom" e "ruim" são conceitos abstratos. A definição muda conforme a perspectiva, a posição e os relacionamentos.
………
Kamuro me encarou, totalmente desanimada com minha resposta. Não queria deixar a conversa seguir por esse rumo. Provavelmente, eu não conseguiria evitar entrar no ponto central por muito mais tempo.
— Acho que isso está ligado aos rumores que alguém anda espalhando — falei.
— Suponho que sim. Ouvi falar desses rumores que estão circulando.
— Isso é só conjectura da minha parte, mas acho que um ou mais desses rumores podem ser verdade… ou pelo menos ter alguma base real. E é exatamente por isso que Ichinose não está revidando contra os rumores nem contra a carta. Porque, se ela reagir, a verdade que ela vem escondendo pode acabar exposta — argumentei.
— Então ela acha que, se continuar ignorando tudo, os rumores vão acabar não passando de suspeitas.
— É. Mas isso não resolve o problema. No fim das contas, se a pessoa que está espalhando os rumores souber a verdade e continuar insistindo, ela pode ir deixando esses rumores cada vez mais específicos, sem precisar dizer diretamente o que aconteceu. E, quando isso acontecer, existe uma grande chance de Ichinose não conseguir esconder mais nada.
A água ferveu, e eu a despejei numa xícara. Depois, coloquei a caneca de cacau sobre a mesa. Kamuro não foi beber imediatamente.
— Não vai beber? — perguntei.
— Tenho a língua sensível.
Fiquei me perguntando se isso era verdade.
— É exatamente como você imaginou. Agora, Ichinose está sendo alvo de um estudante que sabe a verdade que ela quer manter escondida.
— E como você sabe disso? — perguntei.
— Você sabe por quê. Sakayanagi disse isso bem na sua frente, afinal.
Eu me lembrava, claro. Porém, Kamuro não tinha motivo algum para me dizer isso pessoalmente. Será que aquilo também fazia parte das estratégias da Sakayanagi?
— Para sua informação, Sakayanagi não sabe que estou aqui falando com você. Ela provavelmente ficaria furiosa se soubesse.
— Então isso significa que você está traindo a Sakayanagi?
— Sim, significa.
— Desculpa, mas eu não consigo acreditar nisso.
— Imaginei. Então vou te contar a verdade que a Ichinose está escondendo. Além disso, tenho certeza de que amanhã ou depois todos já saberão mesmo.
Então isso significa que ela realmente podia provar o que estava dizendo.
— Mas, antes de eu te contar isso, tem outra coisa. Sobre o motivo de eu ser manipulada pela Sakayanagi. Isso é algo que eu preciso te contar.
— Sua história pessoal?
— Eu sei que você não tem interesse, mas apenas escute.
Se não importava se eu estava interessado ou não… se tudo o que eu precisava fazer era ouvir, então eu apenas ouviria. Se não fizesse isso, provavelmente ela não iria embora.
*
A sakayanagi tinha entrado em contato comigo uma semana depois da cerimônia de entrada. Eu tinha parado numa lojinha de conveniência, no caminho de volta para o dormitório, e ao sair da loja, depois de resolver o que precisava, uma das minhas colegas de classe me chamou.
— Por favor, espere um momento.
Parei no mesmo instante.
— O que você quer?
— Bem, ainda não faz muito tempo desde que começamos as aulas aqui. Eu estava pensando que gostaria de conversar um pouco com você, Kamuro-san.
— Você lembra meu nome, hein?
— Fiz questão de memorizar os nomes e os rostos dos meus colegas — respondeu a garota enquanto se aproximava. Ela andava devagar. A bengala que segurava deixava claro que suas pernas não estavam em boas condições.
Se eu lembrava direito, o nome dela era… Sakayanagi Arisu, acho. Sua deficiência física fazia com que ela se destacasse. Eu não fazia muito esforço para memorizar os nomes dos meus colegas, mas, por algum motivo, o dela ficou gravado na minha mente.
— Você se importa de caminharmos juntas até o dormitório? — perguntou.
Eu deveria ter recusado — mas não recusei. Não era porque as pernas dela eram ruins. Havia algo naquele clima, naquele momento, que tornava difícil dizer não.
— Claro, se quiser.
— Muito obrigada — Sakayanagi sorriu, feliz. Ela acelerou um pouco o passo para acompanhar o meu, andando ao meu lado.
— Não vou te ajudar se você forçar demais e acabar caindo — avisei.
— Não se preocupe. Minha bengala e eu somos velhas conhecidas. Estamos juntas há muito tempo.
Ela dizia isso, mas… ainda assim se movia bem devagar. Soltei um suspiro pesado de propósito. Mas isso não pareceu incomodar Sakayanagi nem um pouco. Ela podia parecer frágil à primeira vista, mas por dentro, era claramente bem ousada.
— Aliás… o que você estava fazendo na loja de conveniência, mais cedo? — perguntou.
— O que quer dizer?
— Não parece que você tenha comprado nada.
— E daí? Não tinha nada que eu quisesse.
Tentei encerrar ali mesmo a conversa, mas Sakayanagi segurou meu braço.
— Você furtou alguma coisa, não foi? — disse, encarando-me diretamente. Seus olhos brilhavam, como se tivesse encontrado um novo brinquedo. — Estou supondo que você já tenha analisado o lugar várias vezes, então sabia a posição das câmeras. Foi sua primeira vez furtando desde que entrou na escola? Quantas vezes você já fez isso antes?
— Você tem tanta certeza assim de que eu roubei alguma coisa?
— Tenho, sim. Parece que você não está me levando muito a sério, mas estou bastante confiante de que roubou. Se eu não tivesse certeza, não teria perguntado.
— Você tem razão. — Ela tinha me abordado justamente porque tinha visto o que fiz. — Então, mesmo que eu tenha roubado alguma coisa… e daí? Vai me dedurar pra escola?
— Hm, vejamos. Embora fosse fácil relatar esse incidente, por favor, escute o que tenho a dizer primeiro.
— Hã?
Sakayanagi continuou, ignorando meu olhar irritado:
— Sua execução foi impecável. O que mais me surpreendeu, porém, foi o quão calma e composta você estava. A maioria das pessoas compraria algo barato, como um chiclete ou uma bala, só para aliviar a culpa. Você não fez nada disso — e tenho a sensação de que nunca fez. Mais uma prova de que furtar já virou uma espécie de rotina pra você.
Ela tinha acertado em cheio. Só de me ver fazer isso uma vez, conseguiu deduzir que eu já tinha feito muitas outras antes. Mas e daí? Qual o problema? Eu não tinha a menor intenção de prolongar aquela conversa. Por mais habilidosa que tivesse sido minha execução, o fato era que ela tinha me visto.
— Faça o que quiser — respondi.
Enfiei a mão na bolsa e tirei a lata de cerveja que eu havia roubado na loja de conveniência. Pessoas com menos de vinte anos não podiam comprar bebida alcoólica. As lojas só vendiam para professores e outros funcionários que moravam no campus.
— Anda logo e denuncie de uma vez — acrescentei.

O que Sakayanagi disse em seguida, porém, não tinha absolutamente nada a ver com o que estávamos discutindo.
— Você costuma beber álcool? — perguntou ela.
— Hã? …Não. Não tenho muito interesse em bebida.
— Então o furto não é algo que você faz para facilitar sua vida cotidiana. Na verdade, você faz isso pela adrenalina, certo? — disse Sakayanagi, analisando a situação. — Pelo sentimento de culpa?
— Tá bom, já entendi, você enxerga através de mim. Então por que não vai logo e me entrega para a escola? — retruquei.
— Tem certeza de que é isso que você quer? Se a escola descobrir que você furtou, é bem provável que seja suspensa, não acha?
— E daí?
— Só se passou uma semana desde que começamos as aulas. Ainda há tantas coisas, divertidas ou não, pelas quais esperar, não é?
— Se você não vai avisar a escola, eu mesma aviso. — Peguei o celular, mas ela segurou minha mão.
— Eu gosto bastante de você, Kamuro Masumi-san. Você vai ser a minha primeira amiga — disse Sakayanagi, me incentivando a guardar o telefone.
— Do que você está falando?
— Em troca de manter seu segredo, gostaria que você me ajudasse com algumas coisinhas, por favor.
— Isso não é o que eu chamaria de amizade.
— Ah, não?
— Além disso, acha mesmo que vou simplesmente obedecer ao que você disser?
— É verdade que, mesmo que eu denunciasse você, a punição da escola provavelmente seria leve. Mas o fato de que você, Kamuro Masumi, é uma ladra de lojas ficaria conhecido por todos. E isso tornaria difícil para você furtar de novo, não? — disse calmamente.
— Está dizendo que não vai ignorar o que eu fiz agora, mas também não liga se eu fizer de novo?
— O que você fizer é completamente problema seu. Eu não vou interferir nas suas ações. Além disso, mesmo que eu tentasse apelar para sua moral, dizendo que cometer crimes é errado, minhas palavras não teriam qualquer efeito duradouro. Estou enganada?
— Bem, isso…
— De qualquer forma… acho que, se você ficar ao meu lado, sua vida vai estar longe de ser tediosa. Talvez eu consiga aliviar essa coceira que, por enquanto, só o furto consegue satisfazer, hm?
Esse foi meu primeiro encontro com Sakayanagi Arisu.
*
— Ah, cara, estou exausta. Faz tempo que não falo tanto assim.
Tendo terminado sua história, Kamuro me encarou com o mesmo olhar que mantivera desde o início da conversa.
— Então, basicamente, eu sou uma ladra contumaz.
— Até recentemente?
— A Sakayanagi tem me feito trabalhar até os ossos. Não tive tempo pra furtar.
Apesar de dizer isso, Kamuro não parecia totalmente insatisfeita. Provavelmente, jamais havia sido necessária para alguém antes, o que contribuiu para a escuridão que guardava no coração. O fato de Sakayanagi agora depender dela a impedia de continuar cometendo crimes.
Se fosse isso mesmo, Sakayanagi a estava usando muito bem. Se Kamuro continuasse furtando, cedo ou tarde seria pega. Fora do campus, talvez conseguisse passar despercebida, mas ali, com território tão limitado, qualquer inventário inconsistente acabaria levando à verdade. E, se isso acontecesse, a Classe A sofreria danos significativos.
— A Sakayanagi disse algo no acampamento escolar sobre você e a Ichinose compartilharem o mesmo segredo — comentei. Ou seja, se eu supusesse que Kamuro estava falando a verdade, significava que Ichinose também tinha um histórico de furtos.
— Exatamente.
— Então o que você espera conseguir me contando a verdade sobre o seu passado? — perguntei. Dependendo das circunstâncias, eu poderia usar isso para investigar mais fundo. E, se isso acontecesse, Kamuro seria a única a sair perdendo.
— Não é como se eu gostasse da Sakayanagi ou da Ichinose ou algo assim. É só que… bem, a verdade sobre a Ichinose furtar foi um choque pra mim, sinceramente. Ela é tão popular. A pessoa pensaria que ela é satisfeita com tudo o que tem, mas ela é igual a mim — disse Kamuro, soltando uma risada autodepreciativa. — Pare a Sakayanagi. Você consegue, não consegue?
— Em outras palavras, está me pedindo para salvar a Ichinose?
— Sim. Se as coisas continuarem assim, a Ichinose vai ser destruída. E não fisicamente — disse Kamuro —, mas por dentro. No coração.
— Entendi.
Era difícil verificar a veracidade da história de Kamuro. Um lojista poderia detectar discrepâncias monetárias ou itens faltando ao analisar o inventário, mas isso não revelaria a causa das perdas. Poderia ser erro de um funcionário.
Kamuro disse que furtou quando chegou à escola, mas obviamente não roubou sempre as mesmas coisas. Eu não podia simplesmente pedir ao mercado para mostrar as gravações das câmeras. A única alternativa seria revelar à escola e aos funcionários que Kamuro era uma ladra, mas, independentemente da verdade de sua história, isso representaria um risco enorme para mim.
Mesmo que tudo fosse verdadeiro, não havia motivo para aceitar suas palavras sem reservas. Embora fosse provável que estivesse mesmo insatisfeita com Sakayanagi, isso ainda não justificava procurar justamente a mim, alguém que ela mal conhecia.
Então qual era o propósito disso tudo?
Realisticamente, eu devia considerar a possibilidade de que tudo isso estivesse sendo orquestrado por Sakayanagi. Talvez estivesse usando Ichinose para me empurrar para um confronto direto.
— Acha que eu estou mentindo? — perguntou Kamuro, quebrando o silêncio depois de minha longa reflexão.
— Para ser honesto, não há garantia de que o que disse é verdade — respondi.
Claro que, pelo que ouvira, concluí que quase certamente era verdadeiro. Ainda assim, sua ligação com Sakayanagi me deixava cauteloso em admitir isso.
— Entendo. Nesse caso, que tal eu provar? — disse ela.
— Consegue provar?
— Provavelmente. — Kamuro tirou sua identificação de estudante e me entregou. — Certo. Espere por mim, e não trave a porta.
Com isso, ela deixou o quarto. Espere aí… será que ela realmente estava planejando furtar algo agora para provar que era uma ladra?
Observei sem pressa sua identificação enquanto aguardava. Cerca de dez minutos depois, ela voltou. Tirou algo debaixo da roupa e me mostrou.
— Ei, ei…
Pelo visto, eu havia adivinhado corretamente.
— Pensei em pegar um chiclete ou algo assim, mas achei que uma cerveja tornaria minha história mais convincente — disse Kamuro.
Fazia sentido. Qualquer um podia comprar chiclete. Ela poderia ter comprado antes e fingido que havia roubado. Álcool era diferente. Mesmo que pegasse emprestado o ID de outro aluno, não conseguiria comprar bebidas. Produtos com restrição de idade eram impossíveis para estudantes adquirirem.
Além disso, era extremamente improvável que um professor ou funcionário do campus tivesse comprado para ela.
Não havia dúvida: aquilo era mercadoria furtada. Ela tinha feito isso para conquistar minha confiança?
— Entendeu agora? — Kamuro começou a guardar a lata, mas eu estendi a mão.
— Só por garantia. Quero verificar se é de verdade. Vai que é falsa.
— Idiota. Acha mesmo que eu poderia falsificar isso?
Kamuro hesitou por um instante, mas acabou me entregando a lata. Estava gelada — provavelmente vinda diretamente da loja. Examinei-a lentamente, virando-a com cuidado. Era uma bebida alcoólica legítima.
— Se você quiser mesmo, pode ficar com ela, sabia?
— Tô fora. — Se algo assim fosse encontrado no meu quarto, eu estaria ferrado.
— É, suponho que sim — disse ela, pegando a lata de volta. Bateu levemente nela e começou a jogá-la para cima e pegar novamente, repetidas vezes. — Então, enfim… acredita em mim?
— Você me mostrou algo real. Não tem como eu não acreditar agora.
— Fico feliz em ouvir isso.
— Então por que eu? — perguntei.
— Você é a única pessoa dessa escola a quem eu posso recorrer. Isso você deve saber — respondeu Kamuro.
Peguei a xícara de chocolate quente que havia preparado para ela, já certo de que não beberia. Passaram-se dez minutos sem que desse sequer um gole, e a bebida já estava fria.
— Eu não tenho nada a ganhar com isso — disse a ela.
— Provavelmente não — respondeu Kamuro. Ela se levantou, aparentemente satisfeita. — Estou ansiosa para ver como isso vai acabar.
Como se quisesse encerrar a conversa de vez, ela começou a sair do quarto.
— Espera um segundo.
— O quê?
— Você esqueceu sua carteirinha de estudante.
Kamuro a pegou com a mão livre — a outra ainda segurando a lata de cerveja — e saiu. Levando tudo em conta, aquilo levantava algumas questões bem incômodas para mim. Ignorar tudo o que estava acontecendo com Ichinose ainda era a melhor escolha?
— Bom… acho que não tenho como saber isso com certeza — murmurei em voz alta.
Na verdade, talvez fosse melhor aproveitar essa oportunidade. Peguei minha carteirinha e meu celular, saí do quarto e fui em direção à loja de conveniência. No caminho, recebi uma ligação do irmão da Horikita. Achei que finalmente teria um momento de descanso agora que minha visita tinha ido embora, mas…
Bem, era uma ligação de alguém inesperado. Duvidava muito que ele estivesse ligando só para conversar.
— Há algumas coisas de que eu gostaria de falar — disse Horikita quando atendi.
— É urgente? — perguntei.
— Dependendo do que acontecer, pode ser tarde demais. É sobre minha irmã.
— Sobre a sua irmã?
Isso também era inesperado. Horikita só falaria sobre ela se fosse algo realmente sério.
— Kushida Kikyou entrou em contato com Nagumo Miyabi.
— Hã? — Fiquei surpreso, mas também impressionado com a rapidez com que a notícia tinha chegado até ele. — E eu achando que você estava cercado de inimigos por todos os lados. Parece que conseguiu uma boa informação. Quem te contou?
— Kiriyama. Está claro, depois do que aconteceu no acampamento, que minha relação com Nagumo se desgastou demais. Tenho quase certeza de que ele vai agir em breve. Não tenho escolha a não ser me mover primeiro — disse Horikita.
Vice-presidente Kiriyama, hein. Enquanto eu pensava em silêncio, Horikita continuou:
— Você não confia nada nele, não é?
— É que eu não conheço Kiriyama tão bem quanto você — respondi.
— Tudo bem. Você sempre prefere pecar pelo excesso de cautela.
Como presidente do conselho estudantil, Horikita tratava os outros com um certo grau de confiança — fosse Kiriyama ou Nagumo. Mesmo que tivesse suspeitas, só tirava conclusões depois de uma traição concreta. Eu jamais seria capaz disso.
— Então, o que houve?
— Ela pediu ajuda ao Nagumo para expulsar a Suzune. Algo bem ousado.
— Vejo que ela está agindo sem se importar nem um pouco com aparências ou consequências.
Depois de perder a aposta para Horikita, Kushida havia dito que não interferiria mais. Isso provava que nunca teve intenção de cumprir a promessa. Já tentara usar Ryuen antes, e agora buscava Nagumo. Considerando que ela viu o que Nagumo fez no acampamento, isso nem era tão surpreendente.
Claro que ela tinha noção do que isso significava. Cada vez que pressionava Horikita, encurralava a si mesma também. Mas, como dizem, sem dor não há ganho. Era possível sentir a determinação dela.
Para ser honesto, embora talvez tivesse sido cedo demais para procurar Ryuen, não era má ideia se aproximar de Nagumo. Trabalhar com um veterano um ano acima significava que, quando ele se formasse, não haveria ninguém por perto que soubesse dos detalhes… mas isso só valia se Nagumo fosse alguém confiável.
— Imagino que Nagumo, ou alguém próximo a ele, vá atacar Suzune em breve — disse Horikita.
— E o que você quer que eu faça? Proteger sua irmãzinha? — perguntei.
— Se ela acabar expulsa, será culpa dela. No entanto, Kushida também mencionou você como alguém que a atrapalhou.
— Entendo…
Nagumo talvez não tivesse interesse em mim, mas se meu nome continuasse surgindo nessas conversas, ele acabaria lembrando — querendo ou não. Se eu não fizesse algo para cortar essa ligação logo, os problemas só iriam se acumular.
— Existe a possibilidade de Nagumo e Hashimoto estarem em contato? — perguntei.
— Por que está perguntando isso?
— Achei que tivesse percebido uma leve mudança no comportamento do Hashimoto entre o início e o fim do acampamento escolar. Não tinha certeza do que estava vendo, mas quando o encontrei outro dia, tive certeza de que não era impressão minha. Suspeito que alguém tenha dito algo sobre mim ao Hashimoto durante o acampamento — respondi.
O número de alunos que tinham reparado em mim e que poderiam passar essa informação ao Hashimoto era extremamente limitado.
— É exatamente como você suspeitava. Nagumo alertou Hashimoto sobre você durante o acampamento. Dito isso, Hashimoto provavelmente ainda não chegou à conclusão de que você é o aluno manipulando a Suzune.
— Entendo.
Ou seja, ele estava farejando ao redor para tentar confirmar a verdade por conta própria.
— Eu não achei que precisaria perguntar isso diretamente, mas… você está incomodado?
— Não. Mesmo que tivesse me contado antes, isso não mudaria a situação atual — respondi.
Horikita murmurou um "Suponho que sim" em retorno.
Eu não me importava se um aluno da facção da Sakayanagi desconfiava de mim. Por mais que investigassem, enquanto eu não fizesse nada, não encontrariam prova alguma. E mesmo que elaborassem algum plano, no momento em que o compartilhassem com Sakayanagi, aquilo terminaria ali. Nesse sentido, ela era mais fácil de lidar do que Ryuen ou Nagumo.
Claro, Nagumo era o centro de tudo isso. O que significava que apenas ficar observando poderia me causar problemas mais tarde.
— Eu te passei a informação. O que você fará com ela é decisão sua — disse Horikita.
— Suponho que sim.
A ligação foi encerrada. Numa escola como esta, informações como as que o irmão da Horikita acabara de me passar eram úteis de várias maneiras. Não passava um dia sem que alguém tentasse armar alguma coisa contra outra pessoa, o que tornava o irmão dela uma fonte valiosa. Embora ele não fosse tão habilidoso quanto Nagumo, nem tivesse uma rede tão ampla, era muito mais preciso e confiável.
De qualquer forma, parecia que as primeiras faíscas já estavam começando a voar. Eu provavelmente teria que agir rápido se quisesse impedir que isso virasse um incêndio de verdade.
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